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terça-feira, 22 de outubro de 2013

"As multinacionais são cancros que têm nos seus genes o lucro ilimitado"

Em entrevista ao jornal «Arquitecturas», Hermann Knoflacher, director do Instituto do Planeamento e Tecnologia de Transportes, da Universidade de Viena, afirma que "deixámos de construir as cidades para as pessoas".

De facto, cada vez mais vemos que o nosso habitat urbano é centrado no automóvel. Para Knoflacher, em Portugal "gastou-se mal o dinheiro da UE. Enquanto noutros sítios estão a eliminar as auto-estradas, aqui continuam a construí-las". Para este professor universitário, que é agricultor nas horas vagas, esta estratégia está errada. Isto porque, segundo ele, "as auto-estradas não empregam pessoas. O dinheiro deixa de circular no bairro. O que é pago com cartões de plástico nas grandes superfícies sai do país".

Sem papas na língua, afirma que "as multinacionais são cancros que têm nos seus genes o lucro ilimitado". Assim, ter demasiadas estradas e carros é mau para a economia nacional, porque "este sistema de transportes rápidos favorece a centralização do poder". Ou seja, as multinacionais, as mesmas que, nas palavras de Knoflacher, "controlam os Estados hoje em dia".

Sobre Lisboa, diz que não é das piores cidades, porque "tem pessoas na rua" e sugere a criação de mais zonas pedonais e o investimento em transportes públicos.

Hermann Knoflacher vive numa quinta a 24 km do seu local de trabalho, para o qual se desloca diariamente de metro e comboio. Acredita que é possível viver sem carros, ou pelo menos com uma percentagem muito inferior à que existe hoje em dia. Para ele, é uma atitude evolutiva. "Os condutores estão sentados nos carros como os ancestrais macacos estavam nas árvores. Temos que voltar à nossa posição erecta", afirma.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Em directo da Síria



Uma delegação italiana da Frente Europeia de Solidariedade pela Síria visitou a Síria no final do último mês de Agosto, enquanto nos Estados Unidos o Presidente Barack Obama anunciava uma intervenção militar iminente. Os activistas italianos estiveram em Damasco e Tartus, foram recebidos pelas autoridades sírias e puderam testemunhar em primeira mão a situação do povo sírio num violento conflito que já causou milhares de mortos e milhões de deslocados. Numa entrevista exclusiva, o Dissidente.info fez algumas perguntas Davide Di Stefano, um dos elementos da Missão que esteve presente na Síria.

domingo, 6 de outubro de 2013

“Os comunistas portugueses pararam no tempo”

Há cerca de duas semanas entrevistei José Milhazes, a propósito do recém-publicado “Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril”, livro, tem sido alvo de duras críticas do Partido Comunista Português (PCP). A obra vale a pena e a entrevista, publicada na edição de 24 de Setembro de 2013 de «O Diabo», aqui fica, para memória futura.


O DIABO – O seu livro foi alvo de fortes críticas do PCP. Já esperava esta reacção?
José Milhazes – Aqui há dois momentos a assinalar. O primeiro é o facto de a reacção ter saído antes da publicação do livro, o que é extraordinário. Mas é habitual... Faz-me sempre lembrar quando o romance “Doutor Jivago” foi publicado em Itália sem autorização das autoridades comunistas soviéticas, estas lançaram uma campanha contra o autor, Boris Pasternak, na União Soviética, onde faziam reuniões de trabalhadores, onde eles se levantavam e diziam “eu não li esse romance, mas sei que é uma merda”. Por isso, esta reacção não tem nada de inesperado. O segundo momento, que também não me surpreendeu, é que eles reagiram sobre o que talvez lhes causa mais dor e preocupação, que é a questão do desaparecimento de parte do Arquivo da PIDE.

Como se costuma dizer, quem não deve, não teme...
Exacto. No mínimo, aqui há gato. A reacção do PCP não me surpreendeu, eu ficaria surpreendido era se o PCP não tivesse reagido e não tivesse reagido da forma como o fez. Ou seja, da mesma forma clássica que, no caso do meu livro foi primeiro com um comunicado e depois com insultos, e no outro caso foi o famoso álbum publicado pelo Avante com fotografias “retocadas”, o que é uma velha tradição soviética...

Não acha estranho que se repita essa forma de agir nos dias de hoje?
O problema é esse, ele pararam no tempo. O PCP vive num mundo que já não existe há muito tempo.

É por isso que o seu livro se baseia em documentos e testemunhos?
Quando se escreve História, especialmente uma História ainda recente – são 40 anos – e sobre temas muito sensíveis tem que se ter muito cuidado. Ou se justifica e encontram documentos e declarações que confirmam aquilo que se está a escrever, ou não vale a pena escrever. Eu não sei escrever livros de ficção.

Mas mesmo assim atacaram-no...
Sim. Por exemplo, uma das acusações que me foi feita, na internet, foi porem em causa a conversa entre o Gorbachov e o Cunhal, que eu retirei do Arquivo da Fundação Gorbatchov. Fui acusado de que a conversa entre os dois dirigentes era tão primitiva que fazia lembrar uma redacção da 3.ª classe. Neste caso, disse que não respondo pelo QI dos políticos. Não posso pegar nesse dialogo e transformá-lo numa conversa altamente intelectual. A conversa foi aquela, o documento foi aquele.

Há aspectos importantes que não criticam...
Porque eles não têm forma de argumentar. No caso dos arquivos da PIDE e como eles não tinham os livros, disseram que era tudo falsidades, porque citam “traidores”. Ora, eu não citei só “traidores”, mostro também como através do Arquivo da PIDE é descoberta uma infiltração da CIA no KGB. Aqui já não são os “traidores” que declaram, são os próprios russos e soviéticos que contam a história. Mas há uma coisa, se eu tivesse dito mentiras flagrantes, era muito simples, metiam-me um processo em tribunal por difamação. Mas eles não vão por aí.

O PCP nega que tenha entregue parte dos arquivos da PIDE ao KGB?
Claro que nega. É claro que pode ter sempre uma explicação ideológica, por ser uma situação revolucionária, no âmbito do internacionalismo proletário, uma ajuda aos irmãos soviéticos a desmascararem as infiltrações da CIA. Quer dizer, pode-se arranjar toda uma panóplia de justificações. Mas eles continuam a dizer que não.

Mas os arquivos estão na Rússia?
Eu acho que eles lá estão. Aliás, já não tenho dúvidas há muito tempo de que eles lá estão.

Acha que algum dia serão abertos ao público?
Sabe que essa coisa do “algum dia” é sempre muito relativo. Porque nós não sabemos o que vai acontecer amanhã. Eu nunca imaginei que a União Soviética acabasse tão depressa como acabou, por exemplo. Neste momento, os arquivos soviéticos estão outra vez fechados a sete chaves, depois da chegada de Putin ao poder. É claro que pode haver uma abertura, mas eu sou muito céptico quanto a isso porque na Rússia há uma grande tradição de se esconder os arquivos.

Qual a importância dos testemunhos dos intervenientes na época?
Perante essa dificuldade de acesso aos documentos, têm grande importância as memórias que são escritas por pessoas que participaram nos acontecimentos, nomeadamente agentes secretos soviéticos que trabalharam em Portugal ou de altos funcionários soviéticos que também estiveram ligados ao chamado período revolucionário em Portugal.

Há um aspecto bastante importante, que é o facto de o 25 de Abril ter surpreendido tanto os soviéticos como o PCP. Dá a ideia que eles estavam a preparar a revolução, mas que perderam o comboio...
Exactamente. A política do PCP enquadra-se facilmente na ideologia marxista-leninista e na experiência russa. Tal como Lenine defendeu a teoria da transição da revolução burguesa para a revolução proletária, em 1917. Álvaro Cunhal seguiu, como se costuma dizer, a cartilha tradicional, quis transformar a revolução burguesa em proletária. Daí vem a política em relação à reforma agrária, às nacionalizações, etc. Eles não inventam nada de novo. Apenas conseguem uma coisa que é diferente, pois atingiram algumas metas antes da “revolução proletária”, como foi a reforma agrária e a nacionalização de uma grande parte de empresas, pois isso devia acontecer depois da revolução e não antes. Isto dava-lhes a ideia de que teriam grandes possibilidades de chegar ao poder.

Mas o interesse principal dos soviéticos não era a África portuguesa?
Dentro da direcção soviética havia várias opiniões. Havia os que, tendo informações de que o PCP dominava as Forças Armadas, defendiam que se devia avançar. No entanto, havia outros, mais sensatos, como Gromiko e Brejnev, que achavam que não podiam comprometer o desanuviamento e o processo de Helsínquia em causa com uma revolução comunista em Portugal. Agora, a questão das colónias é interessante porque gera a questão de ter havido, ou não, um novo tratado de Tordesilhas, entre soviéticos e norte-americanos. Ou seja, um acordo no qual era definido quem ficava com o quê.

Acha que houve um acordo desse tipo?
Há uma questão que me leva a pensar que teria havido, pelo menos em termos verbais, algum acordo de cavalheiros. Angola passou para a esfera soviética completamente, excepto no petróleo de Cabinda, esse continuou a correr para os Estados Unidos. Tinha que haver um acordo, porque eles podiam nacionalizar aquilo e correr com os norte-americanos, que vinham de uma derrota no Vietname. O Governo marxista do MPLA continua a permitir um “tumor” capitalista, ainda por cima num sector tão importante para Angola como é o do petróleo...

A geopolítica fala mais alto que a ideologia...
Exactamente. No meu livro tento, embora não em termos geopolíticos, mostrar que Portugal, naquela altura, era um peão muito importante no jogo da Guerra Fria. Há um combate intenso pelo nosso país. Isso aí seria uma questão de princípio para a NATO ou para a Europa Ocidental, que era ter no extremo ocidental europeu uma nova Cuba, ou uma nova Coreia do Norte, não sei para onde iriam os ventos... Isso rebentaria completamente com todo o processo de Helsínquia e até com os resultados da Segunda Guerra Mundial e a definição de fronteiras que existia na Europa.

Em relação a Álvaro Cunhal, parece que vivemos um verdadeiro processo de santificação...
Exactamente. O Papa Francisco deve andar muito preocupado com esse problema (risos). Por isso o papel dos historiadores é importante, porque não operam com mitos, operam com personalidades e personagens da História. Neste caso, estamos perante uma personalidade multifacetada e muito complexa da nossa História recente que devemos analisar de vários pontos de vista. Por exemplo, eu não coloco em causa o facto de Álvaro Cunhal ter dado um contributo para a queda do chamado Estado Novo. Agora, o que eu chamo a atenção é para que é necessário analisar o outro lado da moeda, que é: qual é o programa político que ele propunha para o nosso país? Isso tem tanto peso como o anterior.

O programa continua a ser o mesmo hoje?
Não tenho dúvidas. Pelo menos em termos programáticos não tenho visto qualquer alteração em relação aos clássicos do marxismo-leninismo.

E em relação ao tratamento de Cunhal na prisão? Cita no seu livro o espanto de uns dissentes soviéticos com o facto de ele poder receber livros enquanto estava preso, por exemplo.
É lógico, se compararmos com o Estalinismo. É claro que as comparações são sempre muito relativas e não vou estar a dizer que uma coisa era pior que a outra. Venha o Diabo e escolha... Embora estar preso por ideias seja uma violação em qualquer regime, as condições que as pessoas têm nas prisões são muito importantes. Isso até é um sinal de civilização. Agora, entregavam-lhes livros, mas também os torturavam. É verdade, mas tudo isso tem que ser pesado e analisado com calma e sem fazer mitologia. Trata-se de um político, de um homem muito importante na História de Portugal, e é assim que deve ser olhado pelos historiadores, não como alguém que não tem pecados.

Cunhal também era muito privilegiado na União Soviética. Havia uma estratificação dos privilégios?
A sociedade soviética estava extremamente estratificada e essa estratificação reflectia-se em tudo. Até dentro da chamada nomenclatura. Havia uma série de regras, muito fixas, que davam privilégios consoante o lugar que se ocupava na hierarquia política.

Isso vai contra o que era apregoado pela União Soviética...
Exactamente. Mas como dizia Orwell, um génio de futurologia, somos todos iguais, mas há uns mais iguais do que outros. O “somos todos iguais” é um dos mitos que nos tentaram vender de que na União Soviética todos tinham oportunidades iguais. Não. Havia uma estratificação, havia carreira. Penso que uma das causas da queda rápida do comunismo na URSS é exactamente esse. A grande parte das pessoas que estavam no partido não estavam lá por convicção, estavam para fazer carreira. Quando começa a haver problema, saltam fora. Se virmos a actual direcção da Rússia, praticamente todos passaram pelo Partido Comunista ou pela Juventude Comunista.

Como classifica essa atitude?
Hoje chama-se a isso “pragmáticos”. É a classe política mais numerosa na Europa e no nosso país.

E os comunistas de então que descobriam que afinal a União Soviética não era bem o que dizia ser?
Esses eram castigados. Um dos casos mais evidentes é o caso do Chico da CUF. Nesse aspecto, eu não escrevo nada de novo, cito as memórias dele, onde ele mostra exactamente isso. Quem pecava era imediatamente castigado e um dos castigos era o corte nos privilégios.

Mas como é que os seguidores da União Soviética aceitavam isso?
Não se trata apenas de aceitarem. Eles continuam a tentar-nos convencer de que assim é que estava certo. Esse é que é o drama, é continuarem-nos hoje a dizer que eles é que tinham razão.

Porque é que em Portugal não houve um “eurocomunismo” à semelhança de França, Itália ou Espanha?
Não, porque dentro do PCP qualquer desvio era imediatamente cortado. As pessoas eram imediatamente expulsas. Se dentro dos partidos comunistas francês, italiano ou espanhol podia haver lugar para discussão, no interior do PCP qualquer tipo de divergência era castigado com a expulsão. É isso que acontece quando no período da Perestroika soviética, quando se começa a discutir dentro do PCP, a discussão resume-se a uma coisa: quem tem uma opinião diferente da do camarada Álvaro Cunhal, vai para a rua.

Mas recentemente, com o chamado grupo dos chamados renovadores comunistas, aconteceu o mesmo...
Mas isso é normal em partidos de estrutura estalinista como tem o PCP. E vai continuar assim. Ou há alguma mudança de rumo, ou então vão continuar assim, eternamente, até que se justifique a existência deles.

Qual o objectivo principal do seu livro?
Eu quis dar o meu contributo para as pessoas perceberem o que se passava na União Soviética naquela altura em relação a Portugal. Esta foi a minha principal ideia. Agora, tentarem desviar as atenções, acusando-me de dizer mal do Cunhal e outras coisas, não é verdade. É por isso que eu digo ao críticos que não lêem o livro, primeiro leiam e depois critiquem à vontade.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Entrevista com Alberto Buela

Alberto Buela, filósofo argentino e professor catedrático, esteve em Lisboa no passado dia 6 de Outubro a convite da “Finis Mundi”, revista dirigida pelo Flávio Gonçalves, da qual é membro do Conselho Científico. A apresentação do n.º 5 foi feita por mim, enquanto director de “O Diabo", ‘media partner’ da revista, perante uma assistência interessada, que depois teve a oportunidade de ouvir uma conferência de Alberto Buela sobre a Teoria da Dissidência. Aqui fica a entrevista publicada na edição desta semana de “O Diabo".


Alberto Buela e Duarte Branquinho


 O que o trouxe a Portugal?
Em primeiro lugar, vim pelo vinho verde (risos), que é melhor que champanhe! E eu venho de um país que produz vinhos muito bons. Também já provei o bacalhau, que é um peixe de ricos. Os portugueses são ricos que agora se tornaram pobres, mas que não perderam o bom gosto, o que é fundamental.
A vinda aqui nasce de um convite de uma Universidade espanhola ao qual se seguiram outros, incluindo de França. Mas vim a Portugal primeiro por vontade própria, porque sempre me interessou o mundo português, depois porque queria conhecer um filósofo português, porque a seguir à guerra eram todos marxistas, por fim, vim por causa do convite formal da revista “Finis Mundi” para falar um pouco na apresentação do número que teve a amabilidade de publicar um texto meu.

O tema era a Teoria da Dissidência. De que se trata?
Trata-se de utilizar a dissidência como um método para terminar com a Teoria do Consenso, com o pensamento único, com o politicamente correcto. A primeira exigência é a preferência de si mesmo. Saber quem somos, dizer ao outro quem somos e esperar que nos diga quem é. É um sistema de valores, que são polares, em termos filosóficos. Quer dizer, temos que preferir um ou outro, não podemos querer os dois. A seguir temos que fazer uma recuperação das tradições nacionais, reencontrar o nosso ‘genius loci’. A dissidência mata o simulacro em que hoje vivemos.

Falou sobre a Universidade hoje e a ultra-especialização. É um grande problema?
Sim. As Universidades perderam o sentido, produziram investigadores da “imortalidade do caranguejo”, ou seja, grandes especialistas no mínimo.

Acha que surgirá de novo um tempo para os grandes pensadores, para os verdadeiros filósofos?
Não sei o que se passará no futuro porque o voo de Minerva, que é o símbolo da Filosofia, parte quando a realidade já se pôs, ao entardecer. Por isso nós, os filósofos, cada vez que falamos do futuro enganamo-nos. Já sobre o passado somos os melhores... Mas este tema, o do filósofo como aquele que tem uma visão do todo, que tem um pensamento especulativo, foi algo que realmente se perdeu. O pensamento especulativo pertence agora aos jornalistas.

Como assim?
Os jornalistas são os novos filósofos. A Revolução Francesa matou os filósofos e substituiu-os por ideólogos. A sociedade de consumo matou os ideólogos e substituiu-os por jornalistas e artistas. É aquilo a que chamo a pátria locutora. Os jornalistas têm que falar ou ficam sem trabalho. Um jornalista é um mestre de generalidades. É como um antigo filósofo, sem sê-lo. As circunstâncias obrigam-no a ser assim.

Porquê?
Porque o que emana da Universidade é um pensamento conformado, metodologicamente trabalhado. Esse pensamento é estéril e às pessoas não interessa a esterilidade. O público, que é quem manda no jornalismo, quer razões gerais. Por isso um jornalista é um grande ensaísta. As pessoas querem isso, querem soluções gerais, querem coerência. Ora, na Universidade, hoje em dia, nada se produz.

Qual é o pior aspecto da crise que atravessamos?
É a representatividade política. Os partidos políticos de há 50 anos para cá, mais ou menos, tomaram o monopólio da representatividade política. Claro que, como em qualquer monopólio, não permitem a participação de outros. Com o passar dos anos, este monopólio acabou por nos conduzir à crise terminal que estamos a viver.

Era melhor no Estado Novo?
Ninguém pode contestar que Salazar foi uma das principais referências do Estado do bem-estar. Antes de Oliveira Salazar, nada! Como Franco, ou Perón, ele inventa o Estado do bem-estar, que consagra os direitos de segunda geração: o direito ao trabalho, à reforma, às férias, à escolaridade das crianças, à saúde.

E a seguir?
Por exemplo, na época de Soares, havia um compromisso. Não podemos comparar a representatividade dessa altura com a de hoje. Então ainda havia algum compromisso com o socialismo, ou outras ideologias. Agora, os políticos estão apenas comprometidos com eles próprios e com os seus interesses. Hoje vivemos uma oligarquia partidária.

É essa a causa de tantos protestos?
Sim. Quando falha a representatividade política, estalam os protestos. Quando a representatividade é nula, acaba-se na rua. Mas chegamos a um protesto sem conteúdo.

Que pensa dessa vontade do povo?
O povo transformou-se no “público consumidor”. Chegámos ao máximo da sociedade de consumo. Os políticos de agora, Hollande, Sarkozy, Zapatero, Berlusconi, representam oligarquias fechadas. Um corpo endógeno que se alimenta a si mesmo. Por um lado retiram ao povo a representação política, por outro lado recebe da sociedade de consumo um ataque às suas próprias convicções.

O povo está viciado no consumo?
Hegel diz que o consumo é infinito. Há sempre algo mais a consumir. Há sempre um modelo novo, um mais recente. Se eu corro atrás do consumo, acabo por me tornar parte do público consumidor. Heidegger afirma isto, também. Mas nós não podemos, porque o consumo está constantemente a tentar-nos.
Estas sociedades opulentas, de massas, retiraram o carácter político ao povo. É por isso que cada vez que há eleições, se agitam os fantasmas do dinheiro, do trabalho, da recessão.

É um jogo dos governantes?
O filósofo italiano Massimo Cacciari disse que os governos vivem do conflito. Vivem da paz aparente. Os governos pós-modernos limitam-se a administrar os conflitos, não os solucionam. O conflito é parte da sua própria existência.

A actual crise económica é boa para eles?
Exacto. É como para nós, nos países sul-americanos, o tema da insegurança. Em Lisboa não se compara taxa de criminalidade com as cidades sul-americanas, onde se mata diariamente por nada. A insegurança é lá uma política de Estado. Aqui é a crise económica. A política de Estado é garantir que não desapareça a conflitualidade.

Conferência de Alberto Buela em Lisboa

A representação no peronismo era uma solução?
Sim, falo da dupla representação, ou do duplo voto. Era uma representação comunitária. A questão é que era necessário retirar o monopólio aos partidos políticos e dar uma parte à comunidade. Havia uma representação política e uma representação laboral. Mas isto, hoje, nunca será concedido pelos que detêm o poder. O que não significa que deixemos de propô-lo.

Que acha das manifestações de rua?
A manifestação maciça nas ruas não tem eco se não houver uma instituição que a contenha. No peronismo, o povo solto não existe. Apenas o povo organizado, em instituições sociais, em sindicatos.

Hoje, na Argentina, os sindicatos mantêm essa representação popular?
Na Argentina, os sindicatos são a única força que se opõe ao Governo. Em termos de representação, digo que há 13 milhões de trabalhadores e oito milhões estão sindicalizados.

Mas não são sindicatos marxistas, como tantos que há na Europa...
Não. Há alguns socialistas e até uns trotskistas, mas são pequenos. Os maiores são todos peronistas.

Parece que Perón conseguiu que quase todos os argentinos se considerassem peronistas até hoje...
Costumo dizer que a diferença entre Salazar, Franco, Stroessner e Perón é que os três primeiros estiveram no poder cerca de 40 anos, enquanto Perón esteve apenas dez. No entanto, não há hoje um partido salazarista em Portugal, um franquista em Espanha, ou um stroessnerista no Paraguai, enquanto na Argentina quase todos são peronistas.

Qual é esse mistério argentino?
Perón criou instituições sociais. Aliás, fê-las criar, não as criou ele; criou as condições para que estas pudessem surgir. Foi um regime verdadeiramente popular.

Como é que esse regime é visto pela esquerda?
Sempre como “fascista”, claro, com o discurso do costume... Mas o que acontece é que a esquerda quando vai a votos obtém um por cento, enquanto os peronistas têm 70 por cento. Nas últimas eleições presidenciais, por exemplo, os três candidatos eram peronistas.

Alberto Buela em Lisboa

Como vê o discurso político hoje?
É um discurso que se compromete, sem comprometer ninguém. Em campanha ouvimos dizer de vários políticos que vão fazer isto e aquilo. Mas depois, quando não fazem, a culpa é dos outros, do partido, etc. nunca é deles. É um compromisso que não compromete. É o cúmulo do simulacro.

Geopoliticamente, acha que a América Latina e os países ibéricos deviam cultivar um entendimento?
Sim, houve pensadores extraordinários nesse campo, como Oliveira Marques ou António Sardinha, com todas as limitações do seu tempo. Portugal e Espanha, que é o que me interessa, que me afecta existencialmente, equivocam-se no caminho. Ninguém pode negar que um português ou um espanhol seja europeu. Mas não são europeus à maneira centralizada francesa. São outro tipo de europeus. Pode-se ser um europeu diferente sem ter que copiar o modelo francês. Nas últimas décadas, Portugal e Espanha copiaram esse modelo, têm um banco na Alemanha e um parlamento em Bruxelas. Já não são donos do seu destino. Imagine-se o poder de uma moeda conjunta entre os países ibéricos, o Brasil e a Argentina, por exemplo. O Brasil percebeu isto e assume agora um papel central no mundo hispano-americano, porque vê que Espanha não faz nada e Portugal ainda menos.

Voltando a Salazar, como o vê enquanto homem e estadista?
Salazar foi o último político justo do Ocidente. Era um homem de uma integridade absoluta. Conheço até casos em que foram feitos pedidos para a sua santificação. Era um homem honesto e inteligente, que pensava pela sua própria cabeça. Salazar, como Perón, distinguiu claramente entre o político e a política. O político é o poder, a política é a organização do poder. Salazar era um mestre na organização do poder e ao mesmo tempo tinha uma ideia do poder. Foi um justo porque fez na sua altura tudo o que devia fazer, sabendo sempre que o que fazia era militado ao seu tempo. Procurou a justiça social. Foi um católico no poder e, por isso, um pré-moderno. Um católico nunca endeusa o Estado, prefere a pessoa, o ser na comunidade.

terça-feira, 8 de maio de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

Entrevista com Francisco Miguel Valada (II)

Aqui fica a conclusão da entrevista que fiz com Francisco Miguel Valada publicada na última edição de «O Diabo».


Como comenta as atitu­des de Vasco Graça Moura e de Mota Amaral?
Com uma ovação de pé. Os três deputados do PSD-Açores vão ao âmago da questão e têm toda a razão quando falam em “degradação da escrita da língua portuguesa”. Acho interessantes as reacções de determinadas pes­soas relativamente à louvável ati­tude de Vasco Graça Moura. Não ouvi essas pessoas pronunciarem-se sobre os pareceres da consulta que o Instituto Camões (sob tu­tela do MNE) levou a cabo em finais de 2005 e que estiveram a acumular bolor numa gaveta. Proponho que se pergunte aos deputados que votaram favora­velmente o 2.º Protocolo Modi­ficativo se leram esses pareceres, em que os professores Ivo Castro e Inês Duarte recomendavam que este não fosse votado e que o processo do AO fosse suspenso… Note-se que o último parecer chegou ao destino em meados de 2006 e só por iniciativa da deputada Zita Seabra é que os pa­receres foram tornados públicos, em 2008, quando o 2.º Protocolo Modificativo foi votado. Como Vasco Graça Moura leu esses pareceres, é natural que tenha feito o que fez. Outra atitude seria impensável.

E as recentes declarações de Francisco José Viegas?
Percebeu as consequências negativas do AO. Aliás, essa per­cepção não é inédita. O actual secretário de Estado da Cultura já tinha aludido a essa hipótese em Outubro do ano passado. As pessoas esquecem-se de que a pas­ta da Cultura está na dependência directa do primeiro-ministro e que não é o cidadão Francisco José Viegas quem está a manifestar opi­nião. Agora, o Governo, depois de demonstrar sensatez, tem de assumir rapidamente uma posi­ção, dizer quais são as alterações que tem em mente, suspender a aplicação do AO e impedir o desastre completo. Não nos pode­mos dar ao luxo de deixar arrastar este dossier. Deve evitar-se a todo o custo esta fragmentação a que actualmente assistimos. Já se viu que o AO é uma caixa de Pandora ortográfica. Logo, o dossier deve ser imediatamente encerrado.

O actual Governo tem vários membros que se dis­seram contra o AO, mas no entanto não o suspendeu. Porquê?
Porque foi apanhado a meio do processo, com uma Reso­lução completamente abstrusa nos braços. Contudo, deste Go­verno, a única coisa que espero é que suspenda este processo e que devolva o AO à proce­dência. Não há um único argu­mento técnico válido a favor do AO. Se me disserem que o AO é uma questão política, pergunto então por que razão se dirigiram à ACL para negociar o AO, por que motivo pediram a opinião da Associação Portuguesa de Linguística e das universidades. Telefonavam aos embaixado­res, perguntavam a opinião dos ministros e pronto. Poupavam dinheiro, não roubavam tempo precioso a quem dedica gran­de parte da vida ao estudo e o resultado seria exactamente o mesmo. As respostas dos acadé­micos foram para a gaveta, os políticos não leram nem o AO nem os pareceres e tudo ficou como dantes. Até agora.

Há alguma vantagem para a lusofonia com o AO?
O conceito “lusofonia” é a primeira e mais óbvia vítima de todo este processo. Já tive colegas brasileiros que me per­guntaram porque é que “nós” já não escrevemos ‘aspecto’ com cê ou ‘recepção’ com pê. Pois… Es­távamos unidos pelo “aspecto” e pela “recepção” e agora deixá­mos de estar. A única vantagem para a “lusofonia”, e se entender­mos “lusofonia” como a esfera da CPLP, é a de se perceber a falta de rigor como matérias sé­rias são tratadas. Uma decisão sensata da CPLP seria abandonar imediatamente o AO.

Isso explica as reservas de Angola e Moçambique?
Isso e não só. Em Moçam­bique, queixam-se de falta de clareza sobre o que se pretende com o AO e têm toda a razão. Além disso, apresentam argu­mentos económicos e fizeram a avaliação dos custos, coisa que ninguém se lembrou de fazer em Portugal. Repare: Moçambique não adoptou o AO e tem uma estimativa. Pergunte a qualquer responsável português quanto custa o AO. Não sabem, não fazem ideia. Não sou diplomata, mas quando os defensores do AO passam a vida a dizer que há um motor da língua, um centro da lusofonia, que há quase 200 milhões, esquecem-se de que Angola e Moçambique têm uma palavra a dizer. Quando num editorial do “Jornal de Angola” se diz que “nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes”, acho que já percebemos que a fa­laciosa conversa dos dez milhões que não podem ter autonomia ortográfica pode convencer al­gumas almas em Portugal, mas que não convence quem tem meios para se tornar uma potên­cia de facto. Trata-se de matéria diplomática, sensível, mas que foi tratada a camartelo.

O que acha dos jornais, como “O Diabo”, que recu­sam o AO?
Na minha opinião, prestam um autêntico serviço público e são sensatos, ao contrário de ou­tros, que, apesar de discordarem e ainda por cima profundamente do AO, se rendem, em vez de tentarem esclarecer os leitores.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Entrevista com Francisco Miguel Valada (I)

Aqui fica a primeira parte da entrevista que fiz com Francisco Miguel Valada publicada na última edição de «O Diabo».

Agora que começa a entrar em casa dos portugueses, o Acordo Ortográfico (AO) está a gerar cada vez mais polémica e começa a levantar-se uma oposição crescente. Francisco Miguel Valada é intérprete de conferência em instituições comunitárias e reside em Bruxelas. Tem denunciado o AO em vários debates e artigos publicados na imprensa e é autor do livro “Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico”. O DIABO entrevistou-o


O DIABO – O que o mo­tivou a escrever um livro contra o Acordo Ortográfico (AO)?
Francisco Miguel Valada – Motivos exclusivamente lin­guísticos. O AO é um disparate científico, uma precipitação. O AO é uma teoria que não foi aceite pela comunidade cientí­fica. Acontece a muitas teorias. Mas esta teve direito a tapete vermelho. Por si só, esse motivo basta para o AO ser suspenso. A única entidade que não ma­nifestou reservas quanto à apli­cação do AO foi a Academia das Ciências de Lisboa (ACL). A ACL é o órgão consultivo do Governo em matéria linguística e foi a responsável pelo projecto AO em nome do Estado portu­guês. Agora, pense numa obra pública. Quem foi o responsável pela construção da ponte inter­nacional do Guadiana, um pro­jecto internacional? O LNEC? Não. O LNEC emite pareceres e faz estudos. A quem foi ad­judicado o projecto da ponte, ao LNEC? Claro que não. Foi a uma empresa espanhola e à Teixeira Duarte. Imagine que o Estado português decidia con­sultar diversas entidades, a Tei­xeira Duarte tecia loas à ponte e o LNEC sugeria a imediata interrupção do projecto, porque detectara problemas estruturais. Algum dos responsáveis políti­cos deste país que defendem o AO defenderia a construção da ponte? Não creio. Mas defen­dem o AO, sem perceberem os enganos do processo, sem terem lido os pareceres, enfim, muitos sem terem lido o próprio AO.

O seu livro teve boa re­cepção?
O livro deu o seu contri­buto na tentativa de chamar a atenção para um problema que muita gente teima em de­fender sem ler o AO. E através do livro, pelo menos, consegui que algumas pessoas que me disseram ser, em princípio, a favor do AO, declarassem publi­camente a mudança de opinião. A estabilidade de uma norma ortográfica não se põe em cau­sa com argumentos falaciosos. Estas três dúvidas têm exacta­mente o mesmo valor: “como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que concep­ção tem pê mudo e correcção tem cê mudo?”, “como é que um jovem de 15-16 anos pode compreender que Sócrates foi mestre de Platão e que Platão foi mestre de Aristóteles?” ou “como é que um homem de 39 anos pode compreender que Borges Coutinho foi presiden­te do Benfica , João Moutinho joga no FCPorto e José Mouri­nho treina o Real Madrid?”. A resposta que os autores do AO dão à primeira dúvida posso dar eu às duas outras: “à custa de um enorme esforço de me­morização”. E qual é o valor da minha resposta? Zero. Onde está a prova da minha respos­ta? Nenhures. Qual a reacção do poder? Fuga para a frente. António Caeiro traduziu para português a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Quem quiser sa­ber o valor de uma fuga para a frente, encontra-o na página 86, se não me engano.

Acha que a questão do AO passou ao lado dos por­tugueses?
Passou evidentemente ao lado dos portugueses. A prova disso são políticos que utilizam a norma europeia do português e que estão directamente liga­dos à promoção do AO. Pedro Santana Lopes foi quem assinou o acordo ortográfico, em 1990, e em 2012 continua a achar que facto passa a fato; o cidadão Pinto Ribeiro, meses depois de deixar de andar a promover o AO na qualidade de ministro, dizia que «Ato [sic] jurídico é fácil, agora “fato” em vez de “facto”...»; Gabriela Canavi­lhas, em estreia na Assembleia da República, para além de di­zer que o debate ficara lá para trás, disse que se calhar daqui a uns anos ainda escreveria facto com cê. São um núcleo duro, o “grupo do fato”. Se o AO passou ao lado de quem o decidiu, parece-me ainda mais evidente que passou ao lado dos outros portugueses.

Mas parece que agora muitos estão a despertar...
Porque deixou de ser um problema teórico, uma mera possibilidade, para afectar o dia-a-dia das pessoas. Os autores do AO esqueceram-se de que a sociedade portuguesa é grafo­cêntrica. Temos palavra escrita por tudo quanto é sítio. Vera Curiel, minha colega, duran­te a apresentação que António Emiliano fez do meu livro em Lisboa, disse que a morte do AO aconteceria quando este come­çasse a ser aplicado. Nunca dese­jei que este momento chegasse, mas chegou. Esperemos que a profecia se concretize.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Entrevista com Nuno Rogeiro (II)

Conclusão da publicação da entrevista com Nuno Rogeiro ao semanário “O Diabo”, iniciada aqui.


Mudando de tema e falando do nosso país, como vê a política nacional hoje?
Vejo, como todos os portugueses vêem, aquilo que a minha geração vinha dizendo há bastante tempo: que Portugal estava a ser vendido aos pedaços e que tinha desistido dos seus maiores trunfos, que era o facto de poder produzir nacionalmente aquilo que consumia. O facto de termos desmantelado a nossa indústria, as nossas pescas e a nossa agricultura em troca de subsídios. E o facto de não termos aproveitado bem os subsídios estruturais injectados pela União Europeia. Tudo isso consumou aquilo que estamos hoje a ver.

Como aconteceu?
A actual III República não insistiu numa estratégica nacional de preservação da nossa agricultura, das nossas pescas e de parte da nossa indústria. A estratégia nacional de um desenvolvimento autónomo e sustentado, como hoje se diz, não existiu. Esse é o princípio de todos os nossos males. A questão de como chegámos aqui é uma questão menor.

Qual é a alternativa?
Só há duas soluções. Uma é ficar na União Europeia e dentro do Euro e, como se costuma dizer, fazer aquilo que nos consentem e consentir tudo o que nos fazem. Fora da UE e do Euro, talvez houvesse soluções, mas será que os portugueses estão dispostos a andar 30 ou 40 anos para trás?
E mesmo assim, dizer isto é um erro, porque como já escrevi, referindo um artigo na “Independent Review” de um professor canadiano, os grandes anos de desenvolvimento económico em Portugal foram entre 1959 e 1973. Algo que chocará muita gente. Mesmo que se considere que o desenvolvimento nessa altura era mais fácil por existir África, nós nunca explorámos verdadeiramente os chamados recursos ultramarinos.

Como assim?
Em 1974, Angola estava no começo da sua exploração de petróleo, ainda não era o gigante petrolífero que é hoje. Imaginemos o que seria Portugal, voltando atrás, mas tendo a capacidade e o petróleo barato de Angola...

E politicamente?
Há sempre o problema político, mas nós já vimos noutros sítios que quando há dinheiro é possível resolver muitos problemas políticos. Mas não é possível voltar a esse tempo, quando Portugal tinha mais opções. Agora, o que talvez seja possível, é voltar a um tempo no qual Portugal vai ser obrigado a viver com um bolo que tem que ser melhor repartido por todas as pessoas.

Uma última palavra sobre “O Diabo”...
Não tenho acompanhado o destino do jornal nos últimos anos, mas desejo-vos obviamente as maiores felicidades. Acho que é preciso, em Portugal, que as pessoas possam discutir mais e ler mais jornais. Estive ligado a “O Diabo” nos melhores tempos da minha vida, quando era jovem. Passei uma grande parte da minha vida ligado a “O Diabo”, primeiro como colaborador, depois como subchefe de redacção, chefe de redacção e por fim como director-adjunto. Isto entre os anos 80 e finais dos anos 90. Foram quase vinte anos. Foi a minha pequena contribuição para uma luta nacional que eu acho que ainda não acabou.

Publicado na edição de «O Diabo», de 24/1/2012.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Entrevista com Nuno Rogeiro (I)

Nuno Rogeiro é um comentador político com larga experiência jornalística, passou por vários meios de comunicação, incluindo pelo nosso “O Diabo”, onde chegou a director-adjunto. Tornou-se especialista em questões internacionais e é actualmente responsável pelo programa “Sociedade das Nações”, da Sic Notícias. Publicou recentemente “Na Rua Árabe - Causas e Consequências das Revoltas no Médio Oriente”. Fomos a sua casa entrevistá-lo.


O DIABO – Como é que começou realmente esta “Primavera Árabe”? Já que, como afirma no livro, tudo começou fora da “rua árabe”...
Nuno Rogeiro – Creio que assisti aos primórdios da “Rua Árabe”, fora do mundo árabe, no Irão. Quando visitei este país, descobri que por debaixo de uma unanimidade e homogeneidade aparente, característica destas sociedades, havia, de facto, uma pluralidade de pontos de vista e opiniões que poderiam chegar a grandes radicalizações. Por isso é que se costuma dizer que a sociedade iraniana é das “mais democráticas” que há. No sentido de que há sempre uma discussão profunda, mas que não é pública. Muitas das vezes, sendo o próprio Estado a fazer com que essa discussão não seja pública. Fui então percebendo as algumas sociedades muçulmanas não eram aquilo que pareciam. Por trás da aparente unidade existia uma grande série de opiniões que só não eram expressas de uma forma mais positiva porque havia pressões de outros Estados – do ponto de vista militar, financeiro, etc. – ou porque muitas destas sociedades árabes e muçulmanas não são sociedades livres do ponto de vista dos seus direitos civis. E quando não há esta liberdade as opiniões acabam por não passar para o público em geral.

Há um efeito de panela de pressão?
O “Rua Árabe” é a descrição de uma panela de pressão. Mais tarde ou mais cedo as tendências que eram observáveis e que eu encontrei no Irão e noutros países acabariam mais tarde ou mais cedo por vir ao de cima. A questão era saber como é que o governantes controlam esta panela de pressão. Podem controlá-la de várias formas e foi tentado por vários regimes em todo o mundo árabe mas, em geral, não deu resultado.

O que é que está a dar resultado?
Nos países onde as coisas têm decorrido de uma forma menos violenta, como é o caso de Marrocos, tem havido uma tentativa de abertura dos regimes. Que pode dar resultado, evitando para já banhos de sangue. Em outros países, como é o caso da Argélia, onde os militares estão no poder, têm tido resultados até agora. Não se sabe é quanto tempo aguentam mais. Nos outros países em que se tentou uma mistura de abertura e força militar não resultou, que foi o caso do Egipto ou da Tunísia.

O que aí vem será mesmo democracia?
Pode não ser. Estamos a fazer esta entrevista no dia em que alguns institutos de sondagens dizem que os portugueses em geral acreditam cada vez menos na democracia tal como a conhecemos. Portanto, vamos perguntar que democracia. Uma democracia que se traduz no voto maioritário das pessoas e depois a ausência das liberdades civis? Aquilo a que em outros tempos os politólogos chamaram democracia totalitária. A possibilidade de uma democracia do voto em que além disso não há qualquer espaço para a opinião? Poderá ser uma democracia em que há no fundo o semblante de liberdades civis, mas que na prática essas liberdades só estão escritas nas constituições e não podem ser garantidas. Uma coisa que este livro tenta fazer é não forçar uma explicação do fim da história. Nós não sabemos dizer verdadeiramente qual será o fim da história. Há muitas hipóteses em aberto, muitas delas são no sentido de haver mais liberdades civis, outras são no sentido de a actual panela de pressão substituir a antiga. Em que os laicos ou os militares são substituídos por islamitas.

Há o perigo islamita, até através do voto?
A questão da vontade democrática é só uma: ou se decide jogar o jogo até ao fim e tem que se aceitar o voto independentemente do resultado ou simplesmente uma democracia em que aceitamos uns resultados e outros não. A questão é esta. Quando se abre um processo deste tipo é muito difícil voltar a fechá-lo. Até porque nós estamos habituados através da história de que quando os povos desejam algo mais do que pão para a boca - e desejam por exemplo liberdades civis – é muito difícil dizer-lhe “tomem lá o pão e agora esqueçam a liberdade”.

No caso da Líbia, como se explica a mudança repentina da visão da Europa sobre Khadafi?
A atitude europeia foi determinada somente por dois ou três países que se adiantaram. Um deles foi a França, que se adiantou devido a questões de calendário eleitoral. A questão na política internacional é que quando se tomam decisões geralmente essas decisões acarretam consequências. Poderíamos perguntar se a França tinha a noção exacta daquilo que estava, no fundo, a fazer: a forma como estava a acelerar a História. A verdade é que houve uma consequência para a “precipitação” do Sr. Sarkozy, em parte devido ao facto de achar que tinha estado no lado errado da História no que respeita à Tunísia. Tentando desta vez estar do lado certo. Pela primeira vez os europeus tiveram um papel muito mais predominante numa acção deste género que os americanos.

Qual foi, então, o verdadeiro papel e interesse americano nestes países?
Continuo a achar, e há provas nas diversas declarações, que os EUA fizeram, desde o 11 de Setembro, uma aposta extremamente arriscada. Digo arriscada porque podia dar ou não resultado. A aposta era esta: canalizar os ímpetos revolucionários e até violentos de muitos grupos extremistas e salafistas contra os regimes corruptos. O que foi curioso porque ultrapassou todas as expectativas que a Al-Qaeda pudesse ter de todos estes regimes. É uma estratégia arriscada? É uma repetição daquilo que aconteceu no Afeganistão? Esse é o risco, sem dúvida. Qual era a alternativa? Era continuarmos com uma quantidade de regimes que não tinham qualquer tipo de aceitação política, sob a ficção de serem regimes que eram necessários para preservar uma espécie de paz pública e tranquilidade regional.

Qual é o perigo para a Europa caso os islamitas subam ao poder?
Agora há um ajuste de contas dentro do mundo islâmico. Ou seja, o Islão vai ajustar contas consigo próprio. Pela primeira vez nas últimas dezenas de anos, o Islão tem resolver a sua própria casa. O resultado, muito provavelmente, vai traduzir-se em que grupos islamitas vão ganhar eleições em todos estes países. Não tenho muitas dúvidas sobre isso. Já ganharam na Tunísia e no Egipto. No entanto, não acredito na tese de uma conspiração de um círculo islamista que esteja espalhado por todos estes países. O que eu tento demonstrar no livro é que todos estes países têm grupos islamistas diferentes.

Quais as consequências para a Europa?
A primeira consequência para a Europa, que está demonstrada em estatística, foi o afluxo de refugiados para a Itália. Em números que ultrapassaram largamente os que a Itália poderia alguma vez comportar. A segunda, prende-se com as comunidades islâmicas na Europa. Estas comunidades fortaleceram-se nos últimos dez anos, sobretudo na França, na Bélgica, de certa forma também em Itália, e todas elas estiveram a apoiar estas revoltas árabes. É muito difícil pensar nas revoltas egípcias ou sírias sem pensar nas comunidades destes países a viver, por exemplo, em Paris. A terceira, é haver uma pressão de vários Estados fundamentalistas que possam querer avançar com um cenário militar contra a Europa. Já o vi descrito em vários sítios, pessoalmente não acredito e acho que é uma possibilidade extremamente remota. Simplesmente porque estes Estados querem tratar da sua própria vida e não embarcar numa aventura militar contra a Europa.

Como comenta a atitude da chamada “direita populista” europeia que se baseia num discurso anti-islâmico?
A Direita tem “as costas largas”... Muitos dos grupos que se têm oposto à vinda sem controlo de imigrantes para a Europa, dos países do Norte de África e dos países islâmicos em geral, têm olhado para estas revoltas de uma forma ambivalente. Por um lado, acham que se as revoltas correrem mal, temos novas vagas de imigração sem controlo. Mas, por outro lado, se este regimes derem resultado, essa será uma forma de fixação dos candidatos a imigrantes. Se o Islão conseguir resolver a sua própria situação, haverá menos pressão sobre a Europa.

É um Choque de Civilizações?
Se há 30 anos alguém dissesse que o Islão era o grande problema do Ocidente, ninguém acreditava. Ninguém previa que no final do século XX haveria uma guerra por causa da religião. Todos achavam que os problemas seriam outros: económicos, territoriais, derivados da Guerra Fria, etc. Apesar do conflito de Civilizações, aquilo que sai das revoltas árabes, é que as pessoas queriam aquilo que quiseram no Ocidente há 200 ou 300 anos atrás. Ou seja, a possibilidade de elevarem o seu estatuto económico, de falarem livremente, de educarem os seus filhos nas escolas que quisessem, de viverem sem medo. As chamadas liberdades e os direitos civis e económicos foi o que esteve na mesa no primeiro momento da revolta árabe. Se assim vai continuar, não sei. Mas sei que não foi a religião o grande motor destas revoltas. Se fosse uma revolta religiosa teria consequências totalmente diferentes. [Conclui amanhã]

Publicado na edição de «O Diabo», de 24/1/2012.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Uma arma contra o Acordo Ortográfico

Aqui partilho a entrevista que fiz com João Pedro Graça, responsável pela Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILCAO), publicada no semanário “O Diabo” de 20 de Dezembro de 2011.

Todos os que se opõem ao Acordo Ortográfico (AO) podem agir. É este o propósito de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos com o objectivo de revogar o diploma legal que o aprovou. João Pedro Graça é o responsável por esta iniciativa. O DIABO, Jornal que recusa o Acordo, entrevistou-o.

O DIABO – O que é a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILCAO)?
João Pedro Graça – É um Projecto de Lei redigido e submetido a aprovação parlamentar por parte de um grupo de cidadãos, com o objectivo de revogar de imediato a Resolução da Assembleia da República que determina a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

O que é necessário para que seja admitida?
Para que a ILCAO seja admitida para discussão e votação pelo plenário da Assembleia da República é necessário que o texto legal e respectiva sustentação sejam subscritos, em papel e com a identificação civil e os dados de recenseamento eleitoral de cada subscritor, por um mínimo de 35 mil cidadãos.

Como surgiu a ILCAO?
Tudo começou no dia 25 de Setembro de 2008, num “post” em que se referia a possibilidade de avançar com uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra a entrada em vigor do Acordo Ortográfico. A ideia foi depois lançada através da internet, em 2009 e começou a registar um número imparável de adesões. Redigida e publicada a ILCAO, começaram a ser recolhidas assinaturas no dia 8 de Abril de 2010.

Quais são as razões principais para esta acção de cidadania pela revogação do Acordo Ortográfico?
São inúmeras, mas abreviemos. O AO nem é acordo, porque num acordo se pressupõe cedências de ambas as partes e neste houve apenas de uma, nem é ortográfico, pela simples razão de que nega e renega o próprio conceito de ortografia. Tratou-se de um “cozinhado” exclusivamente político, entre cúpulas partidárias nacionais, e isto apenas entre Portugal e Brasil. Acresce que nenhum dos fundamentos aduzidos para a sua defesa contém um mínimo de credibilidade, vindo pretensamente “resolver”… um problema que nunca existiu.

A partir de 2012, o Acordo Ortográfico (AO) vai ser adoptado na Administração Pública, nas Escolas, no Diário da República, etc. Acha que isso vai desmoralizar os que se batem contra o AO?
Não, porque há um período de transição, previsto no AO, até 2015. Mais: o instrumento legal que aprovou o AO, a Resolução da Assembleia da República n.°35/2008, não prevê um regime sancionatório. Estamos sempre a tempo de anular, revogar, modificar ou substituir esta resolução.

As pessoas podem continuar a escrever como escreviam?
Não estão previstas sanções ou penas. Não há, assim, consequências legais neste aspecto. No entanto, no que respeita ao regime disciplinar, é diferente. Num organismo do Estado, depois de adoptado o AO, quem continuar a escrever da mesma forma pode ser alvo um processo disciplinar.

Não podem ser objectores de consciência?
Aqui não está prevista a figura da objecção de consciência, mas as pessoas podem invocá-la constitucionalmente.

Tem notado alguma alteração no apoio à ILCAO?
Sim, agora que se aproxima o dia 31 de Dezembro. As pessoas começam a ficar preocupadas e mobilizam-se mais. Muitas delas achavam que isto era uma coisa que ainda ia demorar. Mas agora entra-lhes em casa, seja pela RTP ou em muitos manuais escolares. Muita gente teve esse choque e decidiu apoiar a nossa iniciativa.

Mas muitas acham que o AO está para ficar?
Está, se as pessoas deixarem. Assinem a ILCAO e revoguem a entrada em vigor do AO. Não vale a pena refilar e achar que não há nada a fazer. Foi exactamente devido a essa postura que o AO acabou por ser aprovado. É preciso actuar. Não há outra forma de parar isto.

Como podem fazê-lo?
Todas as informações estão na nossa página na intemet (http://ilcao.cedilha.net/). Vão até lá e leiam, assinem e divulguem.

Tem alguma previsão de quando será entregue a ILCAO?
Isto podia ser feito num mês, bastava que tivéssemos visibilidade num grande órgão de comunicação social, um canal de televisão, por exemplo. Assim, temos que esperar mais algum tempo até conseguirmos reunir as 35 mil assinaturas necessárias.

Acha que os ‘media’ têm silenciado a ILCAO?
Têm, e de que maneira! À excepção do “Público” e de “O Diabo”, mais nenhum órgão de comunicação social refere a ILC. Há uma tendência para silenciar a ILC. E fazem pior, dão relevo a tudo o que é favorável ao AO.

A ILCAO está ligada a algum grupo ou interesse político?
Não. Temos uma comissão representativa, que inclui pessoas de todo o espectro partidário. Da extrema-esquerda à extrema-direita. Também na nossa página na internet se pode ver que temos apoiantes em todos os partidos, incluindo os que votaram favoravelmente o AO. Não nos identificamos politicamente. O nosso único interesse é que a ILC vingue e não qualquer aproveitamento partidário. O que está em causa é a Língua de todos.

sábado, 20 de agosto de 2011

Entrevista com Miguel Gomes Martins

Miguel Gomes Martins, historiador especializado em História militar e da Idade Média, publicou recentemente o excelente livro “De Ourique a Aljubarrota. A Guerra na Idade Média”. Com uma óptima base científica e escrita num estilo acessível, é uma obra de divulgação destinada ao crescente público interessado na História do período em que Portugal nasceu e se afirmou. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo».

Como surgiu a ideia de fazer este livro?
Foi uma proposta da Esfera dos Livros, que foi justamente fazer um livro que fosse perceptível por boa parte dos leitores e não apenas pelos habituais especialistas. Vemos a profusão de romances históricos que começam a aparecer, alguns até de autores portugueses, a tratar questões e temas relacionados com a Idade Média, o que significa que há um público interessado. A ideia foi tentar alcançar esse público.

Os seus trabalhos têm incidido especialmente sobre a História Militar Medieval. Porquê o interesse na guerra?
Talvez tenha lido cedo demais, muito novo, as aventuras do Ivanhoe e seguido de forma muito intensa as séries do Robin Hood. Juntamente com outro tipo de leituras e de influências, nomeadamente dos meus avôs, com gostos diferentes, um mais virado para a História da guerra, porque era militar, e o outro para a História propriamente dita.

Acha que hoje se perdeu a ideia que a guerra é algo que faz parte da relação entre os povos?
Eu creio na ideia de que o objectivo da humanidade deverá sempre tentar alcançar a paz. Quando estudo a guerra procuro tentar conhecê-la. Como dizia o general Themudo Barata, nós não podemos combater um mal, sem o estudarmos. Acho que o conhecimento da guerra pode permitir-nos ajudar a alcançar a paz. Ainda que seja uma situação de paz transitória.

Tem surgido um crescente interesse do público no tema da guerra. Será que as pessoas procuram algo que pensam que já não existe?
Não me parece. Acho que tem que ver, sobretudo, com a influência que o cinema tem tido ultimamente na população, se virmos a espectacularidade que a guerra tem. Porque a guerra é um fenómeno espectacular, independentemente de todas as suas consequências nefastas.

Para além do espectáculo, não lhe parece que as pessoas procuram os valores que aí são exaltados?
Não sei. Acho que, se as pessoas procuram esse tipo de ideais, procuram-nos quase como uma relíquia, que está perdida no tempo. Analisam-nos e observam-nos com uma grande distância.

Também a curiosidade pela Idade Média tem vindo a aumentar. Como comenta?
Não consigo encontrar uma explicação. Durante vários anos, porque interessava ao regime, o período de excelência da História de Portugal foi o dos Descobrimentos. Isso levou a que os outros períodos fossem um pouco preteridos em termos de estudo e de divulgação. Creio que esta recuperação da Idade Média tem que ver com algum cansaço em relação a outros períodos.

Acha que já saímos da ideia de que foi uma “idade das trevas”?
Acho que sim. Estamos já a passar ao patamar seguinte, em que se trata de um período histórico como qualquer outro. Também o papel das Universidades tem sido fundamental.

Acha que os portugueses procuram aí uma identidade?
Em termos exclusivamente territoriais, sim. Portugal tem as suas fronteiras praticamente definidas e com os mesmos limites que tem hoje desde finais do século XIII. Com o Tratado de Alcanices, as fronteiras ficam praticamente definidas e são, para todos os efeitos, as fronteiras mais antigas da Europa. Se quisermos ir procurar aí algum elemento de identidade, vamos encontrá-lo na Idade Média. Se quisermos encontrar a formação de Portugal enquanto reino, é aí que vamos encontrar. Também a afirmação do português e a sua institucionalização como língua oficial ocorre em finais do século XIII, com D. Dinis. Há aí, portanto, elementos identitários que surgem, que se afirmam e se consolidam.

Diz na nota prévia que as balizas históricas deste seu trabalho – a Batalha de Ourique e a de Aljubarrota – lhe surgiram de forma “natural”. Porquê?
Pela carga simbólica e porque têm uma importância prática de definir momentos históricos na Idade Média. Ourique é a batalha que faz um rei. Aljubarrota fecha um ciclo. É, talvez, o início de Portugal em guerra e o fim de Portugal em guerra na Península Ibérica.

Como foi o processo de selecção das batalhas?
Não foi fácil. Tinha um leque de vinte e tal episódios para os quais havia estudos, documentação e fontes. Tinha, obviamente, que analisar episódios que estivessem suficientemente documentados para não entrar na área da especulação, o que não era o meu objectivo. Esse, foi sempre alicerçar em fontes narrativas e documentais, e nalguns casos arqueológicas, toda a minha análise.

E quanto ao resultado?
A determinada altura, comecei a olhar para o que tinha e só tinha vitórias portuguesas ou semi-empates. Comecei a perceber que as fontes portuguesas estão um pouco inquinadas, pois as derrotas estão escamoteadas. Nesse sentido, a inserção de uma derrota clara, que foi o cerco de Almada, foi quase posta “a ferros”.

Mas deixa antever a possibilidade de um outro livro que trate outras batalhas...
Vai depender da editora. Da minha parte tenho já alguns episódios seleccionados, que me sobraram, digamos assim, deste livro. Gostaria de ter analisado outros, como o cerco de Silves, a batalha de Valverde, ou a batalha de Atoleiros.

Opta pela análise da chamada “guerra total”. O que é?
Estudar apenas as batalhas e numa perspectiva exclusivamente táctica acabou por ser nefasto para a História militar. Actualmente procuramos abranger questões como o político, o social e o económico. Acho que é fundamental para se perceber como era organizada a guerra, perceber questões como o financiamento, a fiscalidade, a organização social do reino, as linhas de penetração, a geografia. É isso que é a História da guerra total, onde se procuram focar todas as questões ligadas directamente à guerra e não apenas as questões de natureza meramente táctica. Cada vez mais os historiadores que fazem História Militar estão conscientes desta necessidade, porque a guerra é um fenómeno dos mais completos, que envolve tudo.

Os exércitos medievais eram provisórios e heterogéneos. É algo que torna a guerra mais fascinante neste período?
Isso obriga-nos a repensar a guerra na Idade Média e pô-la num patamar diferente da guerra no período clássico ou moderno. O facto de não haver exércitos permanentes, um financiamento exclusivamente dirigido para a organização e a prática da guerra, ou rotinas de combate entre os guerreiros, condiciona claramente o tipo de guerra que é praticado. Impossibilita, por exemplo, a condução de campanhas demasiado longas. O tipo de estratégia que é usado na Reconquista é uma estratégia de guerra de desgaste, que vai tentar depauperar os recursos do inimigo. Uma guerra que D. Nuno Álvares Pereira chamava “a guerra guerreada”.

Porque as batalhas não eram habituais...
A fraca ocorrência de batalhas tem que ver com a consciência que os comandantes militares têm de que uma batalha pode ser decisiva e que pode ditar o destino, eventualmente, de um reino. Não são muitas as batalhas decisivas, mas por exemplo no caso de Aljubarrota se a hoste anglo-portuguesa tivesse sido derrotada, provavelmente estaríamos a falar castelhano. Por isso, há sempre relutância em dar batalha quando o inimigo apresenta o desafio, porque este se sente em vantagem. A batalha é assim, por isso mesmo, algo bastante episódico.

Apesar do antecedente clássico do cavalo de Tróia, é nesta época que se vivem verdadeiras “operações especiais”.
Esse tipo de “operações de comandos”, chamemos-lhe assim, era muito frequente. Foi o caso da conquista de Santarém, ou o caso do Geraldo Sem Pavor, que era especialista neste tipo de guerra, fazendo operações durante a noite ou com condições atmosféricas adversas.

E quanto dimensão dos exércitos medievais? Ao nossos olhos parecem muito pequenos...
E são, para todos os efeitos. Por exemplo, em Aljubarrota, são dez mil homens. Às vezes, com os meus alunos, digo-lhes para olharem para o estádio da Luz, por exemplo, e dividirem em quatro ou em cinco para terem a noção. Porque por vezes é difícil imaginarmos o que são dez ou quinze mil homens.

A Reconquista foi uma “aventura nacional”? A génese do país em que nos tornámos?
Não lhe chamaria nacional, porque o conceito de nação não surge nessa altura. Dizer que foi uma aventura que envolveu todo o reino, também seria excessivo, porque envolve diferentes sectores do reino em diferentes momentos. Agora, não me parece que haja uma noção, em todo o espaço do reino português de que há um projecto de Reconquista. Mas, por exemplo, para D. Afonso III, foi um objectivo para reunificar a nobreza desavinda a seguir à guerra civil.

O que levava o homem medieval a combater?
Variava, mas uma coisa é certa: a guerra é uma actividade económica rentável. Há uma economia de guerra que gera grandes fortunas. Não só através da pilhagem e dos resgates, mas também com tudo o que isso envolve, o abastecimento dos exércitos, a manufactura de armamentos, o comércio de cavalos. Mas é óbvio que o dinheiro e a economia não são os únicos motores da guerra na Idade Média. A manutenção da independência é um grande motor, por exemplo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Entrevista com Jean Raspail

A propósito da reedição de "Le Camp des Saints" em França, de que falei aqui, referi uma excelente entrevista dada pelo autor, Jean Raspail, ao canal televisivo France 3 que não resisti a partilhar aqui.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Manoel de Oliveira em grande entrevista

Simplesmente imperdível é a grande entrevista conduzida por João Marcelino com o nosso mestre do cinema Manoel de Oliveira, hoje publicada no «DN». É de ler de fio a pavio, mas não resisto a deixar aqui algumas passagens.

Sobre o progresso, é categórico: «O que é que nos dá o progresso? Uma coisa só: conforto. Só conforto. O homem da caverna tinha de matar o boi...» E também sobre a tecnologia: «Somos todos escravos da tecnologia».

Quando perguntado sobre os problemas que tinha tido com a PIDE, respondeu: «Não tive problemas com a PIDE. A PIDE é que teve problemas comigo! Fiz uma reunião, disse coisas que eram certas e, por serem certas, meteram-me na cadeia durante uns oito, dez dias. E depois viram que não tinham razão, não podiam, soltaram-me. Houve um movimento também favorável, mas não se pode dizer, a verdade verdadeira não se pode dizer porque é um risco.» Ao que o entrevistador reagiu, «"Era" um risco?», mas o realizador não se deixou ficar: «Era... não sei se ainda é. Sabe que esta história política é muito difícil, muito grave. Há uma desmobilização fortíssima, há uma perda de valores enorme! Hoje a aldrabice monta por aí com toda a força, e isso é triste.»

Sobre o cinema em Portugal diz que «está muito bem, muito obrigado! Há realizadores muitíssimo bons, e devia ser mais desenvolvido e exportado em força, o que dava entrada de dinheiro! Eu dizia, na proporção de um país pequeno, pobre e na situação em que está, que o nosso cinema merecia uma ajuda para que os filmes corressem mundo e fossem também uma entrada económica de resultados.»

Afirmando que «O "Nobel do Cinema" não são os Óscares», diz que a verdadeira originalidade está na personalidade do artista e remata com lucidez que é preciso «não confundir o retrato com o modelo; o modelo é uma coisa, o retrato é outra.»

Por fim, a humildade: «Não me sinto realizado! Estou a tentar realizar-me neste curto espaço que me resta.»

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Entrevista com Alain de Benoist

A propósito da reportagem que fiz para «O Diabo» sobre o lançamento da revista «Finis Mundi», entrevistei os dois apresentadores. Aqui fica a que fiz com Alain de Benoist.


Alain de Benoist
Podemos ainda falar de uma “nova cultura”?
Sim. O problema é que vivemos num mundo de transição – o interregnum. Mais do que isso, a maior questão é a do sujeito histórico da época vem. São os povos os actores.

A globalização é desejada tanto por esquerdistas como por capitalistas?
Ambos querem a abolição das fronteiras. Os primeiros para cumprir o seu grande sonho de unificação mundial, os segundos para concretizar um grande supermercado generalizado. Permanece a ideia de que um estado mundial acabaria com as guerras. Mas, como afirmou Carl Schimtt, acabariam as guerras e passaria a haver apenas guerras civis.

Qual o papel geopolítico de Portugal hoje?
Portugal é o extremo sudoeste da Europa. Faz parte da Europa. É a abertura atlântica que faz a ligação ao Brasil. Este país emergente será muito importante no futuro. Será um pólo de resistência sul-americana à América do Norte. Por fim, Portugal é também uma abertura para o Mediterrâneo e a África do Norte.

Como avalia a influência da Nova Direita noutros países?
A Nova Direita nunca foi para ser uma internacional, mas houve manifestações noutros países. Foi uma rede: política, cultural e nacional.

O que é hoje mais importante, o político ou o intelectual?
Não acredito em acções políticas a curto termo. O trabalho intelectual demora mais tempo e dá mais trabalho. Depois, há em França uma polícia do pensamento, parece que vivemos uma depuração permanente. Em tempos, tentámos dar ideias à Direita, mas a Direita não quer ideias. Mesmo apesar de alguns sucessos técnicos. Hoje trata-se de dar ideias ao mundo.
[publicado na última edição de «O Diabo»]

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Entrevista com António Marques Bessa

A propósito da reportagem que fiz para «O Diabo» sobre o lançamento da revista «Finis Mundi», entrevistei os dois apresentadores. Aqui fica a que fiz com António Marques Bessa.


António Marques Bessa


Com a sociedade a alhear-se e a consumir, cada vez mais, informação e conteúdos imediatos, faz sentido uma revista como a “Finis Mundi”?
Hoje existe um espaço cultural para o pensamento alternativo, por oposição à globalização. Os enraizados têm o direito a pensar.

Não há o risco de ser algo demasiado intelectual, uma vez que são artigos de pensamento?
Não deve cair no intelectualismo ou academismo. Deve ser aberta, de forma a ser entendida por um número maior de leitores.

Mas nem por isso é para o povo?
O povo está estupidificado. Não se pode contar com ele. Só pode atingir intelectuais. Continuam válidos os ensinamentos de Gramsci e o que se chamou o “gramscianismo de Direita”, levado a cabo por Benoist e a Nova Direita.

Então, o movimento parte de cima?
De cima para baixo. Das elites. É sempre assim, porque o povo é bovino.
[publicado na última edição de «O Diabo»]

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Entrevista com Fanny e Mathilde


Este é um vídeo de uma entrevista realizada com Fanny e Mathilde realizada em Maio deste ano pelos camaradas do Folk Advance, que o legendaram em inglês. As duas jovens francesas que decidiram dar uma volta à Europa a pé, estavam então na Irlanda, já perto do fim da sua aventura.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Entrevista com a Comunità Solidarista Popoli

Porque se falou aqui do povo Karen, republico a entrevista com Franco Nerozzi, correspondente de guerra e fundador da Comunità Solidarista Popoli, publicada no ano passado no inconformista.

Primeiro que tudo, pode falar-nos da Birmânia, país complexo e perigoso, e em especial do povo Karen?
A Birmânia é um país perigoso, sobretudo para os seus habitantes. Não falo dos birmaneses mas da outra metade da população, pertencente a diferentes etnias, que deseja obter uma certa autonomia em relação ao poder central. São povos verdadeiramente diferentes uns dos outros que foram forçados e reunidos numa colónia britância e que, desde a descolonização, aguardam a sua independência. Entre essas populações, encontra-se o povo Karen, principal minoria em número e importância. O tratado que deveria garantir a sua liberdade não é respeitado pelo governo birmanês. Desde então teve lugar uma guerra pela sobrevivência desse antigo povo cuja história remonta há 2700 anos.

Fale-nos da sua viagem e da missão que agora cumprida.
Cada missão em território Karen deixa-nos com um sentimento misto de alegria e tristeza. Foi este o caso. No fim desta missão, não podemos deixar de concluir que os nossos amigos Karen merecem todo o nosso apoio para continuar a sua luta pela liberdade. Eles são pobres, mal nutridos e mal armados. Apesar disso, sempre recusaram cair no tráfego de droga. Há por isso uma alegria em reencontrar esse povo que vive na simplicidade. Isso dá-nos uma lição de ética. Há também a tristeza de ver que nada é feito para ajudar estas centenas de milhares pessoas que se escondem na selva para fugir à repressão de Rangoon. A atenção internacional é dedicada unicamente às promessas de democracia ou ao caso de Aung San Suu Kyi. A luta das etnias não interessa a ninguém.


Como se passam as actividades militares, para-militares e sanitárias no território?
Nos últimos anos assistimos ao avanço progressivo das tropas birmaneses e dos seus cães de guarda, as milícias da DKBA [Karens colaboracionistas]. Dezenas e dezenas de aldeias foram atacadas, incendiadas ou ocupadas pelos soldados. Tudo isto foi acompanhado de violência e violações. Mais do que operações militares, podem classificar-se como actos de banditismo. O exército Karen adoptou uma táctica de guerrilha, abandonando pouco a pouco o terreno para tentar preservar os homens. Incomodam o exército birmanês através de operações rápidas e desaparecem novamente na selva. Essa táctica teve bons resultados. Nos últimos meses, a relação entre os mortos do exército Karen e dos seus adversários é de 1 para 60, a favor dos insurgentes. As nossas actividades sofreram com essa tensão constante. As zonas onde funcionavam as nossas clínicas encontram-se agora em mãos birmanesas. As nossas equipas são agora móveis e seguem os Karens com o seu material e medicamentos. Podem assim cuidar das populações que encontram pelo caminho. Uma clínica trabalha ainda em pleno na zona de Mutraw, mas encontra-se muito perto da zona birmanesa. Não sei até quanto continuará a funcionar.

Quais são as necessidades da população? Como é possível ajudar?
A recente ofensiva do exército birmanês provocou o êxodo de cerca de 7 000 pessoas que se juntaram às 500 000 que já foram forçadas a abandonar as suas aldeias. Essas gentes refugiaram-se provisoriamente sob a protecção dos guerrilheiros. Vivem em campos com cobertas de plástico em jeito de tecto, para se poderem proteger da abundante precipitação, e sofrem de má nutrição. A verdadeira urgência é por isso comprar arroz, óleo e sal. A Comunità Solidarista Popoli e a associação L'Uomo Libero procuram neste momento recolher fundos suficientes para acudir a essa grave situação. Alimentar alguém por um mês, nestas condições, custa cerca de 8 euros. Assim, com cerca de 100 euros, podemos alimentar um refugiado Karen por um ano, sem contar com suplementos de ferro ou vitaminas.

Os povos ocidentais estão ao corrente do que se passa mas persistem em olhar para o lado. Porquê?
Os povos ocidentais ouvem apenas as sirenes do consumismo e estão um pouco "distraídos". Os seus governos obedecem à lógica mundialista. O sofrimento humano não entra nos parâmetros dessa lógica. O peso do povo Karen é insignificante para eles, já que não tem qualquer valor comercial. Existem dezenas de situações semelhantes em todo o mundo. Falo frequentemente no exemplo do Kosovo. A Europa viu-se a impor uma guerra que favoreceu a criação de um Estado mafioso, favorecendo o tráfico de droga e recebendo ordens de Washington.


Do vosso ponto de vista, será possível encontrar um dia uma resolução pacífica para este conflito?
Prever o que acontecerá na Birmânia é difícil. Existem muitos intervenientes implicados nesta situação. Que fará a China no futuro, país que é actualmente o principal patrocinador de Rangoon? Que farão as multinacionais (sobretudo a Chevron e a Total) que pilham os recursos do país e financiam os generais? Que farão os países que vendem armas e fornecem instrutores militares como Israel, Austrália, Singapura ou Índia? E os Estados Unidos, que já perceberam que as sanções sobre Rangoon não são uma boa estratégia sobretudo quando se trata de investir no país? Pessoalmente, acredito que no futuro assistiremos a uma erupção democrática no país, mas apenas na condição de os investidores terem garantias suficientes para apoiar o projecto. Não estou certo se mudará grande coisa para as etnias minoritárias, que continuarão a ser um fardo embaraçoso para os responsáveis do país.

E quem estiver interessado em ajudar, o que poderá fazer?

Para nos contactar, o mais simples é usarem o nosso endereço electrónico [info@comunitapopoli.org]. Temos necessidade de doações. Se alguem quiser organizar uma recolha de fundos através de outras actividades, ficaremos bastante reconhecidos. Devo precisar que nenhum membro da associação Popoli recebe dinheiro e que 100% das doações são encaminhadas para os Karen.

Algumas palavras em jeito de conclusão...
Como disse, os Karens têm numerosas necessidades. Procuramos ajudar um grupo de gente que fez a escolha de lutar pela sua liberdade sem compromissos. Somos claros, se os Karens tivessem escolhido a via do tráfico de droga, não teriam necessidade da nossa ajuda. Se renunciassem à sua dignidade, não precisariam de nós. Se tivessem escolhido a via da emigração para países ricos, não teriam necessidade de nós. Eles escolheram bater-se para sobreviver enquanto povo. É por isso que os ajudamos e que precisamos do vosso apoio.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dominique Venner em entrevista



Excelente entrevista com o historiador Dominique Venner, realizada por Laure Destrée, sobre a revista que ele próprio dirige, "La Nouvelle Revue d'Histoire", à venda nas bancas em Portugal. Venner afirma que o objectivo principal da revista é dar uma outra visão da História, ao contrário da interpretação que domina actualmente o ensino e os media, uma visão puramente maniqueísta entre os bons e os maus. A não perder!