A contrastar com as revistas brasileiras medíocres que se vendem em Portugal, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” é uma publicação de qualidade que se dedica à divulgação histórica, mas que não está disponível nas bancas portuguesas. As nossas distribuidoras bem deviam rever o que importam do outro lado do Atlântico.
Centrada na História do Brasil, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” destaca-se das demais publicações brasileiras por não recorrer a traduções ou a modelos importados e por ter entre os redactores vários historiadores responsáveis pela investigação dos temas tratados.
Bem paginada com uma composição gráfica apelativa, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” conjuga os conteúdos com a boa apresentação, oferecendo aos leitores artigos acessíveis ao grande público.
A edição de Junho deste ano tem como tema central a obsessão da república brasileira pelos grandes eventos e faz a pergunta incómoda: “Quem paga a conta?” Na apresentação deste ‘dossier’, Bruno Garcia refere-se à realização do Campeonato do Mundo de Futebol no Brasil, afirmando que a “Copa mais cara do mundo reforça experiência brasileira de sediar grandes eventos para favorecer poucos”.
De seguida podemos ler o artigo do investigador português do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa José Pedro Zúquete sobre os “black blocs”, os elementos da esquerda radical que utilizam uma táctica descentralizada e sem hierarquia para protestar violentamente contra o capitalismo e a globalização corporativa.
Destaque para o artigo sobre Georgina de Albuquerque, uma das precursoras brasileiras da pintura impressionista, e o artigo sobre a tradução da poesia clássica, grega e latina, no Brasil, nomeadamente o papel do patriarca da tradução criativa, Manuel Odorico Mendes, que inspirou Haroldo de Campos. De referir ainda os artigos sobre a relação entre o poder político brasileiro e o futebol, de entre muitos outros, para além das secções habituais. Por fim, para os interessados, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” disponibiliza muitos dos seus artigos na Internet.
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segunda-feira, 21 de julho de 2014
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Chefes de Portugal
“Grandes Chefes da História de Portugal”, publicado pela Texto Editores, é um trabalho de mérito que abre novos caminhos na investigação histórica no nosso país. Coordenado por Ernesto Castro Leal, professor e investigador de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e José Pedro Zúquete, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, traz-nos uma perspectiva nova, numa abordagem diferente, de importantes figuras da nossa História.
Até um apaixonado pela História – como eu, que a escolhi como área de formação – dificilmente consegue suportar os “complexos histórico-geográficos” e “socioeconómicos” da historiografia marxista. Esta predilecção pelo papel das “massas” como “motor da História” impregnou o ensino com as consequências que sabemos. Afastou o grande público desta matéria tão importante para nos conhecermos enquanto Povo e só recentemente começámos a livrar-nos desse modelo.
O regresso da História narrativa e biográfica voltou a despertar nos portugueses o interesse pelo seu passado comum e pelos homens que construíram. Prova disso é o aumento exponencial de títulos disponíveis e as suas vendas expressivas.
“Grandes Chefes da História de Portugal” tem um título chamativo para o público, que o entende à primeira sem necessidade de explicações, e incómodo para os quadrilheiros do politicamente correcto. Sempre ciosos do seu ‘index’ de palavras proibidas, estes últimos consideram “chefe” como algo ultrapassado, quando não perigoso. Mas, como é explicado na Introdução, “a interpretação que os organizadores deste volume dão à palavra ‘chefe’ é neutra. Embora a palavra tenha sido apropriada, quer pela direita (como factor positivo), quer pela esquerda (como denunciação e crítica), neste volume ela é vista essencialmente como um instrumento analítico para ajudar à compreensão de dinâmicas históricas em Portugal”. É, de facto, o que acontece. Não se espere aqui um álbum de cromos com os heróis da Pátria.
Este é um trabalho original, que junta diversos académicos, que se expressam num registo acessível, que abre novas portas à investigação. Em entrevista a O DIABO, Ernesto Castro Leal explicou o objectivo da obra: “Pretendeu-se que os diversos autores, a partir de um chefe (individual, colectivo ou imaginário) com qualidades paradigmáticas, abordassem os tempos históricos concatenados à acção dos chefes. Não há dúvida que, pela abordagem pioneira de alguns chefes ou pela reinterpretação de outros chefes, com base em novos modelos de análise, este livro é um ‘lugar funcional de memória’ historiográfica com muita novidade, algumas análises surpreendentes e caminhos abertos para continuar.”
A crítica fácil seria questionar a escolha deste ou de aquele “chefe”, apontando supostas “faltas”. É claro que há “faltas”, nomeadamente daqueles que gostaríamos de ver tratados. Mas essa é talvez uma das maiores virtudes deste trabalho, porque garante uma continuação.
Aqui podemos encontrar capítulos dedicados a “chefes” que esperávamos, como o de José Almeida sobre Viriato. No entanto, este está longe de ser uma entrada enciclopédica ou um exercício laudatório. Trata-se, pelo contrário, de um exemplo de “investigação de ponta”, como o considerou Ernesto de Castro Leal, na apresentação do livro em Lisboa. Também D. Nuno Álvares Pereira é apontado como o “Chefe Militar”, por João Gouveia Monteiro, e São Francisco Xavier como o “Chefe Jesuíta”, por António Júlio Trigueiros.
Da mesma forma, encontramos “chefes” que nunca nos ocorreriam, como é o caso da própria Constituição, considerada como “chefe” por Paulo Ferreira da Cunha. Outros casos que demonstram originalidade de escolha e novidade dos temas são Pêro da Covilhã, considerado o “Chefe Aventureiro”, por António dos Santos Ventura, ou os capítulos dedicados ao “Chefe Luso-brasileiro” ou à “Chefe Feminista”, por exemplo.
Outros casos que merecem destaque são os do “Chefe na Extrema-Direita”, onde Riccardo Marchi analisa uma área política que tanto necessita de um chefe, mas que nunca o encontrou verdadeiramente. Também o capítulo dedicado a João de Castro Osório, o “Chefe Fascista”, da autoria de Eduardo Cintra Torres, aborda uma figura ainda muito desconhecida entre nós. O capítulo sobre Franco Nogueira, naturalmente escolhido como “Chefe Diplomático” por Bruno Cardoso Reis, apresenta uma abordagem interessante sobre o papel do Embaixador.
O livro conclui com o excelente texto de José Pedro Zúquete, dedicado ao “Chefe Imaginário”, sobre o Sebastianismo em Portugal. Uma análise cuidada que termina com uma reflexão muito importante: “Reconhecer o contributo histórico do Sebastianismo não é cair no sentimentalismo fácil. Pelo contrário. É fazer o mais difícil. É pensar Portugal como um todo, em vez de o pensar de costas voltadas, seja para a razão, seja para o mito.”
Até um apaixonado pela História – como eu, que a escolhi como área de formação – dificilmente consegue suportar os “complexos histórico-geográficos” e “socioeconómicos” da historiografia marxista. Esta predilecção pelo papel das “massas” como “motor da História” impregnou o ensino com as consequências que sabemos. Afastou o grande público desta matéria tão importante para nos conhecermos enquanto Povo e só recentemente começámos a livrar-nos desse modelo.
O regresso da História narrativa e biográfica voltou a despertar nos portugueses o interesse pelo seu passado comum e pelos homens que construíram. Prova disso é o aumento exponencial de títulos disponíveis e as suas vendas expressivas.
“Grandes Chefes da História de Portugal” tem um título chamativo para o público, que o entende à primeira sem necessidade de explicações, e incómodo para os quadrilheiros do politicamente correcto. Sempre ciosos do seu ‘index’ de palavras proibidas, estes últimos consideram “chefe” como algo ultrapassado, quando não perigoso. Mas, como é explicado na Introdução, “a interpretação que os organizadores deste volume dão à palavra ‘chefe’ é neutra. Embora a palavra tenha sido apropriada, quer pela direita (como factor positivo), quer pela esquerda (como denunciação e crítica), neste volume ela é vista essencialmente como um instrumento analítico para ajudar à compreensão de dinâmicas históricas em Portugal”. É, de facto, o que acontece. Não se espere aqui um álbum de cromos com os heróis da Pátria.
Este é um trabalho original, que junta diversos académicos, que se expressam num registo acessível, que abre novas portas à investigação. Em entrevista a O DIABO, Ernesto Castro Leal explicou o objectivo da obra: “Pretendeu-se que os diversos autores, a partir de um chefe (individual, colectivo ou imaginário) com qualidades paradigmáticas, abordassem os tempos históricos concatenados à acção dos chefes. Não há dúvida que, pela abordagem pioneira de alguns chefes ou pela reinterpretação de outros chefes, com base em novos modelos de análise, este livro é um ‘lugar funcional de memória’ historiográfica com muita novidade, algumas análises surpreendentes e caminhos abertos para continuar.”
A crítica fácil seria questionar a escolha deste ou de aquele “chefe”, apontando supostas “faltas”. É claro que há “faltas”, nomeadamente daqueles que gostaríamos de ver tratados. Mas essa é talvez uma das maiores virtudes deste trabalho, porque garante uma continuação.
Aqui podemos encontrar capítulos dedicados a “chefes” que esperávamos, como o de José Almeida sobre Viriato. No entanto, este está longe de ser uma entrada enciclopédica ou um exercício laudatório. Trata-se, pelo contrário, de um exemplo de “investigação de ponta”, como o considerou Ernesto de Castro Leal, na apresentação do livro em Lisboa. Também D. Nuno Álvares Pereira é apontado como o “Chefe Militar”, por João Gouveia Monteiro, e São Francisco Xavier como o “Chefe Jesuíta”, por António Júlio Trigueiros.
Da mesma forma, encontramos “chefes” que nunca nos ocorreriam, como é o caso da própria Constituição, considerada como “chefe” por Paulo Ferreira da Cunha. Outros casos que demonstram originalidade de escolha e novidade dos temas são Pêro da Covilhã, considerado o “Chefe Aventureiro”, por António dos Santos Ventura, ou os capítulos dedicados ao “Chefe Luso-brasileiro” ou à “Chefe Feminista”, por exemplo.
Outros casos que merecem destaque são os do “Chefe na Extrema-Direita”, onde Riccardo Marchi analisa uma área política que tanto necessita de um chefe, mas que nunca o encontrou verdadeiramente. Também o capítulo dedicado a João de Castro Osório, o “Chefe Fascista”, da autoria de Eduardo Cintra Torres, aborda uma figura ainda muito desconhecida entre nós. O capítulo sobre Franco Nogueira, naturalmente escolhido como “Chefe Diplomático” por Bruno Cardoso Reis, apresenta uma abordagem interessante sobre o papel do Embaixador.
O livro conclui com o excelente texto de José Pedro Zúquete, dedicado ao “Chefe Imaginário”, sobre o Sebastianismo em Portugal. Uma análise cuidada que termina com uma reflexão muito importante: “Reconhecer o contributo histórico do Sebastianismo não é cair no sentimentalismo fácil. Pelo contrário. É fazer o mais difícil. É pensar Portugal como um todo, em vez de o pensar de costas voltadas, seja para a razão, seja para o mito.”
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Fama e celebridade
Fama e celebridade estão hoje presentes em todo o lado. Podemos dizer que se tornaram a obsessão deste século. Para além do universo das revistas cor-de-rosa e de toda a explosão mediática a que hoje assistimos, eis uma obra séria, feita por académicos, mas acessível ao público em geral. Um olhar atento sobre um fenómeno que marca profundamente a sociedade actual.
“A Vida Como Um Filme: Fama e Celebridade No Século XXI” (brochado, 260 páginas, 11,99 euros), analisa o mundo das celebridades, vedetas e famosos nos mais variados campos. Da política à filosofia, passando pela televisão ou a imprensa tablóide e até pela música e o desporto. Com coordenação de Eduardo Cintra Torres, docente e investigador na Universidade Católica e crítico de televisão e ‘media’, e José Pedro Zúquete, politólogo e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, este livro junta uma dúzia de autores, provenientes de cinco países.
No primeiro capítulo, José Pedro Zúquete parte “Em busca do carisma perdido”, debruçando-se sobre a evolução e importância deste conceito, num excelente texto que o leva até Francisco Sá Carneiro, que considera “um herói português”, ilustrado com um ‘cartoon’ de Augusto Cid, publicado n’O Diabo, que termina com uma mensagem de esperança. Eduardo Cintra Torres analisa a televisão como o meio em que a celebridade está em “estado natural”, tocando em assuntos como a concorrência com a política ou a confusão do real e do fictício nos chamados ‘reality shows’. Podem ler-se ainda reflexões bastante interessantes sobre as celebridades e os jovens em Portugal, o dilema do fã e a experiência emocional da idolatria, bem como uma perspectiva filosófica sobre a fama e o tempo.
Sobre as realidades estrangeiras, há um capítulo sobre a “peopolização” política em França, um sobre a cultura da celebridade americana, outro sobre a celebridade na cultura dos tablóides populares britânicos, e ainda um sobre a revista “Caras” brasileira e a exposição da vida quotidiana dos famosos. Há, também, análises de casos concretos, como o do treinador de futebol José Mourinho ou o do músico norte-americano Bruce Springsteen.
Por fim, uma referência editorial. Por vontade dos autores, o livro respeita a ortografia anterior ao novo Acordo Ortográfico, mantendo a grafia original brasileira nos textos de autores brasileiros. Um belo exemplo de lusofonia – a seguir –, onde todos se entendem, sem necessidade de abastardar graficamente a nossa língua.
Um livro oportuno, bem estruturado e sustentado, que nos ajuda a compreender melhor o filme da vida moderna onde, como nos diz a Introdução, “muitos de nós, com mais ou menos intensidade, nos tornámos espectadores e actores”. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
“A Vida Como Um Filme: Fama e Celebridade No Século XXI” (brochado, 260 páginas, 11,99 euros), analisa o mundo das celebridades, vedetas e famosos nos mais variados campos. Da política à filosofia, passando pela televisão ou a imprensa tablóide e até pela música e o desporto. Com coordenação de Eduardo Cintra Torres, docente e investigador na Universidade Católica e crítico de televisão e ‘media’, e José Pedro Zúquete, politólogo e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, este livro junta uma dúzia de autores, provenientes de cinco países.
No primeiro capítulo, José Pedro Zúquete parte “Em busca do carisma perdido”, debruçando-se sobre a evolução e importância deste conceito, num excelente texto que o leva até Francisco Sá Carneiro, que considera “um herói português”, ilustrado com um ‘cartoon’ de Augusto Cid, publicado n’O Diabo, que termina com uma mensagem de esperança. Eduardo Cintra Torres analisa a televisão como o meio em que a celebridade está em “estado natural”, tocando em assuntos como a concorrência com a política ou a confusão do real e do fictício nos chamados ‘reality shows’. Podem ler-se ainda reflexões bastante interessantes sobre as celebridades e os jovens em Portugal, o dilema do fã e a experiência emocional da idolatria, bem como uma perspectiva filosófica sobre a fama e o tempo.
Sobre as realidades estrangeiras, há um capítulo sobre a “peopolização” política em França, um sobre a cultura da celebridade americana, outro sobre a celebridade na cultura dos tablóides populares britânicos, e ainda um sobre a revista “Caras” brasileira e a exposição da vida quotidiana dos famosos. Há, também, análises de casos concretos, como o do treinador de futebol José Mourinho ou o do músico norte-americano Bruce Springsteen.
Por fim, uma referência editorial. Por vontade dos autores, o livro respeita a ortografia anterior ao novo Acordo Ortográfico, mantendo a grafia original brasileira nos textos de autores brasileiros. Um belo exemplo de lusofonia – a seguir –, onde todos se entendem, sem necessidade de abastardar graficamente a nossa língua.
Um livro oportuno, bem estruturado e sustentado, que nos ajuda a compreender melhor o filme da vida moderna onde, como nos diz a Introdução, “muitos de nós, com mais ou menos intensidade, nos tornámos espectadores e actores”. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Comentário ao seminário sobre as direitas
| José Pedro Zúquete |
Não estando de acordo com a proposta de José Pedro Zúquete, reconheço que levanta um assunto de elevada importância que não deve ser descurado. Considero que a lusofonia é uma área de influência geopolítica natural de Portugal e que deve por nós ser utilizada na afirmação da nossa cultura e posição internacional. Mas nunca considerar que tal pode ser deixado a outros. Nunca pela lusofonia devemos submeter-nos a interesses alheios. Pelo contrário, ter sempre presente que a nossa gloriosa gesta lusa foi mais uma das projecções da Europa. Não podemos esquecer o poder e amplitude da forma como tocámos o mundo, mas o que não podemos mesmo fazer é esquecer o nosso país e o nosso povo em nome dessa projecção. [publicado na última edição de «O Diabo»]
Debater as Direitas
Decorreu nos passados dias 29 e 30 de Novembro, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, um seminário intitulado “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas” organizado pelo investigador Riccardo Marchi. Este italiano radicado em Portugal é autor de um estudo sério sobre as direitas radicais portuguesas de 1939 a 1974, o que era uma lacuna na nossa historiografia. Marchi decidiu investigar aprofundadamente o assunto e doutorou-se em História no ISCTE com a tese que deu origem a dois livros complementares: “Folhas Ultras. As ideias da direita radical portuguesa (1939-1950)”, publicado pelo ICS, tem por base a primeira parte do seu estudo; “Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)”, publicado pela Texto, é a parte central da sua tese.Razões de um seminário
Numa entrevista ao blogue Dissidente.info, questionado sobre as razões que o levaram a organizar este seminário, Marchi respondeu: “Quis reunir peritos de cada área específica das direitas que permitam desenhar um “fil rouge” desde o miguelismo contra-revolucionário até ao liberalismo dos nossos dias. Como é óbvio, não procuro uma lógica unívoca que conecte coerentemente tudo o que se moveu na direita em Portugal nos últimos 200 anos. Procuro sim identificar quais raízes afundam no terreno das ideias das direitas portuguesas e, a partir desta pluralidade, pretendo desvendar quais frutos produziram, se ainda são fecundas ou se, pelo contrário, secaram de vez. O intuito final dos dois dias será produzir uma colectânea com as contribuições dos oradores e de outros autores”.
Dois dias de trabalhos
Coube a Rui Ramos a abertura do seminário com a comunicação “As direitas na historiografia portuguesa” e a introdução não podia ter sido melhor. Há muito que este historiador tem denunciado uma oposição que se faz entre a esquerda e direita como se se tratasse do “bem” e do “mal”, perdoando-se os “excessos” das esquerdas e recriminando o mínimo deslize das direitas. Tal reflecte-se no campo historiográfico onde não devia acontecer. Segundo Rui Ramos, há uma cultura instalada que leva a que mesmo historiadores que não seguem necessariamente uma agenda política caiam nessas simplificações. Dos vários exemplos que deu, lembro aqui um: a chamada “ditadura de João Franco” é sempre considerada uma ditadura, por outro lado, o Governo Provisório de 1910, tecnicamente uma ditadura, nunca recebe essa designação e as suas medidas persecutórias são “compreendidas”.
Seguiram-se duas intervenções sobre o miguelismo “A reacção anti-liberal miguelista” de Maria Alexandre Lousada, e “A violência política no miguelismo” de Fátima Sá. Como se pode adivinhar pelos títulos das comunicações, estas centraram-se no “terror miguelista” que recordava, a espaços, as palavras iniciais de Rui Ramos.
Na tarde do primeiro dia falou José Manuel Quintas, sobre o “Integralismo Lusitano para além das etiquetas” e foi bastante interessante ouvir as origens desta experiência política e intelectual portuguesa por tantas vezes (propositadamente) mal tratada. O único defeito da sua comunicação foi a falta de tempo para assistir a tudo o que estava preparado. Seguiu-se a excelente intervenção de Ernesto Castro Leal, intitulada “As direitas revolucionárias na I República”, que se centrou em grupos menos conhecidos como a Acção Realista Portuguesa ou o Centro do Nacionalismo Lusitano, falando com clareza e demonstrando profundo conhecimento.
No segundo dia, duas intervenções a que O Diabo assistiu. Primeiro do cronista Henrique raposo que falou sobre “A Direita liberal no Portugal do Século XXI”, tentando demarcar o liberalismo do puramente económico, ao mesmo tempo que adiantou que várias das suas ideias, tão criticadas, estão a ser propostas pela própria União Europeia a vários estados devido à actual crise. Depois a comunicação de José Pedro Zúquete, “O Império contra-ataca: uma ideia antiga para as direitas do futuro”, que era sem dúvida a que tinha o melhor título de todo o seminário e prometia debate.
Ideias para o futuro
A José Pedro Zúquete, investigador a quem coube o primeiro artigo académico sobre o Partido Nacional Renovador (PNR), há que reconhecer a capacidade de estudo da chamada “extrema-direita”, em todas as suas complexidades, e a coragem de tentar propostas para o futuro, recusando a aposição confortável de observador não-interveniente.
Na sua participação neste seminário lembrou a importância da lusofonia na construção das direitas do futuro. Essa era a “ideia antiga” a que se referia o título da sua comunicação. Criticou o PNR por não a considerar, desejando boa sorte a quem tentar pesquisar o termo “lusofonia” no site deste partido nacionalista. Louvando, por outro lado, o Movimento Internacional Lusófono (MIL), disse que este era a expressão de uma ideia que não devemos desprezar. [publicado na última edição de «O Diabo»]
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