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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O mau jornalismo habitual (XII): a Alternative für Deutschland

Alice Weidel, a líder parlamentar da AfD que é assumidamente homossexual.

Sabemos que a classificação "extrema-direita" é naturalmente discutível e amiúde utilizada pejorativamente, normalmente como "alerta para o regresso do fascismo". Mas, sem grandes dificuldades, admitamos para esta exposição a Alternative für Deutschland (AfD) nessa categoria.

Ora, se a AfD é de extrema-direita, também o era o Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei (o partido usou as duas designações consoante os Länder), que existiu entre 1946 e 1950, elegendo cinco deputados ao Bundestag, nas primeiras eleições federais pós-Segunda Guerra Mundial, em 1949.

Vem isto a propósito da "notícia", apregoada por tantos media, de que a AfD seria a primeira força de extrema-direita a entrar no Bundestag. Tomemos um exemplo paradigmático. Mafalda Anjos, a "diretora" (assim mesmo, sem o "c" de carácter que a submissão ao Acordo Ortográfico impôs) da revista "Visão", ainda por cima "em Berlim", fazia a seguinte previsão: "Extrema-direita terá assento no Parlamento alemão pela primeira vez desde 1945".

No estilo habitual destes lamentos alarmistas, Mafalda Anjos recorda que a Alemanha é um "país onde a herança de um passado nazi ainda está bem presente", mas a classificação da AfD, ao longo do artigo parece ir esmorecendo... Da "extrema-direita" do título, passamos para "direita-radical" no segundo parágrafo e, já no final, para "partido conservador anti-imigração". Provavelmente são sinónimos, já que na ampla classificação de "extrema-direita" cabe muita coisa. Cabe até Alice Weidel, uma das líderes da AfD, de quem a "diretora" da "Visão" diz que é "uma lésbica orgulhosa, casada com uma mulher do Sri-Lanka, trabalhou na Goldman Sachs e vive na Suiça".

Vamos aos factos, que falharam neste artigo, muito provavelmente por ignorância histórica e cegueira ideológica. Alice Weidel é homossexual assumida e vive com Sarah Bossard, uma cidadã suíça de origem cingalesa, com quem adoptou dois rapazes. No entanto, Weidel está longe de ser a habitual defensora dos direitos homossexuais e da teoria de género. Quando a AfD lamentou a legalização do casamento entre homossexuais na Alemanha, dizendo "adeus à família alemã", Weidel afirmou que "ser a favor da família tradicional não significa rejeitar outros estilos de vida" e referiu a sua própria eleição para a liderança do partido como prova da tolerância da AfD. Sobre o tema do casamento entre homossexuais, considerou não ser uma prioridade no debate, afirmando: "debater o casamento para todos enquanto milhões de muçulmanos imigram ilegalmente para a Alemanha é uma anedota!" Por outro lado, Weidel disse ainda não querer para as suas crianças a "idiotice de género" ou a "sexualização das aulas".

Contraditório? Talvez. A verdade é que muitos dos partidos considerados de "extrema-direita" que têm tido sucessos eleitorais apresentam várias diferenças em relação aos seus congéneres do passado. Evolução natural ou fim de uma era? Será a AfD a "nova extrema-direita", pelo menos na opinião de Riccardo Marchi que insere o partido na família "dos partidos com agenda política eurocética, anti-imigração, anti-islâmica, mas cujas raízes não afundam nos autoritarismos do período entreguerras"? Mais ainda, como afirma este historiador italiano radicado em Portugal, será a AfD "o coveiro do neonazismo"? Recusando uma classificação binária, a análise não deixa de merecer uma atenta reflexão.

Voltando ao início deste texto, como sabemos, a AfD tornou-se o terceiro partido mais representado no Bundestag, mas não foi o primeiro partido de "extrema-direita" a ter assento no parlamento alemão. Esse lugar pertence ao Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei. Aliás, o percurso dos deputados desse partido eleitos em 1949 é curioso, já que dois deles se juntaram ao Sozialistische Reichspartei Deutschlands (SRP), um partido strasseriano que foi, em 1952, o primeiro partido a ser ilegalizado pelo Tribunal Federal Constitucional. Mas essa, é outra história...

sábado, 15 de julho de 2017

Evocação de Carl Schmitt



Alain de Benoist convidou Alexandre Franco de Sá e Aristide Leucate para uma emissão de "Les Idées à l'endroit", na TV Libertés, sobre Carl Schmitt. Nesta óptima evocação do jurista, filósofo e politólogo alemão, que continua tão desconhecido entre nós, o único defeito foi a curta duração do programa... A (re)ver!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A Direita francesa, as eleições presidenciais e Marine Le Pen


Há dois anos entrevistei o Bruno Garschagen, professor de Teoria Política, autor e tradutor, a propósito do seu livro “Pare de acreditar no Governo. Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”. Apesar das nossas diferenças, mantivemos o contacto, a amizade e o salutar debate de ideias. Desta vez, a propósito das eleições presidenciais francesas, os papéis inverteram-se e fui eu o entrevistado. Aqui fica a ligação para a entrevista que dei ontem em directo, uma óptima experiência que, assim espero, seja útil à compreensão do que está em jogo no próximo dia 7 de Maio. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A teoria que dá a vitória a Marine Le Pen

Marine Le Pen

Serge Galam, físico e investigador em Ciência Política no CEVIPOF previu a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA e a derrota de Alain Juppé nas primárias da Direita francesa. Agora, segundo noticia o "Le Point" e desenvolve a revista "Valeurs Actuelles", diz que há uma possibilidade de Marine Le Pen chegar ao Eliseu para a qual apresenta uma base científica.

Ao contrário do que prevêem as sondagens, Marine pode vencer graças ao que Serge Galam chama a "abstenção diferenciada". Segundo o investigador, Le Pen não consegue passar a barreira dos 50%, mas pode beneficiar de uma fraca mobilização do eleitorado de Macron.

Traduzido em números, Galam parte de uma sondagem que dá 58% a Macron e 42% a Marine para considerar que, neste caso, se 90% dos eleitores de Marine votarem na segunda volta e apenas 65% dos eleitores que declararam o seu apoio a Macron o fizerem, Marine Le Pen seria eleita com 50,07% dos votos.

É uma hipótese remota, claro, mas temos visto vários casos em que o inesperado aconteceu...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Da despolitização


«Um dos modos mais habituais de assinalar a nossa era política consiste na sua caracterização como uma era da despolitização. Dir-se-ia que vivemos hoje, nas democracias liberais do Ocidente, como se o político tivesse desaparecido do mundo, como se tivéssemos entrado na era da pós-política. E uma tal caracterização aparece como algo pacífico, surgindo frequentemente como o sentido fundamental, como o pano de fundo de fenómenos cuja referência parece ser, de tão habitual e recorrente, dispensável. Entre tais fenómenos pode-se contar, por exemplo, o desinteresse crescente pela vida pública por parte de importantes sectores populacionais no seio das democracias liberais ocidentais; ou a sua concentração exclusiva na sua vida privada; ou a entrega da economia às simples leis de um mercado para cuja legalidade imanente a dimensão do político não pode deixar de surgir como uma interferência perturbadora; ou a entrega do desenvolvimento técnico a uma pura lei imanente de crescimento ininterrupto, diante da qual as tentativas políticas ou jurídicas de regulamentação não parecem ser senão intrusões provisórias; ou a tentativa para encontrar uma paz mundial assente na constituição de uma "lei dos povos", a qual surja como uma legalidade internacional que ultrapasse o plano estritamente político de uma "lei de Estados" tendencialmente autónomos e agressivos; ou a ideia de que a história chegou ao fim no seu estatuto de percurso movido por grandes narrativas de mobilização política. Diante de todos estes exemplos, dir-se-ia então que hoje, de um modo geral, a vida política é marcada pela perda de importância do plano político; e que é esta perda que justamente se pode chamar despolitização

Alexandre Franco de Sá
in "Metamorfose do Poder".

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Carl Schmitt revisitado


Há cerca de um ano, realizou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa o colóquio “Carl Schmitt revisitado”, organizado por Carlos Blanco de Morais e Luís Pereira Coutinho, do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas (ICJP). Uma excelente iniciativa que não deixei de louvar, na altura, "tanto pela elevada qualidade e preparação dos oradores, como pela presença e interesse do público".

Agora, as comunicações apresentadas foram reunidas num volume intitulado "Carl Schmitt revisitado" e publicadas em formato electrónico, disponível na página do ICJP, que está de parabéns.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nos 500 anos de 'O príncipe'

«Il Principe é um tratado sobre o Estado e a conquista do Estado. Um livro que, tal como o seu autor, teve a graça e a desgraça da popularidade, de ser citado e recitado por toda a gente a partir de referências em segunda mão e de fragmentos de divulgação jornalística. O longo estudo-prefácio de Pedullà tem o mérito de situar a obra no contexto e de retomar algumas das questões do 'enigma de Maquiavel': para que escreveu ele O Príncipe? Para conquistar as boas graças dos Médicis, de novo senhores de Florença? Por ter querido, como técnico ou tecnocrata da arte política, elaborar um 'espelho de príncipes' nos antípodas dos escritos pelos moralistas tardo-medievais e renascentistas; ou um panfleto patriótico, um apelo nacionalista, um discurso para libertar a Itália dos bárbaros? Entrando na polémica repúblicas-principados, terá Maquiavel pretendido defender os novos príncipes, os novos reinos unidos e centralizados pela razão de Estado, como forma de modernidade na nova Europa?

Há argumentos e contra-argumentos para todas estas interpretações. Em cinco séculos, O Príncipe, o seu autor e conjunto da sua obra deram lugar a intermináveis estudos, comentários, interpretações, rejeições. O que não deixa de ser natural, se aceitarmos que foi o 'inventor da Política'. Ou, pelo menos, da política moderna, como arte e razão do Estado, uma Política não subordinada à Religião, ou à Moral, ou ao Direito.

Com ele entramos numa terra estranha e incógnita, talvez não no 'Reino do Mal' de que fala Prezollini, mas num mundo e num submundo onde há alturas e abismos. Como tudo o que é humano, demasiado humano.

O Príncipe, na sua pedagogia asséptica e assustadora, escancara alguns desses abismos. É e será sempre, uma leitura necessária.»

Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»

sábado, 23 de novembro de 2013

O fermento das minorias

«A desigualdade individual origina no plano social uma divisão entre fortes e fracos, já constatada por Duguit. Os fortes capturam os poderes sociais (político, ideológico, económico) e governam a maioria da população. É o fenómeno das elites dirigentes e dominantes, da hierarquia, que tão bem evidencia a análise da sociedade animal. A reflexão mais desapaixonada sobre esta matéria foi efectuada pela escola sociológica italiana, com Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e Roberto Michels. Estes autores provaram a perenidade da minoria, a minoria poderosa, que impõe a sua vontade sobre a maioria dando-lhe a impressão de ser ela a decidir e a governar.

Analisando a sociedade e o homem tal como eles são, estes autores anteciparam-se de quase meio século às realidades científicas do nosso tempo. Identificaram correctamente os detentores do poder real e formularam as leis segundo as quais decorre a disputa da força. Identificaram igualmente as justificações mais ou menos elaboradas que a minoria criou para o seu poderio e chamaram-lhe fórmula política. Dizer que o poder lhe vem de Deus, ou do Povo, ou que é do autocrata a título de conquista, são tudo razões óptimas desde que operem e cumpram a sua função justificativa. Acontece que hoje as fórmulas políticas são as ideologias e nelas não há, como se viu, o menor grão de credibilidade. Está por nascer a fórmula política do nosso tempo, que reduza democracia e socialismo, social-democracia e marxismo, a meros trastes velhos da história da pulhice do homo sapiens.

Os autores que situam correctamente estes problemas numa análise neomaquiavelista são poucos. Todos ainda preferem as visões românticas e penetradas pela ideologia, justificativas em última análise do poder da minoria actuante ou da minoria que aspira ao poder. Contudo, com o desaparecimento desses grandes vultos do pensamento político, não é menos certo que ficaram certos autores que importa conhecer e que reflectem, na Teoria Política, a revolução intelectual a que se assiste noutros campos do saber. Carl Schmitt, o velho professor alemão, James Burnham, Wright Mills e Julien Freund, chegam para assegurar um exercício impecável em matéria de realismo político e transparência de concepção.

As minorias, portanto, longe de se confundirem com a multidão, são pela sua organização e coerência o único fermento social de mudança e poder. Só caem para ceder o lugar a outras, de modo que a História não passa de um velho e enorme cemitério de oligarquias. A lei de ferro da oligarquia, formulada por Michels, apenas se faz eco desta constatação empírica, tão desagradável aos doentes do igualitarismo acéfalo, fervorosos crentes no álibi da tábua rasa.»

António Marques Bessa
in "Ensaio sobre o Fim da Nossa Idade", Edições do Templo (1978).

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Teologia política no Méridien Zéro


Hoje, às 20 horas portuguesas, será transmitido mais um programa do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, desta vez com a presença de Alain de Benoist, a propósito do último número da revista "Nouvelle École", sobre o regresso da teologia política.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Viagem ao delírio norte-coreano

A recente escalada de tensão no Extremo Oriente, que tem como protagonista Kim Jong-un, o jovem ditador da Coreia do Norte, e como intervenientes directos a Coreia do Sul, os EUA, o Japão e a China, chamou a atenção do mundo para um regime político tão fechado como desconhecido. O que podemos saber, a partir do ponto mais ocidental da Europa, sobre a auto-denominada República Democrática Popular da Coreia (RDPC)?



O fim da Segunda Guerra Mundial terminou com a anexação japonesa da Coreia e dividiu longitudinalmente a península em duas zonas ocupadas – o Norte pela União Soviética e o Sul pelos EUA, que acabaram por dar origem aos actuais países, após a guerra que os opôs, no início da década de 50 do século passado, naquele que foi o primeiro conflito armado da Guerra Fria. Ambas as Coreias tiveram, a partir daí, evoluções bastante diferentes. Numa simplificação, uma seguiu o comunismo – o Norte –, e a outra o capitalismo – o Sul. No entanto, para percebermos a actual RDPC, esta classificação binária é claramente insuficiente.

Regime político
Qual é o regime político da RDPC? Esta é uma questão que há muito apaixona os politólogos, já que a mera etiqueta “comunista” não chega. Em primeiro lugar, podemos dizer que nominalmente é uma “democracia”. E não se pense que não há partidários desta tese. Recorde-se, por exemplo, que até em Portugal o líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, afirmou numa entrevista, em 2003, que tinha “dúvidas de que a Coreia do Norte não seja uma democracia”. De facto, para além do Partido dos Trabalhadores da Coreia, existem outros dois pequenos partidos, mas que têm que submeter-se àquele que é, na prática, o partido único desta “ditadura da democracia do povo”, como prevê a Constituição. Muitos classificam ainda a RDPC como uma “ditadura familiar” ou uma “monarquia absoluta”.

No aspecto ideológico, a RDPC assenta no ‘Juche’, uma ideia baseada na auto-suficiência, que muitos consideram o “marxismo-leninismo kimilsunguiano”, onde sobressai um culto da personalidade que estabeleceu que Kim-Il-sung é o “eterno presidente” e que evoluiu para uma quase-religião de Estado. Em 1972, o ‘Juche’ substituiu o termo “marxismo-leninismo” na Constituição e em 2009 foram retiradas todas as referências a “comunismo”. Curiosamente, um dos grandes teóricos do ‘Juche’, para além de Kim Il-sung, foi Hwang Jang-yop, que em 1997 desertou para a Coreia do Sul. Recentemente, ganhou força a filosofia ‘Songun’, ou “prioridade militar”.

Há ainda quem defenda algo completamente diferente. Em 2010, Brian Reynolds Myers, estudioso da Coreia do Norte, publicou o livro “The Cleanest Race: How North Koreans See Themselves and Why it Matters” (“A Raça mais limpa. Como os norte-coreanos se vêem a si próprios e porque é que isso importa”), onde defende que a ideologia ‘Juche’ serve apenas para iludir os estrangeiros. Segundo ele, a RDPC é um regime nacionalista, racista e xenófobo, derivado do nacionalismo Showa japonês.

De facto, a única conclusão a tirar é que este regime ‘sui generis’ desafia uma classificação política simples e se presta às mais diversas interpretações.


Imagem
Como chegar até este regime fechado? Hoje em dia, através da Internet, é possível aceder a uma quantidade enorme de conteúdos produzidos pela RDPC, que os transmite através de vários canais. Na página oficial da RDPC podemos encontrar diversas informações sobre o país, uma biblioteca electrónica, informações sobre turismo e negócios, uma galeria de imagens e até uma loja ‘online’ onde é possível comprar DVD com filmes, CD de música, emblemas, bandeiras, etc. Mais curiosa é a informação sobre a Associação de Amizade com a Coreia, que tem duas delegações aqui ao lado, em Espanha, mas também está presente nos EUA, na Bolívia, no Chile, em Itália e na Argélia. Como curiosidade, existe também um ‘blog’ em português do Brasil com traduções dos textos oficiais da RDPC.

Através do YouTube, é ainda possível ver os filmes norte-coreanos legendados em inglês, para além de concertos de música, programas de televisão.

A RDPC tem também agência de notícias, que transmite para o resto do mundo a imagem desejada pelo regime. Para decifrar essas informações, existem vários ‘sites’ na Internet, como por exemplo o “North Korea Leadership Watch”.

Apesar disso, é sempre muito difícil ter uma verdadeira realidade do país, para além da propaganda oficial e da contra-propaganda.


“Parque Jurássico”
Em especial para um ocidental, a RDPC desperta uma curiosidade natural por se apresentar como um mundo à parte. É quase uma espécie de ilha isolada neste mundo globalizado.

Há quem tenha considerado a Coreia do Norte como o “Parque Jurássico do comunismo” e esta estranha realidade tem sido descrita em vários livros da autoria de dissidentes que conseguiram escapar, de diplomatas que lá estiveram, ou de analista especializados naquela região.

Em Portugal, o escritor José Luís Peixoto escreveu o livro “Dentro do Segredo - Uma Viagem na Coreia do Norte”, depois de ter passado quinze dias naquele país. Numa entrevista ao “Diário de Notícias”, afirmou: “Mesmo para quem visite a Coreia do Norte com mais liberdade, existe sempre um constrangimento de movimentos, para além de uma exagerada recriação que é feita para os estrangeiros. Para quem está fora daquele culto de personalidade, é difícil aceitar o que nos é dito sobre os líderes e a grande quantidade de qualidades fora do humano que lhes são atribuídas.”

Por muito que no Ocidente se ironize um regime que nos parece vindo de outro mundo – a lembrar a distopia orwelliana “1984” –, a crescente instabilidade no Extremo Oriente pode originar um conflito de proporções desconhecidas.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Carl Schmitt actual

Decorreu, nos passados dias 8 e 9 de Maio, no Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o colóquio “Carl Schmitt revisitado”, organizado por Carlos Blanco de Morais e Luís Pereira Coutinho, do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas (ICJP). A iniciativa foi um êxito, tanto pela elevada qualidade e preparação dos oradores, como pela presença e interesse do público. Os organizadores estão de parabéns por proporcionarem esta revisitação, tão importante para a reflexão política actual. Regresso a um pensador essencial.



Carl Schmitt (1888 – 1985), alemão e católico, foi jurista, filósofo, politólogo e professor universitário. Um intelectual de alta craveira cuja obra e pensamento influenciaram vários autores. A sua breve aproximação ao III Reich, entre 1933 e 1936, valeu-lhe, para alguns, a classificação de “filósofo maldito”, mas o valor inegável do seu trabalho acabou por ser reconhecido. Como escreveu Alain de Benoist, “Schmitt faz parte desses autores e teóricos da direita alemã cuja atitude em relação ao nacional-socialismo foi, pelo menos, bastante matizada”. De facto, depois de ter sido alvo de duras críticas por parte de certas facções desse regime, renunciou a qualquer actividade que não a docente.

Actualidade
A recente discussão nacional sobre o respeito à Constituição da República Portuguesa independentemente da realidade do País, mostrou a actualidade do pensamento de Carl Schmitt. De facto, houve quem recordasse, a este propósito, a oposição do decisionismo e o estado de excepção schmittianos ao normativismo de Hans Kelsen.

Já Alain de Benoist havia demonstrado a actualidade de Carl Schmitt no livro “Guerra Justa, Terrorismo, Estado de Urgência e Nomos da Terra”, publicado em Portugal pela Antagonista, em 2009. Na introdução, Benoist afirma: “A tese da influência de Carl Schmitt sobre os neoconservadores americanos por intermédio de Leo Strauss não passa de uma fábula. Mas há, por outro lado, uma incontestável actualidade do pensamento schmittiano, actualidade bem discernida por numerosos observadores, singularmente depois dos atentados do 11 de Setembro de 2001, que a vida internacional, bem como certas iniciativas do governo americano, não cessaram de nutrir no decurso destes últimos anos.”

Política
O que é a política? Era o que perguntava Julien Freund, num ensaio publicado em Portugal em 1974, pela Futura, respondendo: “Podemos basear-nos nas relações e correlações entre os diversos pressupostos: comando e obediência, privado e público, amigo e inimigo. Parece-nos, no entanto, que a melhor maneira consiste em caracterizá-la pelo encadeamento das dialécticas que estes pressupostos orientam. A política é, então, a actividade social que tem como objectivo garantir, pela força, geralmente apoiada no direito, a segurança exterior e a concórdia interna de uma unidade política particular, salvaguardando a ordem no meio de lutas que têm origem na diversidade e divergência das opiniões e interesses”. Freund, que procurou demonstrar que existe uma essência da política, considerava Schmitt como um dos seus mestres e foi um dos principais responsáveis pela introdução do pensamento deste pensador alemão no universo francês dos anos 60 do século XX. Nota-se na definição freundiana a clara influência de Schmitt, que afirmou que “a específica distinção política à qual é possível reconduzir as acções e os políticos é a distinção entre amigo (‘freund’) e inimigo (‘feind’).” Nesta oposição, há que precisar que o inimigo a que Schmitt se refere é o inimigo público, o ‘hostes’ latino, e não o inimigo privado, o ‘inimicus’.

Rede Schmittiana
Se o colóquio “Carl Schmitt revisitado” demonstra que o interesse neste pensador e na sua obra tem aumentado no nosso país, devemos dizer que Portugal não é uma excepção. Um dos oradores, Alexandre Franco de Sá, professor na Universidade de Coimbra e especialista em Schmitt, de quem traduziu “Catolicismo Romano e Forma política” (Hugin, 1998) e “Terra e Mar” (Esfera do Caos, 2008), revelou que no Brasil os estudos schmittianos estão a desenvolver-se a um ritmo elevado. Para além da publicação de obras de Schmitt, Franco de Sá mostrou a edição do seu livro “Poder Direito e Ordem. Ensaios sobre Carl Schmitt”, recém-publicado pela editora Via Verita, que também publicou uma versão brasileira de “Metamorfose do Poder”, saído em Portugal em 2004, pela Ariadne Editora.

Alexandre Franco de Sá é também, juntamente com os professores brasileiros Joelma Pires e Roberto Bueno, fundador da Rede Internacional de Estudos Schmittianos, que tem já importantes membros de vários países, como Alain de Benoist, Alberto Buela, Günter Maschke ou Jerónimo Molina.

No segundo semestre de 2012, a “Revista Brasileira de Estudos Políticos” dedicou um número monográfico, que conta com 13 artigos de eminentes especialistas estrangeiros e brasileiros, ao tema “Os paradoxos do Estado Democrático de Direito: entre o estado de excepção e os contrapoderes de resistência”, onde o homenageado é naturalmente Carl Schmitt. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Estado das Direitas

Decorre nos próximos dias 1 e 2 de Fevereiro, das 10 às 17 horas, na Sala Polivalente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), o colóquio com o tema “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”, organizado por Riccardo Marchi.



Na linha do seminário dedicado ao estudo histórico e político das direitas portuguesas intitulado “As raízes profundas não gelam? - Ideias e percursos das direitas portuguesas”, realizado em Novembro de 2010, o investigador italiano radicado em Portugal Riccardo Marchi, autor dos livros “Folhas Ultras - As ideias da direita radical Portuguesa (1939-1950)” e “Império, Nação, Revolução - As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974)”, organiza agora o colóquio “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”.
O foco de análise neste colóquio é o Estado no seu duplo significado de “Condição” e “Ordenamento político-jurídico”. Como nos explica a apresentação, “por um lado, a ‘condição das Direitas’ na sua dimensão política e cultural, numa perspectiva diacrónica desde a institucionalização da democracia até aos nossos dias. Por outro lado, o ‘projecto institucional’ das Direitas na sua dimensão nacional e internacional, numa perspectiva de futuro”.
O colóquio será dividido em dois painéis por dia, aos quais se segue um período de debate. No primeiro, “Direitas e partidos”, moderado por Riccardo Marchi, falarão Tiago Fernandes, sobre “Direita e qualidade da democracia: Portugal em perspectiva comparada (1974 – 2010)” e José Pedro Zúquete, sobre “Direita, genética: entre o passado e o presente”. O segundo, subordinado ao tema “Direitas e Cultura”, terá as intervenções de Patrícia Silva, com a comunicação “Direitas e discurso político: O CDS entre passado e presente”, Alexandre Franco de Sá, com “Direita, Hegemonia e Filosofia Política”, e Pedro Mexia, com “Direitas e Artes”, e será moderado por José Pedro Zúquete. No segundo dia, o painel da manhã, com o tema “Direitas e Estado”, será moderado por Tiago Fernandes e terá como intervenientes Pedro Lomba, com a comunicação “As Direitas e o Estado na arquitectura constitucional”, João Pereira Coutinho, com “As Direitas e a relação entre o Estado e os Corpos intermédios”, e António Araújo, com “As Direitas e a relação entre o Estado e a Sociedade”. O último painel, intitulado “Direitas e Poderes”, com moderação de António Costa Pinto, terá as comunicações “As Direitas, o Estado e o Supranacional (Europa e Comunidade Internacional)”, de Marina Costa Lobo, e “As Direitas e o Estado face ao mercado”, de André Azevedo Alves. A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Debater as Direitas

Decorreu nos passados dias 29 e 30 de Novembro, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, um seminário intitulado “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas” organizado pelo investigador Riccardo Marchi. Este italiano radicado em Portugal é autor de um estudo sério sobre as direitas radicais portuguesas de 1939 a 1974, o que era uma lacuna na nossa historiografia. Marchi decidiu investigar aprofundadamente o assunto e doutorou-se em História no ISCTE com a tese que deu origem a dois livros complementares: “Folhas Ultras. As ideias da direita radical portuguesa (1939-1950)”, publicado pelo ICS, tem por base a primeira parte do seu estudo; “Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)”, publicado pela Texto, é a parte central da sua tese.

Razões de um seminário
Numa entrevista ao blogue Dissidente.info, questionado sobre as razões que o levaram a organizar este seminário, Marchi respondeu: “Quis reunir peritos de cada área específica das direitas que permitam desenhar um “fil rouge” desde o miguelismo contra-revolucionário até ao liberalismo dos nossos dias. Como é óbvio, não procuro uma lógica unívoca que conecte coerentemente tudo o que se moveu na direita em Portugal nos últimos 200 anos. Procuro sim identificar quais raízes afundam no terreno das ideias das direitas portuguesas e, a partir desta pluralidade, pretendo desvendar quais frutos produziram, se ainda são fecundas ou se, pelo contrário, secaram de vez. O intuito final dos dois dias será produzir uma colectânea com as contribuições dos oradores e de outros autores”.

Dois dias de trabalhos
Coube a Rui Ramos a abertura do seminário com a comunicação “As direitas na historiografia portuguesa” e a introdução não podia ter sido melhor. Há muito que este historiador tem denunciado uma oposição que se faz entre a esquerda e direita como se se tratasse do “bem” e do “mal”, perdoando-se os “excessos” das esquerdas e recriminando o mínimo deslize das direitas. Tal reflecte-se no campo historiográfico onde não devia acontecer. Segundo Rui Ramos, há uma cultura instalada que leva a que mesmo historiadores que não seguem necessariamente uma agenda política caiam nessas simplificações. Dos vários exemplos que deu, lembro aqui um: a chamada “ditadura de João Franco” é sempre considerada uma ditadura, por outro lado, o Governo Provisório de 1910, tecnicamente uma ditadura, nunca recebe essa designação e as suas medidas persecutórias são “compreendidas”.
Seguiram-se duas intervenções sobre o miguelismo “A reacção anti-liberal miguelista” de Maria Alexandre Lousada, e “A violência política no miguelismo” de Fátima Sá. Como se pode adivinhar pelos títulos das comunicações, estas centraram-se no “terror miguelista” que recordava, a espaços, as palavras iniciais de Rui Ramos.
Na tarde do primeiro dia falou José Manuel Quintas, sobre o “Integralismo Lusitano para além das etiquetas” e foi bastante interessante ouvir as origens desta experiência política e intelectual portuguesa por tantas vezes (propositadamente) mal tratada. O único defeito da sua comunicação foi a falta de tempo para assistir a tudo o que estava preparado. Seguiu-se a excelente intervenção de Ernesto Castro Leal, intitulada “As direitas revolucionárias na I República”, que se centrou em grupos menos conhecidos como a Acção Realista Portuguesa ou o Centro do Nacionalismo Lusitano, falando com clareza e demonstrando profundo conhecimento.
No segundo dia, duas intervenções a que O Diabo assistiu. Primeiro do cronista Henrique raposo que falou sobre “A Direita liberal no Portugal do Século XXI”, tentando demarcar o liberalismo do puramente económico, ao mesmo tempo que adiantou que várias das suas ideias, tão criticadas, estão a ser propostas pela própria União Europeia a vários estados devido à actual crise. Depois a comunicação de José Pedro Zúquete, “O Império contra-ataca: uma ideia antiga para as direitas do futuro”, que era sem dúvida a que tinha o melhor título de todo o seminário e prometia debate.

Ideias para o futuro
A José Pedro Zúquete, investigador a quem coube o primeiro artigo académico sobre o Partido Nacional Renovador (PNR), há que reconhecer a capacidade de estudo da chamada “extrema-direita”, em todas as suas complexidades, e a coragem de tentar propostas para o futuro, recusando a aposição confortável de observador não-interveniente.
Na sua participação neste seminário lembrou a importância da lusofonia na construção das direitas do futuro. Essa era a “ideia antiga” a que se referia o título da sua comunicação. Criticou o PNR por não a considerar, desejando boa sorte a quem tentar pesquisar o termo “lusofonia” no site deste partido nacionalista. Louvando, por outro lado, o Movimento Internacional Lusófono (MIL), disse que este era a expressão de uma ideia que não devemos desprezar. [publicado na última edição de «O Diabo»]

sábado, 20 de novembro de 2010

Ideias e percursos das direitas portuguesas



O investigador italiano Riccardo Marchi, autor dos livros Folhas Ultras - As ideias da direita radical Portuguesa (1939-1950) e Império, Nação, Revolução - As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974), em parceria com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, organiza nos próximos dias 29 e 30 de Novembro um seminário dedicado ao estudo histórico e político das direitas portuguesas. Intitulado As raízes profundas não gelam? - Ideias e percursos das direitas portuguesas, este seminário decorrerá durante os dois dias nas instalações do ICS-UL. Os painéis realizar-se-ão da parte da manhã entre as 10:00 e as 13:00, da parte da tarde entre as 14:30 e as 17:30. Para mais informações poderá contactar a organização deste seminário através do e-mail riccardo.marchi@ics.ul.pt.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Dois programas a ver




No passado fim-de-semana foram transmitidos dois programas de televisão bastante interessantes. O primeiro, acima partilhado, é o Sociedade das Nações, da SIC, com os investigadores italianos Riccardo Marchi e Marco Lisi, sobre as particularidades da política nacional.

O segundo é o Olhar o Mundo, da RTP, com os convidados Riccardo Marchi e Cesário Borga, sobre as direitas e as extremas-direitas em Espanha, na Hungria e na Áustria.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Entrevista com Marco Tarchi

Marco Tarchi, que nos anos 70 do século passado foi a figura eminente da Nuova Destra, é hoje professor catedrático de Ciência Política e Comunicação Política da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Florença e esteve em Portugal, no passado dia 18 de Fevereiro, para uma conferência muito interessante intitulada “O populismo na Europa à luz do caso italiano”, realizada no ICS, à qual assisti. A seguir, tive oportunidade de falar com Tarchi, que foi muito acessível e simpático — fez uma dedicatória no meu exemplar de “Fascismo. Teorie, interpretazioni e modelli” —, mostrando-se bastante interessado na realidade portuguesa. Nessa altura foi também gravada uma entrevista feita por Nuno Rogeiro para o programa Sociedade das Nações, da SIC, que só agora vi graças à internet e que aconselho aos que visitam esta casa.