quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A norma do caos

Para o Devir.

Há muito de autobiográfico em “O Pintor de Batalhas”. Neste romance que é uma reflexão profunda e intensa, Arturo Pérez-Reverte conta a história de André Faulques, um fotógrafo de guerra que se refugiou numa torre de vigia do século XVIII à beira do Mediterrâneo, onde, solitário, pinta um grande fresco na sua parede. A troca da câmara fotográfica pelos pincéis tem uma razão, que é o mote deste livro: “Se, como defendiam os teóricos da arte, a fotografia recordava à pintura o que esta nunca devia fazer, Faulques tinha a certeza de que o seu trabalho na torre recordava à fotografia o que esta era capaz de sugerir, mas não de conseguir: a vasta visão circular, contínua, do xadrez caótico, regra implacável que governava o acaso perverso a ambiguidade do que governava o quê não era em absoluto casual do mundo e da vida. Aquele ponto de vista confirmava o carácter geométrico dessa perversidade, a norma do caos (...)”.

Faulques é visitado por um homem que o informa prontamente que o quer matar. Trata-se de Ivo Markovic, fotografado pelo pintor de batalhas durante a guerra da ex-Jugoslávia, que antes de concretizar o seu intento deseja que ele “compreenda algumas coisas”. Inicia-se, assim, uma longa conversa entre ambos. Esta visita inesperada é um regresso do seu passado, fá-lo voltar à guerra e à memória de um amor nunca esquecido, numa verdadeira viagem interior, ao mesmo tempo que fala sobre arte e sobre a sua pintura. Num desses diálogos, sobre pintores considerados mestres, há uma passagem muito interessante, onde Markovic diz: “(...) Picasso também pintou um quadro de guerra. Guernica, chama-se. Embora, na realidade, ninguém diria que é um quadro de guerra. Pelo menos, não como este. Não é verdade?” Ao que Faulques responde, implacável, “Picasso nunca viu uma guerra na vida.

Para quem já gostava de Pérez-Reverte, como eu, este livro é a melhor confirmação do talento deste escritor espanhol. Para os que ainda o desconhecem é, com certeza, uma descoberta fantástica.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Biblioteca de Babel

O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: intermina­velmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altu­ra, que é a dos pisos, mal excede a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro, satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e se eleva a perder de vista. No saguão há um espelho, que fielmente du­plica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Bi­blioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que serviria esta dupli­cação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz provém de umas frutas esféricas que têm o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.

Tal como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, se calhar do catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não conseguem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela balaustrada; a minha sepultura será o ar insondável; o meu corpo precipitar-se-á longamente até se corromper e dissolver no vento gerado pela queda, que é infinita. Eu afirmo que a Biblioteca é interminável. Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circu­lar de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico e Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: «A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e cuja circunferên­cia é inacessível.» (...)


Jorge Luis Borges
in “Ficções”, 1944.

Filmes de culto (XXXI)

Shichinin no samurai, Akira Kurosawa, 1954.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Dicionário da Novilíngua

Sabemos que, nos tempos que correm, a ditadura do politicamente correcto criou uma novilíngua orwelliana para consolidar o pensamento único. É por isso essencial ler o “Pequeno dicionário da novilíngua”, de Michel Geoffroy, actualizado e com mais de 250 entradas, disponível no Polémia.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Desterrado

«Desterrado é aquele que possui uma relação originária com a liberdade, que se exterioriza, de um ponto de vista epocal, na resistência que opõe ao automatismo e de que não tenciona tirar a sua consequência ética, o fatalismo.»

Ernst Jünger
in “O Passo da Floresta”, Cotovia, 1995.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Pena e Espada em entrevista

O Manuel Azinhal contemplou esta casa na série de mini-entrevistas que em boa hora decidiu fazer n'O Sexo dos Anjos. Agradeço-lhe o interesse por este blog, que honra com a sua visita diária, e as palavras que me dirigiu. Obrigado a um local de referência na blogosfera. Aqui fica a republicação.

Assumindo deliberadas ressonâncias camonianas, Pena e Espada é o nome do blogue pessoal de Duarte Branquinho. Nele vão ficando partilhados, dia a dia, os interesses do autor: a História, a Política, a Cultura em geral. Não da cultura que se encerra em torres de marfim, mas da cultura que vive e participa no seu tempo. E que combate os combates do seu tempo. Desde Abril de 2004, é um blogue que me habituei a visitar todos os dias - e que nos dias em que nada publica me deixa com a sensação de frustração e de inquietação de quem não encontra um amigo onde esperava vê-lo. Logicamente, também importunei o Duarte com um pequeno questionário, a que ele pacientemente respondeu. Publico a seguir o resultado, exortando os leitores a lançar-se ao caminho: Pena e Espada!

Um blogue é uma arma?
Pode e deve ser uma arma de "desintoxicação cultural", que é o que necessitamos cada vez mais. Mas, infelizmente, há quem não resista à tentação de o usar como arma de maledicência e difamação.

O que tem o "Pena e Espada" que os outros não tenham?
Como é um blog pessoal, acho que a diferença substancial reside nesse cunho próprio.

Isto vai com a pena, ou só à espada?
A eterna questão... Acho que a escolha do título deste blog demonstra bem a minha preocupação em transmitir a necessidade desse dificílimo equilíbrio, essencial ao nosso combate.

Leu o texto sobre o "gramscismo tecnológico", de Jean Yves Le Gallou? O que se lhe oferece comentar?
Li com bastante agrado, é um texto excelente e de leitura obrigatória. O Polémia é, aliás, uma das minhas visitas habituais.
Não vou repetir agora a importância da internet e todas as possibilidades que esta abre na batalha das ideias. Vou referir uma questão que acho bastante importante, a de que a internet não é o substituto, mas sim o complemento das edições tradicionais, nomeadamente livros ou revistas. Estou inteiramente de acordo e acho que no nosso país, onde na nossa área há uma incrível falta de publicações de todos os quadrantes, a internet pode ser o óptimo motor de arranque para projectos editoriais. Não só porque permite a prática da escrita, da crítica e da edição, bem como o conhecimento rápido e a fácil troca de informações entre autores e outros envolvidos, mas porque é um óptimo meio de divulgação dessas publicações.

Cinco anos depois do aparecimento de uma corrente nacional na blogosfera, em Julho de 2003, qual é hoje o balanço?
Como "bom português" deveria responder qualquer coisa do género: "não serviu para nada", ou "no início é que era bom, mas agora..." No entanto, tenho a opinião exactamente contrária. Gosto sempre de pensar que tudo demora o seu tempo e quem espera resultados imediatos rapidamente desiste. Não nego que esperava e gostaria que muitas coisas se tivessem passado... mas não é assim a vida? Congratulo-me por ter conhecido muitas pessoas válidas e interessadas, das quais me tornei amigo, que na blogosfera encontraram uma montra para o seu talento e uma motivação para a sua luta diária. Os efeitos profundos da blogosfera, como espaço de combate cultural que é, sentir-se-ão a longo prazo.

"Politique d'abord" é uma máxima actual? Ou acredita que hoje tem que ser "culture d'abord"?
Estou convicto, e sou amiúde criticado por isso, que é a cultura primeiro. Mas tal não significa só a cultura. É claro que o combate político é sempre necessário e importante, mas na ordem actual de prioridades arrisco-me a dizer "métapolitique d'abord".

Pode a internet ser o meio para escapar à tirania mediática?
Afirmo que é, neste momento, o único meio para escapar à tirania mediática. De tal forma que a grande dor de cabeça das brigadas do pensamento único é como controlá-la eficazmente. Infelizmente temos assistido a várias tentativas de censura da internet e a situação só tende a agravar-se. Depois do combate na internet livre, será o combate pela liberdade na internet.

“Sociedade racial”

Alguns comentários ao artigo de Luís Campos e Cunha hoje do «Público», sobre o “problema das minorias étnicas”, modelos “integração” e diferenças de discriminação, com a ênfase na sociedade americana, sobre a qual afirma: “não é racista, é racial”.

Diz o autor: “quando cheguei a Nova Iorque e me matriculava em Columbia, no formulário de inscrição pediam-me para responder (facultativamente se eu era branco, latino, asiático ou negro.” Lembrei-me automaticamente dos tempos que passei nos EUA e onde em quase todos os questionários há esta pergunta. É claro que isso permite informação estatística preciosa para análises que noutros sítios, como na Europa continental, não se podem fazer por censura politicamente correcta. Como escreveu Pacheco Pereira na revista «Sábado», em Março de 2005, “a ideia politicamente correcta de que não se deve nomear a cor, nacionalidade (no caso de imigrantes) ou qualquer outro pormenor que possa ser considerado racista, sexista ou xenófobo, nas notícias dos crimes, é só e apenas isso: politicamente correcta. Na prática, censura-nos uma informação que devíamos ter: a relação entre a criminalidade e os factores sociais e culturais onde ela encontra raízes.” Mais, não pensem que os membros das minorias se sentem ofendidos com essa questão, pelo contrário, nos EUA, a maioria sente orgulho nessa pertença. Experimentem, por exemplo, dizer a Myke Tyson que não é negro porque “não há raças” e preparem-se para ficar sem dentes...

Ainda sobre o questionário racial, Campos e Cunha diz: “Não estando ainda habituado às subtilezas americanas, não sabia como preencher: eu era branco mas também latino, como os espanhóis ou italianos.” Quanto à dificuldade na resposta, é óbvio que para um americano “latino” não se refere a quem fale uma língua latina e, por isso, portugueses, espanhóis e italianos não são “latinos” nessa classificação americana. Da mesma forma que, quando um jornal português se refere à comunidade hispânica, falando dos EUA, não quer dizer ibérica. A questão dos “latinos” suscitou já grande debate, nomeadamente após protestos de vários sul-americanos de origem europeia, que se consideram brancos mas não “latinos”, apesar da língua, deixando perceber que esta é uma classificação mais rácica que étnica.

“Ninguém está seguro”

Tomei conhecimento de um caso peculiar através da crónica de Vasco Pulido Valente, na edição de hoje do «Público». O de um funcionário da EPUL que foi alvo de um processo disciplinar após ter reenviado e comentado um e-mail com a imagem que publico abaixo por, entre outros argumentos, ser “discriminatório em função da raça”. Não esquecendo o facto de o dito funcionário já estar em litígio com a empresa e ter utilizado o computador de serviço, Pulido Valente comenta desta forma o essencial do caso: “No seu zelo, a administração não percebe [ou não quer perceber, digo eu] o carácter irónico do e-mail original nem a legitimidade democrática do comentário de Almeida Faria. O que a EPUL quis foi esmagar o herético. O funcionalismo é hoje vigiado por uma "polícia do pensamento" minuciosa, activa e protegida. Ninguém está seguro.”

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Frutas e legumes

Tenho que referir a boa notícia de que foi aprovada a “proposta da Comissão Europeia que deixa cair a obrigação de calibragem de 26 frutas e legumes, passando a ser autorizada a venda de produtos "deformados"”, que deverá entrar em vigor para o ano. Uma das coisas mais incompreensíveis e irritantes da uniformização levada a cabo pela União Soviética Europeia é a normalização das frutas e legumes. Mas há muito mais coisas, entre outras frutas e legumes, nas quais não me parece que vão recuar...

sábado, 8 de novembro de 2008

Ronda blogosférica

Novidade
O mais recente membro do clã Zentropa, desta vez na Alemanha, já está em linha: Syndicat-Z.

Formação
Sem dúvida aquilo que mais necessitamos na nossa área para fugir à massificação que nos querem impor. É nesse sentido que vai o texto imperdível de Pierre Chatov, em português no Inconformista, que conclui: “Cada alma salva da desculturização e das patologias materialistas é uma vitória mais importante que todas as eleições do mundo, sobretudo aquelas em que o resultado é decidido nos bastidores de Wall Street.

Obamania
O Harms coloca a questão: Aristóteles era preto? E bem, porque parece que nesta “nova era” é preciso ter um afro-tudo; qualquer dia até exigem afro-africanos...

Em português
Foi com grande satisfação que vi republicados dois textos em português no blog de referência Euro-Synergies, um do Mário Martins sobre a actualidade de Tintim e outro desta casa sobre o regresso de Hamsun.

Regresso
O Pedro voltou a escrever no seu Último Reduto. Finalmente! Que não nos deixe outra vez tanto tempo à espera...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

The Hollow Men

Mistah Kurtz—he dead.

A penny for the Old Guy


I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II

Eyes I dare not meet in dreams
In death’s dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind’s singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death’s dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat’s coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer—

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man’s hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death’s other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death’s twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o’clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


T. S. Elliot (1925).

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Napalm


I love the smell of napalm in the morning. You know, one time we had a hill bombed, for 12 hours. When it was all over, I walked up. We didn't find one of 'em, not one stinkin' dink body. The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like... victory. Someday this war's gonna end...

Lieutenant Colonel Bill Kilgore

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

“O Mediterrâneo não é a nossa mãe”

Por ler hoje no «Público» que foi ontem anunciado em Marselha que “a União para o Mediterrâneo, anunciada em Julho pelo Presidente francês Nicolas Sarkozy, vai ter sede em Barcelona”, volto ao tema do Mediterrâneo como havia prometido quando falei do último número da revista «Éléments». Criticando esse projecto, no qual Portugal também participa, bem como as posições de Alain de Benoist e as transmitidas pelo dossier da revista, Pierre Vial escreveu o lúcido artigo “O Mediterrâneo não é a nossa mãe”, na última edição da «Terre et Peuple», cuja tradução portuguesa está disponível na página da associação Terra e Povo.

Quem é que ficou acordado?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

“Miscigenação diminui o QI dos brasileiros”

Um amigo brasileiro alertou-me para uma entrevista muito interessante dada por Charles Murray à revista «Isto é», no mês passado, onde afirma que a “miscigenação diminui o QI dos brasileiros” e que a “elevada proporção de negros no País reduz o índice de inteligência nacional”. O politólogo americano, que se tornou internacionalmente conhecido com o livro que provocou grande controvérsia, “The Bell Curve: intelligence and class structure in american life” [1996], escrito em co-autoria com Richard J. Herrnstein, psicólogo e professor de Harvard, foi pela primeira vez ao Brasil para participar no seminário “O Impacto dos Resultados Pisa e a Formação de Intelectuais na América Latina”. O seu último livro é “Real Education: Four Simple Truths for Bringing America's Schools Back to Reality”.

Racista?
Às acusações de racismo, Murray responde: “Fui acusado de racismo porque mostrei um indiscutível facto empírico: quando amostras representativas de brancos e negros são submetidas a testes que medem a habilidade cognitiva, os resultados médios são diferentes. Isto não é uma opinião. É um facto, da mesma forma que medidas de altura mostram um resultado médio diferente entre japoneses e alemães. Eu não tirei conclusões racistas deste facto, não advoguei políticas racistas, e tenho escrito explicitamente que a lei deve tratar pessoas como indivíduos e não como membros de grupos raciais. Então por que me chamar de racista? Porque alguns factos não podem ser discutidos - e os indivíduos que os discutem devem ser pessoas terríveis.

Miscegenação e QI
Confrontado com a constatação de que o Brasil é um país onde a miscigenação é a regra e questionado se isso significa que o QI médio do brasileiro é inferior ao dos nórdicos, por exemplo, Murray responde: “É uma questão de aritmética. Se em testes o QI é sempre maior com amostras de nórdicos do que com amostras de negros, então um país com uma significativa proporção de negros terá um QI médio inferior ao de um país que consiste exclusivamente de nórdicos. Isso é verdade, por exemplo, quando comparamos os Estados Unidos com a Suécia, da mesma forma que é verdade quando comparamos o Brasil e a Suécia. A única questão é empírica: as médias são sempre diferentes? Se são, a questão está respondida por si mesma.

O valor dos testes de QI
O valor dos testes de QI, para um cientista social, é usá-los para prever resultados em grupos grandes. Por exemplo, se você me mostrar duas crianças de seis anos, uma com 110 de QI e outra com 90, não tenho ideia de quem estará ganhando mais quando elas estiverem com 30 anos. Mas, se você me mostrar mil crianças de seis anos com 90 de QI e mil com 110, posso dizer com muita confiança que a renda do grupo de 110 de QI aos 30 anos será mais alta na média - essa é palavra-chave, na média - do que a do grupo de 90.

Mais um “racista”?

Leio as declarações do ministro francês da Imigração, Brice Hortefeux, na conferência ministerial europeia sobre a integração, em Vichy, e penso se, segundo a cartilha politicamente correcta, este não será eleito pelos imigracionistas bem-pensantes como o novo “racista” e “xenófobo”...

Hortefeux considerou que “as nossas políticas de integração estão esgotadas em termos de habitação, de emprego, de aprendizagem da língua, de escolarização”, afirmando que o “desafio da integração” deve ser recolocado paralelamente à política de controlo dos “fluxos migratórios”. Falou ainda das “violências urbanas” e fez referência à taxa de desemprego dos estrangeiros que é “duas a três vezes mais elevada que as taxas de desemprego nacionais”.

A notícia fala ainda de reacções contra as declarações do ministro, tal como seria de esperar, e termina de uma forma que merece um breve comentário. Qual o objectivo de concluir com a frase, completamente deslocada: “Durante a II Guerra Mundial, Vichy foi sede do governo pró-alemão que ajudou à deportação dos Judeus.”? A única justificação parece ser a eterna associação (obrigatória?) entre propostas de restrição ou de regulação da imigração ao nazismo, entendido como mal absoluto. Se for esse o caso, demonstra bem o estado a que chegou a politização do jornalismo nesta terra.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O último samurai


«Dobrou os braços, com as mãos por baixo da cabeça e olhou para as tábuas escuras do tecto, na escuridão situada para lá do alcance do candeeiro. Era da morte que estava à espera? Ou de um violento êxtase dos sentidos? As duas coisas pareciam sobrepor-se, quase como se o objecto do seu desejo físico fosse a própria morte. Mas, fosse como fosse, a verdade é que o tenente nunca antes tinha experimentado esta sensação de liberdade.

Na rua, ouvia-se o barulho de um carro. Conseguia-se perceber os guinchos dos pneus sulcando a neve amontoada ao pé do passeio. O som da buzina fez eco nas paredes da vizinhança... Ouvindo estes barulhos, o tenente teve a sensação de que a sua casa se erguia como uma ilha solitária no oceano de uma sociedade que continuava, como sempre, a fazer o seu negócio. À volta, extenso e desarrumado, estendia-se o país pelo qual ele sofria. Ia dar a vida por ele. Mas prestaria aquele grande país, que ele estava preparado para admoestar a ponto de se destruir a si próprio, alguma atenção à sua morte? Não sabia; e isso não importava. O seu campo de batalha era um campo sem glória, no qual ninguém podia mostrar acções de coragem: era a frente de batalha do espírito.»

Yukio Mishima
in “Patriotismo”, Morte no Verão e outras histórias, Editorial Estampa, 1996.

“Um homem da pena e da espada”


Assim caracteriza o Eurico de Barros, Yukio Mishima, no seu artigo “Mishima no CCB: a pena e a espada do samurai”, publicado hoje no «DN», sobre o ciclo de que falei no post anterior: “Yukio Mishima era um intelectual de acção, um homem da pena e da espada, um patriota que sempre juntou o gesto ao discurso, educado no espírito e nos valores da tradição samurai, que "viveu a sua própria estética", como escreveu o seu biógrafo, Henry Scott Stokes, em The Life and Death of Yukio Mishima. E cuja obra literária, nomeadamente a tetralogia O Mar da Fertilidade, reflecte intensamente essa preocupação com o estado "do nosso povo e da nossa cultura milenar", da "conservação das tradições" e da "preservação da alma japonesa", como declarou na última entrevista dada uma semana antes da sua morte, a um jornalista italiano.

Ciclo Mishima

Começa hoje no Centro Cultural de Belém o ciclo “Mishima, Um Esboço do Nada”, que se prolongará até ao dia 14 de Dezembro, dedicado à figura e à obra de Yukio Mishima, escritor, dramaturgo, actor e realizador japonês, que a 25 de Novembro de 1970 cometeu seppuku após ter ocupado com a sua organização uma base militar em Tóquio, contra a ocidentalização e descaracterização do Japão após a II Guerra Mundial. O ciclo será composto por exposições, workshops, leitura encenada, comunidade de leitores, teatro, dança e cinema.

domingo, 2 de novembro de 2008

Emprego para os outros

Ferreira Leite quebrou um tabu na entrevista à TSF: “A líder do PSD considerou que os grandes investimentos do Estado só ajudam a reduzir o desemprego para os trabalhadores de países como Cabo Verde e a Ucrânia.” Seria uma verdade de La Palisse se não estivéssemos numa ditadura do politicamente correcto. Aliás, a senhora que se ponha a pau, pois a avaliar por casos recentes, com pouco esforço, tais declarações podem muito bem constituir crime de discriminação racial.

sábado, 1 de novembro de 2008

Ainda o mito do Aristides

Em Abril do ano passado, no semanário «O Diabo», era desmistificada a lenda de Aristides Sousa Mendes. No início do mês passado, o Corcunda fez um excelente post sobre o assunto com várias citações do recém-publicado livro de memórias do embaixador João Hall Themido, “Uma Autobiografia Disfarçada”.

O assunto merece novamente referência por ter sido mencionado no «Expresso» de hoje que, a propósito do livro de Hall Themido, fala do capítulo “A mitificação de Aristides Sousa Mendes”, que considera “porventura o mais polémico”, citando o embaixador: “Aristides foi um mito criado por judeus e pelas forças democráticas saídas do 25 de Abril”. Apesar de ser uma novidade velha, já sabemos que estas coisas ganham outra força ao aparecerem na imprensa mainstream. Que sirva para abrir os olhos aos que não os querem fechar. É caso para dizer que para os construtores de mitos politicamente correctos, este embaixador não é Themido, mas temido.

Knut Hamsun de volta

Knut Hamsun, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1920, volta ao panorama editorial português pela mão da Cavalo de Ferro, com a publicação de “Fome”, traduzido do norueguês por Liliete Martins, com prefácio de Paul Auster e com a coragem de afirmar no breve texto de apresentação sobre o escritor: “figura social controversa, acusado de ser simpatizante nazi aquando da ocupação do seu país, tal como L.-F. Céline será, também ele, perseguido pela justiça depois da II Guerra Mundial e os seus livros queimados na praça pública”. Sim, porque nem só os regimes considerados “malditos” hoje queimaram livros, como alguns nos querem impingir. E, já agora — porque nunca é demais dizê-lo —, para mim, queimar livros é um crime hediondo.

No prefácio à edição portuguesa de “Pan”, publicada em 1955 pela Guimarães, o tradutor da obra, César de Frias, escreve: “Não poucas críticas hão proclamado esta obra de Knut Hamsun como a culminante no seu avultado e precioso legado literário. Se hesitamos em assentir nisso é porque nos merece também, embora por diferentes atributos, franca admiração o romance Fome — que, diga-se por tangência, sofre do equívoco de muitos lhe atribuírem, antes de o lerem e tocados apenas pelo tom angustioso do título, o carácter de obra de intuitos panfletários, grito de revolta contra as desigualdades e injustiças sociais, quando é somente, mas em elevado grau de originalidade, um singular documento humano e como tal considerado único nos anais do género. Não há burguês, por mais egoísta e cioso de sua riqueza, que, ao lê-lo, perca o apetite e o sono, por se lhe afigurar que de aquelas páginas vão surdir acerbas invectivas e punhos cerrados contra o que mais estima no Mundo. A ordem pública não corre ali o risco de uma beliscadura sequer, nem erra por lá o acusador fantasma da miséria do povo, convocado por tantos outros romancistas. A tal respeito não se poderia exigir coisa mais inócua e mansarrona. Assim o juramos à fé de quem somos.
Agora o que Pan tem mais a seu favor, o que lhe requinta a sedução, é o facto de ser um livro trasbordante de claridade e de poéticas intuições. Tutela-o, inspira-o de lés a lés — e isso conduziu o autor a denominá-lo de tal jeito — essa divindade grotesca mas amável, simplória e prazenteira como nenhuma outra, da arraia miúda das velhas teogonias mas tão imortal como os deuses da alta, que, em se pondo a tanger a sua frauta, faz andar tudo num rodopio. Baila ele, bailam à sua volta as ninfas, não há nada que não baile. E assim também cada um de nós se sente irresistivelmente levado na alegre ronda, pois do seu teor se desprende uma sugestão optimista e festiva. E a despeito de lhe sombrear o desfecho a morte do herói, a cujo convívio nos habituáramos e se entranhara na nossa afeição — morte que é nota esporádica da novelística do autor, um dos que menos "assassinaram" as suas personagens, preferindo deixá-las de pé e empenhadas em prosseguir sempre na grande aventura da Vida —, termina-se a leitura com o espírito deliciosamente impregnado de um subtil, inefável sabor a Primavera.


Referências blogosféricas para saber mais sobre Hamsun:

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Pessoa em CD por José Campos e Sousa

Do cantor e compositor José Campos e Sousa:

CARTA AOS MEUS AMIGOS:
No tempo em que se festejam os 120 anos de Pessoa

Inspirado no poema Aniversário, de Álvaro de Campos, dei um nome a esta carta que vos dirijo, ao núcleo mais duro de fiéis amigos, que me têm acompanhado na caminhada pessoana, pedindo-lhes ajuda e alguns conselhos para um projecto ambicioso. A ideia é sensibilizar-vos para comemorarmos os 120 anos de Pessoa com a edição de um CD com poemas da Mensagem musicados e cantados por mim.Para um solitário como eu, por feitio e pelas vicissitudes da vida, a opção é fazer tudo a pulso e com a prata da casa, como de costume. Mas a casa não tem prata, tem apenas ideias e alguns talentos. Para viabilizar este projecto, preciso da garantia de encomendas de CDs, comprometendo-me a entregá-los, a tempo dos presentes de Natal. Feito o estudo financeiro, posso adiantar-vos que os CDs antecipadamente encomendados ficarão a 15 euros. Todos os outros CDs serão vendidos pelo preço de 17 euros. Em conclusão, meus amigos, este projecto tornar-se-á automaticamente viável com um significativo número de encomendas que permita a sua gravação.É então para este projecto que vos desafio, tendo, para o concretizar, que saber se estão efectivamente interessados e, se sim, quantos CDs pretendem adquirir. A vossa esposta breve, e positiva, permitir-me-á avançar rapidamente para o estúdio. A fechar esta mensagem, peço-vos ainda que promovam esta iniciativa junto dos vossos amigos, a quem pensem que possa interessar, de modo a gerar novas encomendas, provocando o tal efeito de bola de neve. Vamos ver o que resulta deste trabalho em rede. Darei notícias do desenrolar dos acontecimentos.

Um abraço a todos.
José Campos e Sousa
largodocarmo@gmail.com
Lisboa 28 de Outubro de 2008
PS – Façam as vossas encomendas de Cd’s para o meu e-mail, explicando o local onde podem recebê-las.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Notícia curiosa

A edição de hoje do «Correio da Manhã» traz uma notícia curiosa que nos informa que “a Polícia Judiciária abdicou de provar que Leandro violou a pequena Joana, antes de a enteada de oito anos desaparecer da aldeia da Figueira, em 2004. Por forma a "poupar 10 mil euros" em exames nos Estados Unidos.” Uma atitude que dá que pensar sobre as prioridades na investigação nacional, nomeadamente comparando com casos como o de Madeleine McCann.

Por outro lado, a notícia explica as razões do teste: “Os vestígios coincidiam em cerca de 90 por cento ao ADN de Leandro. Foi detectada uma doença genética característica de pessoas de origem africana. Leandro é africano.” É pá! Esta agora é que não convinha nada aos igualitaristas. A genética é tramada para os apóstolos do dogma “somos todos iguais”, fiéis de São Lyssenko.

O que é a geopolítica?

É o ramo da ciência política que estuda a parte activa exercida pelo meio geográfico na determinação dos eventos políticos e históricos que afectem a população de um dado território. Por vezes tem sido chamada “geografia dinâmica”. Distingue-se ainda pela geografia política, uma vez que não trata somente da situação natural dos Estados e dos povos, mas também (e sobretudo) da maneira como essa situação natural influencia a sua formação e o seu destino.

Alain de Benoist
in
O que é a geopolítica, Edições do Templo (1978).

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Terre & Peuple Magazine n.º 37

Mais um número da óptima revista da associação Terre et Peuple que tem como tema de capa bastante actual “A Rússia está de Regresso”, com os artigos “Histeria anti-russa: a paranóia dos media ocidentais” e a excelente análise geopolítica “Compreender o conflito entre a Rússia e a Geórgia”, de Jean-Patrick Arteault.

A destacar, também, “A peste jacobina”, com os artigos “Pré-história do jacobinismo”, de Jean Haudry, “Reflexões sobre um episódio jacobino da Revolução Francesa”, de Jean-Patrick Arteault, “O jacobinismo aplicado na Vendeia: do genocídio ao memoricídio”, de Pierre Rigolage, “Yann Fouéré. Da préfectorale ao autonomismo”, de Xavier Guillemot, “Os incorrigíveis jacobinos”, de Pierre Vial, e “Intentidades provinciais”, de Yvan La Jehanne. A não perder, também, o artigo sobre a Grande Guerra de Alain Cagnat intitulado “1914-1918: O fim de um mundo”. De referir ainda a crítica de Pierre Vial ao último número da revista «Éléments», afirmando que “o Mediterrâneo não é a nossa mãe” e o artigo sobre genética das populações de Michel Alain.

Podemos ainda ler críticas a livros, bem como comentários sobre a actualidade e as habituais rubricas sobre genealogia e culinária.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A olhar para casa...

Gesta perdida

Os meus trezentos soldados
Mortos ficaram por terra;
Não tenho armas nem cavalos,
Volto ferido da guerra.
Que é da rosa branca,
que me fora prometida?
Filha do Rei, que é da rosa
Que me fora prometida?
Quero encharcá-la no sangue
Que jorra da minha ferida.
Aquela rosa, tão branca,
Ficará rosa vermelha.
Julgando beijar teus lábios,
Hei-de beijá-la de rastros,
Como se beija a bandeira.
Sonhei com a rosa branca
Nos rubros campos da guerra.
Mas os meus bravos soldados
Mortos ficaram por terra,
Minha espada espedaçaram,
Vieram lanças em riste
E feriram-me no peito
(Não mais do que me feriste!)
Agora volto sem sonhos,
Derrotado, só e triste...

Mas a rosa, rosa branca,
Murcha ficou em meus dedos,
Rosa esfolhada e sem vida.
Ai, antes a tua rosa
Me não fosse prometida!

(1945)

António Manuel Couto Viana
in “O Poeta pela mão: Primeiros versos”, 1999.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

M.


Fui almoçar com a M. que já não via há algum tempo. Falámos de cinema, como não podia deixar de ser, lembrámos aquele sítio (toda a gente tem um) onde trabalhámos e tudo era perfeito — ou pelo menos parece, agora —, do qual contei umas histórias mirabolantes, que ela concordou que ultrapassavam largamente a ficção. Agora não. Já não há acessos desses. Agora há blogs e trocas de e-mails, por vezes chat... Perante isto ficam os almoços e os livros. E por estes últimos disse-lhe para levar o livro que estivesse a ler, que depois lhe explicava porquê. Simples, para passar uma excelente mania que o Miguel Vaz trouxe para os nossos almoços: fotografar livros.

Óptimo regresso!


O Paulo está de volta, desta vez n'O Duro das Lamentações. Livre como sempre. Sem pressões, nem moderações. É caso para dizer: há males que vêm por bem...

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Filmes de culto (XXX)

Alexander Nevsky, Sergei M. Eisenstein, Dmitri Vasilyev, 1938.

Liberdade para a História

No Sábado passado, escrevi um post com o mesmo título no Jantar das Quartas, onde falei do editorial de José Manuel Fernandes a propósito do processo “contra o franquismo” iniciado pelo sempre ávido de estrelato juiz Baltasar Garzón, que referia artigo de Timothy Garton Ash, acrescentando um parágrafo sobre a associação “Liberté pour l'Histoire”, fundada por René Rémond e hoje presidida por Pierre Nora.

Volto ao tema para referir o artigo de Jorge Almeida Fernandes, ontem no «Público», intitulado “Garzón e os historiadores em cólera” que, citando o historiador Santos Juliá, diz que “um Estado democrático não pode chamar 'assassinados' às vítimas da rebelião [franquistas] e 'falecidos' às vítimas da revolução, como faz a Junta da Andaluzia para justificar uma determinada política da memória”, concluindo que “tanto na História como na Memória é perigoso reescrever o passado à luz dos interesses políticos de hoje”.

Termino com uma reflexão: todo este processo das “leis memoriais” teve início nos anos 80 do século passado, na Alemanha, Bélgica e Canadá, com disposições legais que criminalizavam o chamado “revisionismo do Holocausto”, o que levou à famosa lei Gayssot, de 1990, que por sua vez abriu caminho em França à lei sobre o genocidío arménio, à lei Taubira, sobre a escravatura, e à lei Mekachera, sobre o colonialismo, e a iniciativas similares noutros países. Apesar de inicialmente pouco criticadas, estas imposições legais têm vindo a ser cada vez mais postas em causa pelos seus efeitos perversos. É caso para dizer, de boas intenções...

Como escreveu Max Gallo no «Le Figaro», em 2005, “para o historiador, não é admissível que a representação nacional dite "a história correcta, aquela que deve ser ensinada". Já demasiadas leis, bem intencionadas, caracterizaram este ou aquele acontecimento histórico. E são os tribunais que decidem. O juiz é desta forma conduzido a ditar a história em função da lei. Mas o historiador, tem por missão dizer a história em função dos factos.

domingo, 19 de outubro de 2008

A grande viagem


O meu avô materno, oficial de Marinha, homem viajado e conhecedor do mundo, verdadeira figura paternal que me despertou o gosto pelo conhecimento, pela História, pelas viagens, pelas línguas, pela leitura e pelos livros, e me transmitiu os valores fundamentais que ainda hoje me guiam, tinha uma viagem de sonho — o Transiberiano.

Foi ainda criança que ouvi falar nessa travessia euro-asiática e o fascínio ficou-me desde então. Vem esta recordação a propósito da reportagem no último número da revista «Volta ao Mundo» sobre esta “viagem que nunca termina”. Claro está que muita coisa mudou, desde os tempos em que o meu avô pensava esta experiência. O fim da Guerra Fria “ocidentalizou” em parte uma Rússia que ainda mantém marcos soviéticos, mas que guarda sempre uma alma própria. O autor do texto, que fez a viagem, diz-nos que em Kabarovsk um viajado professor de zoologia se lamentava: “hoje a população reduziu-se a metade e o comércio está na mão dos chineses. A Perestroika pode ter trazido muitas coisas boas, como a abertura do país ao exterior, mas também trouxe as consequências da globalização. Kabarovsk está a perder a sua individualidade, a ficar igual ao resto do mundo”. Apesar desta alteração, confirmada pelos cartazes com anúncios a telemóveis à volta de uma estátua de Lenine, pelas filas à porta do McDonald's de Irkutsk, a mais antiga cidade da Sibéria, entre tantos tiques do ultraconsumismo reinante, a verdade é que “a grande travessia” continua a ter a sua magia e a cativar cada vez mais turistas de todo o mundo.

O meu avô nunca chegou a fazer a sua viagem — fez uma maior e mais rica, que foi o seu percurso de vida — mas fez perdurar o seu encanto. Mesmo sabendo que muito dificilmente a conseguirei fazer, não deixará de estar no meu imaginário.

Sinais de outros tempos (VI)

Av. de Madrid, Lisboa.

sábado, 18 de outubro de 2008

O eterno lápis azul

O Paulo Cunha Porto é um Amigo dos que mais prezo. Acompanhá-lo na blogosfera tem sido a forma de minimizar as saudades da tertúlia bibliófila do Bairro Alto, ou de tempos em que as nossas vidas nos permitiam encontros regulares. Vem isto a propósito da saída do Paulo de um blog para o qual escrevia após convite, depois de dois dos redactores lhe terem pedido “moderação”. É claro que a ligação para tal sítio deixou de ter razão de ser nesta casa e, por isso, retirei-a. Sobre a “moderação”, lembrei-me prontamente do que escreveu outro Amigo, o Bruno Oliveira Santos: “Os que advogam a moderação em matéria política são quase sempre moderadamente inteligentes, moderadamente sensatos, moderadamente corajosos, moderadamente honestos, moderadamente virtuosos. Às vezes, até moderadamente moderados”.

Lembrei-me, também, do elogio que o Paulo me teceu aquando do segundo aniversário do Pena e Espada e que me deixou, como lhe disse na altura, sem palavras. Pois é agora o momento ideal para o devolver, bastando substituir o meu nome pelo dele, já que se aplica tal e qual: “(...) Muitos anos antes de me tornar blogueiro, habituei-me a trocar ideias com o Duarte, em tertúlias que ambos integrámos, ou em circunstâncias em que só estivemos presentes os dois. Habituei-me a admirar a Sua honestidade intelectual, os Seus enormes conhecimentos e, last but not the least, o Seu amor aos livros. Mesmo quando divergi Dele, nunca esmoreceu o meu entusiasmo pela forma como defendia aquilo em que acreditava. (...)” É assim a Amizade, não entendo quem a veja de outra forma.

Quem fica a perder, como não podia deixar de ser, é o tal blog colectivo — que, afinal, parece que se pretende único —, como se percebe pela saída de outros dois colaboradores e os protestos nos comentários leitores.

Um abraço, Paulo, e até à tua próxima paragem blogosférica.

Jünger e Céline na Sorbonne

Em frente à Sorbonne há um quiosque onde é possível comprar números antigos do «Magazine Littéraire». E não é a molho, tipo “oportunidades”, é todo um escaparate com vários exemplares de cada número, organizados por data de publicação. Uma verdadeira tentação para “esvaziar a bolsa” e “encher a mala”. Mas, como nesta minha última ida a Paris a mala já estava cheia e a bolsa anda sempre pouco preenchida, tive que conter-me e elegi apenas duas revistas, relativas a dois autores de referência para mim — Ernst Jünger e Louis-Ferdinand Céline.



Trouxe, assim, o n.º 326, de 1994, estando o escritor alemão ainda vivo e à beira de completar o seu centésimo aniversário, que tem um excelente dossier com vários artigos, uma cronologia, uma bibliografia e o texto “Leipzig”, um excerto da primeira versão inédita de “O Coração Aventuroso”; e o hors-série n.º 4, de 2002, totalmente dedicado ao escritor francês, do qual destaco três textos inéditos e a entrevista com Lucette Destouches sobre como foi escrito “Rigodon”.

Mais auxiliares para, como propôs o meu caro amigo Miguel Vaz, depois de aceitar umas pistas de leitura que lhe dei, “analisar mais a fundo a relação entre Jünger e Céline. Dois escritores geniais, dois veteranos da Guerra, dois condecorados, dois críticos do III Reich e dois odiados pela Ordem que floresceu na Europa após a derrocada alemã. Dois percursos análogos mas inversos. De um lado a perspectiva ascética e aristrocrática de Jünger. Do outro o niilismo e a provocação de Céline.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O efeito da imigração: do regional ao nacional

O jornal «Público» refere hoje, numa notícia sobre os fluxos migratórios gerados pelos grandes projectos de obras públicas anunciados para o Baixo Alentejo, um estudo da investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Maria Ioannis Baganha, que conclui que os impactos da vinda de tal número de imigrantes, nomeadamente no sector da habitação, terão como consequência um choque cultural, agravando-se “a tensão social” entre alentejanos e imigrantes, o que se pode tornar num problema “grave de difícil solução”.

Ora, estes efeitos, tal como sucedem a nível regional, também acontecem a nível nacional. Porque a imigração, como fenómeno negativo que é, também produz consequências indesejáveis. É, por isso, que urge sair do “debate” hipócrita, no qual a imigração é apresentada como panaceia para todos os males da sociedade e qualquer crítica ou oposição que se lhe faça é considerada uma atitude “racista” e “xenófoba”, necessariamente reprovável e não permitida.

Maior hipocrisia é a daqueles que pretendem com essa postura “defender os imigrantes”, pois ao permitir uma imigração desregrada, apenas se beneficia o grande capital ao facilitar a exploração dessas mesmas pessoas que era suposto defender. Hipócrita é, também, a crescente atitude xenófila e discriminatória desses “defensores”, ao preferirem a protecção dos imigrantes em detrimento dos nacionais, como se no nosso país não houvesse problemas sociais e laborais graves a resolver.

Tapar o Sol com uma peneira

Após os “incidentes” no jogo de futebol França-Tunísia, no Stade de France, na passada terça-feira — cujas imagens, ilucitativas, podem ser vistas aqui —, uns “estranham”, outros tentam “compreender” e o governo finge “preocupação”.

O problema não é de hoje. O falhanço do sistema de integração republicano em França é notório há anos e as suas consequências têm vindo a agravar-se, apesar de manobras mediáticas que aligeiram ou ocultam as tais notícias. Tal como escreveu Guillaume Faye na sua obra “La colonisation de l'Europe: Discours vrai sur l'immigration et l'islam, publicada em 2000, os media têm ordens para minimizar tais eventos, foi por isso que “a televisão nunca mostrou as florestas de bandeiras argelinas e os slogans escritos em árabe nos distúrbios nos subúrbios (como durante a "festa" do Mundial de 1998). Da mesma maneira, já não se fotografam ou filmam os inúmeros graffitis do género: "Os árabes fodem a França". Trata-se de dissimular qualquer sinal de hostilidade.

Mesmo a solução, tantas vezes apresentada como milagrosa, de uma equipa multirracial de nada serve, já que, como diz Faye no mesmo livro, “fazer coabitar raças diferentes, é possível numa equipa de futebol onde os jogadores são pagos a peso de ouro, não nos seio de uma mesma comunidade política e histórica de destino”.

E para aqueles que acham que esta é uma questão francesa, que nada tem que ver com o resto da Europa, nomeadamente com o nosso país, pergunto: lembram-se do jogo, igualmente “amigável”, entre Portugal e Angola, em 2001, marcado pela violência, pelos distúrbios e abstinência policial por medo de “racismo”, que resultou em grave perturbação da ordem pública?

Filmes de culto (XXIX)

Cross of Iron, Sam Peckinpah, 1977.

Homenagem a Céline: “Viagem ao fim do efémero”

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sinais de outros tempos (V)

Rua Presidente Wilson, Lisboa.

Apelo

Poetas
que ides cantando
um sonho de caravelas,
um velho sonho passado
e estafado
com nuvens, luas, estrelas;
Deixai o adeus e a saudade
e esse ficar
aí, de braços cruzados,
a recordar:

— “Conquista, Índias, mistérios...
Tudo se foi.
Só nos resta chorar idos Impérios.
Como isto dói!”

Poetas,
fatal engano:
Se o que foi já não é,
temos ainda os mesmos braços
e a mesma fé.
À nossa volta há tanto para fazer,
tanto mundo a construir...
E vós, a ver!
Que triste Alcácer-Quibir!

Irmãos:
Parai um momento a cantar
quimeras, sonhos vãos,
e ide lançar,
pelas vossas próprias mãos,
um barco ao mar!


António Manuel Couto Viana
in “O Poeta pela mão: Primeiros versos”, 1999.

XIIIe Table Ronde

Mais uma vez me desloquei a França para o maior encontro identitário europeu, a Table Ronde, organizada pela associação Terre et Peuple, que se realizou pela décima terceira vez e juntou várias centenas de pessoas de diversos países. Este ano esteve presente um grupo de cinco portugueses e foi apresentada oficialmente a associação Terra e Povo, colocando assim o nosso país numa rede paneuropeia que cresce de dia para dia.

O tema deste ano foi "O Combate cultural, para fazer o quê?" e a primeira intervenção, não prevista, foi de Pierre Vial que falou da actual situação de crise económica e do fim do capitalismo. Alertando para as consequências que se avizinham citou Lenine: "o primeiro dever de um revolucionário é sobreviver." De seguida falou um membro da Terre et Peuple que representa um grupo de várias famílias que concretizou um "regresso à terra" e falou da sua experiência e de como ela alterou radicalmente a sua vida. Na zona das bancas era possível adquirir algumas das produções dessas quintas.


A sala de conferências

Continuou a sessão Kate Nauwelaers, do Atelier de l’Elfe, falando sobre a Arte e o artesanato populares, e a forma como estes fazem parte da luta pela nossa identidade. Depois foi a vez de Pierre Gillieth, que numa excelente intervenção sobre o cinema, enumerou vários filmes onde é possível encontrar uma mensagem na qual nos revemos, conseguindo a participação da audiência. Frisou a importância de se reconhecer o talento, mesmo quando apreciamos autores que não são dos nossos, pois uma postura fechada é a característica dos nossos inimigos, afirmando que "podemos ser tanto ecléticos como abertos sem esquecer e negar os nossos valores". Seguiu-se Morgane, que falou do papel da música no combate cultural identitário e da sua experiência pessoal. Depois de um breve intervalo, foi a vez de Katerine Mabire que falou sobre a literatura, especialmente na vasta e marcante obra de Jean Mabire. Em seguida, tempo para ouvir a fantástica e eloquente intervenção de Jeanne Desnoyers sobre um tema pouco abordado na nossa área, o teatro popular, a sua importância e a forma como evoluiu e tocou as populações em França. Depois, Jean-Claude Valla lembrou o poder da História e a forma como o trabalho dos historiadores e investigadores tem sido cada vez mais impedido em França, tanto por medidas legais, como por diversas pressões. Teve por fim a palavra Pierre Vial, que reiterou a importância do combate cultural, fazendo um ponto da situação actual e afirmando que é a nossa missão porque "a cultura é a expressão da alma de um povo".

A zona das bancas

Como sempre havia uma grande zona de bancas, onde era possível encontrar livros, revistas, música, artesanato, representações de associações e autores, e uma zona de refeições. Pela primeira vez, o material da Terra e Povo esteve disponível na banca partilhada com os nossos camaradas da Tierra y Pueblo.

A banca luso-espanhola

O convívio foi excelente com camaradas de vários países, em especial com os franceses e os espanhóis. Estes últimos contavam também com uma delegação de cinco pessoas e juntos visitámos o Palácio de Versailles no dia a seguir ao evento.

Delegações portuguesa e espanhola em frente ao Palácio de Versailles

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Éléments n.º 129

O último número da «Éléments» tem como tema central o Mediterrâneo, considerado “nossa mãe”, e oferece um dossier com uma entrevista com o professor de direito internacional Danilo Zolo, feita por Alain de Benoist, o relato de um ano no Mediterrâneo, “De Toledo a Cartago”, de Ange-Marie Guerrini, a entrevista com o professor de história comtemporânea Frédéric Musso, “O Mediterrâneo, fonte de toda a nostalgia”, e o artigo de Gabriel Matzneff “O Venus, regina Cnidi Paphique...”. Este tema e o editorial de Robert de Herte serão alvo de análise num post posterior.

Destaque ainda para a entrevista com Julien Hervier, tradutor e especialista em Ernst Jünger, o “reencontro” de André Coyné com Jorge Luis Borges, e os artigos sobre Kenneth White, pai da geopoética, de Fabrice Valclérieux, sobre o escritor Charles-Ferdinand Ramuz, de Eric Werner, e sobre a obra de René Girard, de Alain de Benoist, para além da rubricas habituais.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O reconhecimento do Kosovo (IV)

André Freire, num artigo da edição de hoje do jornal «Público» intitulado “A geopolítica das sociedades divididas”, considera que “o reconhecimento do Kosovo representa uma decisão à margem do direito internacional e de certos princípios fundamentais da ordem internacional (como a "integridade territorial dos países")”, acrescentando que “a sua defesa não pode servir para uns casos (como a Geórgia, a Bósnia, etc.) e ser ignorada noutros”. O politólogo alerta ainda para o facto de “esta decisão não trazer mais problemas aos Balcãs: a solução encontrada não é aceite para casos semelhantes que, por isso, se sentem desigualmente tratados. Exemplo: a República Sprska, esmagadoramente Sérvia, tem expressado o desejo de se separar da Bósnia”; lembrando que “há uma grande diferença entre o Kosovo e as outras entidades secessionistas: foi sempre uma região integrada na Sérvia”.

domingo, 12 de outubro de 2008

“Desenvolvidos”

O jornal «Público» noticiava ontem — dia em que se deu a trágica morte de Jörg Haider — que “metade dos jovens votou na extrema-direita na Áustria”, contributo importante para que o FPÖ e o BZÖ conseguissem atingir 28% dos votos nas últimas eleições legislativas, o primeiro acto eleitoral em que jovens de 16 anos puderam participar. Pouco antes, em Portugal, anunciava-se uma sondagem que dava aos comunistas e à extrema-esquerda, em conjunto, intenções de voto ligeiramente acima dos 20%. Analisando estes dados à luz do politicamente correcto, chega-se à conclusão que os “desenvolvidos” devemos ser nós...

Filmes de culto (XXVIII)

Master and Commander: The Far Side of the World, Peter Weir, 2003.

A difícil defesa da liberdade (II)

José Pacheco Pereira disponibilizou no seu blog, mais um texto publicado na última edição da revista «Sábado», desta vez sobre o “caso dos skinheads”. Esperando os habituais ataques dos suspeitos do costume, intitula a sua prosa “E já agora para fazer subir pelas paredes a mesma turba”. Mantendo o que já disse sobre o autor, reproduzo o início: Não posso deixar de considerar mais uma vez excessivo o modo como o nosso sistema judicial penaliza os crimes reais, hipotéticos ou mesmo de opinião, que em democracia não são crimes, da extrema-direita.(...)”; e o fim, “(...) em democracia as ideias e as opiniões é suposto serem livres, por péssimas que sejam, e o nosso desgosto com elas não devem servir de agravante penal, sob pena de politização da justiça”. Vale a pena ler.

Tierra y Pueblo n.º 18

O último número da revista da associação identitária Tierra y Pueblo tem como tema central a “Montanha como via de realização” e, como nos diz Enrique Ravello no editorial, “foi pensado para todos os que alguma vez tenham sentido a chamada da montanha como símbolo a compreender e realidade física a conquistar. E é dedicado aos que deixaram as suas vidas na escalada que leva ao Olimpo”. No dossier correspondente podemos ler uma homenagem a Julius Evola, de Nicola di Trento, um texto sobre o Gruppo Escursionistico Orientamenti, o relato da subida ao Elbrus, em 1984, por José Hernansaez, uma entrevista com Domenico Rudatis, entre outros.

Destaque ainda para os artigos “Sérvia, Albânia e a geopolítica da fronteira sudeste europeia”, de Robert Steuckers, “O Sangue ou a memória do eterno”, de Àlvar Riudellops e Andrés del Corral, e a análise política de E. Monsonís sobre “O difícil caminho até um partido identitário em Espanha”.

Nas recensões críticas, nota para a de Eduardo Núñez sobre o livro de Arturo Pérez-Reverte “Un Día de Cólera”, e a de Mirmidón sobre “Um Inimigo do Povo”, obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen.

sábado, 11 de outubro de 2008

Terra e Povo

O homem do futuro será o que tiver a mais longa memória.
Nietzsche


Disse que quando voltasse da Table Ronde, transmitiria uma novidade. Pois tenho desde já a honra de comunicar que foi oficialmente apresentada a Associação Terra e Povo, uma comunidade de combate cultural identitário em Portugal, inserida numa rede europeia de associações congéneres.

Fruto da vontade comum de vários interessados, a Associação Terra e Povo foi constituída este ano e desenvolvia já um trabalho preparatório de lançamento de vários dos seus projectos: publicações, conferências, acções de formação, entre outros. Uma associação que se quer activa no preenchimento de uma lacuna no combate cultural e metapolítico no nosso país, bem como no estreitamento de relações paneuropeias. Uma associação em defesa da nossa Terra e do nosso Povo.

Endereço electrónico: www.terraepovo.com
Correio electrónico: terraepovo@gmail.com

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Réfléchir & Agir n.º 30

O editorial desta «Réfléchir & Agir», sobre a “nova mutação do capitalismo”, reflecte sobre a “terceira mutação do capitalismo”, que considera “condenado ao crescimento” e que opera sob a capa do “desenvolvimento sustentável”. Contra esta nova farsa, lembra o que já foi escrito [no n.º 27]: “o crescimento é vital para o capitalismo, o decrescimento é-lhe mortal. É a única via económica revolucionária. Ela faz doravante parte integrante do nosso corpus doutrinal”.

Neste número desta revista obrigatória, cujo tema é “A nebulosa esquerdista”, podemos ler um óptimo dossier com artigos de Alfred Montrose, Jean-Michel Vernochet, Hervé Ryssen, Robert Rodesches, Eugène Krampon, Pierre Gillieth e Stéphane Hintereck. Referência também para a entrevista com Patrick Gofman, um “esquerdista arrependido”, hoje jornalista e escritor identitário.

Destaque ainda para os artigos sobre o neo-paganismo na Rússia, por Christian Bouchet, “O mito espartano”, de Edouard Rix, “Baudelaire e o pensamento”, de Claude Bourrinet, e “Sandro Botticeli, simplesmente a beleza”, de Pierre Gillieth.

Nas muitas notas de leitura, é de assinalar a que se refere ao livro “Je ne suis personne”, de Christian Bourgois, sobre o nosso Fernando Pessoa, sem esquecer as habituais críticas a livros, música e cinema.

A difícil defesa da liberdade

Ainda no que respeita ao caso escandaloso da censura ilegítima e ilegal ao cartaz do PNR exercida pelo vereador Sá Fernandes — no qual, volto a dizê-lo, o que mais me choca é a apatia generalizada perante tal abuso — é com felicidade que leio a opinião de José Pacheco Pereira publicada na revista «Sábado» e também disponível no seu blog. Pacheco Pereira é um dos raros casos em Portugal de um opinion maker que lê, se preocupa em saber e, apesar de filiação partidária, não adopta um discurso de pronto-a-pensar. Nem sempre estou de acordo com ele, obviamente, mas é claro que gosto bastante quando o vejo tomar posições que outros não tomam por ignorância ou por receio politicamente correcto. Neste caso flagrante, posições como a dele deviam ser a regra, nunca a excepção. Não sendo infelizmente assim, aqui fica:

NÃO SABIA QUE ERA PROIBIDO EM DEMOCRACIA SER CONTRA A IMIGRAÇÃO
O vereador Sá Fernandes à revelia das leis e da liberdade, mandou arrancar um cartaz do PNR contra a imigração. Nada tenho com as ideias e as práticas do PNR, nem precisava de o dizer a não ser porque este mundo está tão envenenado que tem que se estar sempre a repetir o óbvio, mas desconhecia que era proibido em democracia pronunciar-se contra a imigração. O problema é nós nos esquecemos que a liberdade dos outros é também para dizer aquilo que nós detestamos e não concordamos. A liberdade é assim, não é apenas aquilo que o vereador Sá Fernandes entende ser politicamente correcto dizer ou aquilo que ele quer censurar. Felizmente.
JPP

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Proibir ideias?

Uns dias fora do país e em vésperas de regressar sei de uma notícia simplesmente inacreditável, que demonstra bem o estado a que chegámos nesta república das bananas, ou dos bananas, a avaliar pela apatia generalizada.


O vereador da Câmara Municipal de Lisboa José Sá Fernandes — autoproclamado juiz do pensamento — decidiu mandar retirar o cartaz do PNR, colocado na rotunda de Entrecampos. Respeito pela liberdade de expressão? Legitimidade para o fazer? Nada disso interessa, porque se trata de um partido da “famigerada extrema-direita” a quem não se aplicam as mesmas regras. Como muito bem lembrou ontem a Sá Fernandes, em editorial, o insuspeito director do «Meia Hora»: “A liberdade de expressão, por exemplo, é para todos, saiba o Senhor.

Perante as intenções persecutórias o PNR reagiu em comunicado, perante a sua concretização, avançou com uma queixa-crime contra o vereador. Se dúvidas houvesse, agora se confirma que o Zé que realmente “fazia falta” era o Pinto-Coelho.

Danos colaterais (II)

Na sequência do post anterior, volto a lembrar que devido a este caso várias pessoas viram os seus lares revistados e pertences seus apreendidos, foram constituídas arguidas e submetidas a termo de identidade e residência, não tendo até agora qualquer acusação formada, ou qualquer justificação para esta devassa da sua vida privada. Agora, com a agravante de ter passado cerca de um ano e meio e já terem sido julgados os acusados!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Justiça?

Nihil honestum esse potest, quod iustitia vacat
Marcus Tullius Cicero

Um breve comentário ao chamado julgamento da “extrema-direita” (como se uma tendência política fosse crime...), que resultou na condenação de várias pessoas, algumas por escritos na internet! Leva-nos a pensar em que país vivemos...

A leitura do blog Prisões de Abril é esclarecedora, ao dar informações fidedignas sobre este processo e ao compará-lo com a forma como são tratados casos actuais de criminalidade violenta no nosso país.

Desde o empolamento deste caso no início, com exageros inacreditáveis, às totalmente injustificadas medidas de coacção, até à impunidade dos carrascos de antecipação, este foi mais um caso que manchou a (in)justiça portuguesa. Ainda querem que os cidadãos confiem nela...

Como alguns (poucos) tiveram coragem de afirmar, este processo teve, desde o início, contornos de perseguição política. Perseguição, aliás, impensável num dito estado de direito democrático.

Mas quem se importa? Para estes não há Amnistia Internacional, nem grupos de solidariedade. Apesar de o facto de ao se fechar os olhos a atropelos destes se estar a abrir as portas a todo e qualquer tipo de abuso no futuro, como já tive oportunidade de alertar aqui, numa versão livre do poema de Martin Niemöller.

O reconhecimento do Kosovo (III)

O PNR condenou ontem, em comunicado, o reconhecimento da “independência” do Kosovo, lembrando que “foi o único partido político português que se solidarizou com a Sérvia, demonstrando-o em audiência solicitada ao Embaixador Sérvio em Portugal e também através de um acto público de rua que teve lugar em frente à Assembleia da República, acções estas que se consumaram poucos dias após a proclamação de “independência” unilateral por parte do Kosovo.

O reconhecimento do Kosovo (II)

O reconhecimento da autoproclamada “independência” do Kosovo pelas autoridades portuguesas foi imediatamente lamentado pela Associação Portugal-Sérvia, em comunicado, afirmando “que envergonha o país e os portugueses, desrespeitador do direito a que os Estados se devem subordinar, abre a porta a todo o tipo de graves situações análogas no futuro e trai a confiança que em nós depositava um Estado europeu com o qual vimos mantendo as melhores e mais frutuosas relações.

Apesar desta atitude de subserviência cega por parte do governo português, os sérvios ainda têm quem os apoie em Portugal e em muitos outros países. O trabalho continua para todos os que consideram ilegal, irresponsável e perigoso o reconhecimento de um estado criminoso, e que recusam uma diabolização do povo sérvio.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O reconhecimento do Kosovo (I)

A caminho de Paris, foi com muito agrado que li as lúcidas linhas de Pacheco Pereira, no «Público», sobre o reconhecimento do Kosovo, que o autor considera “uma política errada e perigosa”. Num artigo com o qual estou inteiramente de acordo, conclui, sem papas na língua, que “a decisão do reconhecimento unilateral do Kosovo é também má para os conflitos internos, porque nos Balcãs estas feridas podem conhecer momentos de aparente cicatrização, mas têm uma longa história de abrir de novo. Por muito que isto possa chocar, se se quer mexer nas fronteiras da ex-Jugoslávia, então faça-se "limpeza étnica" a sério, deixando os novos países com um grau de homogeneidade étnica e religiosa bastante para a questão para eles passar a ser de política externa e não interna. Não se choquem muito com esta sugestão, porque foi o que a Sociedade das Nações fez com as populações gregas na Anatólia e turcas na Trácia, nos anos vinte e, já que se está numa de "engenharia nacional", mais valia redesenhar tudo, com muito dinheiro e muita negociação, em vez de reconhecer países na base das fronteiras administrativas da antiga Jugoslávia, mantendo todos os problemas por resolver e acicatando os ódios.
Só é pena que o seu partido não lhe tenha dado ouvidos...

sábado, 4 de outubro de 2008

XIIIe Table Ronde


Tenho novamente a honra de me deslocar a França, para representar o nosso país no maior encontro identitário europeu, a Table Ronde, que este ano se realiza pela décima terceira vez, organizado pela associação Terre et Peuple. Encabeçando uma comitiva de cinco portugueses, adianto que será apresentada uma novidade, que anunciarei quando regressar.

O tema deste ano é “O Combate cultural, para fazer o quê?” e o programa é o seguinte:

Morgane: A música, uma voz e uma via.
Jeanne Desnoyers: O teatro popular
Pierre Gillieth: O cinema e o nosso imaginário.
Katerine Mabire: A literatura, uma escola de vida
Kate Nauwelaers (Atelier de l’Elfe): Arte e artesanato populares, uma ética e uma estética
Jean-Claude Valla: A História, um desafio e lições.
Pierre Vial: O combate cultural, a nossa vocação e a nossa missão.

Para além da conferência haverá, como é hábito, numerosas bancas com livros, revistas, discos, artesanato, zona de comidas e área de convívio.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Tristes notícias

São as que nos dão conta de que o (des)governo português prepara para breve o reconhecimento da autoproclamada “independência” do Kosovo. A situação não se alterou, o acto continua a ser uma violação do Direito Internacional, o número de países que reconheceram continua a ser menor do que o dos que não o fizeram, entre os quais vários países europeus, como a vizinha Espanha. Mesmo o novo governo sérvio é considerado como “pró-ocidental”. Tudo isto devia fortalecer a manutenção da posição portuguesa. Mas não... É assim fácil de perceber que se trata de um acto de mera obediência cega a Bruxelas e a Washington.

O mau jornalismo habitual (VII)

O recém-colocado cartaz do PNR na rotunda de Entrecampos, em Lisboa, foi noticiado em vários meios de comunicação. Alguns tentaram denegri-lo, dizendo que foi “copiado dos nacionalistas suíços” (porque não inspirado?), ou usando críticas de entrevistados. Mas houve um caso que me pareceu o mais deplorável. O diário «Público» de ontem, debaixo da fotografia do outdoor, oferece uma pequena sequência baseada nas reacções de dez transeuntes. há uns pormenores que merecem referência. Um cabo-verdiano considera “isto é racista” (palavra obrigatória nestas construções), mas curiosamente é o mesmo que “nem acha que se deva proibir”. Nos dez inquiridos encontrou-se apenas uma excepção. Como 10% até pode ser visto como uma boa base de apoio, é-nos “explicado” que se trata de uma mulher que “não perdoa ao preto que na véspera esfaquera o filho que até era amigo dos preto”. Ficamos também a saber que a agressão aconteceu dentro de uma sala de aulas, mas rapidamente esta auxiliar de enfermagem é confrontada com a questão de “também os brancos darem facadas” e explica: “Eu sinto-me revoltada, e até nem era contra pretos, nem era revolucionária.

É claro que já havia sido utilizada a expressão “papão da imigração” e dito que a esta senhora “concordou com a ideias de que os imigrantes são criminosos e roubam empregos e, por isso devem deixar Portugal”. Nem adianta repetir as posições oficiais do PNR, nem as declarações do seu presidente, porque isso devia ser conhecido pelo jornalista que fez este trabalho. O PNR critica a imigração enquanto fenómeno negativo que é e alerta para as suas consequências nefastas, salvaguardando sempre que não é, obviamente, contra as pessoas em concreto, pelo contrário. Este tipo de generalizações infundadas é normalmente utilizado contra os nacionalistas ou o “papão da extrema-direita”, para utilizar a terminologia dos contos infantis tão cara aos detractores profissionais de apenas uma tendência política.

Há ainda um comentário referido, “é a merda do PNR”, que demonstra bem o nível a que se chega no campo do jornalismo depreciativo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Revistas italianas


Durante o encontro-debate "Roma e Acção Metapolítica", que trouxe Gianluca Iannone ao nosso país, consegui comprar algumas revistas italianas, que só conhecia através da internet, a do Blocco Studentesco e a Occidentale, um título nascido há 34 anos e recuperado agora. Devo dizer que se venderam todas e que apenas consegui três. Num formato pequeno, ambas têm uma paginação arrojada e apelativa, bem como artigos interessantes, mas não muito extensos. Bons exemplos para chegar até um público mais jovem e não conformista.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A propósito de um cartaz...


O PNR colocou mais um cartaz numa zona central Lisboa, graças ao esforço dos seus militantes, que foi prontamente alvo da intolerância dos "campeões da liberdade e da democracia". Basta estar minimamente atento à situação do país para perceber por que esta mensagem é incómoda para os técnicos da utopia. É totalmente inegável a irresponsabilidade nacional que é ter uma política de imigração sem controlo, ou que esse fenómeno traz, entre outras coisas, novas formas de criminalidade violenta e de precaridade laboral, nomeadamente na exploração dos próprios imigrantes.

Mas estas questões levam-me à necessidade da construção de uma alternativa política séria e credível fundamentada na defesa de Portugal e dos portugueses. E essa construção passa, necessariamente, pelo PNR. Mais uma vez faço soar um toque a reunir a todos os que, desiludidos com o actual estado do país, acomodados aos eternos partidos do sistema ou entretidos em tentativas efémeras de projectos concorrentes sem expressão, acreditem que é possível marcar a diferença. Façamos uma frente e trabalhemos em conjunto em prol do nosso futuro e dos nossos filhos. Pensemos em primeiro lugar no que nos une.