quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Desejado


Retrato de D. Sebastião
Cristóvão de Morais (actividade c.1551–c.1573)
Portugal, século XVI (c. 1572-1574)
Óleo sobre tela
A 100 x L 85 cm

They have a dream...

A secção "Frases" da última edição do «Courrier Internacional» cita o discurso de Muammar Kadhafi durante o Comando Popular Islâmico, a que preside, onde se dirigiu especialmente às delegações de muçulmanos dos Balcãs:

"Sois uma minoria na Europa. Mas um dia, se Deus quiser, sereis os donos, os dirigentes e os herdeiros do continente europeu. Ninguém nos pode impedir de viver na Europa. Deus criou a Europa, não os europeus. Sois europeus e essa é a vossa terra. Como aceitam viver humilhados e oprimidos?"

Um país em mutação

Jia Zhangke é um realizador chinês que não é desconhecido de todo. Os seus filmes, alguns documentários, têm servido de montra às profundas alterações da realidade do seu populoso país. Em especial da forma como a globalização tem afectado esta nação asiática que se tornou o grande produtor do mundo.

A estreia deste filme entre nós tem uma particularidade que é a de ter passado primeiro nos canais televisivos por cabo TVCine, antes de chegar finalmente às salas de cinema. Sinal dos tempos? É exactamente esse sinal que nos transmite “24 City”. A sua pulsação mostra-nos como o gigante chinês está a mudar e a grande velocidade.

Esta é a história da Fábrica 420, em Chengdu, um monstro produtivo que fabricava aviões de combate e seus componentes e era propriedade do Estado, como não podia deixar de ser neste país comunista. Com o fim do esforço de guerra, a fábrica e toda a vida que circulava à sua volta alterou-se radicalmente. Tal coincidiu com a chamada “abertura” chinesa, quer isto dizer, com a entrada da China no mercado globalizado, com os seus produtos baratos e de baixa qualidade.
Podemos dizer que este filme é um semi-documentário. Filmado totalmente em digital, conta a história através de relatos dos que viveram essa transformação. Alguns verdadeiros, outros encenados, mas todos muito bem filmados, com planos demorados, que analisam as expressões e nos levam a pensar toda uma mudança de fundo.

Estas histórias pessoais, que se confundem e misturam com a da própria fábrica, vão desde o saudosismo de um tempo passado, à adaptação a uma nova forma de vida, passando por desgostos – ou desconfortos – amorosos.

A primeira história dentro desta história é a de um operário que recorda com saudade e respeito o seu mestre Wang, que lhe havia passado o salutar princípio da poupança dos materiais e da recusa do desperdício, sempre guiados por uma total dedicação ao trabalho. A última é a de uma mulher que, apesar de não ter aptidão para os estudos, como ela própria diz, consegue vingar na nova realidade comprando coisas para uma classe mais abastada. Os seus rendimentos são bastante elevados, algo reconhecido pelo próprio realizador quando a entrevista. No entanto, depois de nos apresentar feliz uma imagem de sucesso, reconhece que a entristece a precária situação dos pais. Na sua família vemos, como que ao microscópio, a mensagem do filme – o contraste. Passeando o seu Volkswagen Beetle numa paisagem onde observamos trabalhadores rurais, esta rapariga mostra o choque da China hodierna.

A antiga fábrica está a ser desmantelada ao mesmo tempo que vamos ouvindo os testemunhos em primeira mão. Longe vai o espírito da pátria grandiosa que glorifica o combate. Agora o êxito pessoal está nos bens materiais e no consumismo. No local onde antes se produziam máquinas de guerra em nome do povo, está a ser erigido um complexo de apartamentos de luxo, que será vendido a preços proibitivos, acessíveis apenas aos bem sucedidos da nova era. A 24 City que dá nome ao filme. Esta é, agora, a nova forma de afirmação social.

Esta postura e estes comportamentos lembram-nos alguma coisa? Sem dúvida. A diferença é que nós, que vemos no teatro chinês como se passa do comunismo ao capitalismo – como se alterna entre um gémeo e outro – começamos a questionar todo um modelo que constantemente nos é apresentado como inevitável e, por isso, indiscutível – a mundialização. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 29 de junho de 2010

Saint-Exupéry

No dia do 110.º aniversário do nascimento do escritor-aviador Saint-Exupéry, descobri nas bancas este número especial da revista «Lire». Promete...

O último dia

Hoje saiu a última edição do diário «24 horas». Estando sempre atento à imprensa no nosso país, não podia deixar de o referir. Apesar de não conseguir gostar do seu estilo, não deixo de registar que mesmo um jornal que se alimentava das chamadas "celebridades", algo que tantos asseguram que é sucesso garantido, também se afunda. Folheei-o algumas vezes e nunca o comprei, ao contrário de muita gente, que chegou a fazer com que este jornal chegasse aos números dos ditos de referência.

Contrariamente ao que alguns diziam, este não era um tablóide ao estilo inglês, com jornalismo de investigação. Tinha, aliás, uma característica muito estranha para mim, que era a de basear grande parte das suas notícias em programas de televisão e nos seus participantes. Percebo que atraísse, por isso, um público diferente do dos restantes títulos, mas até esse acabou por deixar de o comprar.

Seja como for, os ventos não estão realmente de feição para a imprensa escrita.

Terra e Povo no MNAA

No passado Domingo, dia 27 de Junho, a Terra e Povo realizou a visita programada ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, para ver a exposição das chamadas "Tapeçarias de Pastrana". O guia foi o Prof. Humberto Nuno Oliveira, historiador, professor universitário e um dos sócios-fundadores da associação.

Veja o relato completo deste óptimo dia de convívio, onde se ficou a conhecer melhor a nossa História e o nosso património, aqui.

Contra o encerramento da BN

Por causa destas obras, que sem dúvida melhorarão consideravelmente a capacidade da Biblioteca Nacional, a direcção comunicou que os serviços de Leitura Geral da Biblioteca encerrarão durante dez meses (de 15-11-2010 a 01-09-2011) e os Reservados durante cinco meses (01-04-2011 a 01-09-2011). Contra esta decisão inconcebível foi lançada uma petição que já assinei e apelo a todos que assinem também: http://www.peticao.com.pt/encerramento-bnp

Dia d'O Diabo

Ficam os mitos

Soube ontem, pelo Miguel Vaz, da triste notícia da morte de Rui Moura, autor do Mitos Climáticos, blog que integrava a minha lista de visitas habituais. Não deixa de ser inesperado, já que há pouco tempo atrás troquei algumas mensagens de correio electrónico com ele. Partiu, deixando para trás o seu precioso contributo para um debate a que tantos se recusam. Os mitos aí ficam, à espera de espíritos críticos como ele, que contrariem esta floresta de papagaios em que vivemos. Que descanse em paz.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O regresso dos negacionistas

Na notícia que referi no post anterior, é recordado o Arrastão de 2005, com o seguinte texto:

ARRASTÃO VARRE PRAIA DE CARCAVELOS
A 10 de Junho de 2005, Dia de Portugal e de Camões, Portugal assistiu, na televisão, a um fenómeno que apenas se tinha visto, até então, em terras brasileiras: um arrastão na praia de Carcavelos, Cascais. Cerca de duas centenas de jovens, oriundos de zonas problemáticas, usaram o comboio para chegar ao local e fugir. No areal, lançaram o pânico entre os milhares de banhistas, com vários a serem agredidos e roubados. A polícia chegou pouco depois e deteve alguns jovens.

Perante isto, aguardam-se as reacções inflamadas dos negacionistas do arrastão, que não só nos voltarão a tentar impingir que este não aconteceu, como provavelmente assegurar-nos que desta vez também nada se passou na Linha de Cascais.

Longe deste tipo de fantasias utópicas que tentam prevalecer através do terrorismo mediático, há que dizer que a intervenção das forças de segurança e o reforço policial são apenas um paliativo. A solução está na revisão da lei da nacionalidade, numa política de imigração controlada e na credibilização do sistema judicial.

Arrastões

Tenho um colega de trabalho que é assíduo leitor do «Correio da Manhã», jornal que não é propriamente da minha eleição, mas que reconheço ser corajoso na divulgação da criminalidade que assola o nosso país e que muitos querem ocultar. Hoje de manhã, o meu colega disse-me: "Tens que ler isto..." E, realmente, tinha.

Em duas páginas era tratada a onda de violência e criminalidade provocada por "grupos grandes de jovens vindos dos bairros sociais à Linha da CP de Cascais, durante o Verão". Alguém se lembrou do famoso Arrastão de 2005? Ora, segundo a notícia, "Para evitar futuros arrastões, a Polícia vai colocar o Corpo de Intervenção (CI) a patrulhar os comboios daquela linha".

Para melhor compreendermos a situação a que chegámos, é de ler a reflexão de Manuel Catarino sobre a "Insegurança", publicada na mesma edição do jornal. Diz ele, sem papas na língua: "Portugal, por muito que as estatísticas demonstrem o contrário, é um País inseguro. Não interessa se o número de crimes tem tendência a decrescer. O que importa é outra coisa: a capacidade de punição dos incorrigíveis apanhados a fazer o que não devem – que é pouca ou nenhuma. Os tribunais de pequena instância criminal – criados precisamente para julgar a pequena criminalidade – demitiram-se dessa função: não ligam, não querem saber, adiam, deixam para a semana. Fazem-no sem o menor respeito pelas vítimas. Isto provoca a revolta de quem espera Justiça – e gera um sentimento de impunidade entre a escumalha". O jornalista exemplifica depois com um caso verdadeiro ocorrido na semana passada, para concluir: "Moral da história: a lei penal ou a má vontade dos magistrados – ou as duas coisas juntas – são um convite ao pior: quem assalta pode continuar a fazê-lo alegremente – e quem é vítima fica a saber que o melhor é não apresentar queixa para evitar mais maçadas."

Mais de acordo

Infelizmente, os que mais deviam ser contra o (des)acordo ortográfico — a imprensa e as editoras — aderem ao disparate e adoptam-no. É o caso do «Expresso», que a partir de Sábado passado passou a escrever com essas regras, que se aplicam agora em todas as publicações do grupo Impresa. Nessa última edição, há algumas excepções a louvar. O suplemento «Actual» ainda mantém o 'c' (até quando?) e Miguel Sousa Tavares e José Cutileiro continuam a "escrever de acordo com a antiga ortografia", segundo a nota no final dos seus textos. Obrigado a ambos. Mesmo assim, Cutileiro foi presenteado com um "exceções" na sua coluna habitual "O Mundo dos Outros".

Claro que os motivos do jornal são os do costume: "o futuro" e a "defesa da língua". Na imprensa dita de referência continua a valer o corajoso exemplo do «Público». Sigam-se outros.

Os cartazes de cinema


O cinema cedo se tornou uma paixão minha. Não só os filmes, mas as próprias salas de cinema e o hábito de frequentá-las. Já aqui falei de cinemas de outro tempo e do renascimento do Cinema Alvalade, mas a crónica do Eurico de Barros, publicada no «DN» de Sábado passado, recordou-me aquela altura "quando ainda havia cinemas de portas abertas para a rua e não apenas encafuados em shoppings, e cartazes a anunciarem os filmes, da autoria de pintores especializados". Esses magníficos cartazes pintados à mão sempre me impressionaram. Numa busca rápida na internet, descobri a reprodução de um artigo publicado na imprensa, em 1989, sobre os cartazes dos cinemas do Porto. Para recordar.

Revista Tintin (V)


O n.º de hoje da revista semanal «Tintin - Le Journal des Jeunes de 7 a 77 ans» é o 39, de 30/9/1959.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Diplomatie n.º 44

Esta é a edição da revista "Diplomatie" que citei no meu artigo "Tsunami demográfico", publicado na última edição do semanário «O Diabo», cuja primeira parte reproduzi aqui. O dossier sobre a "bomba humana" tem vários artigos sobre demografia, migração e política, uma entrevista com o economista e demógrafo francês Gérard-François Dumont, sobre as dez leis da geopolítica da demografia, e um atlas geoestratégico da população mundial. Destaque ainda para os artigos de estratégia sobre as sanções ao Irão e a relação Brasil-Irão relativamente à questão nuclear, a análise do papel dos media em caso de conflito e, por fim, a análise geopolítica do Reino Unido perante as últimas eleições. Uma última nota para o óptimo grafismo desta revista excepcionalmente paginada e com infografias excelentes.

Filmes de culto (XXXVI)


Control, Anton Corbijn, 2007.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Visita ao MNAA



A associação Terra e Povo está a organizar uma visita às chamadas "Tapeçarias de Pastrana", em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, guiada pelo Prof. Humberto Nuno de Oliveira, um dos sócios-fundadores. A visita terá lugar no próximo Domingo, dia 27 de Junho, às 10:30. Para mais informações contacte através do endereço electrónico: terraepovo@gmail.com.

Tsunami demográfico

Numa altura em que se fala de crise económica, falência de modelos de segurança social, envelhecimento dos europeus, conflitos étnico-religiosos, imigração em massa e fuga de cérebros, o factor demográfico volta a estar na ordem do dia. Menosprezado por muitos, deliberadamente por demasiados, tornou-se incontornável para quem analisa seriamente o presente e as perspectivas futuras. Tendo em conta que a Europa é a única zona do planeta em depressão demográfica, não há como ficar indiferente. É toda uma civilização – a nossa – que pode estar em causa. Regresso à demografia.

A bomba humana

O último número da revista “Diplomatie” dedica um dossier muito interessante sobre este tema intitulado “População mundial: a bomba humana”. No artigo dedicado à demografia, migração e política, que faz uma análise desde os primeiros homens até aos nossos dias, percebemos como o século XX alterou completamente o panorama habitual. Depois de um aumento exponencial da população e da deslocação de grande parte dela para centros urbanos, vemos como a situação apenas tende a agravar-se.

No que diz respeito ao nosso continente, é de notar que o que presenciamos hoje é muito diferente do que aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, onde a maior parte dos imigrantes eram de outros países europeus mais pobres, como é o caso do nosso. Diz o artigo que: “actualmente, na Europa, a maior parte dos imigrantes são etnicamente muito diferentes das populações autóctones sendo pouco instruídos e tendo poucas qualificações. Estas condições contribuem para o aumento da diversidade étnica e das tensões no seio de numerosos países, o que suscita inquietudes quanto à integridade cultural, identidade nacional, integração e assimilação”.

A demografia é, assim, um parâmetro de inegável importância para as análises geopolíticas. É frequente que se refiram à demografia quando se fala de casos como a China ou a Índia, mas interessa cada vez mais fazer uma comparação séria a nível mundial, nomeadamente em relação aos países europeus. Calcula o referido artigo que a Europa pode perder 42 milhões de habitantes até 2050, enquanto a população de África deverá aumentar em cerca de mil milhões no mesmo período. É a lógica implacável dos números. A bomba vai estoirar e provocar um tsunami demográfico que terá como ponto principal de impacto e destruição a Europa.

[continua na edição desta semana de «O Diabo»]

Disperato Amore

Mão amiga trouxe-me ontem de Roma o último álbum dos geniais ZetaZeroAlfa. Chama-se Disperato Amore, é excelente e não tem parado de girar no meu leitor. Obrigado João!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O talento não é desculpa

No mesmo país que celebrou como herói nacional um falecido escritor comunista – que saneou vários jornalistas enquanto subdirector do «DN» apenas por motivos políticos –, por este ter ganho um prémio Nobel, o projecto de um voto de pesar pela morte de António Manuel Couto Viana, proposto pelo grupo parlamentar do PS, foi retirado após pressão do PCP e do BE. É bom ver que para esta gente o ideal da cultura literária continua a ser uma União de Escritores Soviéticos. E o talento que se lixe!

A este propósito, recordei-me de uma passagem do livro de Alain de Benoist, "Comunismo e Nazismo: 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989)", publicado em Portugal pela Hugin Editores, em 1999: "O nacionalismo é frequentemente assimilado ao fascismo, e este ao nazismo, enquanto que o socialismo nunca é considerado como potencialmente estalinista. A direita é sempre suspeita de «fascismo», enquanto que o comunismo, apesar dos seus erros, é tido como pertencente às «forças do progresso». A venda de um livro nazi suscita veementes protestos (e pode cair na alçada da lei), a de um livro comunista não se presta a nenhum comentário particular. Um velho nazi fica infrequentável para sempre, enquanto que o facto de ter sido comunista não implica nenhuma perda de prestígio nem de estatuto social, mesmo para quem nunca exprimiu arrependimento. O mínimo laço, real ou suposto, com uma ideologia apresentada como tendo, de perto ou de longe, algum parentesco que seja com o nazismo, é uma marca de infâmia indelével que leva à denúncia e ao ostracismo. (...) Pablo Neruda, Bertold Brecht ou Einsenstein são, e com razão, celebrados pelo seu talento. Drieu, Céline ou Leni Riefenstahl, ainda que não vejam negado o seu, continuam envoltos numa aura sulfurosa, que leva a lembrar que «o talento não é desculpa»."