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domingo, 7 de maio de 2017

Submissão


No dia da vitória de Emmanuel Macron, é de recordar uma passagem de "Submissão", o romance assustadoramente premonitório de Michel Houellebecq:

"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Extensão do Domínio da Luta


Aqui fica a imagem da capa da edição portuguesa de "Extensão do Domínio da Luta", o primeiro romance de Michel Houellebecq, de 1996, do qual citei uma passagem aqui. Foi publicado entre nós em 2006, pela Quasi edições, com tradução de Paula Lourenço.

Psicanálise

«No geral, não há nada a dizer sobre mulheres sujeitas a estas sessões. Uma mulher entregue às mãos de psicanalistas fica definitivamente impró­pria para uso, o que vim a constatar inúmeras vezes. Este fenómeno não deve ser considerado como um efeito secundário da psicanálise, mas sim como a causa principal. Sobre o pretexto da reconstrução do eu, os psicanalistas procedem na verdade a uma escandalosa destruição do ser humano. Inocência, generosidade, pureza... tudo isto é rapidamen­te triturado por entre essas mãos grosseiras. Os psicanalistas, regala­damente remunerados, pretensiosos e estúpidos, exterminam de modo conclusivo toda a aptidão para o amor nos seus pacientes, tanto mental como física; comportam-se com efeito como verdadeiros inimigos da humanidade. Impiedosa escola de egoísmo, a psicanálise está apetrecha­da com o maior dos cinismos à conta das corajosas raparigas miseráveis para as transformar em ignóbeis parvalhonas de egocentrismo delirante, que pode apenas suscitar a mais profunda agonia. Não se deve confiar, qualquer que seja o caso, numa mulher que tenha passado pelas mãos de um psicanalista. A mesquinhez, o egoísmo, o disparate arrogante, a completa falta de sentido moral, a incapacidade crónica de amar: eis o retrato exaustivo de uma mulher “psicanalizada”.»

Michel Houellebecq
in “Extensão do Domínio da Luta”.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Plataforma


A propósito dos karens, lembrei-me do livro muito recomendável de Michel Houellebecq, "Plataforma", publicado entre nós pela Bertrand, em 2002, com uma capa inenarrável. Esta foi uma obra de sucesso e bastante polémica, não só pelo estilo provocador do autor, mas pelas considerações "politicamente incorrectas" sobre o islão e o seu impacto nas sociedades ocidentais, escritas antes do 11 de Setembro.

Voltando ao povo Karen, há uma passagem que o refere durante uma viagem turística da personagem principal à Tailândia. Aqui fica o excerto: "A região fronteiriça que íamos percorrer agora era parcialmente povoada por refugiados da Birmânia, de origem karen; mas não havia problema. Segundo ela, Karens muito corajosos, crianças boas alunas, tudo bem. Não tinham semelhança com algumas tribos do Norte, com quem, aliás, não nos iríamos cruzar durante a excursão; na opinião dela, não perdíamos grande coisa. Em especial no caso dos Akkhas, relativamente a quem parecia ter uma certa má vontade. Apesar dos esforços do governo, mostravam-se incapazes de abdicar do cultivo da papoila de ópio, a sua actividade tradicional. Eram vagamente animistas e comiam cães. Akkhas maus, acrescentou Sôn energicamente: só cultivar papoilas e apanhar frutos, sabem fazer nada; filhos alunos maus na escola. Com eles muito dinheiro gasto, resultado nenhum. São grande nulidade, conclui ela finalmente, dando mostras de um belo poder de síntese.
Quando cheguei ao hotel observei com atenção estes famosos karens, afadigados à beira do rio. Vistos de perto, isto é a uma distância em que não era preciso levar pistola-metralhadora, não tinham um ar nada mau; o aspecto mais evidente era a sua adoração por elefantes. Tomar banho no rio e esfregar o dorso dos elefantes, parecia ser a sua maior alegria. É verdade que não se tratava de rebeldes karens mas sim de karens vulgares - justamente aqueles que tinham fugido das zonas de combate, fartos daquilo tudo, a causa da independência passava-lhes completamente ao lado."