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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Depoimento

Se penso em mim por um bocado
E me pergunto quem sou eu,
Sobre mim mesmo debruçado
Sou um poeta que morreu.


Venho do mapa sem lugar
Onde a Terra é uma bola.
Atiro aos outros um olhar
Como quem dá mais uma esmola!


Quanto ao mundo - um ermitério.
Quanto à morte - a minha vida.
Caminho para o mistério
(Para a flor não colhida).




A negra calma difusa,
Eu quero a Noite mais noite,
Mais noite a Noite do Campo!
(-Nem só luza
Um pirilampo!)


Tão-pouco estertor de velas.
Eu quero a Noite mais a noite.
Mais noite no Firmamento!
(-Apague as estrelas
Um sopro do vento!)


Nem longe luz de luzeiros.
Eu quero a Noite mais noite,
Mais noite a noite na Rua!
(-Nem candeeiros,
Nem lua!)


Noite silente! - nem um balbuceio...
Noite de luto! - nem um bruxuleio...


Nem do ao longe uma canção,
Nem um fósforo se afoite!
-Perca-me eu, na Escuridão...
Perca-se a noite, na Noite!...

Rodrigo Emílio
in "Primeira Colheita (1957-1972)", Editora Pax (1973).

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa
in "Mensagem" (1934).

terça-feira, 15 de junho de 2010

Soneto agudizante de despedida

Morreu por não saber vestir a pele
De português perdido à beira-mar
Morreu! E até parece que com ele
Vai toda a poesia a enterrar

Morreu por não haver já quem anele
Os gestos de uma gesta secular
Morreu! Para que a Pátria Exausta o vele
Mais do que as rosas velhas a murchar

Assim o centenário sem proveito
Da funda e falsa fé republicana
Não lhe irá macerar o nobre peito

O seu legado é obra sobre-humana
E o nome um decassílabo perfeito:
António Manuel Couto Viana.

Bruno Oliveira Santos
(10.06.2010)

in «O Diabo».

terça-feira, 4 de maio de 2010

Um soneto

A minha cara amiga M., com quem não tenho conseguido almoçar – vai ser impossível pôr a conversa em dia... –, tem o saudável hábito de enviar poesia por correio electrónico a uma lista de destinatários na qual me incluiu. Hoje, pela tarde, enviou um belíssimo soneto do nosso Camões, que não resisti a partilhar.

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Luís de Camões

segunda-feira, 29 de março de 2010

Para o Rodrigo


Ontem passaram seis anos da partida do Rodrigo Emílio (18/2/1944 — 28/3/2004) e hoje lembrei-me que em tempos lhe dediquei um poema, porque ele estará sempre connosco.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Assassinado

Robert Brasillach (31/3/1909 - 6/2/1945)

No aniversário do assassinato deste escritor, poeta, jornalista, crítico de cinema, que é uma das referências inultrapassáveis, lembrei-me que aqui publiquei a tradução do seu poema Mon pays me fait mal, no primeiro ano de vida desta casa. A reler e reter.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Indispensável

Nuno Rogeiro fala da "Antologia Poética de Rodrigo Emílio" na última edição da revista «Sábado». Diz que o Rodrigo, "como não se sabe, foi um grande poeta do pequeno Portugal." Refere a editora e o prefácio "subtil e completo" de António Manuel Couto Viana, para terminar assim: "Dizer indispensável é dizer pouco." É de louvar.

Mas há um reparo a fazer; um "pormaior"... Nesta nota, "esquece" o Bruno Oliveira Santos. E não se percebe porquê, já que seria indispensável referir quem organizou a antologia e fez a introdução.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Rodrigo Emílio em antologia


Uma óptima novidade que sairá mesmo a tempo do Natal é a "Antologia poética Rodrigo Emílio", com organização e introdução de Bruno Oliveira Santos e prefácio de António Manuel Couto Viana, publicada pela Areias do Tempo. O livro tem 294 páginas e o preço de € 10, podendo os pedidos ser feitos através do endereço de correio electrónico: areiasdotempo@gmail.com.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

The Hollow Men

Mistah Kurtz—he dead.

A penny for the Old Guy


I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II

Eyes I dare not meet in dreams
In death’s dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind’s singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death’s dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat’s coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer—

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man’s hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death’s other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death’s twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o’clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


T. S. Elliot (1925).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Gesta perdida

Os meus trezentos soldados
Mortos ficaram por terra;
Não tenho armas nem cavalos,
Volto ferido da guerra.
Que é da rosa branca,
que me fora prometida?
Filha do Rei, que é da rosa
Que me fora prometida?
Quero encharcá-la no sangue
Que jorra da minha ferida.
Aquela rosa, tão branca,
Ficará rosa vermelha.
Julgando beijar teus lábios,
Hei-de beijá-la de rastros,
Como se beija a bandeira.
Sonhei com a rosa branca
Nos rubros campos da guerra.
Mas os meus bravos soldados
Mortos ficaram por terra,
Minha espada espedaçaram,
Vieram lanças em riste
E feriram-me no peito
(Não mais do que me feriste!)
Agora volto sem sonhos,
Derrotado, só e triste...

Mas a rosa, rosa branca,
Murcha ficou em meus dedos,
Rosa esfolhada e sem vida.
Ai, antes a tua rosa
Me não fosse prometida!

(1945)

António Manuel Couto Viana
in “O Poeta pela mão: Primeiros versos”, 1999.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Apelo

Poetas
que ides cantando
um sonho de caravelas,
um velho sonho passado
e estafado
com nuvens, luas, estrelas;
Deixai o adeus e a saudade
e esse ficar
aí, de braços cruzados,
a recordar:

— “Conquista, Índias, mistérios...
Tudo se foi.
Só nos resta chorar idos Impérios.
Como isto dói!”

Poetas,
fatal engano:
Se o que foi já não é,
temos ainda os mesmos braços
e a mesma fé.
À nossa volta há tanto para fazer,
tanto mundo a construir...
E vós, a ver!
Que triste Alcácer-Quibir!

Irmãos:
Parai um momento a cantar
quimeras, sonhos vãos,
e ide lançar,
pelas vossas próprias mãos,
um barco ao mar!


António Manuel Couto Viana
in “O Poeta pela mão: Primeiros versos”, 1999.

sábado, 17 de maio de 2008

Discurso

Quando a dor e o horror vão atingir o cúmulo
Do horror e da dor, antes do sangue e dos destroços,
Quero ir a Covadonga violar o meu túmulo
E a Alcácer-Quibir exumar os meus ossos.

Quero trazer-me nas mãos alucinadas,
Ou mais, no coração,
Eu que só soube combater no tempo das espadas
Pelo rei Pelaio e pelo rei Sebastião.

E unido de novo ao que fui de vitória
E derrota sem medo, além de mim, além-mar,
Ser reduto da cruz na agonia da História
E morrer devagar!

António Manuel Couto Viana
in “Nado Nada”, 1977.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

De novo regressamos à aventura

De novo regressamos à aventura
de descobrir em nós rumos antigos,
de novo a alvorada tem o ritmo
de cânticos guerreiros antigos.

Alerta, os olhos fitos na paisagem,
avançamos... Como o comando
fosse ditado pelo sangue dos nossos avós.

Que força essa que nos faz partir?!
Que força essa que vai dentro de nós?!
E como sempre vamos.

E como sempre iremos
nos longes oceanos
nos mares-meninos-medos,
nos ventos-tempestades.

Que monstros são arremedos,
E povos são vontades.

João Conde Veiga
in «Vestiram-se os Poetas de Soldados», Cidadela (1973).

sábado, 29 de março de 2008

Rodrigo Emílio: poeta-soldado


Perpassa uma onda em terra,
Ombros a onda nos traz.
E a Raça em flor se descerra
— Que esta paz chama-se guerra,
Chama-se guerra esta paz.

Céu d'armas — ao sol soldado.
Dia crente. Ar, Terra e Mar.
Em parada ondulatória.
— E o passado no Presente
A passar
Na nossa História!
..........................................................
Ombros em onda. Ondas pardas.
Ronda de fardas e fardas.
Corpo de guerra, em renovo!
Fulgurações marciais
De espingardas.
Sobre Terra, vibram cardas:
— impressões digitais
de todo um Povo!

Ó armas e barões assinalados,
Em resplendor recortados
Sob um céu azul castor!
— Surtos de todos os lados,
no horizonte abrasador,
Soldados ao Sol dados.
Soldados, Senhor!
..........................................................

Rodrigo Emílio
in «Vestiram-se os Poetas de Soldados», Cidadela (1973).

sexta-feira, 28 de março de 2008

Sempre connosco

Para o Rodrigo

Alto na sua torre
Está o poeta, soldado
Que nunca morre.

Com pensamentos mil
Sobre um país, desabado
Num mês de Abril.

Mas é mais forte
O seu sonho desfraldado,
Que a fria morte.

Em nós vive agora.
Viverá sempre, celebrado
Depois da nossa hora.


18 de Fevereiro de 1944 — 28 de Março de 2004

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Epigrama Muito Sentido

Para o Carlos Cunha
também exilado longe…

Sou peixe do meu regato
de grandes rios não sou.
Sou peixe de águas livres
e deixo aos peixes vermelhos
os cristais dum aquário.

Sou peixe que gosta de águas
puras, clamas, cristalinas.
Deixo, pois, aos outros peixes
os grandes rios que são
a foz dos grandes destinos.

Do meu, não. Quero-me
assim, ledo e feliz,
na liberdade conseguida
dentro das águas tranquilas
de um regato de província,
onde as crianças vão brincar,
onde também vão beber
homens e bichos da Terra,
criaturas como eu
com ânsias de liberdade.

Sou peixe do meu regato
dos grandes rios não sou.
quero por isso águas livres
deixando aos peixes vermelhos
as delícias do aquário.

S. Paulo – 8.1.75

Amândio César
in «País em Fuga», Edições a Rua (1977).

terça-feira, 25 de julho de 2006

Para hoje

Para o Rodrigo Emílio

É preciso ficar aqui, entre os destroços,
E cinzelar a pedra e recompor a flor.
É preciso lançar no vazio dos ossos
A semente do amor.

É preciso ficar aqui, entre os caídos,
E desmontar o medo e construir o pão.
É preciso expulsar dos cegos dias idos
A insónia da prisão.

É preciso ficar aqui, entre os escombros,
E libertar a pomba e partilhar a luz.
É preciso arrastar, pausa a pausa, nos ombros,
A ascensão de uma cruz.

É preciso ficar aqui, entre as ruínas,
E aferir a balança e tecer linho e lã.
É preciso o jardim a envolver as oficinas:
É preciso amanhã.

António Manuel Couto Viana
in “Nado Nada”, 1977.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

“Matando a Sede nas Fontes de Fátima”

Finalmente tenho em mãos o recém-publicado “Matando a Sede nas Fontes de Fátima”, de que falei aqui no início da semana. Numa óptima edição da Antília, com uma capa com um excelente grafismo, a colectânea de poemas é precedida de um elóquio de António Manuel Couto Viana e encerrada com um posfácio de Silva Resende, que considera que “desde Moreira das Neves que nenhum outro escritor baptizava com tão filial delicadeza as suas musas na água lustral de Fátima”. Um livro formidável, onde a magistral poesia de Rodrigo Emílio é marcada pelo sentimento e pela espiritualidade. Dessas páginas devotas retiro um poema que tive já oportunidade de ouvir várias vezes cantado por José Campos e Sousa:

LITANIA POLONESA

Muito para o Zé Campos e Sousa — que consagrou musicalmente esta “Polonesa”, submetendo-a aos cuidados e à magia da sua voz de trovador d’império e ao seu talento de compositor.

Presos vão…, mas ‘stão de pé!
Dando as mãos — chegam e sobram!
(— Por quem é
que os sinos dobram?
Por quem é
que os sinos dobram?...)

Espaldados pela fé,
‘stão de pé — e não soçobram!
(— Por quem é
que os sinos dobram?
Por quem é
que os sinos dobram?...)

Frente ao mar, no interior,
nos estaleiros
navais,
nas minas,
reina o Horror:
é ano e senhor;
paira o Pavor
sobre ruínas.

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!


Os ecos dos tchecos,
quem é que os apaga?...
— Gipões soviéticos
irrompem em Praga.

…Já antes, já antes
— em lôbrego dia —
à força de tanques
se esmaga a Hungria.

— E o muro gelado,
d’arame farpado,
que corta Berlim?!...

— E o eco do brado
sem fim abafado
no ensopado
e ensanguentado
chão de Katyn?...

Foi tudo gelado
assim… Sempre assim!

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!


Soma e segue a multidão
dos que, à invasão de russos,
não podem opor senão
mais do que uma solução
de silêncios e soluços…

E por mais
que a Providência
dê sinais
de impaciência,
o rumo traçado,
p’ra todos talhado
é um — e só um:
encontro marcado
na vala comum!

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!

Rodrigo Emílio

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Mais um livro do Rodrigo


A editora Antília continua a manter acesa a chama da obra do poeta Rodrigo Emílio. Depois de “Pequeno Presépio de Poemas de Natal”, publicado no ano passado, vai lançar agora “Matando a Sede nas Fontes de Fátima”. Mais uma iniciativa louvável para divulgar e preservar o trabalho de um autor tão injustiçado.

terça-feira, 4 de abril de 2006

a morte

a morte tem um corpo
depois de si. A sílaba final
que lhe dá a consistência
é tão corpórea que é taça
de perecimento. A morte
é uma sílaba tão delicada
que é metade e todo da palavra.
Traz em si arreganhos
e naus embriagadas,
e um éter tão éter
que um pássaro basta
para lhe dar vida.
A palavra morte é a própria morte.
É um substantivo tão profundo
que a sua face
é curso, e é vária.
Não em texto
que a descreva
— é tão egoísta e escusa
que só poucos dão por ela
ou dela se alimentam.

José Valle de Figueiredo

in «Tempo Presente» n.º 19 (Novembro de 1960).