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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Música pátria

Foi revitalizante regressar à Casa do Cipreste, em Sintra, para um serão inesquecível. Projectada por Raul Lino no início do século passado, continua na família e a tradição de lugar de encontro e cultura mantém-se.

Honrado com um convite para uma pequena celebração a propósito do vigésimo aniversário da classificação de Sintra como património mundial, tive o prazer de assistir a um concerto onde dois pianistas de formidável talento envolveram os presentes com música da autoria de compositores portugueses.

Edward Luiz Ayres d’Abreu, Presidente da Direcção do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, e Philippe Marques tocaram peças de Alfredo Keil, Vianna da Motta, António Fragoso, Óscar da Silva, Ruy Coelho, entre outros. Nomes que, mais ou menos esquecidos ou ignorados, têm vindo a ser recuperados por uma geração de jovens músicos que sabem para onde vão, não esquecendo de onde vêm. São os verdadeiros guardiães da Tradição, que passam o seu testemunho revivendo-a e renovando-a – faróis que nos recordam que se deve visitar o passado sem passadismos para nos encontrarmos num caminho que é comum.

O local onde tocaram não podia ser mais apropriado, já que Raul Lino se relacionava com as personalidades do meio musical português seu contemporâneo e, enquanto arquitecto, dava uma especial importância à acústica.

A sala encheu-se de pessoas que encheram a alma com melodias nascidas da criatividade nacional. A seguir, o convívio foi salutar e a conversa enriquecedora. Falou-se de Sintra, claro, e do desafio que é a sua preservação, do génio artístico português, dos antigos mestres que continuam a ser um exemplo e uma inspiração e até de assuntos mais ligeiros. Falámos também de música, como não podia deixar de ser, e da sua importância pátria.

Mais tarde, enquanto escrevia mentalmente estas linhas, lembrei-me de uma máxima nietzscheana que há muito compreendi: “Sem música, a vida seria um erro.”

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

As artes decorativas na 'obra de arte total' de Raul Lino


Raul Lino é uma referência maior na Arquitectura nacional, mas o seu contributo não se esgota no perfil de arquitecto da Casa Portuguesa. É por isso de saudar a publicação de “Raul Lino – Natureza e Tradição nas Artes Decorativas”, pela editora Scribe, um trabalho excepcional no qual a sua sobrinha-bisneta revela a atenção de Raul Lino ao pormenor, expressa nas artes decorativas.

A atenção ao pormenor é uma das características de Raul Lino (1879-1974) – um artista total – que, como já escrevi num editorial em sua homenagem no semanário «O Diabo», era capaz de projectar uma casa desde a sua implantação harmoniosa no espaço até ao desenho de um puxador de portas, ou das loiças a utilizar pela família que ali vivesse.

Esta obra de Maria do Carmo Lino é a adaptação da sua dissertação de mestrado em História de Arte defendida na Universidade Lusíada de Lisboa, que torna acessível ao público em geral a obra de Raul Lino no domínio das artes decorativas. É uma síntese formidável de mais de 70 anos de produção artística sem interrupção e contempla propostas para decoração de interiores, respectivo mobiliário, frescos decorativos, azulejaria, faianças e porcelanas, serralharia artística, ferragens, cenografia e figurinos, ilustrações, ex-libris, bilhetes-postais, programas de espectáculos, panos de mesa e vestidos bordados. Como afirma a autora, põe “em prática o conceito de obra de arte total”.

O livro, com uma bela composição gráfica e bem ilustrado, apresenta uma síntese biográfica de Raul Lino, o contexto das artes decorativas na sua formação e a proposta do arquitecto da obra de arte total, em capítulos diferentes, que nos enquadram para o capítulo onde os trabalhos nas várias artes decorativas são elencados e explicados.

Por fim, a obra oferece-nos talvez o texto mais interessante – uma verdadeira descoberta! A autora analisa a missão extraordinária de que Raul Lino foi incumbido em 1940: mobilar e guarnecer a Legação de Portugal em Berlim, com “carta branca e total autonomia”. Esta experiência, que foi um exemplo de obra de arte total, perdeu-se infelizmente em 1945, pouco depois de estar concluída, quando os jardins do edifício foram atingidos por uma bomba incendiária que destruiu praticamente tudo. O que sobrou foi pilhado pelas tropas russas.

Felizmente, esse trabalho foi agora resgatado ao esquecimento, assim como uma faceta menos conhecida de Raul Lino. Um livro obrigatório.

domingo, 18 de outubro de 2015

Raul Lino em Cascais


Foi na Casa de Santa Maria, em Cascais, que uma plateia atenta assistiu ontem ao lançamento das Actas do IV Ciclo de Conferências Raul Lino em Sintra, com apresentação de António Braz Teixeira e Rodrigo Sobral Cunha. O concluir de uma iniciativa louvável, que é apenas um início...

Em 2014, ano em que se assinalaram os 40 anos do falecimento do arquitecto e os 100 anos da inauguração da sua Casa do Cipreste, iniciou-se o Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, que decorreu em quatro ciclos de conferências, segundo as Estações do ano, organizado por Rodrigo Sobral Cunha, docente do IADE. As comunicações apresentadas no último ciclo, realizado em no Palácio de Seteais em Fevereiro deste ano, cujas actas foram agora publicadas e constituem o maior volume dos quatro, ficam agora acessíveis a todos os que queiram conhecer e estudar o trabalho, o talento e a importância de Raul Lino.

Como notou Rodrigo Sobral Cunha na sua apresentação, os quatro volumes publicados atingem uma dimensão e qualidade impressionantes. O docente do IADE recordou o interesse que o Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra gerou, nomeadamente a participação de várias instituições e a adesão de um público inteligente.


De seguida, António Braz Teixeira, depois de apresentar o volume agora publicado, notou alguns aspectos da obra de Raul Lino que ainda estão pouco tratados, como é o caso da sua actividade como programador de Cinema. Razão pela qual considerou que todo este trabalho não pode terminar. De facto, o entusiasmo de todos os participantes transmitiu, felizmente, a certeza de uma continuidade.

Por fim, quando estamos a celebrar um arquitecto, o espaço ganha outra importância; por isso, a escolha da belíssima Casa de Santa Maria foi óptima para esta evocação. Projectada por Raul Lino e construída em 1902 para Jorge O’Neil, tendo depois sido vendida ao engenheiro José Lino Júnior, irmão mais velho do arquitecto, que a enriqueceu com um conjunto de azulejos artísticos do século XVII e um tecto de madeira pintado a óleo, a Casa de Santa Maria é hoje um equipamento da Câmara Municipal de Cascais que se destaca pela importância dada aos eventos culturais.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Uma frente de batalha chamada Raul Lino


As esquerdas sempre lidaram mal com Raul Lino. Depois do ataque e da censura, passaram ao silêncio. Mas este foi um "arquitecto encontrou a essência de um povo na forma do seu lar" e, por isso, "um português que veja uma casa projectada por Raul Lino reconhece-a automaticamente como uma casa portuguesa". Ou seja, Raul Lino não representa o passado e por isso não passa. Assim, não é de estranhar que, perante o crescente interesse na sua obra a que assistimos hoje, haja prontas reacções.

A estratégia actual é outra e resume-se numa "reinterpretação". Veja-se, por exemplo, este artigo no «Público» sobre a "descoberta" de uma "casa Raul Lino no Porto", onde a investigadora Carla Garrido de Oliveira "vê na sua obra um claro impulso de pré-modernidade".

Pode passar ao lado de muita gente, mas há uma guerra cultural em curso e esta é apenas uma das frentes de batalha...

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A nossa casa

Um português que veja uma casa projectada por Raul Lino reconhece-a automaticamente como uma casa portuguesa. É a constatação de que o arquitecto encontrou a essência de um povo na forma do seu lar.

Mais do que a Casa Portuguesa, que teorizou e concretizou, devemos falar de casas portuguesas, que respeitavam cada região captando as suas especificidades.

A atenção ao pormenor, aliás, é uma das características de Raul Lino, um artista total, capaz de projectar uma casa desde a sua implantação harmoniosa no espaço até ao desenho de um puxador de portas, ou das loiças a utilizar pela família que ali vivesse.

Harmonia é a melhor palavra para definir a sua obra. A música feita pedra, para acolher os homens. O encontro perfeito entre o Homem e a Natureza, que tanto respeitava. Mas mais: entre um Povo e a sua Terra, numa ligação imemorial, que se sobrepõe à velocidade e à insensibilidade dos tempos modernos.

Há quem lhe chame conservador, mas Raul Lino é mais um conservador revolucionário, no seu reencontro com a Tradição. Não é um “passadista”, porque como tão bem definiu Dominique Venner, “a Tradição não é o passado, é o que não passa”. O génio de Raul Lino conseguiu atingir essa elevação na simplicidade e, por isso, também ele não passou.

Sabendo a importância do respeito pelo indivíduo na comunidade, algo muito diferente das tentações massificadoras, respeitava a casa como local sagrado de cada um. O homem que foi livre, mas enraizado, como um cipreste escreveu a esse propósito que a morada própria é “o reduto da nossa intimidade, último refúgio do indivíduo contra a investida de todas as aberrações do colectivismo”.

Houve também quem o quisesse catalogar politicamente na categoria dos “incómodos”, mas o seu talento ultrapassou tais reducionismos de ocasião e Portugal volta a descobri-lo.

É por isso de louvar o Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, organizado por Rodrigo Sobral Cunha, que começa no próximo dia 3 de Abril, no Palácio de Seteais, no ano em que se assinalam os 40 anos do falecimento do arquitecto e os 100 anos da inauguração da sua Casa do Cipreste.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Raul Lino em Sintra


No passado dia 28 de Março, o Café Saudade, em Sintra, foi o palco para o lançamento do livro “Sintra”, de Raul Lino, uma antologia feita por Rodrigo Sobral Cunha. A sessão contou com a apresentação de Miguel Real e com a leitura de Margarida Carpinteiro. O arquitecto da Casa Portuguesa está vivo no seu legado e o interesse na sua obra é notoriamente crescente.


É de notar que o nome completo do simpático e acolhedor café onde decorreu o lançamento do livro é “Saudade – Vida e Arte do Povo Português”, sinal de que a escolha do local não podia ter sido melhor.

A sala encheu e os lugares sentados esgotaram-se rapidamente, mas nem por isso o ambiente se tornou pesado. Pelo contrário, sentia-se uma atmosfera familiar.
Editado pela Colares, uma editora da região, “Sintra”, de Raul Lino, é uma antologia de textos seleccionados por Rodrigo Sobral Cunha, que fez também um estudo introdutório. Como organizador do Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, cuja primeira sessão é no Palácio de Seteais, nos dias 3 e 4 de Abril, Rodrigo Sobral Cunha, docente do IADE, está de parabéns por todo o excelente trabalho de divulgação do arquitecto que teorizou a Casa Portuguesa, fazendo-nos redescobrir a nossa identidade através do lar.

A apresentação do livro foi feita por Miguel Real, que louvou exactamente este esforço de Rodrigo Sobral Cunha e salientou a sua importância. De seguida, Margarida Carpinteiro leu emotivamente umas passagens da obra, prendendo a atenção dos presentes. Por fim, o responsável por esta antologia levantou-se e dirigiu-se à audiência em tom informal, demonstrando uma extraordinária humildade, ao recusar os louros, relembrando que é a Raul Lino que são devidos. Ele limitou-se a coligir o livro que o arquitecto não chegou a compor sobre Sintra, mas que afinal escreveu. Um local mágico que Raul Lino considerava pertencer “àquela classe de valores míticos de primeira grandeza do nosso firmamento espiritual cujo culto é fervorosamente exercido por uma confraria de apaixonados”.

Essa confraria existe e reuniu-se em Sintra para celebrar um dos seus filhos espirituais.

sábado, 15 de março de 2014

Um gato enroscado ao sol

Raul Lino descrevia a Casa do Cipreste, em Sintra, como “a casa como um gato enroscado ao sol” e, se olharmos para a planta, assim parece. Mas depois de a sentirmos, no seu calor e aconchego, percebemos que a descrição não se referia apenas ao desenho. Apreciador da obra do arquitecto da Casa Portuguesa, foi com grande satisfação que a visitei, muito bem guiado e acompanhado.


O primeiro desenho do conjunto data de 1907 e a construção da casa teve início em 1912. A propriedade, numa das vertentes do Castelo dos Mouros, era designada por “Pedreira”, em memória de uma anterior actividade extractiva no local. Esta particularidade, alertaram-me, faz desta habitação “a casa menos húmida de Sintra”. Martinho Pimentel, o bisneto de Raul Lino, recebeu-nos com grande hospitalidade, depois de tocarmos o sino à porta da rua. É bom saber que a casa continua na família.

Depois de apreciarmos alguns pormenores no pátio da entrada, vimos o local de trabalho do genial arquitecto, onde desenhou vários dos seus projectos. De seguida entrámos na casa de habitação e falámos sobre a importância da porta, algo que Raul Lino salientava. Uma vez no interior do lar, fizemos um percurso completo, tentando reparar em todos os pormenores cuidados. Há uma curiosidade interessante, o chão de cada divisão é diferente, marcando claramente a passagem de um espaço para o outro.


Ao fundo de um corredor, somos parados pela vista extraordinária daquela terra mágica. À esquerda, a sala octogonal, onde Raul Lino se reunia com as importantes figuras intelectuais do seu tempo e onde agora, quase um século depois, eu, o Rodrigo Sobral Cunha, o Pedro Sinde, o Manuel Gandra e o Martinho Pimentel, descendente do arquitecto, nos sentámos para uma conversa sobre a casa e a obra de Raul Lino, onde não faltaram o chá e os ‘scones’. À direita, uma sala de refeições com uma acústica impressionante, cujos efeitos em nós são indescritíveis.


Descemos até à parte traseira e olhámos a forma harmoniosa como a casa se funde com a vertente rochosa. Passeámos pelo jardim e espreitámos o poço que dá para o reservatório de água. Mas já se fazia tarde, como sempre, e tivemos que partir – que desenroscar-nos. Ficou tanto por ver, ficou tanto por contar. Ficou a promessa de regressarmos a uma casa onde nos sentimos em casa.

domingo, 9 de março de 2014

Proporção


«Quais são os elementos primordiais de que o arquitecto dispõe para o seu trabalho? Se existisse um evangelho da arquitectura, começaria por certo assim: "No princípio era a Proporção..." E realmente é a proporção base de toda a arquitectura.»

Raul Lino
in "Casas Portuguesas"

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Da palavra "urbanização"


«Há palavras que aparecem como vírus num meio propício, alastrando à maneira de epidemia, irritando ou estimulando pela novidade; criam noções sintéticas que influem na maneira de ver; – depois atenua-se a sua virulência e a pouco e pouco quási se destituem de sentido…

Lembro-me, por exemplo, da palavra vitamina que provocou uma pequena revolução nas noções da dietética, e que, impressa sobre qualquer lata de conservas, introduziu uma nota inesperada de mistério na alimentação da gente, dando lugar a série de crendices fantasiosas. – Recordo-me então de quando surgiu o aerodinamismo ao qual se sujeitou a forma de todos os objectos industrializados, desde o avião bombardeiro ao simples cabo de guarda-chuva ou à asa de qualquer cafeteira. – Tivemos o “sex-appeal” prestigioso, vocábulo estrangeiro destinado a provocar certas perturbações… magnéticas, de origem cine-astral, – vocábulo em breve desbancado por outros termos da última hora…

Enfim, creio que também a palavra urbanização participa destes efeitos de novidade mais ou menos excitantes. Urbanização, urbanismo, urbanologia, urbanista, etc. – a sua novidade está apenas no nome, que as respectivas funções existem desde que há civilização.»

Raul Lino
in “Quatro palavras sobre urbanização” (1945).

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A nossa casa


«A beleza fundamental do aspecto exterior duma casa está nas suas proporções; estas, porém, não se estabelecem por meio de tabelas; é indispensável uma educação especial do sentido da vista para se poder proporcionar com harmonia e nobreza. No entanto, dum modo geral se pode afirmar que está actualmente incutido entre nós um gosto desnatural, uma noção falsa de elegância, a qual se julga ser exclusivamente atributo das coisas altas e estreitas; como se vãos, pilastras, painéis, esteios, — tudo tivesse para ser elegante. É um vício de sentimento cuja origem facilmente se descobre. É que desde que há decadência do sentimento artístico, todas as vezes que se pretende fazer obra imponente, antolha-se-nos grandeza das coisas passadas; quando há compreensão grosseira da arquitectura, julga-se ganhar imponência pelo simples aumento das dimensões.»

Raul Lino

sábado, 2 de junho de 2012

As três idades do Arquitecto

É impossível pensar na Casa Portuguesa sem pensar em Raul Lino. Homem da cultura e das artes, amava a Pátria e a Natureza e procurou sempre uma identidade arquitectónica nacional. Bernardo d’Orey Manoel, arquitecto e docente na Universidade Lusíada de Lisboa, procura os “Fundamentos da Arquitectura em Raul Lino” através das três casas que o próprio projectou para viver com a família. São: “Três casas. Três obras de arte. Um só arquitecto. Uma vida.”



O autor divide esta obra em três capítulos, referentes às casas onde Raul Lino viveu, que para ele correspondem aos estádios propostos por Kiekegaard para descobrir o sentido da existência: estético, ético e religioso.

O primeiro trata da Casa do Cipreste. Para Bernardo d’Orey Manoel, esta “é o sonho de um jovem. É um sistema construído, um edifício de transições, conflitos, emoções, um jogo de luz. É a vida de Raul Lino inscrita na pedra, porque a paixão deixa sempre marcas. Funciona como um todo, um todo vivo. Tudo nasce no pátio. É a partir da intimidade deste pátio que todo o outro espaço se organiza, quer seja o espaço construído quer o espaço conquistado. O gesto do arquitecto instituiu um mundo novo”.

O segundo leva-nos às Azenhas do Mar e à Casa do Marco, aquela que Raul Lino decidiu construir porque achou que as suas filhas precisavam de sol. Este é, assim, “o abrigo de descanso do guerreiro e da sua família na mãe-natureza. A casa, as plantas, a arriba, o céu e o mar constroem momentos de relação. É a possibilidade do exercício da liberdade, expressão da ética na sua autenticidade. Uma casa da tradição portuguesa, que espreita o oceano e resiste ao vento. Integra as plantas no seu espaço, na construção do seu próprio mundo”. Mas o autor vai mais longe e afirma que esta “pode bem ser a casa portuguesa que Raul Lino perseguia”.

Por último, a Casa da Rua Feio Terenas, em Lisboa. Projectada e construída quando as filhas de Raul Lino estavam já casadas, “é um gesto amadurecido, sentido das coisas, verdadeira sustentabilidade da arquitectura em que tradição e modernidade se entrelaçam no acontecer. No interior da cidade a intimidade, o saber, os valores, o modo cuidado de Raul Lino fazer arquitectura. É o seu estilo em pedra transfigurado”.

Bem alicerçado nas fontes, em especial no Arquivo da Família de Raul Lino, este livro oferece-nos ainda vários Anexos que o enriquecem. Estes incluem uma bibliografia, uma cronologia ilustrada, alguns textos inéditos de Raul Lino e várias imagens referentes às três casas tratadas.

Em termos da edição, o livro está bem composto e bastante ilustrado com fotografias e reproduções das plantas. Pena que não se tivesse feito uma edição em formato maior que privilegiasse o aspecto gráfico, já que este trabalho daria um óptimo álbum.

Mas sabemos como os custos limitam as edições, principalmente as universitárias. Apesar deste pormenor, a Universidade Lusíada Editora está de parabéns pela publicação deste trabalho, tão útil para melhor chegarmos até um dos maiores arquitectos nacionais.

Neste trabalho vemos as três idades de um arquitecto e de um homem de raro talento que marcou para sempre a Arquitectura portuguesa. Como escreveu Raul Lino: “A Arquitectura, por ser uma Arte do corpo social, reflecte sempre a cultura do espírito de uma época. As suas obras representam um estado colectivo visto através de um temperamento individual”.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Raul Lino


O jornal «Público» teve a feliz ideia de lançar uma colecção dedicada aos arquitectos portugueses. O primeiro livro saiu hoje e é sobre um dos meus arquitectos favoritos: Raul Lino. Homem da cultura e das artes, amava a Pátria e a Natureza e procurou sempre uma identidade arquitectónica nacional.