sábado, 18 de outubro de 2008

O eterno lápis azul

O Paulo Cunha Porto é um Amigo dos que mais prezo. Acompanhá-lo na blogosfera tem sido a forma de minimizar as saudades da tertúlia bibliófila do Bairro Alto, ou de tempos em que as nossas vidas nos permitiam encontros regulares. Vem isto a propósito da saída do Paulo de um blog para o qual escrevia após convite, depois de dois dos redactores lhe terem pedido “moderação”. É claro que a ligação para tal sítio deixou de ter razão de ser nesta casa e, por isso, retirei-a. Sobre a “moderação”, lembrei-me prontamente do que escreveu outro Amigo, o Bruno Oliveira Santos: “Os que advogam a moderação em matéria política são quase sempre moderadamente inteligentes, moderadamente sensatos, moderadamente corajosos, moderadamente honestos, moderadamente virtuosos. Às vezes, até moderadamente moderados”.

Lembrei-me, também, do elogio que o Paulo me teceu aquando do segundo aniversário do Pena e Espada e que me deixou, como lhe disse na altura, sem palavras. Pois é agora o momento ideal para o devolver, bastando substituir o meu nome pelo dele, já que se aplica tal e qual: “(...) Muitos anos antes de me tornar blogueiro, habituei-me a trocar ideias com o Duarte, em tertúlias que ambos integrámos, ou em circunstâncias em que só estivemos presentes os dois. Habituei-me a admirar a Sua honestidade intelectual, os Seus enormes conhecimentos e, last but not the least, o Seu amor aos livros. Mesmo quando divergi Dele, nunca esmoreceu o meu entusiasmo pela forma como defendia aquilo em que acreditava. (...)” É assim a Amizade, não entendo quem a veja de outra forma.

Quem fica a perder, como não podia deixar de ser, é o tal blog colectivo — que, afinal, parece que se pretende único —, como se percebe pela saída de outros dois colaboradores e os protestos nos comentários leitores.

Um abraço, Paulo, e até à tua próxima paragem blogosférica.

Jünger e Céline na Sorbonne

Em frente à Sorbonne há um quiosque onde é possível comprar números antigos do «Magazine Littéraire». E não é a molho, tipo “oportunidades”, é todo um escaparate com vários exemplares de cada número, organizados por data de publicação. Uma verdadeira tentação para “esvaziar a bolsa” e “encher a mala”. Mas, como nesta minha última ida a Paris a mala já estava cheia e a bolsa anda sempre pouco preenchida, tive que conter-me e elegi apenas duas revistas, relativas a dois autores de referência para mim — Ernst Jünger e Louis-Ferdinand Céline.



Trouxe, assim, o n.º 326, de 1994, estando o escritor alemão ainda vivo e à beira de completar o seu centésimo aniversário, que tem um excelente dossier com vários artigos, uma cronologia, uma bibliografia e o texto “Leipzig”, um excerto da primeira versão inédita de “O Coração Aventuroso”; e o hors-série n.º 4, de 2002, totalmente dedicado ao escritor francês, do qual destaco três textos inéditos e a entrevista com Lucette Destouches sobre como foi escrito “Rigodon”.

Mais auxiliares para, como propôs o meu caro amigo Miguel Vaz, depois de aceitar umas pistas de leitura que lhe dei, “analisar mais a fundo a relação entre Jünger e Céline. Dois escritores geniais, dois veteranos da Guerra, dois condecorados, dois críticos do III Reich e dois odiados pela Ordem que floresceu na Europa após a derrocada alemã. Dois percursos análogos mas inversos. De um lado a perspectiva ascética e aristrocrática de Jünger. Do outro o niilismo e a provocação de Céline.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O efeito da imigração: do regional ao nacional

O jornal «Público» refere hoje, numa notícia sobre os fluxos migratórios gerados pelos grandes projectos de obras públicas anunciados para o Baixo Alentejo, um estudo da investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Maria Ioannis Baganha, que conclui que os impactos da vinda de tal número de imigrantes, nomeadamente no sector da habitação, terão como consequência um choque cultural, agravando-se “a tensão social” entre alentejanos e imigrantes, o que se pode tornar num problema “grave de difícil solução”.

Ora, estes efeitos, tal como sucedem a nível regional, também acontecem a nível nacional. Porque a imigração, como fenómeno negativo que é, também produz consequências indesejáveis. É, por isso, que urge sair do “debate” hipócrita, no qual a imigração é apresentada como panaceia para todos os males da sociedade e qualquer crítica ou oposição que se lhe faça é considerada uma atitude “racista” e “xenófoba”, necessariamente reprovável e não permitida.

Maior hipocrisia é a daqueles que pretendem com essa postura “defender os imigrantes”, pois ao permitir uma imigração desregrada, apenas se beneficia o grande capital ao facilitar a exploração dessas mesmas pessoas que era suposto defender. Hipócrita é, também, a crescente atitude xenófila e discriminatória desses “defensores”, ao preferirem a protecção dos imigrantes em detrimento dos nacionais, como se no nosso país não houvesse problemas sociais e laborais graves a resolver.

Tapar o Sol com uma peneira

Após os “incidentes” no jogo de futebol França-Tunísia, no Stade de France, na passada terça-feira — cujas imagens, ilucitativas, podem ser vistas aqui —, uns “estranham”, outros tentam “compreender” e o governo finge “preocupação”.

O problema não é de hoje. O falhanço do sistema de integração republicano em França é notório há anos e as suas consequências têm vindo a agravar-se, apesar de manobras mediáticas que aligeiram ou ocultam as tais notícias. Tal como escreveu Guillaume Faye na sua obra “La colonisation de l'Europe: Discours vrai sur l'immigration et l'islam, publicada em 2000, os media têm ordens para minimizar tais eventos, foi por isso que “a televisão nunca mostrou as florestas de bandeiras argelinas e os slogans escritos em árabe nos distúrbios nos subúrbios (como durante a "festa" do Mundial de 1998). Da mesma maneira, já não se fotografam ou filmam os inúmeros graffitis do género: "Os árabes fodem a França". Trata-se de dissimular qualquer sinal de hostilidade.

Mesmo a solução, tantas vezes apresentada como milagrosa, de uma equipa multirracial de nada serve, já que, como diz Faye no mesmo livro, “fazer coabitar raças diferentes, é possível numa equipa de futebol onde os jogadores são pagos a peso de ouro, não nos seio de uma mesma comunidade política e histórica de destino”.

E para aqueles que acham que esta é uma questão francesa, que nada tem que ver com o resto da Europa, nomeadamente com o nosso país, pergunto: lembram-se do jogo, igualmente “amigável”, entre Portugal e Angola, em 2001, marcado pela violência, pelos distúrbios e abstinência policial por medo de “racismo”, que resultou em grave perturbação da ordem pública?

Filmes de culto (XXIX)

Cross of Iron, Sam Peckinpah, 1977.

Homenagem a Céline: “Viagem ao fim do efémero”

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sinais de outros tempos (V)

Rua Presidente Wilson, Lisboa.

Apelo

Poetas
que ides cantando
um sonho de caravelas,
um velho sonho passado
e estafado
com nuvens, luas, estrelas;
Deixai o adeus e a saudade
e esse ficar
aí, de braços cruzados,
a recordar:

— “Conquista, Índias, mistérios...
Tudo se foi.
Só nos resta chorar idos Impérios.
Como isto dói!”

Poetas,
fatal engano:
Se o que foi já não é,
temos ainda os mesmos braços
e a mesma fé.
À nossa volta há tanto para fazer,
tanto mundo a construir...
E vós, a ver!
Que triste Alcácer-Quibir!

Irmãos:
Parai um momento a cantar
quimeras, sonhos vãos,
e ide lançar,
pelas vossas próprias mãos,
um barco ao mar!


António Manuel Couto Viana
in “O Poeta pela mão: Primeiros versos”, 1999.

XIIIe Table Ronde

Mais uma vez me desloquei a França para o maior encontro identitário europeu, a Table Ronde, organizada pela associação Terre et Peuple, que se realizou pela décima terceira vez e juntou várias centenas de pessoas de diversos países. Este ano esteve presente um grupo de cinco portugueses e foi apresentada oficialmente a associação Terra e Povo, colocando assim o nosso país numa rede paneuropeia que cresce de dia para dia.

O tema deste ano foi "O Combate cultural, para fazer o quê?" e a primeira intervenção, não prevista, foi de Pierre Vial que falou da actual situação de crise económica e do fim do capitalismo. Alertando para as consequências que se avizinham citou Lenine: "o primeiro dever de um revolucionário é sobreviver." De seguida falou um membro da Terre et Peuple que representa um grupo de várias famílias que concretizou um "regresso à terra" e falou da sua experiência e de como ela alterou radicalmente a sua vida. Na zona das bancas era possível adquirir algumas das produções dessas quintas.


A sala de conferências

Continuou a sessão Kate Nauwelaers, do Atelier de l’Elfe, falando sobre a Arte e o artesanato populares, e a forma como estes fazem parte da luta pela nossa identidade. Depois foi a vez de Pierre Gillieth, que numa excelente intervenção sobre o cinema, enumerou vários filmes onde é possível encontrar uma mensagem na qual nos revemos, conseguindo a participação da audiência. Frisou a importância de se reconhecer o talento, mesmo quando apreciamos autores que não são dos nossos, pois uma postura fechada é a característica dos nossos inimigos, afirmando que "podemos ser tanto ecléticos como abertos sem esquecer e negar os nossos valores". Seguiu-se Morgane, que falou do papel da música no combate cultural identitário e da sua experiência pessoal. Depois de um breve intervalo, foi a vez de Katerine Mabire que falou sobre a literatura, especialmente na vasta e marcante obra de Jean Mabire. Em seguida, tempo para ouvir a fantástica e eloquente intervenção de Jeanne Desnoyers sobre um tema pouco abordado na nossa área, o teatro popular, a sua importância e a forma como evoluiu e tocou as populações em França. Depois, Jean-Claude Valla lembrou o poder da História e a forma como o trabalho dos historiadores e investigadores tem sido cada vez mais impedido em França, tanto por medidas legais, como por diversas pressões. Teve por fim a palavra Pierre Vial, que reiterou a importância do combate cultural, fazendo um ponto da situação actual e afirmando que é a nossa missão porque "a cultura é a expressão da alma de um povo".

A zona das bancas

Como sempre havia uma grande zona de bancas, onde era possível encontrar livros, revistas, música, artesanato, representações de associações e autores, e uma zona de refeições. Pela primeira vez, o material da Terra e Povo esteve disponível na banca partilhada com os nossos camaradas da Tierra y Pueblo.

A banca luso-espanhola

O convívio foi excelente com camaradas de vários países, em especial com os franceses e os espanhóis. Estes últimos contavam também com uma delegação de cinco pessoas e juntos visitámos o Palácio de Versailles no dia a seguir ao evento.

Delegações portuguesa e espanhola em frente ao Palácio de Versailles

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Éléments n.º 129

O último número da «Éléments» tem como tema central o Mediterrâneo, considerado “nossa mãe”, e oferece um dossier com uma entrevista com o professor de direito internacional Danilo Zolo, feita por Alain de Benoist, o relato de um ano no Mediterrâneo, “De Toledo a Cartago”, de Ange-Marie Guerrini, a entrevista com o professor de história comtemporânea Frédéric Musso, “O Mediterrâneo, fonte de toda a nostalgia”, e o artigo de Gabriel Matzneff “O Venus, regina Cnidi Paphique...”. Este tema e o editorial de Robert de Herte serão alvo de análise num post posterior.

Destaque ainda para a entrevista com Julien Hervier, tradutor e especialista em Ernst Jünger, o “reencontro” de André Coyné com Jorge Luis Borges, e os artigos sobre Kenneth White, pai da geopoética, de Fabrice Valclérieux, sobre o escritor Charles-Ferdinand Ramuz, de Eric Werner, e sobre a obra de René Girard, de Alain de Benoist, para além da rubricas habituais.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O reconhecimento do Kosovo (IV)

André Freire, num artigo da edição de hoje do jornal «Público» intitulado “A geopolítica das sociedades divididas”, considera que “o reconhecimento do Kosovo representa uma decisão à margem do direito internacional e de certos princípios fundamentais da ordem internacional (como a "integridade territorial dos países")”, acrescentando que “a sua defesa não pode servir para uns casos (como a Geórgia, a Bósnia, etc.) e ser ignorada noutros”. O politólogo alerta ainda para o facto de “esta decisão não trazer mais problemas aos Balcãs: a solução encontrada não é aceite para casos semelhantes que, por isso, se sentem desigualmente tratados. Exemplo: a República Sprska, esmagadoramente Sérvia, tem expressado o desejo de se separar da Bósnia”; lembrando que “há uma grande diferença entre o Kosovo e as outras entidades secessionistas: foi sempre uma região integrada na Sérvia”.

domingo, 12 de outubro de 2008

“Desenvolvidos”

O jornal «Público» noticiava ontem — dia em que se deu a trágica morte de Jörg Haider — que “metade dos jovens votou na extrema-direita na Áustria”, contributo importante para que o FPÖ e o BZÖ conseguissem atingir 28% dos votos nas últimas eleições legislativas, o primeiro acto eleitoral em que jovens de 16 anos puderam participar. Pouco antes, em Portugal, anunciava-se uma sondagem que dava aos comunistas e à extrema-esquerda, em conjunto, intenções de voto ligeiramente acima dos 20%. Analisando estes dados à luz do politicamente correcto, chega-se à conclusão que os “desenvolvidos” devemos ser nós...

Filmes de culto (XXVIII)

Master and Commander: The Far Side of the World, Peter Weir, 2003.

A difícil defesa da liberdade (II)

José Pacheco Pereira disponibilizou no seu blog, mais um texto publicado na última edição da revista «Sábado», desta vez sobre o “caso dos skinheads”. Esperando os habituais ataques dos suspeitos do costume, intitula a sua prosa “E já agora para fazer subir pelas paredes a mesma turba”. Mantendo o que já disse sobre o autor, reproduzo o início: Não posso deixar de considerar mais uma vez excessivo o modo como o nosso sistema judicial penaliza os crimes reais, hipotéticos ou mesmo de opinião, que em democracia não são crimes, da extrema-direita.(...)”; e o fim, “(...) em democracia as ideias e as opiniões é suposto serem livres, por péssimas que sejam, e o nosso desgosto com elas não devem servir de agravante penal, sob pena de politização da justiça”. Vale a pena ler.

Tierra y Pueblo n.º 18

O último número da revista da associação identitária Tierra y Pueblo tem como tema central a “Montanha como via de realização” e, como nos diz Enrique Ravello no editorial, “foi pensado para todos os que alguma vez tenham sentido a chamada da montanha como símbolo a compreender e realidade física a conquistar. E é dedicado aos que deixaram as suas vidas na escalada que leva ao Olimpo”. No dossier correspondente podemos ler uma homenagem a Julius Evola, de Nicola di Trento, um texto sobre o Gruppo Escursionistico Orientamenti, o relato da subida ao Elbrus, em 1984, por José Hernansaez, uma entrevista com Domenico Rudatis, entre outros.

Destaque ainda para os artigos “Sérvia, Albânia e a geopolítica da fronteira sudeste europeia”, de Robert Steuckers, “O Sangue ou a memória do eterno”, de Àlvar Riudellops e Andrés del Corral, e a análise política de E. Monsonís sobre “O difícil caminho até um partido identitário em Espanha”.

Nas recensões críticas, nota para a de Eduardo Núñez sobre o livro de Arturo Pérez-Reverte “Un Día de Cólera”, e a de Mirmidón sobre “Um Inimigo do Povo”, obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen.