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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Monarquia ou república?

Esta é, na minha opinião, uma falsa questão à qual não devemos voltar nestes tempos conturbados. O essencial não está na forma, mas no conteúdo. No meu caso pessoal, pelas críticas que tenho feito à I República, sou considerado “monárquico” por alguns. Nada mais erróneo. Para esclarecer a minha posição, faço minhas as palavras do historiador francês Dominique Venner, no seu livro “Le Coeur Rebelle”, uma sentida e profunda reflexão autobiográfica que tanto me tocou: “As minhas escolhas profundas não eram de ordem intelectual mas estética. O importante para mim não era a forma do Estado – uma aparência – mas o tipo de homem dominante na sociedade. Eu preferia uma república onde cultivássemos a memória de Esparta do que uma monarquia atolada no culto do dinheiro. Havia nestas simplificações um grande fundo de verdade. Acredito ainda hoje que não é a lei que é garante do homem mas é o homem que garante a lei.” [conclusão do meu artigo "A República imaginária" publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Repressão da Imprensa na I República


É inaugurada hoje às 17:00 horas no Palácio da Independência em Lisboa a exposição “A Repressão da Imprensa na 1ª República” organizada pela Plataforma do Centenário da República e com o apoio da Causa Real que contará com a apresentação do  jornalista e cronista José Manuel Fernandes.
Esta exposição estará patente todos os dias até ao dia 15 de Outubro, de Segunda a Sexta, e é feita à margem das comemorações oficiais dos cem anos da república portuguesa e também, o que é mais penoso, à margem da investigação oficial sobre os primórdios do regime republicano.
Trata-se da exibição dum conjunto de várias dezenas de quadros que evidenciam existência de um sistema repressivo regular e duradouro, mantido ao longo da primeira república. Durante esse período o regime estabeleceu formas imaginativas, directas e eficazes, de impedir o acesso do público aos textos perniciosos ou nefastos ao regime: o uso o assalto, a apreensão, a suspensão, e até a censura sem fundamento legal de jornais ou artigos foi tão frequente e continuado, que no seu conjunto constituiu um sistema repressivo sólido e consistente. A estratégia era a sustentação de um regime que não aceitava a contestação dos seus fundamentos, e uma classe política que não punha em jogo a sua permanência no poder. É esta a tese da presente exposição que assim se opõe à ciência histórica em vigor.
A entrada é gratuita com oferta do catálogo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A propósito de um centenário (VI)


É de saudar a reedição do obrigatório "O Poder e o Povo", de Vasco Pulido Valente, pela Alêtheia, com novo prefácio do autor onde é referida a comemoração do centenário da República e onde formula questões bem incómodas para os respectivos celebrantes: «Como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista? (…) Como é possível pedir que uma cultura política assente nos “direitos do homem e do cidadão” preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos (e, às vezes, matava) uma extensa e indeterminada multidão de “suspeitos”? (…) E como é possível, no meio disto tudo, ignorar que a Monarquia, tão vilificada pelo PRP (…), tinha sido um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês que o 5 de Outubro trouxe a Portugal?»

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A propósito de um centenário (III)

"Festejar o centenário - ou qualquer número de anos - da implantação da República em Portugal tem actualmente tanta justificação como festejar a instauração do comunismo na Rússia e a formação da União Soviética."

Octávio dos Santos
in «Público», 27/9/10.

sábado, 25 de setembro de 2010

A propósito de um centenário (II)

"Os portugueses não tinham perdido com o advento de Salazar um regime aberto e plural como o que hoje temos, pois apenas tinham conhecido oligarquias dilaceradas por querelas internas."

José Manuel Fernandes
in «Público», 24/9/10.

A propósito de um centenário (I)

"O que estamos a comemorar é a visão da República que a oposição republicana e maçónica do Estado Novo tinha."

Pacheco Pereira
in «Sábado», 23/9/10.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A coisa republicana

O Eurico de Barros desmascara bem a propaganda republicana que aí vem a propósito do centenário da coisa, na sua crónica no «Diário de Notícias», com o título "E querem comemorar a carcaça?". A propósito da "ética republicana", lembrei-me de António Marques Bessa, que na sua coluna habitual n'«O Diabo», na passada terça-feira, definia como "a do assassinato justificado pelos últimos fins".

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A República imaginária

Diz o preâmbulo da Constituição da República Portuguesa (parte que, mesmo analisada tendo em conta o elemento histórico da interpretação da lei, incompreensivelmente lá continua apesar das sucessivas revisões) que “a Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais”. Atente-se ao verbo “restituir”, este implica que se veio repor uma situação, que só se pode presumir que seja a da I República, isto é, o paraíso idílico criado pelos mesmos revolucionários para quem “fascismo” e “ditadura” eram a mesma coisa — a Ditadura Militar e o Estado Novo, com o consulado marcellista, constituíam um todo, sem distinções, que era a página negra da História nacional que urgia virar.

Mas a I República estava bastante longe do éden adâmico apresentado pelos abrileiros. Representava, aliás, exactamente o contrário do que estes diziam defender em vários pontos-chave. Um regime onde existira a censura, que mandara soldados para a guerra, que nunca abdicara das colónias, onde a perseguição política e religiosa foi impiedosa, comandado por um partido que podia não ser único, mas sobrepunha-se (impunha-se) a todos os outros.

Esta incómoda realidade, pouco “democrática” segundo os padrões hodiernos, nascida do crime do regicídio e não da vontade ou expressão popular, é hoje sobejamente conhecida. Seria de esperar, por isso, que não se insistisse em mistificações, que alguns pretendem desculpar aos ânimos exaltados da insolação do Verão quente. Hoje exigia-se outra (com)postura, mas nas recentes comemorações oficiais do 5 de Outubro e na preparação do centenário da República percebeu-se que nada mudou.

O artigo de Rui Ramos, no «Público» de ontem, intitulado “História viva”, fala exactamente sobre este tema. Diz ele que, insensatamente, a Comissão de Projectos para as Comemorações do Centenário da República, no seu relatório, pede “às autoridades e aos cidadãos que, durante uns tempos, façam de conta que estão a continuar a obra "inacabada" dos Republicanos de 1910”. O mesmo é dizer que o mito se mantém vivo e defendido ao mais alto nível. O historiador diz ainda que, para construir o que considera um “disparate”, a comissão transformou estes republicanos “naquilo que eles nunca foram” e “atribui-lhes, por exemplo, a invenção da actual cidadania democrática, quando o que eles fizeram foi restringir o direito de voto que a monarquia alargara. Escondeu-lhes, por outro lado, a crença colonial, suficientemente acesa para Afonso Costa proclamar, perante o genocídio das populações do Sul de Angola em 1915, que "não nos deixemos mover por idealismos".

Mas Rui Ramos tem o cuidado de se defender, afirmando que não pretende criticar a I República, pois isso “segundo a comissão, só fazem os fascistas”. Veja-se o espírito democrático destes tipos, quem critica é “fascista”! Só falta mesmo dizer: cuidadinho, ou chamamos a “Formiga Branca”…