domingo, 19 de setembro de 2010

Rentrée


Hoje às 22 horas, é tempo da rentrée do Méridien Zero, o programa francês da Radio Bandiera Nera. A ouvir.

Genocídio esquecido


O Miguel Vaz lembrou muito bem, a propósito do povo Karen, que há "genocídios e genocídios". Realmente, os Karen parecem filhos de um deus menor no que toca à solidariedade internacional, pese embora o facto de se recusarem a pactuar com o tráfico de droga que sustenta o regime birmanês. Como disse o Miguel, uma das excepções é a Comunità Solidarista Popoli. Porque as imagens têm mais força que as palavras, ainda para mais neste tempo de ditadura mediática, partilho aqui um vídeo que retrata as atrocidades cometidas contra os Karen pelo exército birmanês. Imagens bastante fortes que mostram aldeias destruídas, crianças chacinadas e um médico voluntário assassinado. Viram na televisão? Felizmente existe a internet!

sábado, 18 de setembro de 2010

O Salazar de Filipe Ribeiro de Menezes

Tenho ouvido falar mal e bem da biografia política de Salazar da autoria de Filipe Ribeiro de Menezes, traduzida recentemente do original em inglês e publicada entre nós pela D. Quixote. O problema é que as pessoas com quem tenho falado, apesar de algumas reacções inflamadas, ainda não leram o livro. Pelo menos de fio a pavio...

Tal despertou-me a curiosidade e por isso que tenho tentado ler todas as recensões da obra e as entrevistas com o autor. Hoje o "Diário de Notícias" publicou uma entrevista feita pelo Eurico de Barros que me deixou ainda mais curioso e vale a pena ler. Há uma parte bastante interessante, que é a primeira vez que vejo, sobre os projectos futuros de Menezes. Diz ele: "Estou, em parceria com um colega irlandês, a examinar as ligações de Portugal com a Rodésia e a África do Sul durante a Guerra Colonial. Eu estou a tratar do material português e esse meu colega já foi à África do Sul e teve já a coragem de ir ao Zimbabwe, a Harare (risos). Felizmente para nós, grande parte da documentação do Governo rodesiano foi para a África do Sul, que nos oferece garantias de acesso. É um projecto muito grande, que por isso está a ser feito lentamente. Mas é muito interessante e começa com a guerra em Angola."

Voltando ao "Salazar", ainda não decidi se leio esta edição, ou opto pelo original inglês, como me aconselhou um amigo meu.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Europae n.º 1

Este é o primeiro número de "Europae", a revista da recém-criada Associação Cultural Genos, que nas suas 100 páginas inclui um extenso dossier sobre a Bretanha, um artigo sobre a geopolítica europeísta de Enrique Ravello, uma entrevista com Gabriele Adinolfi, e vários artigos sobre antropologia, cinema, poesia, história, entre outros. Excelente novidade!

Futebol "nacional"

A propósito do regresso do chamado "derby algarvio", um amigo enviou-me uma notícia do jornal «A Bola» que mostra bem ao que chegou o futebol "nacional". Diz a notícia que "dos 38 jogadores convocados, só 16 são portugueses. Apenas Rúben Fernandes (na foto) é natural da região." e por isso se intitula "Derby pouco algarvio".

Já o mesmo jornal, no dia 19 de Setembro, havia publicado as declarações de Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol, sobre o facto de Portugal ser o terceiro país europeu com mais estrangeiros nas suas ligas profissionais, afirmou que o "excesso de estrangeiros põe em perigo o futebol português".

Pelo mesmo caminho vai a chamada selecção "nacional"...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"O acordo ortográfico é uma merda"


Quem o afirma é o jornalista, dramaturgo, tradutor, cartunista, Millôr Fernandes, numa entrevista ao "Diário de Notícias", no passado 23 de Agosto. A mostrar que também no Brasil há quem veja o (des)acordo como ele é.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Outra Guerra

Quando pensamos num filme de guerra norte-americano actual, lembramo-nos automaticamente do Iraque, o conflito que o presidente Obama decretou terminado deixando lá 50 mil soldados. Mas a construção na Nova Ordem Mundial implica várias frentes, como aquela onde no passado penaram ingleses e soviéticos e para onde o mesmo Obama enviou um contingente de reforço de 40 mil soldados no início do seu mandato. A outra guerra está a tornar-se a principal e a chegar ao cinema, como não podia deixar de ser.

É exactamente para esse teatro de guerra que, neste filme, é enviado o Capitão Sam Cahill (Tobey MacGuire) para uma segunda comissão. Já no Afeganistão, o helicóptero onde seguia é abatido e ele é dado como morto. A trágica notícia vai abalar a retaguarda caseira. Sam é casado, tem duas filhas e é o filho preferido. O seu irmão Tommy (Jake Gyllenhaal) é a “ovelha negra” da família, que ainda por cima acabou de sair da prisão. A tensão cresce e as coisas não são, obviamente, fáceis. No entanto, a vida continua e por vezes altera-se como não imaginamos. Tommy, antes bêbado e irresponsável, começa a aproximar-se das sobrinhas e da cunhada e até mesmo do pai que o despreza.

Mas, mais uma vez, todo este ambiente vai sofrer um tremendo safanão. Sam Cahill não morreu. Conseguiu sobreviver a um doloroso cativeiro de torturas e privações impostas pelos taliban devido a uma terrível acção. Quando por fim regressa a casa, em clara e natural situação de ‘stress’ pós-traumático, o regresso ao seu lar perfeito vai ser demasiado difícil.

Depressão, agressividade, ciúme, suspeição, dúvida e violência. Estão criadas as condições para um drama intenso e é o que acontece, com Jim Sheridan ao leme, a responder à altura. Este realizador irlandês, que se notabilizou com o excelente “Em Nome do Pai” (1993), consegue captar com segurança o desempenho dos actores, no qual assenta o filme. Este não é um clássico nem uma revelação, mas Sheridan oferece-nos uma obra bem construída e honesta, neste ‘remake’ do dinamarquês “Irmãos” (2004), realizado por Susanne Bier.

As actuações têm nota positiva, no geral, com destaque para o trio Natalie Portman, à vontade no papel da mulher de Sam, Jake Gyllenhaal, muito bem como o irmão que começa a entrar numa esfera familiar que não era a sua, e Tobey MacGuire, seguro e confiante, a tentar deixar para trás a inevitável colagem ao “Homem-Aranha”. Referência positiva também para Sam Shepard, no papel de Hank Cahill, o pai dos dois irmãos.

Um bom filme sobre os traumas da guerra e a forma como estes afectam necessariamente a estabilidade da vida familiar, onde uma relação fraterna de confiança é seriamente abalada. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dominique Venner em entrevista



Excelente entrevista com o historiador Dominique Venner, realizada por Laure Destrée, sobre a revista que ele próprio dirige, "La Nouvelle Revue d'Histoire", à venda nas bancas em Portugal. Venner afirma que o objectivo principal da revista é dar uma outra visão da História, ao contrário da interpretação que domina actualmente o ensino e os media, uma visão puramente maniqueísta entre os bons e os maus. A não perder!

A Armada Invencível 1588


A entrega do passado Sábado da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é sobre a frustrada invasão da Inglaterra pela chamada "Invencível Armada", uma das batalhas navais mais famosas da História. Este livro, da autoria do historiador escocês Angus Konstam, é uma boa introdução ao tema, ilustrado com várias imagens e mapas.

domingo, 12 de setembro de 2010

Que ler? Venner!


O Miguel Vaz releu "O Século de 1914", uma obra imprescindível de Dominique Venner, publicada em Portugal no ano passado pela Civilização, com tradução de Miguel Freitas da Costa. Este é realmente um livro para ler e reler, e para depois a ele continuar a recorrer. Por isso o Miguel diz que se tornou "de cabeceira". Eu li-o pela primeira vez no original, em francês, e reli-o em português. É, de facto, um livro inspirador, que cito amiúde. Uma síntese formidável para melhor compreender o século XX e perceber a actual situação da Europa.


Da ampla bibliografia de Venner, há outro livro que, na minha opinião, é ainda mais importante: "Histoire et tradition des Européens. 30 000 ans d'identité". Esperemos que um dia seja também traduzida para a nossa língua. Este regresso às origens, às referências europeias maiores, é um apelo ao renascimento de uma identidade multimilenar.


Referência ainda para outro livro excelente, "Le Coeur Rebelle", onde Venner faz uma reflexão autobiográfica profunda, falando do activismo político, da guerra, da prisão e da forma como mudou ao longo da vida sem no entanto se arrepender do passado.


Por fim, não me canso de recomendar aqui a óptima e obrigatória "La Nouvelle Revue d'Histoire", dirigida por Dominique Venner, que se vende nas bancas portuguesas.

sábado, 11 de setembro de 2010

Da queima de livros

O golpe mediático do pastor norte-americano que ameaçou queimar o Corão deu muito que falar na imprensa, como não podia deixar de ser. Como aqui já afirmei, "para mim, queimar livros é um crime hediondo". E neste caso não é diferente.

Mas este post foi motivado pelos vários textos que automaticamente apareceram a lembrar, a esse propósito, casos do passado, como a Inquisição, mas com especial referência ao III Reich. Neste último caso, é curiosa a desonestidade com que nunca se referem as destruições de livros pós-Segunda Guerra Mundial. Na Alemanha foram destruídas dezenas de milhares de livros escolares, de poesia, bem como obras de autores alemães "suspeitos de alimentar o militarismo", como von Clausewitz! Noutros países sucederam situações semelhantes, mas é algo que raramente é mencionado.

Da próxima vez que se chocarem (naturalmente) com a queima de livros, lembrem-se que todos os regimes o fazem... até os "bons".

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O Pequeno Hoplita


Na minha recente ida a Espanha, gostei de ver que o meu filho descobriu, por si, numa visita à Casa del Libro, um livro que eu havia visto na internet e me despertara a curiosidade. Comprei-o, claro. Trata-se de "El Pequeño Hoplita", publicado pela Alfaguara, da autoria de Arturo Pérez-Reverte e com ilustrações de Fernando Vicente. Esta excelente história, que nos leva às Termópilas e aos 3oo de Esparta, está magnificamente ilustrada. Uma óptima forma de transmitir aos mais novos um dos acontecimentos mais importantes da História da Europa e os valores a este inerentes. Para quando uma edição portuguesa?

Abaixo deixo algumas das ilustrações disponíveis no blog de Fernando Vicente.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Caixa

Richard Kelly estreou-se em grande como realizador com “Donnie Darko” (2001) e é natural que a sua primeira obra – que é também a sua obra-prima – seja usada como termo de comparação para os trabalhos seguintes. Assim, este seu filme fica muito aquém do desejado, apesar de ser interessante. Estará o talento de Kelly confinado ao seu golpe de génio inicial? O futuro o dirá, mas espera-se sinceramente que não.

“Presente de morte” (adiante falarei desta tradução) conta-nos a história de um típico casal suburbano norte-americano. Ela é professora e ele é engenheiro na NASA, têm uma vida aparentemente normal até que num período de dificuldades laborais inesperadas são confrontados com uma estranha proposta. Arlington Steward (Frank Langella), um homem misterioso, com a cara deformada e extremamente educado e formal, oferece-lhes um milhão de dólares se carregarem no botão da caixa que lhes deixa durante 24 horas, o tempo para decidirem. Mas a decisão está longe de ser fácil, já que Arlington lhes diz que ao ser pressionado o botão morrerá uma pessoa que eles não conhecem. Obviamente, este dilema moral provoca grandes alterações na vida familiar do casal Lewis. Algo entre o recorrente pensamento “e se ganhássemos a lotaria?” e o desprezo pela vida de quem não se conhece.

Outro aspecto bastante interessante é o filme passar-se nos anos 70 do século passado. Apesar do seu tema intemporal, esta opção resulta muito bem. O ambiente está fielmente recriado e por vezes traz-nos à memória os filmes de terror dessa altura – finais de 70 início de 80.

Há um diálogo memorável em que Arlington Steward, quando questionado sobre o porquê do objecto ser uma caixa, responde que a nossa casa é uma caixa, o nosso carro é uma caixa com rodas, e em casa olhamos para uma caixa que vai desgastando a nossa alma até que a caixa que é o nosso corpo morre, para acabar na última caixa. E se repeti na frase anterior sete vezes a palavra “caixa” é porque esse seria o título óbvio para este filme. Bastava fazer uma tradução directa e mantinha o seu carácter enigmático. Mas não, foi preferida uma tradução livre – que neste caso foi mesmo a liberdade para traduzir para o que se quer – que aponta para um filme de terror e desvenda em parte a história.

Nos desempenhos, o destaque vai sem sombra de dúvidas para o excelente Frank Langella. Cameron Diaz cumpre, estando à altura do exigido, e James Marsden desilude numa fraca interpretação. Outra nota negativa para a estreia tardia, numa altura em que há estreias simultâneas é incompreensível que filmes como este cheguem às salas nacionais um ano depois da sua ‘première’ norte-americana.

Apesar do seu início interessante e das imensas possibilidades, o confuso e exagerado ‘twist’ ficção científica com pitadas de terror não resulta no grande filme que este podia ser. Voltando ao princípio, esperemos o regresso do génio de “Darko”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nuno Gonçalves

O «Público» iniciou hoje a distribuição da colecção "Pintores Portugueses" e a primeira entrega é um livro sobre Nuno Gonçalves, da autoria de Pedro Flor, que faz também uma análise dos Painéis de São Vicente. O preço deste volume é de €3. Vale bem a pena.

Dia d'O Diabo

domingo, 5 de setembro de 2010

Lepanto 1571


A entrega de ontem da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é mais uma vez sobre um momento crucial da História da Europa - a Batalha de Lepanto, em 1571. Este livro, da autoria do historiador escocês Angus Konstam, é muito interessante e bem feito, nomeadamente na parte militar, como não podia deixar de ser.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um regresso à Guerra Fria

No início deste Verão, as notícias dos agentes secretos russos descobertos e acusados nos EUA trouxeram recordações da Guerra Fria. Coincidência cinematográfica, é o que faz “Salt”, realizado pelo australiano Phillip Noyce, que se tornou conhecido com “Calma de Morte” (1986), onde volta a reencontrar Angelina Jolie, depois de “O Colccionador de Ossos” (1999).

Esta actriz, que no género dos filmes de acção é difícil de dissociar da personagem de vídeo-jogo Lara Croft, trazida ao cinema na série “Tomb Raider” (2001 e 2003), não é propriamente uma das minhas actrizes de eleição. No entanto, depois de saber que o papel principal de “Salt” estava originalmente previsto para Tom Cruise, devo dizer que Angelina Jolie acabou por salvar este filme do desastre total.

Nem começa mal. Evelyn Salt é uma agente da CIA que é acusada por um dissidente russo de ser uma agente adormecida. Segundo as suas revelações, ela pertence a um grupo de crianças que foram treinadas numa base secreta na antiga União Soviética e depois introduzidas nos EUA para chegarem a lugares de destaque dentro da estrutura do poder para utilizações futuras. A sua missão: assassinar o presidente russo durante o funeral do recém-falecido vice-presidente norte-americano. O objectivo: reacender a Guerra Fria entre os EUA e a Rússia.

Ela vai escapar-se espectacularmente da sede da CIA e, a partir daí, a acção frenética não pára mais. De início, a destreza, eficácia e segurança de Salt fazem-nos lembrar um Bourne feminino, com qualquer coisa de McGyver. É implacável, impiedosa e inventiva. Mas também é inverosímil, sem bem que neste género os limites ultrapassam-se muitas vezes, para gáudio do público. Conta, ainda assim, com alguns pormenores inovadores, como a cena em que Salt, refugiando-se durante uma perseguição numa casa de banho pública, cola um penso higiénico na perna para estancar uma ferida, ou quando movimenta a carrinha numa fuga dando choques eléctricos com um ‘taser’ à condutora.

O que se segue é que desilude. Girando à volta da protagonista, as restantes personagens são demasiado superficiais, quando não vazias. O cúmulo é mesmo o marido de Salt, posto à pressão para dar uma das explicações da história. O próprio enredo deixa a desejar com uma exagerada sucessão de pseudo-revelações anunciadas. Os diálogos são pobres e sempre na turbulência da agitação permanente.

É mesmo pena que não se tenha ido mais além na recuperação de um tema bem interessante como este. Mas enfim, há quem goste da acção pela acção, como uma pastilha elástica que se mastiga e mastiga e nunca se chega a comer nada. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Vá para fora cá dentro... e não só

Depois de um período na Beira Alta, eis que chego à cidade onde no século XVII o Capitão Alatriste se viu às avessas com "O Ouro do Rei". E está um — típico — calor de morte!

domingo, 29 de agosto de 2010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Os Indo-Europeus (III)



Uma óptima novidade editorial francesa, apresentada neste vídeo pelo presidente da Terre et Peuple, Pierre Vial, é a publicação de uma edição revista e aumentada do livro "Les Indo-Européens", de Jean Haudry, pelas Éditions de la Fôret, que tem por base o publicado pela PUF na colecção "Que sais-je ?", em 1981, e que teve várias edições e traduções, incluindo uma portuguesa que referi aqui.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A festa de Stallone

Parece que Sylvester Stallone decidiu fazer uma espécie de encontro dos antigos combatentes dos filmes de acção de Hollywood. Convidou todos os amigos e realizou uma obra que apenas se pode considerar uma paródia em homenagem a este género. O problema é que, mesmo assim, é uma estopada.

O argumento resume-se a uma colecção dos lugares-comuns deste tipo de filmes. É aborrecidamente previsível e penosamente sem piada. A única cena cómica verdadeiramente engraçada é protagonizada por Arnold Schwarzenegger, na fugaz aparição do agora governador da Califórnia. Há que dizer que a ideia das cenas em que Stallone goza com ele próprio é boa, mas simplesmente não resulta.

Não sou daqueles que descartam automaticamente este italo-americano com hipertrofia muscular, que garantiu um lugar entre os grandes nomes dos actores de filme de tiros e pancada. Há que dizer que o primeiro Rambo, “A Fúria do Herói” (1982), é um bom filme sobre o difícil regresso da Guerra do Vietname, bem como o primeiro “Rocky” (1976), com o devido encaixe. O que se seguiu nessas duas séries – aparentemente intermináveis – foi muito mau, mas ao que parece foi apenas motivado pelo lucro fácil perante um público “pouco exigente” (para ser simpático). Mas Stallone foi construindo a sua carreira, como quis e entendeu, atingindo um estatuto que lhe permite, agora, fazer brincadeiras como “Os Mercenários”.

Descurando enquadramentos e necessidade narrativa, como era de esperar, há acção com fartura; para “dar e vender”, como reza a expressão popular. Explosões, tiros, armas potentes e pancadaria da grossa, com cenas explícitas e brutais. Mas isso é o menos, porque o pior – mesmo considerando que é uma paródia – é a historieca do ditador de uma minúscula ilha latino-americana ficcionada, com uma bandeira que mais parece de um país árabe, controlado por um mauzão renegado da CIA. Perante tal cenário, um grupo de mercenários aparece para “salvar o dia” – numa tradução directa da expressão americana – muito ao jeito da série televisiva “Soldados da Fortuna”, tendo como contacto a própria filha do general, defensora da liberdade. Já fora da paródia, o espírito do filme é que a América é que é fixe. Aqui, até estes guerreiros a soldo acabam por ter valores e princípios. Pelo meio, ainda debitam algumas das diabolizações recentes da propaganda norte-americana, como na referência aos “malvados sérvios”.

O exagerado elenco de estrelas caídas (pelo menos etariamente) serve apenas para comentar para o lado: “Olha aquele, como ele está…” O mais ridículo é mesmo a recusa da idade de tantos deles, com o recurso à cirurgia plástica, tão em voga, mas que chega a desfigurar as pessoas. O cúmulo é um Mickey Rourke que mal se consegue levantar da cadeira. Para concluir, digo apenas que ir ao cinema ver estes “dispensáveis” é sem dúvida dispensável. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

IdentidaD n.º 30

Os nossos brinquedos

Confesso: conservo ainda a maior parte dos meus brinquedos de infância. Não só por motivos sentimentais, mas principalmente devido à minha veia coleccionista. Alguns dei-os já ao meu filho, mas muitos continuam na arrecadação. Como que a dizer que certas coisas que guardamos de outros tempos as vamos passando, gradualmente, às gerações seguintes.

Quem estranhar estas linhas, percebê-las-á quando vir o perturbante início do último filme da trilogia “Toy Story”, iniciada em 1995. O tempo passou e Andy já não é mais uma criança. Vai para a universidade e isso implica mudanças em casa. Decide colocar o seu ‘cowboy’ Woody nas coisas que vai levar com ele e o resto dos seus brinquedos num caixote para guardar no sótão. No entanto há um equívoco que leva os nossos conhecidos heróis a quase serem triturados por um camião do lixo, para acabarem doados a um infantário onde os mais pequenos os tratam, literalmente, à pancada. Mas isso não é o pior, pois depressa descobrem que foram parar a um verdadeiro ambiente prisional controlado por um grupo de brinquedos maus liderados por Lotso, um traumatizado urso de peluche cor-de-rosa.

A partir daí vai viver-se uma aventura para miúdos e graúdos, com várias referências a clássicos, numa história que junta a fuga e o reencontro, a desilusão e o recomeço. Pelo meio há uma série de situações cómicas muito bem conseguidas, como a cena em que Buzz Lightyear, o astronauta do Comando Estelar, é reprogramado pelos seus captores para um modo em que fala espanhol.

Uma das coisas mais extraordinárias e surpreendentes nesta obra dirigida por Lee Unkrich é a personagem Ken, o companheiro da Barbie, a quem é dito a determinada altura: “Tu não és um brinquedo, és um acessório!” Este dilema, ao qual se juntam o estilo desajeitado e efeminado proporcionam ao filme situações verdadeiramente hilariantes.

Esta é a primeira longa-metragem da Pixar a ser realizada em 3D, mas não exagera, felizmente. Aliás, toda a tecnologia neste filme é – como deve ser – acessória. Aqui o interesse fundamental é a história, a riqueza das personagens e o efeito que têm em nós.

Um filme de família no sentido pleno do termo, que nos mostra a importância das brincadeiras, da amizade, da transmissão de valores, da passagem do testemunho. Porque esse é o seu propósito: a continuidade. Um filme a ver, naturalmente, em família. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

domingo, 15 de agosto de 2010

Uma pouca vergonha


Já na última página da edição d'«O Diabo» da passada terça-feira, se dava conta de uma situação deplorável: a da transformação do Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, num "lava-pés"! Ontem, no «Diário de Notícias», foi a vez do Eurico de Barros denunciar esta pouca vergonha. Escreve ele: "Uma coisa é enfiar as mãos na fonte do Rossio numa tarde de brasa, outra é usar o monumento aos Mortos do Ultramar como piscina e solário, como parece estar a tornar-se hábito, sobretudo nestes últimos dias em que a canícula não deu tréguas. Nestes tempos em que anda tudo de boca cheia com "cidadania" e "civismo" por causa dos 100 anos da República, convinha que as pessoas, sobretudo as mais encaloradas, percebessem que o Monumento aos Mortos do Ultramar não é uma peça de "arte pública" para usufruto do cidadão, muito menos o sucedâneo de uma piscina municipal onde a malta vai chapinhar e esticar-se ao sol para ficar mais tostadinha".

É caso para repetir o que escreveu "O Diabo": "Haja decoro!"

Zen Anarchist

Ontem referi aqui John Milius, argumentista de "Apocalypse Now" (1979) e realizador de "Conan, o Bárbaro" (1982), por exemplo, foi também actor e, recentemente, escreveu e produziu vários episódios da óptima série televisiva "Roma". Lembrei-me de um post que lhe dediquei no defunto Jantar das Quartas e onde partilhei a ligação para uma excelente entrevista sugerida por um leitor. Uma excelente (re)leitura!

sábado, 14 de agosto de 2010

Coração das Trevas

Na iniciativa "Biblioteca de Verão", «Diário de Notícias» oferece hoje com o jornal o livro "O Coração das Trevas", de Joseph Conrad, a obra em que John Milius se baseou para esccrever o argumento do filme "Apocalypse Now". A edição não é das melhores, mas é sempre de aproveitar.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Já cá canta!

Há um ano atrás, quando saiu o quinto volume da série do Capitão Alatriste, disse aqui que aguardava a tradução de “Corsários de Levante”, para termos em português todas as aventuras deste herói popularizado por Arturo Pérez-Reverte publicadas até agora. A espera terminou e hoje comprei o livro. Uma óptima leitura para este Verão!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Navios japoneses em Lisboa

Não pude ir visitar os navios japoneses que estão em Lisboa devido aos horários impeditivos, mas felizmente o Defesa Nacional proporcionou uma óptima série de fotografias. Obrigado!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 49

Já saiu o número 49 de «La Nouvelle Revue d'Histoire», a revista de referência que aconselho regularmente e é possível comprar nas bancas portuguesas. De leitura obrigatória, traz-nos mais uma vez um tema da maior actualidade: o Afeganistão. O excelente dossier inclui artigos de Jean-Dominique Merchet, Philippe Conrad, Mériadec Raffray, Didier Donnersmark e Aymeric Chauprade. Destaque ainda para as entrevistas com Henri Bogdan sobre a Mitteleuropa, e com David Victoroff sobre a crise do Euro e o futuro da Europa, e para os artigos “Carlos Magno, Imperador do Ocidente” de Emma Demeester, “Os camponeses de onde nós vimos”, de Anne Bernet, “A tumba do Dr. Freud”, de Charles Vaugeois, sobre o livro de Michel Onfray, e “1940. A revanche da Rechswehr”, de Dominique Venner. Nota especial para o artigo de Jean-Michel Baldassari, “Imigração: revelações de um demógrafo”, sobre o livro de Michèle Tribalat sobre a imigração em França. Como habitualmente, temos a crónica de Péroncel-Hugoz e as secções do costume.

O controlo


Continuando o raciocínio da semana passada, António Marques Bessa escreveu na edição de ontem d'«O Diabo»:

"A democracia vigiada também é o controlo do cidadão pela máquina. Logo que a classe política profissional se viu entrincheirada no poder, com a economia na mão, raciocinou bem: só nos falta controlar as massas. E as massas são as pessoas consideradas uma a uma. Tornou-se fácil, com o Estado despesista e sem limites de orçamento, começar a pentear o tecido social para encontrar inimigos e quem interessa para pagar as suas contas. Então, em vez do odioso militar e o cárcere no quartel, o cidadão passou a ter direito a uma observação constante do Ministério das Finanças, que paulatinamente constrói ficheiros e acena com anos de cadeia como se fosse um cacho de bananas. Diversos órgãos de espionagem da república como o conhecido SIS, como o conhecido SIR, como os serviços de informação especiais de cada Ministério, bem com as redes pessoais de cada "homem grande", estendem-se sobre os portugueses para apurar o que andam a fazer, especialmente os mais activos. O acesso a contas confidenciais de simples cidadão, que a eles diz respeito como rotina, é mais um aspecto da vigilância que não será para desprezar, porque a independência económica assegura a independência política. As redes asseguram outros a ficarem impunes: fazem-nos desaparecer e a massa esquece o nome e o que ele fez.
As redes internacionais de informação e controlo ajudam a que este sistema ainda funcione melhor: trocam dados, aconselham técnicas de vigilância, de gravação, mesmo os computadores pessoais podem ser penetrados e toda a informação tida por bem guardada pode ser espionada e vasculhada por um especialista contratado por uma destas redes.
"

Carlos Eduardo Soveral - In memoriam

O Nonas lembrou Carlos Eduardo Soveral no passado 7 de Agosto, dia do aniversário da sua morte. Esta recordação fez-me resgatar da prateleira o muito recomendável livro "Visão indo-europeia ou afã de entender", publicado pela Hugin em 2001. Escolhi a conclusão da "Nota sobre a Exortação da Guerra de Gil Vicente e a trifuncionalidade indo-europeia" para partilhar aqui:

A trifuncionalidade indo-europeia, estudada e magistralmente explicada-iluminada por Dumézil de meio século e de milhares de páginas de uma obra exundiosíssima encontra nesta tragi-comédia de Gil Vicente surpreendente ilustração. Qual se o grande dramaturgo peninsular se figurasse criticamente essa trifuncionalidade e, criticamente, levando pela mão o seu portentoso engenho, tivesse querido exprimi-la de forma teatral. Desnecessário seria dizer que isso não teve, decerto, lugar, uma vez que o talento verdadeiro se encontra de natura misteriosamente assimilado com as essências e estruturas profundas de toda a realidade.

O Império contra-ataca

Este é o excelente último álbum dos Hobbit, que não me canso de ouvir.

Sonho e pesadelo

Os nossos sonhos são um mundo paralelo que interage com o mundo real? Se assim é, um pode influenciar o outro? É então possível manipular um através do outro? Questões que nos traz Christopher Nolan em “A Origem”, filme que realizou e escreveu, que tem sido um sucesso de bilheteira e gerado reacções diversas.

No mundo dos sonhos tudo nos é permitido e Nolan joga com isso para construir uma viagem mental profunda sobre a própria vida e as nossas decisões, os seus caminhos e as nossas opções, os seus paradoxos e mistérios. No plano técnico desta construção, o realizador tanto teve o bom senso de recusar o 3D, como de utilizar os efeitos especiais computorizados ao serviço do filme e não – como parece ser moda ultimamente – como seu objecto central.

A história passa-se num futuro próximo onde é possível entrar nos sonhos alheios e roubar ideias. Este método é bastante utilizado na espionagem comercial, o que levou à necessidade de sistemas de defesa contra tais intromissões. Mas o que vai ser proposto a Cobb (Leonardo DiCaprio) é algo diferente: a colocação de uma ideia na mente de alguém, para provocar um determinado resultado. Isto é considerado praticamente impossível, mas o protagonista aceita o trabalho mediante a perspectiva de resolução da sua vida e do reencontro com a sua família. Para este golpe, precisa de um arquitecto que construa o cenário onde se passará o sonho e descobre a jovem Ariadne (Ellen Page). O nome desta personagem não é inocente e a sua primeira prova de selecção é desenhar labirintos. Na mitologia grega, a filha de Minos, o rei de Creta, deu a Teseu um novelo de linha que lhe permitiu encontrar o caminho de volta do labirinto. O fio de Ariadne tornou-se depois um método lógico para a resolução de um problema. Parece que a chave está nesta referência ao labirinto, símbolo ancestral que remonta ao Neolítico, neste filme que sai dos simplismos habituais de Hollywood. Curiosa, também, no nome de uma das personagens, a recordação do grande mestre do xadrez Bobby Fischer.

Mas, considerações profundas à parte, era preciso fazer um ‘blockbuster’. Nolan não hesitou em aplicar a chapa do ‘heist movie’, com ritmo elevado, muita acção e referências que nos levam a trabalhos anteriores do realizador ou a filmes como “Matrix” (1999) e até “Ao Serviço de Sua Majestade” (1963). Este último vem-nos automaticamente à mente nas cenas na neve, passadas numa fortaleza de montanha, onde todo o ambiente bondiano se torna aborrecido, porque desnecessário. As cenas de tiros e explosões estão muito bem feitas e visualmente bem conseguidas, mas são exageradamente demoradas e prolongam demasiado o filme.

Lembre-se que este filme era um dos projectos de vida de Christopher Nolan e que teve todos os meios, técnicos e financeiros, para o realizar. O grau de exigência torna-se, assim, mais elevado. A fantástica ideia que é colocada neste trabalho não se desenvolve como se esperava. Mas será que isso alguma vez acontece? [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Mar e camaradagem



A CasaPound Latina dispõe de vários quartos para quem quiser passar uma noite ou vários dias de férias com um programa de camaradagem e praia.

Para mais informações sobre reservas de quartos, escreva para casapound2006@libero.it

Algumas palavras sobre Latina:
Latina é uma cidade italiana com 118 mil habitantes, que é também o centro administrativo da região da Lazio. Situa-se a 50 km a sul de Roma e foi fundada a 30 de Junho de 1932, o que a torna uma das cidades italianas mais recentes, mas também um exemplo da arquitectura fascista. Inicialmente foi nomeada Littoria, sendo rebaptizada depois da Segunda Guerra Mundial. Latina está no coração do Agro Pontina, uma planície agrícola fértil. O centro da cidade está a dez minutos das praias do Mar Tirreno.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Back to Mac

Dedicado ao Pedro Guedes.


Não contando com aquele ícone da minha adolescência que foi o ZX Spectrum, o meu primeiro computador foi um Macintosh Plus. A culpada desta iniciação informática foi a minha mãe que, nos idos anos 80 do século passado, decidiu comprar uma máquina dessas para uso doméstico. Rapidamente todos nos habituámos intuitivamente à facilidade de utilização de um computador. Lembro-me que os meus colegas de liceu estranhavam e os professores também. Não por ser um Mac, mas por quase ninguém ter computador, muito menos entregar trabalhos impressos. Foi uma aventura engraçada até que, devido aos projectos de engenharia do meu pai, um PC entrou lá em casa. Um verdadeiro pesadelo! Para quem estava habituado a usar o ambiente Mac e o respectivo processador de texto, usar comandos MS-DOS e o insuportável WordStar era uma verdadeira tortura. Nessa altura cheguei a ganhar uma certa aversão a computadores...

Depois veio o Windows, esse monoteísmo informático, que nivelou tudo. Converti-me, como tantos outros, forçadamente. Até ao passado fim-de-semana, quando comprei um Mac e em poucos minutos reencontrei a facilidade de um sistema que faz muito mais sentido na minha cabeça. Mas também porque talvez não haja amor como o primeiro...

E sim, este post foi escrito num Mac.

Eterno reencontro


Tenho uma teoria muito minha (mais uma...) de que os verdadeiros amigos se reencontram sempre. Antes de tentarem negá-la, dou aqui um exemplo prático.

Há anos que não sabia do Afonso, mas graças à internet descobri que ele se havia tornado num Wenceslau de Moraes (escrito à antiga, comme il faut...) hodierno. Vive agora no sul do Japão e mantém um excelente blog que nos traz as últimas novas nipónicas à velha Lusitânia e alhures.

Fica aqui um convite a todos para visitarem o Último Nan Ban Jin, as aventuras e desventuras de um português No Japão, em pleno século XXI, e um grande abraço a um Amigo que está longe fisicamente, mas perto em espírito. A ele dedico A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai.

Nagasaki

Hoje é um dia em que não podemos deixar passar em branco os crimes dos "bons" e no qual devemos relembrar a realidade nuclear.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Entrevista com Alain de Benoist

Alain de Benoist esteve em Lisboa e o Flávio aproveitou para fazer uma excelente entrevista que foi publicada no semanário «O Diabo». Finalmente, decidiu reproduzi-la integralmente no seu blog. Aqui fica uma das questões sobre o posicionamento esquerda/direita:

As suas obras parecem ser muito populares entre uma larga franja de activistas, não só entre a direita, alguns vêem-no inclusive como um Noam Chomsky europeu. Pese embora a corrente intelectual a que pertence ter ficado conhecida pelo nome de Nova Direita, considera-se um homem de direita?

Não me insiro de forma alguma na clivagem Esquerda-Direita. Já fui algumas vezes definido como um “homem de esquerda de direita” ou como alguém que tem valores de direita e ideias de esquerda. Nada disto faz muito sentido. A direita e a esquerda nasceram com a modernidade e estão em vias de com esta desaparecer. Para mais, houve sempre uma pluralidade de direitas e de esquerdas muito diferentes. Algumas dessas direitas tinham mais afinidades com certas esquerdas do que com as outras direitas (e vice-versa). Consoante as épocas e os países, as ideias catalogadas à direita ou à esquerda podem igualmente variar. Razão pela qual os politólogos há já muito tempo que renunciaram a dar uma definição unitária da “direita” ou da “esquerda”. A “direita”, hoje em dia, pode ser republicana ou monárquica, democrata ou anti-democrática, cristã ou anti-cristã, favorável à construção europeia ou hostil a essa construção, pró-americana ou anti-americana, liberal ou anti-liberal, reaccionária ou revolucionária, etc. O facto de alguém se apresentar como um “homem de direita” não nos diz pois grande coisa acerca do seu pensamento. O que conta, não são as etiquetas, mas o conteúdo das opções que se fez.

As noções de direita e de esquerda já não são hoje em dia operacionais no campo das ideias. Mantêm-se por hábito no domínio da política parlamentar, mas todas as sondagens mostram que o eleitorado tem cada vez mais dificuldade em identificar o que as diferencia. A sociologia eleitoral mostra também que os sufrágios são cada vez mais voláteis: enquanto que antigamente o voto passava de pai para filho, a favor das mesmas famílias políticas, hoje em dia cada vez mais os eleitores votam sucessivamente em candidatos “de direita” ou “de esquerda”. Enfim, constata-se que todos os grandes acontecimentos destes últimos anos revelaram novas clivagens, que atravessam as famílias políticas.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Casa de loucos

O que sabemos da Grécia ultimamente não passa de notícias sobre a crise económico-financeira que atinge a Europa, mas eis que em pleno Verão nos chega o cinema contemporâneo grego, pela mão de Yorgos Lanthimos, realizador que conseguiu com esta sua segunda longa-metragem o prémio “Un certain regard” em Cannes e o grande prémio do Festival Internacional do Estoril, entre outros.

“Canino” não é um filme fácil. É uma experiência alucinante, violenta e perturbante que nos transporta a uma casa de loucos onde se vive uma realidade alterada. Um olhar sobre o controlo dos outros e a manipulação do discurso levado ao extremo. A acção passa-se na Grécia dos nossos dias, mas fica a percepção que poderia muito bem passar-se noutro local e noutro tempo.

O plano inicial, onde um velho leitor de cassetes “explica” que várias palavras têm significados diferentes daqueles que lhes conhecemos, é um verdadeiro mergulho de cabeça nesta história onde o pai mantém, com a cumplicidade da mulher, a sua família numa redoma fechada ao mundo exterior. Tudo se passa numa grande vivenda afastada da cidade onde filhos são isolados do mundo “perigoso” lá de fora por um domínio psicológico brutal, até estarem “preparados”. Nessa “preparação”, que não é mais do que uma parte importante do mecanismo de controlo, os filhos têm fazer jogos e tarefas, sendo premiados com pequenos autocolantes. Este sistema de recompensas lembra automaticamente a educação canina. Há aliás um paralelo entre um cão que a determinada altura sabemos que está a ser treinado numa escola especializada a pedido do pai e um dos “treinos” que este dá aos membros da família para se protegerem dos gatos – os “mais perigosos animais do mundo” –, pondo-os de gatas a ladrar.

Os filhos, cujos nomes nunca sabemos, conhecendo-os apenas por o irmão, a irmã mais velha e a mais nova, são jovens adultos com atitudes acriançadas. O rapaz tem o privilégio de satisfazer as suas necessidades sexuais com uma empregada de segurança que o pai traz da empresa onde trabalha. Mas o sexo com Christina é mecânico, serve aquele propósito e mais nada; não há paixão, nem emoção. Esta rapariga é, assim, um contacto com o mundo exterior e logo se tornará um problema.

Entre os filhos começa a subir a tensão. Apesar do medo criado sobre o mundo lá fora, a curiosidade aumenta. Os métodos de castigo e repreensão já não conseguem evitar todas as transgressões. Aqui está a grande questão do filme. Até que ponto se cria uma realidade para atingir determinados objectivos? Até onde deve uma família proteger-se?

Nesta desconstrução das realidades construídas o campo está aberto a todas as interpretações. Se do modelo familiar passarmos ao modelo de sociedade, e não necessariamente a totalitarismos passados – esses também mais ou menos mitificados –, encontramos hoje vários pontos em comum, das “operações de paz” à guerra das palavras “incorrectas”. Um filme de loucos, mas que dá que pensar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa
in "Mensagem" (1934).

Ainda a propósito...

... do post anterior, façamos um regresso aos arquivos desta casa.

1. A preocupação de Angola com a imigração já não é novidade, num país onde a questão racial está presente.

2. O caso de perseguição política em Portugal a propósito de uma campanha contra os produtos chineses.

3. Outro caso igual ao anterior, mas onde já não há "racismo".

Racismos (XV)

Disse ontem o «Público» que: "A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé manifestou o receio de que a excessiva importação de mão-de-obra chinesa leve ao desemprego de milhares de angolanos." Mas não há motivo para preocupação porque, como afirmou o sempre atento Harms,"isso não é grave. Se os bispos portugueses fizerem o mesmo em relação aos angolanos ou chineses presentes em Portugal já estamos perante um gravíssimo caso de contornos racistas e xenófobos."

A caminho da democracia vigiada

Este é o título do interessante artigo de António Marques Bessa publicado na edição do semanário «O Diabo» de ontem. Falando sobre o significado do termo "democracia", incessantemente repetido no nosso país, a propósito de tudo e nada, conclui desta forma: "A grande tragédia é terem transformado a democracia residual numa ideologia de exportação de negócios e desorganização de sociedades que não podem viver assim. Já escrevia Montesquieu que os regimes de pequenos países não servem para os impérios, e vice-versa. Porém, no nosso País, todos os dias andam a descobrir a pólvora: talvez um dia se deparem com um leque de sistemas e tenham a sorte de escolher o menos mau. Há uns anos, Margarida Sebastião escreveu uma tese editada onde analisava o caso suíço e deixava pendurada na capa a pergunta chave: a democracia directa ainda interessa?
Pois é. Talvez seja essa que nos interessa – ao povo que assiste à governança e não pode fazer nada porque está de mãos atadas. Os suíços têm-nas e conservam-nas bem livres. E julgo que quererão continuar a querer controlar o seu destino.
"

domingo, 1 de agosto de 2010

Racismos (XIV)

Num interessante artigo sobre a Al-Qaeda do Magrebe (AQMI), organização que opera aqui bem perto de nós e já se referiu à "reconquista do Al-Andalus" apelando à "guerra santa" contra a Península Ibérica, publicada na edição do semanário «Expresso» de ontem, há uma referência ao "racismo branco e árabe" da Al-Qaeda. Diz o texto que: "As filiais da Al-Qaeda no Magrebe são árabes e brancas. Não recrutam negros."