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quinta-feira, 26 de junho de 2014

O imenso poder da banca

Depois do que se passou no BCP, no BPP, no BPN e agora no Grupo Espírito Santo, não é disparatado considerar que os “buracos” existem provavelmente em todos os bancos nacionais. Há dias fiz esta exacta pergunta a um amigo economista, actualmente aposentado, que ocupou durante muitos anos posições importantes na alta esfera financeira. Sem espanto, devo confessar, disse-me que era o mais certo.

Muitos dirão que aqui não há novidade, mas o que está em causa não é uma mera notícia. O problema de fundo é que as instituições bancárias têm vindo a revelar-se verdadeiros agentes nocivos para o País.

Depois de endividarem grande parte da população, atraindo as pessoas com um fácil acesso ao crédito ao consumo, imiscuíram-se na política conseguindo uma influência demasiada, gerando dúvidas sobre quem comandava realmente os nossos destinos. Ao mesmo tempo, foram os principais cúmplices da venda do País a interesses estrangeiros e serviram de canais de transmissão de dinheiro – muito dinheiro – de origem duvidosa.

A banca contribuiu directamente para a crise que nos afundou, mas acabou por lucrar com ela. Tudo com a conivência de quem devia zelar pelos interesses nacionais e pelos portugueses.

Apesar de tudo, os banqueiros continuam a beneficiar de uma certa impunidade, sofrendo apenas sanções leves. Não é de estranhar que venham a público mais escândalos, mas o seu desfecho será seguramente o mesmo daqueles que conhecemos.
Por fim, a forma como os bancos gerem o dinheiro que não é deles mostra bem do que são capazes. É uma questão de falta de escrúpulos e de falta de respeito por quem lhes confia as suas poupanças.

A alteração do sistema bancário, nomeadamente pela sua responsabilização, não esquecendo o fim da promiscuidade com a política, é um passo essencial para um país mais justo e soberano. Mas, infelizmente, é um passo demasiado grande para as pernas dos que actualmente nos governam...

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 31 de março de 2014

Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal

Os sinais positivos da “retoma económica”, que muitos nos garantem ser o início do regresso do País a uma situação melhor, devem fazer-nos olhar mais longe. Portugal não se resume à economia e o destino da Pátria decide-se através da vontade política de afirmação de uma Nação quase milenar. O nosso propósito enquanto país soberano não se resume a “assumir os compromissos”, como se ouve repetidamente nas televisões e se lê nos jornais. O nosso futuro comum depende de conseguirmos que Portugal se assuma como historicamente já o fez. Esse deve ser o nosso compromisso e o de uma elite que defenda o interesse nacional.


Há muito que somos bombardeados nos ‘media’ com o discurso do “economês” que tudo domina. Não é por isso de estranhar o peso excessivo que têm ganho os ministros das Finanças, que assumem um destaque e importância que os tornam verdadeiros rivais do primeiro-ministro.
O problema do País resume-se à crise económico-financeira, que trouxe os vigilantes senhores da ‘troika’, e o nosso grande objectivo é pagar a enorme dívida – que continua a crescer – à custa especialmente de cortes salariais que têm degradado as condições de vida dos portugueses. As medidas de austeridade vieram para ficar e o que foi anunciado como temporário, afinal será permanente. Mas todo este esforço vale a pena? Os nossos governantes garantem-nos que sim.
A meta definida foi a retoma financeira e os primeiros sinais positivos chegaram finalmente. Para muitos este é o caminho certo e Portugal voltou a encarrilar. Mas, por muito boas que essas notícias sejam, não podemos reduzir o País a números, projecções e balanços, como se de uma qualquer empresa se tratasse.

A política
A crise que vivemos não é meramente financeira ou económica, é essencialmente política. A situação a que chegámos deveu-se a decisões políticas dos responsáveis pelo governo da Pátria. Nunca nos esqueçamos deste ponto fundamental.
Se a economia atingiu o estatuto que hoje tem, foi porque assim foi decidido ou porque os políticos se demitiram da sua verdadeira função, atolados no pântano da promiscuidade entre o mundo dos negócios e o da alta esfera do poder. O brilho do ouro cega, bem o sabemos, mas infelizmente parece que vivemos numa terra de cegos.
A distância entre eleitos e eleitores é cada vez maior e os portugueses não se identificam com um sistema no qual não se sentem representados. Muitos confundem a política com a baixa política e as tricas partidárias. Naturalmente, na presente situação, é fácil cair nessa generalização. Mas levantemos a cabeça e olhemos mais longe. Funcionando enquanto comunidade e sendo vigilantes e interventivos, os cidadãos devem ter uma elite dirigente que seja ao mesmo tempo competente e apaixonada pelo seu papel histórico de condução de um país. A passividade das queixas mudas nunca mudou o que quer que fosse.

A elite
Não é preciso uma formação especial ou conhecimentos alargados para perceber que os que nos governam estão longe de ser os melhores. Por um lado, temos uma geração inteira de políticos de criação, alimentados nas juventudes partidárias, que de bases ideológicas têm pouco – se é que têm alguma coisa – e olham para a escada dos cargos políticos como um meio para atingir um bem-estar material. Por outro, temos uma série de quadros de empresas que acham que os mesmos princípios da gestão se aplicam ao governo de um país.
É tudo mau? Não há excepções? Obviamente que nem todos se movem por interesses obscuros ou, pura e simplesmente, estão em cargos de elevada responsabilidade apenas para vingar na vida. Há ainda quem escolha esta via com a melhor das intenções, o problema é que rapidamente se depara com uma enorme máquina instalada, que continua a funcionar com todas as suas complicadas engrenagens e que é muito difícil de ultrapassar. Muitos daqueles que chegam à política com sentido de dever e serviço são engolidos por este mecanismo implacável.
Não há situações perfeitas, obviamente. Sempre houve “maçãs podres” na taça da fruta. O que acontece hoje é que essas “maçãs” começam a estar quase todas contaminadas.
É assim necessário o surgimento de uma nova classe política, uma verdadeira elite responsável capaz de tomar em mãos Portugal e projectar o nosso país para o futuro.

Um país único
Outra das grandes preocupações de quem nos governa é a imagem de Portugal lá fora, nomeadamente perante os credores e os “maiores” da Europa. Sem dúvida que a nossa imagem é importante; para fora, mas também para dentro.
Mais que cerimónias diplomáticas de beija-mão, demonstrações patéticas de um servilismo desnecessário, precisamos de assumir-nos como nação soberana e independente. Obviamente enquadrada num contexto europeu, mas nunca esquecendo de estabelecer uma ligação ao mundo lusófono, enquanto referência, que é a nossa área de influência geopolítica a nível mundial.
Veja-se a alteração no padrão dos turistas que cada vez mais nos visitam. Não vêm apenas pelo Sol e pelas praias, ou pelas isenções de IRS ou outros benefícios fiscais, que podem encontrar em muitas outras paragens. Vêm porque aqui encontram um país diferente, onde ainda descobrem muitas características que julgavam perdidas ou ultrapassadas na desvairada corrida do progresso uniformizador. A especificidade da nossa terra e da nossa gente é a nossa força.
Ganhemos ânimo e saiamos da depressão nacional em que nos encontramos. Por vezes basta assistir a um dos tantos programas televisivos estrangeiros que se têm feito sobre Portugal como destino turístico de eleição, para nos lembrarmos de como o nosso país é belo, rico e promissor. Mais: de como o nosso país é nosso e de como dele fazemos parte.

Retoma
A retoma económica de que todos falam deve ser o primeiro passo para a retoma política. Ou melhor, para a retoma nacional. O regresso de um país com uma História extraordinária, um passado de conquistas invejável e uma gente forte e trabalhadora, que guarda ainda no espírito um amor pátrio que é o melhor gerador de uma vontade inquebrantável.
“É a hora!” Dizia o nosso poeta. É a hora de reerguermos Portugal.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Perigoso despesismo

O Acordo Ortográfico é uma aberração técnica com consequências muito prejudiciais para a nossa língua, ao qual o nosso jornal sempre se opôs, continuando a recusá-lo e a denunciá-lo. Em busca de uma unificação impossível, com o objectivo de fortalecer a lusofonia, o (des)Acordo apenas conseguiu isolar Portugal no disparate.

Uma insistência incompreensível, que ganha contornos totalitários e persecutórios, que não conseguiu evitar o caos ortográfico. Ao mesmo tempo, é ainda mais estranho porque vem de um Governo cujas principais figuras se opuseram – e bem – a esta decisão política errada. É preciso recordar, para dar um exemplo paradigmático, a campanha feita por Paulo Portas no jornal “O Independente”?

Mas, nestes tempos em que a economia domina e a contenção financeira está na ordem do dia, há um aspecto importante que parece não preocupar os nossos governantes. É claro que há um pequeno grupo de pessoas que ganha com as alterações ortográficas, mas os gastos que a sua aplicação implica, nomeadamente na Administração Pública, chocam com a poupança a que o País está obrigado pelos credores internacionais. Ou seja, andamos a destruir um património de todos à custa do dinheiro dos contribuintes.

Para os que ainda acham que o Acordo Ortográfico é um assunto menor porque nos encontramos em plena crise económico-financeira, aqui está uma óptima razão para se parar o delírio.

Para além de um atentado à língua portuguesa, o Acordo Ortográfico é um perigoso despesismo. Como escreveu Pacheco Pereira, “passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos ‘swaps’ e muita da má despesa”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Portugal: uma nação com futuro


É habitual fazer-se no final do ano uma revista dos principais acontecimentos, um exercício que nos deve levar a reflectir sobre o futuro. É também esta a época propícia a promessas para um novo tempo, a decisões de mudança. É o tempo de acreditarmos que nem tudo está perdido e que podemos alterar o curso da nossa vida. Por isso, Janeiro, o primeiro mês do ano, deve o seu nome a Jano, o deus dos inícios e fins para os romanos. Impõe-se, assim, uma análise do passado recente de Portugal. Não para entrar no coro catastrofista que parece ter tomado conta do País, nem no clube das esperanças vãs de promessas eleitoralistas, mas que descubra na atitude recente dos portugueses o espírito de um povo que outrora venceu ventos e tempestades e descobriu o mundo. As estações do ano fazem também parte da vida, por isso sabemos que a seguir ao Inverno chega a Primavera. Portugal tem futuro.


O nosso país é filho da Reconquista. Essa força motriz fundacional preservou a nossa independência ao longo dos séculos. É importante que a tenhamos presente nos tempos difíceis que atravessamos. É a esperança que nos trouxe, enquanto nação, ao século XXI e que nos assegurará o futuro. Sabemos que podemos mudar de direcção e evitar o declínio do nosso país, da nossa gente. Mas, como diz o povo, “as coisas não caem do céu”...

Crise
A crise económico-financeira abateu-se sobre Portugal, tendo-se vindo a alastrar a cada vez mais países, pondo em causa um modelo de desenvolvimento e afectando directamente as famílias, que sentiram na pele os efeitos das chamadas medidas de austeridade e contenção. Saindo do economês, essa novilíngua tão em voga nos dias que correm, os portugueses sofreram cortes nos salários e nas pensões, ao mesmo tempo que foram confrontados com um aumento generalizado dos preços. As falências multiplicaram-se, o desemprego subiu em flecha, a emigração voltou a ser a solução para cada vez mais pessoas e o nível de vida baixou.
No entanto, esta crise, contrariamente ao que certos “iluminados” nos querem fazer crer, não é apenas económica. É, sobretudo, política.
Escreveu Camões que “o fraco rei faz fraca a forte gente”. E como o temos visto na História recente de Portugal. Um país que se hipotecou ao estrangeiro a troco de uns cobres, que engordaram uma classe política subserviente, sem qualquer sentido nacional.

Soberania
A soberania nacional voltou ao debate público. Se bem que a soberania política pouco mais seja que uma ficção, hoje em dia, quando estamos sujeitos à União Europeia e, pior, aos desmandos dos ditos “mercados internacionais”, sob as fiscalizações periódicas dos técnicos da ‘troika’ que nos comanda, a soberania não se resume a esse aspecto.
A cultura é um dos pilares da soberania e talvez por isso tem sido paulatinamente delapidada. Um valor fundamental é a língua portuguesa e a sua afirmação no mundo. Ora, neste caso, com o disparate do famigerado Acordo Ortográfico, tudo indica que se repita o que aconteceu no passado, ficando Portugal a falar – ou melhor, a escrever – sozinho, depois de uma cedência incompreensível.
O poder da lusofonia e a área de influência geopolítica de Portugal não dependem de um acordo ortográfico, que ainda por cima se revelou bastante prejudicial.
Também a nível interno o caos ortográfico apenas veio agravar o mau estado da educação no nosso país, comprometendo a formação dos mais jovens.
Outro aspecto, muito importante e a não descurar, é o descontentamento que se vive nas forças de segurança. Estas são um pilar do Estado e quando assistimos à manifestação das polícias em frente à Assembleia da República e ao mal estar nas Forças Armadas não podemos ficar descansados.
Ainda assim, o facto de a soberania voltar a ser um assunto discutido na praça pública demonstra um reconhecimento da sua importância. Não é a primeira vez na História que nos vimos privados da nossa soberania. Não devemos, por isso, aceitar passivamente a actual situação como uma finalidade. Devemos, pelo contrário, entendê-la como uma motivação para uma restauração.

Partir
A emigração atingiu níveis preocupantes, com números impressionantes que ultrapassam os dos anos 60 do século passado. É no estrangeiro que principalmente a geração mais nova procura e encontra trabalho. São jovens com formação que saem todos os dias em busca do que o actual sistema não lhes proporciona. E não é só a crise que lhes abre a porta, ouvimos o primeiro-ministro afirmar que a emigração é uma oportunidade.
Parece a solução fácil e imediata para os preocupantes números do desemprego que comprometem os governantes, mas é uma atitude derrotista de quem faltou aos seus.
No entanto, vemos que os portugueses que partem vingam lá fora. É um sinal de que conseguimos quando queremos, pressionados pelas circunstâncias, e que o mesmo fenómeno se pode passar dentro de portas.

Bloqueados
No que respeita ao sistema político, é evidente que este se encontra bloqueado. Os partidos pouco mudaram desde o 25 de Abril de 1974. Foram deixando pelo caminho as convicções ideológicas e perdendo militância. Os cidadão foram-se sentido cada vez menos representados e por isso aumentam os protestos de rua e a abstenção eleitoral. As tentativas de criação de novas forças políticas não passam de aventuras românticas que normalmente morrem na praia.
Portugal é o país do extremo-centro, onde os políticos são criados nos viveiros das juventudes partidárias e governar passou a ser como gerir uma grande empresa. Há muitos que não governam, antes se governam, numa estranha cumplicidade entre a política e o mundo dos negócios e das negociatas, dos conhecidos e dos conhecimentos, dos interesses, quase sempre próprios.
Para piorar, há um sentimento generalizado de que os políticos beneficiam de um estatuto de impunidade e que nunca são penalizados, mesmo quando infringem a lei, apesar de algumas condenações. É o reflexo de uma Justiça que também se afastou do cidadão comum e que parece apenas ser para quem tem possibilidade para pagar elevadas custas judiciais e aos advogados mais conhecidos da praça.

Indecisão
Vivemos tempos de indecisão e de insegurança. Quando as instituições falham, é difícil acreditar no País.
As manifestações de rua, as greves e demais protestos, mostraram um descontentamento generalizado. Claro está que muitos apenas querem que tudo fique como antes e muitas destas acções são orquestradas pelas esquerdas, sempre ansiosas por manipular o povo. Mas cada vez mais pessoas descrêem no actual sistema partidário e nas promessas de milagres daqueles que nunca ocuparam o poder, nem fizeram nada para melhorar o estado do País.
Por outro lado, vimos como na adversidade muitos souberam “dar a volta”. Não esperaram por subsídios ou por “ajudas externas”, como fez o Governo. É uma faísca para atear a chama da mudança. Uma chama viva que nos ilumine um novo caminho.
Porque é preciso estar entre a espada e a parede para tomar decisões arriscadas, mas que nos podem salvar a vida.

Triste fado?
Há sempre quem assegure que o declínio é o triste fado nacional e que regurgite recorrentemente o discurso da inviabilidade de Portugal. Há mesmo quem declare a morte da Pátria e a apresente como solução! Também aqui não há novidade e, se olharmos para trás, temos vários exemplos desta trágica profecia que, felizmente, nunca se concretizou.
Na conclusão do seu último livro, intitulado “Portugal: Ascensão e Queda”, Jaime Nogueira Pinto afirma: “Num mundo globalizado e com uma cultura cosmopolita de movimento e mudança, os portugueses têm seculares vantagens competitivas: do cosmopolitismo, identificado por Pessoa como característica nacional, à capacidade de resposta aos grandes desafios identificada por Jorge Dias. Subimos sempre que os acontecimentos, a necessidade e os ideais nos chamam para aventuras e empresas ousadas, afundamo-nos quando ‘fracos reis’ nos condenam a papéis medíocres de imitadores e espectadores servis de modas e glórias alheias”.
É a hora de sermos portugueses!

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

"A globalização é o nosso pior inimigo"

Ernesto Milá é um jornalista e escritor espanhol, autor de várias obras. O seu livro “Identidade, patriotismo e enraizamento no século XXI” foi recentemente traduzido para português e publicado no nosso país pela editora Contra-corrente. Esteve em Lisboa para a apresentação deste seu trabalho. Aqui fica a entrevista que lhe fiz e que foi publicada na edição de 8 de Outubro de 2013 do semanário «O Diabo».

Qual é a ideia fundamental deste livro e qual é o seu objectivo?
Quero dizer, em primeiro lugar, que não sou um doutrinador, nem ideólogo, mas jornalista e escritor. Interessa-me o mundo das ideias e sinto-me tributário das ideias tradicionalistas de Julius Evola e René Guénon e das ideias da Nova Direita francesa, da mesma maneira reconheço um tributo devido à obra dos pensadores nacionais-sindicalistas espanhóis, especialmente José Antonio Primo de Rivera e Ramiro Ledesma. O problema com que me deparei nesta obra foi como actualizar, definir e sintetizar todas estas influências tendo em conta a realidade iniludível da modernidade.
A ideia deste livro é sintetizar ideias prévias, definir alguns conceitos claros e estabelecer uma série de questões novas que todos nós sentimos e que não foram interpretadas pelos mestres de pensamento da nossa corrente. Na prática, neste livro defino o paradigma identitário.

Traça a distinção entre nacionalismo e patriotismo. Porque é que é importante definir tais conceitos?
É fundamental que nos movamos com conceitos claros com os quais todos estejamos de acordo. Um deles é o patriotismo que tem que ver essencialmente com a ideia de Tradição. A “pátria” é a “terra dos pais”, liga com um passado que se quer projectar para o futuro. A nação, ao contrário, é outra coisa: é um conceito fundamentalmente moderno, não anterior à Revolução Francesa e que substitui o “reino”. Assim, como nos reinos antigos o poder estava nas mãos de uma aristocracia, na nação histórica é a burguesia que detém a hegemonia. Dito de outra maneira, a origem do nacionalismo é fundamentalmente liberal e burguês, referindo-se a uma ordem de ideias que tem que ver com os valores inerentes às revoluções liberais do século XIX.
Em cada país atribui-se um sentido diferente a estes conceitos. Em Espanha, por exemplo, quando se fala de “nacionalismo” está-se a falar de ideias de tipo regionalista que apareceram espacialmente na Catalunha, no País Basco e na Galiza. Em França, pelo contrário, a partir da escola da Action Française e da obra de Charles Maurras, o “nacionalismo integral” vem a ser uma forma de patriotismo. No entanto, é importante recordar que as palavras estão carregadas e podem ser perigosas: todo o pensamento deve ser “orgânico” e ter uma ordem de ideias perfeitamente encadeadas. Se aceitamos que a nação aparece onde a guilhotina corta a cabeça dos reis, temos que aceitar que uma coisa é a ordem liberal e outra é a ordem tradicional e a primeira tem como valores a Nação, o mercado livre, a burguesia, o republicanismo, enquanto que a ordem tradicional tem como valores a Pátria, a economia corporativa, a monarquia, etc. É muito perigoso inserir em cada elo da cadeia um elemento que pertence a outra, por isso prefiro referir-me ao patriotismo em vez de ao nacionalismo.

Em Portugal, quando nos referimos ao nacionalismo, é diferente?
Não, creio que não. Em cada país europeu há uma forma de chamar as coisas. O que me parece importante é que, seja qual for a palavra utilizada para definir uma ordem de ideias, esteja acompanhada de uma tomada de posição nítida. Por exemplo, é importante que quando um “nacionalista” define o seu projecto deixe claro que se trata de um projecto fundamentalmente antiliberal e antiburguês. Isto implica resgatar a palavra das garras de quem detém historicamente o monopólio da mesma e dar-lhe um conteúdo que está nos antípodas do conceito que tinha originalmente. Creio, definitivamente, que de uma forma ou de outra temos que estar de acordo quanto aos termos a utilizar na luta política e o conteúdo a atribuir a cada termo.

No seu livro fala também no enraizamento. É possível num mundo urbanizado?
A ideia do enraizamento foi teorizada inicialmente por Charles Maurras, cujo pensamento influenciou poderosamente a reconstrução do património doutrinal de todas as direitas nacionais europeias, especialmente dos monárquicos no início do século XX. Posteriormente foi incorporada no património da Nova Direita francesa na medida em que supunha uma modulação de um instinto que está presente nas espécies animais, especialmente nos mamíferos superiores: o instinto territorial que, basicamente, faz com que se tenha tendência a identificar-se com o local que se considera como próprio e a defendê-lo, especialmente porque se nasceu ali. É o que em França se chama “as pátrias carnais” e em Espanha se chama a “patria chica", é a terra natal. Explica por que sentimos mais ou menos atracção pela zona que nos viu crescer. Nas cidades esse sentimento é muito mais atenuado. Não é por acaso que uma velha tradição dizia que a primeira cidade foi construída por Caim. As cidades modernas converteram-se em colmeias massificadas, em monstros burocrático-administrativos com cheiro a gasolina e em que a capa de asfalto, para cúmulo, nos separa da terra natal. É indubitável que nas grandes cidades se destrói a ideia de enraizamento. Mas isto também tem implicações: é evidente que as nossas cidades são como são porque o factor especulativo, o mau ordenamento, conceitos urbanísticos obtusos, geraram verdadeiros monstros que progressivamente se vão tornando mais hostis e incómodos para os seus habitantes. Era preciso um novo urbanismo capaz de dar um rosto mais humano às cidades e que estas recuperassem a dimensão humana.

O nosso pior inimigo é a globalização?
Sim, sem dúvida. A globalização é o aspecto económico de um fenómeno mais amplo e anterior: o mundialismo, matriz doutrinal de que a globalização é a aplicação económica. Já no início do século XX aparecem algumas tendência “mundialistas” sempre nos contornos da maçonaria internacional. Há que dizer que a maçonaria foi o laboratório de ideias da burguesia laica, republicana e liberal. Já nos finais do século XX trabalhava com a ideia de “unificar a humanidade”. Esse projecto teve em 1945 um novo impulso até ao ponto que algumas correntes maçónicas considerarem a fundação das Nações Unidas como o inicio da “era da luz”. A partir de 1945 a soberania dos Estados nacionais ficou limitada face a uma entidade supranacional controlada durante 40 anos pelas duas superpotências. Quando caiu a URSS e depois da Guerra do Koweit afirmou-se que tínhamos chegado ao “fim da História”, ou seja, ao período onde não haveria conflitos nem contradições e que, por isso, não haveria História, havendo no seu lugar forças económicas que operavam a nível mundial e que contribuiriam para construir um “mundo feliz”. Hoje sabemos que a livre circulação de capitais levou directamente à globalização e a esta crise económica que é, ao mesmo tempo, a primeira da globalização e talvez seja a última: o capital açude à chamada de novos benefícios e ultrapassa fronteiras constantemente, passa de um país a outro, sem fixar-se em lado algum, sempre à espera de maiores expectativas de lucro. O resultado é a instabilidade económica internacional e a formação de “bolhas” que nascem, crescem, rebentam, semeiam a dor, a ruína e a crise em certas zonas do planeta, para transferir-se imediatamente a outras gerando o mesmo impacto. Resumindo, o grande inimigo do ser humano é, hoje, a globalização.

Como podemos combatê-la?
É evidente que a competição entre diferentes economias apenas é lícita e aceitável quando ambas têm as mesmas condições de vida, os mesmos níveis de desenvolvimento e o mesmo tipo de protecções sociais. Quando na Europa o salário médio é de mil euros (na Europa do Sul) e na China é de 175 euros é evidente que não há concorrência possível. A indústria de manufacturas mudará sempre para onde seja mais barato produzi-las: as economias europeias que não podem desvalorizar a moeda, o que fazem para “ganhar competitividade” são “desvalorizações sociais”, limitando e reduzindo os salários. Mas estes nunca alcançarão os níveis da China, muito menos os do Vietname (133 euros por mês), nem os de África (apenas 50 euros por mês)... Assim, para combater a globalização, o primeiro a fazer é um rearme tarifário. O segundo é criar zonas de livre mercado homogéneas, ou o mais homogéneas possível.

Como vê a crise actual? É uma consequência da globalização?
Sim, sem dúvida. Não creio que haja saída. Quando se resolver a crise na Europa (no próximo ano prevê-se um crescimento do PIB em Espanha e que a crise acabará com um crescimento reduzido), a crise rebentará no Brasil e noutras zonas da América do Sul e provocará a quebra brusca das importações da Europa, porá bancos europeus em dificuldades e voltará a aparecer no Velho Continente o fantasma da crise extrema. Creio que esta é a primeira grande crise da globalização, mas à medida que avança temo que também seja a última. Quem diz globalização diz instabilidade e não pode existir uma instabilidade permanente. Esta, antes ou depois, acabará por desintegrar o sistema económico mundial.

Não é apenas uma crise europeia. Como está a afectar outros países?
A crise actual começou nos EUA no Verão de 2007 e depressa contagiou a Europa. A livre circulação de capitais fez com que o contágio fosse especialmente rápido. Agora, o elemento central da crise foi o aparecimento de “bolhas”. A imobiliária e a do crédito foram as centrais. Os preços da habitação tinham subido excessivamente, construía-se mais do que se podia consumir e a um preço insuportável para as populações. Apesar disso, os bancos davam créditos fáceis porque acreditavam que o preço das casas continuaria a subir. Mas, de repente, tudo parou. A bolha rebentou. Os bancos ficaram descapitalizados e em bancarrota. Ora, este processo que se viveu no “primeiro mundo”, essencialmente na Europa e nos EUA, corre o risco de se reproduzir agora, exactamente com as mesmas características em países como o Brasil e outros da América do Sul. O capitalismo move-se sempre em busca de maiores benefícios e pouco lhe importa como se obtêm ou os ensinamentos de experiências passadas. O que importa é apenas o lucro imediato. Sim, a crise continuará nos próximos anos porque as exportações europeias para as zonas que proximamente se verão afectadas pelo rebentar de novas e sucessivas bolhas pararão bruscamente. E, quando a crise acabar na América Latina, rebentará na China. Não, não há qualquer possibilidade do sistema económico mundial sobreviver a estas crises sucessivas.

O sistema político actual tem alguma solução ou está submetido ao poder económico?
Creio que esta questão é o núcleo de todo o problema: a economia governa a política. Na globalização a democracia é uma ficção porque o capital é detido por estados maiores cada vez mais reduzidos. A política é luta, criação, destino. A economia é uma ciência auxiliar da política destinada a satisfazer as necessidades das pessoas, não o afã de lucro e de usura de reduzidíssimas elites económicas. É preciso não esquecer isto: enquanto a política não voltar a conter as mais enlouquecidas ambições dos senhores do capital, não há possibilidades de acabar com a crise. Agora, é evidente que os políticos actuais não têm capacidade nem formação, nem sequer interesse suficiente, de tomar as rédeas dos novos destinos das suas nações; isso apenas os verdadeiros estadistas são capazes de fazer e o que temos são pobres espertalhões, corruptos, incapazes, egomaníacos que constituem o essencial da classe política dirigente. Há que renovar esta classe política, forjar uma nova classe política que recupere o destino dos povos e imponha as directrizes políticas à omnipotência da economia.

Como vê a questão da imigração?
Creio que a imigração é uma ameaça contra a identidade europeia. Há duas ameaças geradas pela globalização: a deslocalização e a imigração maciça. Ambas têm como denominador comum a optimização dos rendimentos do capital.

Afirma que a família é a base da identidade. Há um ataque à família?
Qualquer sociedade articula-se em torno de uma comunidade básica. A tradição diz-nos que sempre foi em torno da família. Mas esta hoje está destruída. Gostava que houvesse um país europeu que aprovasse uma lei em defesa da família. Mas não espero nada nesta direcção, antes pelo contrário. A família era de tal forma tida como essencial que em Roma era considerada como uma instituição sagrada. Se olharmos para as orientações da UNESCO – matriz intelectual da globalização – veremos que os ataques à família são uma constante. E é a família a instituição em que se forja e transmite a identidade dos povos. Não é estranho que a UNESCO a considere como o principal inimigo a abater. Da mesma forma que nós a consideremos a primeira instituição a defender.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Decrescer: uma solução para a crise?

A teoria do decrescimento ganha cada vez mais adeptos e visibilidade nesta altura de profunda crise. Quando o discurso oficial nos continua a garantir que a solução está no crescimento económico, será que, afinal, precisamos de fazer exactamente o contrário? Serge Latouche, um dos principais defensores desta ideia, veio a Lisboa para uma conferência no ano passado. Estive lá, questionei-o e escrevi uma peça para «O Diabo». Aqui fica, porque o tema não perde actualidade. Pelo contrário.

Serge Latouche na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O decrescimento tem por base a noção de limites, ao contrário das teorias que defendem o crescimento económico como se as reservas naturais do nosso planeta fossem inesgotáveis. Alain de Benoist explicou, numa entrevista à revista francesa “Réfléchir et Agir”, a génese da ideia do decrescimento: “Apareceu nos meios ecologistas quando estes começaram a perceber que, sendo a actividade económica e industrial a principal causa da poluição, era necessário questionar a ideia de desenvolvimento. Nasceu também de uma reacção contra a teoria do ‘desenvolvimento sustentável’ que pretende reconciliar as preocupações ecológicas e os princípios da economia de mercado. No plano científico, o primeiro grande teórico do decrescimento foi o economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen que, apoiando-se principalmente no segundo princípio da termodinâmica, a lei da entropia, apresentou bastante cedo o decrescimento como uma consequência inevitável dos limites impostos pela Natureza.”

Uma proposta polémica
No dia 8 de Março de 2012, Serge Latouche, professor emérito de Economia e Sociologia na Universidade de Paris-Sud, foi à Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, para a conferência intitulada “Decrescimento: Uma proposta polémica?”. Na apresentação do evento podia ler-se uma citação de Latouche que sintetiza muito bem a sua ideia: “Se você está em Roma e deve ir de comboio para Turim, mas, por engano, embarca em direcção a Nápoles, não basta diminuir a velocidade da locomotiva, abrandar ou mesmo parar. É preciso descer e apanhar outro comboio, na direcção oposta. Para salvar o planeta e assegurar um futuro aceitável para os nossos filhos, não basta moderar as tendências actuais. É preciso sair completamente do desenvolvimento e do economicismo, assim como é preciso sair da agricultura produtivista, que é parte integrante disto”.
O principal teórico do descrescimento veio à capital portuguesa a convite do CIDAC, uma organização não governamental para o desenvolvimento, o que não deixa de ser curioso... Ironias à parte, está de parabéns por ter trazido este debate para o nosso país.

“A Europa está a caminho de se autodestruir”
Serge Latouche começou por dizer que a melhor forma de explicar a sua teoria e a importância de que se reveste hoje era basear-se num texto que escreveu, intitulado “A crise do Ocidente e a resposta do decrescimento”. Em primeiro lugar, temos que perguntar-nos: que crise? A resposta é clara, segundo este professor francês, trata-se da “crise da civilização ocidental”, acrescentando que “a Europa está a caminho de se autodestruir”. Para ele, “vivemos uma sociedade paradoxal e única na História, que se deixa devorar pelo crescimento. E o crescimento pelo crescimento”. E como podem os chamados “objectores de crescimento” resolver o problema? Através do que Latouche chama a “sociedade da abundância frugal”. Explica que se trata de uma “utopia concreta” e diz que “não é impossível, mas também não é fácil”. O mais importante, segundo ele, é que se trata de uma “visão coerente”.
Para chegar até aí, é necessário sair do Euro, ou seja “reapropriar-se do dinheiro”. Só assim será possível “sair da religião do crescimento” e “sair da sociedade de consumo”. Latouche é taxativo: “estamos no capitalismo do desastre!”
Diz que as coisas devem ser explicadas como a uma criança de cinco anos, “como diria o grande Marx, não o Karl, mas o Groucho”. Assim, sintetiza ironizando: “Quem acredita que é possível crescer indefinidamente num mundo finito ou é louco ou é economista”.
No seu livro “Le pari de la décroissance”, Latouche desenvolve um projecto de sociedade baseado em oito axiomas. É a teoria dos oito “R”: Relocalizar, Reduzir, Reutilizar, Reciclar, Reavaliar, Reconceptualizar, Reestruturar, Redistribuir.

Uma teoria de esquerda?
Sobre as dúvidas em relação ao posicionamento político desta teoria, perguntei a Serge Latouche se achava que o decrescimento era de esquerda, de direita ou se estava para além de esquerdas e de direitas. A resposta foi a esperada: “Para mim, que sempre estive à esquerda, o decrescimento é um projecto de esquerda porque, no fundo, é o ‘eco-socialismo’. Dizíamos, em tempos, ‘socialismo ou barbárie’. O problema é que o socialismo esqueceu a dimensão ecológica. O meu amigo André Gorz dizia ‘eco-socialismo ou barbárie’ e eu, hoje, posso dizer ‘decrescimento ou barbárie’. É a mesma coisa.”
Mas a questão anterior baseava-se no livro de Alain de Benoist sobre o tema, onde este afirmava que estávamos perante a “emergência de uma paisagem ideológica completamente nova”. Pedi a Latouche que desse a sua opinião sobre esta obra daquele que foi o fundador da chamada “Nova Direita”. Disse-nos: “Conheço bem o Alain de Benoist e ele escreveu um livro bastante bom. É bom porque ele pegou em muitas das minhas ideias e copiou mais ou menos o meu livro ‘Le Pari de la Décroissance’, mas fê-lo bem. É um homem inteligente e fez um bom trabalho. Agora, será Alain de Benoist de extrema-direita? Ele considera-se para além da direita e da esquerda, por isso não sei onde ele se posiciona exactamente. Toda a gente tem o direito de escrever sobre todos os temas, incluindo o decrescimento. Eu não sou o proprietário dessa ideia. Mais, para ser honesto, um determinado número de temas não são propriedade da direita nem da esquerda. Há um anti-utilitarismo de direita e um anti-utilitarismo de esquerda, há um localismo, ou uma relocalização, de direita, como há de esquerda. Evoquei, no programa contra a austeridade, Marine Le Pen, infelizmente – e digo infelizmente porque ela é da extrema-direita francesa, com a qual partilho poucas coisas. Mas, a desmundialização faz parte do seu programa político, em teoria, não sei se ela o poria em prática. E, infelizmente, no contexto, devo dizer que ela fez excelentes discursos. Nem todos, mas certos discursos eram muito bons e inteligentes. Ela compreendeu certas coisas. É este o jogo político.”
Sem dúvida que a clivagem entre a esquerda e a direita hoje está longe do que foi em tempos. Em muitos temas, como este, parece que se ultrapassa claramente. No entanto, como já o fez em tantas questões, como a defesa do Ambiente, por exemplo, a esquerda gosta de se apropriar de certas teorias e ideias, reclamando-as apenas para si. Mais, reduz a direita ao liberalismo económico, algo completamente falso, esquecendo que é, ela própria, uma das principais culpadas pela actual situação.

O livro de Alain de Benoist
O pensador e filósofo francês Alain de Benoist, escreveu o livro “Demain, la décroissance ! Penser l'écologie jusqu'au bout” (Amanhã, o decrescimento! Pensar a ecologia até ao fim), publicado em 2007, que retira a conotação – supostamente óbvia – do decrescimento com a esquerda. Nesta obra, o autor faz-nos uma belíssima síntese onde nos apresenta o “estado da questão”, citando os mais variados trabalhos e autores sobre o tema, e nos dá perspectivas de futuro. Sem esquecer a política, Benoist escreve uma excelente passagem, bastante elucidativa: “Na medida em que tenciona romper com todas as formas de devastação da Natureza e de fuga para a frente com o produtivismo, o ecologismo implica uma ruptura radical com a ideologia das Luzes, ou seja a ideologia da ‘modernidade’, na qual o motor foi a crença no progresso, a vontade de nivelamento do mundo e toda aquela tradição que, apesar dos seus contrastes, proclama de diversas formas que a biosfera não tem qualquer valor em si mesma – ou que ela só o adquire depois de ter sido artificialmente transformada por uma humanidade desejosa de fazer desta o meio do seu poder e da sua ‘felicidade’. Ora, mesmo que nos possamos interrogar retrospectivamente sobre a compatibilidade das aspirações do movimento operário e do socialismo em geral com a herança das Luzes, foi desta ideologia que saiu a esquerda clássica da época moderna. Os ecologistas, que continuam normalmente a situar-se à esquerda, e que têm todo o direito de o fazer, devem no entanto perceber que a esquerda da qual se reclamam é necessariamente muito diferente da que foi engendrada pelo pensamento das Luzes. Devem, assim, olhar de outra forma para os pensadores de direita que, muitas vezes antes deles, denunciaram igualmente a ideologia das Luzes, da mesma forma que os homens de direita devem, por seu lado, ter um outro olhar sobre esta outra esquerda. Tal implica, de um lado de outro, uma tomada de consciência da emergência de uma paisagem política completamente nova, que torna as antigas clivagens obsoletas e tem como consequência convergências inevitáveis. Para dizer noutros termos, uma esquerda socialista que saiba acabar com o ‘progressismo’ será hoje o parceiro perfeitamente natural de uma direita que, por seu lado, soube romper com o autoritarismo, a metafísica da subjectividade e a lógica do lucro.” Podemos concluir que é em temas polémicos como este que se vislumbra o horizonte político do futuro.

Optimista?
Por fim, um dos presentes na conferência perguntou a Serge Latouche se, apesar de tudo, era um optimista. Ele respondeu que, como havia dito durante a conferência, “o pessimista conhece melhor a questão”. Mas explicou: “Quando comecei a fazer conferências em França sobre o decrescimento, sobre os perigos das alterações climáticas, o fim do petróleo, etc. era optimista. Mas ainda não conhecia tudo. Quando comecei a estar informado dos problemas concretos do desregulamento do planeta, tanto ecológicos como sociais, foi diferente. Em França tivemos o caso dos suicídios de quadros de grandes empresas do sector automóvel e, mais recentemente, tivemos o caso de suicídios de crianças. Crianças de sete anos que se suicidam! Não conheço sociedade na História humana – e estudei bastante o assunto – onde as crianças se suicidassem. Logo, uma sociedade onde há suicídios infantis é uma sociedade que está muito doente. Assim, apesar de a minha natureza me levar ao optimismo, o meu conhecimento do concreto torna-me cada vez mais pessimista.”

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Jogo da inglória


Majora é sinónimo de jogos para gerações de portugueses. Mas "os tempos são outros", como dizem os "especialistas". Acontece que esta empresa familiar, que cresceu e se tornou uma referência nacional na sua área, tentou adaptar-se e inovou constantemente. Mas não chegou. Agora, 74 anos depois, faz a sua "última jogada". É uma triste notícia, que nos recorda como a luta do local contra o global é inglória.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

"As multinacionais são cancros que têm nos seus genes o lucro ilimitado"

Em entrevista ao jornal «Arquitecturas», Hermann Knoflacher, director do Instituto do Planeamento e Tecnologia de Transportes, da Universidade de Viena, afirma que "deixámos de construir as cidades para as pessoas".

De facto, cada vez mais vemos que o nosso habitat urbano é centrado no automóvel. Para Knoflacher, em Portugal "gastou-se mal o dinheiro da UE. Enquanto noutros sítios estão a eliminar as auto-estradas, aqui continuam a construí-las". Para este professor universitário, que é agricultor nas horas vagas, esta estratégia está errada. Isto porque, segundo ele, "as auto-estradas não empregam pessoas. O dinheiro deixa de circular no bairro. O que é pago com cartões de plástico nas grandes superfícies sai do país".

Sem papas na língua, afirma que "as multinacionais são cancros que têm nos seus genes o lucro ilimitado". Assim, ter demasiadas estradas e carros é mau para a economia nacional, porque "este sistema de transportes rápidos favorece a centralização do poder". Ou seja, as multinacionais, as mesmas que, nas palavras de Knoflacher, "controlam os Estados hoje em dia".

Sobre Lisboa, diz que não é das piores cidades, porque "tem pessoas na rua" e sugere a criação de mais zonas pedonais e o investimento em transportes públicos.

Hermann Knoflacher vive numa quinta a 24 km do seu local de trabalho, para o qual se desloca diariamente de metro e comboio. Acredita que é possível viver sem carros, ou pelo menos com uma percentagem muito inferior à que existe hoje em dia. Para ele, é uma atitude evolutiva. "Os condutores estão sentados nos carros como os ancestrais macacos estavam nas árvores. Temos que voltar à nossa posição erecta", afirma.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ainda vamos no adro...

Num período que tem sido negro para Portugal, económica e socialmente, a recente notícia do “regresso aos mercados” tem obviamente um aspecto positivo. Claro que, para os menos versados no “economês” que agora abunda na comunicação social, convém esclarecer que a nossa situação de endividamento de vai prolongar.

Apesar de agora beneficiarmos de condições mais vantajosas, vários economistas alertaram para o facto de o pagamento da dívida pública, recorrendo em exclusivo ao financiamento dos mercados e sem crescimento económico, ser muito difícil assegurar, a prazo.

Claro que o Governo utilizou este sucesso, pelo menos aparente, em seu proveito político. Do outro lado, a oposição atrapalhou-se como de costume. O teatro da política portuguesa continua a ser, infelizmente, uma casa de uma má peça, com piores actores.

No entanto, Passos Coelho demonstrou prudência. Falando aos jornalistas em Santiago do Chile, o primeiro-ministro afirmou: “Ainda temos caminho para fazer. Os resultados que tivemos até hoje são muito importantes e são, desse ponto de vista, encorajadores, mas a ideia de que está tudo feito e de que a crise acabou, de que não precisamos de ter disciplina orçamental e de que não precisamos de ter cuidado com as reformas que estamos a empreender seria uma ideia perigosa que eu quero aqui afastar”.

Quer isto dizer que a procissão – neste caso os cortes das medidas de austeridade – ainda vai no adro... Porque a situação das famílias portuguesas vai deteriorar-se ainda mais, não nos iludamos. Mas até quando é que tal será sustentável? Pior, até quando será suportável?

Para além destas questões imediatas, há dúvidas mais profundas que se levantam. Será possível outro modelo económico? No mundo da Economia globalizada será possível sobreviver sem obedecer aos ditames alheios? Portugal não pode continuar a ser um país a crédito.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 2 de março de 2012

Krugman

A propósito da recente vinda de Paul Krugman a Lisboa, para receber um doutoramento honoris causa “conjunto” da da Universidade de Lisboa, da Universidade Nova e da Universidade Técnica (!), Vasco Pulido Valente questiona hoje na sua coluna no “Público”: “uma realidade, pouco agradável, vai pouco a pouco aparecendo, ainda hesitantemente, sob forma de pergunta: “E se não existissem os meios para o Estado social (e ramificações), que o país tirou da sua miséria com os salvíficos ‘fundos’ da ‘Europa’ e com uma dívida externa que não consegue, ou conseguirá, suportar?” Ou pior do que isso: “E se os 30 anos desta próspera e feliz democracia não passassem, no fundo, de um enorme exercício de irresponsabilidade, em que se enganaram os nativos, mas não se enganou mais ninguém no mundo?” O sr. Krugman volta para Nova Iorque e não leva os nossos problemas (nem mesmo se ofereceu para pôr na ordem a sra. Merkel). Nós ficamos, tristonhos, por aqui: “E se for preciso ‘refundar’ o regime, como se faz?”

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Apanhados


As televisões fartaram-se de mostrar o vídeo da TVI que captou uma breve conversa entre o ministro das Finanças português e o seu homólogo alemão. Muitos viram nas imagens, que mais pareciam uma situação do programa de câmara oculta “Apanhados”, a subserviência de Portugal à Alemanha. Realmente, Vítor Gaspar parecia um menino a dizer à madrinha que se tinha portado bem e que, por isso, queria o folar da Páscoa. Mas houve um pormenor que escapou. Foi bastante curioso, surpreendente até, ver como o nosso ministro das Finanças não... fez... uso... daquele... seu... tom... pausado... com... que... fala... aos... portugueses.

domingo, 8 de janeiro de 2012

E agora?

As dúvidas são grandes e a expectativa maior. Os receios quanto ao que será o futuro de Portugal e da Europa aumentam. O tempo das “vacas gordas”, da vida confortável e do futuro garantido chegou ao fim. O mundo mudou e o nosso país também. 2011 foi um ano de viragem e, no novo ciclo que se avizinha, nada será como dantes.


O ano transacto foi um annus horribilis para todos os que nos asseguravam que tudo ia correr bem. Os políticos do costume, bem instalados, viram a sua careca descoberta. Afinal, todo este progresso e desenvolvimento era ilusório. Comprado a crédito e hipotecando gradualmente o País a interesses estrangeiros. Com um endividamento geral, dos interesses do Estado às famílias, não tardou a que os credores nos batessem à porta. As dúvidas sobre a perda da nossa soberania esbateram-se com o início oficial de um semi-protectorado ou de um co-governo, como queiramos chamar. Mas Portugal não foi um caso único. A Europa foi vítima de repetidos ataques e a ditadura dos mercados mostrou a sua força ao fazer cair governos e colocando em seu lugar homens da sua confiança.

Portugal
No nosso país, percebemos que nem o fim do socratismo, nem as “medidas de austeridade e contenção” alteraram a situação perante os sempre atentos e intervenientes “mercados”, como agora se diz. Simultaneamente a esta perda de confiança nas instituições políticas e o questionar da validade das eleições enquanto instrumento popular de alteração da situação, vieram a descredibilização total no sistema judiciário, onde apenas quem tem posses razoáveis parece escapar, e a desconfiança nas instituições financeiras, com as falências de bancos e as repetidas fraudes. Os despedimentos, abaixamento do poder de compra e a subida da criminalidade aumentaram o sentimento de insegurança. O receio de um regresso ao Escudo, com a respectiva quebra do valor da moeda, assusta cada vez mais gente. Na rua, o nosso pessimismo agravou-se.
Perante tal cenário, os portugueses iniciaram de novo um êxodo. A taxa de emigração subiu vertiginosamente. Mas hoje, para além de técnicos qualificados, grande parte dos que saem não pensa voltar ou ser português. Como filhos da globalização, viver em Braga, São Paulo ou Nova Iorque é a mesma coisa. Esta verdadeira fuga coincide com outras – a fuga de capitais e de investimentos.
Grande parte dos portugueses deixou de acreditar em Portugal.

Europa
Também no resto da Europa, depois de anos ricos, as dificuldades apertam. A actual construção europeia treme com a força dos “mercados” e com as divisões internas. Mesmo a moeda única não parece resistir. O nosso continente é hoje um grupo de países sobreendividados, que viram passiva e alegremente a sua força produtiva partir para outras paragens, onde cada um tenta tratar da sua sorte, sem uma necessária estratégia comum.
Neste estado frágil, nada pior do que a situação conturbada que se vive no Mediterrâneo e no Médio Oriente. As várias revoltas a que se chamou a “Primavera Árabe”, pelos que apenas viam “a vinda da liberdade e da democracia a povos oprimidos”, abriram a porta aos islamitas, a uma maior instabilidade na região e à incerteza quanto ao futuro.

Mundo
A alteração do equilíbrio de forças no mundo ficou marcada pela influência crescente das chamadas potências emergentes. Com a China à cabeça, comprando dívidas e empresas estrangeiras e exportando produtos e mão-de-obra, percebemos como os parceiros do grande jogo da política mundial mudaram.
Os Estados Unidos da América, apesar da dívida e da crise económico-financeira, continuam a ser uma potência militar impressionante e a influenciar directamente a política externa. Quem acreditou numa “mudança”, já viu que afinal nada mudou. Os norte-americanos não abdicam dos seus interesses.

O fim da ilusão
Vivemos em fartura e, agora que sabemos que adversidades espreitam, somos forçados a mudar. Há sempre quem nos garanta horizontes de melhoria, que tudo vai ser como dantes em breve. O discurso dos “especialistas” do costume, dos optimismos oportunistas, é sempre o mesmo.
Mas uma coisa é certa e percebida – a festa da felicidade perpétua vai terminar. O reino da abundância chegou ao fim. Esta desilusão – no sentido profundo do termo – é também uma oportunidade. Um tempo para mudar de atitude e não descurar o que é realmente importante. A altura ideal para reencontrarmos valores essenciais, que foram sendo esquecidos e perdidos.

O nosso futuro
A futurologia é a disciplina predilecta dos comentadores políticos. Acontece que, ultimamente, com tantos erros de previsão e cálculos económicos, caiu em descrédito.
Numa altura em que os desafios se agigantam e as dificuldades nos estrangulam, há que redescobrir a fibra dos portugueses que ao longo da nossa História não vacilaram perante as maiores adversidades. Que mantiveram acesa até hoje a chama pátria e nos legaram a responsabilidade de perpetuar esse fogo sagrado. Reza o nosso hino: Levantai hoje de novo…
O nosso futuro pertence-nos. O nosso pior inimigo é a passividade em relação à condução dos nossos destinos enquanto país, a apatia generalizada face ao porvir de uma Nação da qual somos parte integrante.
O nosso futuro pertence-nos. Alea jacta est!

[publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Regresso ao político

Lêem-se os jornais, vêem-se os noticiários televisivos ou ouvem-se os radiofónicos e o tema omnipresente é exactamente o mesmo – a crise. Mais concretamente a “económico-financeira”. Mas desengane-se quem pensa que está a ser informado. Pelo contrário, está a ser inundado pela “ditadura dos gestores”. Tudo dito num linguajar até há bem pouco tempo estranho, o “economês”. Com os seus termos imperceptíveis e palavras anglo-saxónicas terminadas em “ing”, a fazer lembrar a secreta caligrafia receituária dos médicos. Aliás, não há muito tempo, todas estas “perspectivas”, “previsões” e demais futurologias eram recebidas com o devido cepticismo.

Mas os senhores dos MBA, e restantes acrónimos que é suposto conhecermos, impuseram o seu reinado. Tudo se resume ao mercado – ou ao seu plural, como está tão em voga – e o “resto” é estrategicamente empurrado para segundo plano.

A história do “rei vai nu” não deve já constar do imaginário de quem acredita piamente nos “analistas”, que cada vez mais se pavoneiam, aparentemente seguros, pelos ‘media’, e nas suas “análises” intoxicantes.

Paremos. Recusemos a onda. Recordemos que os Estados são construções políticas, derivadas de uma vontade. Não são, nem podem ser, reflexos de interesses globalizados cujo único propósito é o lucro exagerado e cego.

A política – não a baixa política, que nos repugna diariamente – é do interesse directo dos cidadãos. Urge, assim, um regresso ao político. A solução não está na continuação do todo-económico, antes no seu fim. Parece que os ventos da História anunciam alterações, mas sem vontade não há, nunca, mudança.

O problema da Europa, e consequentemente de Portugal, não é económico, é político. Haja vontade!

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Ricos

“Os ricos que paguem a crise” foi uma das frases do PREC que continua cara às esquerdas. Sempre que há uma “crise”, há quem queira recuperá-la. Mas, desta vez, foi um tiro que saiu pela culatra. Em França, foram os próprios ricos a propor essa “solução”, o que deixou muita gente, em especial os “revolucionários” de serviço, pasmada. Noutros países, rapidamente surgiram apelos a que se agravassem os impostos sobre os “ricos” – esse alvo tão indefinido como apetecido. Foi o caso do nosso país.

Mas, o que é ser rico? Como estabelecer os limites? Pelos ganhos mensais, ou pelas propriedades? Se tudo isso está declarado e os respectivos impostos são pagos, qual o problema?

Em primeiro lugar, conhecemos bem os desastrosos resultados deste nivelamento por baixo, feito em nome da sociedade sem classes. Depois, há uma consequência imediata desta sanha contra os ricos – a fuga de capitais a sediação de empresas noutros portos mais apetecíveis. Em Portugal, os verdadeiramente ricos já puseram as suas fortunas a salvo, lá fora. E os “quase-ricos” estão também a fazê-lo. Quem se segue?

Depois de acabar com os gestores públicos que auferem salários milionários e ganham prémios de desempenho em empresas que apresentam prejuízos, o que importa taxar são os “ricos” que estão fora do sistema. Os que não declaram. São casos bem conhecidos de todos nós. Aqueles que às Finanças dizem ganhar o salário mínimo, não passam facturas e, depois, pavoneiam-se em carros de luxo e exibem ostensivamente outros sinais exteriores para mostrar o seu “sucesso”.

A carga fiscal deve ser suportada por todos nós. Todos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Economia doméstica

Ainda sem sofrer com as medidas de austeridade, cortes de vencimentos, aumentos vários e consequente perda de poder de compra, os portugueses começaram já a alterar os seus hábitos. O consumo sofreu a maior quebra desde finais dos anos setenta do século passado e esse movimento terá tendência a agravar-se.

A facilidade de crédito levou ao endividamento generalizado. A publicidade agressiva levou a que, como naquela anedota dos cursos de ‘marketing’, “esquimós comprassem frigoríficos”. A sociedade de consumo instalou-se e as pessoas aderiram de uma forma desenfreada. A afirmação pessoal através da posse de bens materiais tornou-se a regra. Pior, toda a gente se achou no direito de “ter”, apenas por “ter”.

Pelo nosso país fora vimos nascer centros comerciais como cogumelos, um pouco por toda a parte, ao mesmo tempo que qualquer vilória passou a ter um ou mais supermercados. Perderam-se postos de trabalho e alteraram-se drasticamente as economias locais, que ficaram reféns das redes de distribuição, na mão de intermediários.

O fim do Reino da Abundância levará, inevitavelmente, à morte do ‘homo consumans’. Como reza o velho ditado, “quem não tem dinheiro, não tem vícios”. E pode ser que a crise obrigue a repensar o modo de vida que temos hoje. A antiga lição da economia doméstica pode, e deve, ser um princípio a seguir. Nomeadamente na definição das prioridades das famílias, que ultimamente se habituaram a descurar o essencial em prol do acessório.

Viver mais com menos – uma lição de outras gerações à qual devemos voltar.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O crime compensa

Diz-nos a publicidade a “Inside Job” – título perfeito, mas infelizmente intraduzível – que este filme custou mais de 20 triliões de dólares a fazer. O pior é que esse dinheiro é de todos nós, melhor dizendo, de todos os afectados pela profunda crise económico-financeira que estoirou em 2008. Milhões de pessoas perderam os seus empregos, as suas casas e as suas poupanças. Como foi possível essa tragédia? Quais as suas origens? Quais os seus culpados? Algo foi feito para resolvê-la?

Este é um documentário corajoso que responde a estas questões de uma forma clara e acessível e incisiva, com o recurso a entrevistas, gráficos, títulos de jornais e imagens de arquivo. Tudo muito bem montado, em sequências bem ritmadas que nunca se tornam maçadoras e prendem a atenção do espectador e com a narração do actor Matt Damon.

O responsável por este trabalho de verdadeiro serviço público, isento e bem documentado, é Charles Ferguson que o realiza, produz e escreve. Ferguson é formado em Matemática e doutorado em Ciência Política. Profissionalmente foi empresário na área das novas tecnologias e entretanto passou ao cinema, onde se notabilizou com o documentário sobre a guerra do Iraque “No End in Sight” (2007). Para fazer este filme viajou pelo mundo questionando especialistas, políticos e alguns dos responsáveis pelo desastre financeiro, a quem não teve qualquer problema em colocar as perguntas mais difíceis. Alguns recusaram dar entrevistas e essa atitude é referida, outros ficam sem palavras, incomodados, enervados e há até quem peça para desligar a câmara.

Traçando um percurso desde que se abandonou o modelo financeiro tradicional americano, concretamente com a administração Reagan, mostra-nos como a alta finança começou a ser cada vez mais concentrada e poderosa, de tal forma que começou a dominar a política, independentemente de ser republicana ou democrata. Como é dito a determinada altura, o que existe é um “governo de Wall Street”.

Mas o que mais revolta é a impunidade generalizada que verificamos ao ver que os principais responsáveis continuam a fazer uma vida milionária, coleccionando mansões e jactos privados, ao mesmo tempo que recorrem a serviços de prostituição de luxo e ao consumo de cocaína. Tudo vale neste jogo de ganhar dinheiro à custa da miséria alheia.

A parte final do filme é bastante reveladora do que nos guarda o futuro. Apesar das boas intenções anunciadas pelo recém-eleito presidente Obama, a triste realidade é que nada, ou quase nada, se alterou. Aquele que se apresentava como apóstolo da “mudança”, afinal reconduziu ou colocou em lugares de topo vários responsáveis directos por um ‘meltdown’ nunca antes visto. Para reflectir e agir. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ronda blogosférica

Mishima
A propósito da fotografia do assassinato de Asanuma Inejiro, Secretário-Geral do Partido Socialista do Japão, há exactamente 40 anos atrás, tirada por Nagao Yasushi e que lhe valeu um Pulizer prize, The Last Nan Ban Jin, o nosso lusitano no Japão, traz-nos um texto de John Nathan sobre as origens de "Patriotismo", conto de Yukio Mishima, assim como das de "Seventeen", conto de Kenzaburō Ōe.

Desmistificar a História
A Voz Portalegrense publica o primeiro apontamento da série "Desmistificando a História", da autoria de Carlos Manuel Faísca, que traça o desempenho económico português e a evolução das contas públicas durante o século passado. Venham mais!

Desnorte
"Passar além da dor" é o lamento do Miguel Vaz sobre a falta de um rumo para Portugal...

Aforismos
São "frases curtas de longo alcance". Quem o afirma é o João Marchante que, melhor que ninguém, sabe do que fala.

Delírios
O Harms acha que um chorrilho de dispatates pode ser uma "obra fundamental". Não concordo, mas reconheço que tal o inspirou a fazer um texto genial.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Maurice Allais (31/5/1911 – 9/10/2010)

No dia em que foi anunciado o prémio nobel da economia, soube da morte de Maurice Allais, o único francês a ser laureado nessa categoria. Nascido em 1911, definia-se como um "liberal socialista" e era um defensor da comunidade europeia. No entanto, considerava que esta devia assegurar a sua segurança económica. Como afirmou no ano passado: "um proteccionismo racional, entre países de níveis de vida muito diferentes não é apenas justificado, como absolutamente necessário".

Uma das teorias mais interessantes de Maurice Allais, a da "autarcia dos grandes espaços", inspirou, entre outros autores, Guillaume Faye, no que respeita à solução económica para um grande bloco etno-político europeu. Tal levou Faye a afirmar: "A Europa futura não pode ser encarada sob a forma indolente e ingovernável da actual União Europeia, que é uma medusa sem poder soberano, de fronteiras abertas, dominada pelo dogma do comércio livre, submetido à vontade americana e à OTAN. É preciso pensar numa grande Europa imperial e federal, etnicamente homogénea (quer dizer, 'europeia'), baseada em grandes regiões autónomas e, sobretudo, indefectivelmente aliada à Rússia. A este enorme bloco continental chamei 'Eurosibéria'. Este ouriço gigante, que em nada seria ofensivo mas simplesmente inatacável, seria de longe a primeira potência mundial (o mundo vindouro será dos grandes blocos) e, sobretudo, deveria ser «autocentrado» e romper com os muito perigosos dogmas da mundialização. Teria perfeitamente os meios de praticar a 'autarcia dos grandes espaços', da qual, com o Prémio Nobel da Economia francês, Maurice Allais, desenvolvi os princípios."

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A situação actual em duas notícias

Hoje, no popular jornal «Correio da Manhã», há duas notícias que, quando associadas, explicam a actual situação. São elas: "Vara quadruplica salário", que mostra como a passagem pelo governo de Guterres foi essencial para que Armando Vara passasse "de um ganho anual de trabalho dependente de 59 486 euros, em 1994, para 239 541 euros, em 2007" e "Empregos destruídos", que nos dá conta de que "a taxa real do desemprego já ultrapassou a barreira dos 10% da população activa". Cada qual que tire as suas conclusões...