No início deste filme entramos na chamada ‘corporate America’ ao ver a vida de Bobby Walker (Ben Affleck), um alto-quadro da gigantesca empresa GTX, que se movimenta num Porsche, vive com a sua família numa impressionante casa de luxo e chega ao escritório a pensar na óptima pontuação conseguida a jogar golfe num clube seleccionado. É aquela “imagem de sucesso” a que tantos filmes americanos nos habituaram.
Mas a crise bate à porta e os cortes de pessoal são a solução apresentada para manter o preço das acções da empresa elevadas. Nestas vagas de despedimentos, Bobby é inesperadamente incluído e vê-se confrontado com uma realidade que desconhecia.
Aqui está um dos primeiros problemas do filme. Dificilmente alguém se solidarizará com este “homem de negócios” que tinha uma vida milionária. Mesmo assim, apesar de algum sentimento inicial de negação, ele acaba por aceitar um emprego na construção com o seu cunhado com quem as relações estão longe de ser as melhores. Mas até isso parece mais que forçado. A tirar desta experiência está, principalmente, a ideia de que tais situações podem acontecer a todos sem excepção.
Há também passagens interessantes sobre os valores morais de quem dirige monstros empresariais e despede centenas de trabalhadores sem quaisquer problemas de consciência, ao mesmo tempo que se reflecte sobre uma altura onde os empregados produziam algo que podiam ver e sentir, por oposição ao trabalho de secretaria e computador que fazem hoje.
Uma das coisas que chama a atenção para este filme, para alem do tema, é o rico elenco. Tommy Lee Jones, sem dúvida com a melhor prestação, Kevin Costner, num papel secundário bastante apagado, Chris Cooper, que cumpre, e Maria Bello, que vai bem sem surpreender. Nota negativa para Ben Affleck no papel principal, que não confere solidez à personagem que encarna. Entre várias oscilações, há um pormenor que estranhei relativamente ao sotaque de Boston, cidade de onde o actor é natural e onde se passa a acção. Inexplicavelmente, Affleck por vezes acentua-o e por outras simplesmente o evita. Ainda considerei que fosse alguma mudança de registo por condição social, mas cheguei à conclusão que tal era demasiado rebuscado.
Este é mais um daqueles casos de um filme que podia ter sido algo verdadeiramente profundo. Talvez a explicação da sua ligeireza esteja no seu realizador e argumentista, John Wells, um homem conhecido pelo seu trabalho em séries televisivas.
Há um momento engraçado na história onde se ridiculariza uma “sessão de motivação” que os recém-desempregados têm que frequentar. O problema é que, apesar desta divertida crítica, quando chegamos ao final do filme, parece que acabámos de participar numa sessão semelhante. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
quarta-feira, 30 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Língua
Passam hoje exactamente cinco anos da data da morte de Jean Mabire (8/2/1927 – 29/3/2006), escritor que tanto me influenciou e inspirou com as suas obras e com o seu exemplo. Apesar de defensor da Europa das Pátrias Carnais e de se definir a si próprio como “normando e europeu”, Mabire foi um dos grandes autores de língua francesa, com uma extensa obra publicada.
Defendia que a cultura francesa, encarnada numa língua, devia integrar todas as suas especificidades regionais, por oposição à actual promoção da “linguagem dos subúrbios”. Este empobrecimento, considerava ele, levaria a que se conhecesse em breve “uma espécie de francês básico muito análogo ao que é o americano em relação à língua de Shakespeare”.
É inegável que esse estado está à porta. Assistimos impávida e serenamente às repetidas machadadas no Português e aceitamos pacificamente atentados como o (des)acordo ortográfico. O pior, sem dúvida, é a ignorância generalizada e, para a contrariar, só o eterno regresso aos clássicos e aos mestres deverá continuar a ser o caminho.
Por falar em mestres das letras, também ontem se cumpriram sete anos do falecimento de Rodrigo Emílio (18/2/1944 – 28/3/2004), o poeta-soldado de quem os bem-pensantes tanto se tentam “esquecer”, apesar do seu talento e genialidade incomparáveis. Outro autor para quem a defesa da Pátria implicava necessariamente a defesa da Língua e de toda uma Cultura.
Porque se não soubermos quem foi Camões, a “Língua de Camões” deixará mais tarde ou mais cedo de ser a nossa. Perdendo o seu significado profundo e mecanizando-se passará a ser apenas um “meio” desprovido de conteúdo.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
Defendia que a cultura francesa, encarnada numa língua, devia integrar todas as suas especificidades regionais, por oposição à actual promoção da “linguagem dos subúrbios”. Este empobrecimento, considerava ele, levaria a que se conhecesse em breve “uma espécie de francês básico muito análogo ao que é o americano em relação à língua de Shakespeare”.
É inegável que esse estado está à porta. Assistimos impávida e serenamente às repetidas machadadas no Português e aceitamos pacificamente atentados como o (des)acordo ortográfico. O pior, sem dúvida, é a ignorância generalizada e, para a contrariar, só o eterno regresso aos clássicos e aos mestres deverá continuar a ser o caminho.
Por falar em mestres das letras, também ontem se cumpriram sete anos do falecimento de Rodrigo Emílio (18/2/1944 – 28/3/2004), o poeta-soldado de quem os bem-pensantes tanto se tentam “esquecer”, apesar do seu talento e genialidade incomparáveis. Outro autor para quem a defesa da Pátria implicava necessariamente a defesa da Língua e de toda uma Cultura.
Porque se não soubermos quem foi Camões, a “Língua de Camões” deixará mais tarde ou mais cedo de ser a nossa. Perdendo o seu significado profundo e mecanizando-se passará a ser apenas um “meio” desprovido de conteúdo.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
segunda-feira, 28 de março de 2011
Bem-hajam e até mais ver!
Quando eu morrer,
não haja alarme!
Não deitem nada,
a tapar-me:
— nem mortalha.
Deixem-me recolher
à intimidade da minha carne,
como quem se acolhe a um pano de muralha
ou a uma nova morada,
talhada pela malha
da jornada...
— E que uma lágrima me valha...!
Uma lágrima — e mais nada...
Rodrigo Emílio (18/2/1944 — 28/3/2004)
domingo, 27 de março de 2011
Alain Soral no Méridien Zéro
A emissão de hoje do programa Méridien Zéro tem como convidado Alain Soral, conhecido ensaísta, escritor e realizador francês. Definindo-se a si próprio como «intelectual francês dissidente», Soral passou pelo Partido Comunista Francês e pelo comité central do Front National. Fundou em 2007 a associação Égalité et Réconciliation, grupo de «esquerda nacionalista» ao qual preside. «Comprendre l'empire» é o título do seu mais recente livro, um ensaio sobre o poder que desmonta a forma como a banca se tornou o verdadeiro império mundial. Lançado no último mês de Fevereiro, o livro entrou imediatamente no top de vendas da Amazon, alcançando o 18.º lugar. Como habitualmente, este programa pode ser escutado através da Radio Bandiera Nera, a partir das 22 horas portuguesas.
sábado, 26 de março de 2011
Outro 'rating'
O Eurico de Barros fala hoje no «Diário de Notícias» "sobre o 'rating' da alma nacional" e chega à conclusão que "de país, isto tem cada vez menos. O único factor de união e identificação sobrevivente entre os portugueses parece ser mesmo o futebol ao nível de selecção. Aliado a uma execração espessa e ácida da classe política e suas aderências.Uma qualquer Moody's que viesse fazer o rating da entidade colectiva chamada Portugal , registaria que deslizámos sucessivamente, de lugar para sítio, de sítio para quintal, e de quintal para canto. E que caímos de povo para massa de gente. Uma gente outrora forte que passou depois a ser fraca, e a seguir foi empurrada para a beira da inanição. Não é só económica e financeiramente que o País está com a corda na garganta e a precisar de reanimação maciça. É também psicológica, intelectual e animicamente. José Gil, que escreveu Portugal, hoje - O Medo de Existir, poderia agora assinar uma continuação: Portugal, hoje - O Doente de Existir."
sexta-feira, 25 de março de 2011
O Homem e a Natureza
A Cavalo de Ferro tem o mérito de ter trazido de volta ao panorama editorial nacional o grande mestre das letras norueguês Knut Hamsun. “Pan” é um daqueles livros obrigatórios em qualquer biblioteca. Uma lufada de ar da floresta.
O escritor norueguês Knut Hamsun, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1920, voltou a ser editado em Portugal em 2008 graças à Cavalo de Ferro, com a publicação de “Fome”, traduzido por Liliete Martins e com prefácio de Paul Auster. Desta vez, mais recentemente, lançou uma nova edição de “Pan” (capa mole, 184 páginas, 18,00 euros), traduzida por João Cruz e Mário Cruz, obra que havia sido publicada em 1955, pela Guimarães, com tradução de César Frias. E não ficará por aqui, já que está anunciada para breve a publicação de “Victoria”.
Hamsun é um autor bastante polémico devido ao seu apoio ao movimento de Vidkun Quisling e à Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943 é recebido por Hitler, a quem se queixa do administrador militar alemão na Noruega, para descontentamento do führer. De seguida, oferece a sua medalha do Nobel a Goebbels. Depois da morte de Hitler escreve um elogio póstumo onde o considera “um guerreiro pela humanidade”. Todas estas atitudes valem-lhe a classificação de “colaborador”, a expropriação dos seus bens e um internamento psiquiátrico já em idade bastante avançada. Mas, apesar de hoje começar a ser reabilitado enquanto escritor, é sempre alvo de críticas devido às suas simpatias políticas e colocado no lado dos “malditos”. Seja como for, independentemente do seu posicionamento, a sua genialidade e a sua qualidade literária são inegáveis.
“Pan”, uma das suas obras de maior sucesso e mais reconhecidas, foi publicado originalmente em 1894 e escrito durante o período em que Hamsun esteve em Paris. Tem como protagonista o tenente Thomas Glahn, antigo militar e caçador, que vive sozinho numa cabana no bosque, apenas com Esopo, o seu fiel companheiro canino. Este fala-nos na primeira pessoa e o livro, de início, parece um diário. Glahn vai encontrar Edwarda e apaixonar-se. No entanto, as infidelidades dela transformarão esta paixão em tragédia.
Em “Pan”, encontramos principalmente a ligação do homem à Natureza, à paisagem que o envolve e o simbolismo do ciclo das estações do ano, manifestações do panteísmo de Hamsun e da sua profunda aversão à civilização urbana e ao progresso. Uma obra-prima da literatura da autoria de quem Thomas Mann considerou “o maior escritor de sempre”. Absolutamente indispensável. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
Hamsun é um autor bastante polémico devido ao seu apoio ao movimento de Vidkun Quisling e à Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943 é recebido por Hitler, a quem se queixa do administrador militar alemão na Noruega, para descontentamento do führer. De seguida, oferece a sua medalha do Nobel a Goebbels. Depois da morte de Hitler escreve um elogio póstumo onde o considera “um guerreiro pela humanidade”. Todas estas atitudes valem-lhe a classificação de “colaborador”, a expropriação dos seus bens e um internamento psiquiátrico já em idade bastante avançada. Mas, apesar de hoje começar a ser reabilitado enquanto escritor, é sempre alvo de críticas devido às suas simpatias políticas e colocado no lado dos “malditos”. Seja como for, independentemente do seu posicionamento, a sua genialidade e a sua qualidade literária são inegáveis.
“Pan”, uma das suas obras de maior sucesso e mais reconhecidas, foi publicado originalmente em 1894 e escrito durante o período em que Hamsun esteve em Paris. Tem como protagonista o tenente Thomas Glahn, antigo militar e caçador, que vive sozinho numa cabana no bosque, apenas com Esopo, o seu fiel companheiro canino. Este fala-nos na primeira pessoa e o livro, de início, parece um diário. Glahn vai encontrar Edwarda e apaixonar-se. No entanto, as infidelidades dela transformarão esta paixão em tragédia.
Em “Pan”, encontramos principalmente a ligação do homem à Natureza, à paisagem que o envolve e o simbolismo do ciclo das estações do ano, manifestações do panteísmo de Hamsun e da sua profunda aversão à civilização urbana e ao progresso. Uma obra-prima da literatura da autoria de quem Thomas Mann considerou “o maior escritor de sempre”. Absolutamente indispensável. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
quinta-feira, 24 de março de 2011
Horas a mais
Danny Boyle surpreendeu-me com a espantosa viagem ao mundo da droga que foi “Trainspotting” (1996), mas a partir de então nunca mais o conseguiu. Nem com “A Praia” (2000), nem mesmo com o popular “Quem quer ser bilionário?” (2008), que lhe valeu o Óscar na categoria de Melhor Realizador ficou a milhas daquele que foi o seu trabalho verdadeiramente genial.
Desta vez o seu “127 Horas” deu que falar pelas seis nomeações para os Óscares, com seis nomeações, incluindo a categoria de Melhor Filme e Melhor Actor. Ficou, no entanto, de mãos a abanar... e bem. Ainda que, como muitos adiantaram a mera nomeação é por vezes um prémio. A ser assim, nem isso merecia.
Outro atractivo do filme é o facto de se basear numa história real. Ainda para mais numa impressionante história de resistência, cujo real protagonista considerou estar até bem reproduzida, excepto por alguns pormenores iniciais. Mas aí está, parece mesmo que estamos perante uma daquelas reconstituições que normalmente se vêem nos programas especializados de sobrevivência dos canais de documentários. E o melhor, talvez, fosse ter-se cingido a essa meia hora televisiva...
Ora a história é mais ou menos conhecida e simples. O aventureiro “radical” e escalador Aron Ralston (James Franco), num passeio sozinho no deserto rochoso do Utah, acaba preso num estreito desfiladeiro por uma rocha que lhe esmaga a mão e parte do antebraço. O final também é conhecido, pelo que fazer um filme sobre este caso extremo só poderia centrar-se no aspecto humano profundo do protagonista. Tal não acontece.
Apesar de muito louvada, a prestação de Franco não é impressionante. Mas, há que dizê-lo, com as condições que lhe deram, como fazer mais? E será que, mesmo assim, o conseguiria?
Para evitar, em vão, uma seca monumental, o realizador optou pelo pior. Um exagero de ecrãs divididos incompreensíveis, uma acção acelerada sem sentido, uma série de ‘flashbacks’ com personagens de quem pouco ou nada se sabe, sonhos que nos levam para a frente e para trás, como quem nos abana para não adormecermos. Tudo isto com a uma inexplicável ligeireza que passa ao ritmo de um anúncio publicitário de uma bebida energética ou de um teledisco de um qualquer ‘top’ de vendas da MTV.
Houve uma única frase que me ficou deste filme. Quando Aron tenta escavar a rocha que lhe prende o braço recorrendo à lâmina do pequeno alicate que trazia na mochila diz: “Uma lição: não comprem a ferramenta multifunções barata fabricada na China. Eu tentei encontrar o meu canivete suíço, mas...”
Não se iluda. Esta é uma estopada tal que o filme parece demorar o tempo que lhe dá título... Poupe-se ao sofrimento de tentar amputar o braço para sair da sala. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Desta vez o seu “127 Horas” deu que falar pelas seis nomeações para os Óscares, com seis nomeações, incluindo a categoria de Melhor Filme e Melhor Actor. Ficou, no entanto, de mãos a abanar... e bem. Ainda que, como muitos adiantaram a mera nomeação é por vezes um prémio. A ser assim, nem isso merecia.
Outro atractivo do filme é o facto de se basear numa história real. Ainda para mais numa impressionante história de resistência, cujo real protagonista considerou estar até bem reproduzida, excepto por alguns pormenores iniciais. Mas aí está, parece mesmo que estamos perante uma daquelas reconstituições que normalmente se vêem nos programas especializados de sobrevivência dos canais de documentários. E o melhor, talvez, fosse ter-se cingido a essa meia hora televisiva...
Ora a história é mais ou menos conhecida e simples. O aventureiro “radical” e escalador Aron Ralston (James Franco), num passeio sozinho no deserto rochoso do Utah, acaba preso num estreito desfiladeiro por uma rocha que lhe esmaga a mão e parte do antebraço. O final também é conhecido, pelo que fazer um filme sobre este caso extremo só poderia centrar-se no aspecto humano profundo do protagonista. Tal não acontece.
Apesar de muito louvada, a prestação de Franco não é impressionante. Mas, há que dizê-lo, com as condições que lhe deram, como fazer mais? E será que, mesmo assim, o conseguiria?
Para evitar, em vão, uma seca monumental, o realizador optou pelo pior. Um exagero de ecrãs divididos incompreensíveis, uma acção acelerada sem sentido, uma série de ‘flashbacks’ com personagens de quem pouco ou nada se sabe, sonhos que nos levam para a frente e para trás, como quem nos abana para não adormecermos. Tudo isto com a uma inexplicável ligeireza que passa ao ritmo de um anúncio publicitário de uma bebida energética ou de um teledisco de um qualquer ‘top’ de vendas da MTV.
Houve uma única frase que me ficou deste filme. Quando Aron tenta escavar a rocha que lhe prende o braço recorrendo à lâmina do pequeno alicate que trazia na mochila diz: “Uma lição: não comprem a ferramenta multifunções barata fabricada na China. Eu tentei encontrar o meu canivete suíço, mas...”
Não se iluda. Esta é uma estopada tal que o filme parece demorar o tempo que lhe dá título... Poupe-se ao sofrimento de tentar amputar o braço para sair da sala. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
quarta-feira, 23 de março de 2011
Le Choc du Mois n.º 41
Neste número da revista francesa «Le Choc du Mois» o tema principal é "Que pode (verdadeiramente) fazer a Polícia?", com um dossier que inclui vários artigos, entrevistas e uma reportagem com a Brigada Anti-Crime. Destaque também para outro dossier sobre o fim do mundo e a reportagem sobre a juventude neofacista italiana intitulada "Rock around Mussolini".
O valor dos que escolheram o caminho mais difícil
A propósito do cinquentenário da Guerra do Ultramar, é de ler o artigo de Jaime Nogueira Pinto publicado ontem no jornal "i", porque "esta é uma pedra-de-toque das poucas questões políticas do nosso passado próximo. Que divide quanto à política, mas que podia unir, quanto ao valor dos que escolheram então o caminho mais difícil".
terça-feira, 22 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
Primavera
domingo, 20 de março de 2011
Laurent Ozon no Méridien Zéro
O programa Méridien Zéro recebe, na edição de hoje, Laurent Ozon, membro do conselho político do Front National, responsável pela formação de quadros e pelas questões de ecologia. Ozon conta, além disso, com um extenso currículo na área do Ambiente, sendo um dos grandes defensores das teorias do localismo. Como habitualmente, a emissão pode ser escutada através da Radio Bandiera Nera, a partir das 22 horas.
sábado, 19 de março de 2011
O país do Sol (re)nascente
sexta-feira, 18 de março de 2011
Enfrentar o destino
O grande mestre da ficção científica Philip K. Dick teve já diversas das suas obras adaptadas ao cinema. Não esperando propriamente algo à altura do clássico contemporâneo Blade Runner (1982), suscita-me sempre a curiosidade quando um realizador decide levar PKD ao grande ecrã.Desta vez foi a escolha de estreia de George Nolfi, já conhecido como argumentista – o seu mais recente trabalho de escrita foi o último filme da série Bourne, “Ultimato” (2007) –, como realizador. Adaptou o conto “Adjustment Team”, de 1954, e dirigiu um filme que deixa a desejar. O que podia ser uma bela incursão no género ‘sci-fi’, torna-se um ‘thriller’ romântico. Um exercício de entretenimento mais próprio para uma tarde de domingo. Tal não é necessariamente mau, já que a prestação dos protagonistas é boa e certos pormenores evitam o enfado.
Matt Damon, que tem aparecido frequentemente em grandes produções, confirma o seu talento de como actor multifacetado e a dupla que faz com Emily Blunt resulta bastante bem.
A história mostra-nos o jovem e ambicioso político David Norris (Matt Damon), em plena campanha eleitoral e a caminho de um promissor futuro. Depois de um percalço que o desvia de uma vitória anunciada, conhece a bela bailarina contemporânea Elise Sellas (Emily Blunt) que não lhe sai da cabeça. Parecem destinados um ao outro, mas de quem depende o destino?
Cedo Norris descobre acidentalmente, para sua total estupefacção, que há agentes do destino que têm como missão assegurar que tudo se mantenha “de acordo com o plano”. Para tal trabalham em equipa e dispõem de vários poderes. Um deles é a impressionante facilidade das passagens espácio-temporais que lhes permitem “saltar” de um lado para outro com óbvia vantagem sobre o perseguido. Este é um pormenor interessante, já que a forma de entrar nestes canais é através de portas que aparentam ser normais. Outro ponto curioso é o do guarda-roupa bem conseguido destes agentes, sempre de chapéu, num estilo algo ‘fifties’.
Decididos a cumprir a sua missão, que não questionam, os agentes vão perseguir os protagonistas acelerando a acção do filme numa corrida de tirar o fôlego que nos leva, infelizmente, a um final fraco e mais que previsível.
O ponto forte está nas questões maiores que toda a história levanta e que o realizador-argumentista parece relegar, a medo, para segundo plano. Será que o livre-arbítrio condena a humanidade? O homem contra quem o controla, contra quem lhe delineou os planos. Contra toda uma máquina que assegura o cumprimento desses planos previamente delineados. Pode o homem alterar o seu destino? E quando o amor se atravessa no caminho... Pode o amor mudar o destino? [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
quinta-feira, 17 de março de 2011
Manif
Quando oiço falar em manifestações em Portugal, lembro-me sempre de uma peça jornalística televisiva sobre um dos protestos da função pública liderados pela esquerda.
A determinada altura, uma jovem repórter entrevistava um elemento, com uma retórica saída directamente da cassete do PCP, que se destacava de um grupo que tinha vindo de uma localidade do interior do País. Depois de umas tiradas decoradas, mecânicas, sem sentido, eis que se chegou ao ponto alto da conversa. Perguntado sobre o que trazia no farnel, o manifestante respondeu com um sorriso que para além do chouriço e outros enchidos, tinha também um garrafão de vinho tinto da sua região. Foi o que despertou a atenção dos seus companheiros e mostrou aquilo em que todos estavam de acordo – a festa.
Tratava-se, na realidade, de um passeio a Lisboa com a desculpa de protesto.
É isso que mais parece ter sido a manifestação de dia 12 de Março. Não contestando algum mal-estar e louvando a mobilização de um Povo que normalmente fica em casa e guarda as críticas para o café vemos que o registo das “manifs” pouco mudou.
Apenas com o agravar das condições económicas e sociais se criará um estado extremo que levará as pessoas a revoltarem-se verdadeiramente. Mas, mesmo que aí cheguemos, qual será o seu objectivo? E será que lá chegaremos?
Os que sonham com novas “revoluções” ou revoltas ao estilo norte-africano arriscam-se mais a acordar para verificar que, afinal, nada mudou.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
A determinada altura, uma jovem repórter entrevistava um elemento, com uma retórica saída directamente da cassete do PCP, que se destacava de um grupo que tinha vindo de uma localidade do interior do País. Depois de umas tiradas decoradas, mecânicas, sem sentido, eis que se chegou ao ponto alto da conversa. Perguntado sobre o que trazia no farnel, o manifestante respondeu com um sorriso que para além do chouriço e outros enchidos, tinha também um garrafão de vinho tinto da sua região. Foi o que despertou a atenção dos seus companheiros e mostrou aquilo em que todos estavam de acordo – a festa.
Tratava-se, na realidade, de um passeio a Lisboa com a desculpa de protesto.
É isso que mais parece ter sido a manifestação de dia 12 de Março. Não contestando algum mal-estar e louvando a mobilização de um Povo que normalmente fica em casa e guarda as críticas para o café vemos que o registo das “manifs” pouco mudou.
Apenas com o agravar das condições económicas e sociais se criará um estado extremo que levará as pessoas a revoltarem-se verdadeiramente. Mas, mesmo que aí cheguemos, qual será o seu objectivo? E será que lá chegaremos?
Os que sonham com novas “revoluções” ou revoltas ao estilo norte-africano arriscam-se mais a acordar para verificar que, afinal, nada mudou.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
quarta-feira, 16 de março de 2011
Nas paredes
terça-feira, 15 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
Méridien Zéro recebe a revista Rébellion
A edição de hoje do programa Méridien Zéro tem como convidados os dinamizadores da revista Rébellion, publicação bimestral de carácter socialista, revolucionário e europeísta. Como sempre, a emissão pode ser escutada através da Radio Bandiera Nera, e tem início às 22 horas portuguesas.
quinta-feira, 10 de março de 2011
O western vive
Os irmãos Coen formam uma dupla talentosa que já nos ofereceu verdadeiras pérolas cinematográficas como “Fargo” (1996), “O Grande Lebowsky” (1998), ou mais recentemente “Este Pais Não é para Velhos” (2007). Agora decidiram mostrar que ainda é possível fazer um ‘western’ e, felizmente, realizaram-no majestosamente.
Para fazer um clássico moderno, recorreram a outro clássico, o romance “True Grit”, de Charles Portis, que deu origem ao filme “Velha Raposa” (1969), de Henry Hathaway, que deu o Óscar a John Wayne. O resultado não podia ter sido melhor e os Coen conseguiram mostrar que o ‘western’ é um género que ainda vive.
O protagonista deste história é Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um ‘marshall’ do Oeste norte-americano com um currículo que fala por si, mas com um feitio dos diabos, dedo leve no gatilho e uma tendência para o abuso do álcool. Até ele chega Mattie Ross (Hailee Steinfeld) uma jovem de 14 anos que o contrata para encontrar Tom Chaney (Josh Brolin), o ladrão que matou o seu pai, para o trazer à justiça. Apesar da sua tenra idade, ela revela-se muito hábil no duro mundo dos adultos e determinada a conseguir o que quer. Atrás de Chaney anda também Laboeuf (Matt Damon), um ‘ranger’ do Texas que se junta nesta caça ao homem e à recompensa, com um estilo totalmente diferente de Rooster. É a partir desse triângulo que se forma que se desenvolve toda a acção do filme.
Os desempenhos do veterano Jeff Briges - o ‘Dude’ de “O Grande Lebowsky” - e da jovem Hailee Steinfeld são magistrais. Ele confirma da melhor forma e com todo o à vontade o grande actor que é. Ela deixa-nos pasmados com tamanho talento e espantosa segurança numa actriz tão nova que agora inicia uma carreira, que será certamente promissora.
Nesta verdadeira ode ao pioneirismo e à fundação da América encontramos todos os elementos do ‘western’, da sessão pública de enforcamento à cena num ‘saloon’, na cidade, e das planícies às montanhas. Temos heróis e bandidos, tiros e cavalgadas, coragem e enganos. E, para terminar, um final fabuloso.
Esquecido nos Globos de Ouro, parecia que as 10 nomeações para os Óscares, incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actor Principal e Melhor Actriz Secundária, consagrariam “Indomável”. Tal não aconteceu e o filme saiu da cerimónia de mãos a abanar. Por seu lado, os realizadores viram os seus bolsos cheios com aquele que está a ser o maior sucesso comercial da sua carreira até agora.
Sem prémios, mas com o reconhecimento do público, este é sem dúvida um dos melhores filmes do ano. Um grande ‘western’ dos manos Coen, que se espera que continuem indomáveis. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Para fazer um clássico moderno, recorreram a outro clássico, o romance “True Grit”, de Charles Portis, que deu origem ao filme “Velha Raposa” (1969), de Henry Hathaway, que deu o Óscar a John Wayne. O resultado não podia ter sido melhor e os Coen conseguiram mostrar que o ‘western’ é um género que ainda vive.
O protagonista deste história é Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um ‘marshall’ do Oeste norte-americano com um currículo que fala por si, mas com um feitio dos diabos, dedo leve no gatilho e uma tendência para o abuso do álcool. Até ele chega Mattie Ross (Hailee Steinfeld) uma jovem de 14 anos que o contrata para encontrar Tom Chaney (Josh Brolin), o ladrão que matou o seu pai, para o trazer à justiça. Apesar da sua tenra idade, ela revela-se muito hábil no duro mundo dos adultos e determinada a conseguir o que quer. Atrás de Chaney anda também Laboeuf (Matt Damon), um ‘ranger’ do Texas que se junta nesta caça ao homem e à recompensa, com um estilo totalmente diferente de Rooster. É a partir desse triângulo que se forma que se desenvolve toda a acção do filme.
Os desempenhos do veterano Jeff Briges - o ‘Dude’ de “O Grande Lebowsky” - e da jovem Hailee Steinfeld são magistrais. Ele confirma da melhor forma e com todo o à vontade o grande actor que é. Ela deixa-nos pasmados com tamanho talento e espantosa segurança numa actriz tão nova que agora inicia uma carreira, que será certamente promissora.
Nesta verdadeira ode ao pioneirismo e à fundação da América encontramos todos os elementos do ‘western’, da sessão pública de enforcamento à cena num ‘saloon’, na cidade, e das planícies às montanhas. Temos heróis e bandidos, tiros e cavalgadas, coragem e enganos. E, para terminar, um final fabuloso.
Esquecido nos Globos de Ouro, parecia que as 10 nomeações para os Óscares, incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actor Principal e Melhor Actriz Secundária, consagrariam “Indomável”. Tal não aconteceu e o filme saiu da cerimónia de mãos a abanar. Por seu lado, os realizadores viram os seus bolsos cheios com aquele que está a ser o maior sucesso comercial da sua carreira até agora.
Sem prémios, mas com o reconhecimento do público, este é sem dúvida um dos melhores filmes do ano. Um grande ‘western’ dos manos Coen, que se espera que continuem indomáveis. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
quarta-feira, 9 de março de 2011
Família
Segundo uma sondagem revelada pelo jornal “Público” sobre a família, percebemos que esta mudou e que os inquiridos sentem que foi para pior.
Aqueles que anseiam pelo progresso perpétuo e defendem qualquer mudança como necessariamente positiva, tentam a todo o custo derrubar os últimos pilares que sustentam as nações, os povos, as identidades. A família tem sido um dos seus alvos preferenciais. Eles sabem onde se deve atingir.
No mundo hedonista de hoje, a prioridade económica vai para os bens materiais e o individualismo crescente atira as relações duradouras para o cesto dos “comportamentos retrógrados”. Por outro lado, as cada vez mais influentes redes (as)sociais facilitam as infidelidades e o relacionamento virtual. As duras consequências são sobejamente conhecidas. Da quebra demográfica acentuada ao desprezo desavergonhado pelos mais velhos, passando pela total desvalorização da vida conjunta. Assim se vai perdendo, um pouco por todo o lado, o sentimento de comunidade – essa força tão importante para enfrentar difíceis tempos de crise e para perpetuar um todo nacional.
Perante este cenário, creio sinceramente que a família continua a ser uma instituição que deve servir de modelo para a construção e preservação social. Sem anacronismos, há que afirmar que a família é, e continuará a ser, a base da sociedade. Da sociedade como a queremos continuar a construir.
Post Scriptum – Muito obrigado a todos os leitores que me endereçaram os parabéns e desejaram um bom trabalho na direcção deste semanário. O vosso apoio é essencial para o nosso jornal.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
Aqueles que anseiam pelo progresso perpétuo e defendem qualquer mudança como necessariamente positiva, tentam a todo o custo derrubar os últimos pilares que sustentam as nações, os povos, as identidades. A família tem sido um dos seus alvos preferenciais. Eles sabem onde se deve atingir.
No mundo hedonista de hoje, a prioridade económica vai para os bens materiais e o individualismo crescente atira as relações duradouras para o cesto dos “comportamentos retrógrados”. Por outro lado, as cada vez mais influentes redes (as)sociais facilitam as infidelidades e o relacionamento virtual. As duras consequências são sobejamente conhecidas. Da quebra demográfica acentuada ao desprezo desavergonhado pelos mais velhos, passando pela total desvalorização da vida conjunta. Assim se vai perdendo, um pouco por todo o lado, o sentimento de comunidade – essa força tão importante para enfrentar difíceis tempos de crise e para perpetuar um todo nacional.
Perante este cenário, creio sinceramente que a família continua a ser uma instituição que deve servir de modelo para a construção e preservação social. Sem anacronismos, há que afirmar que a família é, e continuará a ser, a base da sociedade. Da sociedade como a queremos continuar a construir.
Post Scriptum – Muito obrigado a todos os leitores que me endereçaram os parabéns e desejaram um bom trabalho na direcção deste semanário. O vosso apoio é essencial para o nosso jornal.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
terça-feira, 8 de março de 2011
domingo, 6 de março de 2011
Jean Haudry no Méridien Zéro
Esta semana, o programa Méridien Zéro tem como convidado o Prof. Jean Haudry, conhecido linguista francês e fundador do Instituto de Estudos Indo-Europeus na Universidade Lyon III. O tema da emissão, como não podia deixar de ser, são os Indo-Europeus. Como é habitual, o programa tem início às 22 horas portuguesas e pode ser escutada através Radio Bandiera Nera.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Alain de Benoist em Coimbra
Hitler e os livros
Já aqui me tinha referido à relação de Hitler com os livros, a propósito de “Hitler’s Library”, de Ambrus Miskolczy. Sobre o mesmo tema publiquei no semanário «O Diabo» e noutra casa uma recensão ao livro “A Biblioteca Privada de Hitler – Os Livros que Moldaram a sua Vida”, recém-publicado entre nós. Aqui fica.
A biblioteca "maldita"
A Civilização publicou um olhar sobre a biblioteca particular de Hitler que tenta revelar os livros que mais o influenciaram. Um campo novo para tentar descobrir o pensamento do führer
Adolf Hitler é visto normalmente como uma “encarnação do mal” e deve ser a figura do século XX sobre quem mais obras se publicaram. No entanto, muitas delas raramente trazem algo de verdadeiramente novo sobre o líder do III Reich, que viu o seu fim num dos períodos mais trágicos da História da Europa. Agora, para colmatar a falta, eis que com agrado chega pela mão da Civilização Editora, “A Biblioteca Privada de Hitler – Os Livros que Moldaram a sua Vida” (capa mole, 316 páginas, 18,90 euros).
As pilhagens e a destruição do pós-guerra fizeram desaparecer grande parte dos mais de 16 mil volumes que compunham a biblioteca de Hitler. Do que sobrou, Timothy W. Ryback seleccionou alguns para contarem a história do seu proprietário, do Guia de Berlim de Max Osborn, comprado durante a Primeira Guerra Mundial, à biografia de Frederico II, de Thomas Carlyle, oferecida por Goebbels em 1945, passando pela “bíblia” rácica norte-americana de Madison Grant.
Segundo ele, Hitler tinha "D. Quixote", "Robinson Crusoe", "A Cabana do Pai Tomás" e "As Viagens de Gulliver" entre as grandes obras da literatura mundial e considerava Shakespeare superior a Goethe e Schiller.
O autor não se refere apenas ao conteúdo das obras e à sua influência. É bastante interessante a forma como descreve fisicamente os exemplares, o seu estado, dedicatórias e anotações.
Nota positiva também para a imagem da capa, uma belíssima fotografia de Heinrich Hoffmann, que na edição portuguesa está maior e a cores, ao contrário da versão reduzida e a preto e branco da edição original.
Esta obra não chega a ser uma biografia intelectual de Hitler, nem uma análise sistemática da sua biblioteca. É uma interpretação feita num estilo mais ligeiro, claramente destinada a um público mais abrangente. Não obstante deixar muito a desejar, tem o mérito de despertar a curiosidade para um aspecto pouco conhecido e por vezes até ignorado da vida de Hitler. Kubizek, amigo de juventude de Hitler, disse que “os livros eram o seu mundo”. Que melhor sítio para tentar compreendê-lo do que na sua biblioteca? [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
A biblioteca "maldita"
A Civilização publicou um olhar sobre a biblioteca particular de Hitler que tenta revelar os livros que mais o influenciaram. Um campo novo para tentar descobrir o pensamento do führer
Adolf Hitler é visto normalmente como uma “encarnação do mal” e deve ser a figura do século XX sobre quem mais obras se publicaram. No entanto, muitas delas raramente trazem algo de verdadeiramente novo sobre o líder do III Reich, que viu o seu fim num dos períodos mais trágicos da História da Europa. Agora, para colmatar a falta, eis que com agrado chega pela mão da Civilização Editora, “A Biblioteca Privada de Hitler – Os Livros que Moldaram a sua Vida” (capa mole, 316 páginas, 18,90 euros).As pilhagens e a destruição do pós-guerra fizeram desaparecer grande parte dos mais de 16 mil volumes que compunham a biblioteca de Hitler. Do que sobrou, Timothy W. Ryback seleccionou alguns para contarem a história do seu proprietário, do Guia de Berlim de Max Osborn, comprado durante a Primeira Guerra Mundial, à biografia de Frederico II, de Thomas Carlyle, oferecida por Goebbels em 1945, passando pela “bíblia” rácica norte-americana de Madison Grant.
Segundo ele, Hitler tinha "D. Quixote", "Robinson Crusoe", "A Cabana do Pai Tomás" e "As Viagens de Gulliver" entre as grandes obras da literatura mundial e considerava Shakespeare superior a Goethe e Schiller.
O autor não se refere apenas ao conteúdo das obras e à sua influência. É bastante interessante a forma como descreve fisicamente os exemplares, o seu estado, dedicatórias e anotações.
Nota positiva também para a imagem da capa, uma belíssima fotografia de Heinrich Hoffmann, que na edição portuguesa está maior e a cores, ao contrário da versão reduzida e a preto e branco da edição original.
Esta obra não chega a ser uma biografia intelectual de Hitler, nem uma análise sistemática da sua biblioteca. É uma interpretação feita num estilo mais ligeiro, claramente destinada a um público mais abrangente. Não obstante deixar muito a desejar, tem o mérito de despertar a curiosidade para um aspecto pouco conhecido e por vezes até ignorado da vida de Hitler. Kubizek, amigo de juventude de Hitler, disse que “os livros eram o seu mundo”. Que melhor sítio para tentar compreendê-lo do que na sua biblioteca? [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
quarta-feira, 2 de março de 2011
Óscares 2011
A Academia estava muito preocupada com a baixa de audiências da cerimónia dos Óscares e foi algo que se notou da pior forma este ano. Numa tentativa de fazer uma coisa “jovem” escolheu como apresentadores James Franco e Anne Hathaway e encolheu a duração do evento, pondo actores a despachar, literalmente, a entrega dos galardões.Para o ano há mais e espera-se que seja melhor (não é difícil). Mesmo para inovar, convém aprender com as boas lições do passado…
Derrotados
“A Rede Social”, com oito nomeações, venceu três, das quais Melhor Argumento Adaptado. Uma justíssima e esperada consagração do notável trabalho de Aaron Sorkin. Mesmo assim, com toda a expectativa criada e ao falhar a merecida melhor realização para David Fincher, é um perdedor.
“Indomável”, o magnífico ‘western’ dos irmãos Coen, com dez nomeações, ficou de mãos a abanar. É pena, porque este foi um dos filmes do ano com representações fantásticas do veterano Jeff Bridges e da jovem Hailee Steinfeld.
A xaropada “127 Horas”, com seis nomeações, também ficou a ver navios… e bem. Ainda que, como muitos disseram, a mera nomeação é por vezes um prémio. Se foi o caso, nem isso merecia.
Na animação, a segunda nomeação de um filme de Sylvain Chomet, o maravilhoso “O Mágico”, perdeu para o forte adversário da casa “Toy Story 3”.
Vencedores
“O Discurso do Rei”, foi o grande vencedor da noite. Apesar de só conseguir quatro das doze estatuetas para as quais estava nomeado, foi considerado o Melhor Filme, contra uma concorrência de peso, Tom Hooper conseguiu ser reconhecido como Melhor Realizador e Colin Firth como Melhor Actor, não esquecendo o prémio de Melhor Argumento Original para David Seidler.
“A Origem”, de Christopher Nolan, filme que sinceramente me desiludiu, acabou por ganhar quatro das oito categorias para as quais tinha sido seleccionado. Apesar de serem mais técnicas, não deixa de ser uma vitória.
No documentário “Inside Job – A Verdade da Crise”, um merecidíssimo reconhecimento do trabalho corajoso de Charles Ferguson sobre os responsáveis pela actual crise financeira.
Natalie Portman, contrariando certas críticas, venceu justa e esperadamente o Óscar para a Melhor Actriz, pelo seu desempenho em “Cisne Negro”. Foi a única estatueta das cinco nomeações deste filme de Darren Aronofsky.
“The Fighter – O Último Round”, acabou também por ser o vencedor dos papéis secundários. Premiando os belos desempenhos de Christian Bale e Melissa Leo. Curisoamente tiveram os melhores discursos da noite. O dele bastante sincero e o dela tão admirada que até soltou “the f word”, como dizem os americanos. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
terça-feira, 1 de março de 2011
Um dia d'O Diabo especial
Este é o meu primeiro dia como director do semanário «O Diabo». Um novo desafio para o qual espero estar à altura. Abaixo fica a capa, como habitualmente, e o meu editorial.
Aos leitores
Sou pouco mais velho do que “O Diabo” e este foi um jornal com o qual, literalmente, cresci. Desde criança que me recordo de ver este semanário em casa dos meus avós e não resistir ao seu logótipo, o que me fazia amiúde recortar os vários desenhos que ilustravam as secções.
Talvez daí tenha nascido a minha paixão pela imprensa e o verdadeiro vício pelos jornais, que se foi agravando. Recordo também os elogios feitos a Vera Lagoa, cuja independência e importância eram louvadas por familiares por quem tinha o maior respeito e consideração. Talvez aí tenha percebido que há mais no jornalismo do que as meras notícias e que o “quarto poder” é uma fonte de tentações, para muitos irresistíveis.
Já no liceu, quando a política me começou a atrair, tornei-me leitor regular de “O Diabo”, para estranheza de muitos condiscípulos e choque de alguns professores, para mais tarde, já na Faculdade, começar a colaborar esporadicamente na imprensa.
De há um ano a esta parte tenho colaborado regularmente neste semanário e assistido à solidificação de uma equipa motivada pela vontade de continuar um marco de irreverência e coragem no panorama nos jornais nacionais.
Encontrei nesta redacção uma segunda casa e alguém que depositou em mim a confiança para continuar o seu trabalho. Ao José Esteves Pinto não posso deixar de agradecer tal honra e reconhecer o seu esforço de tantos anos com um grande abraço.
Aos leitores que sempre nos acompanharam cabe-me apenas garantir que, com a incansável redacção e dedicados colaboradores, darei o meu melhor para continuar o nosso jornal. [publicado na edição de hoje de «O Diabo»]
Aos leitores
Sou pouco mais velho do que “O Diabo” e este foi um jornal com o qual, literalmente, cresci. Desde criança que me recordo de ver este semanário em casa dos meus avós e não resistir ao seu logótipo, o que me fazia amiúde recortar os vários desenhos que ilustravam as secções.
Talvez daí tenha nascido a minha paixão pela imprensa e o verdadeiro vício pelos jornais, que se foi agravando. Recordo também os elogios feitos a Vera Lagoa, cuja independência e importância eram louvadas por familiares por quem tinha o maior respeito e consideração. Talvez aí tenha percebido que há mais no jornalismo do que as meras notícias e que o “quarto poder” é uma fonte de tentações, para muitos irresistíveis.
Já no liceu, quando a política me começou a atrair, tornei-me leitor regular de “O Diabo”, para estranheza de muitos condiscípulos e choque de alguns professores, para mais tarde, já na Faculdade, começar a colaborar esporadicamente na imprensa.
De há um ano a esta parte tenho colaborado regularmente neste semanário e assistido à solidificação de uma equipa motivada pela vontade de continuar um marco de irreverência e coragem no panorama nos jornais nacionais.
Encontrei nesta redacção uma segunda casa e alguém que depositou em mim a confiança para continuar o seu trabalho. Ao José Esteves Pinto não posso deixar de agradecer tal honra e reconhecer o seu esforço de tantos anos com um grande abraço.
Aos leitores que sempre nos acompanharam cabe-me apenas garantir que, com a incansável redacção e dedicados colaboradores, darei o meu melhor para continuar o nosso jornal. [publicado na edição de hoje de «O Diabo»]
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O amigo do Rei
“O Discurso do Rei” tem todos os ingredientes para ser um sucesso comercial. É um ‘biopic’ de uma figura da realeza britânica, passado num ambiente histórico e baseado em factos reais. Rapidamente se tornou um dos favoritos aos Óscares, tendo sido nomeado para doze categorias, incluindo a de melhor filme e a de melhor realização.
Tom Hooper, que já havia experimentado o género histórico com as mini-séries “Elizabeth I” (2005) e “John Adams” (2008), realiza um filme mais íntimo, longe de uma grandeza que alguns esperariam, por se passar num período crucial na História da Europa.
Nos anos 30 do século XX, na iminência da Segunda Guerra Mundial, o poder da rádio revela-se da maior importância para a afirmação do soberano perante as massas. A seguir à gravação de uma mensagem de Natal, o rei Jorge V tem um diálogo com o seu segundo filho, o príncipe Alberto, duque de York, no qual chegam à conclusão de que se “tornaram actores”... A rádio é considerada por muitos, à época, como uma verdadeira “caixa de Pandora”, mas é impossível ignorá-la.
No entanto, o príncipe é atormentado pela sua gaguez desde criança, algo que agora se revela um problema ainda maior. A duquesa incita-o a consultar todos os especialistas da área, mas sem êxito. Finalmente, decide recorrer a um terapeuta da fala australiano, cujos métodos são no mínimo estranhos e incluem palavrões e exercícios físicos.
Com a morte do seu pai e a abdicação do seu irmão, o futuro Jorge VI depende directamente de Lionel Logue (Geoffrey Rush) para ultrapassar o seu impedimento de comunicação. Durante os tratamentos desenvolve-se entre ambos uma intimidade que resultará numa amizade profunda. Mas até aí chegar, o caminho será sinuoso. Para além da distinção de classe entre um membro da família real e um súbdito, Logue é um “aussie”, um “colonial”, algo que o situa na base da estrutura social da altura. Por outro lado, este terapeuta excêntrico apercebeu-se pela experiência que a gaguez tem causas psicológicas e consegue entrar na traumatizante adolescência de um príncipe que está longe de ser uma “história de princesas”.
O papel de Jorge VI, notoriamente difícil, é esplendidamente representado por Colin Firth, bem acompanhado pelos desempenhos de Geoffrey Rush e de Helena Bonham Carter.
Esta é uma história de um homem que ultrapassa uma adversidade que o parecia limitar para sempre, para chegar a um desafio ainda maior. Depois de assistir, em família, ao pequeno filme noticioso da sua coroação, Jorge VI vê imagens de um discurso de Adolf Hitler. Uma das filhas pergunta-lhe o que ele está a dizer, ao que o rei responde: “Não sei... mas está a dizê-lo muito bem”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Tom Hooper, que já havia experimentado o género histórico com as mini-séries “Elizabeth I” (2005) e “John Adams” (2008), realiza um filme mais íntimo, longe de uma grandeza que alguns esperariam, por se passar num período crucial na História da Europa.
Nos anos 30 do século XX, na iminência da Segunda Guerra Mundial, o poder da rádio revela-se da maior importância para a afirmação do soberano perante as massas. A seguir à gravação de uma mensagem de Natal, o rei Jorge V tem um diálogo com o seu segundo filho, o príncipe Alberto, duque de York, no qual chegam à conclusão de que se “tornaram actores”... A rádio é considerada por muitos, à época, como uma verdadeira “caixa de Pandora”, mas é impossível ignorá-la.
No entanto, o príncipe é atormentado pela sua gaguez desde criança, algo que agora se revela um problema ainda maior. A duquesa incita-o a consultar todos os especialistas da área, mas sem êxito. Finalmente, decide recorrer a um terapeuta da fala australiano, cujos métodos são no mínimo estranhos e incluem palavrões e exercícios físicos.
Com a morte do seu pai e a abdicação do seu irmão, o futuro Jorge VI depende directamente de Lionel Logue (Geoffrey Rush) para ultrapassar o seu impedimento de comunicação. Durante os tratamentos desenvolve-se entre ambos uma intimidade que resultará numa amizade profunda. Mas até aí chegar, o caminho será sinuoso. Para além da distinção de classe entre um membro da família real e um súbdito, Logue é um “aussie”, um “colonial”, algo que o situa na base da estrutura social da altura. Por outro lado, este terapeuta excêntrico apercebeu-se pela experiência que a gaguez tem causas psicológicas e consegue entrar na traumatizante adolescência de um príncipe que está longe de ser uma “história de princesas”.
O papel de Jorge VI, notoriamente difícil, é esplendidamente representado por Colin Firth, bem acompanhado pelos desempenhos de Geoffrey Rush e de Helena Bonham Carter.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
É preciso caminhar...
Hoje, o programa Méridien Zéro tem como tema as caminhadas e convida Fanny e Mathilde, que fizeram uma volta à Europa a pé, e Werner, animador do grupo TRACE. A emissão francófona da Radio Bandiera Nera pode ser escutada às 22 horas portuguesas.
Lanceiro - Cadernos Militares nº 4
O último número da revista "Lanceiro - Cadernos Militares" tem a destacar os artigos "Pintura Histórico-Militar", do TCor Cav Marcos Andrade, "Sargentos-Mores", pelo SMor Cav Fernando Lourenço, a conclusão de "Tentativas e Golpes Militares", de Roberto de Moraes, o discurso de António Barreto na sessão solene do 10 de Junho de 2010, entre outros, para além das secções habituais. Pode ser adquirida nas livrarias Barata e Férin, em Lisboa, ou encomendada através do endereço de correio electrónico: jornallanceiro@gmail.com.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Réfléchir & Agir n.º 37
O último número da imprescindível «Réfléchir & Agir», a “revista autónoma de desintoxicação ideológica”, tem como tema central “Para uma economia enraizada e solidária”, e oferece um dossier com artigos de Eugène Krampon, Georges Feltin-Tracol, Henri de Robert, Tanguy Douar, Fabrice Léhenaire, André Fauvin, François Pernet e uma entrevista com Michel Drac. Destaque ainda para a grande entrevista com a Philippe d'Hugues sobre o cinema, o artigo de Christian Bouchet sobre a história da direita radical russa, a reflexão sobre “Modernidade, pós-modernidade e hipermodernidade”, de Edouard Rix, e os artigos “Nas fontes da ecologia”, de Thomas de Pieri, e “O caso Houellebecq”, de Pierre Gillieth. Nas notas de leitura, temos várias páginas de livros para descobrir. Não esquecendo as habituais críticas, música e cinema, os breves comentários à actualidade e outras secções habituais. Referência ainda para a breve entrevista com Lieutenant Sturm, o principal animador do Méridien Zéro, o programa francês da Radio Bandiera Nera.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Mortos: 200 Milhões - Todos Nós
Esta é a capa da edição portuguesa de "Le Camp des Saints", de Jean Raspail, publicado pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”, recentemente reeditado em França. Como afirmei num post a que chamei "perigosa parábola", urge republicá-lo no nosso país.
A sinopse desta obra premonitória rezava assim:
«Um dia, num futuro que não vem longe, uma estranha frota de velhos navios corroídos pelo tempo e pelo uso parte do golfo de Bengala e ruma em direcção à Europa. Traz a bordo um milhão de estropiados: os esfomeados dos "países subdesenvolvidos", que, cansados da miséria, resolvem bater às portas do paraíso do homem branco.
Como irá ele reagir à invasão pacífica dos que vêm buscar abrigo nas suas terras? Com a respiração suspensa, o mundo espera. Entretanto, ao longo de todas as fronteiras do hemisfério rico, outros milhões de homens - muitos - aguardam para se aventurarem também à conquista do paraíso...
Ficção científica? E talvez não, se tivermos presentes as previsões demográficas para o ano 2000...
É este o grave problema que Jean Raspail nos propõe neste romance grave. Um romance em que, através do trágico ou do burlesco das situações imaginadas, o autor assume uma posição que o leitor pode aceitar ou rejeitar. O problema, esse, talvez não possa ignorá-lo...»
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
O lado negro
O primeiro filme de Darren Aronofsky que vi foi “A vida não é um sonho” (2000), uma viagem alucinante ao vício e à espiral descendente da degradação humana e nunca mais esqueci o nome deste realizador. Anos depois, em 2008, voltaria a surpreender com o excelente “Wrestler”, onde Mickey Rourke interpretou magistralmente um lutador em fim de carreira. Foi, assim, com certa expectativa que vi “O Cisne Negro”, filme que levou Aronofsky de novo ao mundo do espectáculo e suscitou críticas antagónicas, quase numa oposição amor/ódio.A história desenrola-se em Nova Iorque, no seio de uma companhia de ‘ballet’. Preparando o início da nova temporada, o director, Thomas Leroy (Vincent Cassel), faz um ‘casting’ para a escolha da substituta da anterior estrela, Beth MacIntyre (Winona Ryder). Nesta produção de “O Lago dos Cisnes”, a protagonista tem que desempenhar tanto o papel de Cisne Branco como o de Cisne Negro. A jovem e dedicada Nina Sayers (Natalie Portman) desperta a atenção do director, pela sua técnica e desempenho como Cisne Branco. No entanto, ele hesita em seleccioná-la, duvidando que ela consiga ultrapassar a sua rigidez para atingir a paixão necessária para representar o Cisne Negro.
Ela acaba por conseguir o lugar, para grande felicidade da sua mãe omnipresente e controladora da sua carreira. Mas o caminho para a revelação do seu “lado negro” está longe de ser fácil. A tensão entre ela e Thomas cresce, ao mesmo tempo que, como uma sombra, uma bailarina recém-chegada à companhia, Lily (Mila Kunis), a começa a atormentar.
Esta busca desse lado mais solto, mais apaixonado, há que largar certas restrições. Romper com a rapariga “certinha” e dar asas ao sentimento. Este processo implica uma perda da inocência. Uma transformação. O romper com uma ordem estabelecida.
Tudo isto se passa ao som de uma banda sonora baseada na obra de Tchaikovsky, no ritmo gracioso do bailado e com uma representação de suster a respiração por parte de Natalie Portman. Alguma da crítica falou de ‘overacting’, mas na minha opinião ela encarna perfeitamente a personagem.
Na realização, Aronofsky continua com a sua “câmara ao ombro” que funciona muito bem. O mesmo não se pode dizer quando descai para um registo mais próximo do terror. A coisa não sai bem e era melhor ter-se mantido no ‘suspense’ puro e duro. Por falar nisso, há na história um jogo de espelhos que é transposto literalmente para a tela. As alucinações de Nina são, assim, sentidas pelo público.
Todo este tormento é uma transformação. Todo este percurso é uma busca da perfeição. Esta é a mensagem do filme. Até onde estamos dispostos a ir pela perfeição? O que estamos dispostos a mudar para atingir um fim? Mesmo que esse seja o nosso lado negro... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Um artigo a reter
Corria o ano de 2004 quando nesta casa partilhei um excerto do excelente artigo "Léon Krier e a Modernidade da Arquitectura Tradicional", do Francisco Cabral de Moncada. Infelizmente, a ligação para o texto integral perdeu-se, passando a estar inacessível. É por isso que, não podia deixar de saudar o João Marchante, que em boa hora o decidiu reproduzir, bipartido, no seu blog. Um abraço para ambos, em especial para o Francisco, com quem tive o prazer de almoçar há uma semana.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
As raízes anglo-saxónicas do Mundialismo
Hoje, o programa Méridien Zéro tem como tema as raízes anglo-saxónicas do Mundialismo e como convidados Jean-Patrick Arteault e F. Sainz. A emissão francófona da Radio Bandiera Nera é emitida às 22 horas portuguesas.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
35 anos contra o Sistema
A propósito dos 35 anos que hoje completa o semanário «O Diabo», aqui deixo o editorial que escrevi na última edição.
Há 35 anos Portugal era um País muito diferente. Depois do Verão Quente de 75, com o VI Governo Provisório em funções e sob observação apertada do Conselho da Revolução, nascia uma voz incómoda no panorama da imprensa nacional. Um jornal assumidamente anti-sistema, que nunca se calou. Nunca deixou de denunciar as injustiças apesar de todas as adversidades e contra todos os que o tentaram silenciar.
Hoje muita coisa mudou, mas a dependência económica, a ditadura do politicamente correcto, entre tantos outros factores de pressão, sujeitam a imprensa dita “de referência” a uma onda uniformizadora que faz lembrar outros tempos. Por outro lado, o estado alarmante do País e a assustadora inversão de valores justificam a persistência deste jornal de “combate e cultura”, como o considerava a sua fundadora.
O combate continua, contra os que vão espoliando Portugal, os que “se vão governando”, estejam ou não no governo. Na cultura, que cada vez mais é nivelada por baixo, há que assegurar a divulgação dos não-alinhados, dos alternativos, dos dissidentes.
O Diabo é, assim, um exemplo de independência e irreverência que nunca deixou de se renovar, permanecendo fiel aos seus princípios fundadores. Um jornal de futuro, com um espírito de rebeldia, essencial para recusar o conformismo e enfrentar o pensamento único reinante.
Hoje muita coisa mudou, mas a dependência económica, a ditadura do politicamente correcto, entre tantos outros factores de pressão, sujeitam a imprensa dita “de referência” a uma onda uniformizadora que faz lembrar outros tempos. Por outro lado, o estado alarmante do País e a assustadora inversão de valores justificam a persistência deste jornal de “combate e cultura”, como o considerava a sua fundadora.
O combate continua, contra os que vão espoliando Portugal, os que “se vão governando”, estejam ou não no governo. Na cultura, que cada vez mais é nivelada por baixo, há que assegurar a divulgação dos não-alinhados, dos alternativos, dos dissidentes.
O Diabo é, assim, um exemplo de independência e irreverência que nunca deixou de se renovar, permanecendo fiel aos seus princípios fundadores. Um jornal de futuro, com um espírito de rebeldia, essencial para recusar o conformismo e enfrentar o pensamento único reinante.
Combate e cultura
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Embrulhada
O bem conhecido e neurótico realizador Woody Allen, desde há uns anos, tem tido uma fase “europeia” com boas surpresas. É o caso do excelente “Match Point” (2005), num registo britânico belissimamente conseguido, ou de “Vicky Cristina Barcelona” (2008), um delírio com algum sangue quente ibérico. Foi, assim, com expectativas algo elevadas, que vi “Vais conhecer o homem dos teus sonhos” para sair do cinema à espera de mais.
O que está em causa nesta história, como não podia deixar de ser, são as desavenças conjugais, a busca do amor e as consequentes desilusões. Tudo numa sátira às relações humanas e aos desenganos da vida.
Primeiro temos Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones), divorciados após um casamento de 40 anos. Ele, numa tentativa de regresso aos tempos áureos da juventude, pratica desporto e acaba por envolver-se com uma prostituta (Lucy Punch) gastadora, parola e muito mais nova. Ela, deprimida com a sua sorte, encontra conforto e esperança numa vidente charlatã que lhe serve ‘whisky’ enquanto lhe assegura que encontrará um novo amor.
Depois, uma geração abaixo, descobrimos a filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts) e o seu marido Roy (Josh Brolin). Ela trabalha no mundo das galerias de arte e desenvolve uma “paixoneta” pelo seu patrão Greg (Antonio Banderas), convencendo-se de que é correspondida. Ele, médico de formação, é um escritor norte-americano frustrado que sonha com um ‘best-seller’ e não suporta as visitas recorrentes da sogra recriminatória, começando a desejar a jovem e atraente vizinha (Freida Pinto) que vê da sua janela enquanto desespera pelo telefonema da editora que parece nunca chegar.
É o terreno propício aos desencontros, traições e enganos que se vão sucedendo à medida que se destrói o aparente equilíbrio desta família londrina.
Há uma cena no filme de que gostei especialmente. A que põe Antonio Banderas e Naomi Watts frente a frente, aquando da despedida dela do seu trabalho. Allen filma em planos alternados, com diferentes profundidades. A sequência capta maravilhosamente o entendimento – ou, melhor dizendo, desentendimento – que cada uma das personagens tem uma da outra. A distância e o afastamento são, desta forma, literalmente captados pela câmara.
Este é, assim, um filme de Woody Allen, facilmente reconhecível. Onde a história não se desenrola, antes se vai enrolando, para terminar numa embrulhada total. Mas como há excepções, talvez haja quem encontre o dito “homem dos sonhos”. Nós é que não encontramos aqui o “filme dos sonhos”. É um Allen e vê-se bem, onde valem sobretudo alguns pormenores e o cinismo final, mas não vai além disso. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
O que está em causa nesta história, como não podia deixar de ser, são as desavenças conjugais, a busca do amor e as consequentes desilusões. Tudo numa sátira às relações humanas e aos desenganos da vida.
Primeiro temos Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones), divorciados após um casamento de 40 anos. Ele, numa tentativa de regresso aos tempos áureos da juventude, pratica desporto e acaba por envolver-se com uma prostituta (Lucy Punch) gastadora, parola e muito mais nova. Ela, deprimida com a sua sorte, encontra conforto e esperança numa vidente charlatã que lhe serve ‘whisky’ enquanto lhe assegura que encontrará um novo amor.
Depois, uma geração abaixo, descobrimos a filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts) e o seu marido Roy (Josh Brolin). Ela trabalha no mundo das galerias de arte e desenvolve uma “paixoneta” pelo seu patrão Greg (Antonio Banderas), convencendo-se de que é correspondida. Ele, médico de formação, é um escritor norte-americano frustrado que sonha com um ‘best-seller’ e não suporta as visitas recorrentes da sogra recriminatória, começando a desejar a jovem e atraente vizinha (Freida Pinto) que vê da sua janela enquanto desespera pelo telefonema da editora que parece nunca chegar.
É o terreno propício aos desencontros, traições e enganos que se vão sucedendo à medida que se destrói o aparente equilíbrio desta família londrina.
Há uma cena no filme de que gostei especialmente. A que põe Antonio Banderas e Naomi Watts frente a frente, aquando da despedida dela do seu trabalho. Allen filma em planos alternados, com diferentes profundidades. A sequência capta maravilhosamente o entendimento – ou, melhor dizendo, desentendimento – que cada uma das personagens tem uma da outra. A distância e o afastamento são, desta forma, literalmente captados pela câmara.
Este é, assim, um filme de Woody Allen, facilmente reconhecível. Onde a história não se desenrola, antes se vai enrolando, para terminar numa embrulhada total. Mas como há excepções, talvez haja quem encontre o dito “homem dos sonhos”. Nós é que não encontramos aqui o “filme dos sonhos”. É um Allen e vê-se bem, onde valem sobretudo alguns pormenores e o cinismo final, mas não vai além disso. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Entrevista com Jean Raspail
A propósito da reedição de "Le Camp des Saints" em França, de que falei aqui, referi uma excelente entrevista dada pelo autor, Jean Raspail, ao canal televisivo France 3 que não resisti a partilhar aqui.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 52
domingo, 6 de fevereiro de 2011
O conflito israelo-palestino
A edição de hoje do programa Méridien Zéro é dedicada ao complexo conflito israelo-palestino. O convidado é Zacarias Adam, um militante humanitário da causa palestina. Como sempre, a emissão tem início às 22 horas portuguesas e pode ser escutada através da Radio Bandiera Nera.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Regresso ao Homem do Castelo Alto
O Miguel Vaz partilhou na casa que agora ambos frequentamos um comentário à sua leitura de do «O Homem do Castelo Alto», de Philip K. Dick, de que falei aqui há uns anos. Refere-se à edição lançada entre nós no ano passado pela Saída de Emergência com um prefácio de Nuno Rogeiro.
Como lhe disse em comentário, não li nenhuma das traduções portuguesas do livro, nem a que ele menciona, nem a publicada anteriormente pela Livros do Brasil na colecção Argonauta, em dois volumes. Cingi-me ao original.
No que respeita ao ensaio que abre esta edição, tinha a ideia de que se tratava do artigo de N. Rogeiro "A Ruínas Espelhadas - Notas sobre a Ficção de Philip K. Dick", publicado no n.º 14/15 da revista "Futuro Presente, em 1983. O Miguel confirmou que o mesmo é, "segundo as palavras do autor, é uma versão "muito manejada e revista" desse texto inicial publicado na "Futuro Presente", até para "ter em contra o largo continente de estudo que, nas últimas décadas, se foi formando sobre Dick", e recebeu o título céliniano "De um Castelo ao Outro - Engenharia e Engenho na Ficção "Científica" de Philip K. Dick". Apesar de já ter lido o livro e de admirar bastante o seu autor e restante obra, confesso que me despertou a curiosidade.
Como lhe disse em comentário, não li nenhuma das traduções portuguesas do livro, nem a que ele menciona, nem a publicada anteriormente pela Livros do Brasil na colecção Argonauta, em dois volumes. Cingi-me ao original.
No que respeita ao ensaio que abre esta edição, tinha a ideia de que se tratava do artigo de N. Rogeiro "A Ruínas Espelhadas - Notas sobre a Ficção de Philip K. Dick", publicado no n.º 14/15 da revista "Futuro Presente, em 1983. O Miguel confirmou que o mesmo é, "segundo as palavras do autor, é uma versão "muito manejada e revista" desse texto inicial publicado na "Futuro Presente", até para "ter em contra o largo continente de estudo que, nas últimas décadas, se foi formando sobre Dick", e recebeu o título céliniano "De um Castelo ao Outro - Engenharia e Engenho na Ficção "Científica" de Philip K. Dick". Apesar de já ter lido o livro e de admirar bastante o seu autor e restante obra, confesso que me despertou a curiosidade.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Terre & Peuple Magazine n.º 46
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Escolhemos estar no campo dos malditos
"No plano do compromisso, escolhemos a lucidez e as consequências que dela decorrem. Nomeadamente, que as convicções nunca devem ser sacrificadas aos interesses conjunturais, sempre ilusórios. De facto, isto significa que recusamos qualquer compromisso, qualquer oportunismo, baseado no pretexto de que o nosso corpo ideológico nos impede toda a perspectiva de «sucesso». Qual «sucesso»? Aquele que consiste, vendendo a alma por um prato de lentilhas, em ser tolerado, admitido pela gente que controla o poder, todos os poderes, e que exigem dobrar a espinha aos dogmas do politicamente correcto para escapar à diabolização? Um pouco por toda a parte, na Europa, gente tida como pertencente ao nosso campo compromete-se num caminho sem retorno, no caminho da renegação. Fazendo vassalagem ao cosmopolitismo, ao poder do dinheiro. Convertendo-se ao emburguesamento que os leva a trair os compromissos e as lutas de juventude. Não é preciso ser «extremista», certamente, para obter um lugar (trampolim...) no circo democrático. Lamentável degradação, que não inspira mais do que desprezo. O que não impedirá os renegados de continuarem tão ou mais párias que aqueles que fazem cintilar um certificado de respeitabilidade, aparentemente capaz de abrir as portas de promissoras carreiras.
Nós não temos ilusões: estamos e escolhemos estar no campo dos malditos. Para sempre. E estamos por gosto, já que é o único sítio no qual podemos cruzar-nos com homens e mulheres dignos de estima."
Pierre Vial
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Além
Existe vida depois da morte? É possível comunicar com os que já partiram? São perguntas que o Homem tem feito ao longo dos tempos e que não perdem a actualidade. Este é um tema polémico e, pior ainda, muito dado a lamechices e charlatanices. Daí que ver Clint Eastwood debruçar-se sobre este assunto desperta, no mínimo, a curiosidade dos cinéfilos.Reza a história que Steven Spielberg conseguiu que Eastwood lesse o argumento de Peter Morgan e se decidisse a fazer este filme que estava na calha há algum tempo. Será porque o realizador, agora octogenário, se preocupa mais com a morte? Interrogações a deixar aos especuladores habituais…
Nesta “Outra Vida”, são apresentadas três histórias que logo se percebe que se vão inevitavelmente cruzar. Por um lado temos a personagem mais bem conseguida, George Lonnegan (Matt Damon), um homem simples que consegue comunicar com o além e que já fez disso negócio com a ajuda do irmão interesseiro. Considera que o seu “dom” é na realidade uma maldição que o impede de levar uma vida normal. Abandonou as “leituras” e prefere trabalhar como operário. No entanto, não é tão fácil assim fugir do seu talento. Depois, há os dois gémeos ingleses de 12 anos, Marcus e Jason (Frankie e George McLaren), que vivem com a mãe drogada e alcoólica, controlada pelas autoridades. Jason morre atropelado e o irmão não descansa enquanto não consegue entrar em contacto com ele. Essa busca proporciona alguns momentos engraçados quando Marcus consulta certos charlatães que abundam neste meio. Por fim, a personagem mais fraca, Marie Lelay (Cécile de France), uma jornalista francesa com uma carreira de sucesso e a quem a vida corre de feição, que sobrevive a um ‘tsunami’ enquanto está na Tailândia. Essa experiência de quase-morte vai alterá-la para sempre e fá-la iniciar uma pesquisa sobre as provas científicas de que é possível comunicar com o além.
A fantástica cena do ‘tsunami’, que abre o filme, está muito bem conseguida e realizada. Confere alguma espectacularidade sem cair no exagero. É para isto que servem os efeitos especiais.
Quanto ao lado politicamente incorrecto de Clint, não deixa de aparecer, ainda que pontualmente. É o caso do atentado no metro de Londres ou a cena em que a professora de Marcus o manda tirar o boné dentro da aula, quando ao seu lado está uma rapariga muçulmana trajando o seu ‘hijab’…
Por último, foi na conferência de imprensa dada no New York Film Festival, em Outubro do ano passado, aquando da estreia deste filme, que Clint Eastwood referiu o nosso mestre cinematográfico Manuel de Oliveira. Disse ele: “há aquele realizador português que tem mais de cem anos e continua a fazer filmes. Eu tenciono fazer a mesma coisa!” Esperemos que sim. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
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