Numa entrevista notável, publicada na revista «Notícias Sábado» n.º 163, de 21 de Fevereiro, o Major-General Raul Cunha tem a coragem de falar claro sobre o Kosovo. Agora, que passou um ano da autoproclamada independência daquele território, é a altura ideal para ler quem esteve três anos no Kosovo na Unmik e conhece os Balcãs no terreno desde 1991.Longe de papaguear as cantilenas mediáticas, politicamente correctas, o Major-General Raul Cunha oferece-nos o relato de quem viveu de perto a guerra da ex-Jugoslávia. Sobre o tão falado massacre de Srebrenica diz “(...) a verdade sobre Srebrenica, pelo que ouvi de muitos colegas, ainda está por contar. Muitos dos mortos que estão em valas comuns também são sérvios. Não podemos esquecer que o senhor da guerra muçulmano, que não estava ali na altura do cerco, tinha feito razias nas aldeias sérvias à volta. Havia ali vinganças a pagar.”
Sobre o Kosovo, diz: “No Kosovo estive duas vezes, a primeira na KFOR, em 2000. Nessa altura ainda se vivia um clima de revanchismo por parte dos albaneses. Mas a KFOR tinha muita força: quarenta mil homens. Aos poucos foi feita uma limpeza aos sérvios no Kosovo. Ameaças, compra de propriedade, um tiro aqui, um morto ali, uma tareia acolá e, pronto, as pessoas vão-se. Neste momento, os únicos sítios do Kosovo onde os sérvios sentem alguma estabilidade é nos locais onde eles se juntaram, ou seja, nos enclaves e no Norte. E como o Kosovo, no meu entender, não tem viabilidade sem o Norte, vai haver uma grande pressão do governo de Pristina para retomar o controlo do Norte. É aí que estão as minas de Trepca e é daí que vem a água que arrefece as caldeiras dos geradores de electricidade da central de Obilic.”
E sobre a independência do Kosovo, é categórico: “Independência é como quem diz. A separação. Independentes de quê? Não têm capacidade por si próprios. Agora a separação deles da Sérvia era inevitável. Podia ter sido feita de maneira a deixar a Sérvia salvar a face. Tudo o que se passou sempre nos Balcãs mostrou que a comunidade internacional teve um comportamento que oscilou e não teve uma linha coerente e correcta. No Kosovo violaram-se todas as regras de direito internacional e de acordos previamente estabelecidos. Nós, militares, sentimo-nos mal. Eu andei a dizer aos sérvios da Krajina que aquilo era parte da Croácia e que eles não podiam separar-se. Andei a dizer aos sérvios da Bósnia e aos croatas da Herzegovina que não podiam ser três separados, tinham que ser um país único. E depois, no Kosovo, virámos o discurso: passámos a dizer aos sérvios que têm de deixar os albaneses separarem-se. Com que cara é que fizemos isto? O Kosovo era uma província da Sérvia. Não era uma república.”
Entrevista completa aqui.