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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Os nossos guerreiros medievais

Miguel Gomes Martins, doutor em História da Idade Média pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é técnico superior do Gabinete de Estudos Olisiponenses, investigador, professor universitário e autor de várias obras dedicadas à História Militar Medieval. O seu mais recente livro é "Guerreiros Medievais Portugueses". Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo», publicada na edição de 24 de Setembro.



A guerra na Idade Média continua a encantar o público português?
Estou plenamente convencido que sim. O sucesso de séries televisivas, romances históricos ou mesmo jogos de computador, cujo pano de fundo é a Idade Média – mesmo que mitificada e envolvida num ambiente de fantasia – são uma prova dessa curiosidade e desse, como lhe chamou, encantamento. E se a tudo isso somarmos a circunstância de muitas dessas séries, romances e jogos terem a guerra como principal fio condutor, creio que poucas dúvidas restarão acerca do interesse pelos episódios militares desse período, mas também pela forma como se organizava e praticava a guerra.

Neste novo livro, como foi a escolha dos guerreiros tratados?
Tratou-se de uma escolha que partiu de uma primeira lista – mais meramente provisória – composta pelas figuras que, na minha perspectiva, melhor representavam, na cronologia em análise, o estereótipo do guerreiro medieval português. Importa, no entanto, sublinhar que a lista inicial foi sujeita a inúmeras alterações, ora em consequência das fontes disponíveis – que nem sempre permitiam uma abordagem minimamente desenvolvida e sólida –, ou da necessidade de se evitar a repetição de episódios, ora em resultado de uma ou de outra sugestão dos meus amigos e colegas medievalistas com quem troquei inúmeras ideias a respeito deste projecto.

Houve uma abordagem diferente nos mais conhecidos, como Nun'Álvares ou Geraldo Sem Pavor?
Creio que, mesmo quando se tratam de figuras relativamente conhecidas – como as que referiu –, só o facto de a minha observação se centrar no seu trajecto militar torna, por si só, esta análise inovadora. Claro que algumas das questões abordadas foram já objecto de análise noutros estudos, mas a forma como são aqui apresentadas e articuladas confere-lhes, penso eu, bastante originalidade.

Dos menos conhecidos, quais destacaria?
Perguntar-me isso, é quase o mesmo que perguntar a um pai, de qual dos seus filhos gosta mais. Mas vou tentar não fugir à questão dizendo-lhe que talvez tenha ficado surpreendido com a riqueza do percurso de Afonso Peres Farinha, um homem que inicia a sua carreira militar como um cavaleiro que pouco mais tem que as suas armas e cavalo, que ingressa na Ordem do Hospital onde atinge o topo da hierarquia em Portugal, que por três vezes viaja até ao Médio Oriente e que se converte num dos principais conselheiros de Afonso III. O mesmo se passou com a figura de Álvaro Vaz de Almada, um indivíduo que combate em Ceuta, que luta ao lado do infante D. Pedro nas fronteiras orientais do Império Romano-Germânico e nos palcos da Guerra dos Cem Anos, que está presente no cerco a Tânger, que desempenha um papel central na Guerra Civil da regência do infante D. Pedro e nos acontecimentos que desembocarão na Batalha de Alfarrobeira, onde virá a encontrar a morte.

Houve também a preocupação de não tratar apenas guerreiros vitoriosos...
Sim, essa foi, desde logo, uma das minhas preocupações, já que a Guerra faz-se de vitórias e de derrotas e só nesta dupla componente podemos entender todas as dimensões deste fenómeno. Foi justamente por isso que procurei também estudar alguns comandantes militares menos bem sucedidos como D. Fernando, senhor de Serpa ou do infante D. Afonso, senhor de Portalegre, que apesar dos revezes que marcaram os seus percursos, nem por isso deixam de ser grandes senhores da guerra e, como tal, merecedores da nossa atenção.

Há uma diferença entre os nossos guerreiros medievais e os de outros países europeus?
As diferenças podem ser mais visíveis ao nível da constituição dos exércitos, em particular da dimensão dos mesmos. Com efeito, um país pequeno, pouco povoado e, como tal, com uma base de recrutamento mais reduzida que, por exemplo, o nosso vizinho castelhano-leonês, tem naturalmente como resultado a mobilização de exércitos mais reduzidos. Também o facto de a Reconquista portuguesa ter terminado em 1249-1250, ou seja, mais de dois séculos antes da Castelhano-Leonesa, veio retirar aos combatentes e, consequentemente, aos exércitos portugueses boa parte das rotinas de combate que até então haviam sido adquiridas devido a um estado de guerra permanente com o Islão. Todavia, o facto de desde 1128 termos conseguido – tantas vezes pela força das armas – preservar a nossa independência, demonstra que todos esses problemas acabaram sempre por ser ultrapassados e solucionados, já que a Coroa, consciente dessa fragilização, procurou, por diversas vezes – e sempre com sucesso – obviar a essas dificuldades que, em última análise e caso se arrastassem, poderiam por em xeque a independência do reino. E recordo apenas as medidas levadas a cabo por D. Dinis, Afonso IV e D. Fernando, no sentido de conferir uma maior eficácia aos diversos corpos (contingentes nobres, milícias concelhias, guarda do rei e ordens militares) que compunham a hoste régia; ou ainda as alianças militares com outros reinos e que possibilitaram, por exemplo, a importante presença de combatentes ingleses em Aljubarrota.

Tínhamos comandantes de alto nível...
Tivemos, sem dúvida, comandantes extremamente competentes. O génio estratégico de Geraldo O Sem-Pavor; ou o brilhantismo táctico de Nuno Álvares Pereira são, provavelmente os exemplos mais expressivo da qualidade de alguns dos comandantes observados neste estudo. Mas eu creio que a competência destes homens não se revela apenas no planeamento e no comando das campanhas ou dos combates, mas também enquanto administradores e gestores. Recordemos apenas Gualdim Pais, enquanto mestre da Ordem do Templo em Portugal; ou Estêvão Vasques Filipe enquanto anadel-mor dos besteiros do conto do reino.

Geraldo, O Sem-Pavor
Também fala no treino e na formação dos comandantes militares, pode resumir em que consistia?
Trata-se de uma questão central na preparação dos combatentes – sobretudo dos nobres – em particular dos comandantes, ou daqueles que aspiravam vir a comandar tropas. Contudo, por não existirem exércitos permanente, era impossível desenvolver um programa de treino colectivo, pelo que a aprendizagem e o adestramento tinha, obrigatoriamente que se processar a título individual.
A preparação começava cedo, com os jovens a exercitar-se no manejo das armas e na equitação, combinando essas duas actividades, mais tarde, no jogo da quintana ou na prática da montaria, com o combatente a investir contra animais de médio e de grande porte (ursos, veados, javalis), de lança empunhada, como numa carga de cavalaria.
Claro que em algumas ocasiões era possível desenvolver um treino colectivo, nomeadamente nos torneios, desportos marciais que opunham duas equipas, ao contrário das justas, disputadas por apenas dois adversários. Tanto umas como outras, tiveram um grande sucesso na Europa Medieval, um fenómeno a que Portugal não foi excepção.
Mas não se pense que a formação dos combatentes se fazia apenas numa base prática. Com efeito, existia também uma importante componente teórica, em que obras como o “Epitoma Rei Militaris”, de Vegécio; ou as “Siete Partidas”, de Afonso X, entre muitas outras, desempenhavam um papel central na preparação dos combatentes. Complementavam-se com outros tipos de leituras, como as crónicas, a poesia épica ou os livros de linhagem que, para muitos – como o jovem Nuno Álvares Pereira – serviam como fonte de inspiração para os feitos que ambicionavam vir a alcançar, mas onde encontravam também os modelos cavaleirescos que procuravam imitar.

Acha que obras como as suas despertam no grande público a curiosidade numa Idade Média que não é a fantasia dos romances de cavalaria?
Assim o espero. Na realidade, este trabalho encontra-se dirigido não só aos Historiadores, investigadores, docentes e estudantes universitários, mas também a um público vasto e diversificado e que, de uma forma ou de outra, se interessa pela História do seu país durante a Idade Média. Foi com esse objectivo que procurei despojá-lo – sem no entanto perder nunca de vista o rigor e o carácter científico da análise – de algum peso excessivamente académico e de uma linguagem técnica demasiado complexa que, na minha perspectiva, têm sido dois dos principais motivos para o afastamento entre a História e o grande público.


Que reacções teve ao seu último livro, "De Ourique a Aljubarrota – A Guerra na Idade Média"?
As reacções, tenho que reconhecer, suplantaram as minhas expectativas iniciais. A forma como o livro foi acolhido, tanto pelos especialistas, quanto pelo grande público e o eco que teve nos meios de comunicação social foram, sem dúvida, sinais de que a missão a que me tinha proposto havia sido inteiramente cumprida. Estou também convicto que, comercialmente, se tratou de uma aposta ganha pela Esfera dos Livros, pois de outro modo não me teriam lançado o desafio para este “Guerreiros Medievais Portugueses”.

Acha que os nossos guerreiros medievais continuam a ser vistos como um exemplo nos nossos dias?
Uma das funções da História é a de nos ajudar a compreender o presente e a entender quais os caminhos do futuro e as opções que se nos colocam, como indivíduos, mas também como povo, pelo que tanto as derrotas quanto as vitórias destes homens – e não apenas as militares – devem ser lidas também como lições, como avisos e, em alguns casos, como exemplos a seguir, ou não.

sábado, 20 de agosto de 2011

Entrevista com Miguel Gomes Martins

Miguel Gomes Martins, historiador especializado em História militar e da Idade Média, publicou recentemente o excelente livro “De Ourique a Aljubarrota. A Guerra na Idade Média”. Com uma óptima base científica e escrita num estilo acessível, é uma obra de divulgação destinada ao crescente público interessado na História do período em que Portugal nasceu e se afirmou. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo».

Como surgiu a ideia de fazer este livro?
Foi uma proposta da Esfera dos Livros, que foi justamente fazer um livro que fosse perceptível por boa parte dos leitores e não apenas pelos habituais especialistas. Vemos a profusão de romances históricos que começam a aparecer, alguns até de autores portugueses, a tratar questões e temas relacionados com a Idade Média, o que significa que há um público interessado. A ideia foi tentar alcançar esse público.

Os seus trabalhos têm incidido especialmente sobre a História Militar Medieval. Porquê o interesse na guerra?
Talvez tenha lido cedo demais, muito novo, as aventuras do Ivanhoe e seguido de forma muito intensa as séries do Robin Hood. Juntamente com outro tipo de leituras e de influências, nomeadamente dos meus avôs, com gostos diferentes, um mais virado para a História da guerra, porque era militar, e o outro para a História propriamente dita.

Acha que hoje se perdeu a ideia que a guerra é algo que faz parte da relação entre os povos?
Eu creio na ideia de que o objectivo da humanidade deverá sempre tentar alcançar a paz. Quando estudo a guerra procuro tentar conhecê-la. Como dizia o general Themudo Barata, nós não podemos combater um mal, sem o estudarmos. Acho que o conhecimento da guerra pode permitir-nos ajudar a alcançar a paz. Ainda que seja uma situação de paz transitória.

Tem surgido um crescente interesse do público no tema da guerra. Será que as pessoas procuram algo que pensam que já não existe?
Não me parece. Acho que tem que ver, sobretudo, com a influência que o cinema tem tido ultimamente na população, se virmos a espectacularidade que a guerra tem. Porque a guerra é um fenómeno espectacular, independentemente de todas as suas consequências nefastas.

Para além do espectáculo, não lhe parece que as pessoas procuram os valores que aí são exaltados?
Não sei. Acho que, se as pessoas procuram esse tipo de ideais, procuram-nos quase como uma relíquia, que está perdida no tempo. Analisam-nos e observam-nos com uma grande distância.

Também a curiosidade pela Idade Média tem vindo a aumentar. Como comenta?
Não consigo encontrar uma explicação. Durante vários anos, porque interessava ao regime, o período de excelência da História de Portugal foi o dos Descobrimentos. Isso levou a que os outros períodos fossem um pouco preteridos em termos de estudo e de divulgação. Creio que esta recuperação da Idade Média tem que ver com algum cansaço em relação a outros períodos.

Acha que já saímos da ideia de que foi uma “idade das trevas”?
Acho que sim. Estamos já a passar ao patamar seguinte, em que se trata de um período histórico como qualquer outro. Também o papel das Universidades tem sido fundamental.

Acha que os portugueses procuram aí uma identidade?
Em termos exclusivamente territoriais, sim. Portugal tem as suas fronteiras praticamente definidas e com os mesmos limites que tem hoje desde finais do século XIII. Com o Tratado de Alcanices, as fronteiras ficam praticamente definidas e são, para todos os efeitos, as fronteiras mais antigas da Europa. Se quisermos ir procurar aí algum elemento de identidade, vamos encontrá-lo na Idade Média. Se quisermos encontrar a formação de Portugal enquanto reino, é aí que vamos encontrar. Também a afirmação do português e a sua institucionalização como língua oficial ocorre em finais do século XIII, com D. Dinis. Há aí, portanto, elementos identitários que surgem, que se afirmam e se consolidam.

Diz na nota prévia que as balizas históricas deste seu trabalho – a Batalha de Ourique e a de Aljubarrota – lhe surgiram de forma “natural”. Porquê?
Pela carga simbólica e porque têm uma importância prática de definir momentos históricos na Idade Média. Ourique é a batalha que faz um rei. Aljubarrota fecha um ciclo. É, talvez, o início de Portugal em guerra e o fim de Portugal em guerra na Península Ibérica.

Como foi o processo de selecção das batalhas?
Não foi fácil. Tinha um leque de vinte e tal episódios para os quais havia estudos, documentação e fontes. Tinha, obviamente, que analisar episódios que estivessem suficientemente documentados para não entrar na área da especulação, o que não era o meu objectivo. Esse, foi sempre alicerçar em fontes narrativas e documentais, e nalguns casos arqueológicas, toda a minha análise.

E quanto ao resultado?
A determinada altura, comecei a olhar para o que tinha e só tinha vitórias portuguesas ou semi-empates. Comecei a perceber que as fontes portuguesas estão um pouco inquinadas, pois as derrotas estão escamoteadas. Nesse sentido, a inserção de uma derrota clara, que foi o cerco de Almada, foi quase posta “a ferros”.

Mas deixa antever a possibilidade de um outro livro que trate outras batalhas...
Vai depender da editora. Da minha parte tenho já alguns episódios seleccionados, que me sobraram, digamos assim, deste livro. Gostaria de ter analisado outros, como o cerco de Silves, a batalha de Valverde, ou a batalha de Atoleiros.

Opta pela análise da chamada “guerra total”. O que é?
Estudar apenas as batalhas e numa perspectiva exclusivamente táctica acabou por ser nefasto para a História militar. Actualmente procuramos abranger questões como o político, o social e o económico. Acho que é fundamental para se perceber como era organizada a guerra, perceber questões como o financiamento, a fiscalidade, a organização social do reino, as linhas de penetração, a geografia. É isso que é a História da guerra total, onde se procuram focar todas as questões ligadas directamente à guerra e não apenas as questões de natureza meramente táctica. Cada vez mais os historiadores que fazem História Militar estão conscientes desta necessidade, porque a guerra é um fenómeno dos mais completos, que envolve tudo.

Os exércitos medievais eram provisórios e heterogéneos. É algo que torna a guerra mais fascinante neste período?
Isso obriga-nos a repensar a guerra na Idade Média e pô-la num patamar diferente da guerra no período clássico ou moderno. O facto de não haver exércitos permanentes, um financiamento exclusivamente dirigido para a organização e a prática da guerra, ou rotinas de combate entre os guerreiros, condiciona claramente o tipo de guerra que é praticado. Impossibilita, por exemplo, a condução de campanhas demasiado longas. O tipo de estratégia que é usado na Reconquista é uma estratégia de guerra de desgaste, que vai tentar depauperar os recursos do inimigo. Uma guerra que D. Nuno Álvares Pereira chamava “a guerra guerreada”.

Porque as batalhas não eram habituais...
A fraca ocorrência de batalhas tem que ver com a consciência que os comandantes militares têm de que uma batalha pode ser decisiva e que pode ditar o destino, eventualmente, de um reino. Não são muitas as batalhas decisivas, mas por exemplo no caso de Aljubarrota se a hoste anglo-portuguesa tivesse sido derrotada, provavelmente estaríamos a falar castelhano. Por isso, há sempre relutância em dar batalha quando o inimigo apresenta o desafio, porque este se sente em vantagem. A batalha é assim, por isso mesmo, algo bastante episódico.

Apesar do antecedente clássico do cavalo de Tróia, é nesta época que se vivem verdadeiras “operações especiais”.
Esse tipo de “operações de comandos”, chamemos-lhe assim, era muito frequente. Foi o caso da conquista de Santarém, ou o caso do Geraldo Sem Pavor, que era especialista neste tipo de guerra, fazendo operações durante a noite ou com condições atmosféricas adversas.

E quanto dimensão dos exércitos medievais? Ao nossos olhos parecem muito pequenos...
E são, para todos os efeitos. Por exemplo, em Aljubarrota, são dez mil homens. Às vezes, com os meus alunos, digo-lhes para olharem para o estádio da Luz, por exemplo, e dividirem em quatro ou em cinco para terem a noção. Porque por vezes é difícil imaginarmos o que são dez ou quinze mil homens.

A Reconquista foi uma “aventura nacional”? A génese do país em que nos tornámos?
Não lhe chamaria nacional, porque o conceito de nação não surge nessa altura. Dizer que foi uma aventura que envolveu todo o reino, também seria excessivo, porque envolve diferentes sectores do reino em diferentes momentos. Agora, não me parece que haja uma noção, em todo o espaço do reino português de que há um projecto de Reconquista. Mas, por exemplo, para D. Afonso III, foi um objectivo para reunificar a nobreza desavinda a seguir à guerra civil.

O que levava o homem medieval a combater?
Variava, mas uma coisa é certa: a guerra é uma actividade económica rentável. Há uma economia de guerra que gera grandes fortunas. Não só através da pilhagem e dos resgates, mas também com tudo o que isso envolve, o abastecimento dos exércitos, a manufactura de armamentos, o comércio de cavalos. Mas é óbvio que o dinheiro e a economia não são os únicos motores da guerra na Idade Média. A manutenção da independência é um grande motor, por exemplo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Guerra total no Portugal medieval

O “tempo dos cavaleiros” preenche o imaginário de muitos de nós, para alem de se reportar exactamente ao período em que nasceu e cresceu Portugal. Muitas vezes refém de episódios mitificados ou caído no desinteresse pela desconstrução que de tudo duvida, o conhecimento da Idade Média está normalmente afastado dos crescentes interessados na História.

Publicado pela Esfera dos Livros, “De Ourique a Aljubarrota. A Guerra na Idade Média” (brochado, 436 páginas, 25 euros) abre claramente essas portas. Escrito num estilo acessível, que se lê quase como um romance histórico, não deixa por isso de ser um excelente trabalho de divulgação, baseado em fontes e na historiografia de referência. Não se restringindo aos aspectos estratégicos e tácticos, o autor opta pela perspectiva da “guerra total”, permitindo conhecer as alterações profundas que este acontecimento extremo provoca na sociedade daquela altura. Para tal, escolheu quinze batalhas – balizadas temporalmente por duas de elevada carga simbólica –, divididas em capítulos, que se iniciam com uma infografia auxiliar, nos quais analisa os antecedentes, os actores, os palcos, o confronto e as suas consequências.

Depois de um extenso período de investigação e produção científica, Miguel Gomes Martins deve ser um exemplo para tantos historiadores que nunca vêem o seu trabalho de investigação chegar ao grande público, pelo hermetismo do registo académico. Este é um livro para ler, reler e despertar a curiosidade para um período tão importante da nossa História e amiúde bastante desconhecido.

Recensão publicada na edição desta semana de «O Diabo».