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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Os alhos e os bugalhos


No final da sua mensagem de ano novo, Cavaco Silva, em tom de despedida, decidiu recordar a tragédia dos portugueses que regressaram à Metrópole com fim do Império. Mas fê-lo mal e com as piores intenções.

Afirmou o Presidente da República que “há quarenta anos, Portugal acolheu muitos milhares de portugueses vindos das antigas colónias de África. Regressaram ao nosso país em condições difíceis, por vezes trágicas, e aqui prosperaram com o valor do seu trabalho e do seu esforço.”

Esta lembrança enviesada serviu para justificar o injustificável, pelo disse logo de seguida: “Temos, assim, o dever de acolher aqueles que nos procuram para se integrarem na nossa sociedade, partilhando connosco os valores e princípios de que nunca abdicaremos: a democracia e a liberdade, a tolerância e a dignidade da pessoa humana, o respeito pela nossa cultura e pelas nossas tradições.”

Confundir os que foram forçados a deixar as Províncias Ultramarinas e a regressar à Pátria com a vaga imigratória que atinge actualmente a Europa, pior do que ignorância, é má fé. Os portugueses que então “retornaram” eram – nunca é demais recordá-lo – portugueses. Mesmo assim, aqui enfrentaram um sentimento hostil alimentado pelas esquerdas.

Não há qualquer comparação possível com o que se passa nos nossos dias, muito menos um “dever” de acolhimento. Portugal deu “novos mundos ao mundo”, mas com uma política de portas escancaradas, ainda que em nome de bonitos ideais, transformar-se-á num “novo mundo” – uma terra pronta a ser colonizada por outros.

Cavaco, que tanto se gaba de conhecer o “País real”, devia saber que não se deve misturar alhos com bugalhos, especialmente no refere à História e ao futuro dos portugueses. Portugal merece muito melhor.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A ressaca

As épocas festivas caracterizam-se pelos excessos e a da passagem de ano é aquela onde mais se fazem sentir. Depois do exagero consumista no Natal, tempo que deve ser da família e do recolhimento mas que se tornou para muitos uma romaria aos centros comerciais, a chegada do novo ano é celebrada com total desmesura.

Como exemplo extremo das consequências de tal comportamento, veja-se o elevado número de mortos e feridos nas estradas neste período. Pessoas para quem o fim da festa é o fim da vida. Mas tal estado de embriaguez mental não é necessariamente provocado pelo álcool e a euforia atinge também os senhores que actualmente se sentam nas cadeiras do poder.

Aqueles que lá chegaram com um saco cheio de promessas, bem embrulhadas em papel de lustro para cegar com o brilho os menos atentos. Os mesmos que quando dão a palavra ficam sem ela e que exigirão mais sacrifícios aos portugueses com justificações recicladas. Porque o “interesse nacional”, que é agora o chavão partidário que tudo desculpa, assim o exige. É esta a cantiga que nos repetem há anos os que se vão alternando nos governos e que continuamos a ouvir passivamente, entorpecidos pela “conjuntura”, pela “estabilidade”, ou por outras abstracções que nos fazem pesar os braços. Depois de qualquer embriaguez vem a ressaca. O momento depressivo do arrependimento, da memória truncada ou convenientemente selectiva, acompanhado pelo mal-estar físico.

O novo ano político também vai ser de ressaca, o que implica uma recuperação muito mais difícil. Ainda por cima partilhada com os que não participaram na festa irresponsável. Preparemo-nos. Ainda assim, perante um negro cenário, cumpre-me desejar, em nome da Redacção, um próspero ano novo aos leitores e colaboradores de «O Diabo» e às suas famílias. O futuro pode ser diferente se assim o quisermos. Haja esperança e vontade.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A agressão

“É sobretudo o ódio de partido
que ao extremo horror as coisas leva”
Goethe

A Universidade de Salzburgo, na Áustria, decidiu retirar postumamente o título de doutor ‘honoris causa’ a Konrad Lorenz, atribuído em 1983, devido ao seu “passado nazi”. Numa clara demonstração de “antifascismo” institucional, a Universidade assumiu uma vergonhosa postura de estreiteza e pequenez intelectual. Para estes zelotas do politicamente correcto, as opções políticas – ainda que historicamente localizadas – sobrepõem-se ao contributo científico. Escusado será dizer que, tivesse Lorenz sido comunista, por exemplo, a questão não se punha.

Konrad Lorenz (1903-1989) é considerado como um dos pais da Etologia, a ciência que estuda o comportamento animal, e os seus trabalhos de investigação foram reconhecidos internacionalmente. Em 1973 foi galardoado com o Nobel da Fisiologia ou Medicina pelas descobertas relativas a padrões de comportamento individuais e sociais, em conjunto com o alemão Karl von Frisch e o holandês Nikolaas Tinbergen.

O “passado maldito” de Lorenz há muito que havia sido ultrapassado, mas esta agressão actual não lhe seria estranha. Foi este etólogo austríaco que tão bem demonstrou que a agressividade, longe de ser uma pulsão patológica, tinha por finalidade a sobrevivência. É este ataque póstumo e descabido uma tentativa de sobrevivência dos defensores da massificação uniformizadora?

O caso não será certamente único, porque esta retirada de título foi consequência de um reexame de todas as distinções atribuídas no passado pela Universidade de Salzburgo. Quem serão os novos proscritos?

É bom recordar o que escreveu Lorenz sobre as tentativas de apagar o passado: “É insensato supor que basta destruir uma floresta para automaticamente fazer nascer uma nova. Ora, assiste-se nos nossos dias, ao enfraquecimento contínuo dos factores que asseguram a transmissão da tradição e ao fortalecimento dos factores de ruptura. Destruindo as instituições e os antigos valores arriscamo-nos a desembocar numa verdadeira regressão.”

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Música pátria

Foi revitalizante regressar à Casa do Cipreste, em Sintra, para um serão inesquecível. Projectada por Raul Lino no início do século passado, continua na família e a tradição de lugar de encontro e cultura mantém-se.

Honrado com um convite para uma pequena celebração a propósito do vigésimo aniversário da classificação de Sintra como património mundial, tive o prazer de assistir a um concerto onde dois pianistas de formidável talento envolveram os presentes com música da autoria de compositores portugueses.

Edward Luiz Ayres d’Abreu, Presidente da Direcção do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, e Philippe Marques tocaram peças de Alfredo Keil, Vianna da Motta, António Fragoso, Óscar da Silva, Ruy Coelho, entre outros. Nomes que, mais ou menos esquecidos ou ignorados, têm vindo a ser recuperados por uma geração de jovens músicos que sabem para onde vão, não esquecendo de onde vêm. São os verdadeiros guardiães da Tradição, que passam o seu testemunho revivendo-a e renovando-a – faróis que nos recordam que se deve visitar o passado sem passadismos para nos encontrarmos num caminho que é comum.

O local onde tocaram não podia ser mais apropriado, já que Raul Lino se relacionava com as personalidades do meio musical português seu contemporâneo e, enquanto arquitecto, dava uma especial importância à acústica.

A sala encheu-se de pessoas que encheram a alma com melodias nascidas da criatividade nacional. A seguir, o convívio foi salutar e a conversa enriquecedora. Falou-se de Sintra, claro, e do desafio que é a sua preservação, do génio artístico português, dos antigos mestres que continuam a ser um exemplo e uma inspiração e até de assuntos mais ligeiros. Falámos também de música, como não podia deixar de ser, e da sua importância pátria.

Mais tarde, enquanto escrevia mentalmente estas linhas, lembrei-me de uma máxima nietzscheana que há muito compreendi: “Sem música, a vida seria um erro.”

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ponto de situação

Cavaco Silva nomeou António Costa como primeiro-ministro e, pese embora a ténue tentativa de prova de vida nos “recados” enviados, assinou a sua morte política anunciada. Não surpreendeu verdadeiramente, pois aquele que se considerava um Presidente moderador foi, durante a sua passagem pelo palácio de Belém, moderadamente Presidente.

O novo Governo socialista apressou-se a tomar os ministérios na noite em que foi empossado. Vale a pena recordar a analogia do camelo – animal que aguenta a travessia do deserto sem beber água, mas que bebe toda a que consegue mal chega a um oásis – para o descrever. Aliás, o afã legislativo em alterar o que o anterior Governo aprovou é um óptimo exemplo do que devemos esperar.

No entanto, as muletas do PS, com alturas diferentes, anunciam que este Governo vai ser cambaleante. No Bloco de Esquerda, o deslumbre com a proximidade do poder ainda dura e mostra como o seu discurso anti-sistema se desfaz num ápice. Já o irreformável Partido Comunista, expectante, não fará concessões e tem as suas tropas de rua bem oleadas, como o demonstrou a manifestação da CGTP. O apêndice do PC tenta mostrar que tem vida própria, mas desengane-se quem acreditar que há o risco de uma apendicite partidária. Por fim, o novel PAN, seguramente para reduzir a pegada ecológica, aproveita a boleia de quem o leve mais longe.

À direita, o discurso do governo ilegítimo de Costa é uma munição que já foi disparada e não provocou estragos. Passos e Portas prometeram no Parlamento não dar tréguas ao novo Executivo, mas o mais difícil está para vir. Os que falam na “conquista do centro” esquecem-se que este não se ganha, antes se compra com lugares e prebendas.

Perante esta situação, há quem tente reconfortar os críticos dizendo que “é a democracia”, como quem atira um evasivo “vamos andando”. É esta submissão à “normalidade” que é assustadoramente desesperante.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Quanto pior, melhor

O “interesse nacional” é um palavrão com que muitos candidatos enchem a boca durante o período de campanha eleitoral, mas no jogo político-partidário as prioridades são bem diferentes. Os interesses, sejam pessoais, do partido, ou outros, valem mais que Portugal.

Assim, não é de estranhar que haja uma máxima que interessa a muitos: quanto pior, melhor. Ou seja, a instabilidade pode dar créditos e alterar a correlação de forças, permitindo alterações de fundo.

Perante o imbróglio actual, eis-nos chegados a um ponto em que o desejo de que tudo piore é transversal a vários grupos, por diferentes motivos. Do lado da coligação, há quem veja numa situação desastrosa um regresso a 1987, quando Cavaco Silva conseguiu uma maioria absoluta depois de o seu governo minoritário ter sido derrubado no Parlamento. No PS, por seu lado, há uma ala que espera que tudo piore para que António Costa seja de novo derrotado, desta vez como primeiro-ministro, para vencer nas eternas lutas intestinas. Já o actual secretário-geral do PS deseja que o estado caótico em que nos encontramos lhe dê a vitória que não conseguiu nas urnas.

Quanto aos putativos aliados dos socialistas à extrema-esquerda, esta é a situação ideal para prosperarem. Mesmo apoiando um desastroso governo minoritário do PS, podem sempre atirar-lhe as culpas e fazer o estafado discurso da auto-proclamada “superioridade moral”.

Parece que, depois de tantos anos de “centrismo virtuoso”, a Assembleia da República se dividiu e que, afinal, há esquerda e direita. Assim sendo, quem é o centro? Só se for o estreante PAN, mas apenas por localização geográfica da cadeira...

Não nos iludamos. Assistimos apenas à crispação das habituais quadrilhas políticas que se digladiam como sempre. Desta crise não surgirá a tão necessária alternativa nacional. Por agora, quanto pior, pior.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Os derrotados

Os resultados dos votos dos emigrantes deram mais três deputados à coligação “Portugal à Frente”, o que torna ainda maior o número de mandatos alcançados pelo PSD e pelo CDS. Ainda assim, os respectivos líderes estão inseguros e dão uma inexplicável aparência de derrotados, permitindo a António Costa assumir o papel de futuro primeiro-ministro.

O secretário-geral do PS, o grande derrotado, que pedia a maioria absoluta convicto na vitória, mesmo contra todas as sondagens, pavoneia-se agora como “salvador da Pátria” – quando na realidade é um mero salvador da própria pele –, passando a ideia de que a “esquerda” (a eterna ilusão da união...) venceu as eleições e ele é o comandante na batalha contra a “direita”.

Assim, Costa tenta o entendimento historicamente ‘contra-natura’ com os partidos da extrema-esquerda, menosprezando a guerra civil que estala dentro do PS. Já bloquistas e comunistas aproveitam o momento para dar um ar de respeitabilidade, apesar de, como sabemos, continuarem a pôr os interesses dos próprios partidos à frente dos do País. Estes são partidos a quem servem bem as derrotas, isto é, nunca chegarem ao governo e, consequentemente, ficarem sempre no lugar mais confortável da oposição contestatária, que promete mundos e fundos.

A propósito da acção do secretário-geral do PS, escreveu Vasco Pulido Valente que “o papel que Costa pretende equivale a tomar o comando de um grupo de guerrilhas, na esperança de o transformar num exército prussiano”.

É uma comparação bélica adequada, mas, se olharmos para os bastidores, vemos que Costa abriu guerra em todas as frentes – à direita, à esquerda e em casa – e caminha para a derrota final. Estamos num impasse que muito provavelmente atirará o País para novas eleições daqui a seis meses, mas os partidos parecem não se incomodar.

Perante este cenário caótico, que irá agravar a crise, os verdadeiros derrotados são os portugueses – todos nós.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Os ontens que cantam...


A maioria relativa alcançada pela coligação Portugal à Frente nas eleições legislativas, antecipada pelas sondagens, não foi uma surpresa. Aliás, à esquerda afiavam-se já as facas para tornar a vida difícil ao novo governo.

Mas foi por via do partido que tanto insistiu em apresentar o seu “candidato a primeiro-ministro”, coisa que não existe no nosso país, que muitos portugueses ficaram a saber que, constitucionalmente, o governo pode não ser formado pela força partidária com mais assentos parlamentares.

António Costa, que tanto desdenhou da “vitoriazinha” de António José Seguro nas eleições europeias, anunciou prontamente que o resultado obtido não o faria abandonar o cargo de secretário-geral do partido e disse também que não alinharia em “maiorias negativas”.

Mas, ao considerar o resultado da coligação como uma vitória com sabor a derrota, passou a sentir que a sua derrota tinha o sabor da vitória. Mais, ao piscar o olho à extrema-esquerda para a viabilização de um governo socialista, em coligação ou com o apoio parlamentar, veio mostrar a velha tentação de liderar uma união à esquerda, extremando o posicionamento político do partido.

Esta seria uma saída da sua “zona de conforto”, leia-se do “arco da governação”, mas há muitos socialistas que a vêem com bons olhos. Outros nem tanto... Por isso, há quem fale no risco de desintegração do PS. Será que, à semelhança do que aconteceu com o BES, teremos no futuro um “PS bom”, o do centro e da “confiança”, e um “PS mau”, bem à esquerda e com todos os seus “(in)activos tóxicos”?

Ironias à parte, por muito que nos assegurem a respeitabilidade do PS como partido de governo, há uma ala radical que parece ter hoje mais força, intimidada pelo crescimento dos partidos da extrema-esquerda.

O tempo dos “revolucionários” de Abril foi ontem, mas pelo que vemos há ainda no Largo do Rato quem acredite nos “amanhãs que cantam”...

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Sem rumo

Polícia sul-africana tenta controlar um motim nos arredores da Cidade do Cabo.

Escrevo estas linhas no Hemisfério Sul, de onde em breve partirei de regresso a Portugal. A longa viagem fará com que chegue após o acto eleitoral, mas a minha participação pouco importa. Aliás, o voto antecipado não é possível para quem se ausente do País em férias, ainda que um jornalista esteja sempre em trabalho...

Infelizmente, não depende do novo governo a mudança necessária para Portugal. Súbditos de interesses estrangeiros, continuaremos “em gestão”, como se fossemos uma pequena empresa da ‘holding’ dos eurocratas de Bruxelas, que nos subsidiam e por nós decidem. Por quanto tempo?

Observei a situação da África do Sul e chego à conclusão que este é outro país sem rumo. Para além de observar uma terra de contrastes, onde o principal é entre um mundo desenvolvido à imagem do Ocidente e a violência e pobreza a que nos habituámos num país africano, é curioso ver como há cada vez mais pessoas que duvidam da “radiante nação arco-íris”. Não é apenas entre os brancos, sejam bóeres ou outros, e os “mulatos do Cabo”, as duas comunidades preteridas pelos novos detentores do poder, mas também entre os negros que surgem vozes críticas do actual governo.

Duas décadas depois da era do Apartheid, muitos consideram que há o sério risco de a África do Sul, minada pela corrupção e pela tensão racial, se assemelhar em breve ao vizinho Zimbabwe. O assunto não é tabu, é curioso ver como nos expositores dos títulos mais vendidos nas livrarias se encontram livros sobre o tema. Dois exemplos. Em “What's Gone Wrong? South Africa on the Brink of Failed Statehood” (“O que correu mal? A África do Sul à beira da falência do Estado”), Alex Boraine, que foi defensor de Nelson Mandela e pertenceu à Comissão de Verdade e Reconciliação, aponta o dedo ao ANC, partido cuja prioridade considera ser todos os sectores da sociedade. Em “Zuma Exposed” (“Zuma revelado”), o jornalista Adriaan Basson analisa factualmente como a preocupação do actual Presidente sul-africano é servir e proteger os seus e não os milhões que o elegeram.

Um país sem rumo é um país sem futuro.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

‘Memoriae imperii’

Para a Maria José, minha Mulher.

Partir à descoberta está na alma portuguesa, mas o melhor de uma viagem é o reencontro com a nossa Pátria. Vim pela primeira vez à África do Sul e atravessei de carro este extenso país, observando e registando os contrastes do mosaico das suas gentes e das suas paisagens. Uma experiência marcante que não é mero turismo, antes uma lição de vida.

Os meus guias foram o Manuel e o Nuno Ferreira, irmãos que me deram a honra de me acolher na sua família, que é agora a nossa. Estes portugueses de cepa, que cresceram, viveram e estão radicados neste país, são sentinelas de um Portugal maior, um Império que viram morrer, mas que está vivo no posto avançado dos seus corações.

Portugal sente-se nos portugueses e nas marcas da nossa História e há dias tive um desses momentos especiais que ficam gravados para sempre na nossa memória.

Ao ver ao longe as águas agitadas do Atlântico Sul, senti-me como os nossos navegadores de outrora quando avistavam terra. Foi uma descoberta no sentido inverso, um encontro com o passado. Chegara à Baía de Santa Helena, local onde a armada de Vasco da Gama aportou no dia 7 de Novembro de 1497, e este foi o meu desembarque na “espaçosa parte”, como lhe chamou Camões na epopeia “Os Lusíadas”, de uma “terra que outro povo não pisou”. De facto, foram os portugueses os primeiros europeus a aqui chegar, feito do qual devemos orgulhar-nos. Foi o sentimento com que descobri vários monumentos que registam a passagem lusitana nestas paragens, incluindo um pequeno e acolhedor museu dedicado a Vasco da Gama em Shelly’s Point.

Mas memórias não devem ser exercícios contemplativos, são faróis que nos previnem para os perigos do futuro. Depois da Baía de Santa Helena, um punhado de homens, nossos antepassados, conseguiu vencer o Adamastor e tornar as Tormentas. A Boa Esperança deu-lhes então a coragem para chegar ao seu destino e mostrar ao mundo que não há impossíveis quando há vontade pátria. Hoje, perante a tempestade que se avizinha, sejamos capazes de descobrir o nosso caminho – o do futuro de Portugal.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A imigração é uma oportunidade?

A vaga imigrante a que a (des)União Europeia assiste quase passivamente, com a excepção de alguns países, nomeadamente a Hungria, levantou de novo a questão da oportunidade da imigração.

Nesta era em que a economia se sobrepôs à política, são muitos aqueles que asseguram que os imigrantes são uma força de trabalho vital para uma Europa envelhecida. Mas estes esquecem-se que o Velho Continente não é o Novo Mundo e que os imigrantes de hoje, mais do que de trabalho, vêm à procura de “apoios sociais”, que exigem sem para eles terem contribuído.

Um esclarecedor artigo de Margaret Wente, publicado no jornal canadiano “The Globe and Mail”, pôs o dedo na ferida, referindo-se ao caso da Suécia, país que tem uma das políticas de imigração mais generosas da Europa. Diz ela que estas políticas são essenciais para dar uma imagem, à semelhança do Canadá, de “superpotência moral”.

A Suécia é um dos países que mais recebe imigrantes, nomeadamente do Médio Oriente e de África, e estes constituem já 16 por cento da população. Mas, apesar de todos os esforços de integração, esta abordagem amigável da imigração não tem tido bons resultados.

Wente falou com Tino Sanandaji, um economista de origem curda que vive na Suécia desde os dez anos de idade, especializado em questões de imigração, que lhe disse que a integração tem sido um fracasso. Segundo ele, quase metade dos imigrantes não trabalha, o que custa uma fortuna ao Estado sueco. Os números da desigualdade no desempenho escolar e na prática de crimes também é abissal entre suecos e imigrantes, mesmo os de segunda geração. Mas, apesar de factual, esta realidade é evitada pelos ‘media’ politicamente correctos.

A conclusão de Margaret Wente é que “o argumento de que estas pessoas são vitais para impulsionar a economia – que eles vão criar por artes mágicas um crescimento europeu e salvar os europeus do seu declínio demográfico – é uma fantasia”. Uma fantasia suicida muito perigosa.

Depois deste exemplo vamos insistir neste erro fatal?

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Delírio irresponsável


A vaga de refugiados e imigrantes que continua a chegar à Europa – a que erradamente muitos insistem em chamar “migrantes” –, assume proporções inimagináveis. Mas o mais inacreditável é a atitude de muitos que abraçam esta causa, como se de uma moda se tratasse, sem se aperceberem das graves consequências.

Vemos altos responsáveis políticos e religiosos a oferecerem alojamento e a anunciarem fundos milionários para acolher os “refugiados”, ao mesmo tempo que várias “celebridades” do ‘jet-set’ oferecem as suas casas para os receber. Não interessam as causas, não interessa o que está em causa. Importa ficar bem na fotografia, até porque foi a exploração mediática de uma fotografia de um bebé morto que desencadeou este sentimento de culpa, que é preciso expiar aos olhos das mentes censórias e politicamente correctas. Ontem um leão, hoje uma criança. E amanhã? A ligeireza de toda esta aparente mobilização impressiona pela negativa. Não se trata de fazer o bem, mas de parecer bem.

Palavras duras? Sem dúvida. Há que não ter papas na língua e perguntar onde estava todo este apoio para os milhares de portugueses que não têm casa, que passam fome, que foram atirados para a miséria pela crise. Para nós a austeridade, para os outros a caridade. O contra-senso é evidente, mas é preferível continuar a dizer que “o rei vai nu”...

No plano internacional, a União Europeia, que de unida tem apenas o nome, mostra mais uma vez a sua fraqueza. Esta é exactamente uma questão na qual era necessária firmeza na decisão e um esforço conjunto para evitar a catástrofe que se vislumbra, mas parece que apenas assistimos a discussões bizantinas de fim de Império.

A hora é de acção e reacção. Urge parar a entrada desregrada de pessoas no espaço europeu, distinguir entre refugiados, imigrantes e terroristas e repatriá-los. É necessário reagir sem complexos de culpa e intervir directamente nos seus países de origem. É preciso coragem para garantir a nossa sobrevivência.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ressurgimento de Restauração

Quando vi pela primeira vez o magistral “Non, ou a vã glória de mandar” estava ainda no liceu. Foi a minha estreia na obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, da qual os meus colegas troçavam sem ter visto. O aspecto bélico do filme atraiu-me, mas só depois de o ver me convenci de que é obrigatório para qualquer português.

Nesta viagem pela História de Portugal e pela vontade imperial da nossa Pátria, o Alferes Cabrita, um militar formado em História, que vai relatando aos seus camaradas de armas na Guerra do Ultramar vários episódios marcantes do nosso percurso enquanto nação, dá ênfase à Batalha de Alcácer Quibir. Para ele, foi um “mito que se tornou uma verdade. Verdade, algo de secreto e inexplicável. Em vez de ter sentido lógico, esta verdade inacessível possui um sentido último que tudo explica”.

De jovem me ficou uma ideia que guardo até hoje: será que o mito do sebastianismo não é uma derrota, antes a certeza da nossa vontade nacional? O nosso espírito trágico português?
Como o Império, o Alferes Cabrita morreu, depois de ferido em combate, no dia 25 de Abril de 1974. Mas Portugal não morreu nesse dia, nem a 4 de Agosto de 1578.

Como escreveu Goulart Nogueira, “um Portugal renunciando às linhas geratrizes que o criaram e lhe deram o modo de ser, um Portugal mudando de alma, de espírito, já não será Portugal. Todos os que subscrevem essa orientação diferente arrastam um suposto corpo da Pátria que de Portugal mantém, apenas, o nome. Mas, para além da demissão e da mascarada, existem os que permanecem fiéis ao mesmo sentido, ao mesmo desígnio, à mesma tessitura de sonho (o prodigioso e, no entanto, autêntico consórcio de saudosismo e sebastianismo que leva aos ressurgimentos de restaurações)”. O poeta não tinha dúvidas em afirmar que “o impossível dos incrédulos tornar-se-á realidade”.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Devemos estar loucos...

Imigrantes chegam de autocarro a Casal S. Nicola (Roma)
 protegidos pela polícia que dispersou os locais com violência.

No que mais parecia um golpe publicitário, a Imprensa noticiou que “Merkel pôs uma menina palestina a chorar”. O maniqueísmo era evidente: de um lado a “chefe da Europa egoísta”, do outro uma criança inocente com os sonhos desfeitos. Recordemos que Merkel apenas fez uma constatação de facto: a Europa não pode acolher todos os refugiados do mundo.

No entanto, para as cabeças bem-pensantes, da esquerda à direita, o Velho Continente tem a obrigação de acolher todos os “migrantes”, como agora se diz na novilíngua do politicamente correcto. Quem discordar é automaticamente classificado como “racista” e “xenófobo”.

Mas os números são implacáveis e basta observar a dimensão da massa humana que atravessa o Mediterrâneo diariamente para nos apercebermos de que uma política de “portas abertas” é catastrófica.
Nada como um caso concreto para exemplificar o absurdo a que chegámos. Na semana passada, em Casale San Nicola, na periferia de Roma, a população local opôs-se à colocação na povoação de um grupo de refugiados africanos. O protesto contou com o apoio de militantes da Casa Pound e terminou com confrontos com a polícia de choque, chamada para garantir a passagem dos refugiados. Uma vez instalados, com direito a cama, alimentação, assistência médica e transporte, os refugiados protestaram e a Imprensa italiana publicou as queixas destes: querem acesso à Internet, cigarros, carregadores de telemóveis e mais computadores! A crise e a austeridade são só para os europeus?

Perante este caso, que não é isolado antes paradigmático, recordo-me de uma passagem do discurso premonitório do visionário político britânico Enoch Powell, proferido em 1968: “Devemos estar loucos, literalmente loucos, enquanto nação ao permitir o influxo anual de cerca de 50 mil dependentes, que são em grande parte o material do crescimento futuro da população de origem imigrante. É como observar uma nação ocupada na preparação da sua própria pira funerária”.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Espectadores


De passagem por São Francisco, na Califórnia, não resisti a ir à City Lights Bookstore, na Columbus Avenue, uma paragem obrigatória para qualquer bibliófilo.

A livraria é famosa por ter publicado, em 1956, o livro “Howl and Other Poems”, de Allen Ginsberg, cujo principal poema foi acusado de obscenidade devido às referências sexuais, em especial homossexuais, explícitas. A polémica e o julgamento deram obviamente uma publicidade enorme ao poema, que se tornou uma das obras mais conhecidas da chamada ‘Beat Generation’.

Como seria de esperar, a City Lights é uma livraria “progressista”, para usar a designação norte-americana. Quando entrei, houve uma das máximas que estão escritas nas paredes que me chamou a atenção: “A democracia não é um desporto de espectadores”. Nem de propósito, a frase estava sobre o expositor de revistas, onde se podem encontrar publicações comunistas, anarquistas, feministas, entre outras, mas todas alinhadas à esquerda e à extrema-esquerda. De facto, a livraria não é uma mera espectadora no “desporto democrático” e rapidamente se percebe de que lado do campo está... Também devemos fazer uma visita a este local icónico sem sermos meros espectadores e questionar algumas certezas “progressistas”.

Fiquei satisfeito por encontrar à venda traduções do nosso Eça, mas gostei ainda mais de ver um livro que reúne alguns escritos de Fernando Pessoa publicado pela própria livraria. Chama-se “Always Astonished” e os editores provavelmente ficariam espantados com muitas das posições políticas de Pessoa.

Por fim, no piso superior, há uma secção de poesia onde o destaque vai naturalmente para a ‘Beat Generation’, nomeadamente para Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Também aqui encontrei um volume que reúne entrevistas do autor de “Pela Estrada Fora” e foi interessante recordar naquele local o Kerouac anti-comunista e desiludido com o que se tinha tornado a ‘Beat Generation’. De facto, não podemos ser apenas espectadores...

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O circo chegou à cidade

Há uns anos valentes, da segunda vez que fui a Roma, propus a uns amigos italianos jantarmos num restaurante onde tinha ido da primeira vez que estivera na cidade, ainda adolescente. Pronto me responderam que estava fora de questão, porque se tratava de uma zona “só de turistas”. Segui obviamente o conselho deles e a ideia de que partes da nossa cidade podem ser literalmente ocupadas por quem nos visita não me saiu da cabeça.

Meia dúzia de anos depois, senti o mesmo na minha Lisboa. É claro que esta sensação de posse é hoje tida como politicamente incorrecta pelos chantres da globalização, para quem qualquer sentimento de pertença é visto como “retrógrado”.

Nesta questão não adianta argumentar, já que basta aconselhar um passeio ao fim-de-semana pelas zonas nobres da capital. Uma experiência sufocante por entre um mar de gente que circula com o olhar nos telemóveis à espera de indicações e sugestões. “Vêem” apenas o que fotografam e “sentem” através de aplicações informáticas. Bandos que se alimentam de menus ditos “típicos” servidos em locais que garantem ser “gourmet”, “vintage” ou qualquer outra designação em voga, mas que nada têm que ver com a cultura portuguesa. Congestionam o tráfego com os “tuk-tuks”, os “segway”, os veículos “eco-friendly”. Entram em igrejas e comportam-se como se estivessem num café de praia e visitam museus como se comprassem num bazar. É claro que nem todos são assim e esta ocupação conta com os colaboracionistas locais.

Lisboa está “na moda”, dizem-nos com satisfação os dispostos a tudo a troco do lucro rápido. Felizmente, as modas são passageiras. Infelizmente, tais sujeitos não querem entender que a “autenticidade” que apregoam não está num selo turístico.

Hoje, temos a sensação de que o circo chegou à cidade. Mas, como sabemos, o circo é naturalmente temporário e por isso a festa é efémera. Depois das tendas desarmadas e da partida dos malabaristas, talvez a visão do vazio provocado pelas árvores derrubadas e pelo chão terraplanado nos force a uma tomada de consciência. Será que num deserto descaracterizado nos podemos reencontrar? Esperemos que sim, para que voltemos a ter a nossa cidade para viver e receber turistas, sem a transformar num parque de diversões igual a tantos outros.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».