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sábado, 12 de novembro de 2016

Trump: insurgência identitária?



Enquanto assistimos à busca de "explicações" para a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA pelos media e os analistas ditos "de referência", o artigo de Filipe Faria "Trump, o Futuro da América e a Política de Identidade" refere um ponto essencial que tem sido (propositadamente?) desprezado ou ignorado. Será a "insurgência Trumpeana" o protesto do grupo dos euro-americanos no conflito identitário que se vive nos EUA? Tudo indica que sim. Ora veja-se o seguinte excerto:

"Grande parte dos analistas tenta explicar esta “insurgência” Trumpeana como sendo um protesto dos euro-americanos contra a globalização económica devido à perda de empregos e de riqueza geral. No entanto, uma análise mais cuidada revela que os apoiantes de Trump estão muito longe de serem pobres. Os outros grupos (latinos e afro-americanos) que tendem a apoiar o partido democrata com a sua visão globalizante são bastante mais empobrecidos. Este historicismo materialista dos analistas não consegue explicar o fenómeno Trump em toda a sua dimensão.
Tal como vários estudos académicos revelam, o que está na origem desta insurgência é a ascensão da identidade europeia em solo americano. A evidência empírica dos psicólogos sociais Eric Knowles e Linda Tropp mostra que o contacto massivo com “o outro” no próprio país fez com que muitos euro-americanos se tenham consciencializado da sua identidade europeia. Por outras palavras, a abertura de fronteiras e as alterações radicais demográficas e culturais nos EUA provocaram uma ameaça existencial. Tal como aprendemos com a psicologia política evolutiva, é nestes momentos que os grupos tendem a escolher líderes fortes e combativos que defendam a sobrevivência do colectivo."

A este propósito, leia-se, também, a entrevista de Kathy Cramer, The Politics of Resentment (A Política do Ressentimento, não traduzido para português) ao "Público" sobre Donald Trump e sobre o futuro da política de identidade branca.


Nas inúmeras entrevistas que fez no Wisconsin rural, chegou à conclusão que nos "três elementos do ressentimento – não tenho poder, bens nem respeito – a raça e a economia interligam-se".

No entanto, sobre o "racismo" dos apoiastes de Trump, afirma: "O argumento de que o movimento de Donald Trump equivale a racismo não me parece ser verdade, e isto porque o racismo não põe comida na mesa. Não se pode ganhar a vida com o racismo. Não nego que os estudos mostrem que há muito ressentimento racial entre o eleitorado de Donald Trump mas muitas vezes o argumento termina aí. “Eles são racistas.” Parece-me ser uma forma muito redutora de olhar para a questão. É claramente racista pensar que os negros não trabalham tanto como os brancos. E então? Declaramos que uma grande parte da população é racista e, como tal, os seus problemas não são merecedores da nossa atenção?"

Dizendo que resiste muito à "caracterização dos apoiantes de Donald Trump como sendo ignorantes", Kathy Cramer afirma que "cada vez mais há provas de que a política para as pessoas não é – e eu sei que isto vai soar de forma horrível – sobre os factos e as políticas. É sobre identidades, sobre a formação de ideias, sobre o tipo de pessoas que nós somos e o tipo de pessoas que os outros são. Quem sou eu e quem está contra mim?"

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

"A globalização é o nosso pior inimigo"

Ernesto Milá é um jornalista e escritor espanhol, autor de várias obras. O seu livro “Identidade, patriotismo e enraizamento no século XXI” foi recentemente traduzido para português e publicado no nosso país pela editora Contra-corrente. Esteve em Lisboa para a apresentação deste seu trabalho. Aqui fica a entrevista que lhe fiz e que foi publicada na edição de 8 de Outubro de 2013 do semanário «O Diabo».

Qual é a ideia fundamental deste livro e qual é o seu objectivo?
Quero dizer, em primeiro lugar, que não sou um doutrinador, nem ideólogo, mas jornalista e escritor. Interessa-me o mundo das ideias e sinto-me tributário das ideias tradicionalistas de Julius Evola e René Guénon e das ideias da Nova Direita francesa, da mesma maneira reconheço um tributo devido à obra dos pensadores nacionais-sindicalistas espanhóis, especialmente José Antonio Primo de Rivera e Ramiro Ledesma. O problema com que me deparei nesta obra foi como actualizar, definir e sintetizar todas estas influências tendo em conta a realidade iniludível da modernidade.
A ideia deste livro é sintetizar ideias prévias, definir alguns conceitos claros e estabelecer uma série de questões novas que todos nós sentimos e que não foram interpretadas pelos mestres de pensamento da nossa corrente. Na prática, neste livro defino o paradigma identitário.

Traça a distinção entre nacionalismo e patriotismo. Porque é que é importante definir tais conceitos?
É fundamental que nos movamos com conceitos claros com os quais todos estejamos de acordo. Um deles é o patriotismo que tem que ver essencialmente com a ideia de Tradição. A “pátria” é a “terra dos pais”, liga com um passado que se quer projectar para o futuro. A nação, ao contrário, é outra coisa: é um conceito fundamentalmente moderno, não anterior à Revolução Francesa e que substitui o “reino”. Assim, como nos reinos antigos o poder estava nas mãos de uma aristocracia, na nação histórica é a burguesia que detém a hegemonia. Dito de outra maneira, a origem do nacionalismo é fundamentalmente liberal e burguês, referindo-se a uma ordem de ideias que tem que ver com os valores inerentes às revoluções liberais do século XIX.
Em cada país atribui-se um sentido diferente a estes conceitos. Em Espanha, por exemplo, quando se fala de “nacionalismo” está-se a falar de ideias de tipo regionalista que apareceram espacialmente na Catalunha, no País Basco e na Galiza. Em França, pelo contrário, a partir da escola da Action Française e da obra de Charles Maurras, o “nacionalismo integral” vem a ser uma forma de patriotismo. No entanto, é importante recordar que as palavras estão carregadas e podem ser perigosas: todo o pensamento deve ser “orgânico” e ter uma ordem de ideias perfeitamente encadeadas. Se aceitamos que a nação aparece onde a guilhotina corta a cabeça dos reis, temos que aceitar que uma coisa é a ordem liberal e outra é a ordem tradicional e a primeira tem como valores a Nação, o mercado livre, a burguesia, o republicanismo, enquanto que a ordem tradicional tem como valores a Pátria, a economia corporativa, a monarquia, etc. É muito perigoso inserir em cada elo da cadeia um elemento que pertence a outra, por isso prefiro referir-me ao patriotismo em vez de ao nacionalismo.

Em Portugal, quando nos referimos ao nacionalismo, é diferente?
Não, creio que não. Em cada país europeu há uma forma de chamar as coisas. O que me parece importante é que, seja qual for a palavra utilizada para definir uma ordem de ideias, esteja acompanhada de uma tomada de posição nítida. Por exemplo, é importante que quando um “nacionalista” define o seu projecto deixe claro que se trata de um projecto fundamentalmente antiliberal e antiburguês. Isto implica resgatar a palavra das garras de quem detém historicamente o monopólio da mesma e dar-lhe um conteúdo que está nos antípodas do conceito que tinha originalmente. Creio, definitivamente, que de uma forma ou de outra temos que estar de acordo quanto aos termos a utilizar na luta política e o conteúdo a atribuir a cada termo.

No seu livro fala também no enraizamento. É possível num mundo urbanizado?
A ideia do enraizamento foi teorizada inicialmente por Charles Maurras, cujo pensamento influenciou poderosamente a reconstrução do património doutrinal de todas as direitas nacionais europeias, especialmente dos monárquicos no início do século XX. Posteriormente foi incorporada no património da Nova Direita francesa na medida em que supunha uma modulação de um instinto que está presente nas espécies animais, especialmente nos mamíferos superiores: o instinto territorial que, basicamente, faz com que se tenha tendência a identificar-se com o local que se considera como próprio e a defendê-lo, especialmente porque se nasceu ali. É o que em França se chama “as pátrias carnais” e em Espanha se chama a “patria chica", é a terra natal. Explica por que sentimos mais ou menos atracção pela zona que nos viu crescer. Nas cidades esse sentimento é muito mais atenuado. Não é por acaso que uma velha tradição dizia que a primeira cidade foi construída por Caim. As cidades modernas converteram-se em colmeias massificadas, em monstros burocrático-administrativos com cheiro a gasolina e em que a capa de asfalto, para cúmulo, nos separa da terra natal. É indubitável que nas grandes cidades se destrói a ideia de enraizamento. Mas isto também tem implicações: é evidente que as nossas cidades são como são porque o factor especulativo, o mau ordenamento, conceitos urbanísticos obtusos, geraram verdadeiros monstros que progressivamente se vão tornando mais hostis e incómodos para os seus habitantes. Era preciso um novo urbanismo capaz de dar um rosto mais humano às cidades e que estas recuperassem a dimensão humana.

O nosso pior inimigo é a globalização?
Sim, sem dúvida. A globalização é o aspecto económico de um fenómeno mais amplo e anterior: o mundialismo, matriz doutrinal de que a globalização é a aplicação económica. Já no início do século XX aparecem algumas tendência “mundialistas” sempre nos contornos da maçonaria internacional. Há que dizer que a maçonaria foi o laboratório de ideias da burguesia laica, republicana e liberal. Já nos finais do século XX trabalhava com a ideia de “unificar a humanidade”. Esse projecto teve em 1945 um novo impulso até ao ponto que algumas correntes maçónicas considerarem a fundação das Nações Unidas como o inicio da “era da luz”. A partir de 1945 a soberania dos Estados nacionais ficou limitada face a uma entidade supranacional controlada durante 40 anos pelas duas superpotências. Quando caiu a URSS e depois da Guerra do Koweit afirmou-se que tínhamos chegado ao “fim da História”, ou seja, ao período onde não haveria conflitos nem contradições e que, por isso, não haveria História, havendo no seu lugar forças económicas que operavam a nível mundial e que contribuiriam para construir um “mundo feliz”. Hoje sabemos que a livre circulação de capitais levou directamente à globalização e a esta crise económica que é, ao mesmo tempo, a primeira da globalização e talvez seja a última: o capital açude à chamada de novos benefícios e ultrapassa fronteiras constantemente, passa de um país a outro, sem fixar-se em lado algum, sempre à espera de maiores expectativas de lucro. O resultado é a instabilidade económica internacional e a formação de “bolhas” que nascem, crescem, rebentam, semeiam a dor, a ruína e a crise em certas zonas do planeta, para transferir-se imediatamente a outras gerando o mesmo impacto. Resumindo, o grande inimigo do ser humano é, hoje, a globalização.

Como podemos combatê-la?
É evidente que a competição entre diferentes economias apenas é lícita e aceitável quando ambas têm as mesmas condições de vida, os mesmos níveis de desenvolvimento e o mesmo tipo de protecções sociais. Quando na Europa o salário médio é de mil euros (na Europa do Sul) e na China é de 175 euros é evidente que não há concorrência possível. A indústria de manufacturas mudará sempre para onde seja mais barato produzi-las: as economias europeias que não podem desvalorizar a moeda, o que fazem para “ganhar competitividade” são “desvalorizações sociais”, limitando e reduzindo os salários. Mas estes nunca alcançarão os níveis da China, muito menos os do Vietname (133 euros por mês), nem os de África (apenas 50 euros por mês)... Assim, para combater a globalização, o primeiro a fazer é um rearme tarifário. O segundo é criar zonas de livre mercado homogéneas, ou o mais homogéneas possível.

Como vê a crise actual? É uma consequência da globalização?
Sim, sem dúvida. Não creio que haja saída. Quando se resolver a crise na Europa (no próximo ano prevê-se um crescimento do PIB em Espanha e que a crise acabará com um crescimento reduzido), a crise rebentará no Brasil e noutras zonas da América do Sul e provocará a quebra brusca das importações da Europa, porá bancos europeus em dificuldades e voltará a aparecer no Velho Continente o fantasma da crise extrema. Creio que esta é a primeira grande crise da globalização, mas à medida que avança temo que também seja a última. Quem diz globalização diz instabilidade e não pode existir uma instabilidade permanente. Esta, antes ou depois, acabará por desintegrar o sistema económico mundial.

Não é apenas uma crise europeia. Como está a afectar outros países?
A crise actual começou nos EUA no Verão de 2007 e depressa contagiou a Europa. A livre circulação de capitais fez com que o contágio fosse especialmente rápido. Agora, o elemento central da crise foi o aparecimento de “bolhas”. A imobiliária e a do crédito foram as centrais. Os preços da habitação tinham subido excessivamente, construía-se mais do que se podia consumir e a um preço insuportável para as populações. Apesar disso, os bancos davam créditos fáceis porque acreditavam que o preço das casas continuaria a subir. Mas, de repente, tudo parou. A bolha rebentou. Os bancos ficaram descapitalizados e em bancarrota. Ora, este processo que se viveu no “primeiro mundo”, essencialmente na Europa e nos EUA, corre o risco de se reproduzir agora, exactamente com as mesmas características em países como o Brasil e outros da América do Sul. O capitalismo move-se sempre em busca de maiores benefícios e pouco lhe importa como se obtêm ou os ensinamentos de experiências passadas. O que importa é apenas o lucro imediato. Sim, a crise continuará nos próximos anos porque as exportações europeias para as zonas que proximamente se verão afectadas pelo rebentar de novas e sucessivas bolhas pararão bruscamente. E, quando a crise acabar na América Latina, rebentará na China. Não, não há qualquer possibilidade do sistema económico mundial sobreviver a estas crises sucessivas.

O sistema político actual tem alguma solução ou está submetido ao poder económico?
Creio que esta questão é o núcleo de todo o problema: a economia governa a política. Na globalização a democracia é uma ficção porque o capital é detido por estados maiores cada vez mais reduzidos. A política é luta, criação, destino. A economia é uma ciência auxiliar da política destinada a satisfazer as necessidades das pessoas, não o afã de lucro e de usura de reduzidíssimas elites económicas. É preciso não esquecer isto: enquanto a política não voltar a conter as mais enlouquecidas ambições dos senhores do capital, não há possibilidades de acabar com a crise. Agora, é evidente que os políticos actuais não têm capacidade nem formação, nem sequer interesse suficiente, de tomar as rédeas dos novos destinos das suas nações; isso apenas os verdadeiros estadistas são capazes de fazer e o que temos são pobres espertalhões, corruptos, incapazes, egomaníacos que constituem o essencial da classe política dirigente. Há que renovar esta classe política, forjar uma nova classe política que recupere o destino dos povos e imponha as directrizes políticas à omnipotência da economia.

Como vê a questão da imigração?
Creio que a imigração é uma ameaça contra a identidade europeia. Há duas ameaças geradas pela globalização: a deslocalização e a imigração maciça. Ambas têm como denominador comum a optimização dos rendimentos do capital.

Afirma que a família é a base da identidade. Há um ataque à família?
Qualquer sociedade articula-se em torno de uma comunidade básica. A tradição diz-nos que sempre foi em torno da família. Mas esta hoje está destruída. Gostava que houvesse um país europeu que aprovasse uma lei em defesa da família. Mas não espero nada nesta direcção, antes pelo contrário. A família era de tal forma tida como essencial que em Roma era considerada como uma instituição sagrada. Se olharmos para as orientações da UNESCO – matriz intelectual da globalização – veremos que os ataques à família são uma constante. E é a família a instituição em que se forja e transmite a identidade dos povos. Não é estranho que a UNESCO a considere como o principal inimigo a abater. Da mesma forma que nós a consideremos a primeira instituição a defender.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Habitar um mundo e enraizar-se nele


Cabendo aos homens dar um sentido àquilo que não o teria sem eles, estes não são, do mesmo modo, dotados do poder de se eximir da sua existência específica. A utopia do “sujeito” pela razão, da emancipação dos laços e das normas, produziu os resultados brilhantes que sabemos. O individualismo moderno pretendia fazer do homem um ser autónomo, auto-suficiente, livre de qualquer vínculo cósmico, étnico, e mesmo sexual, um igual entre iguais. Vimos bem! Tendo perdido a protecção asseguradora das antigas comunidades e das antigas crenças, o indivíduo rei é mais cedo ou mais tarde tomado pelo pavor do vazio e da angústia. Refugia-se então nos estupefacientes do consumismo e na hipertrofia de um “eu” escravo dos seus desejos.

A experiência conclusiva do niilismo ensina a contrario que ser homem é ser de algum lado, pertencer a uma linhagem, a uma tradição, falar e pensar numa língua anterior a toda a memória, que recebemos sem o saber e que forma a percepção de modo definitivo. Ser homem é habitar um mundo e enraizar-se nele. As nossas raízes, os nossos laços ancestrais, os da cultura e dos valores, fazem-nos homens e mulheres reais, ligados à natureza, herdeiros sem mérito, dotados de uma identidade, mesmo quando a recusamos.

Para qualquer homem não desnaturado, o centro do mundo é o seu país, ou seja um território, um povo, uma história, uma cultura e a representações incomparáveis ou irreduzíveis a quaisquer outros. Este país é o efeito de uma escolha para aquele que está dividido entre várias origens. Maurice Barrès, chantre do enraizamento, era de uma família de Auvergne, mas quis-se loreno. As migrações da nossa época multiplicaram as “mestiçagens” de maior envergadura, o que não se passou sem dramas nem desgostos. Num dos seus livros, Jean Raspail evoca assim uma ilha das Antilhas onde foram eliminados os índios caribenhos, vítimas dos micróbios europeus e das mestiçagens com os antigos escravos negros. Todavia, certos mestiços em cujas veias ainda corriam algumas gotas de sangue caribenho, reclamam-se desta herança e, pateticamente, mantêm-na no coração. Podemos objectar que não basta querer-se caribenho para sê-lo. Pelo menos é-se qualquer coisa. E mesmo quando o suporte é imaginário, ajuda a viver.
Ajuda também a responder à questão fundamental entre todas: quem somos nós? A esta questão eterna, os homens e os povos respondem com aquilo que para eles mais conta. “Eles definem-se em termos de linhagem, de religião, de língua, de história, de valores.” [1]

Não é necessário opor-se aos outros para ser consciente de si próprio, se bem que nunca nos afirmamos tanto como quando nos opomos. Sentimos igualmente melhor o calor do clã se estivermos sob a ameaça de um inimigo. Supomos que este é tão necessário ao bem-estar moral como o amigo e não apenas para favorecer a manifestação de uma identidade. Podemos confiar na fortuna para prodigar tais benefícios. Os povos raramente vivem no isolamento, verdadeira condição da paz. Desde que se ladeiam os territórios étnicos, económicos ou espirituais, o conflito surge. E aí os homens raramente são mestres. É por isso que Homero imputava aos deuses a causa da guerra.

Dominique Venner
in "Histoire et Tradition des Européens – 30 000 ans d’identité"

[1] Samuel Huntington, O Choque das Civilizações. Este ensaio chama a atenção para o novo fenómeno dos conflitos de civilizações que o passado já conheceu em contextos diferentes, helenismo contra asiatismo, Cristandade medieval contra o islão, etc. No entanto, não seguimos Huntington na sua intenção de englobar os Estados Unidos da América e a Europa no seio da mesma civilização “ocidental”, que definiria uma mesma ideia do direito, o que ainda falta demonstrar. Historicamente, os Estados Unidos constituíram-se contra a Europa e os seus valores. Representam uma utopia do desenraizamento oposta ao enraizamento e ao espírito trágico da Europa. Para além de que durante as duas grandes guerras do século XX, a participação dos Estados Unidos foi ditada pela sua necessidade de impedir a constituição de uma potência continental capaz de escapar a sua hegemonia comercial e marítima.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Local contra global

Um estudo da Deco-Proteste revelou que Lisboa e Porto são as regiões com os supermercados mais baratos e que os mais caros ficam em Bragança, Guarda e Beja. Ou seja, os preços são mais baixos nas grandes cidades e mais altos no Interior. A explicação, garantem os “especialistas”, está na concorrência. Nos sítios onde há maior concentração de superfícies comerciais há maior tendência para uma guerra de preços de modo a atrair clientela. Conclusão, numa óptica puramente consumista, é melhor viver nas grandes cidades.

Ora, é exactamente essa a tendência do mundo globalizado, esse grande mercado planetário onde as fronteiras se desvanecem e as pessoas passam a ser meros consumidores. Desenraizados e uniformizados, os cidadãos passam a reger-se pelas leis do mercado, sendo apenas a última unidade de uma imensa linha de produção.

Este projecto de sociedade massificada encontra o seu maior obstáculo nas pátrias e nas comunidades nacionais e locais. Não se trata de uma consideração filosófica etérea, mas algo que podemos e devemos aplicar à nossa escala.

No caso dos produtos que consumimos, a crise veio recordar-nos que podemos bem viver sem os excessos e fez-nos repensar as nossas prioridades.

Perante os dados sobre as diferenças de preços nos supermercados, é tempo de recuperar as economias locais que foram arrasadas pelas grandes redes de distribuição. Não só teremos melhores preços nas pequenas localidades, como se dinamizarão zonas constantemente “esquecidas” do País, mantendo tradições antigas, devolvendo-lhes a vida.

A luta do local contra o global começa na nossa terra e estende-se à nossa pátria. É uma luta pela nossa identidade.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ler Venner


É sempre revoltante a falta de respeito que caracteriza aqueles que, baseados numa notícia tendenciosa e telegráfica sobre a morte de Dominique Venner, opinam de papo cheio, do alto da sua ignorância. Nota-se à légua que nem uma linha leram da extensa obra deste historiador. Mais, nem o nome dele sabem pronunciar... Leiam. E depois falem.

Abaixo reproduzo o post escrevi há uns anos, intitulado "Que ler? Venner!":


O Miguel Vaz releu "O Século de 1914", uma obra imprescindível de Dominique Venner, publicada em Portugal no ano passado pela Civilização, com tradução de Miguel Freitas da Costa. Este é realmente um livro para ler e reler, e para depois a ele continuar a recorrer. Por isso o Miguel diz que se tornou "de cabeceira". Eu li-o pela primeira vez no original, em francês, e reli-o em português. É, de facto, um livro inspirador, que cito amiúde. Uma síntese formidável para melhor compreender o século XX e perceber a actual situação da Europa.


Da ampla bibliografia de Venner, há outro livro que, na minha opinião, é ainda mais importante: "Histoire et tradition des Européens. 30 000 ans d'identité". Esperemos que um dia seja também traduzida para a nossa língua. Este regresso às origens, às referências europeias maiores, é um apelo ao renascimento de uma identidade multimilenar.


Referência ainda para outro livro excelente, "Le Coeur Rebelle", onde Venner faz uma reflexão autobiográfica profunda, falando do activismo político, da guerra, da prisão e da forma como mudou ao longo da vida sem no entanto se arrepender do passado.


Por fim, não me canso de recomendar aqui a óptima e obrigatória "La Nouvelle Revue d'Histoire", dirigida por Dominique Venner, que se vende nas bancas portuguesas.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cadernetas de cromos (XVIII)

Regresso às cadernetas de cromos, com uma que tem a particularidade de me ter sido oferecida por um amigo depois de eu ter começado a divulgar aqui as muitas cadernetas antigas que herdei.



Trata-se de Homens, Raças e Costumes, uma colecção sem data, mas que muito provavelmente foi publicada no nosso país em 1976, pelas Edições Francisco Más, composta por 295 cromos. Tal como a anterior Raças Humanas, esta caderneta será hoje por muitos considerada politicamente incorrecta, apesar de se limitar a mostrar a diversidade humana. Diz-nos a introdução que "embora pertençamos à mesma espécie não somos iguais de aspecto exterior. Agrupamo-nos dentro de uma variedade de tipos de características comuns - que formam as raças." E sobre o nosso continente diz: "Se não foi o berço da civilização, A Europa pode considerar-se como a parte do globo onde a civilização encontrou a sua pátria adoptiva, florescendo na completa organização intelectual e cultural dos nossos dias. No aspecto humano, pode afirmar-se que os europeus pertencem, ou pertencemos, ao tronco Caucasóide, ou Raça Branca (...)"

É nestas alturas que me lembro de um slogan que não se podia aplicar melhor: 0% Racismo. 100% Identidade.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O “português”

Eu sou, talvez, português porque para mim o português é isso: o mundo, a miscigenação, a interculturalidade.” Esta afirmação é do recém-anunciado candidato à presidência da República, Fernando Nobre, publicada na edição de ontem do semanário «Expresso», que o entrevistou.

Claro está que cada um tem o direito às suas opiniões ou, neste caso, às suas definições. Apesar da incerteza demonstrada à partida naquele “talvez”. O que lamento, sinceramente, é não haver um candidato que afirme, claramente, que o português é: Portugal, um Povo, uma Cultura.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ainda a identidade francesa

O jornal «Público» dedica hoje quase duas páginas ao debate sobre a identidade francesa de que falei aqui. Poupo-me a comentar o tom da notícia, definido a priori no título, "Definir o que é ser francês servirá apenas para cortar na imigração?", mas mantenho a esperança que este debate inspire outros na Europa, incluindo no nosso país.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Debater a identidade nacional

É curioso notar a grande participação em França no debate sobre a "identidade nacional", lançado no ano passado pelo Ministério da Imigração, da Integração, da Identidade Nacional e do Desenvolvimento Solidário, que criou para o efeito um sítio na internet. A questão fundamental é aparentemente simples, mas acaba por ser complicada: para si o que é ser francês? Claro está que, apesar de algumas vozes discordantes, este debate se deve à elevada imigração e a todos os problemas causados pelos imigrantes de segunda e terceira geração, na sua maioria franceses.

Independentemente do resultado, só o mero facto deste debate ser colocado demostra bem que a identidade é algo demasiado importante para ser relegado para segundo plano e que preocupa e motiva as pessoas, ao contrário do que nos querem convencer os partidários da mundialização e da sociedade uniforme.

Para quando um semelhante debate em Portugal e em outros países europeus? Para quando um debate sobre a identidade europeia?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O busto de César

Em Maio deste ano, o Ministério da Cultura e da Comunicação francês anunciou uma excepcional descoberta arqueológica subaquática, em Arles, de um busto de Júlio César em mármore. No último número de «La Nouvelle Revue d'Histoire», Dominique Venner acompanhou esta notícia com as reflexões que a mesma lhe inspirou. Afirmando, em primeiro lugar, a sua desconfiança do culto dos grandes homens, diz-nos: “Este rosto podia ser de hoje em dia, mas podia também ser mais antigo. O que é espantoso é até que ponto este rosto viril, esculpido pela vida, é o de um Europeu (Bóreo), um tipo humano particular que atravessou os tempos. Não é um Japonês, nem um Chinês (Han), nem um Africano desta ou daquela origem, e também não é um Semita como vemos sob o arco de Tito. E acrescento que a minha benevolência é devida a todos os representantes da diversidade humana desde que eles respeitem a minha. Mas acontece que o rosto de um Europeu, tão antigo e célebre como o de César, desperta em mim uma emoção particular, como a de Ulisses após a reconquista de Ítaca. Tal lembra-me que nós não nascemos ontem e que andamos nos passos dos nossos antepassados, conhecidos ou desconhecidos, que nos fizeram aquilo que somos sem parecenças com outros. Eu existo por aquilo que me distingue, pelo que me identifica àqueles que me são próximos pelas origens, partilham um mesmo passado, um mesmo destino, os mesmos valores constituintes, energia intrépida, vontade de excelência pessoal, culto da Pátria, espírito trágico. (...) César é um Europeu superior em quem nos podemos reconhecer.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Entrevista com Pierre Krebs

A não perder no inconformista a tradução da entrevista com Pierre Krebs feita por Luis Anza para o n.º 1 do jornal espanhol «Identidad», publicado em Outubro de 2007, após o lançamento do livro La Lucha por lo Esencial. Pierre Krebs é licenciado em Direito, Jornalismo e Ciência Política, doutorou-se em Filosofia, com a tese “Paul Valéry face a Wagner: medida de proximidade”, e é professor de História e Política. Dirige a associação Thule-Seminar, é conferencista e colaborador de vários meios de comunicação franceses e alemães, director da revista Elemente der Metapolitik e escreveu vários ensaios sobre política e sociologia, entre os quais Im Kampf um das Wesen, já publicado em francês e agora em espanhol.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

“Una vittoria della nostra identità”


Para desgosto dos pregadores do multiculturalismo, a selecção francesa perdeu na final do Mundial contra a selecção italiana. Sabendo a carga política que tem o extraordinário fenómeno do futebol, podemos considerar este o acontecimento mais politicamente incorrecto do ano. De tal maneira estava preparada a festa da mestiçagem, que nem o comportamento anti-desportivo inaceitável de Zidane o impediu de ser considerado o melhor jogador do campeonato.

O que é facto é que, numa Europa assaltada diariamente por milhares de imigrantes do terceiro mundo e onde a utopia do multiculturalismo e da integração provocam uma imparável escalada das tensões étnicas e raciais, a vitória de uma equipa de nacionais sobre uma de nacionalizados é um duro golpe contra os chantres da destruição dos povos.

O que muitos pensaram e se coibiram de dizer, receando o terrorismo intelectual, ouviu-se nas palavras de Roberto Calderoli. O vice-presidente do Senado italiano e ex-ministro afirmou, sem papas na língua, que “Berlim foi uma vitória da nossa identidade”, dizendo que a equipa francesa “sacrificou pelo resultado a sua identidade ao fazer alinhar negros, muçulmanos e comunistas”.

terça-feira, 13 de julho de 2004

Identidade

Este tema tem dado muito que falar nos últimos dias por esta blogosfera fora. Infelizmente, caiu-se (como também noutros temas) numa acesa troca de insultos que não serve a ninguém. A defesa da identidade, a que se começa a assistir um pouco por toda a Europa, incomoda muita gente. "A ideia de identidade é como um espinho no pé da ideologia igualitária e universalista dominante", disse Guillaume Faye. Tal significa que o combate identitário é urgente e necessário.

A inversão dos papéis
Anteriormente, estávamos habituados a apenas considerar o combate identitário como algo próprio de povos não-europeus. Era o eurocentrismo oitocentista a falar. Existia a convicção de que o Velho Continente seria eterno sem que para isso precisássemos de fazer alguma coisa. Actualmente, a realidade é outra. A Europa assiste hoje a uma invasão do seu território por povos que não só não desejam integrar-se, como começam a impor as suas culturas.

Contra a massificação: afirmação.
Aquilo a que hoje chamamos “ocidentalização” é a doutrina vigente da massificação dos povos e das culturas. É um dogma politicamente correcto e, por isso, indiscutível. Quem o questionar será automaticamente considerado “racista”, mesmo apesar de não se considerar superior a ninguém, nem querer aniquilar ninguém. Assim, a única defesa é a afirmação da nossa identidade sem complexos. Devemos poder ter orgulho em sermos portugueses e europeus. A defesa da identidade é um direito e um dever de todos os povos. Os europeus não podem ser os únicos a quem este direito é negado. No nosso país assistiu-se, por exemplo, à defesa da etnia maubere em Timor contra uma Indonésia colonizadora e uniformizadora, destruidora da identidade daquele povo. Por que não podem os portugueses e os europeus fazer também esse combate identitário?

Identidade
A identidade assenta, como muito bem teorizou Robert Steuckers, na continuidade. A sua defesa não se faz com um imobilismo conservador, mas eternizando a corrente da qual somos hoje um elo. A identidade é, assim, dinâmica, permitindo a sobrevivência de um povo ao longo da História. No entanto, como afirma Guillaume Faye na obra “Pourquoi nos combattons”: “A identidade étnica e a identidade cultural formam um bloco: a manutenção da herança cultural e o seu desenvolvimento supõem uma proximidade étnica no seio dos povos. (...) O primeiro fundamento da identidade é biológico; sem ele, os dois outros níveis, cultural e civilizacional, não são duráveis. Dito de outra maneira, a identidade de um povo, da sua memória e dos seus projectos assenta antes de tudo sobre disposições concretas e hereditárias. (...) Mas a base biológica não pode por si própria assegurar a perenidade de uma cultura se lhe faltar a vontade do povo e das elites.

Etnia; cultura; vontade: identidade.