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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Estamos numa “espécie de purgatório pós-moderno”...

Há pouco mais de um ano entrevistei Jaime Nogueira Pinto para o semanário «O Diabo». Tendo em conta o momento político que atravessamos, recordo uma das perguntas que lhe fiz:

Hoje estamos num “limbo virtual”, uma “espécie de purgatório pós-moderno”, como afirma. Porquê?
Estamos sim. Fomos o primeiro Império ultramarino da modernidade e fomos também o último. Passámos também, caso raro num país europeu, por um curto ciclo revolucionário em que repetimos as ilusões trágico-cómicas da utopia comunista – isto nas vésperas do Comunismo real desaparecer como modelo político-económico e social.
A esquerda doméstica, criada no ódio vesgo a Salazar, que a afastou por quase meio século do poder, acabou por ser a grande sobrevivente do salazarismo. Com os seus mitos resistencialistas, com a sua dramatização heróica de um tempo em que não teve protagonismo, com a sua caricatura negra dos “Quarenta e Oito Anos de longa noite fascista”. Talvez estivesse no seu direito de vingança e compensação. Mas também não conseguiu ocultar, fora do ideológico, a modernização que aconteceu em Portugal nos últimos quinze anos do Estado Novo.
A radicalidade do PREC foi vencida graças à aliança objectiva entre a Intelligence norte-americana, a pressão europeia, o peso de Yalta e a resistência, às vezes brutal, do povo do Norte e Centro-Norte.
Em Novembro de 1975 (por isso chamei Novembro ao romance que escrevi e publiquei em 2012), acabaram os dois “projectos globais” portugueses – o da Direita, que era o Império ultramarino, e o da Esquerda, a Revolução socialista. Céus e Infernos trocados.
Fomos então para o purgatório, para esta espécie de liberal-social-democracia, mais ou menos de mercado, mais ou menos social, na faixa pobre da Europa. Por isso lhe chamo purgatório, pois saímos do Inferno ou da sua visão (do comunismo pêcêpista e dos esquerdismos maoístas), mas estamos longe do Céu – da nação independente, livre e desenvolvida, que nos foi sendo prometida.
Na classe política oriunda do velho Reviralho, os “antifascistas de sempre” converteram-se ao esquerdismo utópico e politicamente correcto. Renunciaram a todo e qualquer realismo político. São utópicos porque acham que lhes fica bem.
Agora que o liberalismo passou de moda (tantos foram os seus efeitos perversos), a direita sistémica refugia-se num catecismo eurocrático, mais ou menos funcional e asséptico. Ideias, nem vê-las, quanto mais tê-las.
Não há, em Portugal, um partido nacionalista – como há em França, na Grã-Bretanha e em muitos países da Europa Central e de Leste. Restaurar no léxico político-ideológico a nação como valor político corrente, seria um bom princípio.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Portugueses do Império

Tenho a honra e o privilégio de ter conhecido, privado e ter como amigos vários dos últimos Homens de um Império que foi nosso. Combatentes dispostos a fazer o sacrifício maior – o da própria vida – por todos nós, por Portugal. São a brisa depois da tempestade. O último sopro de uma memória que se apaga. Uma estirpe que contrasta com aqueles que actualmente nos desgovernam, mas que mostra que há, no nosso povo, uma chama que cresce quando a Pátria chama.

Recordei-me deles na morte do Comandante Alpoim Calvão, herói nacional que uns quantos – os do costume – preferem “esquecer”, incomodados com o seu carácter e grandeza.

Um homem que nunca baixou os braços e que não ficou “parado no tempo”. Como escreveu a esse propósito Jaime Nogueira Pinto no “Observador”: “É difícil para as gerações que vieram depois da Guerra e do Império compreender o ‘ethos’, a vida e o sentido da vida de homens como Alpoim Calvão. São, somos, de ‘outro país’, o que não quer dizer que não entendamos e que até possamos gostar deste. Calvão não era um ‘prisioneiro do passado’. Aí há 10 anos, em 2004, decidiu arrancar para a Guiné-Bissau com uma empresa destinada a empregar os seus antigos fuzileiros ou os seus descendentes. Fê-lo com outro combatente de África, o Francisco Van Uden, naquele espírito – também às vezes incompreensível para estranhos – de que os que gostávamos de África, não éramos necessariamente colonialistas opressores: gostávamos daquelas pessoas e daquelas terras. E continuámos ou voltámos a gostar quando de ‘nossas’ passaram a ser ‘deles’.”

A sua saída dos Jerónimos, altar da pátria imperial, levado por fuzileiros, recordava uma nau que se lança mais uma vez à aventura no mar das boinas azuis que o saudavam no exterior, em frente ao Tejo de onde saíram os nossos navegadores para dar novos mundos ao mundo, foi marcante. Os heróis não morrem.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

“Portugal não acabou. Tenho a certeza”

Jaime Nogueira Pinto é doutorado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, foi director do jornal “O Século”, administrador da Bertrand e actualmente é accionista e administrador de empresas na área da consultoria estratégica e da segurança privada. Autor de uma extensa obra, publicou recentemente “Novembro”, o seu primeiro romance, “Ideologia e Razão de Estado – Uma História do Poder”, a sua tese, uma reedição do seu “Portugal – Os Anos do Fim” e o ensaio “Portugal – Ascensão e Queda”. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para a edição do semanário «O Diabo» de 19 de Agosto de 2014.

No seu livro “Portugal - Ascensão e queda”, considera o nosso país como uma “nação singular”. Porquê?
É uma nação que tem, na sua História, o mais alto e o mais baixo. É ao mesmo tempo messiânica e comercial: fizemos fortuna com as especiarias da Índia, no século XVI, o açúcar do Brasil, no séc. XVII, o ouro e os diamantes também do Brasil, no século XVIII, e o café de Angola, no século XX. Destas quatro fortunas não nos ficou praticamente nada. Fomos um imperialismo original, “imperial”, mas pouco imperialista.

Porquê pouco “imperialista”?
Para os teóricos do imperialismo, o inglês Hobson e depois Lenine, o imperialismo era uma forma em que o poder político-militar e a dominação que garantia serviam para assegurar a exploração económica de outros povos. A dominação servia ao povo dominante para extrair as mais-valias do trabalho e dos recursos da terra, dos dominados, dos colonizados.
Com certeza que não fomos uns anjos do céu ou umas Madres Teresas de Calcutá. Tivemos de tudo, do mais repressivo ao mais generoso. Mas deixámos lá quase tudo: ficámos no Brasil para sempre e, em África, ajudámos a criar sociedades destribalizadas, miscigenadas, como em Angola e Cabo Verde.
Isto é menos sabido e repetido porque fomos vítimas de várias lendas negras: desde já, apanhámos por tabela com a “lenda negra” anti-espanhola que os ingleses, mestres na matéria, foram difundindo sobre as trevas do “papismo” dos países católicos. Isto apesar de tudo o que os povos peninsulares contribuíram para a Geografia, para a Cosmografia, para as ciências naturais e matemáticas dos séculos XV a XVII. Depois, fomos vítimas dos próprios espanhóis que com a “Monarquia Dual” nos trouxeram a inimizade dos seus inimigos e privilegiaram a defesa do que era deles e só deles.
Modernamente retomaram-se os clichés sobre a suposta inferioridade do Sul católico em relação ao Norte reformado. Ainda há pouco via isso num livro, aliás bem escrito, sobre o 27 de Maio em Angola de uma inglesa progressista. E temos, o que é pior, o autoflagelo dos nossos próprios intelectuais que acham chique repetir e exagerar os clichés anti-portugueses.

Qual foi o ponto alto da grandeza de Portugal?
O nosso século de grandeza vai de 1415 a 1515, da conquista de Ceuta à morte de Afonso de Albuquerque. É um tempo de excelência nacional, de uma dinastia luso-britânica em que uma sociedade nova, saída da guerra da independência, aproveita a circunstância peninsular e as crises de unificação da Espanha para ganhar massa crítica ultramarina e assim ficar pronta a enfrentar o futuro.
A sociedade portuguesa tem então liderança, apesar do choque de lideranças, como na crise que terminou em Alfarrobeira; tem um projecto e uma estratégia, que continuam com D. João I, o Infante D. Henrique, D. Afonso V, D. João II e D. Manuel. Isso resultou de uma convergência muito interessante de poderes e saberes políticos e religiosos, de uma mistura de interesses privados, curiosidade científica e sentido e razão de Estado.
O século sintetiza-se nos quatro heróis portugueses de Oliveira Salazar – o Condestável S. Nuno, o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. Um refunda e defende o Reino, o outro concebe a Cruzada e a Descoberta, o terceiro faz a Viagem, o último faz a Conquista do Índico e do seu comércio.
Vem depois um meio século de aguentar – com uma interessante política de equilíbrio na Europa e os princípios da colonização do Brasil. A seguir é Alcácer-Quibir e a queda, em 1580.
Depois da glória, vem esse tempo ainda misto até ao desastre de Alcácer-Quibir e à ocupação filipina: aquilo a que, em termos dinasticamente correctos, se chamou Monarquia Dual.
Os grandes poetas e visionários como Camões e o Padre António Vieira tiveram a noção disto. O povo e a parte corajosa e marginal das elites – como D. João de Castro – viveram-no e, para sobreviver, valeram-se do mito Sebástico, uma forma de resistência e de activismo patriótico.
Fernando Pessoa recontou e reformulou esta História no século XX, com os seus mitos fundacionais, os seus heróis e protagonistas. E Eduardo Lourenço vem acompanhando, de modo crítico, o que deles ainda vive, vale e interessa.

Mas hoje estamos num "limbo virtual", uma "espécie de purgatório pós-moderno", como afirma. Porquê?
Estamos sim. Fomos o primeiro Império ultramarino da modernidade e fomos também o último. Passámos também, caso raro num país europeu, por um curto ciclo revolucionário em que repetimos as ilusões trágico-cómicas da utopia comunista – isto nas vésperas do Comunismo real desaparecer como modelo político-económico e social.
A esquerda doméstica, criada no ódio vesgo a Salazar, que a afastou por quase meio século do poder, acabou por ser a grande sobrevivente do salazarismo. Com os seus mitos resistencialistas, com a sua dramatização heróica de um tempo em que não teve protagonismo, com a sua caricatura negra dos “Quarenta e Oito Anos de longa noite fascista”. Talvez estivesse no seu direito de vingança e compensação. Mas também não conseguiu ocultar, fora do ideológico, a modernização que aconteceu em Portugal nos últimos quinze anos do Estado Novo.
A radicalidade do PREC foi vencida graças à aliança objectiva entre a Intelligence norte-americana, a pressão europeia, o peso de Yalta e a resistência, às vezes brutal, do povo do Norte e Centro-Norte.
Em Novembro de 1975 (por isso chamei Novembro ao romance que escrevi e publiquei em 2012), acabaram os dois “projectos globais” portugueses – o da Direita, que era o Império ultramarino, e o da Esquerda, a Revolução socialista. Céus e Infernos trocados.
Fomos então para o purgatório, para esta espécie de liberal-social-democracia, mais ou menos de mercado, mais ou menos social, na faixa pobre da Europa. Por isso lhe chamo purgatório, pois saímos do Inferno ou da sua visão (do comunismo pêcêpista e dos esquerdismos maoístas), mas estamos longe do Céu – da nação independente, livre e desenvolvida, que nos foi sendo prometida.
Na classe política oriunda do velho Reviralho, os “antifascistas de sempre” converteram-se ao esquerdismo utópico e politicamente correcto. Renunciaram a todo e qualquer realismo político. São utópicos porque acham que lhes fica bem.
Agora que o liberalismo passou de moda (tantos foram os seus efeitos perversos), a direita sistémica refugia-se num catecismo eurocrático, mais ou menos funcional e asséptico. Ideias, nem vê-las, quanto mais tê-las.
Não há, em Portugal, um partido nacionalista – como há em França, na Grã-Bretanha e em muitos países da Europa Central e de Leste. Restaurar no léxico político-ideológico a nação como valor político corrente, seria um bom princípio.

Como pode o nosso país recuperar a sua soberania e, como refere, restaurar a "a ideia do primado da Nação como valor político"?
Como? Talvez comece a ser possível, esgotado que começa a estar o discurso do individualismo enumerador de direitos, garantias e liberdades sem fim nem conta e de “direitos sociais” extraordinários mas nunca aplicados.

Se a União Europeia não sabe para onde vai, qual a solução? Outro modelo europeu?
A Europa tem que se repensar como espaço económico, e até financeiro, mas no respeito das suas nações, das suas pátrias. Isto vai acontecer naturalmente, à medida que as nações se libertam do conformismo e do imobilismo e se desfazem os slogans que pretendem reduzir o nacionalismo à agressão e à guerra, agora tão repetidos por ocasião do centenário de 1914.

O actual conflito na Ucrânia anuncia um confronto maior?
Pode degradar-se. Se não tivermos cuidado em reduzi-lo, isolá-lo e resolvê-lo, num diálogo aberto e franco com Moscovo, e reconhecendo que a NATO, com os seus entusiasmos pós-Guerra Fria e o seu apostolado democrático, perturbou o equilíbrio europeu às portas da Rússia, pode mesmo degradar-se. Não perceber que Putin não podia perder a Crimeia, é não perceber nada de História nem de Cultura da Europa e da Rússia.

Há quem fale numa nova Guerra Fria. Concorda?
Não. Na Guerra Fria, a União Soviética e os seus satélites queriam impor um modelo político-social ao resto do mundo e contavam com os partidos comunistas. Hoje não existe nada disso.

O papel dos EUA e da NATO como “polícias do mundo” está hoje fragilizado? Considera que a administração Obama mudou o paradigma norte-americano de actuação internacional?
Obama é, acima de tudo, um retórico que cultiva a forma. Tem uma oratória sedutora, mas, na maioria das vezes, ou até de conteúdos contraditórios, desprovida de conteúdo. Depois do apostolado democrático de George W. Bush, com as guerras do Iraque e do Afeganistão, perturbadoras, perdidas mas consequentes, Obama não quer nenhum tipo de intervenção.
Nessa medida, o caso da “linha vermelha” na Síria foi paradigmático e preocupante. O governo de Damasco trespassou-a e Washington aproveitou a intervenção russa para não cumprir o prometido. Há um modelo de “melhor governo”, a democracia liberal que os Estados Unidos conhecem e querem exportar, mas, ao mesmo tempo, há a preocupação de não correr o risco de ter guerras e de ter baixas. Como toda a contradição, numa grande potência, esta é preocupante.

Qual deve ser a posição de Portugal na força geopolítica que é a lusofonia?
Portugal está na posição, nem sempre fácil, de ser o pai ou a mãe que os outros, para se afirmarem, têm de matar ou, pelo menos, de tratar mal. Tem também, por força da História e da Geografia, condicionamentos constitucionais e políticos que os outros não têm.
Precisa, por um lado, de manter uma respeitabilidade de velho senhor, mas não pode dar-se ao luxo de, ao querer impô-la a todos, desencadear a crise e a ruptura.
E depois há o Brasil, muito grande para a CPLP, e que tem dificuldade em aceitar a igualdade de desiguais que ela pressupõe.

A importância das relações de Portugal com os países lusófonos deve sobrepor-se às relações europeias?
Fomos sempre – desde o século XV que o somos – europeus, marítimos e luso-africanos. Temos que equilibrar estas faces históricas, políticas e culturais da nossa realidade. A cegueira europeísta dos dirigentes da “jovem democracia” dos anos oitenta causou-nos muitos problemas. Hoje, na Europa, tem que se coexistir inteligentemente com outras faces e realidades do nosso modo de ser e estar no mundo. Equilíbrios estratégicos, coerentes e guiados por uma inteligente razão de Estado.

Como vê o papel da CPLP? É preciso outro modelo?
Os modelos são o menos. Este serve para fazer coisas boas, coisas más e coisas assim-assim. Até pode servir para não fazer coisa nenhuma. O importante é o espírito e a substância da política.

Há muitos países não-lusófonos que têm interesse na CPLP. A entrada da Guiné Equatorial pode anunciar uma nova fase desta organização?
A entrada da Guiné Equatorial foi polémica, como não podia deixar de ser. É bom ter capacidade e plasticidade para explorar novos caminhos, mas tem sempre que haver um certo decoro, um princípio director, algumas regras elementares. Dito isto, pode haver uma geometria variável de estatutos de participação a negociar e desenvolver, mantendo um mínimo ético de referência.


Voltando ao seu “Portugal – Ascensão e queda”, há um fio condutor que nos faz crer numa nova ascensão. Acredita que os defensores da “inviabilidade de Portugal” estão errados e que no futuro possamos afirmar-nos de novo como Nação?
Citando um português que muito admirei pelo seu patriotismo e pelo modo coerente e corajoso como viveu e defendeu as suas ideias, Alberto Franco Nogueira, não posso nem quero admitir um princípio de suicídio colectivo, a inviabilidade nacional.
Contra mim falo, ou contra o que fui em certo momento trágico da vida do país, no desfazer do Império, quando disse “Portugal acabou”. Penso que não acabou. Tenho a certeza. O que é interessante na modernidade é a prolixidade com que vemos reformularem-se e reformarem-se eternas categorias como o Bem e o Mal, o Útil e do Inútil, a Verdade e a Mentira e as possibilidades de recriação e renascimento quase das cinzas que se oferecem às comunidades. Vimos, há vinte e cinco anos, comunidades e nações da Europa Oriental submetidas e escravizadas pelo comunismo soviético, levantarem-se bruscamente, outra vez livres.
Com a lucidez de quem viu e viveu muitos desastres e tragédias, colectivas e pessoais, posso dizer que a esperança fica sempre, como aquela centelha esquecida no rescaldo da água e das cinzas, que animada, volta a pegar e a propagar o fogo. Caímos tão fundo, que as leis da física hão-de levar-nos para cima.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nos 500 anos de 'O príncipe'

«Il Principe é um tratado sobre o Estado e a conquista do Estado. Um livro que, tal como o seu autor, teve a graça e a desgraça da popularidade, de ser citado e recitado por toda a gente a partir de referências em segunda mão e de fragmentos de divulgação jornalística. O longo estudo-prefácio de Pedullà tem o mérito de situar a obra no contexto e de retomar algumas das questões do 'enigma de Maquiavel': para que escreveu ele O Príncipe? Para conquistar as boas graças dos Médicis, de novo senhores de Florença? Por ter querido, como técnico ou tecnocrata da arte política, elaborar um 'espelho de príncipes' nos antípodas dos escritos pelos moralistas tardo-medievais e renascentistas; ou um panfleto patriótico, um apelo nacionalista, um discurso para libertar a Itália dos bárbaros? Entrando na polémica repúblicas-principados, terá Maquiavel pretendido defender os novos príncipes, os novos reinos unidos e centralizados pela razão de Estado, como forma de modernidade na nova Europa?

Há argumentos e contra-argumentos para todas estas interpretações. Em cinco séculos, O Príncipe, o seu autor e conjunto da sua obra deram lugar a intermináveis estudos, comentários, interpretações, rejeições. O que não deixa de ser natural, se aceitarmos que foi o 'inventor da Política'. Ou, pelo menos, da política moderna, como arte e razão do Estado, uma Política não subordinada à Religião, ou à Moral, ou ao Direito.

Com ele entramos numa terra estranha e incógnita, talvez não no 'Reino do Mal' de que fala Prezollini, mas num mundo e num submundo onde há alturas e abismos. Como tudo o que é humano, demasiado humano.

O Príncipe, na sua pedagogia asséptica e assustadora, escancara alguns desses abismos. É e será sempre, uma leitura necessária.»

Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Portugal no mundo

"Portugalliae que olim Lusitania, novissima & exactissima descriptio"
Fernando Álvares Seco (c. 1559-1561)

«A política de Portugal deriva da sua Geografia e da sua História que por sua vez determinaram a nossa existência independente no mundo.»

Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Utopias


«Uma das características das utopias - de todas as utopias, mas ainda mais das utopias igualitárias e libertárias - é conduzirem ao contrário dos seus objectivos, quando acontece a desgraça de serem postas em prática.»

Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Holodomor


«Holodomor – ‘morte pela fome’ – foi assim que ficou conhecida essa terrível praga que matou cerca de sete milhões de pessoas. Mas como é que uma região riquíssima agricolamente – antes e depois (hoje é um grande exportador de cereais) – chegou aí?

Os responsáveis são dois – um sistema de ideias e um homem – o colectivismo socialista e Estaline. Os princípios marxistas-leninistas de desenvolvimento económico, implantados depois da revolução de 1917 e da vitória bolchevique na guerra civil, priorizavam a colectivização da agricultura: houve, no princípio, a supressão dos grandes latifúndios, mas em 1922, com a Nova Política Económica, as terras nacionalizadas foram apropriadas às centenas de milhares de kulaks, o nome pejorativo dos pequenos proprietários autónomos que recorriam ao emprego de outros.

Segundo Robert Conquest, no seu clássico The Great Terror, «a colectivização destruiu cerca de 25% da capacidade produtiva da agricultura soviética». Mas na Ucrânia tudo foi pior: as colheitas foram confiscadas para exportação e os produtores e suas famílias deixados morrer à fome. Aqueles que resistiam, escondiam grão ou gado, ou em desespero tentavam subtrair alimentos das granjas colectivas, eram presos, enviados para os campos de concentração da Sibéria ou executados no local. Brigadas de comunistas devotos, enquadrados pela GPU (polícia política soviética), percorriam a Ucrânia, saqueando e queimando aldeias, casas e propriedades dos ‘inimigos do povo’.

«Os homens morriam primeiro, depois as crianças, no fim as mulheres», escreveu um contemporâneo. Os poucos documentos fotográficos e fílmicos são tenebrosos.

Foi um caso claro de genocídio deliberado e executado por razões ideológicas e deve ser encarado não apenas como o produto da crueldade racional ou paranóica de um homem – Estaline – mas como o resultado natural de um sistema de ideias de um modelo político-social.

Um sistema que, por todo o mundo do século XX, produziu alguns dos maiores desastres da História da Humanidade. Sete milhões de ucranianos, numa população de trinta milhões perderam a vida. O Governo soviético ocultou o genocídio e para isso teve a cumplicidade não só dos comunistas de toda a Europa, mas também das esquerdas, desconfiadas do que lhes parecia uma campanha reaccionária.

A Rússia era então o único país comunista do mundo. Álvaro Cunhal, o futuro líder do PCP, tinha 20 anos.»

Jaime Nogueira Pinto

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

"Muitos inimigos, muita honra"

Na última edição do «Sol», Jaime Nogueira Pinto escreve sobre "os bons e os maus", a propósito da auto-atribuída superioridade moral da esquerda.

Diz ele: "Tenho alguma experiência dos tempos de faculdade, quando fazia parte de uma minoria resistente frente às maiorias associativas. Nessa altura de ‘muitos inimigos, muita honra’ não me incomodava e até achava estimulante. Hoje continua a não me incomodar, mas já não lhe acho tanta graça, até pela pobreza de espírito que revela.

É sabido que há causas ‘boas’ servidas por gente ‘má’ e gente ‘boa’ ao serviço de causas ‘más’, e que os nossos não são necessariamente bons nem os outros necessariamente maus. Mas alguma esquerda, por cinismo, fanatismo ou burrice (também há burros do lado de lá, graças a Deus) persiste nesta obsessão maniqueísta. Para eles, há ideias intrinsecamente perversas (todas as que não vêm na cartilha), e os que as perfilham – nacionalistas, conservadores, liberais – são inevitavelmente indivíduos tacanhos e de má rês, exploradores perversos e desumanos.

De onde vem este complexo, este demónio da rectidão da esquerda façanha? De Rousseau e da vontade geral, ou de Robespierre, o da virtude pela guilhotina? Imitam Lenine e os bolcheviques, ou Estaline e os cúmplices que exterminou? Inspiram-se nos anarquistas e comunistas espanhóis que mataram sete mil padres ou, mais recentemente, nos maoístas e Khmers Vermelhos? Toda esta gente proibiu, encarcerou, matou, massacrou, fez campos de concentração, sempre em nome de grandes e nobres princípios, da mesma compaixão e solidariedade, que, segundo agora dizem, faltavam a António Borges.

Estes intelectuais e articulistas não mataram nem matam ninguém, mas eles e os seus homólogos europeus foram celebrando à distância, do alto do cachimbo e da eterna camisa à pescador, essas grandes vitórias da humanidade.

Só discordo de João Miguel Tavares quando diz que tudo isto é falta de democracia: os ‘democratas’ portugueses sempre entenderam, desde a Primeira República, a democracia como o governo dos democratas. E democratas, para eles, são eles, os antifascistas. Só eles e mais nenhuns."

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A propósito de 'The Great Gatsby'

Há uma semana, na sua habitual coluna no semanário «Sol», Jaime Nogueira Pinto escreveu, sob o título "Gatsby e a decadência", que "no início do The Great Gatsby, Tom Buchanan (o milionário que casou com Daisy, a paixão de Gatsby), refere alarmado a leitura de um livro de um tal Godard que profetiza a decadência da raça branca e a ascensão dos povos de cor. O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, cuja acção decorre no Verão de 1922, saiu em 1925. Oswald Spengler publicou o segundo volume da Decadência do Ocidente em 1922. Fitzgerald não sabia alemão, a tradução em inglês é de 1926, mas teve, seguramente, notícia do livro, até porque a obra de Spengler atingiu em poucos anos os 150 mil exemplares". A partir daqui, desenvolve um raciocínio sobre a "a decadência do Ocidente, melhor, da Europa".



No entanto, a inspiração de F. Scott Fitzgerald não foi a obra do historiador filósofo alemão Oswald Spengler, mas o o livro mais conhecido do norte-americano Lothrop Stoddard. Em "The Great Gatsby", o livro que Tom Buchanan refere é "The Rise of the Colored Empires", da autoria de Goddard. Aqui se nota a influência directa de "The Rising Tide of Color Against White World-Supremacy", publicado em 1920, de Lothrop Stoddard, que escreveu várias outras obras sobre o mesmo tema. As semelhanças nos títulos e nos nomes dos autores não deixam dúvidas, tal como a data de publicação, anterior ao "The Great Gatsby". Há ainda a hipótese de o nome Goddard ser inspirado pelo do psicólogo e eugenista norte-americano Henry H. Goddard.

É curioso que foi esta passagem do livro que, quando estudei "The Great Gatsby" no liceu, me despertou a curiosidade e me levou a saber da existência de autores como Lothrop Stoddard e Madison Grant, principais figuras entre os chamados "racialistas científicos" norte-americanos do início do século XX. Por fim, esta referência de Fitzgerald mostra como o tema estava na ordem do dia naquele tempo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"Outra raça"



«Jaime Neves era de outra raça, de uma raça de portugueses para quem Portugal valia mais, muito mais que o regime político.»

Jaime Nogueira Pinto
in «Sol».

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Novembro


Este é o mês certo para ler "Novembro", o recém-publicado romance de Jaime Nogueira Pinto, cujo lançamento é hoje às 18:30, no Café Império, em Lisboa, com apresentação de Vasco Graça Moura. É a primeira ficção deste autor, que viaja até ao início dos anos 70 para construir uma história que tem muito de si e daqueles que também tinham 20 anos no 25 de Abril, mas que estavam "do outro lado". Uma leitura fascinante.

sábado, 6 de outubro de 2012

Hemeroteca (X)


A última entrada na minha colecção de jornais foi um conjunto de 23 edições de "Política", dirigido por Jaime Nogueira Pinto. Fica prometido um destaque para breve.

sábado, 29 de setembro de 2012

Recordar Nimier


Jaime Nogueira Pinto recordou ontem o escritor hussard Roger Nimier (31/10/1925 - 28/9/1962), no semanário "Sol", aqui fica um excerto:

«Nimier morreu precisamente há cinquenta anos, na noite de 28 para 29 de Setembro, ao volante de um Aston-Martin, ao lado de uma mulher bonita. Não se suicidou como Drieu, nem acabou de velho como o seu amigo Paul Morand. Morreu na estrada, como Camus dois anos antes, ou James Dean em 1955. Seis dias antes já morrera assim outro dos nossos inspiradores – Jean René Huguenin, o autor de um romance único, La Côte Sauvage.
Nimier nascera em 1925, em Paris. Boa burguesia, pai normando, mãe da Piccardie. Não tinha idade para ter tomado posições na guerra e na ocupação, mas alistou-se no Deuxième Hussard, a seguir à Libertação e entrou em combate. Licenciou-se em Filosofia, começou a escrever, passou por editoras e revistas. E começou uma carreira relâmpago de romancista e guionista e enfant terrible. Li entre os quinze e os vinte anos os seus romances – Les Épées, Les Enfants Tristes, L’Hussard Bleu, Histoire d’un Amour.
Na altura, estava a sair de uma adolescência tímida de grandes leituras e paixões silenciosas para uma adolescência activista – onde continuaram as leituras e as paixões, mas já não a timidez. Os heróis de Nimier eram insolentes, apaixonados, secretos e ajudaram-me, por sugestão e imitação, a desenhar um imaginário que foi servindo, também, para modelar a realidade. Era uma direita literária e política não conformista, insolente, que quebrava os tabus da cultura instalada na Rive Gauche, entre o papado de Sartre e os dogmas da superioridade ética e estética das esquerdas.
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