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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A praga dos caixotes de vidro...


Hoje passei por mais um caixote de vidro incrustado em Lisboa, na esquina da R. de João Penha com a Trav. da Fábrica das Sedas, ao Jardim das Amoreiras. Já nem questiono a arquitectura, apenas constato que o mamarracho está totalmente desenquadrado dos edifícios circundantes. Assim se vai descaracterizando mais uma zona da capital...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Da palavra "urbanização"


«Há palavras que aparecem como vírus num meio propício, alastrando à maneira de epidemia, irritando ou estimulando pela novidade; criam noções sintéticas que influem na maneira de ver; – depois atenua-se a sua virulência e a pouco e pouco quási se destituem de sentido…

Lembro-me, por exemplo, da palavra vitamina que provocou uma pequena revolução nas noções da dietética, e que, impressa sobre qualquer lata de conservas, introduziu uma nota inesperada de mistério na alimentação da gente, dando lugar a série de crendices fantasiosas. – Recordo-me então de quando surgiu o aerodinamismo ao qual se sujeitou a forma de todos os objectos industrializados, desde o avião bombardeiro ao simples cabo de guarda-chuva ou à asa de qualquer cafeteira. – Tivemos o “sex-appeal” prestigioso, vocábulo estrangeiro destinado a provocar certas perturbações… magnéticas, de origem cine-astral, – vocábulo em breve desbancado por outros termos da última hora…

Enfim, creio que também a palavra urbanização participa destes efeitos de novidade mais ou menos excitantes. Urbanização, urbanismo, urbanologia, urbanista, etc. – a sua novidade está apenas no nome, que as respectivas funções existem desde que há civilização.»

Raul Lino
in “Quatro palavras sobre urbanização” (1945).

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A nossa cidade

A notícia de que o icónico Cinema Londres, na Av. de Roma, em Lisboa, vai dar lugar a uma loja de produtos chineses provocou o protesto de moradores do bairro e alguma mobilização popular.

Impõe-se aqui dizer que é um local que me diz directamente respeito. Há um lado pessoal nesta transformação que me incomoda bastante. Recordo-me de, em criança, ir à Pastelaria Roma, mesmo ao lado do cinema. Era um ponto de encontro por excelência naquela zona, que nem pela sua dimensão perdia as virtudes de café de vizinhança. A Roma foi ocupada, há uns bons anos, por uma conhecida cadeia de ‘fast-food’ e a magia do local, naturalmente, desapareceu. Já o Londres resistiu por mais algum tempo, mas a crise e os novos hábitos têm vindo a condenar os cinemas clássicos da capital.

Este não é um exercício de lamechice nostálgica. É um exemplo que conheço, que vivi, que senti. Mas casos como este há por toda a cidade. Em vez de um café de bairro passámos a ter hambúrgueres a metro como em qualquer lugar do mundo e em vez de um cinema vamos ter agora um ponto de venda de produtos importados do outro lado do globo.

Dirão os bem-pensantes do costume que é a “mundialização”, o “mercado global”, como se tal fosse positivo. Não é. Trata-se de um processo de uniformização que descaracteriza o nosso ‘habitat’ – com que nos identificamos –, que o torna mais impessoal e corrói o sentimento particular de comunidade local.

Houve quem criticasse tais lamentos dizendo que quem chora hoje pelo Londres não lá foi no passado recente, quando mais necessitava de espectadores para sobreviver. Não é uma crítica sem sentido, mas não invalida a sua defesa actual.

Este é um exemplo do que acontece por todo o País diariamente. Infelizmente, só sentimos a nossa cidade quando a vemos desaparecer. Que nos sirva de lição! Se não queremos viver numa cidade dos outros, nivelada por modas estrangeiras, cabe-nos manter viva a nossa cidade.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A cidade deve ser repensada

«O urbanismo sofre desde há cinquenta anos a ditadura da fealdade, do sem-sentido e do curto prazo: cidades-dormitório sem horizonte, zonas residenciais sem alma, subúrbios cinzentos que servem de esgotos municipais, intermináveis centros comerciais que desfiguram a entrada das cidades, proliferação de "não-lugares" anónimos concebidos para utentes apressados, centros urbanos exclusivamente dedicados ao comércio e aos que foram despojados do seu ambiente tradicional (cafés, universidade, cinemas, teatros, praças, etc.), justaposição de imóveis sem um estilo comum, bairros degradados e entregues ao abandono ou, pelo contrário, permanentemente vigiados por guardas e câmaras de vigilância, desertificação rural e sobrepopulação urbana...


Já não se constroem habitats para viver, mas para sobreviver num ambiente urbano desfigurado pela lei da rentabilidade máxima e da funcionalidade racional. Ora, um habitat é antes de mais um habitat: trabalhar, circular e habitar não são funções que podem ser isoladas, mas antes actos complexos que afectam a totalidade da vida social. A cidade deve ser repensada como o local de encontros de todas as nossas potencialidade, o labirinto das nossas paixões e das nossas acções, em vez de expressão geométrica e fria da racionalidade planificadora. Arquitectura e urbanismo inscrevem-se, por outro lado, numa história e geografia singulares, e devem ser o seu reflexo. Isto implica a revalorização de um urbanismo enraizado e harmonioso, a reabilitação dos estilos regionais, o desenvolvimento das vilas e das pequenas cidades em forma de rede, em torno de cidades regionais, a promoção das zonas rurais, a destruição progressiva das cidades-dormitório e as concentrações estritamente comerciais, a eliminação de uma publicidade omnipresente, assim como a diversificação dos meios de transporte: abolição da ditadura do automóvel individual, transporte ferroviário de mercadorias, revitalização do transporte colectivo, consideração pelos imperativos ecológicos...»

Alain de Benoist

terça-feira, 22 de outubro de 2013

"As multinacionais são cancros que têm nos seus genes o lucro ilimitado"

Em entrevista ao jornal «Arquitecturas», Hermann Knoflacher, director do Instituto do Planeamento e Tecnologia de Transportes, da Universidade de Viena, afirma que "deixámos de construir as cidades para as pessoas".

De facto, cada vez mais vemos que o nosso habitat urbano é centrado no automóvel. Para Knoflacher, em Portugal "gastou-se mal o dinheiro da UE. Enquanto noutros sítios estão a eliminar as auto-estradas, aqui continuam a construí-las". Para este professor universitário, que é agricultor nas horas vagas, esta estratégia está errada. Isto porque, segundo ele, "as auto-estradas não empregam pessoas. O dinheiro deixa de circular no bairro. O que é pago com cartões de plástico nas grandes superfícies sai do país".

Sem papas na língua, afirma que "as multinacionais são cancros que têm nos seus genes o lucro ilimitado". Assim, ter demasiadas estradas e carros é mau para a economia nacional, porque "este sistema de transportes rápidos favorece a centralização do poder". Ou seja, as multinacionais, as mesmas que, nas palavras de Knoflacher, "controlam os Estados hoje em dia".

Sobre Lisboa, diz que não é das piores cidades, porque "tem pessoas na rua" e sugere a criação de mais zonas pedonais e o investimento em transportes públicos.

Hermann Knoflacher vive numa quinta a 24 km do seu local de trabalho, para o qual se desloca diariamente de metro e comboio. Acredita que é possível viver sem carros, ou pelo menos com uma percentagem muito inferior à que existe hoje em dia. Para ele, é uma atitude evolutiva. "Os condutores estão sentados nos carros como os ancestrais macacos estavam nas árvores. Temos que voltar à nossa posição erecta", afirma.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A cidade mundial


"Oswald Spengler, em O Declínio do Ocidente, traçou de forma infinitamente mais correcta, a evolução da cidade, desde o burgo até à «cidade mundial».

A diferença entre o burgo e a cidade não reside apenas nas suas dimensões. O burgo não se opõe fundamentalmente ao campo. Construído em redor do mercado, ele constitui o ponto de intersecção de um certo número de interesses rurais. Está ligado à terra e depende da «natureza», de que ele adopta os hábitos e os ritmos.

Com a «cidade de cultura», isto é, a cidade tradicional, a natureza encontra-se, pelo contrário, nitidamente dominada, tanto do ponto de vista económico como do ponto de vista político. A cidade transforma-se em pequena sociedade autónoma, em constante evolução em relação ao meio ambiente. Torna-se o sujeito colectivo da hstória dos seus habitantes. A relação entre a cidade e o campo é, então, análogo à relação entre a sociedade e a «natureza». É nisso que as sociedades citadinas são pleneamente históricas, por oposição às sociedades rurais, que são sociedades de repetição. (O campo desempenhando um papel, indispensável, de reserva humana potencial destinada a actualizar-se progressivamente nas cidades — ao mesmo tempo que se efectua a sua própria substituição.)

Mas a «cidade de cultura» em breve se expande. Desdobra-se em arrabaldes que, pouco a pouco, vão absorvendo os meios rurais circundantes. A relação com a natureza deixa de ser dialéctica para passar a ser esterilizante. O mundo rural é esvaziado, sem que tenha tempo de se renovar. Paralelamente, a gestão da cidade torna-se cada vez mais pesada e burocrática. Formas geométricas e cristalizadas substituem-se às formas orgânicas. O anonimato é a regra, encontrando-se o indivíduo desprovido de meios para se situar, de forma perdurável, em relação ao seu próprio meio. É assim que surge a «cidade mundial», submetida, segundo as épocas, ao poder dos tecnocratas ou dos funcionários imperiais. A sua aparição, diz-nos Spengler, corresponde ao estádio da «petrificação» das culturas.

«Estas cidades gigantescas e pouco numerosas», escreve, «banem e matam, em todas as civilizações, sob o conceito de província, e por inteiro, a paisagem que foi a mãe da sua cultura (...). Elas transformam-se na história petrificada de um organismo».

«As cidades mundiais do tempo dos Han e dos índios da dinastia dos Maurya», acrescenta ele, «possuíram as mesmas formas geométricas. As cidades mundiais da civilização euro-americana encontram-se longe de haver atingido o cume da sua evolução. Vejo aproximar-se o tempo em que se construirão cidades urbanas de dez ou vinte milhões de habitantes».

É a este estádio aquele a que chegámos.

Todos os Estados modernos se encontram, hoje, confrontados com o mesmo problema: como canalizar o crescimento das grandes cidades sem prejudicar as exigências da vida social — ou o seu desenvolvimento? Neste domínio, e até agora, tem prevalecido o pragmatismo e a visão a curto prazo. Mas hoje, não é já possível que as cidades continuem a crescer por si próprias. As mais futuristas das propostas não faltam. Mas as soluções não são mais do que uma questão técnica, de planos, e de «metrópoles de equilíbrio». O exemplo de Nova Iorque dá que pensar: o fracasso desta cidade representa o fracasso de um certo modo de organização e de povoamento urbanos."

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas",
Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite (1981)