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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O selo de Ernst Jünger


Há tantos anos que o meu saudoso Amigo Roberto de Moraes me falou no selo de Jünger, que tanto o irritou e sobre o qual escreveu na revista "Futuro Presente", em 1999. Agora, a minha mulher fez-me uma óptima surpresa e ofereceu-mo. Muito obrigado!

Aqui fica o texto para memória futura:

O selo de Jünger

A figura de Ernst Jünger é incontornável. Por várias vezes, só para falar no fim da longa vda do escritor, reuniu à sua volta o então Presidente francês, o socialista Mitterand, e o chanceler alemão ao tempo, o cristão-democrata Helmut Kohl, numa simbiose de significado histórico e cultural.
A consagração, no seu centenário, e, sobretudo, no seu funeral, congregou forças vivas que há muito não se viam à luz do dia, juntas. Foi uma grande figura, actor e testemunha, interventor e pensador, de um século de história, não só da Alemanha, como da Europa. A guerra o forjou. Nela se fez homem. Essa a matriz, essa a grande iniciação que lhe permitiu alcançar outras esferas da maneira como o fez. Está bem claro em "A Guerra como Experiência Interior" e, também, nas "Tempestades de Aço". Há que lê-lo. É pena que neste belo selo agora lançado na República Federal da Alemanha não se tenha atendido a esta marca. Assim, face a uma história de dominante militar, olhada como comprometedora e incómoda, preferiu-se prudentemente a imagem etérea do aluno de liceu de 1913, com o seu colarinho médio burguês, à sóbria gola cinzenta encimando a cruz "Pour le Mérite", do soldado e guerreiro de 1918.
Contrária ao cunho aristocrático da sua vida e da sua obra, traindo a matriz, a imagem de fundo torna-se anódina; pelo mesmo preço também podiam ter mostrado o bebé de cueiros de três meses, ou então o rapazinho de sete anos, de fato à maruja, como era costume no seu meio, naquela época. Apesar disto, fica-nos esta imagem indelével, em primeiro plano, granítica e esfíngica, sardónica e voluntariosa, a desafiar o tempo, a fitar o século XXI. E estou em crer que não são apenas os Titãs que ele está a ver.

Roberto de Moraes
in "Futuro Presente" n.º 49 (Primavera de 1999)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Recordar um Amigo. Até sempre!

«De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”
Ernst Jünger

Ernst Jünger e Roberto de Moraes

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Um pequeno grande livro

Na altura em que se assinalam os 150 anos da morte de D. Pedro V, a Texto Editores decidiu publicar o clássico de Ruben Andresen Leitão sobre este monarca que teve um reinado curto mas marcante. Um excelente retrato do nosso Rei Esperançoso.



Ruben Andresen Leitão é mais conhecido como romancista e pelo pseudónimo literário Ruben A., mas este autor fascinante foi também dramaturgo e historiador. Entre 1947 e 1974 dedicou a D. Pedro V, que considerava “o primeiro homem moderno do nosso país”, dezasseis obras. “D. Pedro V – Um Homem e um Rei” (capa dura, 128 páginas, 15,90 euros), escrito em 1947, tem um duplo objectivo segundo o autor – “servir de introdução às Obras Completas de D. Pedro V” e “perpetuar a memória dos verdadeiros homens da Casa de Bragança”. A sua admiração por este Rei em nada prejudica a obra, apenas lhe faz justiça. Para Ruben Andresen Leitão, “a História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura concepção da actuação vivida”. No entanto, o escritor, em toda a sua qualidade, está aqui presente, oferecendo-nos uma belíssima prosa e uma leitura deliciosa, com um extraordinário poder de síntese.

O primeiro capítulo, intitulado acertada e singelamente “O Ambiente”, é uma reflexão sobre o conturbado período que antecedeu o reinado de D. Pedro V, fi lho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, com o qual pode fazer um impressionante paralelo com os dias de hoje. Inspiradoras e reveladoras da sua mente superior, bem como da sua profunda observação do País e do seu povo, são as citações do próprio Rei que encabeçam cada um dos capítulos. Como escreveu o jornalista e historiador Roberto de Moraes na revista “Futuro Presente”, aquando dos 150 anos da aclamação de D. Pedro V, este era “da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte” e “aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser”. Um Homem cuja morte precoce foi uma perda para Portugal, mais um daqueles azares históricos que parecem ser recorrentes na nossa História.

Até nas edições há curiosidades que saltam à vista dos mais atentos. Algo que Ruben Andresen Leitão considerava inacreditável era o facto de a data da morte de D. Pedro V estar incorrecta. Como ele escreve, “mataram o soberano em 1859, dois anos antes do seu desaparecimento!” Pois bem, na pequena nota biográfica do autor publicada, também este “morre” um ano antes... Apesar desta gralha, a editora está de parabéns. Tanto pelo sentido de ocasião, como pela edição cuidada, que felizmente não cedeu ao famigerado Acordo Ortográfico. E porque o livro enquanto objecto também é importante, há a destacar a bela e sóbria capa gravada que se esconde debaixo da esplêndida imagem impressa na sobrecapa.

Este é um livro pequeno em tamanho, mas grande em qualidade – tal como o reinado de D. Pedro V. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sábado, 17 de dezembro de 2011

Roberto de Moraes (1939 – 2010). In memoriam.



Ernst Jünger e Roberto de Moraes

Passou um ano desde que o meu Amigo Roberto de Moraes deixou o mundo dos vivos. Fica a saudade e a eterna memória. Em sua homenagem, reproduzo aqui o artigo que então publiquei no semanário «O Diabo».

 “Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – Quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao “homo faber” e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência. Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: “Que diabo estou eu a fazer nesta galera?” De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”
Ernst Jünger

Este curto texto que o escritor alemão escreveu por ocasião dos seus 80 anos, citado pelo Roberto de Moraes num excelente artigo que sobre ele escreveu na sequência da primeira entrevista que lhe fez, pode dar pistas para tentarmos perceber um pouco da quase impenetrável personalidade deste historiador e jornalista, mas principalmente estimado Amigo, que recentemente deixou o mundo dos vivos.
A sua pátria – a sua grande pátria –, tal como a minha, era a Europa. Dela conhecia a fundo a História, a Geografia, as gentes, línguas e tradições, a sua cultura nos mais variados aspectos. Mas, indo – como sempre – para além de todo este saber, sentia, principalmente, como do turbilhão da sua diversidade poderia nascer uma força invencível capaz do Sonho.

Encontro
Foi exactamente a Europa que nos aproximou, já lá vai uma década. Após uma intervenção polémica que fiz num congresso, que suscitou amores e ódios, o Roberto de Moraes veio saudar-me e convidar-me para a sua tertúlia semanal. Agradeci educadamente, com algum orgulho, mas sem no entanto imaginar o que aquele gesto realmente significara.
Não era pessoa de cumprimentos fáceis, muito menos de tiradas de ocasião para agradar a quem fosse. Esta característica, que tantos lhe apontaram como maior defeito e gerou inimizades, tinha outro lado – conferia um valor muito mais elevado à sua aprovação.
Desde logo, sempre com o seu estilo directo e frieza militar, começou a trocar comigo impressões sobre inúmeros assuntos. Era uma verdadeira aprendizagem. Só muito mais tarde me apercebi do significado profundo e da força que tinham certas expressões que proferia ao ler textos meus. “Muito bem, é isso mesmo” ou “está escrito em português de lei”, eram verdadeiras classificações de 20 valores no seu sistema avaro. Por outro lado, a discordância era tão implacável como desagradável.

O jantar do Moraes
A sua tertúlia semanal, mais conhecida por “jantar das quartas”, tornou-se para mim obrigatória. Não preciso de agenda para me lembrar que é dia de jantar com amigos. A meio da semana atravesso a cidade rumo a esta tertúlia, que já passou por vários sítios da capital, e onde se cruzam gerações e opiniões, numa discussão de ideias que rompe noite adentro. Este encontro regular chegou mesmo a dar origem a um blog colectivo que durou quatro anos.
O jantar continua, claro, e o nosso Amigo nunca deixará de estar para nós presente. Lembro-me de um caso que o Miguel Freitas da Costa contou numa das tertúlias. O de um clube onde os mortos não deixavam de ser sócios, apenas estavam dispensados de aparecer.

Jünger
Seria impossível – para não dizer desonesto – falar do Moraes sem referir o grande mestre das letras germânico do século XX, já que foi o único jornalista português a entrevistá-lo, por várias vezes. Para além da correspondência mantida, traduziu ainda partes da sua obra e fez a revisão de várias traduções, contribuindo para a divulgação da obra e pensamento do escritor alemão no nosso país.
Roberto de Moraes deslocou-se a Wilflingen por três vezes para visitar Ernst Jünger e manteve com o escritor uma troca de correspondência esporádica. A primeira visita foi em 1973 e deu origem a um artigo publicado na revista “Vida Mundial” n.º 1897, de 22/7/1976, intitulado “Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra”. A entrevista feita na segunda visita, em 1978, seria publicada na revista francesa “Nouvelle École” n.º 33 (Verão de 1979) subordinado ao tema “L’idée nominaliste”, com o título “Rencontre avec Jünger. Un témoignage”, e que foi registada pelo próprio Jünger no seu diário, onde também recorda a visita do jornalista português. A última visita foi no dia 24 de Fevereiro de 1984, tinha Jünger 89 anos de idade, na qual foi tirada a fotografia inédita que se publica.

Obrigado
Um dia descreveu-me como “sólido camarada e jovem colega de História, disciplina que o não tolhe, antes lhe areja o espírito e lhe estrutura o sentido de humor”. Pois eu, na falta de palavras, recorro a um sentido e sincero obrigado, expressão que, juntamente com o “por favor”, era proibida numa instituição de camaradagem que ambos bem conhecíamos. E foi com grande prazer egoísta que soube que uma das últimas coisas que leu foi um texto meu, publicado aqui, no nosso “O Diabo”. Até qualquer dia...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lanceiro - Cadernos Militares nº 4

O último número da revista "Lanceiro - Cadernos Militares" tem a destacar os artigos "Pintura Histórico-Militar", do TCor Cav Marcos Andrade, "Sargentos-Mores", pelo SMor Cav Fernando Lourenço, a conclusão de "Tentativas e Golpes Militares", de Roberto de Moraes, o discurso de António Barreto na sessão solene do 10 de Junho de 2010, entre outros, para além das secções habituais. Pode ser adquirida nas livrarias Barata e Férin, em Lisboa, ou encomendada através do endereço de correio electrónico: jornallanceiro@gmail.com.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O português que entrevistou Jünger

Foi este o título da homenagem que o Eurico de Barros fez hoje no "Diário de Notícias" ao nosso amigo comum Roberto de Moraes e que reproduzo abaixo:

"Num país onde qualquer obscuro jogador de futebol que vai dar uns chutos para um clube romeno ou eslovaco, ou qualquer treinador manhoso que vai orientar a selecção do Turcomenistão ou do Suriname, é transformado em figura nacionalmente relevante e merecedora da mais enlevada atenção dos media, passam muitas vezes despercebidas as pessoas realmente excepcionais, que fizeram coisas únicas.

Uma delas foi Roberto de Moraes, jornalista, tradutor e especialista em história militar e da Europa, falecido em Lisboa, a 17 de Dezembro, aos 71 anos. Trabalhou em O Século, Vida Mundial e A Nação, bem como na RTP, tendo deixado colaboração espalhada por vários outros títulos nacionais e estrangeiros, e publicações militares.

Roberto de Moraes ficará para a história do jornalismo nacional, por ter sido o único português a ter entrevistado o escritor Ernst Jünger, por várias vezes, beneficiando da sua profunda ligação à cultura germânica e do seu conhecimento da literatura europeia,em especial a alemã, a francesa e a inglesa.
A primeira dessas longas entrevistas com o autor de Sobre as Falésias de Mármore e A Guerra como Experiência Interior, deu-se a 27 de Maio de 1973, na casa de Jünger em Wilflingen, na Suábia, e foi publicada, sob o título Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra, na Vida Mundial, em 1976, com destaque de capa.

É um documento único, que fez com que Roberto de Moraes seja o único português mencionado por aquele gigante das letras no seu diário. Na hora da sua morte, aqui fica a homenagem, a evocação e o orgulho de o ter conhecido e de lhe ter chamado amigo."

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Lanceiro recorda Roberto de Moraes

O blog dos "Lanceiro - Cadernos Militares", lembrou Roberto de Moraes, seu colaborador e sócio convidado da Associação de Lanceiros, enumerando as suas participações na revista e informando que o seu primeiro artigo publicado no jornal "Lanceiro" n.º 4, de Setembro de 1999, com uma elaborada descrição da "Carga da Brigada Ligeira", será, em sua homenagem, republicado no n.º 5 dos Cadernos Militares.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Há noites assim...

... em que o que nos vale é Bach e um copo, como me ensinou uma vez um grande Amigo. Há partidas em que necessitamos de reconfortar a alma.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Adeus

Para um Amigo. 

Foi ontem a despedida,
Sem conversa, mas presença.

A dor desta partida,
É dispersa e imensa.

É assim, a vida,
Por vezes suspensa.

Eu sei que a subida
Vai ser uma renascença.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Um conto moral

Na última edição do semanário «O Diabo» foi publicado um conto do meu amigo Roberto de Moraes, que me autorizou a reproduzi-lo aqui. Vale mesmo a pena ler.

A CARREIRA

Garatujilho, jovem de futuro, escreveu um romance de cento e vinte páginas. Queria fazer carreira nas letras, embora não o dissesse, pois era um rapaz avisado. Levando debaixo do braço o pequeno volume, saído de fresco na Editorial Verbete, livreiros bem conhecidos, foi visitar o célebre Escribante, autor de algumas obras cheias de beleza, muito apreciadas por duzentos conhecedores.

– Mestre, começou Garatujilho, admiro-o desde a mais tenra adolescência. Li e reli as suas obras-primas: “Vertigem Gelada”, “Prazo de Validade”, “A Condição Húmida”, “Jangada de Cortiça”. Aqui lhe trago o meu primeiro romance. Chama-se “A Mumificação”. Não estou descontente com o título. Trata-se da história de um homem que passa vinte e quatro horas fechado num quarto ponderando se irá ou não cozer um ovo num aquecedor a álcool. Decide finalmente não o fazer pois, no fundo, não gosta de ovos. Há uma descrição de uma janela que dura vinte e sete páginas. Penso ter escrito um livro importante que traz consequências. Quis que o leitor, em cada página, a cada linha, se sinta pessoalmente implicado.

Escribante ia nos setenta e nove anos e fazia lembrar um gato selvagem. Vivia numa pequena casa, ali à Sé, na Rua da Saudade, onde coleccionava “bibelots” de meter medo, de par com uma porção de pinturas modernas. Mostrando os seus tesouros a Garatujilho, que se extasiava educadamente, foi-lhe debitando um discurso ambíguo que levantou dúvidas e inquietações vagas na alma cândida do jovem arrivista.

– Meu caro amigo, disse, estou contentíssimo que tenha escrito “A Mumificação”, que me parece um belo e curioso livro. Há um ror de tempo que se não falava em ovos cozidos num romance. Creio que o último ovo cozido português data de “A Noiva do Republicano”, de Altino de Tormes, que leu, naturalmente. Romance admirável. Todo o Camilo já lá está. Aliás é bem melhor que Camilo.

– Adoro “A Noiva do Republicano”, respondeu acaloradamente Garatujilho, que ouvia falar pela primeira vez naquela obra que, de resto, nunca tinha sido escrita. Mestre, acredita que tenho alguma chance de ganhar o prémio Capões?

– Sabe, não é, que, em Portugal, são anualmente atribuídos 241 prémios literários, disse Escribante, respondendo um pouco ao lado, como era seu hábito.

– É muito, retorquiu Garatujilho.

– Ah? Acha? A mim, pelo contrário, parece-me um pouco à justa. Os prémios existem para encorajar os maus escritores e temos muito mais de 241 maus escritores por ano.

– Mestre, replicou Garatujilho rindo, isso é um paradoxo. Há bons escritores a quem foram atribuídos prémios, até mesmo o prémio Capões.

– É verdade, disse Escribante, mas é caso tão raro que nos leva a pensar, razoavelmente, que os júris se enganaram. Com toda a boa fé, evidentemente.

Veja bem: seria injusto que as pessoas tivessem, simultaneamente, talento e prémios. Não se pode ter tudo. Em segundo lugar, são os maus escritores que devem ser encorajados, caso contrário, desgostosos, deixariam de escrever o que seria uma pena. Para quê incentivar os que têm verdadeiro talento? Esses, continuam sempre a escrever, não obstante as contrariedades, a miséria, a família e os críticos literários.

– Hum!... Meu querido Mestre, balbuciou Garatujilho com voz incerta, não vejo bem aonde quer chegar.

– A isto, meu rapaz: uma literatura só é verdadeiramente viva e brilhante quando está cheia de gente sem talento que escreve uma imensidade de romances ineptos, ensaios estúpidos e poemas ilisíveis. É o que faz girar a edição; é o que forma uma espécie de adubo artístico no qual crescem flores soberbas e raras. Veja a Inglaterra, veja a Alemanha, onde não há praticamente prémios e onde, por conseguinte, não há quase maus escritores: por lá se tem estiolado a literatura. Portanto viva o prémio Capões que faz que um mau romance possa vender duzentos mil exemplares!

– Ah! Mestre, mestre, o senhor desespera-me! Exclamou Garatujilho. Receber um prémio será assim uma marca de infâmia indelével? Será preciso ficar sem brilho, ignorado, desconhecido, para caber na sua estima?

– Aceitar um prémio literário, meu caro senhor, é certamente dar prova de modéstia e abnegação. Longe de mim abafar essas duas qualidades num jovem coração.

Garatujilho despediu-se de Escribante num estado de extrema confusão que, graças a Deus, só durou dois dias. O seu editor, que, não sendo nem escritor nem filósofo, mas sim comerciante, deu-lhe excelentes conselhos sobre a táctica a adoptar para conseguir o prémio Capões. Garatujilho, que decididamente não era um jovem qualquer, seguiu os seus conselhos, obteve o prémio e recusou-o. O facto deu tanto que falar que “A Mumificação”, um dos piores romances publicados em Portugal nos últimos vinte anos, se vendeu a quatrocentos mil exemplares. E eis assim um conto com um final feliz.

Roberto de Moraes

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

«Lanceiro» volta à carga!

O «Lanceiro» volta à carga, desde o último número do jornal publicado em Novembro de 2007, agora com novo formato e o subtítulo “Cadernos Militares”. O n.º 1 foi-me oferecido pelo meu amigo Roberto de Moraes, autor do excelente artigo “Noventa Anos do Armistício. Algumas considerações sobre a Primeira Guerra Mundial”. Este número, dedicado à Cavalaria, a Lanceiros, à PM/PE, à Guerra do Ultramar (inclui as CPM e PPM que serviram em Angola e o nome de todos os seus oficiais) e à Vida Militar é enviado gratuitamente em formato .pdf, como divulgação, mediante pedido para o endereço electrónico jornallanceiro@gmail.com. O preço da versão impressa é € 5 e a periodicidade é semestral.

O «Lanceiro» tem um objectivo claro, como nos diz a nota de abertura deste n.º 1: “Para que não se esqueça e não se faça tábua rasa da nossa História que como disse Mouzinho "foi obra de soldados" fazemos uma publicação paratodos os que sentem e vivem "os interesses permanentes e vitais da Pátria e têm o culto da sua História", tenham ou não passado pelas fileiras”.

sábado, 29 de março de 2008

Ernst Jünger

Ernst Jünger por Arno Breker



No dia do aniversário do grande mestre das letras alemão Ernst Jünger, lembro que dele falei aqui no primeiro ano de vida deste blog, republicando um artigo do meu caro amigo Roberto de Moraes publicado na revista “Vida Mundial” n.º 1897, de 22/7/1976, intitulado “Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra”, que começa assim:

«Conversei algum tempo com Ernst Jünger, considerado muitas vezes o maior escritor vivo de língua alemã, em 27 de Maio de 1973.Tendo-lhe telefonado a solicitar a entrevista, em princípio de muito difícil obtenção, e encontrando-me a grande distância, a resposta, após ligeira hesitação, veio com rigorosa precisão militar, superior às contingências: “Esteja aqui amanhã, às cinco da tarde.”»

A sua reprodução foi repartida da seguinte forma:

segunda-feira, 8 de maio de 2006

Hitler e Jünger

Pacheco Pereira descobriu as leituras de Hitler em “Hitler’s Library”, de Ambrus Miskolczy, que considera interessante, chamando a atenção para “Hitler, leitor de Ernst Jünger”. Esta referência deve-se certamente à obra “Sobre as Falésias de Mármore” — cuja melhor edição portuguesa é a da Vega, de 1987 — e a sua proximidade com o grupo de oficiais alemães responsáveis pelo atentado de 1944. Sobre este livro e a atitude do führer em relação ao escritor alemão recordo aqui o artigo de Roberto de Moraes “Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra”, publicado na revista «Vida Mundial» em 1976, que aqui reproduzi, com a autorização do autor, há quase dois anos. Aqui fica o excerto:

«No seu romance “Auf den Marmorklippen” (“Sobre as Falésias de Mármore”), cujas provas reviu em Setembro de 39, de novo sob uniforme, já com os galões de capitão, traduzindo a promoção que lhe fora comunicada por telegrama pelo próprio comandante em chefe do Exército, von Brauchitsch, sinal de rara distinção, logo houve quem visse — sobretudo em certos círculos do ministério de Goebbels — uma denúncia do totalitarismo.
No entanto, apesar da insistência de muitos, já depois de terminada a guerra, e não obstante a simpatia fácil e as vantagens que daí lhe adviriam junto das autoridades de Ocupação, sempre o autor negou que o sinistro ditador das “Falésias” representasse Adolfo Hitler. E contudo, no “Diário”, de passagem, há uma referência clara ao desacordo entre Polis e Ethos. Mas, como também escreveu, a propósito das acusações de não apurar suficientemente as responsabilidades de guerra, ama a sua pátria.
Logo proibido na Alemanha, quando do seu aparecimento, embora a suspensão mais tarde fosse levantada, tendo sido até traduzido na França ocupada de 1942, o livro tornaria Jünger suspeito.
De resto, o tema das “Falésias” — a “destruição do mundo tradicional e cavalheiresco”, o fim das “guerras leais em que combatiam cavaleiros” — é o mesmo das “Abelhas de Cristal” e de “Heliopolis”. Na linha dos velhos mitos germânicos, os heróis, “após terem lutado em vão contra as hordas de novos bárbaros, retiram-se para mundos misteriosos e distantes, colocando no rosto máscaras de ouro”, símbolos da morte e da entrada num ciclo de redenção.
Jünger, sem conspirar propriamente, pertencia aos círculos de certa oposição interna — o grupo do general comandante da região militar de Paris, von Stuelpnagel, junto de quem servia. E, se na sua ligação aos que, em 20 de Julho de 44, tentaram eliminar o Führer, não o levou ao Tribunal do Povo, onde os processos, expeditivos e simples, de Freisler, não deixariam, certamente, de o incriminar, tal deve-se, não tenho dúvida, a uma profunda e misteriosa solidariedade. Hitler, o antigo combatente das primeiras linhas, conservava um respeito indelével pelo antigo tenente de “destacamentos especiais”, Ernst Jünger, ferido catorze vezes e titular, desde os 23 anos, da mais alta condecoração militar alemão do tempo, o “Pour le Mérite”, e poeta luminoso do heroísmo.
Esta fidelidade teria levado certa vez o chefe supremo da Alemanha a avisar os homens das “guerras” dos microfones e dos títulos de caixa alta: “Deixem o Jünger em paz.”
»

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Presidentes militares de Portugal

No último número do «Lanceiro», o 24, referente ao mês de Março, destaco o excelente artigo “Presidente militares de Portugal”, da autoria de Roberto de Moraes. Tratando concisamente os dez presidentes militares, de Sidónio Pais a Ramalho Eanes, este jornalista e historiador vai além das meras notas biográficas de cada um deles, “salpicando o todo com alguns traços pessoais e informação de várias ordens, pois a História tem um rosto”, nas suas palavras. De facto, ao apontar, por diversas vezes, aspectos singulares do percurso de alguns dos presidentes, bem como aspectos da personalidade de cada um, torna este tema alargado mais interessante e de leitura mais agradável. Para além disso, faz ainda apontamentos perspicazes acerca dos quadros existentes no Palácio de Belém de muitos dos retratados. Um óptimo texto para melhor compreender as figuras que fizeram cruzar a instituição militar e a Presidência da República na nossa História.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

D. PEDRO V

"Estou plenamente convicta da imensa
superioridade de D. Pedro quando comparado
com qualquer outro jovem príncipe"
Rainha Vitória


HÁ 150 ANOS FOI A ACLAMAÇÃO DE D. PEDRO V Primeiro filho de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, um desses príncipes cultíssimos que a Alemanha então exportava para renovar a seiva de algumas casa reais bem necessitadas, D. Pedro nasceu em 1837.
Em Novembro de 1853 morria inesperadamente a Rainha, com apenas 34 anos de idade, das consequências do 11.º parto, abrindo assim um período de dois anos da regência de D. Fernando II, Rei Consorte desde o nascimento do filho, que se estenderia até este atingir a idade de 18 anos, prescrita na Lei, em 1855.
Inicia-se então um período de viagens de estudos em que visita, com seu irmão Luís (mais tarde Rei), vários países europeus.
Dos relatórios e cartas que então escreveu, encontra-se já bem patente, no âmbito de uma precocidade invulgar, a sua inteligência superior, seu espírito de rigor, sua incansável vontade de saber, de aprender, quer no domínio das ciências, quer no das letras, e também, embora em menor medida, no das artes. São já documentos de um espírito maduro e não de um rapaz no fim da adolescência.
Logo no início do seu reinado depara com a epidemia de cólera-morbo seguida, um ano depois, pela não menos mortífera febre-amarela. Ao invés de muitas famílias mais abastadas e de não poucos políticos, o Rei não abandona a capital desdobrando-se em cuidados aos doentes, que visitava com perigo da própria vida, assim como em inspecções à operacionalidade de medidas de luta que havia delineado. O povo nunca esqueceria esta sua faceta.
Da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte, D. Pedro aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser.
Idealista activo, aliás, que só se dava por satisfeito na realização - livre e dentro da Constituição, isto é, pelos seus Governos e com apoio nas Cortes - dos planos que pensava e inspirava, ou procurava inspirar, e na possível aplicação prática das ideias que servia.
Atormentavam-no as limitações, principalmente quando eram contrárias aos interesses da Pátria e filhas de movimentos e interesses escondidos, intencionalmente egoístas e destrutivos.
No que se chocava amiúde com a classe política, corrupta e incapaz, na sua grande maioria, pois não era Rei que se deixasse ficar, mas sim soberano com tendências intervencionistas, exercendo o Poder Moderador - aliás perfeitamente legal e consignado na Constituição -, que fazia com zelo, clareza de espirito, inteligência e conhecimento aprofundado das causas, o que embaraçava e irritava muitos dos seus ministros.
O seu reinado, embora muito curto (uns escassos seis anos) foi rico em empreendimentos a que esteve intimamente ligado e dos quais foi, muitas vezes, tanto o pensador como o impulsionador: inauguração e planos para a expansão rápida do caminho-de-ferro; o mesmo para o telegrafo eléctrico; concessão de liberdade a todos os escravos que desembarcassem no continente, ilhas adjacentes, Índia e Macau; início da publicação da "Portugaliae Monumenta Histórica"; exposição industrial do Porto, a primeira internacional realizada em Portugal; criação da Comissão Central de Estatística do Reino; lançamento das primeiras carreiras regulares, a vapor, da metrópole para Angola; apresentação do projecto de Código Civil; introdução do sistema métrico: criação da Direcção-Geral de Instrução no Ministério do Reino; fundação do Curso Superior de Letras (mais tarde Faculdade de Letras, projecto pessoal do Rei); melhoria do curriculum da Escola Politécnica; supressão dos morgados e capelas ainda existentes; fundação da Associação Industrial Portuguesa.
Os assuntos militares, incluindo os mais técnicos, também o interessavam profundamente, seguindo-os de muito perto. Da sua iconografia, são raros os documentos fotográficos que o representam vestido à civil, pois andava normalmente fardado, envergando o sóbrio pequeno uniforme, com seu dólman azul ferrete (escuro) sem cordões nem agulhetas e correspondente calça de mescla cinzento-azulada. Levantava-se invariavelmente às sete da manhã começando logo a trabalhar, e das três às cinco da tarde, sempre que possível, visitava, sem avisar, quartéis, hospitais, instituições públicas, incluindo assistência a aulas no Curso de Letras e na Politécnica, onde se sentava, como qualquer aluno retardatário ao fim da sala. "Isto mantém alerta os indolentes", tal como escreveu a seu tio e mentor, o Príncipe Alberto de Inglaterra, também ele um Saxe-Coburgo.
A morte inesperada em 1859, por difteria, da sua amada mulher, a Rainha D. Estefânia, alemã oriunda da casa de Hohenzollern-Sigmaringen, tornou-o ainda mais sombrio extinguindo-se ele próprio a 11 de Novembro de 1861, vitima de tifo, que também levou mais dois dos seus irmãos e incapacitou parcialmente um outro por toda a vida. Precedeu na morte, por escassas semanas seu tio Alberto, príncipe-consorte da rainha Vitória que nunca deixou de pensar que o desaparecimento do monarca português, que amava como um filho, havia precipitado também a morte do marido, escrevendo numa carta dirigida ao rei dos Belgas, seu tio Leopoldo I, também ele um Saxe-Coburgo: "A morte de Pedro é uma terrível calamidade para Portugal e uma verdadeira perda para a Europa". E sublinhou a palavra "verdadeira ".
O povo chorou-o como nunca tinha chorado um Bragança nem nunca mais choraria outro, pelo menos até hoje. Convencido de que "os políticos" tinham envenenado o Rei, às ordens de Loulé, desencadearam-se verdadeiros tumultos em Lisboa e várias casas foram saqueadas e queimadas.
Devo dizer que não se surpreendeu muito (até pelo que também aconteceu, em parte, em 2002, no primeiro centenário da morte de Mouzinho) o facto até hoje e que eu saiba, nenhum média incluindo a TV se tenha referido, ainda que fosse apenas como simples efeméride, à figura deste Rei excepcional no aniversário dos 150 anos da sua aclamação.
São os média deste país que temos, país de invejazinhas e ódios vesgos, memória curta, atolado em superficialidade, premiando a mediocridade e a falta de rigor, favorecendo a ganância pacóvia, a hipocrisia e a corrupção, boçal e incívico em extremo mas prenhe de licenciaturas ridículas e inúteis. Pequeno país virtual e em bico de pés metidos em sapatos mais ou menos engraxados, de solas furadas, escondendo peúgas por lavar há muitas décadas.
Talvez seja melhor o silêncio, sim. Não mereciam de facto, um Rei como foi D. Pedro V.

Roberto de Moraes




Esplêndida e pouco conhecida fotografia de D. Pedro V - actualmente conservada nas colecções do Palácio Nacional da Ajuda -, tirada ao tempo da sua aclamação, em 1855, por Wenceslau Cifka, um grande pioneiro da fotografia em Portugal e amigo pessoal de D. Fernando II. Foi, pelo próprio Cifka, primorosamente colorida como atesta, por exemplo, a precisa tonalidade da calça de mescla azul acinzentada -"cor de flor-de-alecrim", como ainda constava no regulamento de Dezembro de 1948 -, que foi estupidamente abolida, já bem nos nossos dias, nos anos setenta do século XX. O Rei enverga o pequeno uniforme de Marechal-General, como se vê pela bordadura da gola e dos canhões das mangas do dólman azul-ferrete, assim como pelas insígnias patentes sobre a dragona: ceptro cruzado com óculo e monograma real encimado pela coroa. Este posto, ao tempo já só apanágio exclusivo de Rei, era superior ao de Marechal do Exército e fora, no passado, atribuído também a raras personagens tais como o conde de Lippe, duque de Lafões, Wellington e, por último, em 1816, a Beresford, que já era marechal desde 1809. O posto deixou de existir em Outubro de 1910, com a queda da monarquia, pois a república não o considerou na reforma de 1911. Aqui, o soberano, de dezoito anos de idade, ainda não ostenta o bigode que mostram fotografias posteriores e leva um corte de cabelo bem similar ao de muitos jovens de hoje, incluindo os das Forças Armadas. O que talvez contribua para conferir a esta foto um estranho, insólito e quase mágico travo de intemporalidade que, não obstante a distância de 150 anos, dela se desprende, revelando bem a forte personalidade do retratado, sua clarividência penetrante e sombria, sublinhada já por um ricto de precoce amargura. R. de M.

O Esperançoso

150 anos passaram desde a aclamação de D. Pedro V. Os media, como é hábito, votaram-se ao silêncio, entretidos como sempre com as tricas políticas diárias. Na blogosfera houve excepções, como é o caso do BOS e do FGSantos, que eu tenha lido. Este monarca, com uma inteligência notável e uma cultura e saber vastíssimos, distinguiu-se dos demais. Profundo conhecedor dos dossiers e decidido a intervir na boa governação do Reino, como era seu dever, elevou-se em relação à classe política medíocre da altura, tornando-se odiado por esta e amado pelo povo. Para lembrar nesta casa “O Esperançoso”, publicarei a seguir um artigo do meu amigo Roberto de Moraes, retirado do último número do «Lanceiro», com a sua autorização. Aqui fica a minha singela homenagem àquele que foi, sem dúvida e apesar do seu curto reinado, um dos nossos mais brilhantes reis.

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Sobre História

Da revista «Futuro Presente» referida no post anterior, reproduzo aqui a “Nota sobre História”, da autoria de Roberto de Moraes, publicada no final do artigo “Na esteira da Grande Guerra”, por concordar inteiramente com a sua posição sobre esta disciplina, que também é a minha.

Nota sobre História:
É justamente quando escrevo sobre História, a minha disciplina, que mais procuro proteger-me do pecado de “sabedoria retrospectiva”. A escrita da História está muito exposta à contaminação do presente, ao conhecimento do que se passou entre o então e o agora. Entender e sentir o estilo e o ser das camadas humanas de épocas passadas, constitui viático que muito pode ajudar. Quem politiza ou diaboliza a História, pode eventualmente aviar interesses ou cuidar de desideratos de outras ordens, mas não serve, com certeza, nem o homem honrado, nem a própria História.


Roberto de Moraes

“Inquérito sobre a Europa”

Só hoje li o último número da revista «Futuro Presente», o 57, referente aos meses de Maio e Junho, dominado pelo “Inquérito sobre a Europa”. Sob o tema central da questão europeia, podemos ler “Reflexões sobre a História recente”, de Jaime Nogueira Pinto, seguida de uma entrevista feita por este último e por Miguel Freitas da Costa ao Professor Martim de Albuquerque, e ainda, a visão económica de José Alberto Xerez em “Constituição europeia ou o fim da Europa?” e um olhar histórico de Roberto de Moraes sobre a Primeira Guerra Mundial intitulado “Na esteira da Grande Guerra”. Para além da concordância, ou não, com as posições tomadas, este é, sem dúvida, um conjunto de textos a não perder, pela sua qualidade e rigor, bem como pela actualidade e importância do tema.

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Aniversário (V)

A pedido do Duarte Branquinho, sólido camarada e jovem colega de História, disciplina que o não tolhe, antes lhe areja o espírito e lhe estrutura o sentido de humor, aqui vai, com um abraço, para assinalar o primeiro aniversário do seu blogue, o meu primeiro Bilhete publicado, de jornalista.
É este um género pouco cultivado entre nós, que eu viria a desenvolver, até nisso já com este meu feitio de ir a contrapelo. Corriam os anos sessenta quando viu a luz do dia e, dado não ter encontrado o original no prazo de horas, tive de o reescrever, de cabeça. Espero que não tenha perdido, de todo, a frescura dos meus vinte anos.

O Gato e a Velha

Era um canto para que apetecia olhar logo ao descer os três degraus de entrada naquele café esconso, meio tasca, à beira daquela rua que escorria uma fauna menos boa.
O tempo, qual pequeno animal acinzentado e viscoso, parecia passar despercebido, pegajoso e indiferente, no meio daquela tarde soturna de um Inverno que teimava em prolongar-se.
Lá estava a velha, cercada de sacos baratos e gastos, cheios de jornais velhos a condizerem com o capote ruço que mal lhe cobria o corpo informe onde outrora, talvez, carnes rijas tivessem despertado apetites.
E estava também o gato, cinzento e gordo, enfastiado, que se dignava olhar distraidamente o tampo da mesa em que a velha se servia de um galão e de um bolo de arroz – almoço atrasado, jantar adiantado?
De súbito ela ofereceu-lhe uma parte do bolo mas ele, desprendido, virou a cabeça, recusando. Aí ela olhou, rápido, em volta. Depois meteu aquelas migalhas à boca, mastigou, deglutiu e olhou de novo.
Mas só o gato tinha visto, e, esse, estava-se nas tintas.

Roberto de Moraes