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quinta-feira, 27 de março de 2014

O regresso da História

É curioso e bem divertido ver como os comentadores de serviço na nossa praça andam perdidos à procura de explicações para a escalada de tensão provocada pela anexação russa da Crimeia e a actual situação da Ucrânia. O seu desespero é semelhante ao daqueles que tentam há dias encontrar, sem sucesso ou qualquer pista, o desaparecido avião das linhas aéreas da Malásia.

O estado destes tudólogos que abundam nas televisões e nos jornais não é de estranhar. Embora insistam na “diferença de opiniões” e assegurem que proporcionam ao público um “debate livre”, partilham na verdade da mesma concepção linear da História.

Acreditaram no “fim da História” de idealização hegeliana e responderam “sim” à questão formulada por Francis Fukuyama no seu ensaio de 1989 intitulado “O Fim da História?” A Guerra Fria havia terminado e chegara o tempo do mercado mundial e, consequentemente, da “felicidade”.

Inebriados com a “democracia” e a “globalização”, convenceram-se que o mundo tinha realmente mudado e adormeceram ao canto das sereias da “paz eterna”.

Espantam-se, agora, que ainda existam nações, que ainda exista vontade, que ainda haja homens dispostos a lutar pelo que acreditam e que nem tudo tenha uma explicação puramente económica.

Custe a quem custar, a História está de regresso e o futuro abre todas as possibilidades, muito além de previsões de trazer por casa.

Mas nesta questão o que mais nos interessa é reconhecer, de uma vez por todas, que a Europa é impotente perante tamanhas alterações e convulsões, porque se deixou exactamente enfeitiçar pelo mesmo discurso. Não era o Velho Continente o “tubo de ensaio” da sociedade mundializada? Pois a experiência está a sobreaquecer e o vidro prestes a estalar.

Chegou o tempo da Europa se repensar – de reconquistar o ser lugar na História.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Holodomor


«Holodomor – ‘morte pela fome’ – foi assim que ficou conhecida essa terrível praga que matou cerca de sete milhões de pessoas. Mas como é que uma região riquíssima agricolamente – antes e depois (hoje é um grande exportador de cereais) – chegou aí?

Os responsáveis são dois – um sistema de ideias e um homem – o colectivismo socialista e Estaline. Os princípios marxistas-leninistas de desenvolvimento económico, implantados depois da revolução de 1917 e da vitória bolchevique na guerra civil, priorizavam a colectivização da agricultura: houve, no princípio, a supressão dos grandes latifúndios, mas em 1922, com a Nova Política Económica, as terras nacionalizadas foram apropriadas às centenas de milhares de kulaks, o nome pejorativo dos pequenos proprietários autónomos que recorriam ao emprego de outros.

Segundo Robert Conquest, no seu clássico The Great Terror, «a colectivização destruiu cerca de 25% da capacidade produtiva da agricultura soviética». Mas na Ucrânia tudo foi pior: as colheitas foram confiscadas para exportação e os produtores e suas famílias deixados morrer à fome. Aqueles que resistiam, escondiam grão ou gado, ou em desespero tentavam subtrair alimentos das granjas colectivas, eram presos, enviados para os campos de concentração da Sibéria ou executados no local. Brigadas de comunistas devotos, enquadrados pela GPU (polícia política soviética), percorriam a Ucrânia, saqueando e queimando aldeias, casas e propriedades dos ‘inimigos do povo’.

«Os homens morriam primeiro, depois as crianças, no fim as mulheres», escreveu um contemporâneo. Os poucos documentos fotográficos e fílmicos são tenebrosos.

Foi um caso claro de genocídio deliberado e executado por razões ideológicas e deve ser encarado não apenas como o produto da crueldade racional ou paranóica de um homem – Estaline – mas como o resultado natural de um sistema de ideias de um modelo político-social.

Um sistema que, por todo o mundo do século XX, produziu alguns dos maiores desastres da História da Humanidade. Sete milhões de ucranianos, numa população de trinta milhões perderam a vida. O Governo soviético ocultou o genocídio e para isso teve a cumplicidade não só dos comunistas de toda a Europa, mas também das esquerdas, desconfiadas do que lhes parecia uma campanha reaccionária.

A Rússia era então o único país comunista do mundo. Álvaro Cunhal, o futuro líder do PCP, tinha 20 anos.»

Jaime Nogueira Pinto

domingo, 10 de outubro de 2010

Ucrânia: uma nação europeia inacabada...


Como habitualmente, hoje às 22 horas é altura para ouvir em directo a emissão do Méridien Zero, o programa francês da Radio Bandiera Nera, que desta vez tem por tema "A Ucrânia: uma nação europeia inacabada...", com a presença de Pascal Lassalle, professor de História e especialista na Europa de Leste.

terça-feira, 10 de março de 2009

Laranja podre

A situação na Ucrânia é desastrosa. A Revolução Laranja, apregoada por tantos como a via a seguir para a “ocidentalização” (leia-se americanização) do Leste da Europa, “deu origem a um enorme pântano onde ninguém se entende”, como diz Miguel Monjardino na sua análise publicada última edição do semanário «Expresso», onde considera que “o país está num impasse político” e “a caminho de um precipício económico”.

Sobre este tema e a sua complexidade falei aqui em tempos e, infelizmente, nada se alterou no que toca à posição encolhida da UE, sem vontade de afirmar a Europa como uma super-potência. A Europa não se pode fazer contra a Rússia e a mando dos EUA.

Para auxiliar à compreensão da geopolítica ucraniana, recomendo o mapa “As quatro Ucrânias”, que publico abaixo, retirado do “Dictionnaire de Géopolitique”, 2.ª edição, de 1999, de Aymeric Chauprade e François Thual, bem como a entrada relativa à Ucrânia, onde se questiona: “sobreviverá a Ucrânia nas suas fronteiras actuais, ou conhecerá divisões e separações territoriais?”.

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

Ucrânia

À terceira é de vez… Tudo aponta para que se concretize a esperada vitória de Iuchtchenko, o candidato pró-ocidental (leia-se pró-americano), nas eleições presidenciais ucranianas. O mundo observa com atenção o desenrolar de acontecimentos neste país que é a ponte natural entre a Europa e a Rússia.

A Ucrânia é um país dividido; étnica, linguística, cultural e historicamente. De um lado, um país rural, mais próximo do Ocidente, isto é, ansiando o capitalismo coca-cola, mas com raízes mais próximas da Europa, do outro, um herdeiro do pesado passado industrial soviético, russófono e que olha com histórica desconfiança os ventos de mudança americanos. A Europa perde aqui a oportunidade de marcar posição como futura super-potência e de construir a sua ligação à Rússia.

Os EUA sabem que é na antiga cortina de ferro que se jogam importantes pedras da actual geopolítica. Como sempre, actuam impunemente perante uma Europa encolhida e servil. É a Guerra Fria revisitada, um conflito entre os Estados Unidos e a Rússia, com a Europa de cócoras.