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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Espectadores


De passagem por São Francisco, na Califórnia, não resisti a ir à City Lights Bookstore, na Columbus Avenue, uma paragem obrigatória para qualquer bibliófilo.

A livraria é famosa por ter publicado, em 1956, o livro “Howl and Other Poems”, de Allen Ginsberg, cujo principal poema foi acusado de obscenidade devido às referências sexuais, em especial homossexuais, explícitas. A polémica e o julgamento deram obviamente uma publicidade enorme ao poema, que se tornou uma das obras mais conhecidas da chamada ‘Beat Generation’.

Como seria de esperar, a City Lights é uma livraria “progressista”, para usar a designação norte-americana. Quando entrei, houve uma das máximas que estão escritas nas paredes que me chamou a atenção: “A democracia não é um desporto de espectadores”. Nem de propósito, a frase estava sobre o expositor de revistas, onde se podem encontrar publicações comunistas, anarquistas, feministas, entre outras, mas todas alinhadas à esquerda e à extrema-esquerda. De facto, a livraria não é uma mera espectadora no “desporto democrático” e rapidamente se percebe de que lado do campo está... Também devemos fazer uma visita a este local icónico sem sermos meros espectadores e questionar algumas certezas “progressistas”.

Fiquei satisfeito por encontrar à venda traduções do nosso Eça, mas gostei ainda mais de ver um livro que reúne alguns escritos de Fernando Pessoa publicado pela própria livraria. Chama-se “Always Astonished” e os editores provavelmente ficariam espantados com muitas das posições políticas de Pessoa.

Por fim, no piso superior, há uma secção de poesia onde o destaque vai naturalmente para a ‘Beat Generation’, nomeadamente para Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Também aqui encontrei um volume que reúne entrevistas do autor de “Pela Estrada Fora” e foi interessante recordar naquele local o Kerouac anti-comunista e desiludido com o que se tinha tornado a ‘Beat Generation’. De facto, não podemos ser apenas espectadores...

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sábado, 23 de maio de 2015

Ao encontro de Eudoro de Sousa


Eudoro de Sousa (Lisboa, 1911 – Brasília, 1987) foi um importante filósofo e filólogo português que infelizmente continua desconhecido ou “esquecido” em Portugal. É por isso de saudar a publicação de uma obra acessível, com coordenação de António Braz Teixeira e Renato Epifânio, que nos dá a conhecer a sua obra e o seu pensamento.

Em 2011, assinalando o centenário do nascimento de Eudoro de Sousa, o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira organizou um Colóquio Internacional dedicado ao estudo da sua obra e pensamento. Agora, a editora Zéfiro publica num volume as comunicações aí apresentadas, tornando-as acessíveis a um público mais vasto.

Tendo realizado os estudos superiores na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especializou-se em Filologia Clássica e História Antiga na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Dedicando-se, depois, à docência e à investigação académica em Portugal, em França e na Alemanha. Destaque-se a sua tradução directa do grego da “Poética” de Aristóteles, com introdução e índices, publicada em Portugal em 1951 e reeditada no Brasil em 1966.

Em 1953 chega ao Brasil, onde integra o chamado “Grupo de São Paulo”, que reúne vários intelectuais em torno da revista “Diálogo” e de Instituto Brasileiro de Filosofia. Torna-se professor em várias universidades brasileiras e é um dos fundadores da Universidade de Brasília.

A apresentação de “A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa” diz-nos que foi “companheiro e íntimo convivente intelectual de Álvaro Ribeiro, António José Brandão, Delfim Santos, José Marinho e Sant’Anna Dionísio, em Portugal, e de Agostinho da Silva, Vicente Ferreira da Silva, António Telmo e João Ferreira, no Brasil”, e que “acompanhou aqui os primeiros na oposição crítica ao positivismo, na atenção reflexiva às relações entre filosofia e filologia e na valorização da obra e da figura de Leonardo Coimbra, vindo a singularizar-se pela meditação que, desde sempre, dedicou à mitologia e à filosofia da religião”. De facto, para além de filosofo e filólogo, Eudoro de Sousa foi helenista e mitósofo.

No início do século XXI, a Imprensa Nacional Casa da Moeda publicou a totalidade da obra de Eudoro de Sousa, considerando-o “um dos nossos mais profundos e originais filósofos”. O livro agora publicado mostra que o interesse na sua obra continua e pode servir para despertar o interesse neste pensador transatlântico, fiel às suas raízes clássicas.

segunda-feira, 2 de março de 2015

On the road...


É bom voltar a Barcelona e descobrir numa livraria que não conhecia um expositor dedicado à Beat Generation.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

De passagem por Madrid

Uns dias na capital espanhola, onde revi amigos e locais de que gosto bastante, levaram-me a uma comparação inevitável com a nossa realidade.

O mar de gente que inunda as ruas do centro de Madrid para o período das festas contrasta com a concentração nos centros comerciais a que assistimos em Portugal. Mas parece que por cá há vontade de mudar. Neste Natal fui a um mercado de rua numa avenida de Lisboa, que se realizou pela primeira vez e que foi um sucesso. Uma experiência que pode trazer de volta a vida às ruas portuguesas.

Paragem obrigatória para um bibliófilo são as livrarias e foi com muito agrado que notei que na maior parte delas o nosso Fernando Pessoa está em destaque, nomeadamente o seu “Livro do Desassossego”.

Desta vez consegui ir a duas livrarias que não conhecia, uma no centro e outra num bairro residencial, um pouco mais afastado. Ambas tinham em comum uma larga oferta internacional e o que foi para mim uma agradável surpresa. Nos livros estrangeiros vendidos, a maior secção era naturalmente para os anglo-saxónicos, seguiam-se os alemães, os franceses e os italianos, para encontrarmos uma parte dedicada aos livros em português. Interroguei-me se haveria mercado para obras escritas na Língua de Camões em terras de Espanha, mas a resposta estava naquelas prateleiras...

Tenho um amigo que diz que se pode avaliar o estado da cultura de um país pelas suas livrarias. É uma generalização, claro, mas não deixa de ser certeira. No entanto, a presença de Portugal em livrarias espanholas, ainda que especializadas, recorda-nos que não somos tão insignificantes para os nossos vizinhos como alguns querem fazer parecer e que a cultura representa uma frente muito importante na nossa afirmação no estrangeiro.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O último refúgio do homem livre


A defesa dos livros e da leitura como forma de estruturar o nosso pensamento, tão necessária na era do imediatismo, é por muitos criticada com o falso argumento da inevitável mudança provocada pela tecnologia.

Para os eternos crentes na técnica, o livro em papel tem os dias contados e em breve será substituído por suportes digitais cada vez mais avançados e em permanente alteração. Convém recordar que semelhante vaticínio nada tem de novo e que, historicamente, falhou pura e simplesmente. Dos vários exemplos a apontar, pensemos nos que garantiam que a fotografia iria matar a pintura, naqueles que viam no cinema o substituto do teatro, ou nos que previam com certeza o fim da rádio com o advento da “caixa que mudou mundo”. Recentemente, os mesmos também vêem na Internet o fim da televisão e não só. Obviamente que as formas de comunicação e expressão se adaptam, mas um novo meio não dita necessariamente o desaparecimento de outros.

Naturalmente que um livro não é bom só por si. Basta entrar numa livraria para se ver a quantidade de lixo que é publicado hoje. No entanto, a leitura de um livro, para além do contacto com o objecto, é um processo completo, que demora tempo e pode ser faseado. Algo que contrasta com este tempo em que a informação se quer instantânea e descartável.

A este propósito, numa entrevista recente, o filósofo francês Alain de Benoist afirmou que “o maior risco para o homem de hoje é adoptar um comportamento tecnomorfo que asfixia pouco a pouco aquilo que nele há de propriamente humano”. Assim, podemos questionar se, nesta era dita digital, o livro será o último refúgio do homem livre. Não será o único e muito provavelmente não será o último, mas é um óptimo refúgio, acessível e necessário.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O fim da nossa Idade


O "Ensaio sobre o fim da nossa Idade", publicado em 1978, foi o primeiro livro do meu caro Amigo António Marques Bessa que li, ainda na adolescência, e que muito me marcou. É por isso que me congratulo com a nova edição actualizada, agora publicada pela Causa das Regras. Um excelente livro que a todos aconselho.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Sociedade da desinformação

Os tempos em que vivemos são amiúde considerados pelos bem-pensantes como a “era da informação”. Infelizmente, esta designação pomposa está longe de corresponder à realidade.

A Internet mudou consideravelmente o panorama, como a televisão o havia feito décadas atrás, mas este acesso generalizado a uma multiplicidade de conteúdos não significou necessariamente uma elevação cultural da população. Muito pelo contrário. A vaga digital trouxe muitas vantagens de comunicação, mas agravou o imediatismo. Não é por acaso que por tantas vezes ouçamos a expressão “vi na Internet”. De facto, o verbo utilizado está correcto, dado que se “viu” mas não se “leu”. Assim, há uma falha natural na compreensão à qual acresce a dificuldade inerente à velocidade estonteante a que tudo se passa. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma simplificação da linguagem. Não me refiro apenas à escrita abreviada, que dispensa acentuação e aceita erros ortográficos, mas a uma redução brutal do vocabulário utilizado.

Este processo de embrutecimento em curso é ainda mais chocante porque coincide com uma época onde, perante a extraordinária facilidade de acesso a tanta informação valiosa, a maioria continua a preferir – bem conduzia a tal, claro está – conteúdos em linha ou televisionados que representam o que de mais baixo há na sociedade.

Para além do prazer de surfar as ondas digitais da Internet está um oceano de conhecimento no qual é necessário mergulhar. Esta viagem às profundezas do saber constitui um crescimento interior, uma formação no sentido literal do termo.

Este é um caminho que apenas pode ser feito pela leitura de livros, pela sua selecção, pela construção de uma biblioteca pessoal que reflicta todo o trabalho estrutural de edificação interior.

Apenas pela leitura, pelo conhecimento e pela reflexão conseguiremos resistir à ditadura mediática e à imposição da mediocridade que nos torna prisioneiros da fraqueza. Sem livros nunca seremos livres.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 25 de novembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A História em frases feitas

“O livro de citações é dos géneros literários mais antigos”, diz-nos o autor de “500 frases que mudaram a nossa História”, um livro muito útil que nos recorda frases bem conhecidas, explicando-as e enquadrando-as historicamente, bem como algumas mal atribuídas, desfazendo enganos.

João Ferreira é jornalista e historiador, o que o torna um excelente autor de obras de História divulgativa, como “Histórias Rocambolescas da História de Portugal”, “Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo”, ou “Frases Que Fizeram a História de Portugal”, em co-autoria com Ferreira Fernandes. Este é um género habitualmente menosprezado pelos auto-proclamados “especialistas”, mas o seu sucesso editorial prova que contribui bastante para satisfazer a curiosidade histórica do público em geral. A História divulgativa baseia-se na investigação académica e é um género fundamentado, que se dirige a um leque mais abrangente de leitores. Como afirmou João Ferreira em entrevista a O DIABO: “Quando estou a preparar estes livros de História divulgativa uso o resultado de muitos trabalhos feitos por investigadores universitários que trazem perspectivas originais sobre a História e que servem de matéria-prima para a divulgação.”

O aspecto mais curioso desta obra é o capítulo “Afinal, quem disse isto?”, dedicado às falsas citações ou frases mal atribuídas. Dos vários casos, há exemplo de um bem conhecido e português: “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.” A frase é geralmente atribuída ao futuro marquês de Pombal, perante a destruição de Lisboa pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. No entanto, o autor explica que, quando o rei D. José perguntou ao seu núcleo de conselheiros o que fazer perante tamanha devastação, a resposta – segundo o historiador Veríssimo Serrão – foi-lhe dada, não por Sebastião José de Carvalho e Melo, mas por D. Pedro de Almeida, marquês de Alorna: “Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos.”

Infelizmente, a obra segue o famigerado Acordo Ortográfico de 1990, algo que apenas a empobrece. Nunca é demais recordar autores e editoras desta má decisão, porque esta é uma questão fundamental que está longe de estar encerrada.

Apesar da ortografia acordizada, este é um livro bem feito e bem organizado, com um índice de todas as citações. Um daqueles volumes aos quais recorremos amiúde, tanto para verificar o que já sabemos normalmente através de lugares-comuns, ao mesmo tempo que obtemos um enquadramento histórico, como descobrir frases marcantes que não conhecíamos ou que atribuíamos ao autor errado. Porque, como escreveu o brasileiro João Guimarães Rosa, citado no livro, “o homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita”.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O livro que está a agitar a França

A mais recente obra do polemista Éric Zemmour é um fenómeno literário de vendas e está a agitar as águas da política francesa. À direita é vista como um alerta para o estado a que chegou o país. À esquerda é vista como um perigoso ensaio catastrofista que pode “alimentar a extrema-direita”. “O Suicídio Francês” promete não deixar ninguém indiferente.

Éric Zemmour é um nome que pode não dizer muito aos leitores portugueses, mas é uma figura de referência em França. Jornalista e escritor, de 56 anos, é principalmente um polemista. Define-se como um judeu de origem berbere e como fazendo parte da direita reaccionária. Não hesita a criticar o Maio de 68, a imigração, a islamização, entre outros temas incómodos, atitude que já lhe valeu vários processos judiciais. Os seus comentários políticos batem audiências, seja no seu programa matinal de rádio, seja nas emissões televisivas em que participa ou nas crónicas que escreve na Imprensa, nomeadamente no “Figaro Magazine”. Autor de vários livros, o seu último trabalho está a agitar a política francesa.

Sucesso de vendas
“Le Suicide français – les 40 années qui ont défait la France” (“O Suicídio Francês – os 40 anos que desfizeram a França”), publicado pela editora Albin Michel, do jornalista e polemista Éric Zemmour, foi lançado a 1 de Outubro e vende mais de cinco mil exemplares por dia. Um ensaio político que vende mais do que os livros do novo Nobel da Literatura, Patrick Modiano, e do que “Merci pour ce moment”, de Valérie Trierweiler, ex-companheira do Presidente Hollande. O livro de Zemmour tornou-se rapidamente um ‘best-seller’, um sucesso de vendas que demonstra a preocupação dos franceses com a situação política que o país enfrenta.

O declínio francês
Ao longo das mais de 500 páginas de “O Suicídio Francês”, Zemmour analisa por ano, a partir de 1970, os acontecimentos que levaram à perda de poder do Estado sobre o país, nomeadamente no que respeita ao controlo da imigração e da economia, o que levou a uma dissolução progressiva da França, que começou com os ideais do Maio de 68.
Afirma Zemmour que a partir dos anos 80 a contra-cultura dos anos 70 torna-se a “cultura oficial” e, com a chegada da esquerda ao poder, a “cultura de Estado”. Segundo ele, “a família e a prisão serão a partir daí vistas como objectos idênticos a detestar e a sua contestação tornar-se-á a verdade oficial. Toda a sociedade será duravelmente destabilizada. A delinquência sairá reforçada, desmultiplicada; e os defensores da ordem deslegitimados, fragilizados, desconsiderados”.
Mas, para Zemmour, a perda da soberania nacional deve-se principalmente ao Tratado de Maastricht e ao federalismo europeu. Para ele, a “Europa integrada tornou-se o laboratório de um governo mundial ainda no limbo”.
Sobre a selecção francesa de futebol, depois da vitória em 1998, afirma que “mudou as cores”, deixando os jogadores de representar os valores da França tradicional, quaisquer que fossem as suas origens, para cair na “obsessão racialista do anti-racismo dominante desde os anos 80”. Por fim, a crítica à progressiva islamização da França, incompatível com os valores republicanos.
São os pontos principais deste relato dos quarenta anos que, para Zemmour, “desfizeram a França”.

domingo, 7 de setembro de 2014

“7 de Setembro de 1974: O último grito de portugalidade em Moçambique”

Há quarenta anos, no dia 7 de Setembro de 1974, um levantamento popular exigia que o povo moçambicano fosse ouvido em plebiscito, mas os golpistas de Abril desrespeitaram o previamente acordado e entregaram Moçambique à Frelimo. Clotilde Mesquitela (1924 – 2005) registou essa revolta no livro “7 de Setembro: Moçambique – memórias de uma revolução”, agora republicado pela Branco Editores e que foi lançado no passado dia 4 de Setembro, no Palácio da Independência, em Lisboa, apresentado por Adriano Moreira, Luís Fernandes, Eugénio Brandão e Óscar Soeiro. Aqui fica a entrevista a Pedro Mesquitela, filho da autora, que fiz para edição de «O Diabo» de 2 de Setembro de 2014.

Como devemos ver este livro?
Este livro deve ser visto como uma radiografia de um momento histórico, com evidentes componentes emocionais por parte da autora, mas sempre com uma visão de Portugalidade que é inegável, e, tanto quanto a memória lhe permitiu, um relato fiel do que realmente aconteceu em Moçambique entre 7 e 11 de Setembro de 1974.


O que levou ao levantamento popular de 7 de Setembro de 1974 em Moçambique?
Desde 1971 que se sabia que existia um movimento civil para dar uma autonomia progressiva às Províncias Ultramarinas Portuguesas, tanto na Metrópole (Ala Liberal, Sedes e parte da Igreja Católica) como nas províncias, através dos Democratas de Moçambique e de partidos locais como o FRICOMO. de Joana Simeão, e a Coremo, fundada por Uria Simango, que tinha sido Vice-Presidente da Frelimo na presidência de Eduardo Mondlane, e exilado depois do assassinato deste. Tanto a Coremo como a Fricomo defendiam eleições democráticas e multi-raciais, pelo que foram perseguidas e seus líderes mortos após o 7 de Setembro, ao serem entregues à Frelimo pelo governo da África do Sul.
Sabíamos também que existiam conversações via dirigentes de países vizinhos de Moçambique como o presidente Banda do Malawi e Kaunda da Zâmbia, envolvendo um enviado português (eng. Jorge Jardim), representantes do presidente da Tanzânia (Ex-Tanganica), Dr. Nyerere, e um assessor do Presidente Kaunda que fazia a ponte com a Frelimo (Mark Chosa).
Não vou aqui detalhar o esforço desenvolvido para se chegar a um acordo, chamado Programa de Lusaka mas vale a pena mencionar que as negociações eram do conhecimento das autoridades portuguesas, desde o tempo do Dr. Salazar, do Prof. Marcello Caetano e dos Ministros do Ultramar desde 1961 (Dr. Joaquim Silva Cunha e, depois, Baltazar Rebelo de Sousa). Sabíamos que mais cedo ou mais tarde a autonomia verdadeira e a independência chegariam. Só se devia decidir quando seria e negociar como seria o processo de passagem de bastão.

Em que consistia o Programa de Lusaka?
Este Programa de Lusaka, aceite pela Frelimo, era para ser desenvolvido em cinco anos, e, de acordo com o meu entendimento do que li em “Moçambique Terra Queimada”, de Jorge Jardim, tinha como pontos principais: Salientava as condições de harmonia racial e de justiça que proporcionariam à população de origem portuguesa ou a ela assimilável, melhoria de oportunidades para se integrar na nova nação; Reconhecia e louvava a política multirracial portuguesa; Encarava a formação de ampla “comunidade lusíada “ com a desejável participação do Brasil, na qual Portugal assumiria uma posição dominante; Conservava a língua portuguesa como “língua franca”; Assegurava a expansão da cultura portuguesa e a educação predominantemente de inspiração portuguesa; Preservava os interesses económicos e financeiros portugueses; As grandes potências não poderiam aproveitar-se do cessar da soberania portuguesa citando-se especificamente as potências comunistas; A Zâmbia, a Tanzânia e o Malawi afirmavam a sua orientação não comunista e asseguravam que nunca seriam “testas de ponte” para qualquer infiltração política do comunismo; A oportunidade para se concretizar a independência seria negociada logo que fossem acordadas as bases necessárias.
Este acordo nunca foi assinado oficialmente por Portugal, por razões que devem estar ligadas à personalidade e crenças profundas do Prof. Marcello Caetano, somadas a movimentos ligados ao grande capital português e elementos da chamada linha dura portuguesa, que se opunham à independência das Províncias Ultramarinas.
Em Novembro de 1973, após as eleições em Portugal, Baltazar Rebelo de Sousa, já Ministro do Ultramar, instruiu Jorge Jardim para “prosseguir uma política acelerada de autonomia , que aceitava , para desembocar na independência”.

Qual foi a posição de Marcello Caetano relativamente ao plano?
Nessa altura, o Prof. Marcello Caetano, não fez nenhum reparo ao plano. Menciono estes factos para explicar o clima que se vivia em Moçambique no final de 1973, pois a guerra tinha-se espalhado para o Sul do Sena, os ataques terroristas intensificam-se em Vila Pery e na Beira.
A população civil, vítima de um clima extremamente desfavorável em relação ao Ultramar que se vivia na Metrópole e da crescente campanha dos chamados Democratas de Moçambique, estava apreensiva e cada vez mais nervosa, pois sabia-se que estava em jogo o princípio da manutenção do Ultramar e se passaria para um regime de maior autonomia, que acabaria em independência. Mas acreditava-se que militarmente Moçambique não seria derrotado e que seria possível construir um futuro multi-racial em paz, com base em negociações sólidas que levassem em consideração os interesses de tantos que lá residiam e trabalhavam, alguns há mais de três gerações.

Mas aconteceu o 25 de Abril...
Sim. Inicialmente, o programa do MFA e o próprio General Spínola pareciam ter ideias parecidas àquelas do Programa de Lusaka, o que sossegou parte da população moçambicana.
Infelizmente, após a visita de Costa Gomes à Beira, em Maio de 1974, e, sobretudo, após a visita autorizada por Costa Gomes de uma delegação de “democratas” a Dar-es-Salam, em 23 de Junho, para se encontrarem com Samora Machel, ficou claro que os políticos chamados de esquerda portugueses de Moçambique presentes na reunião (José Craveirinha, Rui Nogar, Malangatana Valente, Matias M’Boa, Rogério Jauana e Jossefate Machel, irmão de Samora) não seguiriam os princípios acertados anteriormente.
Por essa altura deslocou-se a Lisboa uma delegação de políticos e representantes de partidos locais para conversar com Spínola e este sossegou-os quanto à garantia de defesa dos interesses e vidas dos moçambicanos.

Qual foi a acção da esquerda?
Em Junho acontece a primeira reunião em Lusaka com Samora Machel, onde acontece o famoso “abraço” de Mário Soares, e onde claramente Soares exclui a Coremo das negociações. Otelo Saraiva de Carvalho, que esteve presente, insta Mário Soares a ir mais além no contexto da reunião, informando que as “nossas tropas” já estão “confraternizando por toda a parte”.
Em Julho de 1974 é publicada a Lei n.º 7/74 , assinada por Melo Antunes, que contrariava frontalmente não só o Programa do MFA, que tinha força constitucional, mas sobretudo o Programa de Lusaka, que tinha como objectivo a independência a prazo e a defesa e integração num novo país dos portugueses que lá viviam.
Tudo isto era sabido e publicado nos jornais diários de Lourenço Marques e da Beira, com os jornais de Direita e de Esquerda publicando cada qual uma versão e incendiando a opinião pública.

E a assinatura do Acordo de Lusaka?
A esperança dos portugueses que viviam em Moçambique estava assim numa espécie de montanha russa, em que um dia lhes davam certezas e no outro as retiravam. Podemos imaginar o clima que se vivia em Moçambique no início de Setembro de 1974. Em 4 de Setembro, foram a Lusaka negociar com a Frelimo Melo Antunes, Mário Soares, Almeida Santos, Vítor Crespo, Antero Sobral, Nuno Lousada, Vasco Almeida e Costa, que obviamente não queriam nem respeitar o espírito do Programa de Lusaka nem o do Programa do MFA, mas sim e tão somente entregar a Província apenas à Frelimo para a completa, imediata e irrevogável independência, sem levar em conta as forças políticas locais nem os interesses ou vidas dos cidadãos portugueses.
O Acordo de Lusaka foi assinado formalmente entre o Governo português e a Frelimo em 7 de Setembro de 1974, ferindo tudo o que tinha sido dito anteriormente no Programa do MFA e pelos Generais Spínola e Costa Gomes.

O que se passou a seguir?
Após o 7 de Setembro, devo apenas mencionar que morreram nesses dias mais civis do que em todos os 10 anos de guerra anteriores. Criou-se um regime de terror, forças do nosso próprio exército (sobretudo oriundas da Metrópole) exaltaram os ânimos dos pretos contra os brancos “fascistas” e “colonialistas”. Houve uma debandada geral da população, e era a chamada lei 24/20: 24 horas para sair, carregando apenas 20 kg.
Os jornais da época estão cheios de fotografias e relatos do que foi a saída dos Portugueses. Mário Soares sugeriu até “atirar os brancos aos tubarões”!
Soldados negros de incorporação local, sobretudo das forças chamadas especiais são perseguidos e mortos tanto em Moçambique como em Angola e na Guiné. Portugal não soube proteger os Portugueses, abandonando-os à sua sorte.

Como é que o levantamento do 7 de Setembro foi visto?
Posso citar alguns exemplos do que se disse deste período, obviamente com visões diferentes.
No livro “O Fim do Império. Memória de um Soldado Português”, a propósito do 7 de Setembro e da população branca e negra que participou deste movimento, Ribeiro Cardoso usa adjectivos como, “nave de loucos”, “insanidade criminosa”, “gabarolas com microfones na mão”.
Já Henrique Terreiro Galha, em “Descolonização e independência em Moçambique”, dedica o seu livro “em Homenagem e à Memória dos homens e das mulheres e crianças que foram chacinados em Lourenço Marques em 9 e 10 de Setembro de 1974, dos milhares de vítimas torturadas e mortas nas prisões e nos ‘campos de reeducação’ de Moçambique após a assinatura do acordo de Lusaka , antes e depois da independência”.
Em entrevista à RTP, Melo Antunes, em Julho de 1999,pouco antes de morrer, afirmou: “Muitos responsáveis políticos portugueses têm dito que a descolonização foi a que era possível. Acho que não é assim. Considero que a descolonização foi uma tragédia. Foi uma tragédia a forma como a descolonização acabou por se realizar. Tal como a colonização o foi. Não assumo responsabilidade do que hoje lá se vive. Isso tem a ver com os movimentos e seus líderes. Assumo a responsabilidade das negociações para a descolonização não terem sido conduzidas de modo a evitar situações que acabaram por descambar naquilo que hoje existe nos ex-territórios portugueses africanos.”
Há também a declaração do major Manuel Monge, que foi peça importante em determinado momento no MFA: “De facto, a descolonização foi feita na defesa dos interesses políticos e estratégicos da União Soviética , de seus aliados e dos seus movimentos no terreno. Foi contra os interesses de Portugal, dos portugueses residentes nos territórios sob a nossa administração e contra os interesses das suas populações.”
O Coronel Pára-Quedista Sigfredo Costa Campos, comandante dos GEP de Moçambique, afirmou: “Prova-o a inequívoca intenção das forças internacionais no pseudo-revolucionário processo de Abril, desencadeado com o objectivo de nos impor o vergonhoso abandono dos territórios africanos, onde, além de termos causado o caos e a destruição, fomos co-responsáveis pela morte de milhares de pessoas. E ainda há quem despudoradamente afirme que a revolução de Abril foi uma revolução sem sangue.”
No discurso de posse do Governador Geral de Moçambique, em 11 de Junho de 1974, Henrique Soares de Melo afirmou: “O que hoje se entende por independência imediata seria a mais gigante negação dos ideais democráticos universalmente aceites e nos quais se inspirou o MFA.”
Por fim, no livro “País sem Rumo”, António de Spínola escreve: “A Frelimo estava consciente de que o seu poder residia essencialmente, não nas suas estruturas, mas na traição da esquerda militar portuguesa, disposta a impô-la ao povo moçambicano, proporcionando-lhe a organização político-militar que nunca conseguiria alcançar antes do 25 de Abril”.

O que foi para si o 7 de Setembro?
Como disse a minha mãe, foi o último grito de portugalidade em Moçambique.

Qual o propósito do livro?
Deixo a cada um tirar suas próprias conclusões, e espero que a leitura do livro “Moçambique 7 de Setembro” ajude, como documento biográfico, a possibilitar que um dia, com o distanciamento necessário que a História exige, se possa realmente escrever a verdade sobre o golpe do 25 de Abril e sobre a nossa descolonização.

domingo, 29 de junho de 2014

"Their country - the sea"


«He was a seaman, but he was a wanderer, too, while most seamen lead, if one may so express it, a sedentary life. Their minds are of the stay-at-home order, and their home is always with them -- the ship; and so is their country -- the sea. One ship is very much like another, and the sea is always the same. In the immutability of their surroundings the foreign shores, the foreign faces, the changing immensity of life, glide past, veiled not by a sense of mystery but by a slightly disdainful ignorance; for there is nothing mysterious to a seaman unless it be the sea itself, which is the mistress of his existence and as inscrutable as Destiny. For the rest, after his hours of work, a casual stroll or a casual spree on shore suffices to unfold for him the secret of a whole continent, and generally he finds the secret not worth knowing. The yarns of seamen have a direct simplicity, the whole meaning of which lies within the shell of a cracked nut.»

Joseph Conrad
in "Heart of Darkness"

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Os livros de Kurtz


No final do magistral "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola, quando o Cap. Willard encontra o Col. Kurtz, há uma cena em que se vêem dois livros do Coronel. São eles, "The Golden Bough", de Sir James Frazer, e "From Ritual to Romance", de Jessie Weston, duas das grandes influências do poema "The Waste Land" (1922), de T.S. Eliot, editado por Ezra Pound.

A inclusão destes livros não é obviamente inocente, já que a versão original de "The Waste Land" abria com a seguinte citação de "Heart of Darkness" ("O Coração das Trevas"), o romance de Joseph Conrad em que John Milius se inspirou para escrever o argumento do filme: «Did he live his life again in every detail of desire, temptation, and surrender during that supreme moment of complete knowledge? He cried in a whisper at some image, at some vision, – he cried out twice, a cry that was no more than a breath — "The horror! The horror!"» Porém, a ligação entre o poema de Eliot e o livro de Conrad não se fica por aqui. No início de "The Waste Land", há um verso que é visto como uma antítese ao livro de Conrad: "Looking into the heart of light"  uma clara oposição a "heart of darkness".

As referências de Eliot a esta obra de Conrad repetem-se no poema "The Hollow Men" (1925) — que Kurtz lê numa cena do filme , que abre com a frase "Mistah Kurtz — he dead".

Por fim, para os interessados, diga-se que tanto "The Golden Bough" como "From Ritual to Romance" estão disponíveis gratuitamente para o Kindle.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Festa do livro

No passado sábado fui pela primeira vez este ano à Feira do Livro de Lisboa, em dia de enchente e de calor. Foi um passeio em família, continuando o hábito que os meus pais tão bem me transmitiram.
É sem dúvida revitalizante, passear entre livros, folheá-los, descobrir aquele que nem sabia que estava à procura. E durante o passeio encontrar um sem número de amigos e gente conhecida, muitos dos quais não via há muito.

Para muitos de nós, a Feira do Livro é algo de que nos lembramos desde tenra idade. Um dos primeiros contactos com a leitura que perdura e nos faz regressar todos os anos, até ao dia em que é com os nossos filhos. Quer dizer que cumpre, para além de uma função comercial, uma importante função cultural.
A multidão de várias gerações que se ali se congrega anualmente deve encher-nos de esperança. A sociedade dos ignorantes, nivelada por baixo, não é uma fatalidade. É possível e necessário contrariá-la. O amor aos livros e à leitura não está morto, como querem os pessimistas do costume ou os futurologistas que desconhecem as nossas raízes.

É certo que para grande parte da geração do conforto do imediatismo, ritmada pela instantaneidade do ‘zapping’, a leitura de um livro parece, à primeira vista, algo ultrapassado. Mais, surge como um exercício pesado que aparenta ser um esforço prolongado do qual não se obtém qualquer benefício. No entanto, como tão bem sabe qualquer leitor, para além da aprendizagem inerente à leitura esta proporciona um prazer que, depois de experimentado, não conseguimos abdicar. Um momento nosso onde viajando por outros mundos e conhecendo outras realidades nos conhecemos melhor a nós próprios.

A Feira do Livro continua a ser uma referência incontornável nos ritmos de Lisboa e um importante acontecimento cultural a continuar. Deve ser sempre uma festa do livro e não cair na tentação de se tornar um centro comercial a céu aberto.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sábado, 3 de maio de 2014

“Em cem anos a sociedade portuguesa mudou em quase tudo”

Ricardo Marques é jornalista e autor de vários livros, como “Moçambique: o Regresso dos Soldados”, “Assim Matam os Portugueses” e “Os Fantasmas do Rovuma”. Publicou recentemente “1914 – Portugal no ano da Grande Guerra”, um retrato abrangente da sociedade portuguesa de então, ilustrado com os factos, as curiosidades e s estatísticas da vida social, da ciência, das artes, da política, do desporto e até do crime. Aqui fica a entrevista que fiz para a edição de «O Diabo» do passado dia 15 de Abril.

Neste ano do centenário da Primeira Guerra Mundial tem-se notado um especial interesse à vida particular das pessoas e da forma como a guerra as afectou. É um lado que falta estudar para além do conflito militar?
É, acima de tudo, uma dimensão inesgotável. Quando falamos de algo tão impressionante como a Primeira Guerra Mundial, a todos os níveis, tendemos por vezes a esquecer as pequenas coisas. Claro que a história se faz e se alimenta do confronto, da visão dos vencedores e dos vencidos. É natural. Mas é preciso não esquecer que por cada batalha, por cada grande deslocação de tropas, há vidas que tentam prosseguir o melhor que podem e consegues. Há gente que acorda todos os dias de manhã para trabalhar, para estar com a família, com os amigos, para ler um livro ou outra coisa qualquer. E isso, normalmente, não cabe na lente com que olhamos os grandes acontecimentos. No entanto, com um pouco de esforço, podemos encontrar mundos fascinantes.

O que o levou a esta descoberta da sociedade portuguesa no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial?
Houve dois caminhos que, a dado momento, se cruzaram. Desde logo, o livro que tinha escrito sobre a Primeira Guerra Mundial em África. Há algo curioso na forma como começou a nossa guerra África em 1914. Assim que estalou o conflito na Europa, a primeira preocupação do Governo de Portugal, da República que tinha apenas quatro anos, foi enviar tropas para Angola e Moçambique de modo a salvaguardar a integridade das então colónias. Mais interessante é que antes de entrarmos efectivamente no conflito – a declaração de guerra da Alemanha a Portugal é de 1916 – já tínhamos enviado milhares de homens para África e já tínhamos entrado em combate. Esse foi um dos caminhos. O outro foi o fascínio que me ficou de tentar perceber o que ia na cabeça dos portugueses nos primeiros meses do ano, na véspera de um conflito tão brutal como a Primeira Guerra Mundial. É estranho olharmos para trás, conscientes de que algo vai acontecer, e conhecermos pessoas que não fazem a mais pequena ideia.

Em que se baseou para chegar ao dia-a-dia dos portugueses de então?
A melhor forma é ler os jornais. E havia muitos jornais. Tantos que, infelizmente, é impossível lê-los todos. Li todos os que consegui. Li livros editados nesse ano, livros sobre esse ano, voltei a olhar para o material que já tinha do livro anterior. De algum modo, durante quase um ano vivi em 1914. E optei, quando escrevi, em ficar lá. Ou seja, todo o livro está escrito como se o mundo tivesse acabado nesse ano. Vou dar-lhe um exemplo: a Federação Portuguesa de Futebol foi criada em 1914, embora com outro nome. Outro ainda: a maquete da estátua do Marquês de Pombal ganhou o concurso nesse ano, mas só foi construída algum tempo depois. Optei por não explorar o futuro que começava ali. Caso contrário, acho que ainda hoje estaria a escrever…

Quais foram as grandes diferenças que encontrou em relação aos nossos dias?
Quase tudo é diferente. Tão diferente que hoje damos por adquiridas algumas coisas com que na altura só se sonhava. Estamos a falar de um país que era quase analfabeto, em que a doença ceifava milhares de vidas todos os anos, em que a vida valia muito pouco. Em cem anos mudámos quase tudo.

Descobriu algo que não estava à espera, ou sobre o qual tinha uma ideia errada?
O mais surpreendente foi perceber que havia duelos, algo muito engraçado. Havia todo um ritual, que envolvia testemunhas e trocas de correspondências. Depois, escolhiam-se as armas, marcava-se uma hora e lá iam todos, quase sempre para a estrada da Ameixoeira. Os médicos interrompiam os combates sempre que alguém se aleijava e a coisa só parava quando o ofendido se sentia retratado. Era muito engraçado. E muitas vezes começava tudo com um artigo num jornal.

Também encontrou semelhanças com os dias de hoje. Como por exemplo?
Penso que, cem anos depois, há coisas em que somos praticamente iguais. O fascínio por tudo o que vem de fora, do estrangeiro, quase sempre em detrimento do que se faz e pensa por cá é algo que ainda hoje mantemos. Apesar de estarmos a assistir, curiosamente, a um interesse crescente e renovado pelo que é português. É um fenómeno interessante. Creio também que mudou muito pouco a forma como encaramos o Estado, essa entidade que tudo tem de resolver.


Há coisas que nem a guerra muda?
Essa é uma pergunta complicada. Se pensarmos bem, quando é que foi a última guerra que se travou em território português? Nos últimos cem anos, apesar de o mundo ter vivido duas guerras mundiais, e de termos combatido em África durante 13 anos, a verdade é que não se disparou um tiro em Portugal. Não significa que isso que tenhamos passado incólumes – milhares de famílias perderam pais, filhos, irmãos, maridos. Mas era sempre algo que acontecia longe, era sempre uma notícia que chegava. Para esses, como para os que voltaram e que vivem como se ainda estivessem por lá, a guerra mudou tudo. Somos o que sempre fomos, mas somos diferentes. Não sei se faz sentido…

Mesmo assim, concorda que a Primeira Guerra Mundial representou o fim de um mundo?
Sim, claro. Mas acho que mais do que o fim de um mundo, foi sobretudo o início de um outro, o início do mundo em que vivemos. Vinte anos houve nova guerra, uma ainda mais horrível, que mostrou ao mundo o lado mais negro da humanidade. O mundo dividiu-se a seguir, depois um dos lados desmoronou-se e hoje ainda não sabemos ao certo em que mundo estamos a viver. Se é que é possível falar de um mundo. Se calhar sempre houve vários mundos.

Entrevistou a bisneta do arquiduque Francisco Fernando, como foi essa experiência?
Muito interessante. É mais uma daquelas histórias que se perdem na grande história. E a dela começa com o assassinato dos bisavós em Sarajevo. Francisco Fernando e Sofia tinham três filhos à espera em casa, num castelo que está hoje na República Checa. Esse castelo, 100 anos depois, é um museu. A bisneta do arquiduque luta há vários anos para que o castelo seja devolvido à família. Ela tem um argumento interessante. Quando Francisco Fernando e Sofia se casaram – e como ela não tinha o estatuto necessário para se tornar uma Habsburgo – ambos assinaram uma declaração comprometendo-se a que ela e os filhos jamais seriam membros da família imperial. Ou seja, jamais seria Habsburgos. Ora, alega a bisneta, o castelo não era uma propriedade dos Habsburgo. Mas foi confiscado como se fosse. Ela sabe que é uma guerra perdida. Mas é a guerra dela.

Ela considerou que a sociedade de hoje é mais egoísta, concorda?
Não sei. Talvez tenhamos formas diferentes de sermos mais egoístas. Creio que é um mundo construído cada vez mais para o indivíduo e a consequência talvez seja termos menos uma sociedade, como ainda a concebemos, e mais uma “socioindividualidade”.

O que podemos aprender hoje com o estudo da catástrofe que a Primeira Guerra Mundial representou para a Europa?
Há duas lições importantes, creio. A primeira é que sobrevivemos. Não só à primeira, como à segunda e a tudo o que veio depois. Estamos cá, vivos para recordar e pensar sobre as coisas. Podemos olhar para trás e aprender. A segunda lição é que, apesar de tudo, isso pode não valer de nada. O futuro tende sempre a surpreender-nos. Que o digam as pessoas que foram ao teatro à noite na véspera de começar a guerra.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Recordar


O livro “O Ataque aos Milionários”, do jornalista e historiador Pedro Jorge Castro, que tive a oportunidade de entrevistar para o semanário “O Diabo”, é uma investigação sobre as perseguições durante o PREC às principais famílias que controlavam a Economia portuguesa, como os Espírito Santo, Mello e Champalimaud.

Não é uma obra panfletária, é um trabalho sério e isento. No entanto, ao contrário de tantas teses académicas que se acumulam nos arquivos das Universidades, esta tem o mérito de gerar o debate. Mais, de fazer com que se recordem publicamente os excessos do PREC, que muitos continuam a louvar como um passo para a “liberdade”.

Um exemplo desse mérito do livro foi dado na sessão de lançamento que decorreu no Porto e que contou com a presença e intervenção do actual Presidente da Câmara. Rui Moreira recordou como o seu pai, empresário fundador da Molaflex, foi vítima desses excessos revolucionários por “ser rico”.

Em 1975 foi preso por Eurico Corvacho, comandante da Região Militar do Norte, e por civis armados. A seguir, foi submetido a interrogatórios de 16 horas, metido em celas com detidos de delito comum e torturado com simulações de fuzilamento de outras pessoas, durante meses. Passou por vários estabelecimentos prisionais, sem acusação formada e sem que a família tivesse notícias dele. Durante este período terrível de insegurança e incerteza esteve em isolamento e ficou com problemas de saúde dos quais nunca recuperou.

Esta é uma memória familiar que deve ser a de todos nós. Passados 40 anos do 25 de Abril, a recordação de abusos destes permite-nos a compreensão plena de um passado ainda recente, que infelizmente continua toldado por uma mitologia “revolucionária” que urge desconstruir.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Carl Schmitt revisitado


Há cerca de um ano, realizou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa o colóquio “Carl Schmitt revisitado”, organizado por Carlos Blanco de Morais e Luís Pereira Coutinho, do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas (ICJP). Uma excelente iniciativa que não deixei de louvar, na altura, "tanto pela elevada qualidade e preparação dos oradores, como pela presença e interesse do público".

Agora, as comunicações apresentadas foram reunidas num volume intitulado "Carl Schmitt revisitado" e publicadas em formato electrónico, disponível na página do ICJP, que está de parabéns.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Raul Lino em Sintra


No passado dia 28 de Março, o Café Saudade, em Sintra, foi o palco para o lançamento do livro “Sintra”, de Raul Lino, uma antologia feita por Rodrigo Sobral Cunha. A sessão contou com a apresentação de Miguel Real e com a leitura de Margarida Carpinteiro. O arquitecto da Casa Portuguesa está vivo no seu legado e o interesse na sua obra é notoriamente crescente.


É de notar que o nome completo do simpático e acolhedor café onde decorreu o lançamento do livro é “Saudade – Vida e Arte do Povo Português”, sinal de que a escolha do local não podia ter sido melhor.

A sala encheu e os lugares sentados esgotaram-se rapidamente, mas nem por isso o ambiente se tornou pesado. Pelo contrário, sentia-se uma atmosfera familiar.
Editado pela Colares, uma editora da região, “Sintra”, de Raul Lino, é uma antologia de textos seleccionados por Rodrigo Sobral Cunha, que fez também um estudo introdutório. Como organizador do Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, cuja primeira sessão é no Palácio de Seteais, nos dias 3 e 4 de Abril, Rodrigo Sobral Cunha, docente do IADE, está de parabéns por todo o excelente trabalho de divulgação do arquitecto que teorizou a Casa Portuguesa, fazendo-nos redescobrir a nossa identidade através do lar.

A apresentação do livro foi feita por Miguel Real, que louvou exactamente este esforço de Rodrigo Sobral Cunha e salientou a sua importância. De seguida, Margarida Carpinteiro leu emotivamente umas passagens da obra, prendendo a atenção dos presentes. Por fim, o responsável por esta antologia levantou-se e dirigiu-se à audiência em tom informal, demonstrando uma extraordinária humildade, ao recusar os louros, relembrando que é a Raul Lino que são devidos. Ele limitou-se a coligir o livro que o arquitecto não chegou a compor sobre Sintra, mas que afinal escreveu. Um local mágico que Raul Lino considerava pertencer “àquela classe de valores míticos de primeira grandeza do nosso firmamento espiritual cujo culto é fervorosamente exercido por uma confraria de apaixonados”.

Essa confraria existe e reuniu-se em Sintra para celebrar um dos seus filhos espirituais.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Jean-Claude Rolinat reeleito


A propósito das eleições municipais em França, foi com agrado que soube da reeleição de Jean-Claude Rolinat, em Seine-et-Marne. Rolinat é colaborador da "Synthèse nationale" e autor de uma vasta obra, onde se inclui "Salazar le regretté...", publicado em 2012, por Les Bouquins de Synthèse nationale, no qual tive a honra e o prazer de escrever o posfácio.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Leituras fundamentais

Na era dos consumidores e dos “clientes”, cada vez mais os pais deixam os filhos na escola como se deixassem o carro na oficina para uma revisão. Reconhecendo a importância dos estabelecimentos de ensino na formação das crianças, não podemos – não devemos – esquecer que os valores fundamentais se transmitem em casa, no seio da família.

Mantenho um hábito que infelizmente se tem vindo a perder, leio aos meus filhos antes de eles adormecerem. Ao contrário do que possa parecer, em especial aos anestesiados pela (des)cultura do ‘zapping’, não são momentos enfadonhos. Pelo contrário, os meus filhos preferem-nos à televisão, o que é já o primeiro indício de que é possível escapar à ditadura mediática.

Não só a leitura é importante, como mais importante é o que se lê. Agora estamos a ler a “Ilíada”, na versão da Sá da Costa, “contada às crianças e ao povo”. A minha filha prefere naturalmente Helena e os seus curiosos olhos azuis reluzem quando se fala na “mais bonita, a mais elegante, a mais graciosa e, ainda, a mais rica das mulheres gregas”. Já a preferência do meu filho, mais velho, vai para Aquiles, “o glorioso Aquiles, detentor de vitórias e de troféus inumeráveis”. A beleza e a nobreza, o espírito trágico e a coragem, assim se começam a passar valores fundamentais que as teorias uniformizadoras pretendem apagar.

Por vezes eles lêem partes, outras vezes leio-lhes passagens da versão original, explicando que ali estão as nossas raízes profundas. Como afirma Frederico Lourenço na introdução da sua tradução, “Ler a Ilíada é reclamarmos o lugar que por herança nos cabe no processo de transmissão da cultural ocidental: cada novo leitor acrescenta mais uma etapa, ele mesmo um novo elo”.

Mas já está escolhida a próxima leitura fundamental, são “Os Lusíadas” adaptados por António Manuel Couto Viana e ilustrados por Lima de Freitas para a colecção “Clássicos Juvenis Verbo”.

O amor pela leitura e pelos clássicos, um testemunho essencial que devemos passar às gerações futuras.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».