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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Frase do dia

«Pouca coisa revela tão bem a degenerescência burocrática dos partidos e a sua captura pela partidocracia do que o actual processo no PS.»

José Pacheco Pereira
in «Público»

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A vaidade de Cunhal


Pacheco Pereira, que está a preparar o quarto volume da biografia de Álvaro Cunhal, escreve hoje no «Público» que, “ao homem que escreve assim sobre si próprio falta pelo menos uma coisa que os teólogos da Idade Média, que tinham que lidar com as ordens monásticas, conheciam bem. Falta-lhe “humildade”, manifesta uma forma muito especial de vanitas, de vaidade. Não é a das pessoas comuns, mas é vaidade, é actuar como se a corrente invisível da História, com H grande, passasse pelo seu corpo. S. Bernardo, que escreveu para os monges, ou seja gente dedicada a Deus e à sua Ordem, como Cunhal o era à História e ao seu partido, sabia bem como era difícil combater esta forma de orgulho, que faz muito grandes homens, mas não os torna santos, nem santos laicos”.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Caciquismo laranja

Na grande entrevista publicada na edição de ontem do «Público», Pacheco Pereira começa por dizer que um dos principais problemas do PSD é ter uma direcção política que nada tem a ver com o programa, génese, história e identidade do partido”. 

De seguida, considera que “em partidos como o PSD, e em parte também no PS, a partidocracia tornou o partido muito difícil de mudar interiormente. Por isso, afirmaHoje, o PSD é controlado por grandes secções, em muitos casos artificiais, controladas por caciques locais, cuja vida, carreira e progressão depende da sua capacidade de controlo do poder interno. O refluxo dos últimos anos, o longo período em que o partido não esteve no poder, fez com que muita gente se voltasse para o poder autárquico. É verdade que o PSD é um partido com forte implantação autárquica, mas também é um partido em que o aparelho perdeu dimensão nacional. Esta perda de influência nacional mudou o carácter do PSD enquanto partido. Na génese, o PSD era diferente. Havia, sem dúvida, manifestações de partidocracia, cunhas para deputados, mecanismos de influência local. Mas havia um conjunto de pessoas notáveis a nível local, personalidades com influência. Eram médicos, pequenos industriais, comerciantes, empresários, advogados, operários em muitos casos, com influência nas suas freguesias, cuja vida não dependia do seu papel nas estruturas partidárias. Isso desapareceu. Hoje, há estruturas do partido, com pessoas com carreiras dentro do partido, cuja única preocupação é gerir as suas próprias carreiras. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Cromos políticos


Pacheco Pereira faz um trabalho notável no Ephemera. Desta vez, publicou a digitalização de uma caderneta de cromos que eu desconhecia, mas que é muito interessante. Tem por título "Gente de quem se fala" e, por entre várias figuras do pós-25 de Abril, encontramos algumas curiosas, como é o caso de Jaime Neves, Silva Resende e Rolão Preto.



sábado, 25 de fevereiro de 2012

O estudo da História

Pormenor de "A Arte da Pintura",
de Johannes Vermeer, c. 1666.
A disciplina em que me formei tem vindo, cada vez mais, a ser alvo do desprezo dos que só pensam na "carreira garantida" e nas "oportunidades profissionais". A todos eles, mas também aos que escolheram a História como formação, recomendo vivamente o excelente artigo de Pacheco Pereira, intitulado "A nova luta de classes". Para não me repetir aqui, aconselho também a (re)leitura do meu editorial "História e ignorância". E que Clio vos inspire...

sábado, 25 de setembro de 2010

A propósito de um centenário (I)

"O que estamos a comemorar é a visão da República que a oposição republicana e maçónica do Estado Novo tinha."

Pacheco Pereira
in «Sábado», 23/9/10.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Kosovo é um país?

Pacheco Pereira, que anda pelos Balcãs, publicou no seu blog o artigo do «Público» da semana passada, ao qual juntou várias fotografias. Vale a pena ler e, por isso, deixo aqui um excerto sobre o Kosovo: "Em Pristina, o coração é albanês e, se não fosse parte do acordo que permitiu o acto de independência, seria à Albânia que se teria juntado o Kosovo do Sul. Mas, se o Kosovo é formalmente independente, reconhecido por 70 países, não o é por outros 70, nem pela ONU, com a oposição da Rússia, aliada da Sérvia. Mais, se o Kosovo é um país, então na parte do Kosovo do Norte, a partir de Mitrovica e envolvendo as províncias fronteiriças, quem manda é a Sérvia. Na cidade de Mitrovica está um retrato dos Balcãs: no Sul, flutuam bandeiras albanesas (mais do que do Kosovo) e, no Norte, passando a famosa ponte, estamos na Sérvia. As ruas estão pejadas de propaganda política das eleições sérvias, em que esta parte da cidade participa, as inscrições são em cirílico, fala-se servo-croata e não albanês. Não há mesquitas, só igrejas ortodoxas, incluindo uma nova em folha para substituir outra que foi destruída nos confrontos de há dez anos. O hospital e muitas das despesas da cidade são pagos por Belgrado. Ninguém paga um tostão de imposto ao Governo de Pristina, nem, aliás, a nenhum Governo, porque isto é o Faroeste, parece Deadwood. Não há polícia regular, há uma espécie de milícia sem uniforme que responde ao presidente da câmara e que ninguém controla. Só por curiosidade, há dois presidentes da mesma câmara, mas isso é uma rotina nos Balcãs. Nas ruas, manda quem tem mais força. Tudo quanto é ilegal encontra guarida no Norte do Kosovo: contrabando, drogas, tráfico de pessoas, cortes de madeira ilegais, roubo de propriedades, assassinatos. Por singular coincidência, os grupos criminosos que aqui actuam são multiétnicos, sérvios e albaneses em boa colaboração."

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Propagandas

Quem vive em Lisboa, como eu, já se cruzou certamente com esta propaganda, na qual o que mais choca é o apoio da Câmara Municipal. Falando com amigos, familiares e colegas de trabalho, noto que grande parte deles discorda totalmente, no entanto sente que não pode assumir livremente tal posição, sob o risco de ser considerado “retrógrado”, “intolerante”, entre outros.

É, por isso, de louvar a coragem e clareza de Pacheco Pereira que denunciou a situação na última edição a revista «Sábado». Desse texto, também disponível no Abrupto, reproduzo a seguir o primeiro parágrafo: “Este cartaz, profusamente distribuído em Lisboa. é pago com o nosso dinheiro e é um exemplo mais de como o dinheiro dos contribuintes e dos munícipes lisboetas de há muito tempo é usado para alimentar as chamadas causas “fracturantes” e os grupos radicais que as suportam, na sua maioria ligados ao Bloco de Esquerda. Não é novidade nenhuma mas nunca vi uma discussão sobre os abusos do financiamento público que tivesse em conta esta realidade: o dinheiro dos contribuintes é usado para promover causas políticas em que a maioria não se revê, de organizações cuja contabilidade e accountability desconhece, deturpando a transparência da vida pública . Basta colar a uma organização qualquer o título de que luta contra a “discriminação” ou o “racismo” (o caso do SOS Racismo é outro exemplo de organizações do Bloco de Esquerda financiadas pelo dinheiro dos contribuintes) para se pensar justificado dar-lhes dinheiro público.

sábado, 23 de maio de 2009

Criminalidade e hipocrisia

Um dos textos que várias pessoas me indicaram desde que voltei foi a lúcida, honesta e corajosa reflexão de Pacheco Pereira que não resisto a reproduzir: "Se Portugal fosse um país a sério, não deixaria sequer um político balbuciar (como fazem no Bloco de Esquerda), face aos acontecimentos no Bairro da Bela Vista, que se trata de uma "questão social". Que a Igreja o diga, ainda se percebe, porque o seu Reino não é cá na Terra, e a caridade com o bom e o mau ladrão faz parte da sua missão. Mas a caridade não é a missão do Estado. A missão de Estado é garantir a nossa segurança, sem mas, nem ambiguidades.
É inaceitável que tal se diga como explicação, argumento, desculpa, hesitação, em vez de dizer-se claramente que os pobres não fazem carjacking, não se armam com uma caçadeira e não vão assaltar bancos, bombas de gasolina, ourives e ourivesarias, e caixas multibanco, para comprar roupa de marca. A subcultura da violência que se instalou nalguns bairros de Lisboa, Setúbal e no Porto, com todas as variantes que vão da violência do futebol e das claques (já todos estão esquecidos do rap dos Ultras da Ribeira) aos gangs organizados, é, como todas as coisas, "social", mas é, primeiro e antes de tudo, criminal. É mais próxima das organizações mafiosas e camorristas, com os seus códigos de honra que servem como factor de identidade e de defesa contra a polícia, do fascismo e da violência terrorista.

Que o diga a maioria dos habitantes desses bairros, gente pacífica e, essa sim, atingida pela pobreza e pela exclusão, mas que ainda arranja forças para ir trabalhar nas limpezas de escritórios às seis da manhã, ou para a construção civil nas carrinhas dos subempreiteiros. Essa sabe muito bem a violência de que é vítima pelos mesmos que, nos momentos cruciais, os jornais e comunicação social hesitam em dizer a cor e a tribo, porque não é politicamente correcto, hesitam em nomear como gangster, ou em tratar... como criminoso. Aparecessem eles de mão ao alto e cabeça rapada, com tatuagens com cruzes gamadas, em vez de ouvirem o kuduro, serem cool niggers, e muito SOS Racismo, e haveria um coro repressivo de mata e esfola. Assim é um "problema social" que eles, coitados, resolvem a tiro e a cocktail Molotov, e a duzentos à hora, porque não têm emprego nas obras.
"

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Homens e livros

Hoje, durante o almoço das quintas (não confundir com o jantar das quartas), lancei a seguinte provocação ao meu caro amigo Paulo Cunha Porto. Ao ler ontem no «Público» o artigo sobre a biblioteca de Pacheco Pereira, pensei: para quando um sobre o Paulo e os seus quase 30 mil volumes?

Segunda provocação: para quando um tão necessário como esperado regresso à blogosfera?

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Interrogações blogosféricas

1. A direita portuguesa padece há décadas de síndrome de Estocolmo. Quem o diz é o Manuel Azinhal. Pergunta incómoda: tem uma doença, ou tornou-se uma doença?

2. O activismo é uma brincadeira? Uma fase? Para mim, enquanto militante, é um combate de vida constante. Será? A ler, sem demoras, o texto de Pierre Chatov no Inconformista.

3. Pessoa e a República — um tema deliberadamente esquecido? O BOS lembra-o da melhor forma.

4. A arte morreu? Finalmente em português: o Manifesto do Turbodinamismo.

5. O caso Freeport (ou fripór, em inglês técnico) é importante? Nada como enumerar dez razões, como fez Pacheco Pereira na última «Sábado», também disponível no Abrupto.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

“Sociedade racial”

Alguns comentários ao artigo de Luís Campos e Cunha hoje do «Público», sobre o “problema das minorias étnicas”, modelos “integração” e diferenças de discriminação, com a ênfase na sociedade americana, sobre a qual afirma: “não é racista, é racial”.

Diz o autor: “quando cheguei a Nova Iorque e me matriculava em Columbia, no formulário de inscrição pediam-me para responder (facultativamente se eu era branco, latino, asiático ou negro.” Lembrei-me automaticamente dos tempos que passei nos EUA e onde em quase todos os questionários há esta pergunta. É claro que isso permite informação estatística preciosa para análises que noutros sítios, como na Europa continental, não se podem fazer por censura politicamente correcta. Como escreveu Pacheco Pereira na revista «Sábado», em Março de 2005, “a ideia politicamente correcta de que não se deve nomear a cor, nacionalidade (no caso de imigrantes) ou qualquer outro pormenor que possa ser considerado racista, sexista ou xenófobo, nas notícias dos crimes, é só e apenas isso: politicamente correcta. Na prática, censura-nos uma informação que devíamos ter: a relação entre a criminalidade e os factores sociais e culturais onde ela encontra raízes.” Mais, não pensem que os membros das minorias se sentem ofendidos com essa questão, pelo contrário, nos EUA, a maioria sente orgulho nessa pertença. Experimentem, por exemplo, dizer a Myke Tyson que não é negro porque “não há raças” e preparem-se para ficar sem dentes...

Ainda sobre o questionário racial, Campos e Cunha diz: “Não estando ainda habituado às subtilezas americanas, não sabia como preencher: eu era branco mas também latino, como os espanhóis ou italianos.” Quanto à dificuldade na resposta, é óbvio que para um americano “latino” não se refere a quem fale uma língua latina e, por isso, portugueses, espanhóis e italianos não são “latinos” nessa classificação americana. Da mesma forma que, quando um jornal português se refere à comunidade hispânica, falando dos EUA, não quer dizer ibérica. A questão dos “latinos” suscitou já grande debate, nomeadamente após protestos de vários sul-americanos de origem europeia, que se consideram brancos mas não “latinos”, apesar da língua, deixando perceber que esta é uma classificação mais rácica que étnica.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A difícil defesa da liberdade

Ainda no que respeita ao caso escandaloso da censura ilegítima e ilegal ao cartaz do PNR exercida pelo vereador Sá Fernandes — no qual, volto a dizê-lo, o que mais me choca é a apatia generalizada perante tal abuso — é com felicidade que leio a opinião de José Pacheco Pereira publicada na revista «Sábado» e também disponível no seu blog. Pacheco Pereira é um dos raros casos em Portugal de um opinion maker que lê, se preocupa em saber e, apesar de filiação partidária, não adopta um discurso de pronto-a-pensar. Nem sempre estou de acordo com ele, obviamente, mas é claro que gosto bastante quando o vejo tomar posições que outros não tomam por ignorância ou por receio politicamente correcto. Neste caso flagrante, posições como a dele deviam ser a regra, nunca a excepção. Não sendo infelizmente assim, aqui fica:

NÃO SABIA QUE ERA PROIBIDO EM DEMOCRACIA SER CONTRA A IMIGRAÇÃO
O vereador Sá Fernandes à revelia das leis e da liberdade, mandou arrancar um cartaz do PNR contra a imigração. Nada tenho com as ideias e as práticas do PNR, nem precisava de o dizer a não ser porque este mundo está tão envenenado que tem que se estar sempre a repetir o óbvio, mas desconhecia que era proibido em democracia pronunciar-se contra a imigração. O problema é nós nos esquecemos que a liberdade dos outros é também para dizer aquilo que nós detestamos e não concordamos. A liberdade é assim, não é apenas aquilo que o vereador Sá Fernandes entende ser politicamente correcto dizer ou aquilo que ele quer censurar. Felizmente.
JPP

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O reconhecimento do Kosovo (I)

A caminho de Paris, foi com muito agrado que li as lúcidas linhas de Pacheco Pereira, no «Público», sobre o reconhecimento do Kosovo, que o autor considera “uma política errada e perigosa”. Num artigo com o qual estou inteiramente de acordo, conclui, sem papas na língua, que “a decisão do reconhecimento unilateral do Kosovo é também má para os conflitos internos, porque nos Balcãs estas feridas podem conhecer momentos de aparente cicatrização, mas têm uma longa história de abrir de novo. Por muito que isto possa chocar, se se quer mexer nas fronteiras da ex-Jugoslávia, então faça-se "limpeza étnica" a sério, deixando os novos países com um grau de homogeneidade étnica e religiosa bastante para a questão para eles passar a ser de política externa e não interna. Não se choquem muito com esta sugestão, porque foi o que a Sociedade das Nações fez com as populações gregas na Anatólia e turcas na Trácia, nos anos vinte e, já que se está numa de "engenharia nacional", mais valia redesenhar tudo, com muito dinheiro e muita negociação, em vez de reconhecer países na base das fronteiras administrativas da antiga Jugoslávia, mantendo todos os problemas por resolver e acicatando os ódios.
Só é pena que o seu partido não lhe tenha dado ouvidos...

segunda-feira, 8 de maio de 2006

Hitler e Jünger

Pacheco Pereira descobriu as leituras de Hitler em “Hitler’s Library”, de Ambrus Miskolczy, que considera interessante, chamando a atenção para “Hitler, leitor de Ernst Jünger”. Esta referência deve-se certamente à obra “Sobre as Falésias de Mármore” — cuja melhor edição portuguesa é a da Vega, de 1987 — e a sua proximidade com o grupo de oficiais alemães responsáveis pelo atentado de 1944. Sobre este livro e a atitude do führer em relação ao escritor alemão recordo aqui o artigo de Roberto de Moraes “Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra”, publicado na revista «Vida Mundial» em 1976, que aqui reproduzi, com a autorização do autor, há quase dois anos. Aqui fica o excerto:

«No seu romance “Auf den Marmorklippen” (“Sobre as Falésias de Mármore”), cujas provas reviu em Setembro de 39, de novo sob uniforme, já com os galões de capitão, traduzindo a promoção que lhe fora comunicada por telegrama pelo próprio comandante em chefe do Exército, von Brauchitsch, sinal de rara distinção, logo houve quem visse — sobretudo em certos círculos do ministério de Goebbels — uma denúncia do totalitarismo.
No entanto, apesar da insistência de muitos, já depois de terminada a guerra, e não obstante a simpatia fácil e as vantagens que daí lhe adviriam junto das autoridades de Ocupação, sempre o autor negou que o sinistro ditador das “Falésias” representasse Adolfo Hitler. E contudo, no “Diário”, de passagem, há uma referência clara ao desacordo entre Polis e Ethos. Mas, como também escreveu, a propósito das acusações de não apurar suficientemente as responsabilidades de guerra, ama a sua pátria.
Logo proibido na Alemanha, quando do seu aparecimento, embora a suspensão mais tarde fosse levantada, tendo sido até traduzido na França ocupada de 1942, o livro tornaria Jünger suspeito.
De resto, o tema das “Falésias” — a “destruição do mundo tradicional e cavalheiresco”, o fim das “guerras leais em que combatiam cavaleiros” — é o mesmo das “Abelhas de Cristal” e de “Heliopolis”. Na linha dos velhos mitos germânicos, os heróis, “após terem lutado em vão contra as hordas de novos bárbaros, retiram-se para mundos misteriosos e distantes, colocando no rosto máscaras de ouro”, símbolos da morte e da entrada num ciclo de redenção.
Jünger, sem conspirar propriamente, pertencia aos círculos de certa oposição interna — o grupo do general comandante da região militar de Paris, von Stuelpnagel, junto de quem servia. E, se na sua ligação aos que, em 20 de Julho de 44, tentaram eliminar o Führer, não o levou ao Tribunal do Povo, onde os processos, expeditivos e simples, de Freisler, não deixariam, certamente, de o incriminar, tal deve-se, não tenho dúvida, a uma profunda e misteriosa solidariedade. Hitler, o antigo combatente das primeiras linhas, conservava um respeito indelével pelo antigo tenente de “destacamentos especiais”, Ernst Jünger, ferido catorze vezes e titular, desde os 23 anos, da mais alta condecoração militar alemão do tempo, o “Pour le Mérite”, e poeta luminoso do heroísmo.
Esta fidelidade teria levado certa vez o chefe supremo da Alemanha a avisar os homens das “guerras” dos microfones e dos títulos de caixa alta: “Deixem o Jünger em paz.”
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sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Opiniões lúcidas

Nem todas as opiniões sobre a guerra étnica que eclodiu em França e que mantém a chama foram de acordo com o discurso oficial desculpabilizante das eternas minorias (por quanto tempo?) supostamente oprimidas. Assim, como este post já vai com uns dias de atraso, reproduzo neste “lembrete para memória futura” algumas das posições lúcidas – em especial sobre as verdadeiras razões do conflito – que tive oportunidade de ler.

No «DN» do passado sábado, Carlos Vale Ferraz, apesar de me parecer inclinar-se para uma “solução” comunitarista, recusa as tão conhecidas como esbatidas razões de ordem social. Segundo ele, “o problema não é a falta, em França e em muitos dos mais ricos países europeus, de subsídios a empregos e a cursos de formação, não é a falta de habitações sociais, ginásios e centros culturais, não é a falta de polícias de proximidade e de animadores que procuram integrar jovens das segundas gerações de magrebinos, designados por beur, e africanos à deriva, nem se resolve, por isso, atirando-lhe dinheiro e bons conselhos. O problema é muito mais complexo e profundo que a conversão dos jovens delinquentes em respeitadores cidadãos e a sua resolução ultrapassa em muito o âmbito das operações de reposição da ordem, isto porque o problema é de identidade e de referências.” Sobre a tão apregoada integração, é categórico: “A crença de que é possível a integração, de que é possível a uma comunidade esquecer ou abdicar da sua identidade histórica, genética e cultural para assumir uma outra, surge assim como uma mentira permanente, uma grosseira hipocrisia exposta e sentida tanto pelos estrangeiros como pelos autóctones.” Pensando no futuro, conclui: “não é possível constituir novas realidades nacionais e europeias com aqueles que rejeitam as suas matrizes culturais, o seu ordenamento jurídico, os seus valores, a sua visão do mundo. Com aqueles que são estrangeiros ao processo histórico que fez da Europa aquilo que ela é. Com aqueles que procuram, mesmo inconscientemente, uma vingança histórica contra o que os europeus lhes fizeram nos últimos mil anos, das cruzadas à escravatura e ao colonialismo. Para que a convivência seja possível e pacífica devemos saber que para ter as portas abertas temos de manter levantadas as paredes que as sustentam.

A reter, também, o artigo “A lição da França”, de José Manuel Barata-Feyo, na última edição da «Grande Reportagem», onde constata o “fracasso da integração social” e lembra o “choque dos belos princípios contra a dura realidade, nunca enunciada, das novas gerações de árabes e negros que só são franceses porque nasceram em França, mas cuja pátria (à falta de melhor escolaridade e de vontade de trabalhar) é a raça e a religião muçulmana...”, que considera “a raiz do problema”. Depois, faz a inevitável comparação com a imigração europeia para França, mas de uma forma séria, em contraste absoluto com os integracionsistas que insistem em não observar as diferenças óbvias entre estes dois fenómenos totalmente distintos. “Os factos são rebeldes. Milhões de italianos e polacos emigraram para França entre as duas guerras; milhões de espanhóis e portugueses fizeram outro tanto no pós-guerra. Os que quiseram integrar-se foram integrados. E mesmo os que optaram por regressar aos seus países de origem viveram diluídos no tecido social francês. Porque nem os franceses sentiam a necessidade de os excluir, nem eles sentiam a de se isolar. Os princípios e a teoria da integração funcionaram em relação a essas comunidades pela óbvia razão de que todas tinham um denominador comum, geográfico, histórico, religioso e cultural. Igual razão traça o destino diametralmente oposto das novas gerações de imigrantes oriundos de países árabes e da África Negra. Apesar de terem nascido em França, a verdade maior é que, à semelhança dos pais, já nasceram isolados: rejeitados pelos franceses que eles próprios rejeitam.” Concluindo, ciente da dimensão europeia do problema, não esquece o nosso país: “O exemplo dos subúrbios franceses acabará por se alastrar a todos os cantos da Europa onde jovens se sentem apátridas no seu próprio país. Como a França vai resolver o problema, creio que nem ela sabe. Mas acredito que chegou o tempo de Portugal retirar o indispensável ensinamento desta lição: onde se constituem comunidades apátridas, mesmo a pátria dos Direitos do Homem acaba por ter de mandar a tropa defender os valores da República. Nas suas próprias ruas.

Termino com uma referência obrigatória ao já muito citado postA espantosa complacência” de José Pacheco Pereira: “Basta haver um ar de revolta social contra o "sistema", um ar de "multiculturalismo" revolucionário dos "deserdados da terra" contra os ricos (os que têm carro, os pequenos lojistas, os stands de automóveis, os pequenos comércios), para a velha complacência face à violência vir ao de cima. Fossem neo-nazis os autores dos tumultos e a pátria e a civilização ficavam em perigo, mas como são jovens muçulmanos da banlieue, já podem partir tudo. Não são vândalos, são "jovens" reagindo à "violência policial", são "vítimas" do desemprego e do racismo dos franceses, justificados na sua "revolta", e têm que ser tratados com luvas verbais e delicadeza politicamente correcta. Os maus são as forças da ordem, os governantes, os polícias, os bombeiros e todos os que mostram uma curiosidade indevida pelos seus bairros de território libertado. No fundo, não é novidade nenhuma. Há muitos anos que é assim, que estas questões são tratadas com imensa vénia, não vão os "jovens" zangarem-se e vingarem-se. A culpa é nossa, não é?