"La Voie Stratégique" é uma nova revista francesa que fiquei a conhecer através da crónica cultural da emissão do programa de rádio Libre Journal des Lycéens, feita pelo meu amigo Pascal Lassalle.
Fiquei curioso e nesta minha recente ida a Paris consegui comprá-la. Este primeiro número tem um excelente dossier dedicado ao Afeganistão e vários artigos e entrevistas. Dirigida por Guillaume Martins, a revista tem como chefe de redacção Laurent Schang, autor do blog Le Polémarque.
Para ficar a conhecer melhor a revista, está disponível em linha um extracto deste número em pdf, com boa qualidade. O número 2 sairá no próximo dia 13 de Novembro e pode ser adquirido directamente na LVS Shop.
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010
segunda-feira, 3 de abril de 2006
Entrevista com Jean Mabire — Reflexões sobre o «Aventureiro» (II)
No seu livro “La Torche et le Glaive”, escreve estas palavras soberbas: «Escrever para mim não é um prazer nem um privilégio. É um trabalho como outro. Redigir um artigo ou distribuir folhetos são actos do mesmo valor (...) Escrever deve ser um jogo perigoso. É a única nobreza do escritor, a sua única maneira de participar nas lutas da vida». Ora, ao reler Dominique de Roux, qual não foi a surpresa de encontrar palavras semelhantes e escritas quase na mesma altura: «Neste últimos anos, compreendi o seguinte: a literatura e a acção revolucionária directa são, as duas, modalidades de aproximação à morte (...) É através da morte que a literatura se torna acção revolucionária e é pela morte que a acção revolucionária encontra a literatura». Não parece hoje usurpador ver nele um aventureiro das letras.Com estas confidências, e com o risco de nos repetirmos, a aventura do próximo século não será mais interior? Entendida pela atitude que podemos qualificar de “Torna-te aquilo que és”. Não é esse no final o objectivo superior destinado à literatura, como os seus escritos nos deixam a pensar?
JM: Em primeiro lugar, não tenhamos muitas ilusões, nós os escritores, sobre a importância destas “aventuras” que são os nossos livros. Não sabemos bem que uso lhes darão os nossos leitores. Assim a influência de um Barrès parecia-nos ontem surpreendente e hoje inacreditável.
Sou de uma geração marcada com um ferro em brasa por Montherland e Malraux. Devo dizer que Sartre e Camus me pareceram de seguida de um enfado tremendo. Voltámos à literatura “fim de século” com o estetismo mediterrânico e o intelectualismo dreyfusiano.
O contra-ataque dos “Hussardos” pareceu-me menos pertinente que o dos rapazes da fornada seguinte, especialmente Dominique de Roux e Jean-Edern Hallier. Devemos juntar Jean-René Huguenin e Jean de Brem, mas morreram muito cedo.
Há que falar na morte. Dominique como Jean-Edern tinham esse fascínio, a presciência. É uma reflexão que não vem apenas com a idade. Aqui, mais uma vez, encontramos Malraux. A ideia trágica da vida. Põe de seguida uma espécie de oposição entre “acção interior” e “acção exerior”. Há aí uma tentação: a via real Guénon/Evola. Ela interessa-me, mas é um caminho que não me atrai muito. Sou mais fascinado, na mesma ordem de espírito, pela dialéctica paz/guerra. Digamos Giono/Malraux (sempre ele). Nietzsche pressentiu tudo isto muito bem. A tentação da torre de marfim choca com a brutal afirmação de que a rua pertence àquele que a desce.
É evidente que para um escritor, o acto de escrever é interior e o acto de publicar exterior. Duas aventuras estritamente complementares. Parece-me que faz alusão à “política”. Tanto a sua versão política e politiqueira me é totalmente estranha, tanto a saída da cidade, da minha pátria carnal na Europa, não deixou de me atormentar. Daqui, uma reflexão sobre o Estado, no qual o fim deve ser o de “fortificar” o povo e não o de servir uma ideologia.
Sempre no mesmo registo, mas outra aventura também intrinsecamente vivida desde há quase cinquenta anos, o envolvimento federalista, que combina no mesmo carácter absoluto o europeísmo e a defesa das identidades carnais. Diz no Manifesto pelo renascimento da cultura normanda que a cultura francesa apenas será salva pelo seu retorno às origens nas suas tradições regionais e a sua abertura à Europa das letras. Pode precisar?
JM: A identidade de um povo é tanto o seu espírito como a sua carne. É por isso que o “cultural primeiro” me parece mais decisivo que o famoso “político primeiro” de Maurras. Na verdade, eu não nego a visão política. Mas eu situo-a fora das múltiplas e nefastas contingências actuais. Para mim, tudo se resume na dialética, digamos antes o confronto, entre estas duas entidades, não-contraditórias mas complementares, que é o Império, ou seja a Europa, e os povos que não se confundem certamente com os estados-nações existentes.
A Europa, se quer preservar a sua identidade e afirmar-se em relação ao resto do mundo, quer dizer resistente em primeiro lugar e antes de tudo ao imperialismo americano, deve ser antes de tudo una e diversa.
Una politicamente, militarmente, diplomaticamente, economicamente. Mas diversa culturalmente. É por isso que a França só tem significado ao assegurar em primeiro lugar o que a Plêiade chamava “a defesa e ilustração da língua francesa”. Neste domínio, o papel da Valónia como o da Suíça românica é capital, mesmo se estas duas entidades exaltem o desprezo do parisianismo mais estéril.
Esta cultura francesa, encarnada numa língua, só poderá encontrar alguma ao integrar todas as suas especificidades regionais.
Não falo aqui das línguas ditas “minoritárias”, bretão, flamengo, alemão, corso, catalão, basco, occitano, mas também dos diferentes dialectos de Oil, como do que chamamos o “francês regional”, que varia segundo as províncias e os costumes.
A actual promoção da “linguagem dos subúrbios” leva a um terrível empobrecimento, entre outros factores pelo emprego do “verlan”[1], que é contrário de uma criação para se tornar uma mecânica.
Manter a linguagem escrita contra a linguagem falada é um dos aspectos da guerra cultural. Isto choca certamente na modernidade que conhecerá em breve uma espécie de francês básico muito análogo ao que é o americano em relação à língua de Shakespeare.
Esta atitude implica a preocupação com as “humanidades” como se dizia em tempos, ou seja o conhecimento do grego e do latim. Devemos aí juntar, para as pátrias carnais respeitantes, uma certa conivência com as suas raízes mais profundas. Ou seja, na Normandia, por exemplo, as noções elementares sobre o modo nórdico primitivo que nos permitirá manter a ligação com a nossa cultura mais antiga.
E porque para si a aventura continua, pode, para os leitores de «Nouvelles de Synergies Européennes», indicar-nos algumas pistas de leitura...
JM: Não tenho de momento o projecto de escrever um grande documento sobre a Segunda Guerra Mundial, apesar de estar longe de terminar com o vasto panorama dos “corpos de elite”, começado há quase trinta anos na editora Balland. Falte-me escrever dois volumes da História dos voluntários franceses na frente Leste: 1943 e 1944. Espero que o meu amigo Eric Lefèvre me forneça como fez no passado, os documentos necessários à evocação dessa aventura. Deixo a outros o encargo de evocar as motivações e os combates dos voluntários bálticos, ucranianos ou húngaros. Isso exigir-me-ia muito tempo em pesquisas e traduções.
Depois de Béring e Amundsen, tinha o desejo de fazer reviver outros exploradores polares como o sueco Nordenskjöld e o dinamarquês Rasmussen. Mas o mercado do livro e a falta de curiosidade do público são tais que não considero lançar-me nessas aventuras. Agora, concentro-me nas minhas crónicas de “Que lire?”. O volume 6 está terminado e deve sair no fim deste ano. Já vou em mais de 450 escritores e faltam-me cerca de duzentos autores que considero indispensável tratar.
Tenho também a intenção de dedicar um livro a esse mistério que é a permanência da Normandia desde há onze séculos. O meu projecto de uma gigantesca História dos escritores normandos, em vários volumes, continua neste momento num estado de notas e fichas, falta encontrar um editor suficientemente ousado.
Quanto ao romance sobre a última guerra sobre o qual tenho a ideia há mais de meio século, será talvez reduzido a uma simples novela.
Da parte da redacção, Jean Mabire, obrigado.
[1] N. do T.: tipo de calão que consiste na inversão das sílabas de certas palavras.
domingo, 2 de abril de 2006
Entrevista com Jean Mabire — Reflexões sobre o «Aventureiro» (I)
Traduzi recentemente uma entrevista com Jean Mabire, feita por Laurent Schang para a revista «Nouvelles de Synergies Européennes», para publicação numa página de internet galega, ainda em construção. O seu recente falecimento justifica que eu antecipe aqui a publicação dessa excelente conversa, que dividi em duas partes: a primeira em baixo e a segunda noutro post, que publicarei amanhã.
Jean Mabire quaisquer que sejam os domínios que tenha abordado nos seus noventa e poucos volumes publicados até hoje (170, aliás, como nos disse Jean Mabire na carta que acompanhou as suas respostas), dos SS franceses aos 55 dias de Pequim, de Amundsen à História da Normandia, sempre entre linhas, quando não em evidência, uma ideia recorrente, melhor dito, uma certa definição do homem, na qual os valores podem resumir-se numa palavra: a aventura.
Jean Hohbarr não se enganou, no que escreveu num número do “Français”: «Mabire reconhece-o, ele não considera a literatura um género “neutro”, mas antes como a expressão de uma visão do mundo». A isso não é estranho, sem dúvida, o sangue viking que corre nas suas veias de normando.
Ainda é assim hoje, a aventura parece definitivamente ser algo do domínio do passado, na altura do ditadura dos media e da fotografia por satélite. A conquista do espaço, o mercenarismo ou a façanha desportiva (ou a luta contra a Sida segundo alguns) serão as últimas formas de aventura abertas ao homem de amanhã?
Jean Mabire: Quando Ernst von Salomon, esse aventureiro-tipo do nosso século, se viu obrigado, depois da derrota do seu país, a responder a um questionário, necessitou de 650 páginas para o fazer, o que lhe permitiu noutro lugar escrever o seu melhor livro.
Apercebemo-nos então que ele nunca havia deixado de se pôr em cena a ele mesmo e que tinha ao longo de toda a sua vida misturado a sua bibliografia e a sua biografia. Esse não é o meu caso. Eu interesso-me bem mais pelas minhas personagens — imaginadas ou reconstituídas — que comigo próprio. E bem mais, talvez, pelos meus leitores do que pelas minhas personagens.
Na verdade, os meus “heróis” vivem uma aventura, começando pelo muito singular Roman Feodorovitch von Ungern-Sternberg, caso extremo, se é que ele o foi. Penso todavia que o termo aventureiro não lhe convém muito. Prefiro o termo militante. Ou, se quisermos, o de “soldado político”, expressão inventada, creio, por Ernst Roehm, que não é o menos singular de todos os meus assuntos e que tem a vantagem de ser mais verídico que romântico, daí o lado bastante “instrutivo” do livro que eu lhe dediquei.
Já que me fala de aventureiro, creio que é necessário recordar um ensaio (tão importante que dediquei ao seu autor uma crónica inteira no “Que lire?”)
Trata-se do “Portrait de l’aventurier” de Roger Stéphane. Sabemos que ele aí evoca três homens fora do comum: Lawrence da Arábia, André Malraux e o indispensável von Salomon. Este pequeno livro, publicado em 1950 e recentemente reeditado, é precedido de um estudo muito esclarecedor de Jean-Paul Sartre. São umas vinte páginas, mas parecem-me importantes para responder à sua pergunta. Sartre distingue muito bem: «Aventureiro ou militante: não acredito neste dilema. Sei perfeitamente que um acto tem duas faces: a negatividade, que é aventureira, e a construção que é disciplina. É preciso restabelecer a negatividade, a inquietude e a autocrítica na disciplina».
Numa famosa querela, com quase meio século, sinto-me mais próximo de Sartre que destes “Hussardos” que incomodavam o pesado comboio da literatura contemporânea.
Acredito, por outro lado, que há uma simplificação abusiva na oposição de aventureiro da acção e aventureiro do sonho. Drieu la Rochelle compreendeu-o tão bem, que se recusou encarcerar a aventura no irrisório da gratuidade. Se falarmos de vela, o amador pode revelar-se tão aventureiro como o navegador de competição. E vice-versa. Moilessier-Tabarly.
O oposto do aventureiro? É o burguês. Veja-se Flaubert que disse tudo, no fundo. O campo é vasto, infinito mesmo, incluindo a “boca” de Péguy que pretendia que os pais de família seriam os aventureiros do seu século.
Sobre a literatura como “visão do mundo”, quero ainda citar Drieu. Descobri recentemente um artigo de 20 de Fevereiro de 1932: «Não é possível a ninguém escrever uma linha que, a algum propósito, seja neutra. Um escrito terá sempre um significado político, tal como um significado sexual ou religioso».
Não, a aventura não é o passado. Acredite, viveremos ainda mais perigosamente no século XXI.
Pierre Mac Orlan, no seu famoso “Petit manuel du parfait aventurier”(Pequeno manual do perfeito aventureiro) dava ênfase ao paradoxo do aventureiro, ou seja, que este não existe, que não passa da recreação a posteriori, mineralização pseudo-mitológica por uma sociedade burguesa ávida de sonhos e façanhas; e que, a contrario, este mesmo aventureiro não mostrava nos seus actos mais que crueldade, niilismo e cinismo, senão avidez. Estamos, parece-nos, a mil lugares da mensagem que difunde as suas obras, mais próximas de Jack London que de Lawrence da Arábia.
JM: Eu devia ter uma dúzia de anos quando tirei da biblioteca do meu pai esse pequeno manual de que fala e lembro-me de ter ficado muito desiludido. Bruscamente privado do meu imaginário de adolescente, alimentado pela Ilha do Tesouro de Stevenson e dos Corsários do Rei de t’Serstevens. Daqui a minha posterior desconfiança em relação a Mac Orlan, mestre-desmistificador. Ele retirar-me-ia o desejo de ser um aventureiro. Eu tornar-me-ia, por reacção sem dúvida, militante.
Isto não retira nada ao sombrio fascínio dos cavalheiros da sorte. Mas eu identificava-me mais facilmente com Cyrano que com Olonnois ou Borgnefesse…
Ficar-me-ia sempre, do drama épico de Edmond Rostand, a opinião de que é bem mais belo quando é inútil... Esta sensação foi confortada pelo filme “A patrulha perdida” de John Ford, antes de encontrar o seu desenvolvimento com “O Deserto dos Tártaros” de Buzzati. Fui arrebatado pelo facto de que as batalhas fundadoras — essas aventuras exemplares — são sempre batalhas perdidas: Sidi Brahim, Camerone, El Alamo, Bazeilles, Berlim, Dien Bien Phu. Tal iria reforçar o meu pessimismo inato (sempre Flaubert, bem mais que Stendhal). Mas um pessimismo que incita mais à acção que ao sonho. Ver a esse respeito as sagas e Corneille.
No meu caso pessoal, o que foi arrebatador na guerra da Argélia em 1958-59, foi que eu sabia que ela estava perdida pelo exército no qual eu me batia. Voltamos a encontrar este sentimento a toda a força quando eu me juntei a Philippe Héduy e à equipa de “L ‘Esprit public” no fim de 1962.
Na idade das releituras, eu retomei La Bandera, La cavalière Elsa e mesmo Picardie, com um constante sentimento de mal-estar. A única trombeta a subsistir. A âncora da misericórdia.
É um facto que o romance de aventura não é mais que substituição. O leitor vive o que não é, revive mesmo o que não viveu. Fenómeno ao qual a televisão dá uma dimensão fascinante e onírica. “Fazemos” a guerra ou o amor por procuração em frente ao pequeno ecrã. Triunfo da ilusão absoluta.
O herói do seu último livro, Padraic Pearse (Patrick Pearse une vie pour l’Irlande, éditions Terre et Peuple), dá também essa impressão de oscilar entre o idealismo revolucionário e o mais negro niilismo, o amor dos homens e a fria determinação criminal. Um pouco como Ungern antes dele, e isso, numa perspectiva muito próxima dos Conquistadores de Malraux.JM: Esse lado niilista e mesmo suicida de Patrick Pearse tem sido muitas vezes realçado pelos seus adversários. Se retira essa impressão do meu livro, é porque falhei na minha exposição. Pois essa é uma. Esse pequeno ensaio descreve uma espécie de marcha inevitável que conduz um homem — que é um escritor, logo um artista — do combate cultural ao envolvimento político e desse envolvimento à luta armada. Uma outra dimensão de Pearse e não a menor, o seu papel de educador em Saint-Enda.
Estamos muito longe de um aventureiro, como seria depois dele, pelos traços do seu carácter, um homem como Michael Collins. Pearse parece-me a mais alta encarnação do “soldado político”. Ele vai cometer um acto louco, mas que lhe parece o único capaz de despertar o povo irlandês. Evocar “Os Conquistadores” a seu respeito parece-me muito esclarecedor.
Não esquecer também que este pequeno livro situa-se na mesma linha que a minha grande obra sobre os instigadores dos povos (Jahn, Mazzini, Mickiewicz, Petöfi e Grundtvig). Pearse bate-se na sua esteira e conjuga em si todos os aspectos das suas diversas personalidades: poeta, educador, militante, profeta, mártir…
Ungern escapava a esta espécie de “racionalização da loucura”. Ele era ao mesmo tempo mais louco e mais lúcido.
(Continua)
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