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quinta-feira, 20 de março de 2014

Os homens e as crises

É nos períodos mais conturbados que se destacam os mais capazes. Os líderes são exactamente aqueles que se elevam de entre os demais e se tornam um exemplo. Há também aqueles que se mantêm agarrados aos destroços flutuantes do navio, ao sabor das correntes, convencidos que o estão a comandar.

Infelizmente, estes últimos são sempre em maior número e o seu discurso, ainda que estafado, vai convencendo os que preferem a ilusão da mentira ao choque da realidade.

Vemos diariamente uma classe política medíocre, refém de interesses exteriores, que delapida o que é de todos e sobrecarrega uma população empobrecida, que não tem um projecto nacional. Governantes que apenas olham para o presente sem apontar para o futuro, aprendendo com o passado.

Mas este estado de coisas está longe de ser uma novidade – é aliás característico dos períodos de interregno. Neste fim de ciclo é de notar a actualidade das palavras de João Ameal sobre as crises e os homens: “Muitos dos grandes responsáveis dos tempos que correm, estonteados e desconcertados pelo ambiente da crise, de incerteza, de apreensão, mostram-se, de facto, incapazes de definir um pensamento claro e de manter uma linha de firmeza e de coerência. Fraquejam diante da tormenta que os cerca. Dia a dia, hora a hora, vemo-los oscilar, contradizer-se, desmentir-se. Não têm a coragem necessária para escapar à tirania de velhos mitos desacreditados, nem para traçar, entre os problemas e ameaças do momento o seu caminho. O drama europeu e universal a que assistimos resulta, sobretudo, dessa inferioridade dos grandes responsáveis: — competia-lhes impor-se aos acontecimentos e deixam-se afinal arrastar e dominar por eles...”

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A nossa grande pátria comum

Este reflexão do Eurico de Barros sobre a Europa, publicada num dos grandes diários portugueses, é, pela sua honestidade, sentimento, clareza, coragem e sustentação em sólidas referências, de antologia. Parabéns e um obrigado amigo.

«No livro de ensaios Europa e Seus Fantasmas, publicado em 1945, o historiador João Ameal escreveu: "O autómato desespiritualizado que nos querem impor hoje e se assemelha muito estranhamente a um robot - nada se parece com um europeu de qualquer época. Nega - ou renega - as tradições europeias. E se se 'deseuropeíza' o homem europeu, a Europa não se salva - perde-se."

Se João Ameal vivesse hoje, escreveria de certeza palavras bem mais alarmadas do que estas saídas da sua pena sob o impacto directo da II Guerra Mundial, que foi também, tal como a que a precedeu entre 1914 e 1918 (e esteve na sua origem directa), uma catastrófica guerra civil europeia, cujas consequências ainda hoje se sentem.

Aquilo a que Ameal chamou a "deseuropeização" do homem europeu tem vindo a acelerar-se nos últimos anos, à medida que se desatam lentamente os laços profundos que unem ainda a comunidade de povos europeus, que se atacam e se esbatem as identidades, tradições e especificidades que a formam, que se ameaça o património cultural e civilizacional partilhado que sustenta a ideia mesma de Europa. E que é a expressão da sua ancestral, convulsa, gloriosa e riquíssima história colectiva, da sua "personalidade metamórfica", como notou Guillaume Faye, e da alma e da memória dos seus povos.

O homem europeu corre assim o risco de ser substituído por essa abstracção descaracterizada, desnacionalizada e desmemoriada que é o "cidadão europeu", lamentável "lixo de teorias simpáticas", recorrendo à feliz expressão com que Fernando Pessoa caracterizou o socialismo e o comunismo (Pessoa que, recorde-se, deixou escrito na Mensagem que a Europa fita o Ocidente "e o rosto com que fita é Portugal").

Este europeu desenraizado, filho e representante de uma Europa cada vez mais alienada de si mesma, será a nova criatura robótica telecomandada dos centros de poder eurocráticos, com o alegre beneplácito e a prestimosa colaboração dos vários governos "nacionais" e das respectivas pseudo-elites, embriagadas pelo optimismo da vulgata da utopia "europeísta" que, tão certo como o Sol nascer e se pôr todos os dias, fará da Europa uma feliz, harmónica, lânguida e multicultural Cucuanha com sede em Bruxelas, de braços abertos a todos os que lhe quiserem pertencer e vierem por bem. Mesmo que nunca tenham tido absolutamente nada a ver com ela, e não faça o menor sentido geográfico, histórico, político ou cultural que nela se integrem.

O historiador francês Dominique Venner escreveu recentemente: "Não há futuro para quem não sabe de onde vem, para quem não tem a memória de um passado que o fez aquilo que é." Estas palavras encontram-se com as de João Ameal. Mas haverá ainda tempo e vontade para que a Europa, a nossa "grande Pátria comum", continue a sê-lo, e para fazer com que os europeus não esqueçam quem são, de onde vieram e aonde pertencem?
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Eurico de Barros
in "Diário de Notícias", 6 de Junho de 2009.

sábado, 18 de março de 2006

Livros de família

Ao percorrer com os olhos a nova disposição dos livros nas estantes do escritório de casa da minha mãe, instalado naquele que foi em tempos o meu quarto, reencontro, por entre inúmeros calhamaços de Direito, uma leitura de referência da minha adolescência. A “História da Europa” de João Ameal, dividida em três volumes sendo o primeiro subtitulado “Das primeiras Civilizações do Mediterrâneo às Invasões Germânicas”, o segundo “Da formação da Europa ao Tratado de Tordesilhas” e o último “De Vasco da Gama à Revolução Francesa” , é a única História da Europa feita por um autor português, tanto quanto sei. Conversei com a minha mãe sobre esta obra e disse-lhe que tencionava relê-la num futuro próximo. Sabendo, como não podia deixar de ser, da minha paixão pelos livros e pela História, decidiu oferecer-ma e enriquecer a minha biblioteca. Este post é uma homenagem à obra, um agradecimento pela oferta e a história de um livro herdado. Tenho vários outros que adquiri por via familiar, mas cujas histórias ficam para outra oportunidade.


Do Prefácio
Pareceu-me oportuno, quando tantas forças se conjugam para desfazer a Europa — piores ainda os venenos da demissão interna que os assaltos de inimigos externos! — indagar como a Europa se fez. (...)
Pareceu-me oportuno que se recordem, nesta hora de angústia, de batalha, de perigo, as grandes linhas da História da Europa. E que tal iniciativa pertença a um português. Mais ainda porque, nenhum português tentou a aventura. (...)
Há na presente obra o intuito de repor em termos de veracidade e de justiça o esforço do nosso Povo entre os Povos europeus. Quer isto dizer que nela se olha a Europa — como é natural e legítimo por ser um português a escrevê-la — sob o ângulo português. Trata-se de uma apologia? De modo nenhum. Trata-se de uma narrativa em que nunca se perde de vista, ou tendenciosamente se esconde, ou se diminui com acinte, tudo quanto, pelos séculos adiante, Portugal deu à Civilização Ocidental — dentro da qual nasceu, da qual constituiu e constitui uma das expressões mais fiéis e na qual tem chegado a ocupar, em determinados períodos, flagrante lugar de vanguarda. Nem mais, nem menos. Por isso acentuei há pouco ser desejável que um escritor português se votasse ao empreendimento de compor a História da Europa — uma vez que não pode ser integralmente conhecida a História da Europa desde que nela se não atribua o merecido relevo à grande presença e à considerável intervenção do homem português.

João Ameal
in “História da Europa”, Livraria Tavares Martins (Porto, 1961).