"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."
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domingo, 7 de maio de 2017
Submissão
"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."
sexta-feira, 5 de maio de 2017
A Direita francesa, as eleições presidenciais e Marine Le Pen
Há dois anos entrevistei o Bruno Garschagen, professor de Teoria Política, autor e tradutor, a propósito do seu livro “Pare de acreditar no Governo. Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”. Apesar das nossas diferenças, mantivemos o contacto, a amizade e o salutar debate de ideias. Desta vez, a propósito das eleições presidenciais francesas, os papéis inverteram-se e fui eu o entrevistado. Aqui fica a ligação para a entrevista que dei ontem em directo, uma óptima experiência que, assim espero, seja útil à compreensão do que está em jogo no próximo dia 7 de Maio.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
A teoria que dá a vitória a Marine Le Pen
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| Marine Le Pen |
Ao contrário do que prevêem as sondagens, Marine pode vencer graças ao que Serge Galam chama a "abstenção diferenciada". Segundo o investigador, Le Pen não consegue passar a barreira dos 50%, mas pode beneficiar de uma fraca mobilização do eleitorado de Macron.
Traduzido em números, Galam parte de uma sondagem que dá 58% a Macron e 42% a Marine para considerar que, neste caso, se 90% dos eleitores de Marine votarem na segunda volta e apenas 65% dos eleitores que declararam o seu apoio a Macron o fizerem, Marine Le Pen seria eleita com 50,07% dos votos.
É uma hipótese remota, claro, mas temos visto vários casos em que o inesperado aconteceu...
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Trump e a intolerância dos tolerantes
sábado, 12 de novembro de 2016
Trump: insurgência identitária?
"Grande parte dos analistas tenta explicar esta “insurgência” Trumpeana como sendo um protesto dos euro-americanos contra a globalização económica devido à perda de empregos e de riqueza geral. No entanto, uma análise mais cuidada revela que os apoiantes de Trump estão muito longe de serem pobres. Os outros grupos (latinos e afro-americanos) que tendem a apoiar o partido democrata com a sua visão globalizante são bastante mais empobrecidos. Este historicismo materialista dos analistas não consegue explicar o fenómeno Trump em toda a sua dimensão.
Tal como vários estudos académicos revelam, o que está na origem desta insurgência é a ascensão da identidade europeia em solo americano. A evidência empírica dos psicólogos sociais Eric Knowles e Linda Tropp mostra que o contacto massivo com “o outro” no próprio país fez com que muitos euro-americanos se tenham consciencializado da sua identidade europeia. Por outras palavras, a abertura de fronteiras e as alterações radicais demográficas e culturais nos EUA provocaram uma ameaça existencial. Tal como aprendemos com a psicologia política evolutiva, é nestes momentos que os grupos tendem a escolher líderes fortes e combativos que defendam a sobrevivência do colectivo."
A este propósito, leia-se, também, a entrevista de Kathy Cramer, The Politics of Resentment (A Política do Ressentimento, não traduzido para português) ao "Público" sobre Donald Trump e sobre o futuro da política de identidade branca.
Nas inúmeras entrevistas que fez no Wisconsin rural, chegou à conclusão que nos "três elementos do ressentimento – não tenho poder, bens nem respeito – a raça e a economia interligam-se".No entanto, sobre o "racismo" dos apoiastes de Trump, afirma: "O argumento de que o movimento de Donald Trump equivale a racismo não me parece ser verdade, e isto porque o racismo não põe comida na mesa. Não se pode ganhar a vida com o racismo. Não nego que os estudos mostrem que há muito ressentimento racial entre o eleitorado de Donald Trump mas muitas vezes o argumento termina aí. “Eles são racistas.” Parece-me ser uma forma muito redutora de olhar para a questão. É claramente racista pensar que os negros não trabalham tanto como os brancos. E então? Declaramos que uma grande parte da população é racista e, como tal, os seus problemas não são merecedores da nossa atenção?"
Dizendo que resiste muito à "caracterização dos apoiantes de Donald Trump como sendo ignorantes", Kathy Cramer afirma que "cada vez mais há provas de que a política para as pessoas não é – e eu sei que isto vai soar de forma horrível – sobre os factos e as políticas. É sobre identidades, sobre a formação de ideias, sobre o tipo de pessoas que nós somos e o tipo de pessoas que os outros são. Quem sou eu e quem está contra mim?"
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Explicadores
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
A vitória anunciada que não o foi...
Como escrevi em tempos, em política não há vitórias anunciadas. Pelo contrário, é normalmente quem as anuncia – tão seguro de si próprio – que acaba em maus lençóis.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Do carácter
Os ciclos eleitorais habituaram-nos a que os candidatos prometem o que não podem, ou não tencionam, cumprir. Como vale tudo para vencer e a seriedade deixou de ser uma qualidade para se tornar um argumento descartável, uma vez chegados ao poleiro, aqueles que garantiram tudo fazer pelo “interesse nacional” – outro chavão tão em voga no discurso político actual – justificam-se com a “alteração das circunstâncias” e cedem aos interesses próprios, seja do seu partido, seja dos grandes grupos económico-financeiros que os suportam.
Não é assim de estranhar que, em especial no “centrão”, em nome da seriedade, a mais recente jogada de ‘marketing’ é afirmar-se contra os “interesses”, nestes tempos em que a promiscuidade entre a política e os negócios é cada vez mais notória. Mas será hoje possível a quem ocupa altos cargos governativos um espírito altruísta e uma atitude desinteressada? Será o carácter compatível com os “interesses” que contaminam a política?
Como escreveu Jean Giono, no seu maravilhoso “O Homem que Plantava Árvores”: “Para que o carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar os seus actos durante muitos anos. Se esses actos forem desprovidos de todo o egoísmo, se o ideal que os conduz resulta de uma generosidade sem par, se for absolutamente certo que não procuram recompensa alguma e se, além disso, ainda deixam no mundo marcas visíveis, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível.”
De facto, nesta era da baixa política não há pessoas assim. É de homens com carácter que precisamos para conduzir os destinos da Nação.
Não é assim de estranhar que, em especial no “centrão”, em nome da seriedade, a mais recente jogada de ‘marketing’ é afirmar-se contra os “interesses”, nestes tempos em que a promiscuidade entre a política e os negócios é cada vez mais notória. Mas será hoje possível a quem ocupa altos cargos governativos um espírito altruísta e uma atitude desinteressada? Será o carácter compatível com os “interesses” que contaminam a política?
Como escreveu Jean Giono, no seu maravilhoso “O Homem que Plantava Árvores”: “Para que o carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar os seus actos durante muitos anos. Se esses actos forem desprovidos de todo o egoísmo, se o ideal que os conduz resulta de uma generosidade sem par, se for absolutamente certo que não procuram recompensa alguma e se, além disso, ainda deixam no mundo marcas visíveis, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível.”
De facto, nesta era da baixa política não há pessoas assim. É de homens com carácter que precisamos para conduzir os destinos da Nação.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Experiência
Ao vermos o percurso dos nossos políticos, imediatamente nos perguntamos qual a sua preparação e qual a sua experiência. De facto, ao olharmos para uma geração nascida e criada nas juventudes partidárias, com diplomas universitários que não passam de papéis de embrulho, normalmente sem qualquer trabalho concreto nos órgãos de poder, não podemos ficar descansados.
No entanto, não se pense que este é um problema contemporâneo. Podemos aprender a ser bons políticos? E como? Já na Antiguidade se punham tais questões, pelo que é útil recorrer aos clássicos.
Questionava Aristóteles, na sua “Ética a Nicómano”: “Será que tal como aprendemos outras perícias em especialistas nessas áreas, também podemos aprender a perícia legisladora junto dos que dominam o saber nas áreas do exercício do poder político? Ou será que não há semelhança entre a perícia no exercício do poder político e as restantes ciências e capacidades?”
Considerando que nenhum dos que proclamam ensinar a política a põe em prática, o filósofo grego afirmava que “não é pouco relevante o contributo dado pela experiência nestas matérias”. Por isso, “aqueles que aspiram ao saber em áreas políticas precisam de experiência”.
Assim, um político competente necessita de conhecimento teórico e de experiência. Mas será que basta? Tal pressupunha que quem nos governa fosse guiado por valores e zelasse pela prossecução do interesse comum nacional.
Ora, em especial nos tempos que correm, não podemos infelizmente partir desse princípio. Assim, para além da preparação obviamente necessária, a característica fundamental de um político deve ser a defesa da Pátria.
Portugal precisa de quem saiba de onde vimos e para onde vamos.
No entanto, não se pense que este é um problema contemporâneo. Podemos aprender a ser bons políticos? E como? Já na Antiguidade se punham tais questões, pelo que é útil recorrer aos clássicos.
Questionava Aristóteles, na sua “Ética a Nicómano”: “Será que tal como aprendemos outras perícias em especialistas nessas áreas, também podemos aprender a perícia legisladora junto dos que dominam o saber nas áreas do exercício do poder político? Ou será que não há semelhança entre a perícia no exercício do poder político e as restantes ciências e capacidades?”
Considerando que nenhum dos que proclamam ensinar a política a põe em prática, o filósofo grego afirmava que “não é pouco relevante o contributo dado pela experiência nestas matérias”. Por isso, “aqueles que aspiram ao saber em áreas políticas precisam de experiência”.
Assim, um político competente necessita de conhecimento teórico e de experiência. Mas será que basta? Tal pressupunha que quem nos governa fosse guiado por valores e zelasse pela prossecução do interesse comum nacional.
Ora, em especial nos tempos que correm, não podemos infelizmente partir desse princípio. Assim, para além da preparação obviamente necessária, a característica fundamental de um político deve ser a defesa da Pátria.
Portugal precisa de quem saiba de onde vimos e para onde vamos.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
sábado, 16 de agosto de 2014
Miopia política
Hoje, governar é agir sem prever."
Marcello Duarte Mathias
in "Diário de Paris (2001-2003)"
quarta-feira, 5 de março de 2014
“O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas”
Riccardo Marchi é um historiador italiano radicado em Portugal que se tem dedicado ao estudo das direitas radicais na democracia portuguesa. Desde 2008 que é investigador de pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Em 2010 organizou o colóquio “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas”, onde participaram Rui Ramos, Jaime Nogueira Pinto, Henrique Raposo, Ernesto Castro Leal, José Pedro Zúquete, entre outros. As comunicações desse colóquio foram agora reunidas num livro essencial para compreender o estado e o futuro das direitas no nosso país. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para a edição de «O Diabo» de 18 de Fevereiro de 2013.
Qual foi o objectivo do colóquio que deu origem a este livro?
Quando em 2005 iniciei as minhas investigações de doutoramento acerca das direitas radicais no fim do Estado Novo – tese publicada nos dois livros “Folhas Ultras” (ICS, 2009) e “Império Nação Revolução” (Leya, 2009) –, senti a falta, na minha revisão bibliográfica, de obras de conjunto sobre o tema das direitas em Portugal que pudessem servir-me para enquadrar o meu objecto de estudo. Este género de bibliografia já está presente, há anos, nos outros países da Europa Ocidental: não falo apenas de trabalhos seminais como “La Droite en France”, de René Remond (1954), mas de uma grande variedade de análises historiográficas e politológicas de conjuntos que foram publicadas ao longo dos anos nos diferentes países sobre os percursos das direitas autóctones, sobre as suas diferentes matrizes doutrinárias, as suas evoluções, as estratégias, as convergências, as divergências, os legados que deixaram nos actores políticos que ocupam actualmente este espaço político.
Em Portugal não havia tais trabalhos?
Em Portugal havia muito e bom trabalho já feito sobre a primeira metade do século XX, inclusive o Estado Novo, menos sobre a segunda metade do século passado. Mas sobretudo faltava – e falta – uma reflexão diacrónica sobre as direitas portuguesas na contemporaneidade. Uma obra deste género é assaz complexa a fruto de muitos anos de investigação e reflexão madura, razão pela qual, quando em 2010 iniciei este projecto editorial, o meu intuito era mais limitado: reunir alguns colegas com trabalho sólido sobre diferentes experiências das direitas portuguesas desde o miguelismo até aos nosso dias para propor uma série de reflexões que contribuam à análise de longo período das direitas em Portugal. Como é óbvio e como é costume dizer-se nestas circunstâncias, não se trata de por uma palavra fim à investigação sobre este tema, mas de participar ao debate historiográfico – segundo Rui Ramos ainda incipiente – sobre as direitas em Portugal.
Ao falar de direitas significa que não há uma direita?Sem dúvida. A existência de direitas plurais, muito diferentes entre elas é um dado empírico. Há umas direitas contra-revolucionárias e umas direitas herdeiras das revoluções dos século XVIII e XIX, umas direitas monárquicas e umas direitas republicanas, há umas direitas profundamente influenciadas pelas revoluções nacionais dos anos 20 e 30 do século XX e umas direitas que se opuseram determinantemente aos fascismos; há umas direitas católicas anti-conciliares e uma direitas laicas que pouco se interessam com a dimensão religiosa; há umas direitas que, face à crise de Europa, procuraram soluções no tempo (indo às raízes mais profundas do Velho Continente) e há umas direitas que procuraram estas soluções no espaço (olhando além-Atlântico). Face a esta diversidade – aqui só sumariamente esboçada – utilizar o termo Direita no singular vicia a análise logo a partida, pressupondo que há uma tradição única a partir da qual é possível traçar um ‘fil rouge’ determinístico. O livro quis evitar este determinismo e apostar muito mais na diversidade que resulta sempre mais fecunda quando se pretende realçar as características profundas de determinados fenómenos para avaliar quanto e como estas características permaneceram ao longo do tempo.
A associação das direitas ao Estado Novo ainda subsiste?
Não há dúvida que afirmar-se de direita em Portugal leva o próprio interlocutor a associar imediatamente esta posição com conceitos como salazarista, autoritário, de duvidoso ‘pedigree’ democrático. É um reflexo natural vista a relativa proximidade histórica do regime autoritário. Contudo, diria que, nos últimos anos, o fenómeno mais interessante é a associação constante das direitas não tanto ao Estado Novo mas sim ao neoliberalismo. O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas. Os dois conceitos tornaram-se praticamente sinónimos: direita é neoliberalismo.
Isso faz algum sentido?
Estes géneros de associações mais que “fazer ou não fazer sentido”, são pouco úteis para a análise científica porque os conceitos, usados e abusados na polémica política, acabam por perder a sua capacidade heurística. O termo “neoliberal” sofreu esta degradação. Na área governamental da democracia portuguesa, as direitas são acusadas de ter traído as respectivas matrizes social-democrata e democrata-cristã para se tornarem neoliberais; as esquerdas são acusadas de ter traído a matriz socialista para actuar políticas neoliberais e de estar prestes a traí-la novamente para fazer mais do mesmo; as esquerdas radicais tentadas de aproximações aos socialistas são acusadas de desvios neoliberais; o FMI é neoliberal, a União Europeia é neoliberal. Mário Soares, que fez entrar o FMI em Portugal em 1977 e Portugal na CEE em 1986, é o paladino do anti-neoliberalismo. Quando com um rótulo se pretende explicar tudo, arrisca-se a não explicar nada.
O que também aconteceu com a associação ao Estado Novo...
A associação entre Direitas e Estado Novo sofreu do mesmo limite: de instrumento útil para perceber parte da cultura política das direitas na democracia portuguesa, tornou-se muitas vezes uma perspectiva incapacitante, inadequada para se compreender em profundidade outras matrizes ideológicas, outros percursos, outras estratégias presentes nas direitas a partir de 1974 e que determinaram a sua evolução muito mais que o legado estadonovista.
Não acha que a associação das direitas aos “fascismos” é um ataque fácil das esquerdas?
Associar as direitas actuais aos fascismos dos anos 30 é um ataque tão fácil como associar as esquerdas actuais aos regimes comunistas pré-1989. É tão fácil que até se tornou banal, pouco útil, sem sentido de tal forma que, mesmo na polémica política mais simplista, já não é tão comum que um actor político das direitas seja apelidado de “fascista”, exactamente porque sendo genuinamente outra coisa, quer em termos de doutrina, quer em termos de ‘praxis’, nada resulta mais fácil para o visado que refutar esta acusação com as mais veementes atestações de antifascismo. Eu não falaria de um “ataque fácil” das esquerdas às direitas através do rótulo de “fascista”, mas destacaria, pelo contrário, um fenómeno diferente: as esquerdas à esquerda dos socialistas perceberam há muito a inutilidade da acusação de fascismo dirigida à direita e escolheram outros rótulos como o já referido “neoliberal”, apesar de a carga simbólica ser claramente menos pesada. A partir dos socialistas para a direita, pelo contrário, não me parece que haja uma corrida à atribuição de rótulos difamantes para levar ataques fáceis. Parece-me, ao invés, que há uma proliferação de atribuições mútuas de patentes democráticas, para sublinhar a legitimidade na alternância ao poder face aos perigos provenientes dos sectores julgados alheios ao arco democrático: assim, na esquerda temos uma distinção entre a “esquerda democrática” e as outras (radicais, comunistas); na direita temos uma distinção entre a “direita democrática” e a outras (extremas, populistas). Os “democráticos” de direita e de esquerda legitimam-se mutuamente face aos “outros”: esta evidência portuguesa está perfeitamente integrada no panorama da política europeia. Permita-me concluir com uma nota: não deixa de ser interessante a preocupação subjacente à sua pergunta acerca do “ataque fácil” sofrido pela direita actual através do rótulo de “fascista”. Nos anos 30, o ataque fácil – e insuportável – para um fascista era o ser acusado de não passar de “um homem de direita”.
Qual o futuro das direitas em Portugal?
Quanto mais estudamos a polimorfia das direitas na História portuguesa, mais nos damos conta do processo de homogeneização e conformismo ao pensamento dominante que sofreram nos últimos anos. Nada leva a crer que este processo seja destinado a reverter no curto prazo, o que não implica entraves para a gestão do Poder. Muito pelo contrário.
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| Riccardo Marchi, Fátima Bonifácio e Rui Ramos no colóquio "As raízes profundas não gelam?", em 2010 |
Qual foi o objectivo do colóquio que deu origem a este livro?
Quando em 2005 iniciei as minhas investigações de doutoramento acerca das direitas radicais no fim do Estado Novo – tese publicada nos dois livros “Folhas Ultras” (ICS, 2009) e “Império Nação Revolução” (Leya, 2009) –, senti a falta, na minha revisão bibliográfica, de obras de conjunto sobre o tema das direitas em Portugal que pudessem servir-me para enquadrar o meu objecto de estudo. Este género de bibliografia já está presente, há anos, nos outros países da Europa Ocidental: não falo apenas de trabalhos seminais como “La Droite en France”, de René Remond (1954), mas de uma grande variedade de análises historiográficas e politológicas de conjuntos que foram publicadas ao longo dos anos nos diferentes países sobre os percursos das direitas autóctones, sobre as suas diferentes matrizes doutrinárias, as suas evoluções, as estratégias, as convergências, as divergências, os legados que deixaram nos actores políticos que ocupam actualmente este espaço político.
Em Portugal não havia tais trabalhos?
Em Portugal havia muito e bom trabalho já feito sobre a primeira metade do século XX, inclusive o Estado Novo, menos sobre a segunda metade do século passado. Mas sobretudo faltava – e falta – uma reflexão diacrónica sobre as direitas portuguesas na contemporaneidade. Uma obra deste género é assaz complexa a fruto de muitos anos de investigação e reflexão madura, razão pela qual, quando em 2010 iniciei este projecto editorial, o meu intuito era mais limitado: reunir alguns colegas com trabalho sólido sobre diferentes experiências das direitas portuguesas desde o miguelismo até aos nosso dias para propor uma série de reflexões que contribuam à análise de longo período das direitas em Portugal. Como é óbvio e como é costume dizer-se nestas circunstâncias, não se trata de por uma palavra fim à investigação sobre este tema, mas de participar ao debate historiográfico – segundo Rui Ramos ainda incipiente – sobre as direitas em Portugal.
Ao falar de direitas significa que não há uma direita?Sem dúvida. A existência de direitas plurais, muito diferentes entre elas é um dado empírico. Há umas direitas contra-revolucionárias e umas direitas herdeiras das revoluções dos século XVIII e XIX, umas direitas monárquicas e umas direitas republicanas, há umas direitas profundamente influenciadas pelas revoluções nacionais dos anos 20 e 30 do século XX e umas direitas que se opuseram determinantemente aos fascismos; há umas direitas católicas anti-conciliares e uma direitas laicas que pouco se interessam com a dimensão religiosa; há umas direitas que, face à crise de Europa, procuraram soluções no tempo (indo às raízes mais profundas do Velho Continente) e há umas direitas que procuraram estas soluções no espaço (olhando além-Atlântico). Face a esta diversidade – aqui só sumariamente esboçada – utilizar o termo Direita no singular vicia a análise logo a partida, pressupondo que há uma tradição única a partir da qual é possível traçar um ‘fil rouge’ determinístico. O livro quis evitar este determinismo e apostar muito mais na diversidade que resulta sempre mais fecunda quando se pretende realçar as características profundas de determinados fenómenos para avaliar quanto e como estas características permaneceram ao longo do tempo.
A associação das direitas ao Estado Novo ainda subsiste?
Não há dúvida que afirmar-se de direita em Portugal leva o próprio interlocutor a associar imediatamente esta posição com conceitos como salazarista, autoritário, de duvidoso ‘pedigree’ democrático. É um reflexo natural vista a relativa proximidade histórica do regime autoritário. Contudo, diria que, nos últimos anos, o fenómeno mais interessante é a associação constante das direitas não tanto ao Estado Novo mas sim ao neoliberalismo. O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas. Os dois conceitos tornaram-se praticamente sinónimos: direita é neoliberalismo.
Isso faz algum sentido?
Estes géneros de associações mais que “fazer ou não fazer sentido”, são pouco úteis para a análise científica porque os conceitos, usados e abusados na polémica política, acabam por perder a sua capacidade heurística. O termo “neoliberal” sofreu esta degradação. Na área governamental da democracia portuguesa, as direitas são acusadas de ter traído as respectivas matrizes social-democrata e democrata-cristã para se tornarem neoliberais; as esquerdas são acusadas de ter traído a matriz socialista para actuar políticas neoliberais e de estar prestes a traí-la novamente para fazer mais do mesmo; as esquerdas radicais tentadas de aproximações aos socialistas são acusadas de desvios neoliberais; o FMI é neoliberal, a União Europeia é neoliberal. Mário Soares, que fez entrar o FMI em Portugal em 1977 e Portugal na CEE em 1986, é o paladino do anti-neoliberalismo. Quando com um rótulo se pretende explicar tudo, arrisca-se a não explicar nada.
O que também aconteceu com a associação ao Estado Novo...
A associação entre Direitas e Estado Novo sofreu do mesmo limite: de instrumento útil para perceber parte da cultura política das direitas na democracia portuguesa, tornou-se muitas vezes uma perspectiva incapacitante, inadequada para se compreender em profundidade outras matrizes ideológicas, outros percursos, outras estratégias presentes nas direitas a partir de 1974 e que determinaram a sua evolução muito mais que o legado estadonovista.
Não acha que a associação das direitas aos “fascismos” é um ataque fácil das esquerdas?
Associar as direitas actuais aos fascismos dos anos 30 é um ataque tão fácil como associar as esquerdas actuais aos regimes comunistas pré-1989. É tão fácil que até se tornou banal, pouco útil, sem sentido de tal forma que, mesmo na polémica política mais simplista, já não é tão comum que um actor político das direitas seja apelidado de “fascista”, exactamente porque sendo genuinamente outra coisa, quer em termos de doutrina, quer em termos de ‘praxis’, nada resulta mais fácil para o visado que refutar esta acusação com as mais veementes atestações de antifascismo. Eu não falaria de um “ataque fácil” das esquerdas às direitas através do rótulo de “fascista”, mas destacaria, pelo contrário, um fenómeno diferente: as esquerdas à esquerda dos socialistas perceberam há muito a inutilidade da acusação de fascismo dirigida à direita e escolheram outros rótulos como o já referido “neoliberal”, apesar de a carga simbólica ser claramente menos pesada. A partir dos socialistas para a direita, pelo contrário, não me parece que haja uma corrida à atribuição de rótulos difamantes para levar ataques fáceis. Parece-me, ao invés, que há uma proliferação de atribuições mútuas de patentes democráticas, para sublinhar a legitimidade na alternância ao poder face aos perigos provenientes dos sectores julgados alheios ao arco democrático: assim, na esquerda temos uma distinção entre a “esquerda democrática” e as outras (radicais, comunistas); na direita temos uma distinção entre a “direita democrática” e a outras (extremas, populistas). Os “democráticos” de direita e de esquerda legitimam-se mutuamente face aos “outros”: esta evidência portuguesa está perfeitamente integrada no panorama da política europeia. Permita-me concluir com uma nota: não deixa de ser interessante a preocupação subjacente à sua pergunta acerca do “ataque fácil” sofrido pela direita actual através do rótulo de “fascista”. Nos anos 30, o ataque fácil – e insuportável – para um fascista era o ser acusado de não passar de “um homem de direita”.
Qual o futuro das direitas em Portugal?
Quanto mais estudamos a polimorfia das direitas na História portuguesa, mais nos damos conta do processo de homogeneização e conformismo ao pensamento dominante que sofreram nos últimos anos. Nada leva a crer que este processo seja destinado a reverter no curto prazo, o que não implica entraves para a gestão do Poder. Muito pelo contrário.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
O cadáver adiado do Acordo Ortográfico
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Nos 500 anos de 'O príncipe'
«Il Principe é um tratado sobre o Estado e a conquista do Estado. Um livro que, tal como o seu autor, teve a graça e a desgraça da popularidade, de ser citado e recitado por toda a gente a partir de referências em segunda mão e de fragmentos de divulgação jornalística. O longo estudo-prefácio de Pedullà tem o mérito de situar a obra no contexto e de retomar algumas das questões do 'enigma de Maquiavel': para que escreveu ele O Príncipe? Para conquistar as boas graças dos Médicis, de novo senhores de Florença? Por ter querido, como técnico ou tecnocrata da arte política, elaborar um 'espelho de príncipes' nos antípodas dos escritos pelos moralistas tardo-medievais e renascentistas; ou um panfleto patriótico, um apelo nacionalista, um discurso para libertar a Itália dos bárbaros? Entrando na polémica repúblicas-principados, terá Maquiavel pretendido defender os novos príncipes, os novos reinos unidos e centralizados pela razão de Estado, como forma de modernidade na nova Europa?
Há argumentos e contra-argumentos para todas estas interpretações. Em cinco séculos, O Príncipe, o seu autor e conjunto da sua obra deram lugar a intermináveis estudos, comentários, interpretações, rejeições. O que não deixa de ser natural, se aceitarmos que foi o 'inventor da Política'. Ou, pelo menos, da política moderna, como arte e razão do Estado, uma Política não subordinada à Religião, ou à Moral, ou ao Direito.
Com ele entramos numa terra estranha e incógnita, talvez não no 'Reino do Mal' de que fala Prezollini, mas num mundo e num submundo onde há alturas e abismos. Como tudo o que é humano, demasiado humano.
O Príncipe, na sua pedagogia asséptica e assustadora, escancara alguns desses abismos. É e será sempre, uma leitura necessária.»
Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»
Há argumentos e contra-argumentos para todas estas interpretações. Em cinco séculos, O Príncipe, o seu autor e conjunto da sua obra deram lugar a intermináveis estudos, comentários, interpretações, rejeições. O que não deixa de ser natural, se aceitarmos que foi o 'inventor da Política'. Ou, pelo menos, da política moderna, como arte e razão do Estado, uma Política não subordinada à Religião, ou à Moral, ou ao Direito.
Com ele entramos numa terra estranha e incógnita, talvez não no 'Reino do Mal' de que fala Prezollini, mas num mundo e num submundo onde há alturas e abismos. Como tudo o que é humano, demasiado humano.
O Príncipe, na sua pedagogia asséptica e assustadora, escancara alguns desses abismos. É e será sempre, uma leitura necessária.»
Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Direita?
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Dos bons e dos maus...
A linha de demarcação entre bons e maus não existe. Aquela que separa os cínicos e os manipuladores (conscientes ou inconscientes) dos que possuem, não uma pureza revolucionária (que seria a língua de pau) mas uma dignidade e uma grandeza, não é vertical. Ela não separa direita e esquerda, fascistas e comunistas. Este meridiano atravessa cada experiência política, cada zona de mobilização das energias militantes.
O problema da nossa época reside precisamente na qualidade dos homens e, por conseguinte, no trabalho sobre si próprio que esta constatação implica: um trabalho sobre si próprio que não pode ser desviado por uma caça às bruxas estéril, nem neutralizado pela estigmatização simplista de um bode expiatório.»
Gabriele Adinolfi
in "Nos belles années de plomb. La droite radicale italienne dans l'orage de la lutte armée et de l'exil" (2004).
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
A crise dos homens bons
António Marques Bessa
in «O Diabo», 29/10/2013.
domingo, 6 de outubro de 2013
Os círculos uninominais
A este propósito, escreveu Vasco Pulido Valente no «Público»: «Os círculos de um único candidato, forçosamente de maioria simples, que na gíria se chamam “uninominais”, têm tendência a criar dois grandes partidos, como sucedeu em Inglaterra, e a varrer os pequenos de cena. Com círculos desse tipo, em que uma certa “inteligência” babadamente se revê, o resultado seria reforçar o PS e o PSD e acabar com CDS, o PC e o Bloco. Não percebo o que se ganharia com o exercício. Além de que milhares de presidentes de câmara já nos mostraram como se pode corromper um concelho — pelos mesmos métodos com que amanhã se corromperá um círculo eleitoral.»
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
"Muitos inimigos, muita honra"
Na última edição do «Sol», Jaime Nogueira Pinto escreve sobre "os bons e os maus", a propósito da auto-atribuída superioridade moral da esquerda.
Diz ele: "Tenho alguma experiência dos tempos de faculdade, quando fazia parte de uma minoria resistente frente às maiorias associativas. Nessa altura de ‘muitos inimigos, muita honra’ não me incomodava e até achava estimulante. Hoje continua a não me incomodar, mas já não lhe acho tanta graça, até pela pobreza de espírito que revela.
É sabido que há causas ‘boas’ servidas por gente ‘má’ e gente ‘boa’ ao serviço de causas ‘más’, e que os nossos não são necessariamente bons nem os outros necessariamente maus. Mas alguma esquerda, por cinismo, fanatismo ou burrice (também há burros do lado de lá, graças a Deus) persiste nesta obsessão maniqueísta. Para eles, há ideias intrinsecamente perversas (todas as que não vêm na cartilha), e os que as perfilham – nacionalistas, conservadores, liberais – são inevitavelmente indivíduos tacanhos e de má rês, exploradores perversos e desumanos.
De onde vem este complexo, este demónio da rectidão da esquerda façanha? De Rousseau e da vontade geral, ou de Robespierre, o da virtude pela guilhotina? Imitam Lenine e os bolcheviques, ou Estaline e os cúmplices que exterminou? Inspiram-se nos anarquistas e comunistas espanhóis que mataram sete mil padres ou, mais recentemente, nos maoístas e Khmers Vermelhos? Toda esta gente proibiu, encarcerou, matou, massacrou, fez campos de concentração, sempre em nome de grandes e nobres princípios, da mesma compaixão e solidariedade, que, segundo agora dizem, faltavam a António Borges.
Estes intelectuais e articulistas não mataram nem matam ninguém, mas eles e os seus homólogos europeus foram celebrando à distância, do alto do cachimbo e da eterna camisa à pescador, essas grandes vitórias da humanidade.
Só discordo de João Miguel Tavares quando diz que tudo isto é falta de democracia: os ‘democratas’ portugueses sempre entenderam, desde a Primeira República, a democracia como o governo dos democratas. E democratas, para eles, são eles, os antifascistas. Só eles e mais nenhuns."
Diz ele: "Tenho alguma experiência dos tempos de faculdade, quando fazia parte de uma minoria resistente frente às maiorias associativas. Nessa altura de ‘muitos inimigos, muita honra’ não me incomodava e até achava estimulante. Hoje continua a não me incomodar, mas já não lhe acho tanta graça, até pela pobreza de espírito que revela.
É sabido que há causas ‘boas’ servidas por gente ‘má’ e gente ‘boa’ ao serviço de causas ‘más’, e que os nossos não são necessariamente bons nem os outros necessariamente maus. Mas alguma esquerda, por cinismo, fanatismo ou burrice (também há burros do lado de lá, graças a Deus) persiste nesta obsessão maniqueísta. Para eles, há ideias intrinsecamente perversas (todas as que não vêm na cartilha), e os que as perfilham – nacionalistas, conservadores, liberais – são inevitavelmente indivíduos tacanhos e de má rês, exploradores perversos e desumanos.
De onde vem este complexo, este demónio da rectidão da esquerda façanha? De Rousseau e da vontade geral, ou de Robespierre, o da virtude pela guilhotina? Imitam Lenine e os bolcheviques, ou Estaline e os cúmplices que exterminou? Inspiram-se nos anarquistas e comunistas espanhóis que mataram sete mil padres ou, mais recentemente, nos maoístas e Khmers Vermelhos? Toda esta gente proibiu, encarcerou, matou, massacrou, fez campos de concentração, sempre em nome de grandes e nobres princípios, da mesma compaixão e solidariedade, que, segundo agora dizem, faltavam a António Borges.
Estes intelectuais e articulistas não mataram nem matam ninguém, mas eles e os seus homólogos europeus foram celebrando à distância, do alto do cachimbo e da eterna camisa à pescador, essas grandes vitórias da humanidade.
Só discordo de João Miguel Tavares quando diz que tudo isto é falta de democracia: os ‘democratas’ portugueses sempre entenderam, desde a Primeira República, a democracia como o governo dos democratas. E democratas, para eles, são eles, os antifascistas. Só eles e mais nenhuns."
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
A insuportável arrogância da esquerda
O título deste post é o do artigo de M. Fátima Bonifácio, publicado na edição de hoje do «Público». Escrito a propósito das reacções da esquerda à morte de António Borges, caracteriza muito bem os "donos da verdade" cá do burgo. Segundo esta historiadora, "a Esquerda sempre teve dois pesos e duas medidas. Um dos postulados capitais, basilares do comunismo sempre foi, e continua a ser, o de que a moral deles é diferente e superior à dos outros. Defendem os pobrezinhos, pugnam pela igualdade dos homens, prometem construir sociedades em que cada um receba o que precisa independentemente do que merece, almejam a felicidade e o bem-estar universais. O Bem está do lado deles. Por isso mesmo — e atente-se na perversão contida neste (aparente) paradoxo — podem perpetrar o Mal à vontade, sem limites nem escrúpulos de qualquer ordem. Trotski, como aliás Lenine e sobretudo Estaline, foram explícitos a este respeito: os comunistas podem sequestrar crianças, matar pais e filhos e avós, dizimar populações inteiras à custa de fomes deliberadamente provocadas, prender, torturar, executar e deportar milhões de pessoas, perseguir ciganos, judeus e homossexuais, sem que por isso percam uns minutos a vasculhar qualquer culpa albergada nalguma prega recôndita da sua massa encefálica, ou sem que ao menos lhes ocorra proceder a um exame, ainda que perfunctório, das suas consciências. Sempre estiveram e continuam perfeitamente tranquilas, apesar dos crimes inqualificáveis que cometeram. Sempre me repugnou a condescendência generalizada — sim, generalizada à esquerda e à direita — de que os comunistas beneficiam e sempre beneficiaram".
Por isso, no nosso país, o comportamento não é diferente. M. Fátima Bonifácio escreve: "Nunca os comunistas portugueses admitiram qualquer erro ou crime e ainda menos qualquer culpa. Nunca se demarcaram do estalinismo — nunca fizeram a mais leve autocrítica — e, para meu espanto e de muitas pessoas, acham-se os verdadeiros democratas e lutadores pela liberdade. Esta arrogância moral brada aos céus."
E o Bloco de Esquerda? Diz a historiadora que não se detém "no Bloco para não gastar espaço com minudências". Aliás, porque a "Esquerda socialista e não alinhada não renega as suas remotas origens, como um filho não renega um pai alcoólico ou ladrão".
Por isso, no nosso país, o comportamento não é diferente. M. Fátima Bonifácio escreve: "Nunca os comunistas portugueses admitiram qualquer erro ou crime e ainda menos qualquer culpa. Nunca se demarcaram do estalinismo — nunca fizeram a mais leve autocrítica — e, para meu espanto e de muitas pessoas, acham-se os verdadeiros democratas e lutadores pela liberdade. Esta arrogância moral brada aos céus."
E o Bloco de Esquerda? Diz a historiadora que não se detém "no Bloco para não gastar espaço com minudências". Aliás, porque a "Esquerda socialista e não alinhada não renega as suas remotas origens, como um filho não renega um pai alcoólico ou ladrão".
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
O “antifascismo”
Perante a actual crise política, Passos Coelho insistiu na convergência dos partidos declarando: “Quero apenas reafirmar que o país precisa muito de um espírito de união e de união entre todos os portugueses e de uma união nacional”.Sempre alerta como um cão de fila, a coordenadora do Bloco de Esquerda classificou prontamente a utilização da expressão “união nacional” como uma “barbaridade”, questionando se Passos Coelho é “inculto” ou se o partido único do Estado Novo é a sua “única referência política”. Os “antifascistas” adoram palavras proibidas e a eterna vigilância...
Jaime Nogueira Pinto definiu-os bem, escrevendo recentemente: “Os antifascistas de serviço – desde os veneráveis vultos do reviralho, obcecados em dizer e fazer tudo ao contrário do que Salazar diria e faria, aos bloquistas que repetem as enormidades da vulgata leninista – querem aproveitar a guerra psicadélica entre a coligação e o Presidente, para se escapulirem e passarem as culpas. Fazem de conta que os pecados e a crise começaram agora e que eles aí estão com receitas infalíveis para a cura. Por isso convém lembrar que esta gente foi a que fez a descolonização e as nacionalizações de qualquer maneira, quem manteve uma constituição socialista até tarde e quem semeou e impôs constitucionalmente os clichés ideológicos que bloqueiam a política, a economia, a sociedade.”
De facto, na sua classificação maniqueísta da política, sentem-se os representantes do “bem” contra o “mal”. Este último, é um verdadeiro poço sem fundo onde cabe tudo o que lhes interessa. Pior, do dito “fascismo” à “direita” é para eles um passo. A confusão ideológica é uma das suas velhas armas.
Acontece que nesta sua teimosia apenas beneficiam o sistema que afirmam combater. Como disse Julien Freund, “as sentinelas do antifascismo são a doença da Europa decadente”.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
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