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terça-feira, 29 de março de 2016

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A noite mais longa


No passado dia 21 de Dezembro ocorreu o solstício de Inverno, que marca o início desta estação no hemisfério boreal com a mais longa noite do ano, em que o Sol atinge a sua posição mínima em relação ao equador.

Os europeus cedo viram neste momento a representação de uma morte que anunciava um renascimento. Considerando os tempos difíceis que temos vivido, é natural que façamos uma analogia política. Este paralelo, aliás, não é novo. Recorde-se, por exemplo, o início da peça “Ricardo III”, de Shakespeare, que começa por referir “o Inverno do nosso descontentamento” transformado em “Verão glorioso” pelo Sol.

Escreveu o saudoso Jean Mabire, profundo conhecedor das tradições europeias e ciente da sua actualidade: “O nosso mundo está prestes a nascer. Invisível como as flores e as sementes de amanhã, faz o seu caminho debaixo da terra. Temos já as nossas raízes solidamente enterradas na noite das idades, ancoradas no solo dos nossos povos, alimentadas com o sangue dos nossos antecessores, ricas de tantos séculos de certeza e de coragem que somos os únicos a não renegar. Entrámos no inverno integral, onde se obrigam os filhos a terem vergonha dos altos feitos de seus pais, onde se prefere o estrangeiro ao irmão, o vagabundo ao camponês, o renegado ao guerreiro. Entrámos num inverno onde se constroem casas sem chaminés, aldeias sem jardins, nações sem passado. Entrámos no Inverno. A natureza morre e os homens tornam-se todos iguais. Já não há paisagens, já não há rostos. Vivemos em cubas. Com um pouco de química, iluminamo-nos, alimentamo-nos, não temos crianças a mais, esquecemos a luta, o esforço e a alegria. Sim, apesar das luzes de néon, das montras e das imagens do cinema, apesar das festas do Natal, das grinaldas, das missas e dos abetos, entrámos num Inverno muito longo. Somos só alguns que trabalham para o regresso da Primavera.”

Nesta época de escuridão, guardemos a esperança no regresso da luz. Feliz Natal.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

“Jurámos que nunca nos tornaríamos conformistas”


Jean Mabire não fabricou um sistema, fez viver um sonho. Abriu uma via e deixou um modelo: o de um homem que viveu sempre de acordo com as suas ideias. Os seus talentos ter-lhe-iam permitido uma grande carreira na imprensa e na edição do seu tempo desde que se negasse. Tal era para ele impensável e impraticável. Escolheu continuar fiel aos reprovados entre os quais se sentia bem. Em “Drieu parmi nous” (1963), escreveu: “Jurámos que nunca nos tornaríamos conformistas”. É o que assegurará a sua perenidade.

Dominique Venner

quinta-feira, 29 de março de 2012

Jean Mabire – In Memoriam

Definia-se a si próprio como “normando e europeu”, Jean Mabire foi jornalista, escritor, historiador, crítico literário e activista político. Deixou uma extensa obra publicada e uma influência marcante. Muitos querem hoje esquecê-lo, ou considerá-lo um dos “malditos”. Mas este é um autor que paira acima da mesquinhez. Na semana em que passam seis anos da sua partida para o mundo dos mortos, aqui fica um excerto da homenagem que lhe dediquei na última edição do semanário "O Diabo".


Jean Mabire (Paris, 8/2/1927 — Saint-Malo, 29/3/2006) foi desde cedo apaixonado pelas letras e pela escrita, tendo fundado uma revista regionalista pouco depois de se formar. Cumprido o serviço militar como pára-quedista, foi mobilizado para a Argélia, onde combateu e foi condecorado, experiência que inspiraria uma das suas obras mais conhecidas. Colaborou em variadíssimas revistas e escreveu mais de uma centena de livros. O leque de temas abrangidos foi vasto, da Normandia ao paganismo, da História, em especial a História militar, à política, dos romances ao mar e aos marinheiros. Foi também crítico literário e as suas biografias de autores foram publicadas em vários volumes. Defensor da “Europa das Pátrias Carnais”, esteve na fundação de um movimento regionalista normando e participou na criação do GRECE e da chamada “Nova Direita”. É ainda hoje uma referência para o Movimento Normando, para a associação Terre et Peuple e, para preservar e defender a sua obra, existe a Associação dos Amigos de Jean Mabire.

Presente!
Quando Mabire morreu, um jornalista amigo meu, que na altura estava em Paris em trabalho, escreveu: “As edições ‘on-line’ de hoje dos três grandes jornais franceses — ‘Libération’, ‘Figaro’, ‘Le Monde’ — não tinham uma linha sobre a morte de Jean Mabire. Significativamente, a peça mais destacada na secção de Cultura do ‘Libération’ levava o título ‘Os Kékélé, cantores da rumba congolesa’”. É uma belíssima imagem do que se passa hoje em dia, quando a brigada do “politicamente correcto” faz constantemente o “culto do outro” preterindo a nossa cultura e as nossas tradições populares. Autores “incorrectos”, como este, devem então ser votados à censura pelo esquecimento. O que os censores hodiernos talvez não tenham presente é que fazer entrar alguém para o panteão dos “escritores malditos” é também uma forma de reconhecimento do seu talento.

Felizmente, estes “apagadores da História” não conseguem eliminar a extensa e rica obra de um escritor que foi sempre um lutador e um exemplo, nem muito menos a sua influência que ainda vive. O seu espírito continua entre todos aqueles que o sentem presente, mas também naqueles que, não o conhecendo, prezam a sua terra e o seu povo, defendem-nos e sabem a importância dessa ligação sagrada.


Mabire dizia categoricamente: “Nós não mudaremos o mundo, não nos iludamos, não somos nós que o vamos mudar, mas o mundo não nos mudará.”

domingo, 10 de abril de 2011

Méridien Zéro recorda Jean Mabire


Esta semana, o programa Méridien Zéro é dedicado a Jean Mabire, escritor, jornalista e crítico literário francês, falecido a 29 de Março de 2006. Autor de uma extensa obra com mais de cem livros, dedicada a temas como a História militar, o paganismo, a literatura e a História da Europa, Mabire notabilizou-se também pela defesa da região normanda e da Europa. Como é habitual, a emissão tem início às 22 horas portuguesas e pode ser escutada através da Radio Bandiera Nera.

terça-feira, 29 de março de 2011

Língua

Passam hoje exactamente cinco anos da data da morte de Jean Mabire (8/2/1927 – 29/3/2006), escritor que tanto me influenciou e inspirou com as suas obras e com o seu exemplo. Apesar de defensor da Europa das Pátrias Carnais e de se definir a si próprio como “normando e europeu”, Mabire foi um dos grandes autores de língua francesa, com uma extensa obra publicada.

Defendia que a cultura francesa, encarnada numa língua, devia integrar todas as suas especificidades regionais, por oposição à actual promoção da “linguagem dos subúrbios”. Este empobrecimento, considerava ele, levaria a que se conhecesse em breve “uma espécie de francês básico muito análogo ao que é o americano em relação à língua de Shakespeare”.

É inegável que esse estado está à porta. Assistimos impávida e serenamente às repetidas machadadas no Português e aceitamos pacificamente atentados como o (des)acordo ortográfico. O pior, sem dúvida, é a ignorância generalizada e, para a contrariar, só o eterno regresso aos clássicos e aos mestres deverá continuar a ser o caminho.

Por falar em mestres das letras, também ontem se cumpriram sete anos do falecimento de Rodrigo Emílio (18/2/1944 – 28/3/2004), o poeta-soldado de quem os bem-pensantes tanto se tentam “esquecer”, apesar do seu talento e genialidade incomparáveis. Outro autor para quem a defesa da Pátria implicava necessariamente a defesa da Língua e de toda uma Cultura.

Porque se não soubermos quem foi Camões, a “Língua de Camões” deixará mais tarde ou mais cedo de ser a nossa. Perdendo o seu significado profundo e mecanizando-se passará a ser apenas um “meio” desprovido de conteúdo.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 29 de março de 2010

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 47

Nas bancas do nosso país está disponível o número 47 de «La Nouvelle Revue d'Histoire», revista de referência de leitura obrigatória. O tema central desta edição é “1940: Do Desastre à Esperança”, com um dossier onde podemos encontrar artigos de Dominique Venner, Philippe Conrad, François-Georges Dreyfus, Jean Mabire, Thierry Buron, Stéphane Courtois e Antoine Baudoin. Destaque ainda para excelente entrevista sobre “O Mistério Céline” com François Gibault, o principal biógrafo do escritor francês, e os artigos “A política segundo Christine de Pizan”, de Bernard Fontaine, “Um virtuoso chamado Chopin”, de Jean-François Gautier, “Rebatet: um anarco-fascista no cinema”, de Norbert Multeau, “A Guerra da Argélia revisitada”, de Dominique Venner e a entrevista com Philippe Alméras sobre Montherland. Como habitualmente, temos a crónica de Péroncel-Hugoz, desta vez sobre Out-el-Kouloub, uma aristocrata egípcia face a Nasser, e as secções do costume, com destaque para a dos livros publicados, na qual há a destacar a crítica de Bernard Fontaine à mais recente obra de Sylvain Gouguenheim “Regards sur le Moyen Âge”.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Utlagi n.º 28

Durante a minha recente ida à Table Ronde, passei pela banca da associação Utlagi e comprei um número da revista deles, que existe há dez anos. Uma publicação muito interessante para todos os interessados em descobrir a cultura, a história e as tradições da Normandia e da Bretanha. Estas são duas pátrias carnais que visitei demoradamente há alguns anos e pelas quais me apaixonei.

Neste número podemos encontrar uma homenagem a Jean Mabire, com a republicação de dois artigos originalmente publicados na revista «Viking», bem como artigos sobre megalitismo, o escritor bretão Erwan Ar Moan, os irlandeses Patrick Pearse e Michael Collins, a vila basca de La Rhune, entre outros, para além de notícias e poesia.

domingo, 21 de junho de 2009

Solstício de Verão


«Madrugada de 21 de Junho. A noite desaparece diante do dia nascente. Lá em baixo, na direcção do leste, o céu cobre-se de verde esmeralda, como um oceano tranquilo. A seguir, tudo passa ao rosa, como se mil flores de pétalas delicadas resplandecessem no meio de nuvens cinzentas.

Enfim, do solo mesmo da velha Inglaterra parece ter surgido o disco do sol, vermelho vivo. Com ele, o fogo e o sangue abrasam o céu. Vai cumprir-se hoje o seu curso mais longo. Nunca, a não ser no solstício de Verão, ele se demora tanto entre os homens, com semelhante calor, tamanha força, tal poder.

O sol cumpre finalmente a promessa dos longos meses de Inverno. Volta para o meio de nós. Aquece-nos e ilumina-nos. Protege o oceano das searas e anuncia o ouro das ceifas.

Nesta manhã sagrada estamos em Stonehenge, nas terras altas e nuas da planície de Salisbury, no condado de Wiltshire. Ao norte, o País de Gales e as suas colinas verdes. Ao sul, a península da Cornualha e os seus rochedos ruivos. Atrás de nós, na direcção do oeste, o oceano onde vais, esta noite, no termo da sua mais longa jornada de labor, afundar-se o sol. Quando tiver terminado o seu curso, desparecerá no mar onde dormem para sempre, nos grandes fundos, os templos e os homens da Hiperbórea.»

Jean Mabire
in “Os Solstícios – História e Actualidade”, Hugin (1995).

domingo, 21 de dezembro de 2008

Solstício de Inverno


«O Natal é a velha festa do Solstício de Inverno. Na noite mais longa do ano, igual ao Inverno, ao frio, à neve, ao gelo, que parecem não ter fim, nessa noite única e terrífica, os nossos antepassados recusaram acreditar na morte do Sol. Traziam no coração a certeza da Primavera. Sabiam que a vida continuava, que as flores iriam furar a neve, que as sementes germinariam debaixo do gelo, que as crianças iriam tomar a sua parte na herança e que os seus clãs e as suas tribos iam conquistar todas as terras de que tinham necessidade para viver, todos os mares onde iam estabelecer um domínio sem limites.

No momento em que os glaciares recuavam pouco a pouco diante as florestas, milhares de anos atrás, uma imensa velada de armas reunia-nos à volta dos fogos, através de toda a Europa, então sem nome. Os nossos antepassados surgiam das trevas e das brumas. Iam descobrir o mar imóvel e erguer pedras verticais, ao sol da Grécia. Sabiam que triunfariam sobre o Inverno, sobre o medo e sobre aquela sageza atroz dos velhos que paralisam a gente jovem impaciente.

O nosso mundo está prestes a nascer. Invisível como as flores e as sementes de amanhã, faz o seu caminho debaixo da terra. Temos já as nossas raízes solidamente enterradas na noite das idades, ancoradas no solo dos nossos povos, alimentadas com o sangue dos nossos antecessores, ricas de tantos séculos de certeza e de coragem que somos os únicos a não renegar. Entrámos no Inverno integral, onde se obrigam os filhos a terem vergonha dos altos feitos de seus pais, onde se prefere o estrangeiro ao irmão, o vagabundo ao camponês, o renegado ao guerreiro. Entrámos num Inverno onde se constroem casas sem chaminés, aldeias sem jardins, nações sem passado. Entrámos no Inverno.

A natureza morre e os homens tornam-se todos iguais. Já não há paisagens, já não há rostos. Vivemos em cubas. Com um pouco de química, iluminamo-nos, alimentamo-nos, não temos crianças a mais, esquecemos a luta, o esforço e a alegria. Sim, apesar das luzes de néon, das montras e das imagens do cinema, apesar das festas do Natal, das grinaldas, das missas e dos abetos, entrámos num Inverno muito longo.

Somos só alguns que trabalham para o regresso da Primavera.»

Jean Mabire
in “Os Solstícios – História e Actualidade”, Hugin (1995).

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Entrevista com Jean Mabire — Reflexões sobre o «Aventureiro» (II)

No seu livro “La Torche et le Glaive”, escreve estas palavras soberbas: «Escrever para mim não é um prazer nem um privilégio. É um trabalho como outro. Redigir um artigo ou distribuir folhetos são actos do mesmo valor (...) Escrever deve ser um jogo perigoso. É a única nobreza do escritor, a sua única maneira de participar nas lutas da vida». Ora, ao reler Dominique de Roux, qual não foi a surpresa de encontrar palavras semelhantes e escritas quase na mesma altura: «Neste últimos anos, compreendi o seguinte: a literatura e a acção revolucionária directa são, as duas, modalidades de aproximação à morte (...) É através da morte que a literatura se torna acção revolucionária e é pela morte que a acção revolucionária encontra a literatura». Não parece hoje usurpador ver nele um aventureiro das letras.
Com estas confidências, e com o risco de nos repetirmos, a aventura do próximo século não será mais interior? Entendida pela atitude que podemos qualificar de “Torna-te aquilo que és”. Não é esse no final o objectivo superior destinado à literatura, como os seus escritos nos deixam a pensar?


JM: Em primeiro lugar, não tenhamos muitas ilusões, nós os escritores, sobre a importância destas “aventuras” que são os nossos livros. Não sabemos bem que uso lhes darão os nossos leitores. Assim a influência de um Barrès parecia-nos ontem surpreendente e hoje inacreditável.
Sou de uma geração marcada com um ferro em brasa por Montherland e Malraux. Devo dizer que Sartre e Camus me pareceram de seguida de um enfado tremendo. Voltámos à literatura “fim de século” com o estetismo mediterrânico e o intelectualismo dreyfusiano.
O contra-ataque dos “Hussardos” pareceu-me menos pertinente que o dos rapazes da fornada seguinte, especialmente Dominique de Roux e Jean-Edern Hallier. Devemos juntar Jean-René Huguenin e Jean de Brem, mas morreram muito cedo.
Há que falar na morte. Dominique como Jean-Edern tinham esse fascínio, a presciência. É uma reflexão que não vem apenas com a idade. Aqui, mais uma vez, encontramos Malraux. A ideia trágica da vida. Põe de seguida uma espécie de oposição entre “acção interior” e “acção exerior”. Há aí uma tentação: a via real Guénon/Evola. Ela interessa-me, mas é um caminho que não me atrai muito. Sou mais fascinado, na mesma ordem de espírito, pela dialéctica paz/guerra. Digamos Giono/Malraux (sempre ele). Nietzsche pressentiu tudo isto muito bem. A tentação da torre de marfim choca com a brutal afirmação de que a rua pertence àquele que a desce.
É evidente que para um escritor, o acto de escrever é interior e o acto de publicar exterior. Duas aventuras estritamente complementares. Parece-me que faz alusão à “política”. Tanto a sua versão política e politiqueira me é totalmente estranha, tanto a saída da cidade, da minha pátria carnal na Europa, não deixou de me atormentar. Daqui, uma reflexão sobre o Estado, no qual o fim deve ser o de “fortificar” o povo e não o de servir uma ideologia.

Sempre no mesmo registo, mas outra aventura também intrinsecamente vivida desde há quase cinquenta anos, o envolvimento federalista, que combina no mesmo carácter absoluto o europeísmo e a defesa das identidades carnais. Diz no Manifesto pelo renascimento da cultura normanda que a cultura francesa apenas será salva pelo seu retorno às origens nas suas tradições regionais e a sua abertura à Europa das letras. Pode precisar?

JM: A identidade de um povo é tanto o seu espírito como a sua carne. É por isso que o “cultural primeiro” me parece mais decisivo que o famoso “político primeiro” de Maurras. Na verdade, eu não nego a visão política. Mas eu situo-a fora das múltiplas e nefastas contingências actuais. Para mim, tudo se resume na dialética, digamos antes o confronto, entre estas duas entidades, não-contraditórias mas complementares, que é o Império, ou seja a Europa, e os povos que não se confundem certamente com os estados-nações existentes.
A Europa, se quer preservar a sua identidade e afirmar-se em relação ao resto do mundo, quer dizer resistente em primeiro lugar e antes de tudo ao imperialismo americano, deve ser antes de tudo una e diversa.
Una politicamente, militarmente, diplomaticamente, economicamente. Mas diversa culturalmente. É por isso que a França só tem significado ao assegurar em primeiro lugar o que a Plêiade chamava “a defesa e ilustração da língua francesa”. Neste domínio, o papel da Valónia como o da Suíça românica é capital, mesmo se estas duas entidades exaltem o desprezo do parisianismo mais estéril.
Esta cultura francesa, encarnada numa língua, só poderá encontrar alguma ao integrar todas as suas especificidades regionais.
Não falo aqui das línguas ditas “minoritárias”, bretão, flamengo, alemão, corso, catalão, basco, occitano, mas também dos diferentes dialectos de Oil, como do que chamamos o “francês regional”, que varia segundo as províncias e os costumes.
A actual promoção da “linguagem dos subúrbios” leva a um terrível empobrecimento, entre outros factores pelo emprego do “verlan”[1], que é contrário de uma criação para se tornar uma mecânica.
Manter a linguagem escrita contra a linguagem falada é um dos aspectos da guerra cultural. Isto choca certamente na modernidade que conhecerá em breve uma espécie de francês básico muito análogo ao que é o americano em relação à língua de Shakespeare.
Esta atitude implica a preocupação com as “humanidades” como se dizia em tempos, ou seja o conhecimento do grego e do latim. Devemos aí juntar, para as pátrias carnais respeitantes, uma certa conivência com as suas raízes mais profundas. Ou seja, na Normandia, por exemplo, as noções elementares sobre o modo nórdico primitivo que nos permitirá manter a ligação com a nossa cultura mais antiga.


E porque para si a aventura continua, pode, para os leitores de «Nouvelles de Synergies Européennes», indicar-nos algumas pistas de leitura...

JM: Não tenho de momento o projecto de escrever um grande documento sobre a Segunda Guerra Mundial, apesar de estar longe de terminar com o vasto panorama dos “corpos de elite”, começado há quase trinta anos na editora Balland. Falte-me escrever dois volumes da História dos voluntários franceses na frente Leste: 1943 e 1944. Espero que o meu amigo Eric Lefèvre me forneça como fez no passado, os documentos necessários à evocação dessa aventura. Deixo a outros o encargo de evocar as motivações e os combates dos voluntários bálticos, ucranianos ou húngaros. Isso exigir-me-ia muito tempo em pesquisas e traduções.
Depois de Béring e Amundsen, tinha o desejo de fazer reviver outros exploradores polares como o sueco Nordenskjöld e o dinamarquês Rasmussen. Mas o mercado do livro e a falta de curiosidade do público são tais que não considero lançar-me nessas aventuras. Agora, concentro-me nas minhas crónicas de “Que lire?”. O volume 6 está terminado e deve sair no fim deste ano. Já vou em mais de 450 escritores e faltam-me cerca de duzentos autores que considero indispensável tratar.
Tenho também a intenção de dedicar um livro a esse mistério que é a permanência da Normandia desde há onze séculos. O meu projecto de uma gigantesca História dos escritores normandos, em vários volumes, continua neste momento num estado de notas e fichas, falta encontrar um editor suficientemente ousado.
Quanto ao romance sobre a última guerra sobre o qual tenho a ideia há mais de meio século, será talvez reduzido a uma simples novela.

Da parte da redacção, Jean Mabire, obrigado.
[1] N. do T.: tipo de calão que consiste na inversão das sílabas de certas palavras.

domingo, 2 de abril de 2006

Entrevista com Jean Mabire — Reflexões sobre o «Aventureiro» (I)


Traduzi recentemente uma entrevista com Jean Mabire, feita por Laurent Schang para a revista «Nouvelles de Synergies Européennes», para publicação numa página de internet galega, ainda em construção. O seu recente falecimento justifica que eu antecipe aqui a publicação dessa excelente conversa, que dividi em duas partes: a primeira em baixo e a segunda noutro post, que publicarei amanhã.


Jean Mabire quaisquer que sejam os domínios que tenha abordado nos seus noventa e poucos volumes publicados até hoje (170, aliás, como nos disse Jean Mabire na carta que acompanhou as suas respostas), dos SS franceses aos 55 dias de Pequim, de Amundsen à História da Normandia, sempre entre linhas, quando não em evidência, uma ideia recorrente, melhor dito, uma certa definição do homem, na qual os valores podem resumir-se numa palavra: a aventura.
Jean Hohbarr não se enganou, no que escreveu num número do “Français”: «Mabire reconhece-o, ele não considera a literatura um género “neutro”, mas antes como a expressão de uma visão do mundo». A isso não é estranho, sem dúvida, o sangue viking que corre nas suas veias de normando.
Ainda é assim hoje, a aventura parece definitivamente ser algo do domínio do passado, na altura do ditadura dos media e da fotografia por satélite. A conquista do espaço, o mercenarismo ou a façanha desportiva (ou a luta contra a Sida segundo alguns) serão as últimas formas de aventura abertas ao homem de amanhã?

Jean Mabire: Quando Ernst von Salomon, esse aventureiro-tipo do nosso século, se viu obrigado, depois da derrota do seu país, a responder a um questionário, necessitou de 650 páginas para o fazer, o que lhe permitiu noutro lugar escrever o seu melhor livro.
Apercebemo-nos então que ele nunca havia deixado de se pôr em cena a ele mesmo e que tinha ao longo de toda a sua vida misturado a sua bibliografia e a sua biografia. Esse não é o meu caso. Eu interesso-me bem mais pelas minhas personagens — imaginadas ou reconstituídas — que comigo próprio. E bem mais, talvez, pelos meus leitores do que pelas minhas personagens.
Na verdade, os meus “heróis” vivem uma aventura, começando pelo muito singular Roman Feodorovitch von Ungern-Sternberg, caso extremo, se é que ele o foi. Penso todavia que o termo aventureiro não lhe convém muito. Prefiro o termo militante. Ou, se quisermos, o de “soldado político”, expressão inventada, creio, por Ernst Roehm, que não é o menos singular de todos os meus assuntos e que tem a vantagem de ser mais verídico que romântico, daí o lado bastante “instrutivo” do livro que eu lhe dediquei.
Já que me fala de aventureiro, creio que é necessário recordar um ensaio (tão importante que dediquei ao seu autor uma crónica inteira no “Que lire?”)
Trata-se do “Portrait de l’aventurier” de Roger Stéphane. Sabemos que ele aí evoca três homens fora do comum: Lawrence da Arábia, André Malraux e o indispensável von Salomon. Este pequeno livro, publicado em 1950 e recentemente reeditado, é precedido de um estudo muito esclarecedor de Jean-Paul Sartre. São umas vinte páginas, mas parecem-me importantes para responder à sua pergunta. Sartre distingue muito bem: «Aventureiro ou militante: não acredito neste dilema. Sei perfeitamente que um acto tem duas faces: a negatividade, que é aventureira, e a construção que é disciplina. É preciso restabelecer a negatividade, a inquietude e a autocrítica na disciplina».
Numa famosa querela, com quase meio século, sinto-me mais próximo de Sartre que destes “Hussardos” que incomodavam o pesado comboio da literatura contemporânea.
Acredito, por outro lado, que há uma simplificação abusiva na oposição de aventureiro da acção e aventureiro do sonho. Drieu la Rochelle compreendeu-o tão bem, que se recusou encarcerar a aventura no irrisório da gratuidade. Se falarmos de vela, o amador pode revelar-se tão aventureiro como o navegador de competição. E vice-versa. Moilessier-Tabarly.
O oposto do aventureiro? É o burguês. Veja-se Flaubert que disse tudo, no fundo. O campo é vasto, infinito mesmo, incluindo a “boca” de Péguy que pretendia que os pais de família seriam os aventureiros do seu século.
Sobre a literatura como “visão do mundo”, quero ainda citar Drieu. Descobri recentemente um artigo de 20 de Fevereiro de 1932: «Não é possível a ninguém escrever uma linha que, a algum propósito, seja neutra. Um escrito terá sempre um significado político, tal como um significado sexual ou religioso».
Não, a aventura não é o passado. Acredite, viveremos ainda mais perigosamente no século XXI.

Pierre Mac Orlan, no seu famoso “Petit manuel du parfait aventurier”(Pequeno manual do perfeito aventureiro) dava ênfase ao paradoxo do aventureiro, ou seja, que este não existe, que não passa da recreação a posteriori, mineralização pseudo-mitológica por uma sociedade burguesa ávida de sonhos e façanhas; e que, a contrario, este mesmo aventureiro não mostrava nos seus actos mais que crueldade, niilismo e cinismo, senão avidez. Estamos, parece-nos, a mil lugares da mensagem que difunde as suas obras, mais próximas de Jack London que de Lawrence da Arábia.

JM: Eu devia ter uma dúzia de anos quando tirei da biblioteca do meu pai esse pequeno manual de que fala e lembro-me de ter ficado muito desiludido. Bruscamente privado do meu imaginário de adolescente, alimentado pela Ilha do Tesouro de Stevenson e dos Corsários do Rei de t’Serstevens. Daqui a minha posterior desconfiança em relação a Mac Orlan, mestre-desmistificador. Ele retirar-me-ia o desejo de ser um aventureiro. Eu tornar-me-ia, por reacção sem dúvida, militante.
Isto não retira nada ao sombrio fascínio dos cavalheiros da sorte. Mas eu identificava-me mais facilmente com Cyrano que com Olonnois ou Borgnefesse…
Ficar-me-ia sempre, do drama épico de Edmond Rostand, a opinião de que é bem mais belo quando é inútil... Esta sensação foi confortada pelo filme “A patrulha perdida” de John Ford, antes de encontrar o seu desenvolvimento com “O Deserto dos Tártaros” de Buzzati. Fui arrebatado pelo facto de que as batalhas fundadoras — essas aventuras exemplares — são sempre batalhas perdidas: Sidi Brahim, Camerone, El Alamo, Bazeilles, Berlim, Dien Bien Phu. Tal iria reforçar o meu pessimismo inato (sempre Flaubert, bem mais que Stendhal). Mas um pessimismo que incita mais à acção que ao sonho. Ver a esse respeito as sagas e Corneille.
No meu caso pessoal, o que foi arrebatador na guerra da Argélia em 1958-59, foi que eu sabia que ela estava perdida pelo exército no qual eu me batia. Voltamos a encontrar este sentimento a toda a força quando eu me juntei a Philippe Héduy e à equipa de “L ‘Esprit public” no fim de 1962.
Na idade das releituras, eu retomei La Bandera, La cavalière Elsa e mesmo Picardie, com um constante sentimento de mal-estar. A única trombeta a subsistir. A âncora da misericórdia.
É um facto que o romance de aventura não é mais que substituição. O leitor vive o que não é, revive mesmo o que não viveu. Fenómeno ao qual a televisão dá uma dimensão fascinante e onírica. “Fazemos” a guerra ou o amor por procuração em frente ao pequeno ecrã. Triunfo da ilusão absoluta.

O herói do seu último livro, Padraic Pearse (Patrick Pearse une vie pour l’Irlande, éditions Terre et Peuple), dá também essa impressão de oscilar entre o idealismo revolucionário e o mais negro niilismo, o amor dos homens e a fria determinação criminal. Um pouco como Ungern antes dele, e isso, numa perspectiva muito próxima dos Conquistadores de Malraux.

JM: Esse lado niilista e mesmo suicida de Patrick Pearse tem sido muitas vezes realçado pelos seus adversários. Se retira essa impressão do meu livro, é porque falhei na minha exposição. Pois essa é uma. Esse pequeno ensaio descreve uma espécie de marcha inevitável que conduz um homem — que é um escritor, logo um artista — do combate cultural ao envolvimento político e desse envolvimento à luta armada. Uma outra dimensão de Pearse e não a menor, o seu papel de educador em Saint-Enda.
Estamos muito longe de um aventureiro, como seria depois dele, pelos traços do seu carácter, um homem como Michael Collins. Pearse parece-me a mais alta encarnação do “soldado político”. Ele vai cometer um acto louco, mas que lhe parece o único capaz de despertar o povo irlandês. Evocar “Os Conquistadores” a seu respeito parece-me muito esclarecedor.
Não esquecer também que este pequeno livro situa-se na mesma linha que a minha grande obra sobre os instigadores dos povos (Jahn, Mazzini, Mickiewicz, Petöfi e Grundtvig). Pearse bate-se na sua esteira e conjuga em si todos os aspectos das suas diversas personalidades: poeta, educador, militante, profeta, mártir…
Ungern escapava a esta espécie de “racionalização da loucura”. Ele era ao mesmo tempo mais louco e mais lúcido.

(Continua)

sexta-feira, 31 de março de 2006

O último viking


Há semanas, tive más notícias sobre o estado de saúde de Jean Mabire. Há dias, soube do seu internamento. Ontem, da sua partida.

Quando imagino o funeral de um homem que tantos marcou, influenciou e inspirou com as suas obras e com o seu exemplo, vejo apenas uma grande chama que brilha no mar frio. Do fogo que consome o drakkar, que pouco a pouco ganha distância da terra, parte um guerreiro incansável para Walhalla, depois de uma vida de combate. Não o tendo conhecido pessoalmente, com muita pena minha, nem querendo fazer aqui a sua nota biográfica, decidi lembrar-me como este autor esteve presente na minha vida, até hoje.

O primeiro contacto com o seu trabalho foi na adolescência, através dos livros “Comandos de Caça” e “Os Panzers da Guarda Negra”, publicados em Portugal pela Ulisseia. Fiquei maravilhado e absorvido com a forma de escrita narrativa com que abordou estes temas de História militar. Nesta mesma altura “conheci” também Saint-Loup, de seu nome Marc Augier, de quem Mabire é o herdeiro directo na defesa da Europa das Pátrias Carnais. Seriam referências que jamais esqueceria e pensadores que me acompanhariam para sempre na formação e consolidação dos meus ideais.

As pátrias carnais, a história, a cultura, o paganismo, a defesa da identidade, a terra e o povo, entre tantos outros; estava cimentada uma ligação eterna com este bardo normando. E a Europa, sempre o sonho da Europa — unia-nos um destino comum!

Passados anos, em que fui lendo mais obras suas, conhecendo melhor o seu percurso e vendo como ele havia tocado tantos outros europeus como eu, fiz uma viagem onde ele esteve constantemente no meu pensamento. Percorri, de lés a lés, a sua amada pátria carnal — a Normandia. Da obra de engenharia moderna em Le Havre ao ancestral e mágico Mont Saint-Michel, passando por Honfleur, de onde partiram os navegadores transatlânticos, e pelas praias do desembarque que marcou o início do fim da guerra fratricida europeia, vi, observei e apreciei a terra e o povo pelos quais Jean Mabire tanto lutou para perpetuar, ao mesmo tempo que reconheci e me identifiquei com mais um membro da nossa grande família europeia.

Mais recentemente, quando conheci Pierre Vial, outra referência maior para mim, tive oportunidade de conversar um pouco sobre Mabire e admirá-lo ainda mais, para depois partilhar com vários camaradas europeus a forma como nos influenciou este viking que nunca se rendeu.

A melhor homenagem a Jean Mabire, que se definia a si próprio como “normando e europeu”, é o nosso combate pela Europa.

Magna Europa est Patria Nostra!