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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Habitar um mundo e enraizar-se nele


Cabendo aos homens dar um sentido àquilo que não o teria sem eles, estes não são, do mesmo modo, dotados do poder de se eximir da sua existência específica. A utopia do “sujeito” pela razão, da emancipação dos laços e das normas, produziu os resultados brilhantes que sabemos. O individualismo moderno pretendia fazer do homem um ser autónomo, auto-suficiente, livre de qualquer vínculo cósmico, étnico, e mesmo sexual, um igual entre iguais. Vimos bem! Tendo perdido a protecção asseguradora das antigas comunidades e das antigas crenças, o indivíduo rei é mais cedo ou mais tarde tomado pelo pavor do vazio e da angústia. Refugia-se então nos estupefacientes do consumismo e na hipertrofia de um “eu” escravo dos seus desejos.

A experiência conclusiva do niilismo ensina a contrario que ser homem é ser de algum lado, pertencer a uma linhagem, a uma tradição, falar e pensar numa língua anterior a toda a memória, que recebemos sem o saber e que forma a percepção de modo definitivo. Ser homem é habitar um mundo e enraizar-se nele. As nossas raízes, os nossos laços ancestrais, os da cultura e dos valores, fazem-nos homens e mulheres reais, ligados à natureza, herdeiros sem mérito, dotados de uma identidade, mesmo quando a recusamos.

Para qualquer homem não desnaturado, o centro do mundo é o seu país, ou seja um território, um povo, uma história, uma cultura e a representações incomparáveis ou irreduzíveis a quaisquer outros. Este país é o efeito de uma escolha para aquele que está dividido entre várias origens. Maurice Barrès, chantre do enraizamento, era de uma família de Auvergne, mas quis-se loreno. As migrações da nossa época multiplicaram as “mestiçagens” de maior envergadura, o que não se passou sem dramas nem desgostos. Num dos seus livros, Jean Raspail evoca assim uma ilha das Antilhas onde foram eliminados os índios caribenhos, vítimas dos micróbios europeus e das mestiçagens com os antigos escravos negros. Todavia, certos mestiços em cujas veias ainda corriam algumas gotas de sangue caribenho, reclamam-se desta herança e, pateticamente, mantêm-na no coração. Podemos objectar que não basta querer-se caribenho para sê-lo. Pelo menos é-se qualquer coisa. E mesmo quando o suporte é imaginário, ajuda a viver.
Ajuda também a responder à questão fundamental entre todas: quem somos nós? A esta questão eterna, os homens e os povos respondem com aquilo que para eles mais conta. “Eles definem-se em termos de linhagem, de religião, de língua, de história, de valores.” [1]

Não é necessário opor-se aos outros para ser consciente de si próprio, se bem que nunca nos afirmamos tanto como quando nos opomos. Sentimos igualmente melhor o calor do clã se estivermos sob a ameaça de um inimigo. Supomos que este é tão necessário ao bem-estar moral como o amigo e não apenas para favorecer a manifestação de uma identidade. Podemos confiar na fortuna para prodigar tais benefícios. Os povos raramente vivem no isolamento, verdadeira condição da paz. Desde que se ladeiam os territórios étnicos, económicos ou espirituais, o conflito surge. E aí os homens raramente são mestres. É por isso que Homero imputava aos deuses a causa da guerra.

Dominique Venner
in "Histoire et Tradition des Européens – 30 000 ans d’identité"

[1] Samuel Huntington, O Choque das Civilizações. Este ensaio chama a atenção para o novo fenómeno dos conflitos de civilizações que o passado já conheceu em contextos diferentes, helenismo contra asiatismo, Cristandade medieval contra o islão, etc. No entanto, não seguimos Huntington na sua intenção de englobar os Estados Unidos da América e a Europa no seio da mesma civilização “ocidental”, que definiria uma mesma ideia do direito, o que ainda falta demonstrar. Historicamente, os Estados Unidos constituíram-se contra a Europa e os seus valores. Representam uma utopia do desenraizamento oposta ao enraizamento e ao espírito trágico da Europa. Para além de que durante as duas grandes guerras do século XX, a participação dos Estados Unidos foi ditada pela sua necessidade de impedir a constituição de uma potência continental capaz de escapar a sua hegemonia comercial e marítima.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

“A nossa civilização está em vias de desaparecer”


A frase acima traduz o essencial da entrevista concedida por Jean Raspail à revista francesa «Valeurs Actuelles», publicada na edição desta semana. Aqui fala sem rodeios da questão da imigração, alertando para a gravidade da situação, para a dissimulação do problema por parte dos políticos, no esgotamento do modelo de integração, na impossibilidade de assimilação dos imigrantes e nas soluções que a Europa tem para fazer face a estas migrações. Uma entrevista lúcida e corajosa, de leitura obrigatória.

Em 1973, saiu “Le Camp des Saints”, que seria traduzido e publicado em Portugal pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”, a sua obra mais famosa e polémica. Neste livro premonitório, Raspail imaginou a submersão da Europa por uma multidão de imigrantes do Terceiro Mundo. Como já escrevi, perante o que assistimos diariamente,“deixou de poder ser considerado ficção”.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

domingo, 16 de setembro de 2012

Sete Cavaleiros

A trilogia dos “Sete Cavaleiros” juntou dois grandes talentos: um grande romancista, Jean Raspail, e um grande autor de Banda Desenhada, Jacques Terpant. O resultado não podia ser melhor e os álbuns, de extraordinária qualidade e beleza, transportam-nos para um mundo trágico que é uma alegoria ao nosso.

Jean Raspail é um grande romancista francês e autor de uma extensa obra. Foi também explorador e viajou durante trinta anos conhecendo pequenas civilizações em vias de desaparecer. A sua obra mais famosa e mais polémica foi “Le Camp des Saints”, que seria traduzido e publicado em Portugal pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”. Publicado em 1973, em França, o livro foi uma verdadeira bomba incendiária. De uma qualidade literária indiscutível, versava sobre um tema polémico e provocou um intenso debate. Esta parábola sobre o futuro da Europa, na qual um milhão de pobres vindos do terceiro mundo desembarcavam nas costas francesas, alterando com a sua invasão pacífica toda uma civilização, foi considerada “racista” pelos sectores do costume e viria a revelar-se verdadeiramente profética. Depois de vários anos sem ser publicado, o livro foi recentemente reeditado, alcançando um êxito de vendas considerável. Numa entrevista recente, Raspail afirmou que sabe muito bem o que é uma civilização que vai desaparecer e que esta “se deve defender antes de desaparecer”.

A história agora vertida à Nona Arte é retirada do seu romance “Sete cavaleiros deixaram a cidade ao crepúsculo pela porta do Oeste que já não estava guardada”, publicado em 1993.

Jacques Terpant, é um ilustrador, pintor e autor de Banda Desenhada, conhecido pelas séries “Messara”, passada na Antiguidade, e “Piratas”, publicada pela Casterman. Os “Sete Cavaleiros” valeram-lhe o Prémio Saint-Michel para o Melhor Desenho, em Bruxelas, no ano passado.

O primeiro volume da trilogia dos “Sete Cavaleiros” foi publicado em 2008 pelas edições Robert Laffont, mas como considerou o próprio Jacques Terpant estes “reveleram-se como totalmente incompetentes na sua difusão”. Tal motivou a mudança para a Delcourt que, no ano seguinte, reeditou o primeiro tomo, com oito páginas suplementares ilustradas com notas complementares sobre “O Mundo dos Sete Cavaleiros”, publicou o segundo, intitulado “O preço do Sangue”. Em 2010 a saga era concluída com a saída do último tomo, “A ponte de Sépharée”.

Como o título da obra original indica, a história é a de sete cavaleiros que deixam a cidade do Margrave hereditário que outrora foi próspera e pacífica, mas que agora está ameaçada. Este punhado de homens, bastante diferentes e simbólicos, mas unidos entre si na disciplina, na fé e na preservação do seu reino, tem como missão encontrar a soberana herdeira, a Margravina Myriam. Na sua senda, vão encontrar resistentes isolados e fiéis aos costumes antigos, bem como várias ameaças tanto internas como externas, já que “do outro lado das montanhas” está quem avança para destruir e conquistar a sua civilização. Uma sociedade europeia moribunda que depende destes homens, movidos apenas pela esperança e pelo sentido do dever. Como afirmou Terpant, “a cidade do Margrave hereditário é ao mesmo tempo tangível e imaginária, um reino que pode ser no fim do século XIX, nos confins da Europa e da Ásia, uma Sildávia de Jean Raspail”.

Tudo se passa num cenário maravilhosamente construído pelo talento e cuidado de Jacques Terpant, que dá uma atenção extraordinária ao pormenor, conferindo aos álbuns uma riqueza gráfica impressionante. Nota para um pormenor curioso, a ilustração do Margrave hereditário é feita a partir do próprio Jean Raspail. Uma bela homenagem a um autor de referência.

A união destes dois raros talentos produziu uma obra-prima. Felizmente, não se ficou por aqui. No ano passado saiu “Oktavius”, o primeiro dos quatro volumes da série “Os Reinos de Bóreas”, baseado no romance homónimo de Raspail, publicado em 2003 e traduzido e editado entre nós pelas Publicações Europa-América, em 2005. Aguardemos a continuação deste óptimo encontro.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 60


Como habitualmente, recomendo esta revista que é uma referência na divulgação histórica. “La Nouvelle Revue d’Histoire”, dirigida por Dominique Venner, está disponível nas bancas nacionais e é de leitura obrigatória para os apaixonados por esta disciplina fascinante.

O número 60, referente aos meses de Maio e Junho, actualmente em quiosque, tem como tema central as “Campanhas da Rússia” e oferece um excelente ‘dossier’, com diversos artigos, entrevistas e cronologias. Para além da invasão napoleónica de 1812 e da Operação Barbarossa ordenada por Hitler, em 1941, e de Estalinegrado, em 1942, o destaque vai para a atenção dada à nova Rússia e à sua geopolítica. Como afirma Dominique Venner no seu editorial: “Pedimos ao passado para esclarecer o presente”.

Uma nota especial vai para a excelente entrevista com o romancista profético Jean Raspail, que aqui revela as fontes históricas da sua inspiração. Escritor e explorador, é autor de uma vasta obra onde se inclui o romance visionário, saído em 1973, “Le Camp des Saints”, que no nosso país foi publicado pela Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”.

Destaque ainda para o artigo sobre o recém-falecido Hervé Couteau-Bégarie, professor que reagiu contra o anti-militarismo da Universidade francesa e renovou o pensamento estratégico em França. Também de referir os artigos sobre Hjalmar Schacht, explicando como um conservador se tornou o improvável ministro da Economia de Hitler, e sobre Pierre Schoendoerffer, autor e admirável realizador de cinema que filmou a guerra e que faleceu recentemente. Para além de outros artigos e entrevistas, a revista inclui ainda um passatempo, criticas a livros, novidades e a crónica habitual de Péroncel-Hugoz.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mortos: 200 Milhões - Todos Nós


Esta é a capa da edição portuguesa de "Le Camp des Saints", de Jean Raspail, publicado pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”, recentemente reeditado em França. Como afirmei num post a que chamei "perigosa parábola", urge republicá-lo no nosso país.

A sinopse desta obra premonitória rezava assim:  

«Um dia, num futuro que não vem longe, uma estranha frota de velhos navios corroídos pelo tempo e pelo uso parte do golfo de Bengala e ruma em direcção à Europa. Traz a bordo um milhão de estropiados: os esfomeados dos "países subdesenvolvidos", que, cansados da miséria, resolvem bater às portas do paraíso do homem branco.

Como irá ele reagir à invasão pacífica dos que vêm buscar abrigo nas suas terras? Com a respiração suspensa, o mundo espera. Entretanto, ao longo de todas as fronteiras do hemisfério rico, outros milhões de homens - muitos - aguardam para se aventurarem também à conquista do paraíso...

Ficção científica? E talvez não, se tivermos presentes as previsões demográficas para o ano 2000...

É este o grave problema que Jean Raspail nos propõe neste romance grave. Um romance em que, através do trágico ou do burlesco das situações imaginadas, o autor assume uma posição que o leitor pode aceitar ou rejeitar. O problema, esse, talvez não possa ignorá-lo...»

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Entrevista com Jean Raspail

A propósito da reedição de "Le Camp des Saints" em França, de que falei aqui, referi uma excelente entrevista dada pelo autor, Jean Raspail, ao canal televisivo France 3 que não resisti a partilhar aqui.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Até a Suíça...

Em conversa, um amigo meu louvava o espírito de resistência dos suíços, a propósito do referendo sobre os minaretes. No meu pessimismo (não confundir com derrotismo) lembrei-me da conclusão do premonitório Le Camp des Saints. Neste livro de Raspail, apesar da sua resistência, até a Suíça acabou por cair...

«(...) também a Suíça estava minada no interior. O animal tinha aí escavado todas as suas sapas, mas com tantas precauções que levaram mais tempo a ruir. E a Suíça, em vários sectores, esqueceu-se de pensar demasiado. A sua queda foi mais decente. O famoso escudo da neutralidade impressionava ainda vagamente e puseram-se luvas brancas para fazer soar o hallali. Do interior e do exterior, as pressões tornaram-se progressivamente mais fortes. O caso de Munique. Intangível. A Suíça teve de negociar. Não podia escapar a isso. Hoje assinou.
Às zero horas, esta noite, as suas fronteiras serão abertas. Há vários dias já que elas não estavam guardadas. Então eu repito a mim mesmo lentamente, para me penetrar bem, esta frase melancólica dum velho príncipe Bibesco: "A queda de Constantinopla foi uma infelicidade pessoal que nos aconteceu a semana passada".»

Jean Raspail
Mortos: duzentos milhões, todos nós. Europa-América, 1977.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Profetas


Hoje reflecti sobre a invasão imigrante do terceiro mundo a nível mundial na minha outra casa blogosférica e lembrei-me do caso americano. Ao saber, através do V Dare, que o último livro de Pat Buchanan, “State of Emergency: The Third World Invasion and Conquest of America”, está no top de vendas da livraria Amazon, parece-me que, do outro lado do Atlântico, muitos começam a aperceber-se da dimensão da ameaça de que é alvo não só a América e a Europa, mas igualmente outros países desenvolvidos do mundo.

Mas o que motivou este post foi o recente artigo de Pat Buchanan, “Powell, Raspail: Prophets Without Honor?”, em que ele recorda dois profetas dos trágicos acontecimentos que vivemos hoje, mas que foram ostracizados pelo que disseram e escreveram. O discurso “Rivers of blood”, de Enoch Powell, proferido em 1968, e o livro “Le Camp des Saints[1], de Jean Raspail, publicado em 1973, são (re)leituras obrigatórias nos dias que correm. O primeiro deixou de ser um aviso para se tornar uma constatação, o segundo deixou de poder ser considerado ficção.

[1] Publicado em Portugal pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”.