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sexta-feira, 9 de maio de 2014

A defesa da nossa Civilização

A partida de Vasco Graça Moura, figura ímpar da cultura nacional, tocou-me especialmente. Li-o e citei-o, concordei e discordei dele, mas aprendi sempre muito. Foi até ao fim um lutador incansável. Bateu-se pela Língua, pela Cultura, pelos valores da Civilização Europeia.

Em 2011 entrevistei-o para o nosso jornal sobre o famigerado Acordo Ortográfico. Um combate comum, do qual nunca desistiu, mesmo contra aqueles com quem havia ladeado politicamente.

Defensor acérrimo da Língua portuguesa, criticou ferozmente “o ‘eduquês’ de serviço”, que segundo ele “ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal”. Recordou por isso “o prazer da leitura dos grandes escritores da língua portuguesa”, que “deveria ir sendo progressivamente construído no pleno escolar” para contrariar a crescente ignorância nacional. Nesta “promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários”, Vasco Graça Moura salientava que “não deveria esquecer-se uma relação, diacrónica e sincrónica, com a Europa. Sem algumas noções elementares a este respeito, nada compreenderemos de nós mesmos, da nossa identidade e dos nossos problemas”.

Mas não se veja aqui uma mera preocupação intelectual. Homem de elevada erudição, denunciava as várias ameaças à nossa Civilização, tomando posições hoje consideradas “politicamente incorrectas”, como a oposição à adesão da Turquia à União Europeia. Alertou também para “o risco de a imigração ultrapassar completamente a vida e a mentalidade dos europeus” na defesa de “aquilo que é essencial”, ou seja, a “civilização e cultura a que pertencemos e em que crescemos, que contêm um conjunto de valores que deve ser preservado a todo o custo”.

O combate pelo essencial foi a melhor lição deste homem da cultura, que nos mostrou que a beleza das letras e das artes é inseparável do nosso maior objectivo político – a defesa da nossa Civilização.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura (1942 - 2014)


Morreu Vasco Graça Moura, figura ímpar da cultura nacional. Li-o, citei-o e até o entrevistei. Concordei e discordei dele, mas aprendi sempre muito. Foi até ao fim um lutador incansável. Bateu-se pela Língua, pela Cultura, pelos valores da Civilização Europeia. Requiescat in pace.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Da crise da literatura


«Aos que falam da crise das humanidades e da crise da literatura, há também que saber dizer que sem crise (sem pensamento crítico) não existe qualquer futuro reflexivo, seja em que domínio do conhecimento for. A literatura é um dos mais densos lugares em que essa reflexão e essa compreensão se constroem. A literatura é algo que nos define como cidadãos reflexivos de uma cultura historicamente situada, com um património que hoje, cada vez mais, devemos aprender a valorizar, a praticar e a transformar. É nessa conjugação que reside a eminente dignidade da literatura.»

Vasco Graça Moura
in "Diário de Notícias"

sábado, 14 de dezembro de 2013

Da ignorância nacional

Camões lendo 'Os Lusiadas' aos frades de S. Domingos
António Carneiro
1925, óleo sobre tela 188 x 264 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil

Vasco Graça Moura traçou muitíssimo bem o panorama da ignorância em Portugal num excelente e certeiro artigo, intitulado "O remorso", publicado no "Diário de Notícias".

Primeiro, faz o trágico ponto da situação: "Vemos a cada dia que passa que os portugueses não sabem nada, ou praticamente nada, sobre o seu país. A ignorância histórica atinge as raias da obscenidade. Quando muito refastelamo-nos nuns ecos idiotas do tempo dos Descobrimentos, mal sabendo do que estamos a falar. Da Geografia, seja física, seja humana, ainda menos. Não conhecemos bem o território que habitamos, nem a relação da nossa vida com ele. Temos uma frequência sumariamente turística e petisqueira com alguns lugares mais promovidos.
Da cultura portuguesa e no que toca às artes, fora este ou aquele monumento mais visitados ao domingo durante a volta dos tristes, somos de uma fúnebre obtusidade. Da língua, estamos falados. Não me refiro apenas ao desconhecimento da sua história. Sucessivas gerações ligadas ao ensino têm dado cabo dela e contribuído para o seu abastardamento. Práticas diárias na comunicação social coadjuvam essa torpeza. É estropiada por toda a gente em todas as áreas do quotidiano e do saber. Da Literatura, depois de décadas em que o ensino andou divorciado dela ou se dedicou a exercícios metodológicos que corresponderam ao seu assassínio progressivo, vivemos numa ignorância deprimente."

Depois, sobre a actual literatura que se publica em Portugal, afirma: "Basta ler os jovens escritores que se candidatam a concursos literários (e tenho feito essa experiência por pertencer a vários júris). Eu apostaria, dobrado contra singelo, que, salvo muito raras, mas mesmo muito raras excepções, não têm qualquer experiência, por muito elementar que seja, da grande tradição literária da nossa língua e do património que a integra. Dá-me ideia de que é gente que leu algum autor dos últimos vinte anos, e pouco mais. Não aprenderam absolutamente nada com mais ninguém. Para trás do mínimo que leram, é como se a literatura portuguesa não existisse nem tivesse um cânone, não fosse lida por inútil ou desnecessária, e se encontrasse relegada para o baú das inutilidades no sótão das insignificâncias pátrias."

Mas, perante tal descalabro, que fazer? Segundo ele, "o que é preciso é fazer alguma coisa que fique do lado de fora das estatísticas e das apreciações formais da competências. O que é preciso é a promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários, sem exacerbamentos nacionalistas nem patriotinheirismos ridículos e fora de prazo. E também é preciso pôr estes valores, no seu vasto e múltiplo conjunto e nas suas interligações ao alcance do maior número possível de cidadãos, independentemente do trajecto que tenham feito ou façam nos níveis do ensino secundário e do ensino superior".

Alertando também, e muito bem, para o facto de que "não deveria esquecer-se uma relação, diacrónica e sincrónica, com a Europa. Sem algumas noções elementares a este respeito, nada compreenderemos de nós mesmos, da nossa identidade e dos nossos problemas. Essa falta também se faz sentir, tanto ou mais do que as apontadas no tocante à História, à Geografia, às artes, à língua e à Literatura".

Para reflectir. Seriamente.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A pressão da imigração


Vasco Graça Moura já havia escrito sobre o que se passa em Lampedusa, saindo dos clichés conformistas habituais. Agora, voltou a falar e a reflectir sobre a questão da imigração que aumenta de dia para dia em direcção à Europa:

«A pressão da imigração sobre a porosidade das fronteiras europeias é enorme. O politicamente correcto que faz coro com ela, em acções ferozes e desmultiplicadas junto dos governantes dos países de acolhimento, confunde a viabilidade equilibrada desse acolhimento com um humanitarismo que não é muito consequente e tende a ser brandido como arma política num combate que, no médio prazo, trará prejuízos para todos. E o resultado já se está a ver. As populações começam a manifestar-se no sentido de uma rejeição das vagas imigratórias, quando poderiam ser levadas a aceitar uma inclusão em pressupostos e coordenadas de razoabilidade. Parece claro que, dentro de tais pressupostos e coordenadas, deveria ser assegurado, da parte dos imigrantes, o respeito estrito pelo conjunto de direitos humanos e de princípios e valores cidadania vigentes no país que se proponha acolhê-los. É precisamente neste ponto que me parece que os Estados membros da União Europeia deveriam começar a análise conjunta da questão e a tomada de medidas aplicáveis a todos, sem jogos do empurra nem subterfúgios. Se a capacidade de acolhimento por parte da União é limitada, há que definir os seus parâmetros e fazê-los cumprir, por muito que custe assistirmos a tragédias como a de Lampedusa, que são, aliás, da responsabilidade principal de contratadores sem escrúpulos e das autoridades dos países de passagem e "exportação" desses contingentes humanos, se é que tais autoridades existem actualmente.»

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Lampedusa


Muito se escreve sobre a tragédia que se abate sobre Lampedusa, mas o discurso é o mesmo de sempre, nunca saindo das balizas do politicamente correcto, para não "ofender" os vigilantes de serviço. Pela dimensão que toma de dia para dia, esta é uma questão fundamental para a Europa que não deve - muito menos pode - ser encarada com visões idílicas. É necessário um reality check, uma chamada à razão. O artigo de hoje de Vasco Graça Moura, publicado no «DN», toca num ponto fundamental, que saliento na citação abaixo:

«São de estarrecer os mapas e diagramas sobre os fluxos de migração de África para a Europa. Dos que vi, o que mais me impressionou foi o do Corriere della Sera de Sábado passado, admitindo um número de entre 55 e 74 milhões de seres humanos que poderiam chegar ao Sul da Europa até meados do século, penetrando nela pelos mais variados pontos. Os movimentos de deslocação de migrantes para Norte arrancam bem do coração da África e desmultiplicam-se mais ou menos em todas as direcções.
Não pode pensar-se que apenas um ou dois Estados-membros da União Europeia, por exemplo, a Itália ou a Espanha, devam arcar com o acolhimento dessa massa humana de desgraçados de fluxo tendencialmente ininterrupto. As políticas de acolhimento e inclusão têm de ser discutidas, analisadas e aprovadas com intervenção de todos e as responsabilidades de todos devem ser devidamente equacionadas. Mas não nos iludamos: mesmo que o quisesse, a União Europeia não teria capacidade para acolher tanta gente. E a consequência inevitável de tal facto é a de que as medidas de inclusão terão como contraponto de dimensão bem mais expressiva uma série de políticas de exclusão.»

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Poesia reunida

Este é o título de dois volumes que reúnem a poesia de Vasco Graça Moura, publicados em 2012, ano em que se comemoraram os 50 anos de vida literária deste autor português. A editora Quetzal teve a feliz ideia de publicar a totalidade da poesia de Vasco Graça Moura em dois volumes, que junto ultrapassam as 1200 páginas.

O autor é uma das referência maiores da vida cultural portuguesa contemporânea. Nasceu no Porto em 1942, poeta, romancista, ensaísta, tradutor, foi secretário de Estado de dois Governos provisórios, desempenhou funções directivas na RTP, na Imprensa Nacional e na Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Em 1999, foi eleito deputado ao Parlamento Europeu. É autor de três ensaios sobre Camões: “Luís de Camões: Alguns Desafios” (1980), “Camões e a Divina Proporção” (1985) e “Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens” (2000). Da sua obra podemos ainda referir os romances “Quatro Últimas Canções” (1987) e “Meu Amor Era de Noite” (2001), bem como o livro de poesia “Uma Carta no Inverno” (1997), incluído nesta obra, que lhe valeu o prémio da APE. Recebeu o Prémio Pessoa em 1995 e a medalha de ouro da Comuna de Florença em 1998, ambos atribuídos à sua tradução da Divina Comédia de Dante. É o actual director do Centro Cultural de Belém e é um acérrimo opositor ao “famigerado Acordo Ortográfico”, para usar as suas palavras.

Para ele, a poesia “é uma questão de técnica e de melancolia”, dois aspectos que podemos observar nesta verdadeira vida poética reunida. Muitos consideram-no o maior poeta português vivo. Não caindo em ‘rankings’, tão na moda, impõe-se dizer que Vasco Graça Moura é autor de uma vastíssima obra poética, ensaística e ficcional e um excelente tradutor e divulgador das literaturas clássicas – uma figura importantíssima da cultura nacional actual. Esta é uma excelente edição e uma óptima homenagem.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Frase do dia

«O "eduquês" de serviço ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal.»

Vasco Graça Moura
in "Diário de Notícias".

sábado, 7 de abril de 2012

Acordo Ortográfico: polémica sem fim

O secretário de Estado da Cultura usou o argumento da xenofobia contra quem se opõe ao Acordo Ortográfico (AO), mas foram Portugal e Brasil que avançaram sem esperar por Angola e Moçambique. Ministro da Educação angolano quer rectificações. Em entrevista, Miguel Esteves Cardoso pede coerência a Paulo Portas. A polémica continua e a questão está longe de estar terminada.



Francisco José Viegas, depois de ter admitido correcções ao Acordo Ortográfico (AO), veio afirmar que “uma parte das pessoas que se manifestam contra o Acordo tem uma posição xenófoba em relação ao Brasil”. Parece que o actual secretário de Estado da Cultura decidiu recorrer a um argumento que não colhe, já que Portugal e Brasil não esperaram por Angola e Moçambique para ratificar o AO. A este respeito, Vasco Graça Moura, numa entrevista concedida ao jornal brasileiro “O Globo”, afirmou: “acho que no acordo se cometeu, por omissão, um crime neo-colonialista, uma vez que não se criaram regras para a grafia de vocábulos das línguas africanas que foram ou venham a ser incorporados no português. Portugal e o Brasil puseram e dispuseram a seu bel-prazer e convenceram os representantes dos outros países a assinar praticamente de cruz”. A questão da “xenofobia” veio também a lume, ainda que indirectamente, quando lhe perguntaram: “Muitos opositores do acordo em Portugal dizem que a língua é dos portugueses. O que o senhor acha dessa afirmação?” O actual director do Centro Cultural de Belém respondeu categoricamente: “Não tem pés nem cabeça. A língua portuguesa é património de todos que a falam como língua nacional.”

A vigência do AO
Vasco Graça Moura há muito que tem alertado para o facto de o AO não estar em vigor. Ao mesmo jornal brasileiro explicou: “Quem comete a ilegalidade é quem está a aplicar o acordo. Qualquer constitucionalista poderia ter informado o governo de que o acordo, enquanto tratado internacional, não entrou em vigor na ordem jurídica internacional por não ter sido ratificado por Angola e Moçambique. Mas, mesmo que estivesse, o acordo não poderia ser aplicado: o seu artigo 2 obriga à elaboração de um Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, com intervenção de todos os países signatários. Ora, esse vocabulário não existe e não está em vias de ser elaborado. Nenhum vocabulário nacional pode substituí-lo. Por esta razão, o acordo não pode ser aplicado. E quando, se alguma vez acontecer, existir o tal vocabulário, continuará a ser impossível aplicar o acordo por razões de deficiência técnica e utilização de conceitos cientificamente ultrapassados.”

Angola quer rectificações
Entretanto, VII reunião de ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o ministro da Educação angolano afirmou, à imprensa, que a aplicação em Angola do acordo ortográfico assinado entre Portugal e o Brasil está dependente da rectificação de algumas “questões técnicas”. Mpinda Simão disse que Angola concluiu, após um estudo, que há dificuldades na aplicação do acordo ortográfico por razões técnicas e afirmou: “Ultrapassados estes constrangimentos, com a introdução das melhorias necessárias, Angola pode ratificar o acordo por se tratar de um instrumento necessário para o desenvolvimento da língua e da comunidade”.

MEC pede coerência a Portas
Em entrevista à revista “Única”, do semanário “Expresso”, feita por Pedro Mexia, o histórico opositor ao Acordo Ortográfico desde os tempos da feroz campanha movida no extinto semanário “O Independente”, Miguel Esteves Cardoso afirmou que se trata de uma questão “importantíssima”, acrescentando: “Sobretudo quando mais ninguém quer aderir, é uma coisa de meia dúzia de pessoas, e está a tornar-se um embaraço. Podíamos fingir que não aconteceu.” Por fim, perante a possibilidade de um recuo por parte do actual ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, seu companheiro de luta contra o AO no “Independente”, disse: “Desiludia-me muito que não o fizesse. Ele era completamente contra o Acordo Ortográfico, agora tem que ser coerente.”

Polémica continua
A polémica sobre o AO continua e em força. Nos dois países impulsionadores, Portugal e Brasil, continua a discórdia, em especial no nosso, onde a oposição ao AO continua a crescer. Quanto aos restantes países lusófonos, Angola e Moçambique ainda não o ratificaram e os países que o fizeram, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e Timor, não tomaram quaisquer medidas para o implementar.
A “unificação” prometida está, assim, muito longe de se concretizar. O desacordo a que assistimos dá, assim, razão aos que afirmam que a riqueza de uma língua multi-continental tem que estar na sua diversidade, nunca numa imposição uniformizadora sem sentido. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 9 de março de 2012

Entrevista com Francisco Miguel Valada (II)

Aqui fica a conclusão da entrevista que fiz com Francisco Miguel Valada publicada na última edição de «O Diabo».


Como comenta as atitu­des de Vasco Graça Moura e de Mota Amaral?
Com uma ovação de pé. Os três deputados do PSD-Açores vão ao âmago da questão e têm toda a razão quando falam em “degradação da escrita da língua portuguesa”. Acho interessantes as reacções de determinadas pes­soas relativamente à louvável ati­tude de Vasco Graça Moura. Não ouvi essas pessoas pronunciarem-se sobre os pareceres da consulta que o Instituto Camões (sob tu­tela do MNE) levou a cabo em finais de 2005 e que estiveram a acumular bolor numa gaveta. Proponho que se pergunte aos deputados que votaram favora­velmente o 2.º Protocolo Modi­ficativo se leram esses pareceres, em que os professores Ivo Castro e Inês Duarte recomendavam que este não fosse votado e que o processo do AO fosse suspenso… Note-se que o último parecer chegou ao destino em meados de 2006 e só por iniciativa da deputada Zita Seabra é que os pa­receres foram tornados públicos, em 2008, quando o 2.º Protocolo Modificativo foi votado. Como Vasco Graça Moura leu esses pareceres, é natural que tenha feito o que fez. Outra atitude seria impensável.

E as recentes declarações de Francisco José Viegas?
Percebeu as consequências negativas do AO. Aliás, essa per­cepção não é inédita. O actual secretário de Estado da Cultura já tinha aludido a essa hipótese em Outubro do ano passado. As pessoas esquecem-se de que a pas­ta da Cultura está na dependência directa do primeiro-ministro e que não é o cidadão Francisco José Viegas quem está a manifestar opi­nião. Agora, o Governo, depois de demonstrar sensatez, tem de assumir rapidamente uma posi­ção, dizer quais são as alterações que tem em mente, suspender a aplicação do AO e impedir o desastre completo. Não nos pode­mos dar ao luxo de deixar arrastar este dossier. Deve evitar-se a todo o custo esta fragmentação a que actualmente assistimos. Já se viu que o AO é uma caixa de Pandora ortográfica. Logo, o dossier deve ser imediatamente encerrado.

O actual Governo tem vários membros que se dis­seram contra o AO, mas no entanto não o suspendeu. Porquê?
Porque foi apanhado a meio do processo, com uma Reso­lução completamente abstrusa nos braços. Contudo, deste Go­verno, a única coisa que espero é que suspenda este processo e que devolva o AO à proce­dência. Não há um único argu­mento técnico válido a favor do AO. Se me disserem que o AO é uma questão política, pergunto então por que razão se dirigiram à ACL para negociar o AO, por que motivo pediram a opinião da Associação Portuguesa de Linguística e das universidades. Telefonavam aos embaixado­res, perguntavam a opinião dos ministros e pronto. Poupavam dinheiro, não roubavam tempo precioso a quem dedica gran­de parte da vida ao estudo e o resultado seria exactamente o mesmo. As respostas dos acadé­micos foram para a gaveta, os políticos não leram nem o AO nem os pareceres e tudo ficou como dantes. Até agora.

Há alguma vantagem para a lusofonia com o AO?
O conceito “lusofonia” é a primeira e mais óbvia vítima de todo este processo. Já tive colegas brasileiros que me per­guntaram porque é que “nós” já não escrevemos ‘aspecto’ com cê ou ‘recepção’ com pê. Pois… Es­távamos unidos pelo “aspecto” e pela “recepção” e agora deixá­mos de estar. A única vantagem para a “lusofonia”, e se entender­mos “lusofonia” como a esfera da CPLP, é a de se perceber a falta de rigor como matérias sé­rias são tratadas. Uma decisão sensata da CPLP seria abandonar imediatamente o AO.

Isso explica as reservas de Angola e Moçambique?
Isso e não só. Em Moçam­bique, queixam-se de falta de clareza sobre o que se pretende com o AO e têm toda a razão. Além disso, apresentam argu­mentos económicos e fizeram a avaliação dos custos, coisa que ninguém se lembrou de fazer em Portugal. Repare: Moçambique não adoptou o AO e tem uma estimativa. Pergunte a qualquer responsável português quanto custa o AO. Não sabem, não fazem ideia. Não sou diplomata, mas quando os defensores do AO passam a vida a dizer que há um motor da língua, um centro da lusofonia, que há quase 200 milhões, esquecem-se de que Angola e Moçambique têm uma palavra a dizer. Quando num editorial do “Jornal de Angola” se diz que “nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes”, acho que já percebemos que a fa­laciosa conversa dos dez milhões que não podem ter autonomia ortográfica pode convencer al­gumas almas em Portugal, mas que não convence quem tem meios para se tornar uma potên­cia de facto. Trata-se de matéria diplomática, sensível, mas que foi tratada a camartelo.

O que acha dos jornais, como “O Diabo”, que recu­sam o AO?
Na minha opinião, prestam um autêntico serviço público e são sensatos, ao contrário de ou­tros, que, apesar de discordarem e ainda por cima profundamente do AO, se rendem, em vez de tentarem esclarecer os leitores.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O (des)Acordo Ortográfico na ordem do dia

A corajosa decisão de Vasco Graça Moura teve principalmente o mérito de trazer o disparate do Acordo Ortográfico (AO) para a ordem do dia, coisa que os seguidistas - com o falso e estafado argumento da "inevitabilidade" - tanto querem evitar.

Hoje, ao ler o jornal "i", para além da peça que fez a manchete "Graça Moura tem razão", deparei-me com três textos de opinião que referem o AO. O primeiro é o excelente editorial, de António Ribeiro Ferreira, que reza assim: "Seguro, com a mesma voz indignada e compungida, a clamar contra Vasco Graça Moura, que erradicou do Centro Cultural de Belém um aborto chamado Acordo Ortográfico. O líder da oposição, entalado entre a troika e a pesada herança socrática, tenta sempre refugiar-se em assuntos fúteis e em fantochadas nos intervalos dos imensos lugares-comuns que atira para o ar a propósito de cimeiras europeias, tratados, austeridade e crescimento económico. Assim vai a pátria falida e decrépita."

O segundo é de André Abrantes Amaral, que afirma: o "que se quer com o acordo ortográfico é decretar a rua a seguir os gabinetes. Ora, que mais não é uma língua que muda por decreto, que uma língua morta?"

O último, de José Couto Nogueira, diz: "É evidente que o acordo ortográfico, tão do desagrado de muitos intelectuais e profissionais da escrita (inclusive o autor desta coluna), está para ficar; é letra de lei, os livros didácticos já foram modificados, seria moroso e diplomaticamente desagradável voltar atrás. Também é evidente que foi um disparate, um imposição comercial sem reflexo na evidência de que o Brasil e Portugal tendem a afastar os idiomas. Só fica bem a Graça Moura este gesto quixotesco de última barricada."

Obviamente que não me identifico com o tom derrotista, ou conformado, do último texto, mas o que é notório em todos eles é a oposição ao AO. Sinais de que a questão está longe de estar encerrada.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Frase do dia

"Não se pense que isto [CCB] vai ser um centro de projecção das vanguardas. Recorrerá às vanguardas como às retaguardas, sem nenhuma espécie de complexo."

Vasco Graça Moura
in "Públco"

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Mais vozes contra o (des)Acordo Ortográfico

"A partir de 1 de Janeiro, ao que parece, é de vez: todas as entidades públicas são obrigadas a adoptar o Acordo Ortográfico, mediante o qual o Estado português vendeu, grátis, parte do seu património inalienável. O Expresso, como sabem os leitores, já é escrito em obediência a esse malfadado acordo. Mas sobra a liberdade para os colunistas que assim o desejem, e entre os quais me incluo, continuarem a utilizar nos seus textos a ortografia da língua que herdámos dos nossos pais e que gostaríamos de transmitir aos nossos filhos. Assim continuarei, pois, a fazer, com o grande conforto de saber que estou a fazer a coisa certa."

Miguel Sousa Tavares, in "Expresso".

"É fascinante que um pequenino bando de ociosos tenha decidido corromper a língua de milhões. O fascínio esvai-se quando se percebe que os ociosos atingiram os intentos. O Acordo Ortográfico, criação de arrogantes com uma missão, é oficial e está aí, perante a complacência dos poderes públicos em princípio eleitos para defender o país e não para o enxovalhar deliberadamente."

Alberto Gonçalves, in "Diário de Notícias".

"Gostaria também de dar uma boa nota a Nuno Crato. E fá-lo-ia sem reservas, não fosse a sua cumplicidade vergonhosa na adopção do Acordo Ortográfico nas escolas. Bem sei que a Universidade portuguesa, nomeadamente as suas escolas de Letras e de Direito, tem também graves responsabilidades em tal ignomínia, pelo silêncio tumular a que se tem remetido. O Governo e a Universidade são os grandes responsáveis por esse atropelo arbitrário de princípios elementares do Estado de Direito."

Vasco Graça Moura, in "Diário de Notícias".