domingo, 23 de janeiro de 2011

Manoel de Oliveira em grande entrevista

Simplesmente imperdível é a grande entrevista conduzida por João Marcelino com o nosso mestre do cinema Manoel de Oliveira, hoje publicada no «DN». É de ler de fio a pavio, mas não resisto a deixar aqui algumas passagens.

Sobre o progresso, é categórico: «O que é que nos dá o progresso? Uma coisa só: conforto. Só conforto. O homem da caverna tinha de matar o boi...» E também sobre a tecnologia: «Somos todos escravos da tecnologia».

Quando perguntado sobre os problemas que tinha tido com a PIDE, respondeu: «Não tive problemas com a PIDE. A PIDE é que teve problemas comigo! Fiz uma reunião, disse coisas que eram certas e, por serem certas, meteram-me na cadeia durante uns oito, dez dias. E depois viram que não tinham razão, não podiam, soltaram-me. Houve um movimento também favorável, mas não se pode dizer, a verdade verdadeira não se pode dizer porque é um risco.» Ao que o entrevistador reagiu, «"Era" um risco?», mas o realizador não se deixou ficar: «Era... não sei se ainda é. Sabe que esta história política é muito difícil, muito grave. Há uma desmobilização fortíssima, há uma perda de valores enorme! Hoje a aldrabice monta por aí com toda a força, e isso é triste.»

Sobre o cinema em Portugal diz que «está muito bem, muito obrigado! Há realizadores muitíssimo bons, e devia ser mais desenvolvido e exportado em força, o que dava entrada de dinheiro! Eu dizia, na proporção de um país pequeno, pobre e na situação em que está, que o nosso cinema merecia uma ajuda para que os filmes corressem mundo e fossem também uma entrada económica de resultados.»

Afirmando que «O "Nobel do Cinema" não são os Óscares», diz que a verdadeira originalidade está na personalidade do artista e remata com lucidez que é preciso «não confundir o retrato com o modelo; o modelo é uma coisa, o retrato é outra.»

Por fim, a humildade: «Não me sinto realizado! Estou a tentar realizar-me neste curto espaço que me resta.»

sábado, 22 de janeiro de 2011

Aleksandr Dugin no Méridien Zéro


Na emissão de hoje, o programa Méridien Zéro apresenta uma entrevista exclusiva com Aleksandr Dugin, ideólogo político russo, conhecido pelas sua defesa da "Eurásia". Como habitualmente, o programa é emitido às 22 horas portuguesas, através da Radio Bandiera Nera.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O João está de parabéns

O obrigatório Eternas Saudades do Futuro completou quatro anos de existência, mas é o João que está de parabéns. Como ele insiste em não ter caixas de comentários, tenho que referir aqui o excelente texto de outro amigo, o Pedro Guedes, sobre esse aniversário. Incluindo-me num grupo de resistentes, o Pedro dedicou-nos umas "palavras do muito nosso Rodrigo Emílio". Obrigado a ambos. Obrigado a todos os que continuam em pé entre as ruínas.

Cavaco

«No mandato para que domingo o vão eleger, Cavaco tornará a esperar pelos factos consumados. Não é claramente um homem que se arrisque e não vale a pena imaginar que ele mexerá um dedo para "salvar a Pátria". Cavaco não se mexe. Excepto por Cavaco.»

Vasco Pulido Valente
in «Público»

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Da tradução

O Miguel lembrou o adágio "traduttore, traditore" queixando-se da actual incompetência e desleixo nas traduções. Tem toda a razão.

A esse respeito, recordo-me sempre do que me ensinou uma velha professora de tradução. Dizia ela que há três coisas obrigatórias para fazer um bom trabalho: saber a língua para a qual se traduz, saber acerca do assunto sobre o qual se traduz e, finalmente, saber a língua da qual de traduz. Frisava ela que era essencial esta ordem de importâncias e que, infelizmente, poucas vezes era respeitada. Resultado final: disparate.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Viagem a outro mundo

O “Complexo do Alemão” é um conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro conhecido pela sua dimensão, pelo tráfico e, em especial, pela extrema violência. O mundo das favelas brasileiras sempre gerou grande curiosidade, mas depois do excelente “Tropa de Elite” (2007), de José Padilha, ganhou um mediatismo colossal. No final do ano passado, a enorme operação militar que se seguiu à série de ataques e atentados perpetrados pelos traficantes cariocas foi amplamente televisionada. Os telejornais abriam com verdadeiros cenários de guerra na “cidade maravilhosa”, que um dia foi capital de Portugal, e as imagens de soldados armados protegidos por blindados a subir os morros mostravam que não se tratava de um mero caso de polícia.

O documentário português “Complexo – Universo Paralelo”, que está agora em cartaz, beneficia muito de toda essa publicidade. Muita da sua promoção e até o próprio ‘trailer’ põem a ênfase nos “bandidos” e na violência. Mas atenção, o filme está longe de ser um exercício de câmara oculta ou uma colecção de imagens explícitas de combate urbano. Reparei que na estreia muita gente esperava algo do género e saiu claramente desiludida. Esta verdadeira viagem a outro mundo, o “universo paralelo” anunciado no título, é antes um olhar para a vida dos habitantes do Complexo.

Os irmãos Mário e Pedro Patrocínio, respectivamente o realizador e o director de fotografia do filme, chegaram ao Complexo do Alemão em 2005 depois de um convite para fazer um teledisco do músico de ‘funk’ MC Playboy. Essa experiência levou-os a frequentar a favela e a realizar várias entrevistas com moradores que captassem as várias realidades e histórias locais. Desse conjunto escolheram quatro personagens representativas. Opróprio MC Playboy, “funkeiro” que é um símbolo cultural da comunidade, preocupado mais com a consciência social que com o crime. Seu Zé, uma espécie de ancião respeitado e influente, que preside à Associação de Moradores e é um conhecedor profundo desta favela que viu crescer. Dona Célia, uma mãe de oito filhos que sobrevive graças à sua “é em Deus”, como ela diz, mas também a uma capacidade de resistência incrível. Vende embalagens para reciclagem para evitar que a família passe fome, incluindo o marido alcoólico que passa a maior parte do dia deitado. Nota-se que é a personagem central, uma imagem paradigmática do ambiente familiar na favela e um exemplo de perseverança. Por fim, os traficantes, jovens que tapam a cara e mostram as suas espingardas automáticas, afirmando estar preparados para tudo, que é como quem diz, a guerra com a polícia.

Os militares por seu turno são filmados como parte da paisagem. Farda camuflada, capacete e arma em punho, normalmente nas esquinas, a controlar os movimentos. A fazer lembrar, por exemplo, soldados israelitas numa operação na Faixa de Gaza.

Um filme bem construído que sai da reportagem sobre troca de tiros, mas que também podia ter ido mais longe. Um olhar interessante sobre um sentimento de fronteira entre dois mundos: o das favelas e o lá de fora. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

As fadas de Praga

A Jan Palach

Ainda o requiem


Em conversa com um amigo, lembrei-me que a última vez que ouvi o Requiem por Jan Palach foi num jantar que se seguiu a uma homenagem ao Rodrigo Emílio. Quem o declamou foi o António José de Almeida que, infelizmente, teria uma morte trágica três anos depois.

Mas este poema havia sido musicado e cantado na RTP, quatro anos antes do 25 de Abril, como contou aqui o Mário Martins, numa bela recordação. Por (muitas) vezes a memória conforta-nos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Requiem por Jan Palach


Arde o coração de Praga.
Arde o corpo de Jan Palach.
Podemos dizer que o Rei Venceslau,
montado em seu cavalo,
também viu crescer o fogo
em que arde o coração de Praga.
João Huss, queimando o seu corpo,
também arde na Praça de Praga.
E os cavaleiros da Boémia,
o povo e os grão-Senhores,
os operários de Pilsen,
os poetas e cantores da Eslovóquia,
todos ardem nessa tarde e nessa praça.
Queimamos a coragem e o heroísmo,
queimamos a nossa infinita resistência.
Não é verdade, Soldado Schweik?

Eles vieram das estepes e disseram:
É proibido morrer pela Pátria,
é proibido resistir à opressão,
é proibido combater a ocupação.
É proibido amar os campos verdes do seu país.
É proibido amar o verde da esperança.
É proibido amar a Esperança

Estás proibido, Jan Palach!
És proibido, Jan Palach!
Estás proibido de existir, Jan Palach!
Estás proibido de morrer!

Eles vieram das estepes a disseram
todas estas palavras.
Mas também é verdade que disse um dia o Rei Venceslau,
montado em seu cavalo:
«Esta nossa terra será livre,
e nela crescerão livres
as virgens, as mães e os filhos.
E nela crescerão livres as flores.»
E das flores virão rosas,
rosas brancas, para cobrir a campa
de Jan Palach.
Arde o Coração de Praga,
arde o corpo de Jan Palach,
arde o corpo do Futuro.
E já cresce a Primavera!

José Valle de Figueiredo

Evita e o peronismo


A emissão de hoje do programa Méridien Zéro é dedicada à Argentina, mais concretamente ao tema «Evita e o Peronismo», contando com a presença do jornalista e escritor francês Jean-Claude Rolinat e do ensaísta italiano Gabriele Adinolfi. Como habitualmente, o programa é emitido às 22 horas portuguesas, através da Radio Bandiera Nera.

sábado, 15 de janeiro de 2011

O pós-Le Pen

Marine Le Pen foi, sem surpresa, eleita a nova presidente do Front National, que segundo o diário "Le Figaro" teve 67% dos votos e será a candidata natural do partido às presidenciais do próximo ano. Sucedendo ao seu pai, promete alterar a face da maior expressão da extrema-direita francesa através da chamada estratégia de "desdiabolização". A este respeito republico aqui a conclusão do meu artigo "O pós-Le Pen", publicado no semanário "O Diabo", no dia 25 de Maio de 2010. Para ler o artigo na íntegra, basta clicar na imagem ao lado.

Está guardada para Janeiro de 2011 a decisão relativamente ao sucessor de Le Pen. Os militantes escolherão em congresso entre a filha do histórico presidente, Marine Le Pen, ou o eterno número dois, Bruno Gollnisch, debilitado pela saída de vários dos seus apoiantes de peso.

A confirmar-se a esperada eleição de Marine, começa já a especular-se o que será o futuro do partido. Esta mulher divorciada, com bons dotes de argumentação, mas que recusa as polémicas que isolaram o seu pai, é considerada mais “frequentável”. É por isso que muitos começam a aceitar como provável a hipótese de uma “finização” do FN. Quer isto dizer que pode acontecer em França uma alteração semelhante ao que aconteceu em Itália com Gianfranco Fini. Ao tornar um partido de extrema-direita mais “respeitável” e aceite, conseguir que este integre uma coligação governamental de direita.

Uma recente edição da revista francesa “Le Point”, que fez capa com a filha de Le Pen, perguntava se estávamos perante uma “normalização” do FN em curso. Isto porque, segundo uma sondagem, 36% dos simpatizantes da UMP se diziam favoráveis à participação de Marine num governo, ao passo que no FN essa percentagem atingia os 85%.

A moderação de Marine Le Pen, com a qual pretende atingir a desejada respeitabilidade, faz com que produza afirmações sobre o 25 de Abril como as publicadas no jornal “Expresso”. Na edição de 1 de Maio passado desse semanário, afirmou: “Na história política de Portugal, Mário Soares teve um papel fundamental, positivo, para o fim do regime, em 1974, e na luta contra o comunismo, a seguir”. Ou ainda: “Sou democrata e respeito a soberania popular: a revolução dos cravos respondeu ao desejo da maioria dos portugueses”.

Votar ou não votar?

Eis a questão... Vários cavaquistas estão preocupados que posições como a que aqui referi levem a uma segunda volta que dê a vitória a Alegre. Pior, temem que isso possa abrir caminho a um futuro governo de coligação à esquerda. Este foi o tema de uma conversa que tive há dias com um amigo meu conservador. Perante tais cenários, perguntei-lhe se ele esperava que à direita houvesse uma atitude análoga à do "sapo engolido" pelos comunistas para evitar a eleição de Freitas, ao que ele respondeu: Exacto! No entanto, como lhe disse, não é assim tão simples, porque tal reacção não se passa às direitas. Tal pode revelar falta de pragmatismo político, mas como costuma dizer-se a culpa não morre solteira...

Do mandato de Cavaco Silva como presidente da República recordo dois assuntos, entre outros, que provocam tal recusa. O "nim", como lhe chamei na altura, ao casamento homossexual e, mais importante ainda, a nova lei da nacionalidade. Mesmo assim, estão dispostos a ir votar ao abrigo da desculpa do "mal menor"?

A máquina da fama

É sobre este mecanismo infernal que se debruça hoje o Eurico de Barros no "Diário de Notícias", a propósito do mediático crime nova-iorquino de que se tanto fala. Aconselha a "reflectirmos sobre esta obsessão da fama que atravessa a sociedade portuguesa, e que é atiçada muito especialmente pelas televisões", definindo bem o estado actual de coisas: "Com os seus programas de transformação eufórica e acelerada de completos anónimos em "ídolos", em vedetas, em "famosos", em top models ou outros top quaisquer, os seus reality shows de exposição constante, intensa e indecorosa de concorrentes tão inconscientes como desprotegidos, uns e outros feitos carne para canhão de uma batalha pelas audiências que assume proporções cada vez mais agressivas e chocantes, as televisões têm contribuído de forma maciça para a criação, disseminação e vulgarização desta perversa ideologia da fama, desta pindérica subcultura da celebridade, ajudadas pela proliferação da imprensa "cor-de-rosa". Esta fama é precária e está presa por fios, é tosca e efémera. Os que a atingem estão sujeitos a ser rapidamente esquecidos, ridicularizados e até mesmo execrados pelos que os promoveram, aclamaram e plebiscitaram. Porque a lógica da "máquina de famosos" é triturar depois de aclamar. Ou até mesmo muito antes disso, como se acaba de ver pelo crime de que toda a gente fala." Na mouche!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Apologia da abstenção

É o que faz hoje Vasco Pulido Valente no "Público". Ora leiam a conclusão: "(...) a abstenção não é ilegítima. É um acto de recusa total do regime que um cidadão está no direito de não legitimar pelo seu voto (mesmo com um voto em branco). E confessemos que um regime que propõe, como alternativa para a Presidência da República, Alegre ou Cavaco merece amplamente uma recusa total. Chegou a altura de não pactuar em nada com a miséria estabelecida da política portuguesa".

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Varela e os livros

Falei deste caso aqui há uns anos e, sinceramente, não esperava outro resultado. No início do ano passado estive em Barcelona e tive oportunidade de falar com Pedro Varela, que me disse estar à espera de ser preso em breve, depois de anos a batalhar contra o sistema judicial. Aconteceu.

Esqueçamos as ideias dele (melhor dito, aquelas que lhe atribuem), porque o "crime" se baseia em editar e vender livros. Livros! Se isto, só por si, já é suficientemente escabroso, há a registar que o tribunal decidiu que os milhares de exemplares apreendidos devem ser destruídos! Como diz o Miguel Vaz, "de repente, «Fahrenheit 451» parece assustadoramente real"...

Em Espanha surgiu automaticamente um movimento de apoio que dá informações sobre o caso e sobre como ajudar através do blog Libertad Pedro Varela. Também em Portugal, o HNO disponibiliza postais de protesto a enviar ao Embaixador de Espanha no nosso país e ao presidente do Governo catalão.

Um caso para estudar e avaliar a liberdade de expressão nesta União (Soviética) Europeia.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma história de amor

No mês seguinte à instauração da república em Portugal, morria um dos grandes mestres das letras russo, Lev Tolstoi, autor de inúmeras obras, entre as quais “Guerra e Paz” ou “Anna Karenina”, mas também inspirador do movimento tolstoiano de cristãos anarquistas.

É exactamente sobre os últimos tempos da vida de Tolstoi que trata “A Última Estação”, longa-metragem realizada por Michael Hoffman, que também escreveu o argumento a partir do romance homónimo de Jay Parini, publicado em 1990.

O filme debruça-se especialmente sobre a questão da cedência dos direitos de autor de Tolstoi ao domínio público, tal como queria Vladimir Chertkov (Paul Giamatti), amigo do escritor e fundador dos Tolstoianos. Tais intenções iam contra a vontade da mulher de Tolstoi, a condessa Sophia Tolstaya, interessada em garantir os rendimentos familiares e um estilo de vida aristocrático. Esta disputa vai pôr em causa a relação e o amor entre Tolstoi e a sua esposa e gerar inúmeros conflitos dentro da família e do movimento.

A meio deste turbilhão surge um novo elemento, Valentin Bulgakov (James McAvoy), recém-nomeado secretário de Tolstoi, seguidor dos seus ensinamentos e grande admirador da sua obra. Privando tanto com o escritor como com a sua mulher, a sua fidelidade acaba por ser dividida e tenta, dentro do possível, atenuar a tensão.

Apesar de tolstoiano, Bulgakov começa a interrogar-se sobre várias das posições do movimento e atitudes dos seus dirigentes, ao mesmo tempo que se apaixona por Masha (Kerry Condon), outra tolstoiana com dúvidas. Mas é o próprio Tolstoi que faz com que Bulgakov se questione, quando por exemplo lhe diz, depois de contar peripécias de juventude, “eu não sou lá um grande tolstoiano”.
Essa é talvez a parte mais interessante desta história, a reflexão sobre a concretização de um movimento e a vontade e posição da sua figura de referência. Até que ponto os seguidores o seguem realmente? Serão, como reza o ditado popular, mais papistas que o Papa?

Neste filme de época, com uma realização que cumpre, há a destacar as soberbas interpretações dos dois protagonistas Christopher Plummer, no papel de Tolstoi, e Helen Mirren, no papel de Sophia Tolstaya, que lhes valeram nomeações para os Óscares.

Por fim, para aqueles impacientes que saltam das cadeiras mal acaba a acção, chamo a atenção para não o fazerem. Durante o filme vemos que Tolstoi estava constantemente a ser filmado no seu dia-a-dia, o que gera uma curiosidade natural em ver as imagens originais. Acontece que essa curiosidade é satisfeita, pois várias dessas passagens acompanham os créditos finais. Uma oportunidade para comparar com o que acabámos de ver. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

domingo, 9 de janeiro de 2011

Vídeo sobre o 1.º Seminário de História do Património e da Ciência



Um amigo chamou-me a atenção para este pequeno vídeo sobre o 1.º Seminário de História do Património e da Ciência, dedicado ao Prof. Mendes Corrêa, que decorreu na Universidade Lusófona, em Lisboa, e ao qual consegui assistir parcialmente.

Força e Honra


A emissão de hoje do programa Méridien Zéro tem como convidados os fundadores da editora Les Amis du Livre Européen, a propósito da publicação do primeiro livro, intitulado «Force & Honneur». Uma obra que, ao longo de 352 páginas, faz a retrospectiva de 30 batalhas que marcaram a França e a Europa, contando ainda com ilustrações de Dimitri (Guy Sajer). Como sempre, o programa é emitido às 22 horas portuguesas, através da Radio Bandiera Nera.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O português que entrevistou Jünger

Foi este o título da homenagem que o Eurico de Barros fez hoje no "Diário de Notícias" ao nosso amigo comum Roberto de Moraes e que reproduzo abaixo:

"Num país onde qualquer obscuro jogador de futebol que vai dar uns chutos para um clube romeno ou eslovaco, ou qualquer treinador manhoso que vai orientar a selecção do Turcomenistão ou do Suriname, é transformado em figura nacionalmente relevante e merecedora da mais enlevada atenção dos media, passam muitas vezes despercebidas as pessoas realmente excepcionais, que fizeram coisas únicas.

Uma delas foi Roberto de Moraes, jornalista, tradutor e especialista em história militar e da Europa, falecido em Lisboa, a 17 de Dezembro, aos 71 anos. Trabalhou em O Século, Vida Mundial e A Nação, bem como na RTP, tendo deixado colaboração espalhada por vários outros títulos nacionais e estrangeiros, e publicações militares.

Roberto de Moraes ficará para a história do jornalismo nacional, por ter sido o único português a ter entrevistado o escritor Ernst Jünger, por várias vezes, beneficiando da sua profunda ligação à cultura germânica e do seu conhecimento da literatura europeia,em especial a alemã, a francesa e a inglesa.
A primeira dessas longas entrevistas com o autor de Sobre as Falésias de Mármore e A Guerra como Experiência Interior, deu-se a 27 de Maio de 1973, na casa de Jünger em Wilflingen, na Suábia, e foi publicada, sob o título Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra, na Vida Mundial, em 1976, com destaque de capa.

É um documento único, que fez com que Roberto de Moraes seja o único português mencionado por aquele gigante das letras no seu diário. Na hora da sua morte, aqui fica a homenagem, a evocação e o orgulho de o ter conhecido e de lhe ter chamado amigo."

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Alain de Benoist no lançamento da Finis Mundi



Quem não foi ao lançamento da revista Finis Mundi e perdeu a exposição de Alain de Benoist pode agora assistir na internet ao vídeo que o Júlio Mendes Rodrigo teve a feliz ideia de fazer e disponibilizar. Obrigado!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Lanceiro recorda Roberto de Moraes

O blog dos "Lanceiro - Cadernos Militares", lembrou Roberto de Moraes, seu colaborador e sócio convidado da Associação de Lanceiros, enumerando as suas participações na revista e informando que o seu primeiro artigo publicado no jornal "Lanceiro" n.º 4, de Setembro de 1999, com uma elaborada descrição da "Carga da Brigada Ligeira", será, em sua homenagem, republicado no n.º 5 dos Cadernos Militares.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Simplesmente mágico

Para muitos, esta altura é a indicada para ir ao cinema ver filmes de animação em família. Todos eles, claro, de produção norte-americana e na sua maioria muito (demasiado?) movimentados, cheios de efeitos estrondosos, ambientes futuristas e, ultimamente, condenados ao 3D. Felizmente, há vida para além disso…

Que belíssima surpresa é encontrar nas salas nacionais uma obra de animação cinematográfica europeia, mais concretamente franco-britânica, dirigida por um realizador talentoso como Sylvain Chomet, que nos maravilhou com “Belleville Rendez-vous” (2003). Se tudo isto não for suficiente, acrescente-se que este filme é baseado num argumento original de Jacques Tati e traz-nos uma história simples mas tocante.

Foi a filha de Tati, Sophie Tatischeff, que levou Chomet a este argumento que o seu pai escrevera com Henri Marquet em finais dos anos 50 do século passado. A história era demasiado pessoal e, supostamente, para ser representada por ela e por Tati. Contava-nos o fim de carreira de um ilusionista francês que, fazendo espectáculos em locais decadentes para sobreviver, acabava por ir para Praga, onde encontrava uma rapariga que acredita na sua magia e com quem desenvolve uma relação pai-filha, mudando a sua vida. Sophie acabou por achar que esta “carta de amor” do seu pai ficaria bem em versão animada e que Chomet era a pessoa certa para o fazer. Ela morreu antes de o realizador ter iniciado o projecto, mas os responsáveis pelo espólio de Tati mantiveram a autorização.

Há que referir uma controvérsia à volta das intenções originais, suscitada pela filha mais velha de Tati, Helga Marie-Jeanne Schiel, ainda viva, que afirmou que esta era uma tentativa de reconciliação do seu pai com ela. Chomet discorda e disse que nunca chegou a conhecer Sophie, mas que pensava que Tati o havia escrito para ela devido à culpa que sentia por estar afastado dela enquanto trabalhava.

Voltando a este “Mágico”, não é só nas semelhanças físicas do ilusionista do filme que vemos o próprio Tati. Este tem mesmo o seu nome completo: Tatischeff. No entanto, há mais nesta personagem do que a sua reprodução mimética.

Nesta versão, Chomet trocou a Checoslováquia do argumento original pela Escócia onde tem o seu estúdio, mas a visão poética e melancólica sobre a passagem do tempo nada perde com isso. Edimburgo proporciona até um duplo ‘cameo’, quando Tatischeff entra num cinema e vê projectado o filme de Tati “O Meu Tio” (1958). Esse cinema existe ainda hoje e chama-se Cameo.

A opção da animação tradicional, com um recurso mínimo ao digital, confere uma autenticidade ao filme que é profundamente sentida. Os escassos diálogos, as pequenas imperfeições das personagens, as magníficas paisagens, os pormenores, o movimento compassado, podem ser apreciados nesta obra que se desenrola tal e qual como o tempo da história que conta. Uma passagem do tempo intemporal. Para ver e rever. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

sábado, 1 de janeiro de 2011

Recomeço


Depois de um ano para esquecer, marcado várias mortes, nunca o nome do mês de Janus - deus dos inícios e fins - fez tanto sentido.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Stoned

Pode julgar-se um livro pela capa? E um filme pelo elenco? Mesmo que as prestações dos actores sejam muito boas, é algo que só por si não basta para que o conjunto de elementos que constituem uma obra cinematográfica funcione. “Stone – Ninguém é Inocente” é uma demonstração prática disso.
O cartaz anuncia três estrelas de peso: Robert De Niro, Edward Norton e Milla Jovovich. A frase promocional aumenta-nos a curiosidade ao dizer que: “Algumas pessoas contam mentiras. Outras vivem-nas.” O ‘trailer’ faz-nos esperar um ‘thriller’ movimentado, que nunca chega a acontecer.

De início, a coisa promete. Ficamos a saber que há em Jack Mabry (Robert De Niro) um lado sombrio que contrasta com o agente de liberdade condicional à beira da reforma, com a imagem de funcionário e cidadão exemplar, que trabalha num estabelecimento prisional. A sua rigidez inabalável e o controlo do seu poder de decidir a quem pode abrir as portas para a liberdade antecipada vão ser postas em causa por Gerald Creeson (Edward Norton) – que anuncia prontamente que preferem que o tratem por “Stone”. O primeiro encontro entre ambos é um diálogo simplesmente formidável. Vendo que dificilmente convencerá Mabry a libertá-lo, “Stone” faz com que a sua mulher Lucetta (Milla Jovovich) o seduza e isso vai libertar um jogo de enganos, intenções cifradas e passados ocultos.

Como referi, de início parece que estamos a ver um ‘thriller’, mas o filme depressa parece tornar-se um exercício psicológico, para enveredar por um caminho metafísico, com uma tentativa de drama sobre o sentido da vida e a presença divina. O pior é que a realização reflecte esta confusa evolução, com uma construção atabalhoada e um ritmo incerto.

Voltando às representações, tenho que dizer que nos papéis principais estão dois dos actores norte-americanos, de diferentes gerações, que mais aprecio. O velho mestre De Niro continua em grande forma e apesar de tudo consegue proporcionar momentos maravilhosos, dos simples olhares aos estados de irritação. É incrível como consegue acrescentar sempre qualquer coisa às personagens. Não se limita a encarná-las, mas a conferir-lhes algo de próprio, que conseguimos identificar.

Por outro lado, Norton parece inicialmente uma antítese de Derek, o ‘skinhead’ de “América Proibida” (1998), também encarcerado. Desta vez é aquilo a que se chama (não simpaticamente) um ‘wigger’, ou seja um branco que se comporta como um negro, no vestir, no falar, no agir. Fenómeno que se espalhou dos EUA para o resto do Ocidente, tem no Michigan – estado onde se desenrola a acção deste filme –, especialmente em Detroit, grande incidência. É nestes opostos que se distingue, acima da capacidade, o talento de um actor.

“Stone”, pelo nome, podia ser uma pedrada, mas infelizmente pouco mais é que um inerte. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O regresso de Apolo


No dia mais curto do ano, altura de renascimento, lembro a profecia da última pítia do Oráculo de Delfos: "Um dia Apolo regressará e será para sempre".

Uma saudação solar, neste Solstício de Inverno.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Há noites assim...

... em que o que nos vale é Bach e um copo, como me ensinou uma vez um grande Amigo. Há partidas em que necessitamos de reconfortar a alma.

Frase do dia

«Ao AO 90 [Acordo Ortográfico de 1990] faltam bases teóricas, exercícios empíricos, referências científicas.»

Francisco Miguel Valada
in «Público».

domingo, 19 de dezembro de 2010

Cinerama


O tema de hoje do Méridien Zéro, a emissão francesa da Radio Bandiera Nera, é o cinema. Para ficar a saber os indispensáveis do grande ecrã militante, basta ouvir a partir das 22 horas.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Adeus

Para um Amigo. 

Foi ontem a despedida,
Sem conversa, mas presença.

A dor desta partida,
É dispersa e imensa.

É assim, a vida,
Por vezes suspensa.

Eu sei que a subida
Vai ser uma renascença.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Entrevista com Alain de Benoist

A propósito da reportagem que fiz para «O Diabo» sobre o lançamento da revista «Finis Mundi», entrevistei os dois apresentadores. Aqui fica a que fiz com Alain de Benoist.


Alain de Benoist
Podemos ainda falar de uma “nova cultura”?
Sim. O problema é que vivemos num mundo de transição – o interregnum. Mais do que isso, a maior questão é a do sujeito histórico da época vem. São os povos os actores.

A globalização é desejada tanto por esquerdistas como por capitalistas?
Ambos querem a abolição das fronteiras. Os primeiros para cumprir o seu grande sonho de unificação mundial, os segundos para concretizar um grande supermercado generalizado. Permanece a ideia de que um estado mundial acabaria com as guerras. Mas, como afirmou Carl Schimtt, acabariam as guerras e passaria a haver apenas guerras civis.

Qual o papel geopolítico de Portugal hoje?
Portugal é o extremo sudoeste da Europa. Faz parte da Europa. É a abertura atlântica que faz a ligação ao Brasil. Este país emergente será muito importante no futuro. Será um pólo de resistência sul-americana à América do Norte. Por fim, Portugal é também uma abertura para o Mediterrâneo e a África do Norte.

Como avalia a influência da Nova Direita noutros países?
A Nova Direita nunca foi para ser uma internacional, mas houve manifestações noutros países. Foi uma rede: política, cultural e nacional.

O que é hoje mais importante, o político ou o intelectual?
Não acredito em acções políticas a curto termo. O trabalho intelectual demora mais tempo e dá mais trabalho. Depois, há em França uma polícia do pensamento, parece que vivemos uma depuração permanente. Em tempos, tentámos dar ideias à Direita, mas a Direita não quer ideias. Mesmo apesar de alguns sucessos técnicos. Hoje trata-se de dar ideias ao mundo.
[publicado na última edição de «O Diabo»]

Para amanhã


Como habitualmente, a Associação Terra e Povo assinalará a mudança de ciclo no próximo Solstício de Inverno. A cerimónia terá lugar no próximo dia 18 de Dezembro. Os interessados podem contactar através do endereço de correio electrónico terraepovo@gmail.com.

Fonte: Terra e Povo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Entrevista com António Marques Bessa

A propósito da reportagem que fiz para «O Diabo» sobre o lançamento da revista «Finis Mundi», entrevistei os dois apresentadores. Aqui fica a que fiz com António Marques Bessa.


António Marques Bessa


Com a sociedade a alhear-se e a consumir, cada vez mais, informação e conteúdos imediatos, faz sentido uma revista como a “Finis Mundi”?
Hoje existe um espaço cultural para o pensamento alternativo, por oposição à globalização. Os enraizados têm o direito a pensar.

Não há o risco de ser algo demasiado intelectual, uma vez que são artigos de pensamento?
Não deve cair no intelectualismo ou academismo. Deve ser aberta, de forma a ser entendida por um número maior de leitores.

Mas nem por isso é para o povo?
O povo está estupidificado. Não se pode contar com ele. Só pode atingir intelectuais. Continuam válidos os ensinamentos de Gramsci e o que se chamou o “gramscianismo de Direita”, levado a cabo por Benoist e a Nova Direita.

Então, o movimento parte de cima?
De cima para baixo. Das elites. É sempre assim, porque o povo é bovino.
[publicado na última edição de «O Diabo»]

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Bibliofilias


Ontem passei por uma livraria que tinha um anúncio no mínimo estranho, rezava mais ou menos assim: "Livros que não interessam a ninguém por 1 euro". Não resisti a entrar e, num rápido passar de olhos, dei de caras com um livro bem interessante de um autor que muito aprecio e que não tinha, nem conhecia. "No Oriente do Oriente", do recém-falecido António Manuel Couto Viana, junta às poesias inspiradas pela sua passagem por Macau, um estudo de Beatriz Basto da Silva e várias ilustrações. Uma belíssima descoberta, que me lembrou um Amigo que está noutro Oriente do Oriente...

Plamegate

Quem se lembra de Valerie Plame? Talvez só pelo nome seja difícil, mas para quem acompanhou o início da Segunda Guerra do Golfo, nomeadamente toda a operação de ‘marketing’ sobre a existência no Iraque de armas de destruição maciça (ADM), que justificavam mais uma intervenção estrangeira naquele país para, supostamente, lhe levar pela força a “liberdade iraquiana”, talvez se lembre do caso que inspira este filme.

Em 2003, a administração Bush, ansiosa por atacar o Iraque, manipulou as informações que tinha sobre a investigação acerca de um possível programa nuclear iraquiano para o fabrico de armamento. Nessa altura, Valerie Plame era uma operacional da CIA, especificamente na área de não-proliferação, cuja missão, entre outras, era garantir que o Iraque não tivesse acesso a armas nucleares. Muito bem relacionada no meio e profunda conhecedora dos movimentos comerciais, afirmou desde o início que os famosos tubos de alumínio comprados pelo Iraque não serviam para o enriquecimento nuclear. Ao mesmo tempo, começam a haver suspeitas de que o Iraque havia comprado quantidades significativas de urânio para produção nuclear, conhecido como ‘yellowcake’, ao Níger. A CIA contratou o antigo diplomata e embaixador Joe Wilson para investigar, que chegou à conclusão que tal era impossível. Quando se apercebeu que as suas investigações haviam sido ignoradas e até deturpadas, publicou um artigo no “New York Times” intitulado “O que eu não encontrei em África”, para repor a verdade.

O problema é que Wilson era marido de Valerie... O gabinete do vice-presidente Dick Cheney, nomeadamente através do seu conselheiro “Scooter” Libby, decidido a eliminar quem se opusesse à teoria das ADM, passou informações ao jornalista Robert Novak, do “Washington Times”, que publicou um artigo denunciando publicamente Valerie como agente. Aí começou um verdadeiro pesadelo.

“Jogo Limpo” é baseado tanto no livro de Valerie Plame, “Fair Game: My Life as a Spy, My Betrayal by the White House”, publicado em 2007 e em “The Politics of Truth. Inside the Lies that Led to War and Betrayed My Wife's CIA Identity: A Diplomat's Memoir”, da autoria do seu marido, publicado três anos antes. Tal explica porque este filme, que poderia ser um belíssimo ‘thriller’ político se fique mais por um relato de vida e uma história sobre a “luta pela verdade”, bem ao estilo norte-americano.

Na realização, Doug Liman, que recentemente nos trouxe o interessante segundo filme da série Bourne, “Identidade Desconhecida” (2002), mas também o insuportável “Mr. e Mrs. Smith” (2005), cumpre sem arriscar. Esta é uma obra que assenta fundamentalmente nas excelentes representações dos dois actores principais, Naomi Watts e Sean Penn, e no interesse nesta história de uma mulher que por detrás de uma vida normal era uma espia, algo na realidade bem diferente do retratado em tanta ficção. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Nevoeiro


Ontem, a passar no meu bairro, gostei de sentir o nevoeiro. Não resisti a registá-lo fotograficamente e a lembrar-me do nosso poeta:

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

Fernando Pessoa
in "Mensagem" (1934).

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Temos MAP


Há combates que valem a pena e produzem bons resultados. Foi o caso do esforço em prol do Museu de Arte Popular. Depois da boa notícia de que já não seria encerrado, fiquei a saber que hoje reabre ao público e é inaugurada a exposição "Os Construtores do MAP - Museu em Construção".

Comentário ao seminário sobre as direitas

José Pedro Zúquete
A defesa da lusofonia, normalmente recusada por um “novo nacionalismo” por oposição a uma atitude reaccionária, é uma proposta que é necessário encarar com cuidado. Por um lado, pensemos em tantas esquerdas que hoje mais parecem salazaristas quando nos falam nas nossas “obrigações históricas” para com o mundo lusófono. Por outro, a ideia de que Portugal “se cumpre” fora do nosso país é, no mínimo, perigosa para quem se afirma como nacionalista (o que não significa, necessariamente, “de direita”).

Não estando de acordo com a proposta de José Pedro Zúquete, reconheço que levanta um assunto de elevada importância que não deve ser descurado. Considero que a lusofonia é uma área de influência geopolítica natural de Portugal e que deve por nós ser utilizada na afirmação da nossa cultura e posição internacional. Mas nunca considerar que tal pode ser deixado a outros. Nunca pela lusofonia devemos submeter-nos a interesses alheios. Pelo contrário, ter sempre presente que a nossa gloriosa gesta lusa foi mais uma das projecções da Europa. Não podemos esquecer o poder e amplitude da forma como tocámos o mundo, mas o que não podemos mesmo fazer é esquecer o nosso país e o nosso povo em nome dessa projecção. [publicado na última edição de «O Diabo»]

Debater as Direitas

Decorreu nos passados dias 29 e 30 de Novembro, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, um seminário intitulado “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas” organizado pelo investigador Riccardo Marchi. Este italiano radicado em Portugal é autor de um estudo sério sobre as direitas radicais portuguesas de 1939 a 1974, o que era uma lacuna na nossa historiografia. Marchi decidiu investigar aprofundadamente o assunto e doutorou-se em História no ISCTE com a tese que deu origem a dois livros complementares: “Folhas Ultras. As ideias da direita radical portuguesa (1939-1950)”, publicado pelo ICS, tem por base a primeira parte do seu estudo; “Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)”, publicado pela Texto, é a parte central da sua tese.

Razões de um seminário
Numa entrevista ao blogue Dissidente.info, questionado sobre as razões que o levaram a organizar este seminário, Marchi respondeu: “Quis reunir peritos de cada área específica das direitas que permitam desenhar um “fil rouge” desde o miguelismo contra-revolucionário até ao liberalismo dos nossos dias. Como é óbvio, não procuro uma lógica unívoca que conecte coerentemente tudo o que se moveu na direita em Portugal nos últimos 200 anos. Procuro sim identificar quais raízes afundam no terreno das ideias das direitas portuguesas e, a partir desta pluralidade, pretendo desvendar quais frutos produziram, se ainda são fecundas ou se, pelo contrário, secaram de vez. O intuito final dos dois dias será produzir uma colectânea com as contribuições dos oradores e de outros autores”.

Dois dias de trabalhos
Coube a Rui Ramos a abertura do seminário com a comunicação “As direitas na historiografia portuguesa” e a introdução não podia ter sido melhor. Há muito que este historiador tem denunciado uma oposição que se faz entre a esquerda e direita como se se tratasse do “bem” e do “mal”, perdoando-se os “excessos” das esquerdas e recriminando o mínimo deslize das direitas. Tal reflecte-se no campo historiográfico onde não devia acontecer. Segundo Rui Ramos, há uma cultura instalada que leva a que mesmo historiadores que não seguem necessariamente uma agenda política caiam nessas simplificações. Dos vários exemplos que deu, lembro aqui um: a chamada “ditadura de João Franco” é sempre considerada uma ditadura, por outro lado, o Governo Provisório de 1910, tecnicamente uma ditadura, nunca recebe essa designação e as suas medidas persecutórias são “compreendidas”.
Seguiram-se duas intervenções sobre o miguelismo “A reacção anti-liberal miguelista” de Maria Alexandre Lousada, e “A violência política no miguelismo” de Fátima Sá. Como se pode adivinhar pelos títulos das comunicações, estas centraram-se no “terror miguelista” que recordava, a espaços, as palavras iniciais de Rui Ramos.
Na tarde do primeiro dia falou José Manuel Quintas, sobre o “Integralismo Lusitano para além das etiquetas” e foi bastante interessante ouvir as origens desta experiência política e intelectual portuguesa por tantas vezes (propositadamente) mal tratada. O único defeito da sua comunicação foi a falta de tempo para assistir a tudo o que estava preparado. Seguiu-se a excelente intervenção de Ernesto Castro Leal, intitulada “As direitas revolucionárias na I República”, que se centrou em grupos menos conhecidos como a Acção Realista Portuguesa ou o Centro do Nacionalismo Lusitano, falando com clareza e demonstrando profundo conhecimento.
No segundo dia, duas intervenções a que O Diabo assistiu. Primeiro do cronista Henrique raposo que falou sobre “A Direita liberal no Portugal do Século XXI”, tentando demarcar o liberalismo do puramente económico, ao mesmo tempo que adiantou que várias das suas ideias, tão criticadas, estão a ser propostas pela própria União Europeia a vários estados devido à actual crise. Depois a comunicação de José Pedro Zúquete, “O Império contra-ataca: uma ideia antiga para as direitas do futuro”, que era sem dúvida a que tinha o melhor título de todo o seminário e prometia debate.

Ideias para o futuro
A José Pedro Zúquete, investigador a quem coube o primeiro artigo académico sobre o Partido Nacional Renovador (PNR), há que reconhecer a capacidade de estudo da chamada “extrema-direita”, em todas as suas complexidades, e a coragem de tentar propostas para o futuro, recusando a aposição confortável de observador não-interveniente.
Na sua participação neste seminário lembrou a importância da lusofonia na construção das direitas do futuro. Essa era a “ideia antiga” a que se referia o título da sua comunicação. Criticou o PNR por não a considerar, desejando boa sorte a quem tentar pesquisar o termo “lusofonia” no site deste partido nacionalista. Louvando, por outro lado, o Movimento Internacional Lusófono (MIL), disse que este era a expressão de uma ideia que não devemos desprezar. [publicado na última edição de «O Diabo»]

domingo, 12 de dezembro de 2010

Contra a polícia do pensamento


O tema de hoje do Méridien Zéro, a emissão francesa da Radio Bandiera Nera, é a polícia do pensamento e tem como convidado o advogado e ensaísta Éric Delcroix. Para ouvir a partir das 22 horas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Lançamento da Finis Mundi


Decorreu anteontem o lançamento do primeiro número da revista de cultura e pensamento “Finis Mundi”, dirigida pelo Flávio Gonçalves e editada pela Antagonista. A sessão de apresentação, que contou com a presença de Alain de Benoist e António Marques Bessa, teve lugar sala do Instituto D. Antão Vaz de Almada, no Palácio da Independência, em Lisboa, que se mostrou exígua para o público que aí acorreu e ultrapassou a centena de presentes. Também a banca montada para a venda da revista e de outras edições da Antagonista foi um êxito. Não quero deixar de congratular o Flávio Gonçalves e a equipa por ele mobilizada por este projecto tão necessário. Precisamos sempre de homens livres.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

1.º Seminário de História do Património e da Ciência


Não tenho o dom da ubiquidade, mas ontem ainda consegui dar um salto ao 1.º Seminário de História do Património e da Ciência, dedicado ao Prof. Mendes Corrêa. A parte a que assisti foi interessante e espero que as comunicações sejam publicadas.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Livros para hoje

 

Da extensa obra dos dois oradores que estarão hoje presentes no lançamento da Finis Mundi, escolhi dois livros a (re)ler: "Nova Direita, Nova Cultura: Antologia Crítica das Ideias Contemporâneas", de Alain de Benoist, e "Ensaio sobre o fim da nossa Idade", de António Marques Bessa.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Escrever nos livros

O Miguel Vaz sabe como sou avesso a escrever nos livros. As notas que tomo são normalmente em cartões que têm também a função de marcadores. Hoje, em jeito de provocação, enviou-me a imagem que partilho abaixo, perguntando: neste caso está desculpado? Trata-se do exemplar anotado de "O Coração das Trevas", de Joseph Conrad, que Francis Ford Coppola tinha quando realizou "Apocalypse Now". A decisão não é tão fácil quanto parece, mas concedo que desta vez foi em prol de uma causa — ou melhor, obra  maior.

Lembrar Mendes Corrêa


Amanhã tem lugar na Universidade Lusófona, em Lisboa, o 1.º Seminário de História do Património e da Ciência, dedicado ao Prof. Mendes Corrêa. Foi com agrado que soube desta iniciativa, já que esta é uma das nossas figuras tão habitualmente "esquecidas". O seu contributo foi enorme e bastante variado. António Mendes Corrêa formou-se em Medicina, mas o seus trabalhos estenderam-se por diversas áreas do conhecimento, como a Antropologia, a Arqueologia, a Criminologia ou a História. Foi docente, ocupou vários cargos directivos, tendo ainda sido presidente da Câmara Municipal do Porto e deputado à Assembleia Nacional.

Uma oportunidade a não perder. Para mim, o único problema é conciliar com o lançamento da Finis Mundi no mesmo dia.

Preso no motim

Por várias vezes me tenho queixado do inexplicável atraso com que certos filmes chegam às salas do nosso país e mais uma vez não posso deixar de referi-lo. Neste caso nem a proximidade geográfica nos valeu, já que “Cela 211” aparece finalmente por cá mais de um ano depois da sua estreia em Espanha. Escusado será lembrar as implicações comerciais destas opções, com os descarregamentos na internet ainda mais facilitados depois da saída o DVD.

Êxito cinematográfico no país vizinho, onde ultrapassou os dois milhões de espectadores e arrecadou oito prémios Goya, este ‘prison movie’ conquistou o público com o seu realismo e intensidade que prendem a atenção até ao final.

Juan Oliver (Alberto Ammann) é um guarda prisional que vai iniciar funções e quer causar boa impressão desde o princípio. Para tal, decide ir ao estabelecimento onde foi colocado na véspera do seu primeiro dia de trabalho para ver como tudo funciona. Durante a visita com dois colegas é atingido por um pedaço do tecto que lhe cai na cabeça. Inconsciente, é levado para a cela 211, quando ao mesmo tempo se desencadeia um motim na prisão. À frente desta onda de violência está o implacável Malamadre (Luis Tosar) e tudo se afigura aterrador para Juan. Mas o jovem funcionário, no desespero de sobreviver, decide tentar a única coisa que o pode salvar – fazer-se passar por um dos detidos. Este jogo arriscado vai-se tornando cada vez mais perigoso, ao mesmo tempo que Juan vai conquistando a confiança dos reclusos, do seu líder e subindo na hierarquia dos amotinados. Até aqui a história é interessante, mas podia não passar apenas disso. Felizmente, há um ‘twist’ que nos leva a pensar nas nossas motivações e em como estas podem mudar num ápice perante alterações de fundo. Quem somos realmente? O que conseguimos fazer?

No campo da representação, destaque natural para o notável trabalho de Luis Tosar no papel do carismático líder dos detidos. Este actor galego encarna muito bem Malamadre, personagem bem construída que reflecte um homem violento, duro e impiedoso, mas ainda assim seguidor de um código de honra próprio, cuja autoridade agressivamente mantida é reconhecida pelos demais. Referência também para Alberto Ammann que, tal como a sua personagem, se vai revelando ao longo do filme, proporcionando uma óptima evolução, essencial para a história.

Ao ver esta viagem ao mundo prisional espanhol, não pude deixar de recordar um filme de que aqui falei quando estreou no início deste ano. Trata-se de “Um profeta” (2009), do francês Jacques Audiard, um outro olhar sobre os cárceres europeus no qual há alguns pontos em comum interessantes. Há em ambos a presença de membros de grupos terroristas, mas o pormenor mais interessante é a actual composição étnica, nomeadamente os gangues provenientes da imigração que têm cada vez mais força e poder.

Um filme europeu com bastante acção e a capacidade de atrair o grande público, mas nem por isso a desprezar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

No change

Já o afirmei aqui por várias vezes que, apesar da eleição de Obama, os EUA e o seu projecto de hegemonia mundial continuam iguais a si próprios. Vem isto a propósito da entrevista de Michael Hayden, director da CIA entre 2006 e 2009, deu ao «Expresso», intitulada "Obama actua como Bush". Diz ele: "(...) no que respeita à luta antiterrorista, há mais semelhanças que diferenças entre Obama e Bush, apesar das retóricas. Continuam as detenções por tempo indeterminado, não há habeas corpus para os detidos da Al-Qaeda em Baghram (Afeganistão), persiste o segredo de Estado, tal como os assassínios selectivos e os voos da CIA. Uma vez na Casa Branca, começam-se a ver as coisas doutra forma".

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Finis Mundi: A Última Cultura


Realiza-se na próxima quinta-feira, dia 9 de Dezembro, pelas 21 horas, no Palácio da Independência em Lisboa, o lançamento de uma grande novidade editorial. Trata-se do primeiro número da revista de cultura e pensamento Finis Mundi, dirigida pelo Flávio Gonçalves e editada pela Antagonista, esta revista trimestral reúne uma série de artigos e ensaios subordinados a diversas áreas do conhecimento, nos quais se encontra um da minha autoria, procurando suscitar a atenção do leitor para a necessidade de repensar o estado da cultura portuguesa segundo uma perspectiva ou paradigma ocidental.

A sessão de apresentação contará com as comunicações de António Marques Bessa e Alain de Benoist. A entrada é livre. A não perder!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Quanto nos custa a imigração?


Hoje, o programa Méridien Zéro recebe Arnaud Naudin, jornalista independente, para responder a uma das perguntas mais incómodas da actualidade: Quanto nos custa a imigração?. Como sempre, com início às 22 horas.

sábado, 4 de dezembro de 2010

De Lisboa a Vladivostok

Ganha força a ideia de um espaço económico euro-russo Desta vez não é uma proposta de algum grupo “estranho”, ou de algum autor “subversivo”, como costumam dizer os nossos detractores. Foi o próprio primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, que afirmou num artigo publicado no Süddeutsche Zeitung, onde desejou uma “comunidade económica harmoniosa que irá de Lisboa a Vladivostok”.



Recordo novamente uma das teorias mais interessantes do recém-falecido Maurice Allais, a da “autarcia dos grandes espaços”, que inspirou, entre outros autores, Guillaume Faye, no que respeita à solução económica para um grande bloco etno-político europeu, ao qual chamou Eurosibéria.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O europeu

Se por ver o nome de George Clooney associado a um filme sobre um assassino profissional acha que encontrará em “O Americano” o habitual filme de acção de Hollywood, desengane-se. Este não é para as meninas que querem ver o galã, nem para os meninos que querem ver o engatatão. A frieza da sequência original, passada apropriadamente no clima gélido da Suécia, mostra que vamos entrar num mundo diferente.

Para sair dos ‘clichés’ cinematográficos deste género, a escolha do realizador não podia ter sido mais acertada. Anton Corbijn é um fotógrafo aclamado, desde há muito tempo ligado ao meio musical, que realizou vários telediscos e em 2007 nos concedeu uma verdadeira dádiva intitulada “Control”. Um filme fenomenal que é um relato tocante sobre o malogrado Ian Curtis, vocalista do grupo musical Joy Division, onde Corbijn revelou a sua mestria no grande ecrã.

É por isso que este “americano” é mesmo um “europeu”, com planos prolongados, sequências lentas, economia de diálogos e ausência de música desnecessária. Este último aspecto é bastante importante, já que confere ao filme uma dimensão muito diferente daqueles que na sua banda sonora desprezam o poder do silêncio. Em tudo isto há um ambiente ‘dark’, muito bem conseguido, que nos transporta a alguns ‘thrillers’ dos anos 70 do século passado. Nota ainda para o óptimo aproveitamento das magníficas paisagens da região de Abruzzo, opondo ao facilitismo de uma visão turística um olhar da terra.

Jack (George Clooney) é um assassino profissional em fuga que encontra esconderijo numa pacata povoação italiana. Durante o tempo que aí passa, começam a despertar dúvidas existenciais. Como lhe diz o seu enigmático protector num dos diálogos, “não costumavas ser assim”. Mas este homem duro e marcado por uma vida implacável e solitária tem ainda um trabalho, que deseja ser o último. Desta vez não tem que matar, mas transformar uma carabina para um assassinato que será cometido por outro. Aqui começa a revelar-se um artesão, um homem atento ao pormenor, ao mesmo tempo que a relação com uma prostituta evolui num sentido amoroso. Clooney encarna esta personagem com um desempenho profundo, a contrastar com os seus trabalhos mais ligeiros.

Apesar de este ser um filme substancialmente diferente, onde há Clooney tem que haver mulheres. Mas aqui, as três ‘belles’ que aparecem estão na casa dos trinta e, ao contrário da “beleza” artificial tão em voga, reflectem tipos europeus.

Uma das críticas que li e que reconheço é a do fraco argumento. No entanto, nem mesmo isso afecta grandemente a obra, porque por vezes há histórias na (de?) vida que são previsíveis e iguais a tantas outras. Um filme a apreciar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]