A experiência conclusiva do niilismo ensina a contrario que ser homem é ser de algum lado, pertencer a uma linhagem, a uma tradição, falar e pensar numa língua anterior a toda a memória, que recebemos sem o saber e que forma a percepção de modo definitivo. Ser homem é habitar um mundo e enraizar-se nele. As nossas raízes, os nossos laços ancestrais, os da cultura e dos valores, fazem-nos homens e mulheres reais, ligados à natureza, herdeiros sem mérito, dotados de uma identidade, mesmo quando a recusamos.
Para qualquer homem não desnaturado, o centro do mundo é o seu país, ou seja um território, um povo, uma história, uma cultura e a representações incomparáveis ou irreduzíveis a quaisquer outros. Este país é o efeito de uma escolha para aquele que está dividido entre várias origens. Maurice Barrès, chantre do enraizamento, era de uma família de Auvergne, mas quis-se loreno. As migrações da nossa época multiplicaram as “mestiçagens” de maior envergadura, o que não se passou sem dramas nem desgostos. Num dos seus livros, Jean Raspail evoca assim uma ilha das Antilhas onde foram eliminados os índios caribenhos, vítimas dos micróbios europeus e das mestiçagens com os antigos escravos negros. Todavia, certos mestiços em cujas veias ainda corriam algumas gotas de sangue caribenho, reclamam-se desta herança e, pateticamente, mantêm-na no coração. Podemos objectar que não basta querer-se caribenho para sê-lo. Pelo menos é-se qualquer coisa. E mesmo quando o suporte é imaginário, ajuda a viver.
Ajuda também a responder à questão fundamental entre todas: quem somos nós? A esta questão eterna, os homens e os povos respondem com aquilo que para eles mais conta. “Eles definem-se em termos de linhagem, de religião, de língua, de história, de valores.” [1]
Não é necessário opor-se aos outros para ser consciente de si próprio, se bem que nunca nos afirmamos tanto como quando nos opomos. Sentimos igualmente melhor o calor do clã se estivermos sob a ameaça de um inimigo. Supomos que este é tão necessário ao bem-estar moral como o amigo e não apenas para favorecer a manifestação de uma identidade. Podemos confiar na fortuna para prodigar tais benefícios. Os povos raramente vivem no isolamento, verdadeira condição da paz. Desde que se ladeiam os territórios étnicos, económicos ou espirituais, o conflito surge. E aí os homens raramente são mestres. É por isso que Homero imputava aos deuses a causa da guerra.
Dominique Venner
in "Histoire et Tradition des Européens – 30 000 ans d’identité"
[1] Samuel Huntington, O Choque das Civilizações. Este ensaio
chama a atenção para o novo fenómeno dos conflitos de civilizações que o
passado já conheceu em contextos diferentes, helenismo contra asiatismo,
Cristandade medieval contra o islão, etc. No entanto, não seguimos Huntington
na sua intenção de englobar os Estados Unidos da América e a Europa no seio da
mesma civilização “ocidental”, que definiria uma mesma ideia do direito, o que
ainda falta demonstrar. Historicamente, os Estados Unidos constituíram-se
contra a Europa e os seus valores. Representam uma utopia do desenraizamento
oposta ao enraizamento e ao espírito trágico da Europa. Para além de que
durante as duas grandes guerras do século XX, a participação dos Estados Unidos
foi ditada pela sua necessidade de impedir a constituição de uma potência
continental capaz de escapar a sua hegemonia comercial e marítima.








