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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sempre o Latim


Tive Latim no liceu, por opção - uma aventura já tive oportunidade de contar -, e depois na Universidade. Este ano voltei aos clássicos graças a um Amigo, mas nunca deixei de ser um defensor da obrigatoriedade desta disciplina fundamental no Ensino em Portugal.

Por isso li com agrado o certeiro e oportuno texto de Susana Marta Pereira, professora de Português e de Latim, no «Público», intitulado "Portugal e o Latim". Depois de recordar a importância da língua latina, fala sobre as diferenças entre o nosso país e outros, afirmando: "Países como Inglaterra, Alemanha e Espanha colocam, actualmente, nos seus curricula o ensino do Latim, por perceberem a sua relevância na aprendizagem de matérias tão diversas que vão desde a matemática à biologia, à filosofia, à literatura e à aprendizagem das línguas, entre elas o inglês e o alemão. Em Portugal segue-se o caminho oposto". Um caminho errado, obviamente.

Mas não se pense que esta é uma teimosia ou que os alunos não têm interesse. Susana Marta Pereira conta um caso paradigmático: "Na Escola Secundária de Pedro Nunes e na Escola Secundária de Passos Manuel, em Lisboa, os seus directores decidiram que nas suas escolas o Latim não morreria! Consequentemente, os alunos de todas as áreas, humanidades, artes, ciências e de todos os ciclos, desde o 7.º ano ao 12.º ano, têm acesso a um curso livre de Latim. E a verdade é que há dois grupos de alunos na Escola Secundária de Pedro Nunes, um de 3.º ciclo e outro de secundário, sendo que um deles já se encontra no 2.º ano de Latim. O Liceu Passos Manuel abriu o curso este ano lectivo e já conta com três grupos, um de 3.º ciclo e dois de secundário, sendo, no secundário, a maioria dos alunos de ciências. A metodologia aplicada foi desenvolvida pela Universidade de Cambridge e o seu sucesso leva a crer que o problema reside muito mais no modo como esta língua tem sido ensinada do que nela mesma. É de salientar que estes cursos são de frequência livre e a taxa de absentismo é quase nula.Afinal, em que ficamos? Onde reside a origem do problema? Não há alunos interessados em aprender Latim ou não há interesse em que os alunos o aprendam?"

Exemplos a seguir e, especialmente, a mostrar a quem decide das nossas políticas de educação. Em vez de se preocuparem em impor barbaridades como o Acordo Ortográfico ou a TLEBS, deviam concentrar-se em garantir que os alunos portugueses soubessem o mínimo sobre uma Língua que também é nossa. Se o Português é a nossa Língua-mãe, o Latim é a nossa Língua-avó.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Ainda o Latim

Quando leio que o “número de alunos a aprender Latim diminuiu 80% em dois anos” nas escolas portuguesas, só posso lamentar a forma como se vai atirando o nosso país para níveis inacreditáveis de ignorância. Já aqui relatei como reencontrei o Latim na parte curricular do mestrado e como me recordou os tempos de liceu. Tanto no ensino secundário como no superior tive Latim por opção. Esta é uma situação que critico desde quando frequentava o 1.º ano de Latim, no 10.º ano de escolaridade, considerando que devia ser, naturalmente, uma disciplina obrigatória. Obrigatória no secundário, mas também, logicamente, em muitos cursos superiores. Como aceitar que esta seja uma matéria opcional para as licenciaturas em História, Filosofia e Direito? E mesmo no campo das ciências, nos cursos de Biologia e Zoologia, por exemplo?

Ainda há dias, conversei com uma amiga que é agora professora num colégio particular onde se visa a excelência, que me disse que lá o Latim é “obviamente obrigatório”, para além da especial atenção dada às artes e ao desporto. Um verdadeiro “mundo à parte” do ensino público.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Latim

O mestrado tem absorvido a maior parte do meu tempo, domina as minhas leituras e monopoliza a minha escrita. Uma das coisas que me tem ocupado é o meu regresso ao “rosa, rosae”, que é como quem diz ao nominativo e genitivo da primeira declinação e daí em diante. A cadeira de latim medieval obrigou-me a rever o aprendido nos dois anos de latim que tive no Secundário. Para avivar a memória, e porque no nível de ensino em que me encontro dão-se muitas das matérias como adquiridas, fui resgatar da prateleira os volumes I e II do “Initia Latina”. Está a ser bastante divertido e trabalhoso este retorno à língua-mãe. Por entre declinações, tempos verbais, classes de adjectivos, regras de concordância, entre outros, vou recordando os bons momentos que passei quando frequentava o que na altura se chamava “ensino complementar” (10.º e 11.º anos de escolaridade).

Claro está que o latim foi opção. Aliás, no campo das línguas tive nesses anos, para além desta, português, francês e inglês. Mesmo enquanto adolescente, nunca hesitei sobre a minha escolha e sempre considerei que esta devia ser uma disciplina obrigatória nos curricula nacionais. Lembro-me de na altura comunicar orgulhoso a minha opção a um primo meu que residia e estudava no estrangeiro, que se espantou com a não obrigatoriedade do latim, sendo o português uma língua neolatina...

O primeiro ano de latim era mais concorrido. A minha turma tinha cerca de vinte alunos, mas muitos desistiram. No segundo, começámos por ser cerca de dez e terminámos o ano com sete. Foi uma óptima experiência! Preferimos aprender os fundamentos da nossa língua, para melhor a compreender, do que escolher as consideradas “disciplinas fáceis”, como relações públicas, que apenas serviam para subir a média sem qualquer esforço.

Desse grupo, recordo-me em especial de dois amigos de então, o David e o Gonçalo, e das aventuras que vivemos, ao mesmo tempo que aprendíamos esta língua superior. Para o resto da malta, que via a nossa escolha com um misto de respeito e incompreensão, éramos os compinchas de sempre, simplesmente com uma incansável mania de saber. Não entendam mal, estávamos longe de ser marrões. Éramos os atípicos bons alunos com notas médias. Líamos muito e estudávamos pouco, gostávamos de saber e detestávamos papaguear, queríamos descobrir e recusávamos o repetir, tínhamos isso em comum. Uma postura que se adequava com a nossa rebeldia daqueles tempos.

A relação com a professora do segundo ano de latim foi muito complicada. Não nos enquadrávamos no perfil a que ela se habituara mas, apesar de hesitar perante o nosso comportamento desafiador e ter uma atitude censória quanto às nossas ideias políticas, reconhecia o nosso amor àquela disciplina e espantava-se com o empenho com que a defendíamos. Um exemplo divertido da nossa dedicação foi o histórico “Dia do Latim”. Depois de termos visto decorrer na nossa escola eventos destinados a promover várias disciplinas, propusemos que se fizesse o mesmo para o latim. Perante a dúvida da professora e falta de ânimo dos nossos colegas de turma, decidimos fazer tudo praticamente sozinhos. Desenhámos cartazes que espalhámos pelas paredes, fizemos material para uma exposição e, mais importante que tudo, mobilizámos com o resto da “malta da pesada”, através de manobras que se podem considerar intimidatórias, “meio liceu” para assistir na sala verde às apresentações orais feitas por nós e pela stôra, já que o resto da turma não se “sentia à vontade” para falar em público. O “Dia do Latim” foi um sucesso, perante o espanto e inveja dos outros professores. A participação registada foi a maior de todos os outros dias consagrados a disciplinas. A mobilização foi tal que foi o assunto da semana na sala dos professores e tema de uma das reuniões do Conselho Directivo. A partir daí a nossa professora, orgulhosa, continuou a detestar-nos, mas passou a ver-nos de forma diferente e gosto de pensar que terá questionado algumas certezas que carregava há muito...

Belos tempos. Parece que foi ontem, parece que foi há tanto tempo. Tempus fugit.