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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O mau jornalismo habitual (XII): a Alternative für Deutschland

Alice Weidel, a líder parlamentar da AfD que é assumidamente homossexual.

Sabemos que a classificação "extrema-direita" é naturalmente discutível e amiúde utilizada pejorativamente, normalmente como "alerta para o regresso do fascismo". Mas, sem grandes dificuldades, admitamos para esta exposição a Alternative für Deutschland (AfD) nessa categoria.

Ora, se a AfD é de extrema-direita, também o era o Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei (o partido usou as duas designações consoante os Länder), que existiu entre 1946 e 1950, elegendo cinco deputados ao Bundestag, nas primeiras eleições federais pós-Segunda Guerra Mundial, em 1949.

Vem isto a propósito da "notícia", apregoada por tantos media, de que a AfD seria a primeira força de extrema-direita a entrar no Bundestag. Tomemos um exemplo paradigmático. Mafalda Anjos, a "diretora" (assim mesmo, sem o "c" de carácter que a submissão ao Acordo Ortográfico impôs) da revista "Visão", ainda por cima "em Berlim", fazia a seguinte previsão: "Extrema-direita terá assento no Parlamento alemão pela primeira vez desde 1945".

No estilo habitual destes lamentos alarmistas, Mafalda Anjos recorda que a Alemanha é um "país onde a herança de um passado nazi ainda está bem presente", mas a classificação da AfD, ao longo do artigo parece ir esmorecendo... Da "extrema-direita" do título, passamos para "direita-radical" no segundo parágrafo e, já no final, para "partido conservador anti-imigração". Provavelmente são sinónimos, já que na ampla classificação de "extrema-direita" cabe muita coisa. Cabe até Alice Weidel, uma das líderes da AfD, de quem a "diretora" da "Visão" diz que é "uma lésbica orgulhosa, casada com uma mulher do Sri-Lanka, trabalhou na Goldman Sachs e vive na Suiça".

Vamos aos factos, que falharam neste artigo, muito provavelmente por ignorância histórica e cegueira ideológica. Alice Weidel é homossexual assumida e vive com Sarah Bossard, uma cidadã suíça de origem cingalesa, com quem adoptou dois rapazes. No entanto, Weidel está longe de ser a habitual defensora dos direitos homossexuais e da teoria de género. Quando a AfD lamentou a legalização do casamento entre homossexuais na Alemanha, dizendo "adeus à família alemã", Weidel afirmou que "ser a favor da família tradicional não significa rejeitar outros estilos de vida" e referiu a sua própria eleição para a liderança do partido como prova da tolerância da AfD. Sobre o tema do casamento entre homossexuais, considerou não ser uma prioridade no debate, afirmando: "debater o casamento para todos enquanto milhões de muçulmanos imigram ilegalmente para a Alemanha é uma anedota!" Por outro lado, Weidel disse ainda não querer para as suas crianças a "idiotice de género" ou a "sexualização das aulas".

Contraditório? Talvez. A verdade é que muitos dos partidos considerados de "extrema-direita" que têm tido sucessos eleitorais apresentam várias diferenças em relação aos seus congéneres do passado. Evolução natural ou fim de uma era? Será a AfD a "nova extrema-direita", pelo menos na opinião de Riccardo Marchi que insere o partido na família "dos partidos com agenda política eurocética, anti-imigração, anti-islâmica, mas cujas raízes não afundam nos autoritarismos do período entreguerras"? Mais ainda, como afirma este historiador italiano radicado em Portugal, será a AfD "o coveiro do neonazismo"? Recusando uma classificação binária, a análise não deixa de merecer uma atenta reflexão.

Voltando ao início deste texto, como sabemos, a AfD tornou-se o terceiro partido mais representado no Bundestag, mas não foi o primeiro partido de "extrema-direita" a ter assento no parlamento alemão. Esse lugar pertence ao Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei. Aliás, o percurso dos deputados desse partido eleitos em 1949 é curioso, já que dois deles se juntaram ao Sozialistische Reichspartei Deutschlands (SRP), um partido strasseriano que foi, em 1952, o primeiro partido a ser ilegalizado pelo Tribunal Federal Constitucional. Mas essa, é outra história...

quarta-feira, 5 de março de 2014

“O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas”

Riccardo Marchi é um historiador italiano radicado em Portugal que se tem dedicado ao estudo das direitas radicais na democracia portuguesa. Desde 2008 que é investigador de pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Em 2010 organizou o colóquio “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas”, onde participaram Rui Ramos, Jaime Nogueira Pinto, Henrique Raposo, Ernesto Castro Leal, José Pedro Zúquete, entre outros. As comunicações desse colóquio foram agora reunidas num livro essencial para compreender o estado e o futuro das direitas no nosso país. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para a edição de «O Diabo» de 18 de Fevereiro de 2013.

Riccardo Marchi, Fátima Bonifácio e Rui Ramos
no colóquio "As raízes profundas não gelam?", em 2010

Qual foi o objectivo do colóquio que deu origem a este livro?
Quando em 2005 iniciei as minhas investigações de doutoramento acerca das direitas radicais no fim do Estado Novo – tese publicada nos dois livros “Folhas Ultras” (ICS, 2009) e “Império Nação Revolução” (Leya, 2009) –, senti a falta, na minha revisão bibliográfica, de obras de conjunto sobre o tema das direitas em Portugal que pudessem servir-me para enquadrar o meu objecto de estudo. Este género de bibliografia já está presente, há anos, nos outros países da Europa Ocidental: não falo apenas de trabalhos seminais como “La Droite en France”, de René Remond (1954), mas de uma grande variedade de análises historiográficas e politológicas de conjuntos que foram publicadas ao longo dos anos nos diferentes países sobre os percursos das direitas autóctones, sobre as suas diferentes matrizes doutrinárias, as suas evoluções, as estratégias, as convergências, as divergências, os legados que deixaram nos actores políticos que ocupam actualmente este espaço político.

Em Portugal não havia tais trabalhos?
Em Portugal havia muito e bom trabalho já feito sobre a primeira metade do século XX, inclusive o Estado Novo, menos sobre a segunda metade do século passado. Mas sobretudo faltava – e falta – uma reflexão diacrónica sobre as direitas portuguesas na contemporaneidade. Uma obra deste género é assaz complexa a fruto de muitos anos de investigação e reflexão madura, razão pela qual, quando em 2010 iniciei este projecto editorial, o meu intuito era mais limitado: reunir alguns colegas com trabalho sólido sobre diferentes experiências das direitas portuguesas desde o miguelismo até aos nosso dias para propor uma série de reflexões que contribuam à análise de longo período das direitas em Portugal. Como é óbvio e como é costume dizer-se nestas circunstâncias, não se trata de por uma palavra fim à investigação sobre este tema, mas de participar ao debate historiográfico – segundo Rui Ramos ainda incipiente – sobre as direitas em Portugal.

Ao falar de direitas significa que não há uma direita?Sem dúvida. A existência de direitas plurais, muito diferentes entre elas é um dado empírico. Há umas direitas contra-revolucionárias e umas direitas herdeiras das revoluções dos século XVIII e XIX, umas direitas monárquicas e umas direitas republicanas, há umas direitas profundamente influenciadas pelas revoluções nacionais dos anos 20 e 30 do século XX e umas direitas que se opuseram determinantemente aos fascismos; há umas direitas católicas anti-conciliares e uma direitas laicas que pouco se interessam com a dimensão religiosa; há umas direitas que, face à crise de Europa, procuraram soluções no tempo (indo às raízes mais profundas do Velho Continente) e há umas direitas que procuraram estas soluções no espaço (olhando além-Atlântico). Face a esta diversidade – aqui só sumariamente esboçada – utilizar o termo Direita no singular vicia a análise logo a partida, pressupondo que há uma tradição única a partir da qual é possível traçar um ‘fil rouge’ determinístico. O livro quis evitar este determinismo e apostar muito mais na diversidade que resulta sempre mais fecunda quando se pretende realçar as características profundas de determinados fenómenos para avaliar quanto e como estas características permaneceram ao longo do tempo.




A associação das direitas ao Estado Novo ainda subsiste?
Não há dúvida que afirmar-se de direita em Portugal leva o próprio interlocutor a associar imediatamente esta posição com conceitos como salazarista, autoritário, de duvidoso ‘pedigree’ democrático. É um reflexo natural vista a relativa proximidade histórica do regime autoritário. Contudo, diria que, nos últimos anos, o fenómeno mais interessante é a associação constante das direitas não tanto ao Estado Novo mas sim ao neoliberalismo. O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas. Os dois conceitos tornaram-se praticamente sinónimos: direita é neoliberalismo.

Isso faz algum sentido?
Estes géneros de associações mais que “fazer ou não fazer sentido”, são pouco úteis para a análise científica porque os conceitos, usados e abusados na polémica política, acabam por perder a sua capacidade heurística. O termo “neoliberal” sofreu esta degradação. Na área governamental da democracia portuguesa, as direitas são acusadas de ter traído as respectivas matrizes social-democrata e democrata-cristã para se tornarem neoliberais; as esquerdas são acusadas de ter traído a matriz socialista para actuar políticas neoliberais e de estar prestes a traí-la novamente para fazer mais do mesmo; as esquerdas radicais tentadas de aproximações aos socialistas são acusadas de desvios neoliberais; o FMI é neoliberal, a União Europeia é neoliberal. Mário Soares, que fez entrar o FMI em Portugal em 1977 e Portugal na CEE em 1986, é o paladino do anti-neoliberalismo. Quando com um rótulo se pretende explicar tudo, arrisca-se a não explicar nada.

O que também aconteceu com a associação ao Estado Novo...
A associação entre Direitas e Estado Novo sofreu do mesmo limite: de instrumento útil para perceber parte da cultura política das direitas na democracia portuguesa, tornou-se muitas vezes uma perspectiva incapacitante, inadequada para se compreender em profundidade outras matrizes ideológicas, outros percursos, outras estratégias presentes nas direitas a partir de 1974 e que determinaram a sua evolução muito mais que o legado estadonovista.

Não acha que a associação das direitas aos “fascismos” é um ataque fácil das esquerdas?
Associar as direitas actuais aos fascismos dos anos 30 é um ataque tão fácil como associar as esquerdas actuais aos regimes comunistas pré-1989.  É tão fácil que até se tornou banal, pouco útil, sem sentido de tal forma que, mesmo na polémica política mais simplista, já não é tão comum que um actor político das direitas seja apelidado de “fascista”, exactamente porque sendo genuinamente outra coisa, quer em termos de doutrina, quer em termos de ‘praxis’, nada resulta mais fácil para o visado que refutar esta acusação com as mais veementes atestações de antifascismo. Eu não falaria de um “ataque fácil” das esquerdas às direitas através do rótulo de “fascista”, mas destacaria, pelo contrário, um fenómeno diferente: as esquerdas à esquerda dos socialistas perceberam há muito a inutilidade da acusação de fascismo dirigida à direita e escolheram outros rótulos como o já referido “neoliberal”, apesar de a carga simbólica ser claramente menos pesada. A partir dos socialistas para a direita, pelo contrário, não me parece que haja uma corrida à atribuição de rótulos difamantes para levar ataques fáceis. Parece-me, ao invés, que há uma proliferação de atribuições mútuas de patentes democráticas, para sublinhar a legitimidade na alternância ao poder face aos perigos provenientes dos sectores julgados alheios ao arco democrático: assim, na esquerda temos uma distinção entre a “esquerda democrática” e as outras (radicais, comunistas); na direita temos uma distinção entre a “direita democrática” e a outras (extremas, populistas). Os “democráticos” de direita e de esquerda legitimam-se mutuamente face aos “outros”: esta evidência portuguesa está perfeitamente integrada no panorama da política europeia. Permita-me concluir com uma nota: não deixa de ser interessante a preocupação subjacente à sua pergunta acerca do “ataque fácil” sofrido pela direita actual através do rótulo de “fascista”. Nos anos 30, o ataque fácil – e insuportável – para um fascista era o ser acusado de não passar de “um homem de direita”.

Qual o futuro das direitas em Portugal?
Quanto mais estudamos a polimorfia das direitas na História portuguesa, mais nos damos conta do processo de homogeneização e conformismo ao pensamento dominante que sofreram nos últimos anos. Nada leva a crer que este processo seja destinado a reverter no curto prazo, o que não implica entraves para a gestão do Poder. Muito pelo contrário.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Estado das Direitas

Decorre nos próximos dias 1 e 2 de Fevereiro, das 10 às 17 horas, na Sala Polivalente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), o colóquio com o tema “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”, organizado por Riccardo Marchi.



Na linha do seminário dedicado ao estudo histórico e político das direitas portuguesas intitulado “As raízes profundas não gelam? - Ideias e percursos das direitas portuguesas”, realizado em Novembro de 2010, o investigador italiano radicado em Portugal Riccardo Marchi, autor dos livros “Folhas Ultras - As ideias da direita radical Portuguesa (1939-1950)” e “Império, Nação, Revolução - As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974)”, organiza agora o colóquio “O Estado das Direitas na Democracia Portuguesa”.
O foco de análise neste colóquio é o Estado no seu duplo significado de “Condição” e “Ordenamento político-jurídico”. Como nos explica a apresentação, “por um lado, a ‘condição das Direitas’ na sua dimensão política e cultural, numa perspectiva diacrónica desde a institucionalização da democracia até aos nossos dias. Por outro lado, o ‘projecto institucional’ das Direitas na sua dimensão nacional e internacional, numa perspectiva de futuro”.
O colóquio será dividido em dois painéis por dia, aos quais se segue um período de debate. No primeiro, “Direitas e partidos”, moderado por Riccardo Marchi, falarão Tiago Fernandes, sobre “Direita e qualidade da democracia: Portugal em perspectiva comparada (1974 – 2010)” e José Pedro Zúquete, sobre “Direita, genética: entre o passado e o presente”. O segundo, subordinado ao tema “Direitas e Cultura”, terá as intervenções de Patrícia Silva, com a comunicação “Direitas e discurso político: O CDS entre passado e presente”, Alexandre Franco de Sá, com “Direita, Hegemonia e Filosofia Política”, e Pedro Mexia, com “Direitas e Artes”, e será moderado por José Pedro Zúquete. No segundo dia, o painel da manhã, com o tema “Direitas e Estado”, será moderado por Tiago Fernandes e terá como intervenientes Pedro Lomba, com a comunicação “As Direitas e o Estado na arquitectura constitucional”, João Pereira Coutinho, com “As Direitas e a relação entre o Estado e os Corpos intermédios”, e António Araújo, com “As Direitas e a relação entre o Estado e a Sociedade”. O último painel, intitulado “Direitas e Poderes”, com moderação de António Costa Pinto, terá as comunicações “As Direitas, o Estado e o Supranacional (Europa e Comunidade Internacional)”, de Marina Costa Lobo, e “As Direitas e o Estado face ao mercado”, de André Azevedo Alves. A entrada é livre e aberta a toda a comunidade.

sábado, 30 de julho de 2011

Esclarecedor

Para sair de tanta ignorância que se tem ouvido sobre as posições políticas de Anders Breivik, o assassino norueguês, bem como de várias associações abusivas a ideias que nada têm que ver com as dele, recomendo a entrevista esclarecedora do investigador italiano radicado no nosso país, Riccardo Marchi, publicada hoje na revista "Notícias Sábado", distribuída com o "DN" e o "JN".

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Debater as Direitas

Decorreu nos passados dias 29 e 30 de Novembro, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, um seminário intitulado “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas” organizado pelo investigador Riccardo Marchi. Este italiano radicado em Portugal é autor de um estudo sério sobre as direitas radicais portuguesas de 1939 a 1974, o que era uma lacuna na nossa historiografia. Marchi decidiu investigar aprofundadamente o assunto e doutorou-se em História no ISCTE com a tese que deu origem a dois livros complementares: “Folhas Ultras. As ideias da direita radical portuguesa (1939-1950)”, publicado pelo ICS, tem por base a primeira parte do seu estudo; “Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)”, publicado pela Texto, é a parte central da sua tese.

Razões de um seminário
Numa entrevista ao blogue Dissidente.info, questionado sobre as razões que o levaram a organizar este seminário, Marchi respondeu: “Quis reunir peritos de cada área específica das direitas que permitam desenhar um “fil rouge” desde o miguelismo contra-revolucionário até ao liberalismo dos nossos dias. Como é óbvio, não procuro uma lógica unívoca que conecte coerentemente tudo o que se moveu na direita em Portugal nos últimos 200 anos. Procuro sim identificar quais raízes afundam no terreno das ideias das direitas portuguesas e, a partir desta pluralidade, pretendo desvendar quais frutos produziram, se ainda são fecundas ou se, pelo contrário, secaram de vez. O intuito final dos dois dias será produzir uma colectânea com as contribuições dos oradores e de outros autores”.

Dois dias de trabalhos
Coube a Rui Ramos a abertura do seminário com a comunicação “As direitas na historiografia portuguesa” e a introdução não podia ter sido melhor. Há muito que este historiador tem denunciado uma oposição que se faz entre a esquerda e direita como se se tratasse do “bem” e do “mal”, perdoando-se os “excessos” das esquerdas e recriminando o mínimo deslize das direitas. Tal reflecte-se no campo historiográfico onde não devia acontecer. Segundo Rui Ramos, há uma cultura instalada que leva a que mesmo historiadores que não seguem necessariamente uma agenda política caiam nessas simplificações. Dos vários exemplos que deu, lembro aqui um: a chamada “ditadura de João Franco” é sempre considerada uma ditadura, por outro lado, o Governo Provisório de 1910, tecnicamente uma ditadura, nunca recebe essa designação e as suas medidas persecutórias são “compreendidas”.
Seguiram-se duas intervenções sobre o miguelismo “A reacção anti-liberal miguelista” de Maria Alexandre Lousada, e “A violência política no miguelismo” de Fátima Sá. Como se pode adivinhar pelos títulos das comunicações, estas centraram-se no “terror miguelista” que recordava, a espaços, as palavras iniciais de Rui Ramos.
Na tarde do primeiro dia falou José Manuel Quintas, sobre o “Integralismo Lusitano para além das etiquetas” e foi bastante interessante ouvir as origens desta experiência política e intelectual portuguesa por tantas vezes (propositadamente) mal tratada. O único defeito da sua comunicação foi a falta de tempo para assistir a tudo o que estava preparado. Seguiu-se a excelente intervenção de Ernesto Castro Leal, intitulada “As direitas revolucionárias na I República”, que se centrou em grupos menos conhecidos como a Acção Realista Portuguesa ou o Centro do Nacionalismo Lusitano, falando com clareza e demonstrando profundo conhecimento.
No segundo dia, duas intervenções a que O Diabo assistiu. Primeiro do cronista Henrique raposo que falou sobre “A Direita liberal no Portugal do Século XXI”, tentando demarcar o liberalismo do puramente económico, ao mesmo tempo que adiantou que várias das suas ideias, tão criticadas, estão a ser propostas pela própria União Europeia a vários estados devido à actual crise. Depois a comunicação de José Pedro Zúquete, “O Império contra-ataca: uma ideia antiga para as direitas do futuro”, que era sem dúvida a que tinha o melhor título de todo o seminário e prometia debate.

Ideias para o futuro
A José Pedro Zúquete, investigador a quem coube o primeiro artigo académico sobre o Partido Nacional Renovador (PNR), há que reconhecer a capacidade de estudo da chamada “extrema-direita”, em todas as suas complexidades, e a coragem de tentar propostas para o futuro, recusando a aposição confortável de observador não-interveniente.
Na sua participação neste seminário lembrou a importância da lusofonia na construção das direitas do futuro. Essa era a “ideia antiga” a que se referia o título da sua comunicação. Criticou o PNR por não a considerar, desejando boa sorte a quem tentar pesquisar o termo “lusofonia” no site deste partido nacionalista. Louvando, por outro lado, o Movimento Internacional Lusófono (MIL), disse que este era a expressão de uma ideia que não devemos desprezar. [publicado na última edição de «O Diabo»]

sábado, 20 de novembro de 2010

Ideias e percursos das direitas portuguesas



O investigador italiano Riccardo Marchi, autor dos livros Folhas Ultras - As ideias da direita radical Portuguesa (1939-1950) e Império, Nação, Revolução - As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974), em parceria com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, organiza nos próximos dias 29 e 30 de Novembro um seminário dedicado ao estudo histórico e político das direitas portuguesas. Intitulado As raízes profundas não gelam? - Ideias e percursos das direitas portuguesas, este seminário decorrerá durante os dois dias nas instalações do ICS-UL. Os painéis realizar-se-ão da parte da manhã entre as 10:00 e as 13:00, da parte da tarde entre as 14:30 e as 17:30. Para mais informações poderá contactar a organização deste seminário através do e-mail riccardo.marchi@ics.ul.pt.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Dois programas a ver




No passado fim-de-semana foram transmitidos dois programas de televisão bastante interessantes. O primeiro, acima partilhado, é o Sociedade das Nações, da SIC, com os investigadores italianos Riccardo Marchi e Marco Lisi, sobre as particularidades da política nacional.

O segundo é o Olhar o Mundo, da RTP, com os convidados Riccardo Marchi e Cesário Borga, sobre as direitas e as extremas-direitas em Espanha, na Hungria e na Áustria.

quarta-feira, 31 de março de 2010

“Império, Nação, Revolução” em linha

O livro “Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)”, do historiador italiano Riccardo Marchi, que aconselhei aqui, tem agora um blog “para despertar as memórias das testemunhas e as críticas dos leitores, porque escrever História é sempre uma obra comunitária”. Aqui é possível encontrar um índice detalhado da obra, recensões críticas publicadas na imprensa, uma entrevista com o autor, entre outras informações. Uma óptima iniciativa que espera contributos.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Riccardo Marchi em entrevista


A edição desta semana d'«O Diabo» traz uma entrevista muito interessante com o historiador italiano Riccardo Marchi, autor do livro “Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)” lançado oficialmente há dias. As primeiras questões são sobre a dura recensão crítica da obra deste investigador do ICS publicada numa edição anterior do jornal. De seguida, falou do seu trabalho de pesquisa, nomeadamente das várias entrevistas com destacados militantes e dirigentes da direita revolucionária da altura. Dessa experiência disse: “Gostei dos depoimentos deles e fiquei com a vontade de os interrogar mais a fundo, ultrapassando finalmente as omissões iniciais. Como historiador, e como homem, teria ficado muito mais decepcionado em ouvir uma ladainha de arrependimentos, justificações, mea culpa. Não foi o caso, com nenhum deles.” Por fim, anunciou que em breve lançará um sítio na internet sobre o tema e solicitou a colaboração dos que participaram directamente naqueles acontecimentos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

“Império, Nação, Revolução”


Decorreu ontem no ICS o lançamento oficial do livro Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)”, de Riccardo Marchi, publicado pela Texto, que contou com a presença de António Costa Pinto, Luís Salgado de Matos, Jaime Nogueira Pinto, do autor e de uma representante da editora. Uma sessão curta mas agradável, na qual gostei especialmente da intervenção de Nogueira Pinto, faltou apenas um espaço para questões. Para além disso, foi óptimo (re)encontrar tantos amigos. No final fiquei a saber que já foi impressa uma segunda edição do livro. Os meus parabéns ao autor por este sucesso inteiramente merecido.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Livros para o Natal

Aqui fica uma breve lista de livros saídos recentemente que são óptimos presentes de Natal:


O Século de 1914. Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX”, de Dominique Venner, publicado pela Civilização.



Guerra Justa, Terrosimo, Estado de Urgência e Nomos da Terra: A Actualidade de Carl Schmitt”, de Alain de Benoist, publicado pela Antagonista.



Folhas Ultras. As ideias da direita radical portuguesa (1939-1950)”, de Riccardo Marchi, publicado pelo ICS.

Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)”, de Riccardo Marchi, publicado pela Texto.


Nuno Álvares Pereira - Homem, Herói e Santo”, obra colectiva, publicada pela Universidade Lusíada Editora.


Antologia poética Rodrigo Emílio”, com organização e introdução de Bruno Oliveira Santos e prefácio de António Manuel Couto Viana, publicada pela Areias do Tempo.

domingo, 6 de dezembro de 2009

As direitas radicais portuguesas (1939-1974)

Um estudo sério sobre as direitas radicais de 1939 a 1974 era uma lacuna na nossa historiografia. Felizmente, um historiador italiano, Riccardo Marchi, decidiu investigar aprofundadamente o assunto e doutorar-se em História no ISCTE com a tese que agora deu origem a dois livros. São ambos complementares: "Folhas Ultras. As ideias da direita radical portuguesa (1939-1950)", publicado pelo ICS, tem por base a primeira parte do seu estudo; "Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)", publicado pela Texto, é a parte central da sua tese. Livros essenciais para todos os que se interessem por esta área política e pelo estudo da História Contemporânea nacional. Já os tenho e prometo comentários alargados em breve.