Já aqui disse que o Alvalade foi um dos meus “
cinemas de outro tempo”. Se o lembro, é porque as mudanças em marcos da nossa memória são sempre difíceis de digerir e encaradas com pessimismo. Depois da demolição do edifício do antigo Alvalade, foi com agrado que li na imprensa que o novo projecto contemplava salas de cinema. Depois do desaparecimento das salas no Centro Comercial de Alvalade — hoje decrépito e a viver os últimos suspiros —, da do A. C. Santos e, mais recentemente, das do Quarteto, ir ver um filme significava, para um habitante desta zona da capital, distância, carro, transportes, para além de centros comerciais, impessoalidade, massificação. Valia-nos o King, por vezes o Londres, mas não deixava de ser uma uma falta sentida.
Pois, quase 25 anos depois de ter encerrado, o cinema Alvalade reabriu ao público com a quilométrica designação de Cinema City Classic Alvalade, já ironizada por Miguel Esteves Cardoso no «Público», num edifício novo com o infeliz nome Hollywood Residence. As intenções para este novo espaço são óptimas, como por exemplo a previsão da utilização do espaço para diversas iniciativas culturais e uma nova atitude face ao cinema, de louvar, como a de “
evitar a confusão dos Centros Comerciais”. No entanto, é para mim incompreensível a escolha daquilo a que chamam “
ambiente renascentista” e o uso de frases promocionais como “
será o renascimento bem à moda de Botticelli!”(sic)...
A sala e a escadaria.
Fui lá há dias tomar café com um amigo que pela faixa etária nunca conheceu o espaço e falei-lhe na grande escadaria e a pintura mural de Estrela Faria (felizmente restaurada), na sala que para um miúdo como eu era descomunal, nos gigantescos cartazes exteriores pintados à mão e, claro, nos filmes que se viam e do que era ir ao cinema naquela altura, com aquela idade.
Com todos os defeitos que possa ter, o novo Alvalade trouxe o cinema de volta ao meu Bairro. E uma coisa está prometida, hei-de ir lá ver um filme.