quarta-feira, 30 de julho de 2014

O espectáculo não vai continuar


Nesta era em que o inglês domina como língua universal, muitos se esquecem de que a França continua a ser um grande produtor de cultura a não desprezar. Um desses reflexos é a existência de várias revistas de qualidade que escapam à ditadura cultural de esquerda. O exemplo máximo dessas publicações era “Le Spectacle du Monde”, uma revista mensal que também se vendia em Portugal, que se distinguia tanto pela forma cuidada como pelo conteúdo elevado e que contava com a colaboração de vários nomes sonantes, como François d’Orcival, Éric Zemmour, Patrice de Plunkett, entre outros.

Fundada em 1962 por Raymond Bourgine, jornalista e empresário da direita liberal não gaullista e favorável à manutenção da presença francesa na Argélia, tornou-se um ponto de encontro entre a direita patriótica e democracia cristã centrista. Vista pelos seus detractores como “reaccionária”, conseguiu juntar colaboradores de todo o espectro da direita. Bourgine quis fazer da sua revista uma “enciclopédia do mundo contemporâneo” e conseguiu-o. Mesmo depois da morte do seu fundador, em 1990, “Le Spectacle du Monde” manteve o mesmo espírito e qualidade.

Agora, depois de mais de meio século de vida, não será mais publicada. As razões apontadas pelo grupo editorial a que pertencia são as vendas insuficientes: os cerca de 30 mil exemplares vendidos por edição não chegam para garantir a rentabilidade do título. Mas, para além desta justificação, o Observatório dos Jornalistas e da Informação Mediática francês afirma também que a participação de figuras da chamada “Nova Direita”, como Alain de Benoist ou Michel Marmin, já não se adequava com a orientação do grupo, liberal e pró-Sarkozy.

Caiu o pano que anunciou o fim da melhor revista intelectual para o grande público da direita francesa. Este é um espectáculo que não vai continuar. Perdeu-se uma referência da direita e sem ela perdem a cultura francesa e europeia.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Utopia


«Deixei de acreditar nas utopias. Ou este mundo é uma espécie de incubadora na qual somos preparados para nascer para uma outra realidade melhor ou pior, ou não é. Em todo caso, o planeta parece observar uma temperatura média de estupidez, tirania, intemperança e preguiça; e isto produz uma espécie de alegria parcial e convulsiva em quem gosta. E parecia que este estado de coisas subsiste devido a certo equilíbrio de temperamentos. É provável que uma utopia só seja satisfatória para a minoria mais enérgica da espécie.»

Ezra Pound
in "Patria Mia".

domingo, 27 de julho de 2014

Outros tempos


Fachada do Liceu Rainha Dona Leonor, em Lisboa.

Para um Amigo que partiu.

Hoje lembrei-me dos tempos do liceu por tua causa e pelo pior dos motivos. O tempo e a distância não esbateram a amizade, assim o confirmámos graças à Internet. Mas o passado de todos é também de cada um e ganha cores próprias, umas bastante negras. Porque esses tempos foram os das certezas absolutas, mas também das asneiras monumentais; dos amigos sinceros, mas também da crueldade implacável da adolescência; do ritmo sempre apressado nos dias que pareciam não acabar. Até que tudo se inverteu, naquela que é talvez a maior partida que a vida nos prega, mas as recordações ficaram.

Estava convicto de que o nosso "bando dos quatro" se reencontraria num futuro não muito longínquo, em Alvalade, claro, no nosso bairro. Tal como num romance de guerra, onde velhos camaradas de armas se cruzam para um último copo. Mas não era mais que a minha imaginação turvada pelos livros e filmes que me acompanharam sempre. A realidade é mesmo diferente e pode ser decidida por nós. Não quiseste voltar. Nunca quiseste voltar ao sítio onde ficaste para sempre preso no tempo. Talvez por isso a partida fosse inevitável...

Numa das nossas últimas conversas, disseste-me: "Sempre achei que tínhamos algo essencial em comum: o prazer por saber e brincar com isso, e um sentido de humor em que valia realmente tudo - a rir, claro." Tínhamos.

Até sempre!


segunda-feira, 21 de julho de 2014

História no Brasil

A contrastar com as revistas brasileiras medíocres que se vendem em Portugal, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” é uma publicação de qualidade que se dedica à divulgação histórica, mas que não está disponível nas bancas portuguesas. As nossas distribuidoras bem deviam rever o que importam do outro lado do Atlântico.

Centrada na História do Brasil, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” destaca-se das demais publicações brasileiras por não recorrer a traduções ou a modelos importados e por ter entre os redactores vários historiadores responsáveis pela investigação dos temas tratados.

Bem paginada com uma composição gráfica apelativa, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” conjuga os conteúdos com a boa apresentação, oferecendo aos leitores artigos acessíveis ao grande público.

A edição de Junho deste ano tem como tema central a obsessão da república brasileira pelos grandes eventos e faz a pergunta incómoda: “Quem paga a conta?” Na apresentação deste ‘dossier’, Bruno Garcia refere-se à realização do Campeonato do Mundo de Futebol no Brasil, afirmando que a “Copa mais cara do mundo reforça experiência brasileira de sediar grandes eventos para favorecer poucos”.

De seguida podemos ler o artigo do investigador português do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa José Pedro Zúquete sobre os “black blocs”, os elementos da esquerda radical que utilizam uma táctica descentralizada e sem hierarquia para protestar violentamente contra o capitalismo e a globalização corporativa.

Destaque para o artigo sobre Georgina de Albuquerque, uma das precursoras brasileiras da pintura impressionista, e o artigo sobre a tradução da poesia clássica, grega e latina, no Brasil, nomeadamente o papel do patriarca da tradução criativa, Manuel Odorico Mendes, que inspirou Haroldo de Campos. De referir ainda os artigos sobre a relação entre o poder político brasileiro e o futebol, de entre muitos outros, para além das secções habituais. Por fim, para os interessados, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” disponibiliza muitos dos seus artigos na Internet.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Eternas saudades do futuro

Música, 2014.
Impressão a jacto de tinta sobre papel fotográfico | 70 x 86 cm | Edição: 3

Há dois anos, o regresso de João Marchante, com a excelente exposição “Foto-Síntese”, confirmou-o como um dos grandes talentos da fotografia contemporânea em Portugal. Agora, com “Educação Sentimental”, volta a surpreender numa viagem fotográfica por um passado que se torna futuro.

As doze peças que se adaptam perfeitamente ao espaço onde estão expostas são um tesouro revelado. Como se de uma adega particular se tratasse, João Marchante guardou vários trabalhos em Polaroid, que correspondem a várias épocas da vida e a diversas fases artísticas, para uma ocasião especial. A data das fotografias – 2014 – é, assim, a de quando atingiram a sua forma final e deleitam a vista, estimulando o nosso imaginário, como um vinho antigo, depois de abrir, aveluda as nossas papilas gustativas e aquece o espírito.

Não há neste conjunto uma colagem de imagens avulsas, mas uma unidade que se constrói num movimento que termina num recomeço anunciado. Há uma descida às profundidades do nosso íntimo – uma reviravolta interior. Da arquitectura nos planos elevados, passamos para o mar, para a terra e depois para a intimidade da casa, da mente, e, por fim, da imaginação do cinema, onde podemos sempre partir para mais um ‘take’.

O elo de ligação é o feminino, a mulher distante de quem nos aproximamos e pensamos conseguir domar. Uma ilusão tão bem expressa em “Pintura”, fotografia de tons lynchianos que nos transporta para um labiríntico jogo de espelhos. Nesta “educação” há uma sensação permanente do intangível, de que não é possível atingir o fim – ou, melhor, os fins.

Mesmo que haja nesta “Educação Sentimental” um ruir de ilusões românticas, como no romance homónimo de Flaubert, há a confortante promessa de um retorno, o que provoca umas eternas saudades do futuro.

A exposição, que inaugurou no passado dia 3 de Julho e estará patente até ao dia 27 de Julho, pode ser visitada na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, de terça a sexta-feira, das 10 horas às 17 horas, e aos sábados e domingos, das 11 horas às 18 horas, encerrando à segunda-feira e nos feriados.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Médien Zéro dedica emissão a Dominique de Roux


Hoje, às 20 horas portuguesas, será transmitido mais um programa do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, que será dedicado a Dominique de Roux, cuja vida de aventura entre a literatura e a política está ligada a Portugal, com a presença de 
Pierre-Guillaume de Roux, editor e filho do escritor, e Julien Meynaut.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Arrenda-se


A notícia de que dá que conta que, a partir de 1 de Julho, 23 monumentos históricos, entre os quais o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, podem ser arrendados para jantares, cocktails, eventos culturais, sociais e académicos, filmagens para televisão, cinema ou publicidade, merece-me a seguinte interrogação: Porque não arrendaram primeiro o Palácio de S. Bento e o Palácio de Belém para testar a medida?

domingo, 29 de junho de 2014

"Their country - the sea"


«He was a seaman, but he was a wanderer, too, while most seamen lead, if one may so express it, a sedentary life. Their minds are of the stay-at-home order, and their home is always with them -- the ship; and so is their country -- the sea. One ship is very much like another, and the sea is always the same. In the immutability of their surroundings the foreign shores, the foreign faces, the changing immensity of life, glide past, veiled not by a sense of mystery but by a slightly disdainful ignorance; for there is nothing mysterious to a seaman unless it be the sea itself, which is the mistress of his existence and as inscrutable as Destiny. For the rest, after his hours of work, a casual stroll or a casual spree on shore suffices to unfold for him the secret of a whole continent, and generally he finds the secret not worth knowing. The yarns of seamen have a direct simplicity, the whole meaning of which lies within the shell of a cracked nut.»

Joseph Conrad
in "Heart of Darkness"

sábado, 28 de junho de 2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Frase do dia

«Pouca coisa revela tão bem a degenerescência burocrática dos partidos e a sua captura pela partidocracia do que o actual processo no PS.»

José Pacheco Pereira
in «Público»

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O imenso poder da banca

Depois do que se passou no BCP, no BPP, no BPN e agora no Grupo Espírito Santo, não é disparatado considerar que os “buracos” existem provavelmente em todos os bancos nacionais. Há dias fiz esta exacta pergunta a um amigo economista, actualmente aposentado, que ocupou durante muitos anos posições importantes na alta esfera financeira. Sem espanto, devo confessar, disse-me que era o mais certo.

Muitos dirão que aqui não há novidade, mas o que está em causa não é uma mera notícia. O problema de fundo é que as instituições bancárias têm vindo a revelar-se verdadeiros agentes nocivos para o País.

Depois de endividarem grande parte da população, atraindo as pessoas com um fácil acesso ao crédito ao consumo, imiscuíram-se na política conseguindo uma influência demasiada, gerando dúvidas sobre quem comandava realmente os nossos destinos. Ao mesmo tempo, foram os principais cúmplices da venda do País a interesses estrangeiros e serviram de canais de transmissão de dinheiro – muito dinheiro – de origem duvidosa.

A banca contribuiu directamente para a crise que nos afundou, mas acabou por lucrar com ela. Tudo com a conivência de quem devia zelar pelos interesses nacionais e pelos portugueses.

Apesar de tudo, os banqueiros continuam a beneficiar de uma certa impunidade, sofrendo apenas sanções leves. Não é de estranhar que venham a público mais escândalos, mas o seu desfecho será seguramente o mesmo daqueles que conhecemos.
Por fim, a forma como os bancos gerem o dinheiro que não é deles mostra bem do que são capazes. É uma questão de falta de escrúpulos e de falta de respeito por quem lhes confia as suas poupanças.

A alteração do sistema bancário, nomeadamente pela sua responsabilização, não esquecendo o fim da promiscuidade com a política, é um passo essencial para um país mais justo e soberano. Mas, infelizmente, é um passo demasiado grande para as pernas dos que actualmente nos governam...

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 25 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Futebol?


O contraste da avalanche de anúncios publicitários comerciais com a selecção, para não falar dos estéreis programas de debate futebolístico, choca com a prestação da selecção nacional e com a atitude dos seus jogadores. Há um aparente ambiente de festa que não corresponde à realidade. Tendo em conta que a selecção representa supostamente Portugal, é impossível resistir a comparar esta situação à do País. De facto, perante uma propaganda de retoma e até de sucesso económico, sabemos que a crise continua presente e que as coisas não vão melhorar tão cedo. Afinal, talvez o futebol reflicta bem o mundo de aparências que é a política nacional.

sábado, 21 de junho de 2014

Reatar


Celebrar o Solstício de Verão é, antes de tudo, o reatar de uma festa ancestral e várias vezes milenária. Mas não se trata de proceder à maneira dos arqueólogos e dos etnógrafos. Esta celebração não é uma reconstituição. Deve ser viva e alegre, em harmonia com o tempo presente.

Reatar é voltar a encontrar o fio perdido. É voltar às origens da nossa comunidade de cultura e de civilização. A este respeito o Solstício de Verão possui um valor exemplar. Durante vários séculos sofreu as consequências da sufocação que o cristianismo lhe quis impor, para acabar por ser tolerado sob a festa de S. João. No entanto, um pouco por toda a parte, nas terras da Europa, os fogos solsticiais mantêm-se e renascem, testemunhando a dedicação dos nossos povos a uma certa concepção do mundo. A festa solar volta a inserir o homem no seu quadro cósmico. Reatar com esta festa da Europa mais antiga é afirmar a nossa fidelidade à herança ancestral e, através desta, à nossa identidade.

Nesta segunda metade do século XX, o Solstício de Verão conserva uma dimensão fundamentalmente comunitária. Continua a ser o momento privilegiado para, junto da fogueira de chamas claras, o indivíduo voltar a encontrar o seu clã.

Philippe Conrad
in “Os Solstícios – História e Actualidade”, Hugin (1995).

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A tirania do conforto

“Hoje, os insignificantes tornaram-se os senhores, todos pregam a resignação, a acomodação, e a prudência e a aplicação, e as considerações, e todo o extenso ‘et caetera’ das virtudes miúdas”
Friedrich Nietzsche


Muito se fala da falta de credibilidade da classe política actualmente no poder, daqueles que, saídos directamente dos viveiros partidários, enchem a boca de “interesse nacional” enquanto vendem a retalho um País corroído pelo crédito desenfreado, pela miséria mais ou menos escondida e pelo abandono. São os chantres do “equilíbrio” e da “estabilidade”. Os condutores de um automóvel parado que se julgam no comando das operações, quando na realidade estão a ser transportados num cargueiro de pavilhão estrangeiro.

Mas a ilusão destes “pulhíticos”, como tão bem lhes chamava o saudoso Rodrigo Emílio, submissos às grandes empresas que canibalizam o Estado, projecta-se também para baixo.

Não vivemos hoje na terra das pequenas invejas e dos ódios bacocos? Um país de memória curta, toldado pela superficialidade, que premeia a mediocridade e fomenta a hipocrisia e a corrupção? Está assim garantida a fertilidade do pântano do qual parece que não conseguimos sair.

Por isso, vinga por cá a política de baixos salários – em nome da competitividade, garantem os “especialistas” – que qualquer dia não se distinguirão dos cheques de rendimento mínimo garantido.
Papagueando o refrão da cantiga dos tudólogos televisivos de fim-de-semana no café da esquina, os ignorantes crêem-se participantes num debate, numa intervenção cívica, sem se aperceberem de como estão anestesiados.

Mas a crise, enquanto começo, pode despertar os que têm apego à vida e que se recusam a ser autómatos. A diferença é feita pelos que têm a coragem de se libertar da tirania do conforto aparente. Homens que no seio da sua comunidade cumprem o dever pátrio da defesa dos seus.

O futuro de Portugal será garantido pelos portugueses que não se esqueceram de onde vêm.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Os livros de Kurtz


No final do magistral "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola, quando o Cap. Willard encontra o Col. Kurtz, há uma cena em que se vêem dois livros do Coronel. São eles, "The Golden Bough", de Sir James Frazer, e "From Ritual to Romance", de Jessie Weston, duas das grandes influências do poema "The Waste Land" (1922), de T.S. Eliot, editado por Ezra Pound.

A inclusão destes livros não é obviamente inocente, já que a versão original de "The Waste Land" abria com a seguinte citação de "Heart of Darkness" ("O Coração das Trevas"), o romance de Joseph Conrad em que John Milius se inspirou para escrever o argumento do filme: «Did he live his life again in every detail of desire, temptation, and surrender during that supreme moment of complete knowledge? He cried in a whisper at some image, at some vision, – he cried out twice, a cry that was no more than a breath — "The horror! The horror!"» Porém, a ligação entre o poema de Eliot e o livro de Conrad não se fica por aqui. No início de "The Waste Land", há um verso que é visto como uma antítese ao livro de Conrad: "Looking into the heart of light"  uma clara oposição a "heart of darkness".

As referências de Eliot a esta obra de Conrad repetem-se no poema "The Hollow Men" (1925) — que Kurtz lê numa cena do filme , que abre com a frase "Mistah Kurtz — he dead".

Por fim, para os interessados, diga-se que tanto "The Golden Bough" como "From Ritual to Romance" estão disponíveis gratuitamente para o Kindle.

A actualidade de um centenário


A propósito do centenário da Primeira Guerra Mundial, Robert de Herte recorda, no editorial de mais uma excelente edição da revista francesa “Éléments”, que este conflito “não se pode compreender a não ser pelo olhar da evolução histórica do capitalismo que está sempre à procura de novos mercados”, acrescentando que “o capital se vira regularmente para a guerra quando não há outro meio de fazer progredir a sobre-acumulação que é a sua razão de ser”.

No ‘dossier’ desta edição está em questão se o futuro do Velho Continente deve ser a “Europa mercado ou Europa potência” e, na abertura, Felix Morès conclui que “o eixo horizontal da construção de um grande mercado opõe-se ao eixo vertical da construção de uma potência política. Convém, consequentemente, separar a Europa política da Europa económica”. Dos vários artigos há a destacar “A audácia de um Estado federal europeu”, de Gérard Dussouy, “União Europeia, a objecção democrática”, de Éric Maulin, “O império, uma ideia muito antiga e muito nova”, de Pierre le Vigan, “É preciso sair do Euro?”, de Éric Maulin”, e “A união transatlântica: a grande ameaça”, de Alain de Benoist.

Como se não bastasse a qualidade do ‘dossier’, esta edição presenteia-nos com um texto de Ernst Jünger, inédito em francês, intitulado “Inclino-me diante dos que tombaram”, uma alocução proferida em Junho de 1979, enquanto convidado de honra das festas comemorativas de Verdun. De seguida, Julien Hervier, amigo, tradutor e editor de Jünger, desvenda as vulnerabilidades deste “homem de mármore”, numa entrevista concedida a Alain de Benoist. Por fim, Laurent Schang recorda o dia 25 de Abril de 1915, a partir do livro de Bernard Marris “L’Homme dans la guerre”, quando Jünger e Maurice Genevoix, combatentes em lados diferentes da Batalha de Les Éparges, foram feridos.

A abrir a revista, há ainda uma entrevista com Robert Redeker, filósofo e investigador, a propósito da publicação do seu ensaio original “Le soldat impossible”, sobre o desaparecimento do soldado no imaginário europeu. Redeker afirma que “só a guerra pode ressuscitar a política”.

Por fim, é de referir o artigo de François Bousquet sobre o “novo capitalismos criminoso” e a habitual secção “Cartuchos” com criticas a livros, o “Diário de um cinéfilo”, de Ludovic Maubreuil, e a “Crónica de um fim de mundo sem importância”, de Xavier Eman.

Uma revista que, apesar da sua longevidade, nunca perdeu a actualidade e importância no combate pelas ideias, essencial para a civilização europeia.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Uma profissão em vias de extinção?

A crise da Imprensa não é novidade, mas a notícia da vaga de despedimentos na Controlinveste impressionou-me. Pior, incomodou-me. O jornal mais afectado deste grupo foi o “Diário de Notícias”, uma publicação histórica onde tenho vários amigos.

Falei com dois deles. Um foi despedido e o outro ficou, mas as preocupações de ambos coincidem. Discutimos o futuro dos jornais em Portugal e nenhum de nós acredita que seja positivo. Será um pessimismo inflamado pela actual situação? Seguramente, mas a questão é muito mais profunda.

A Imprensa também sofre com um regime onde os “gestores” ascenderam a uma posição de casta superior. Estes especialistas em “investimentos” com dinheiro alheio, para quem vender jornais é o mesmo que vender batatas, vêem a vida em números. E vão mais longe, quando vêem vidas como números. O meu amigo que perdeu o emprego, em tom de desabafo, confidenciou-me que já lhe tinham chamado muita coisa, mas nunca o haviam tratado como “massa salarial excessiva”. Os excessos, como mandam as dietas estivais da moda, são para eliminar. Os cortes são sempre justificados e a lógica implacável da linha de montagem (como se o princípio de Henry Ford se aplicasse à produção intelectual...) nivela as empresas, segundo uma cartilha escrita em inglês e decorada nos MBA.

Não é assim de estranhar que uma das áreas mais desprezadas seja a cultura, nestes novos jornais que se querem económicos, tanto no custo de produção como nos temas tratados.

A esse propósito, que acontecerá ao Arquivo do “DN”, que alberga 150 anos de História de Portugal? E ao belo edifício de Pardal Monteiro? Bem sei que está classificado, mas o Éden de Cassiano Branco também e veja-se o que lhe fizeram...

Dois amigos enfrentam o futuro incerto da Imprensa. O que foi despedido disse-me: “jornalista é uma profissão em vias de extinção”. Não quero acreditar, apesar da progressiva desvalorização a que temos assistido. O que ficou, convencido de que lhe cabe a ingrata tarefa de “fechar a porta”, reconheceu que nunca tinha considerado a possibilidade do fim do “DN”, mas agora cada vez mais o vê como uma certeza. Uma Imprensa livre é fundamental para uma sociedade informada e crítica. Exijamo-la.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 10 de junho de 2014

Caídos pela Pátria

O Dia de Portugal é o dia da morte de Camões. O que se assinala – e bem – não é um desaparecimento, mas o génio que continuou. Assim, a homenagem aos combatentes que se realiza anualmente em Belém faz todo o sentido.

Ao recordarmos os que caíram pela Pátria – por todos nós – estamos a preservar um espírito nacional que não pode morrer. Uma chama de perpetuidade que deve ser alimentada pelas novas gerações.

No entanto, a era do conforto e da paz aparente em que vivemos não é propícia a tais valores. Para muitos, a Pátria é algo ultrapassado e a guerra vê-se na televisão. Há quem queira que assim seja, para que se destrua Portugal.

Nessa sanha, desvaloriza-se quem lutou devido às inovações tecnológicas militares que alteraram drasticamente os conflitos no século passado.

Opinião contrária tinha Ernst Jünger, escritor e combatente nas duas Guerras Mundiais, que nunca retirou da sua experiência a conclusão amarga da inutilidade do heroísmo pessoal na guerra moderna, escrevendo: “Temos batalhado na lama e no sangue, mas o nosso rosto sempre se voltou para as coisas de alta e suprema valia e nenhum dos que perdemos durante os combates caiu em vão.”

Por fim, há quem não se canse de utilizar o falso argumento da conotação ideológica. No caso português, tal é notório em relação aos que se bateram na Guerra do Ultramar.

Esquecem-se tais “críticos” que se Portugal existe enquanto nação secular o deve aos que lhe dedicaram o sacrifício máximo, dando a vida por algo maior.

A eles devemos estar agradecidos, combatentes de todas as eras, que caíram pela Pátria para que a nossa bandeira continuasse hasteada.

Em mais um 10 de Junho, passemos de novo o testemunho geracional e honremos os nossos heróis.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Festa do livro

No passado sábado fui pela primeira vez este ano à Feira do Livro de Lisboa, em dia de enchente e de calor. Foi um passeio em família, continuando o hábito que os meus pais tão bem me transmitiram.
É sem dúvida revitalizante, passear entre livros, folheá-los, descobrir aquele que nem sabia que estava à procura. E durante o passeio encontrar um sem número de amigos e gente conhecida, muitos dos quais não via há muito.

Para muitos de nós, a Feira do Livro é algo de que nos lembramos desde tenra idade. Um dos primeiros contactos com a leitura que perdura e nos faz regressar todos os anos, até ao dia em que é com os nossos filhos. Quer dizer que cumpre, para além de uma função comercial, uma importante função cultural.
A multidão de várias gerações que se ali se congrega anualmente deve encher-nos de esperança. A sociedade dos ignorantes, nivelada por baixo, não é uma fatalidade. É possível e necessário contrariá-la. O amor aos livros e à leitura não está morto, como querem os pessimistas do costume ou os futurologistas que desconhecem as nossas raízes.

É certo que para grande parte da geração do conforto do imediatismo, ritmada pela instantaneidade do ‘zapping’, a leitura de um livro parece, à primeira vista, algo ultrapassado. Mais, surge como um exercício pesado que aparenta ser um esforço prolongado do qual não se obtém qualquer benefício. No entanto, como tão bem sabe qualquer leitor, para além da aprendizagem inerente à leitura esta proporciona um prazer que, depois de experimentado, não conseguimos abdicar. Um momento nosso onde viajando por outros mundos e conhecendo outras realidades nos conhecemos melhor a nós próprios.

A Feira do Livro continua a ser uma referência incontornável nos ritmos de Lisboa e um importante acontecimento cultural a continuar. Deve ser sempre uma festa do livro e não cair na tentação de se tornar um centro comercial a céu aberto.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Tudo como dantes

Se a esperança que as eleições para o Parlamento Europeu mudassem alguma coisa a nível nacional era mínima, para não dizer nula, impõe-se uma reflexão sobre mais um acto eleitoral que tantos querem classificar como diferente, mas que fundamentalmente nada mudou.

Os socialistas conseguiram a sua vitoriazinha e a ela ficarão agarrados. Não serve para “deitar abaixo” o Governo, como eles tanto desejavam, mas garante por enquanto a sobrevivência de António José Seguro, como fraco líder da Oposição.
A coligação governamental sofreu o castigo esperado, mas minimizará sempre o sucedido.

Os comunistas, que ganham sempre, saíram-se bem e conseguiram atrair o voto dos descontentes à esquerda. Neste caso, não deixa de ser significativo, já que foram os únicos eleitos que apresentavam um discurso crítico em relação à União Europeia.

O Bloco de Esquerda continua na sua fase descendente e a fractura da extrema-esquerda, provocada ironicamente por intenções de união, tende a agravar-se.

A novidade foi a eleição de Marinho e Pinto, que polarizou o descontentamento de muitos portugueses, apesar do seu discurso europeísta.

O grande vencedor, sem surpresa, foi a abstenção, que atingiu a percentagem mais alta nestas eleições. Para além de mostrar o que os portugueses pensam em relação à sua representação na União Europeia, faz com que todas as “vitórias” cantadas sejam pírricas.

O que se regista, enquanto a política nacional continua nas suas tricas internas, é que Portugal, apesar de intervencionado e sujeito a duras medidas de austeridade, continua a eleger os mesmos.

Não nos iludamos, com os eurodeputados agora eleitos nada mudará no que respeita à afirmação do nosso país nas instâncias onde hoje se decide o futuro de Portugal. Infelizmente.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A Pátria não se vende


As fotografias de membros do Governo num novo parque de diversões alusivo aos Descobrimentos são uma bela imagem da perigosa brincadeira que está em curso.

Portugal é um Estado falido, depois da ilusão de anos de crédito que nos colocou numa situação de dívida asfixiante e infinita, que vê lá fora a sua salvação. Depois da emigração em massa começou a venda do País a interesses estrangeiros, das grandes empresas às habitações de luxo, passando pelos chamados “vistos dourados”.

É claro que não podemos, nem devemos, estar “orgulhosamente sós”. Mas o que é insustentável é que nos tornemos “submissamente deles”. Infelizmente, é exactamente esse o triste filme a que estamos a assistir.

Durante períodos da nossa História curvámo-nos bacocamente à pretensa superioridade de tudo o que vinha de outras paragens. Mas nem sempre foi assim. Mostrámos por diversas vezes o génio que outros invejaram e triunfámos onde se pensava impossível.

Mas o tempo actual é o da mediocridade, o dos negócios acima da política. Pior: do negócio que se tornou a política. Assim, não é de estranhar que tudo se possa vender...

Veja-se o caso das próximas eleições para o Parlamento Europeu, único órgão da União Europeia eleito directamente. Grande parte dos portugueses ignora-as, como se vê pelas elevadas taxas de abstenção, e os políticos da nossa praça usam-nas para os seus jogos habituais. Freitas do Amaral, por exemplo, afirmou que os portugueses vão aproveitar o voto nas europeias para mostrar “um cartão amarelo muito forte, talvez com tons encarnados, ao Governo”. A terminologia futebolística cai bem, já que no dia anterior Lisboa será inundada por espanhóis, espectadores de uma final da mais alta competição de clubes europeus da modalidade.

Tudo é um jogo? Tudo se vende? Não! A Pátria não se vende e o nosso futuro não pode ser uma mera aposta no casino daqueles que apenas ambicionam o lucro fácil. É tempo de acabarmos com a brincadeira.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O caminho da Europa

Começou a campanha para as próximas eleições para o Parlamento Europeu e o desinteresse generalizado da população, em Portugal e não só, agrava-se. Mais uma vez, espera-se uma elevada abstenção.

Esta atitude não é de estranhar, já que a União Europeia foi decidida nas nossas costas, a troco de subsídios e créditos que encheram alguns e calaram tantos outros. A maioria dos portugueses, como de outros europeus, não se sente representada por eurodeputados, esses peões de um directório cada vez menos democrático de uma superstrutura longínqua e incompreensível. Assim sendo, votar para quê?

Por cá, os políticos nacionais insistem em confundir este acto eleitoral com os assuntos internos e a eternas tricas partidárias, em total desrespeito pelas instituições e pelos eleitores. Mas tal não é de estranhar, pois interessa-lhes a manutenção do conveniente ‘statu quo’. Por isso ligam prontamente as sirenes do alarmismo em relação aos chamados “eurocépticos”, que há para todos os gostos, por temerem uma ameaça de mudança, ainda que ténue.

Por muito que cresçam as vozes contra esta torre de Babel cada vez mais incompreensível, não será no próximo escrutínio que veremos uma alteração significativa. Mas pode ser um sinal. O voto pode, afinal, marcar a diferença?

Não há aqui qualquer sentimento anti-europeu. Não caiamos na armadilha semântica de quem vive no clube dos salários chorudos e das pensões garantidas.

A Europa é uma civilização de génio e singular. É a nossa matriz – a “estrutura de pequenas nações”, como escreveu Ortega y Gasset –, que não apaga as identidades das pátrias carnais. Não é a União Europeia, covil de burocratas e abstracção política de base económica, que nos faz europeus.

O caminho da Europa é o da nossa História comum e somos nós que o fazemos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A defesa da nossa Civilização

A partida de Vasco Graça Moura, figura ímpar da cultura nacional, tocou-me especialmente. Li-o e citei-o, concordei e discordei dele, mas aprendi sempre muito. Foi até ao fim um lutador incansável. Bateu-se pela Língua, pela Cultura, pelos valores da Civilização Europeia.

Em 2011 entrevistei-o para o nosso jornal sobre o famigerado Acordo Ortográfico. Um combate comum, do qual nunca desistiu, mesmo contra aqueles com quem havia ladeado politicamente.

Defensor acérrimo da Língua portuguesa, criticou ferozmente “o ‘eduquês’ de serviço”, que segundo ele “ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal”. Recordou por isso “o prazer da leitura dos grandes escritores da língua portuguesa”, que “deveria ir sendo progressivamente construído no pleno escolar” para contrariar a crescente ignorância nacional. Nesta “promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários”, Vasco Graça Moura salientava que “não deveria esquecer-se uma relação, diacrónica e sincrónica, com a Europa. Sem algumas noções elementares a este respeito, nada compreenderemos de nós mesmos, da nossa identidade e dos nossos problemas”.

Mas não se veja aqui uma mera preocupação intelectual. Homem de elevada erudição, denunciava as várias ameaças à nossa Civilização, tomando posições hoje consideradas “politicamente incorrectas”, como a oposição à adesão da Turquia à União Europeia. Alertou também para “o risco de a imigração ultrapassar completamente a vida e a mentalidade dos europeus” na defesa de “aquilo que é essencial”, ou seja, a “civilização e cultura a que pertencemos e em que crescemos, que contêm um conjunto de valores que deve ser preservado a todo o custo”.

O combate pelo essencial foi a melhor lição deste homem da cultura, que nos mostrou que a beleza das letras e das artes é inseparável do nosso maior objectivo político – a defesa da nossa Civilização.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Crime na Inglaterra rural


As primeiras temporadas de “Midsomer Murders” estão a ser transmitidas em Portugal pelo canal Fox Crime e são uma viagem à Inglaterra rural através das investigações do Inspector-chefe Barnaby (John Nettles) e do Sargento Troy (Daniel Casey). Uma série de grande sucesso em vários países que há uns anos não escapou a uma polémica politicamente incorrecta...

Esta é uma série televisiva britânica que existe desde 1997, baseada nos livros de Caroline Graham, segundo a adaptação original de Anthony Horowitz. A acção desenvolve-se no condado ficcionado de Midsomer, onde a principal povoação é Causton, uma comunidade aparentemente pacata mas onde não deixa de haver homicídios.

Todo este cenário está muito bem construído e as diferentes realidades locais bem representadas, com uma separação de classes sociais que ainda existe e os hábitos e o ritmo da província. À dupla de detectives cabe investigar casos onde os motivos vão da traição conjugal às heranças, passando por outros mais elaborados. Apesar do tema central ser o crime, tudo se passa num ambiente familiar, onde não falta uma pitada de humor.

Como não podia deixar de ser, Midsomer está a milhas de Londres, não só em distância como em aparência, já que aqui encontramos a Inglaterra como a conhecíamos e não o país “multicultural” que vemos hoje nos noticiários.

No entanto, apesar do grande e prolongado êxito da série, esta característica começou a ser alvo de críticas. Em 2011, Brian True-May, o produtor executivo, questionado por uma revista acerca da inexistência de “diversidade racial” no elenco respondeu que não fazia sentido incluir minorias étnicas porque, assim, Midsomer deixaria de ser “o último bastião da englishness”. True-May afirmou na altura que “talvez não fosse politicamente correcto” e, de facto, as consequências não se fizeram tardar. A ITV suspendeu-o e só o readmitiu depois de ele ter feito um pedido público de desculpas. Mesmo assim, True-May deixou de ser o produtor da série. O resultado desta polémica foi a inclusão de uma família indiana na 15.ª temporada.

Nesta Inglaterra ficcionada o bastião da ‘englishness’ caiu, mas na Inglaterra real já caíra há muito...

sábado, 3 de maio de 2014

“Em cem anos a sociedade portuguesa mudou em quase tudo”

Ricardo Marques é jornalista e autor de vários livros, como “Moçambique: o Regresso dos Soldados”, “Assim Matam os Portugueses” e “Os Fantasmas do Rovuma”. Publicou recentemente “1914 – Portugal no ano da Grande Guerra”, um retrato abrangente da sociedade portuguesa de então, ilustrado com os factos, as curiosidades e s estatísticas da vida social, da ciência, das artes, da política, do desporto e até do crime. Aqui fica a entrevista que fiz para a edição de «O Diabo» do passado dia 15 de Abril.

Neste ano do centenário da Primeira Guerra Mundial tem-se notado um especial interesse à vida particular das pessoas e da forma como a guerra as afectou. É um lado que falta estudar para além do conflito militar?
É, acima de tudo, uma dimensão inesgotável. Quando falamos de algo tão impressionante como a Primeira Guerra Mundial, a todos os níveis, tendemos por vezes a esquecer as pequenas coisas. Claro que a história se faz e se alimenta do confronto, da visão dos vencedores e dos vencidos. É natural. Mas é preciso não esquecer que por cada batalha, por cada grande deslocação de tropas, há vidas que tentam prosseguir o melhor que podem e consegues. Há gente que acorda todos os dias de manhã para trabalhar, para estar com a família, com os amigos, para ler um livro ou outra coisa qualquer. E isso, normalmente, não cabe na lente com que olhamos os grandes acontecimentos. No entanto, com um pouco de esforço, podemos encontrar mundos fascinantes.

O que o levou a esta descoberta da sociedade portuguesa no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial?
Houve dois caminhos que, a dado momento, se cruzaram. Desde logo, o livro que tinha escrito sobre a Primeira Guerra Mundial em África. Há algo curioso na forma como começou a nossa guerra África em 1914. Assim que estalou o conflito na Europa, a primeira preocupação do Governo de Portugal, da República que tinha apenas quatro anos, foi enviar tropas para Angola e Moçambique de modo a salvaguardar a integridade das então colónias. Mais interessante é que antes de entrarmos efectivamente no conflito – a declaração de guerra da Alemanha a Portugal é de 1916 – já tínhamos enviado milhares de homens para África e já tínhamos entrado em combate. Esse foi um dos caminhos. O outro foi o fascínio que me ficou de tentar perceber o que ia na cabeça dos portugueses nos primeiros meses do ano, na véspera de um conflito tão brutal como a Primeira Guerra Mundial. É estranho olharmos para trás, conscientes de que algo vai acontecer, e conhecermos pessoas que não fazem a mais pequena ideia.

Em que se baseou para chegar ao dia-a-dia dos portugueses de então?
A melhor forma é ler os jornais. E havia muitos jornais. Tantos que, infelizmente, é impossível lê-los todos. Li todos os que consegui. Li livros editados nesse ano, livros sobre esse ano, voltei a olhar para o material que já tinha do livro anterior. De algum modo, durante quase um ano vivi em 1914. E optei, quando escrevi, em ficar lá. Ou seja, todo o livro está escrito como se o mundo tivesse acabado nesse ano. Vou dar-lhe um exemplo: a Federação Portuguesa de Futebol foi criada em 1914, embora com outro nome. Outro ainda: a maquete da estátua do Marquês de Pombal ganhou o concurso nesse ano, mas só foi construída algum tempo depois. Optei por não explorar o futuro que começava ali. Caso contrário, acho que ainda hoje estaria a escrever…

Quais foram as grandes diferenças que encontrou em relação aos nossos dias?
Quase tudo é diferente. Tão diferente que hoje damos por adquiridas algumas coisas com que na altura só se sonhava. Estamos a falar de um país que era quase analfabeto, em que a doença ceifava milhares de vidas todos os anos, em que a vida valia muito pouco. Em cem anos mudámos quase tudo.

Descobriu algo que não estava à espera, ou sobre o qual tinha uma ideia errada?
O mais surpreendente foi perceber que havia duelos, algo muito engraçado. Havia todo um ritual, que envolvia testemunhas e trocas de correspondências. Depois, escolhiam-se as armas, marcava-se uma hora e lá iam todos, quase sempre para a estrada da Ameixoeira. Os médicos interrompiam os combates sempre que alguém se aleijava e a coisa só parava quando o ofendido se sentia retratado. Era muito engraçado. E muitas vezes começava tudo com um artigo num jornal.

Também encontrou semelhanças com os dias de hoje. Como por exemplo?
Penso que, cem anos depois, há coisas em que somos praticamente iguais. O fascínio por tudo o que vem de fora, do estrangeiro, quase sempre em detrimento do que se faz e pensa por cá é algo que ainda hoje mantemos. Apesar de estarmos a assistir, curiosamente, a um interesse crescente e renovado pelo que é português. É um fenómeno interessante. Creio também que mudou muito pouco a forma como encaramos o Estado, essa entidade que tudo tem de resolver.


Há coisas que nem a guerra muda?
Essa é uma pergunta complicada. Se pensarmos bem, quando é que foi a última guerra que se travou em território português? Nos últimos cem anos, apesar de o mundo ter vivido duas guerras mundiais, e de termos combatido em África durante 13 anos, a verdade é que não se disparou um tiro em Portugal. Não significa que isso que tenhamos passado incólumes – milhares de famílias perderam pais, filhos, irmãos, maridos. Mas era sempre algo que acontecia longe, era sempre uma notícia que chegava. Para esses, como para os que voltaram e que vivem como se ainda estivessem por lá, a guerra mudou tudo. Somos o que sempre fomos, mas somos diferentes. Não sei se faz sentido…

Mesmo assim, concorda que a Primeira Guerra Mundial representou o fim de um mundo?
Sim, claro. Mas acho que mais do que o fim de um mundo, foi sobretudo o início de um outro, o início do mundo em que vivemos. Vinte anos houve nova guerra, uma ainda mais horrível, que mostrou ao mundo o lado mais negro da humanidade. O mundo dividiu-se a seguir, depois um dos lados desmoronou-se e hoje ainda não sabemos ao certo em que mundo estamos a viver. Se é que é possível falar de um mundo. Se calhar sempre houve vários mundos.

Entrevistou a bisneta do arquiduque Francisco Fernando, como foi essa experiência?
Muito interessante. É mais uma daquelas histórias que se perdem na grande história. E a dela começa com o assassinato dos bisavós em Sarajevo. Francisco Fernando e Sofia tinham três filhos à espera em casa, num castelo que está hoje na República Checa. Esse castelo, 100 anos depois, é um museu. A bisneta do arquiduque luta há vários anos para que o castelo seja devolvido à família. Ela tem um argumento interessante. Quando Francisco Fernando e Sofia se casaram – e como ela não tinha o estatuto necessário para se tornar uma Habsburgo – ambos assinaram uma declaração comprometendo-se a que ela e os filhos jamais seriam membros da família imperial. Ou seja, jamais seria Habsburgos. Ora, alega a bisneta, o castelo não era uma propriedade dos Habsburgo. Mas foi confiscado como se fosse. Ela sabe que é uma guerra perdida. Mas é a guerra dela.

Ela considerou que a sociedade de hoje é mais egoísta, concorda?
Não sei. Talvez tenhamos formas diferentes de sermos mais egoístas. Creio que é um mundo construído cada vez mais para o indivíduo e a consequência talvez seja termos menos uma sociedade, como ainda a concebemos, e mais uma “socioindividualidade”.

O que podemos aprender hoje com o estudo da catástrofe que a Primeira Guerra Mundial representou para a Europa?
Há duas lições importantes, creio. A primeira é que sobrevivemos. Não só à primeira, como à segunda e a tudo o que veio depois. Estamos cá, vivos para recordar e pensar sobre as coisas. Podemos olhar para trás e aprender. A segunda lição é que, apesar de tudo, isso pode não valer de nada. O futuro tende sempre a surpreender-nos. Que o digam as pessoas que foram ao teatro à noite na véspera de começar a guerra.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Comandantes


O caso do naufrágio do ‘ferry’, que causou pelo menos 187 mortos, na Coreia do Sul, fez com que o primeiro-ministro, Chung Hong-won, apresentasse a sua demissão, na sequência das críticas à gestão da crise. Mas o que mais chocou as pessoas foi o facto de o comandante do navio o ter abandonado, tentando passar despercebido entre os sobreviventes para salvar a sua pele. A sua atitude faz lembrar a do comandante do navio de cruzeiro Costa Concordia. É um sinal dos tempos, quando os comandantes deixam de o ser e revelam, na ausência da honra e do sentido do dever, uma cobardia assassina. Faltam comandantes. E não é só no mar...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O discurso de Marco António

Marlon Brando, no papel de Marco António,
em "Júlio César" (1953), de Joseph Mankiewickz.

«Frontaria da Assembleia Nacional. Manhã cinzenta e triste. A multidão sussurrante transborda do grande largo. Trazendo nos braços um corpo exangue, Marco António surge no topo das escadarias. Arenga ao povo.

- Amigos, Portugueses, compatriotas:
Trago-vos Portugal nos braços. Venho para os seus funerais - e não para o louvar. O mal das pátrias sustenta-se além da morte. O bem enterra-se com elas. Ninguém se lembra das glórias do Aragão, nem das da Navarra - nem sequer das da Sabóia. Recordam-se, porém, sensivelmente, os seus pecados... Seja assim com Portugal. Os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro (três honradíssimos cidadãos) permitiram que vos falasse. Disseram eles que a nossa Pátria, em oito séculos de história, quase só se portou mal. Reconheçamo-lo contritamente sem discutir: - os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro são três grandes personalidades que nos restituíram a liberdade. Quem somos nós para os contestar?
Vós tínheis orgulho neste velho Portugal. Julgastes que era honra pertencer-lhe e acompanhar na memória a gesta dos seus santos e heróis, conquistadores e navegadores, que, mares além, nos tempos dantes, por todo o orbe, dilataram a Fé e o Império. Os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro acusam-no agora da maior cobiça. Castigaram-no severamente. São três homens justos, três nobres, e honrados, e incorruptos cidadãos. Veneremo-los. Esqueçamo-nos do que nossos pais nos ensinaram: - depois de Ceuta, largado mundo fora, Portugal, com uma ou outra excepcionalíssima excepção, só cometeu crimes. Paga hoje as suas faltas - faltas do povo e dos chefes. Do Infante, de Vasco da Gama, de Albuquerque, de Camões, de Vieira e de Mouzinho. Penitenciemo-nos. Até a Santa Madre Igreja, pela augusta voz dos nossos bispos, já se penitenciou. Porque não o faremos nós? Construamos humildemente, sem fumos de grandeza, o futuro que merecemos. Reduzamo-nos.
Durante séculos, no silêncio dos corações, rezámos a S. Francisco Xavier, a S. João de Brito e a S. Gonçalo da Silveira. Supusemo-los no céu, sentados à direita de Deus Pai. Sabemos hoje de ciência certa que foram apenas agentes do nosso torpe imperialismo, do nosso orgulhoso amor à guerra, da nossa cupidez mercantilista. Isso, sabiamente, nos ensinam os Drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro - três impolutos cidadãos, três homens sem mancha, honrados e verdadeiros campeões da liberdade. Que podem as nossas memórias contra a sua veracidade munificente?
Imaginámos (durante cinco séculos - imaginámo-lo apaixonadamente) que andávamos pelo mundo a continuar Portugal, cientes de ser essa a sua missão, o seu destino, a sua glória. Reconhecemos hoje pela voz honrada dos drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro - que por esse mundo de Cristo destruímos civilizações, arrasámos metrópoles, cometemos genocídios. Que as cidades, vilas e aldeias que erguemos não são nossas, mas de gente estranha - e que os povos nossos irmãos, trazidos para nós, em nós confiantes, eram traidores à Pátria deles que, em verdade e em boa hora, vai deixar de ser a nossa.
Com infinito orgulho, com altíssima devoção, sentimo-nos, centúria após centúria, o décimo-terceiro apóstolo, povo do Espírito Santo, farol de palavra divina. Oh! O orgulho dos homens! A petulância das gentes! A hipocrisia paranóica! Fomos uns rapinantes sem escrúpulos, vorazes comerciantes, mercadores astuciosos, criminosos sem perdão, exploradores insensí­veis, bandidos sem coração, ladrões desavergonhados, piratas do alto-mar, canalhas sem remissão. Caridosamente, sem o afirmarem (para não nos chocarem mais) insinuam isso os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Francisco Sá Carneiro - três eminentes senhores, fiadores da nossa liberdade, desta paz democrática, desta prosperidade que vamos a desfrutar. Devemos acreditá-los, e agradecer-lhes, e defendê-los. Reconheceram as nossas culpas - e andam a remi-las. Vão acordar Portugal da longa noite em que o adormecemos.
A partir de 1961, ferozmente dominados por Salazar (parolo seminarista, tortuoso financeiro... ) vós acompanhastes ao cais os melhores de todos vós - e, em espírito, embrenhastes-vos, com eles, nos matagais africanos. Muitos deles regressaram ou mortos, e povoam inermes os cemitérios do rectângulo, ou estropiados, ou meio doidos. Vós julgastes que eles tinham ido defender Portugal e os Portugueses. Exceptuando os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro - a maior parte de vós supôs que Portugal defendia o seu direito, e que as carnificinas de Angola, da Guiné e de Moçambique tinham sido perpetradas pela UPA, pelo PAIGC e pela FRELIMO. Sabemos agora que não; fomos nós os matadores, fomos nós os assassinos, somos nós os responsáveis, somos nós os grandes réus. A UPA, o PAIGC e a FRELIMO limitaram-se, honradamente, a proceder em legítima defesa, a reagir heroicamente aos nossos ataques cavilosos, às nossas agressões mal intencionadas, à nossa fúria colonialista. Não o confessando há treze anos, não abandonando Angola nessa altura - ofendemos a paz, a liberdade e a democracia. Quem quiser continuar Portugal - está contra o mundo inteiro, orgulhosamente só e nós queremos estar acompanhados, e ser cumprimentados, e aplaudidos, e cortejados, e bajulados por todos os grandes deste mundo. Queremos ser Holanda, Suécia, Dinamarca ou Finlândia, gente respeitada, pacíficos produtores de margarinas, ricaços. Para isso nos encaminham gloriosamente os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Francisco Sá Carneiro - três sábios, e prudentes, e sensatos cidadãos.
Quisemos que as gentes achadas pelos mareantes fossem portuguesas. Honrávamo-nos com isso, julgávamos honrá-las. Deixamo-las agora entregues a si próprias, nuclear e financeiramente protegidas pelos Estados Unidos, pela União Soviética e pela China. Deixámos de as explorar; vamos poupar milhões. Seremos prósperos, e bem edu­cados, e respeitados por todo o mundo civilizado e pela moral prevalecente. Vão elas deixar de ser portuguesas - vamos nós humilissimamente esforçar-nos por continuar a sê-lo.
Se eu tivesse as qualidades oratórias do dr. Mário Soares, a capacidade organizativa do dr. Álvaro Cunhal, a distinção aristocrática do dr. Francisco Lumbralles de Sá Carneiro - poderia ambicionar, talvez, conduzir-vos à revolta, mostrando-vos as cicatrizes sangrentas deste velho Portugal vencido. Mas eu sou, apenas, um pobre homem com poucos estudos e pouco pensamento, um desgraçado - e eles, três notáveis, honrados e proeminentes cidadãos. Têm o poder, a força e a vitória; prender-me-ão quando quiserem sem ninguém protestar; calar-me-ão. Vós, meus Amigos, meus amados Portugueses, meus queridos compatriotas, sede indulgentes comigo; parece que a alma me vai com o Portugal antigo. Já que não o podemos louvar - choremo-lo com honradez. Quantas vezes o aclamámos e o levámos em triunfo? Alguém nos impedirá de o chorar?

O silêncio aumenta a velha praça. Acolá e além um soluço risca o muro da tristeza. O povo volta as costas à casa da representação nacional. O pano desce lentíssimamente. Portugal, arfante, parece morrer devagar.»

Manuel Maria Múrias
in «Bandarra» n.º 0 (Set.1974)

Este texto foi referido e citado no editorial "Morte de Portugal", publicado na edição desta semana de «O Diabo».