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sexta-feira, 1 de abril de 2016

O livro e a beleza



«Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram.»

Jorge Luis Borges
in "Biblioteca Pessoal"

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Jorge Luis Borges merecia uma homenagem digna


O estado do monumento a Jorge Luis Borges no Jardim do Arco do Cego, em Lisboa, coincide com o ponto de encontro para a embriaguez juvenil em que esta zona da capital se tornou. Infelizmente, a peça em questão, bastante feia, nunca foi capaz da merecida homenagem ao escritor argentino de ascendência portuguesa.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O mundo já não é mágico


Ontem falámos de Borges, sobre o seu último refúgio e sobre a sua poesia. Lembrei o poema a Camões, claro, e seguiu-se o dedicado aos Borges, os seus mayores portugueses. Mas o meu Amigo Carlos (que foi ao funeral dele!) recordou um que não me lembrava. É sobre a perda de um amor e aplica-se tão bem à presente época de desilusão... Cheguei a casa e não descansei enquanto não o (re)encontrei. Aqui fica, na versão original, tal como ele o recitou.

1964

I
Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
Ni los lentos jardines.
Ya no hay una Luna que no sea espejo del pasado,
Cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las cienes
Que acercaba el amor. Hoy solo tienes
La fiel memoria y los desiertos días.
Nadie pierde (repites vanamente)
Sino lo que no tiene y no ha tenido
Nunca, pero no basta ser valiente
Para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.

II
Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
Un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
Y aunque las horas son tan largas, una
Oscura maravilla nos acecha, la muerte,
ese otro mar, esa otra flecha
Que nos libra del sol y de la luna
Y del amor. La dicha que me diste
Y me quitaste debe ser borrada;
Lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
Esa vana costumbre que me inclina
Al sur, a cierta puerta, a cierta esquina

Jorge Luis Borges

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Elogio do imaginário


É este o tema do amplo ‘dossier’ que a revista francesa “Magazine Littéraire” deste mês dedica ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Dos vários artigos que lhe são dedicados, destaque para “O outro Senhor dos Anéis”, de Vincent Ferré, sobre o interesse de Borges pela mitologia nórdica, e”A Internet antes de tempo“, de Luc Vigier, que vê na “Biblioteca de Babel”, com todas as suas ligações e trocas, um admirável modelo para a Internet. Para além de outros artigos, inclui ainda uma cronologia, uma entrevista com Alberto Manguel, subordinada ao tema “O mundo como livro e o sagrado do leitor”, e cinco textos do próprio Borges.

Fora do ‘dossier’, referência para a interessante reflexão subordinada ao tema “Podemos aprender a emancipar-nos?” e a grande entrevista com o filósofo francês Michel Onfray. Destaque para o artigo sobre o nascimento da ‘Beat Generation’, concretamente sobre o romance escrito em 1945 por Jack Keruoac e William S. Burroughs, “And the Hippos Were Boiled in Their Tanks”, mas que só foi publicado pela primeira vez em 2008.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Biblioteca de Babel

O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: intermina­velmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altu­ra, que é a dos pisos, mal excede a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro, satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e se eleva a perder de vista. No saguão há um espelho, que fielmente du­plica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Bi­blioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que serviria esta dupli­cação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz provém de umas frutas esféricas que têm o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.

Tal como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, se calhar do catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não conseguem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela balaustrada; a minha sepultura será o ar insondável; o meu corpo precipitar-se-á longamente até se corromper e dissolver no vento gerado pela queda, que é infinita. Eu afirmo que a Biblioteca é interminável. Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circu­lar de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico e Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: «A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e cuja circunferên­cia é inacessível.» (...)


Jorge Luis Borges
in “Ficções”, 1944.