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terça-feira, 26 de novembro de 2013
Holodomor
«Holodomor – ‘morte pela fome’ – foi assim que ficou conhecida essa terrível praga que matou cerca de sete milhões de pessoas. Mas como é que uma região riquíssima agricolamente – antes e depois (hoje é um grande exportador de cereais) – chegou aí?
Os responsáveis são dois – um sistema de ideias e um homem – o colectivismo socialista e Estaline. Os princípios marxistas-leninistas de desenvolvimento económico, implantados depois da revolução de 1917 e da vitória bolchevique na guerra civil, priorizavam a colectivização da agricultura: houve, no princípio, a supressão dos grandes latifúndios, mas em 1922, com a Nova Política Económica, as terras nacionalizadas foram apropriadas às centenas de milhares de kulaks, o nome pejorativo dos pequenos proprietários autónomos que recorriam ao emprego de outros.
Segundo Robert Conquest, no seu clássico The Great Terror, «a colectivização destruiu cerca de 25% da capacidade produtiva da agricultura soviética». Mas na Ucrânia tudo foi pior: as colheitas foram confiscadas para exportação e os produtores e suas famílias deixados morrer à fome. Aqueles que resistiam, escondiam grão ou gado, ou em desespero tentavam subtrair alimentos das granjas colectivas, eram presos, enviados para os campos de concentração da Sibéria ou executados no local. Brigadas de comunistas devotos, enquadrados pela GPU (polícia política soviética), percorriam a Ucrânia, saqueando e queimando aldeias, casas e propriedades dos ‘inimigos do povo’.
«Os homens morriam primeiro, depois as crianças, no fim as mulheres», escreveu um contemporâneo. Os poucos documentos fotográficos e fílmicos são tenebrosos.
Foi um caso claro de genocídio deliberado e executado por razões ideológicas e deve ser encarado não apenas como o produto da crueldade racional ou paranóica de um homem – Estaline – mas como o resultado natural de um sistema de ideias de um modelo político-social.
Um sistema que, por todo o mundo do século XX, produziu alguns dos maiores desastres da História da Humanidade. Sete milhões de ucranianos, numa população de trinta milhões perderam a vida. O Governo soviético ocultou o genocídio e para isso teve a cumplicidade não só dos comunistas de toda a Europa, mas também das esquerdas, desconfiadas do que lhes parecia uma campanha reaccionária.
A Rússia era então o único país comunista do mundo. Álvaro Cunhal, o futuro líder do PCP, tinha 20 anos.»
Jaime Nogueira Pinto
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Os nossos guerreiros medievais
Miguel Gomes Martins, doutor em História da Idade Média pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é técnico superior do Gabinete de Estudos Olisiponenses, investigador, professor universitário e autor de várias obras dedicadas à História Militar Medieval. O seu mais recente livro é "Guerreiros Medievais Portugueses". Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo», publicada na edição de 24 de Setembro.
A guerra na Idade Média continua a encantar o público português?
Estou plenamente convencido que sim. O sucesso de séries televisivas, romances históricos ou mesmo jogos de computador, cujo pano de fundo é a Idade Média – mesmo que mitificada e envolvida num ambiente de fantasia – são uma prova dessa curiosidade e desse, como lhe chamou, encantamento. E se a tudo isso somarmos a circunstância de muitas dessas séries, romances e jogos terem a guerra como principal fio condutor, creio que poucas dúvidas restarão acerca do interesse pelos episódios militares desse período, mas também pela forma como se organizava e praticava a guerra.
Neste novo livro, como foi a escolha dos guerreiros tratados?
Tratou-se de uma escolha que partiu de uma primeira lista – mais meramente provisória – composta pelas figuras que, na minha perspectiva, melhor representavam, na cronologia em análise, o estereótipo do guerreiro medieval português. Importa, no entanto, sublinhar que a lista inicial foi sujeita a inúmeras alterações, ora em consequência das fontes disponíveis – que nem sempre permitiam uma abordagem minimamente desenvolvida e sólida –, ou da necessidade de se evitar a repetição de episódios, ora em resultado de uma ou de outra sugestão dos meus amigos e colegas medievalistas com quem troquei inúmeras ideias a respeito deste projecto.
Houve uma abordagem diferente nos mais conhecidos, como Nun'Álvares ou Geraldo Sem Pavor?
Creio que, mesmo quando se tratam de figuras relativamente conhecidas – como as que referiu –, só o facto de a minha observação se centrar no seu trajecto militar torna, por si só, esta análise inovadora. Claro que algumas das questões abordadas foram já objecto de análise noutros estudos, mas a forma como são aqui apresentadas e articuladas confere-lhes, penso eu, bastante originalidade.
Dos menos conhecidos, quais destacaria?
Perguntar-me isso, é quase o mesmo que perguntar a um pai, de qual dos seus filhos gosta mais. Mas vou tentar não fugir à questão dizendo-lhe que talvez tenha ficado surpreendido com a riqueza do percurso de Afonso Peres Farinha, um homem que inicia a sua carreira militar como um cavaleiro que pouco mais tem que as suas armas e cavalo, que ingressa na Ordem do Hospital onde atinge o topo da hierarquia em Portugal, que por três vezes viaja até ao Médio Oriente e que se converte num dos principais conselheiros de Afonso III. O mesmo se passou com a figura de Álvaro Vaz de Almada, um indivíduo que combate em Ceuta, que luta ao lado do infante D. Pedro nas fronteiras orientais do Império Romano-Germânico e nos palcos da Guerra dos Cem Anos, que está presente no cerco a Tânger, que desempenha um papel central na Guerra Civil da regência do infante D. Pedro e nos acontecimentos que desembocarão na Batalha de Alfarrobeira, onde virá a encontrar a morte.
Houve também a preocupação de não tratar apenas guerreiros vitoriosos...
Sim, essa foi, desde logo, uma das minhas preocupações, já que a Guerra faz-se de vitórias e de derrotas e só nesta dupla componente podemos entender todas as dimensões deste fenómeno. Foi justamente por isso que procurei também estudar alguns comandantes militares menos bem sucedidos como D. Fernando, senhor de Serpa ou do infante D. Afonso, senhor de Portalegre, que apesar dos revezes que marcaram os seus percursos, nem por isso deixam de ser grandes senhores da guerra e, como tal, merecedores da nossa atenção.
Há uma diferença entre os nossos guerreiros medievais e os de outros países europeus?
As diferenças podem ser mais visíveis ao nível da constituição dos exércitos, em particular da dimensão dos mesmos. Com efeito, um país pequeno, pouco povoado e, como tal, com uma base de recrutamento mais reduzida que, por exemplo, o nosso vizinho castelhano-leonês, tem naturalmente como resultado a mobilização de exércitos mais reduzidos. Também o facto de a Reconquista portuguesa ter terminado em 1249-1250, ou seja, mais de dois séculos antes da Castelhano-Leonesa, veio retirar aos combatentes e, consequentemente, aos exércitos portugueses boa parte das rotinas de combate que até então haviam sido adquiridas devido a um estado de guerra permanente com o Islão. Todavia, o facto de desde 1128 termos conseguido – tantas vezes pela força das armas – preservar a nossa independência, demonstra que todos esses problemas acabaram sempre por ser ultrapassados e solucionados, já que a Coroa, consciente dessa fragilização, procurou, por diversas vezes – e sempre com sucesso – obviar a essas dificuldades que, em última análise e caso se arrastassem, poderiam por em xeque a independência do reino. E recordo apenas as medidas levadas a cabo por D. Dinis, Afonso IV e D. Fernando, no sentido de conferir uma maior eficácia aos diversos corpos (contingentes nobres, milícias concelhias, guarda do rei e ordens militares) que compunham a hoste régia; ou ainda as alianças militares com outros reinos e que possibilitaram, por exemplo, a importante presença de combatentes ingleses em Aljubarrota.
Tínhamos comandantes de alto nível...
Tivemos, sem dúvida, comandantes extremamente competentes. O génio estratégico de Geraldo O Sem-Pavor; ou o brilhantismo táctico de Nuno Álvares Pereira são, provavelmente os exemplos mais expressivo da qualidade de alguns dos comandantes observados neste estudo. Mas eu creio que a competência destes homens não se revela apenas no planeamento e no comando das campanhas ou dos combates, mas também enquanto administradores e gestores. Recordemos apenas Gualdim Pais, enquanto mestre da Ordem do Templo em Portugal; ou Estêvão Vasques Filipe enquanto anadel-mor dos besteiros do conto do reino.
Também fala no treino e na formação dos comandantes militares, pode resumir em que consistia?
Trata-se de uma questão central na preparação dos combatentes – sobretudo dos nobres – em particular dos comandantes, ou daqueles que aspiravam vir a comandar tropas. Contudo, por não existirem exércitos permanente, era impossível desenvolver um programa de treino colectivo, pelo que a aprendizagem e o adestramento tinha, obrigatoriamente que se processar a título individual.
A preparação começava cedo, com os jovens a exercitar-se no manejo das armas e na equitação, combinando essas duas actividades, mais tarde, no jogo da quintana ou na prática da montaria, com o combatente a investir contra animais de médio e de grande porte (ursos, veados, javalis), de lança empunhada, como numa carga de cavalaria.
Claro que em algumas ocasiões era possível desenvolver um treino colectivo, nomeadamente nos torneios, desportos marciais que opunham duas equipas, ao contrário das justas, disputadas por apenas dois adversários. Tanto umas como outras, tiveram um grande sucesso na Europa Medieval, um fenómeno a que Portugal não foi excepção.
Mas não se pense que a formação dos combatentes se fazia apenas numa base prática. Com efeito, existia também uma importante componente teórica, em que obras como o “Epitoma Rei Militaris”, de Vegécio; ou as “Siete Partidas”, de Afonso X, entre muitas outras, desempenhavam um papel central na preparação dos combatentes. Complementavam-se com outros tipos de leituras, como as crónicas, a poesia épica ou os livros de linhagem que, para muitos – como o jovem Nuno Álvares Pereira – serviam como fonte de inspiração para os feitos que ambicionavam vir a alcançar, mas onde encontravam também os modelos cavaleirescos que procuravam imitar.
Acha que obras como as suas despertam no grande público a curiosidade numa Idade Média que não é a fantasia dos romances de cavalaria?
Assim o espero. Na realidade, este trabalho encontra-se dirigido não só aos Historiadores, investigadores, docentes e estudantes universitários, mas também a um público vasto e diversificado e que, de uma forma ou de outra, se interessa pela História do seu país durante a Idade Média. Foi com esse objectivo que procurei despojá-lo – sem no entanto perder nunca de vista o rigor e o carácter científico da análise – de algum peso excessivamente académico e de uma linguagem técnica demasiado complexa que, na minha perspectiva, têm sido dois dos principais motivos para o afastamento entre a História e o grande público.
Que reacções teve ao seu último livro, "De Ourique a Aljubarrota – A Guerra na Idade Média"?
As reacções, tenho que reconhecer, suplantaram as minhas expectativas iniciais. A forma como o livro foi acolhido, tanto pelos especialistas, quanto pelo grande público e o eco que teve nos meios de comunicação social foram, sem dúvida, sinais de que a missão a que me tinha proposto havia sido inteiramente cumprida. Estou também convicto que, comercialmente, se tratou de uma aposta ganha pela Esfera dos Livros, pois de outro modo não me teriam lançado o desafio para este “Guerreiros Medievais Portugueses”.
Acha que os nossos guerreiros medievais continuam a ser vistos como um exemplo nos nossos dias?
Uma das funções da História é a de nos ajudar a compreender o presente e a entender quais os caminhos do futuro e as opções que se nos colocam, como indivíduos, mas também como povo, pelo que tanto as derrotas quanto as vitórias destes homens – e não apenas as militares – devem ser lidas também como lições, como avisos e, em alguns casos, como exemplos a seguir, ou não.
A guerra na Idade Média continua a encantar o público português?
Estou plenamente convencido que sim. O sucesso de séries televisivas, romances históricos ou mesmo jogos de computador, cujo pano de fundo é a Idade Média – mesmo que mitificada e envolvida num ambiente de fantasia – são uma prova dessa curiosidade e desse, como lhe chamou, encantamento. E se a tudo isso somarmos a circunstância de muitas dessas séries, romances e jogos terem a guerra como principal fio condutor, creio que poucas dúvidas restarão acerca do interesse pelos episódios militares desse período, mas também pela forma como se organizava e praticava a guerra.
Neste novo livro, como foi a escolha dos guerreiros tratados?
Tratou-se de uma escolha que partiu de uma primeira lista – mais meramente provisória – composta pelas figuras que, na minha perspectiva, melhor representavam, na cronologia em análise, o estereótipo do guerreiro medieval português. Importa, no entanto, sublinhar que a lista inicial foi sujeita a inúmeras alterações, ora em consequência das fontes disponíveis – que nem sempre permitiam uma abordagem minimamente desenvolvida e sólida –, ou da necessidade de se evitar a repetição de episódios, ora em resultado de uma ou de outra sugestão dos meus amigos e colegas medievalistas com quem troquei inúmeras ideias a respeito deste projecto.
Houve uma abordagem diferente nos mais conhecidos, como Nun'Álvares ou Geraldo Sem Pavor?
Creio que, mesmo quando se tratam de figuras relativamente conhecidas – como as que referiu –, só o facto de a minha observação se centrar no seu trajecto militar torna, por si só, esta análise inovadora. Claro que algumas das questões abordadas foram já objecto de análise noutros estudos, mas a forma como são aqui apresentadas e articuladas confere-lhes, penso eu, bastante originalidade.
Dos menos conhecidos, quais destacaria?
Perguntar-me isso, é quase o mesmo que perguntar a um pai, de qual dos seus filhos gosta mais. Mas vou tentar não fugir à questão dizendo-lhe que talvez tenha ficado surpreendido com a riqueza do percurso de Afonso Peres Farinha, um homem que inicia a sua carreira militar como um cavaleiro que pouco mais tem que as suas armas e cavalo, que ingressa na Ordem do Hospital onde atinge o topo da hierarquia em Portugal, que por três vezes viaja até ao Médio Oriente e que se converte num dos principais conselheiros de Afonso III. O mesmo se passou com a figura de Álvaro Vaz de Almada, um indivíduo que combate em Ceuta, que luta ao lado do infante D. Pedro nas fronteiras orientais do Império Romano-Germânico e nos palcos da Guerra dos Cem Anos, que está presente no cerco a Tânger, que desempenha um papel central na Guerra Civil da regência do infante D. Pedro e nos acontecimentos que desembocarão na Batalha de Alfarrobeira, onde virá a encontrar a morte.
Houve também a preocupação de não tratar apenas guerreiros vitoriosos...
Sim, essa foi, desde logo, uma das minhas preocupações, já que a Guerra faz-se de vitórias e de derrotas e só nesta dupla componente podemos entender todas as dimensões deste fenómeno. Foi justamente por isso que procurei também estudar alguns comandantes militares menos bem sucedidos como D. Fernando, senhor de Serpa ou do infante D. Afonso, senhor de Portalegre, que apesar dos revezes que marcaram os seus percursos, nem por isso deixam de ser grandes senhores da guerra e, como tal, merecedores da nossa atenção.
Há uma diferença entre os nossos guerreiros medievais e os de outros países europeus?
As diferenças podem ser mais visíveis ao nível da constituição dos exércitos, em particular da dimensão dos mesmos. Com efeito, um país pequeno, pouco povoado e, como tal, com uma base de recrutamento mais reduzida que, por exemplo, o nosso vizinho castelhano-leonês, tem naturalmente como resultado a mobilização de exércitos mais reduzidos. Também o facto de a Reconquista portuguesa ter terminado em 1249-1250, ou seja, mais de dois séculos antes da Castelhano-Leonesa, veio retirar aos combatentes e, consequentemente, aos exércitos portugueses boa parte das rotinas de combate que até então haviam sido adquiridas devido a um estado de guerra permanente com o Islão. Todavia, o facto de desde 1128 termos conseguido – tantas vezes pela força das armas – preservar a nossa independência, demonstra que todos esses problemas acabaram sempre por ser ultrapassados e solucionados, já que a Coroa, consciente dessa fragilização, procurou, por diversas vezes – e sempre com sucesso – obviar a essas dificuldades que, em última análise e caso se arrastassem, poderiam por em xeque a independência do reino. E recordo apenas as medidas levadas a cabo por D. Dinis, Afonso IV e D. Fernando, no sentido de conferir uma maior eficácia aos diversos corpos (contingentes nobres, milícias concelhias, guarda do rei e ordens militares) que compunham a hoste régia; ou ainda as alianças militares com outros reinos e que possibilitaram, por exemplo, a importante presença de combatentes ingleses em Aljubarrota.
Tínhamos comandantes de alto nível...
Tivemos, sem dúvida, comandantes extremamente competentes. O génio estratégico de Geraldo O Sem-Pavor; ou o brilhantismo táctico de Nuno Álvares Pereira são, provavelmente os exemplos mais expressivo da qualidade de alguns dos comandantes observados neste estudo. Mas eu creio que a competência destes homens não se revela apenas no planeamento e no comando das campanhas ou dos combates, mas também enquanto administradores e gestores. Recordemos apenas Gualdim Pais, enquanto mestre da Ordem do Templo em Portugal; ou Estêvão Vasques Filipe enquanto anadel-mor dos besteiros do conto do reino.
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Trata-se de uma questão central na preparação dos combatentes – sobretudo dos nobres – em particular dos comandantes, ou daqueles que aspiravam vir a comandar tropas. Contudo, por não existirem exércitos permanente, era impossível desenvolver um programa de treino colectivo, pelo que a aprendizagem e o adestramento tinha, obrigatoriamente que se processar a título individual.
A preparação começava cedo, com os jovens a exercitar-se no manejo das armas e na equitação, combinando essas duas actividades, mais tarde, no jogo da quintana ou na prática da montaria, com o combatente a investir contra animais de médio e de grande porte (ursos, veados, javalis), de lança empunhada, como numa carga de cavalaria.
Claro que em algumas ocasiões era possível desenvolver um treino colectivo, nomeadamente nos torneios, desportos marciais que opunham duas equipas, ao contrário das justas, disputadas por apenas dois adversários. Tanto umas como outras, tiveram um grande sucesso na Europa Medieval, um fenómeno a que Portugal não foi excepção.
Mas não se pense que a formação dos combatentes se fazia apenas numa base prática. Com efeito, existia também uma importante componente teórica, em que obras como o “Epitoma Rei Militaris”, de Vegécio; ou as “Siete Partidas”, de Afonso X, entre muitas outras, desempenhavam um papel central na preparação dos combatentes. Complementavam-se com outros tipos de leituras, como as crónicas, a poesia épica ou os livros de linhagem que, para muitos – como o jovem Nuno Álvares Pereira – serviam como fonte de inspiração para os feitos que ambicionavam vir a alcançar, mas onde encontravam também os modelos cavaleirescos que procuravam imitar.
Acha que obras como as suas despertam no grande público a curiosidade numa Idade Média que não é a fantasia dos romances de cavalaria?
Assim o espero. Na realidade, este trabalho encontra-se dirigido não só aos Historiadores, investigadores, docentes e estudantes universitários, mas também a um público vasto e diversificado e que, de uma forma ou de outra, se interessa pela História do seu país durante a Idade Média. Foi com esse objectivo que procurei despojá-lo – sem no entanto perder nunca de vista o rigor e o carácter científico da análise – de algum peso excessivamente académico e de uma linguagem técnica demasiado complexa que, na minha perspectiva, têm sido dois dos principais motivos para o afastamento entre a História e o grande público.
Que reacções teve ao seu último livro, "De Ourique a Aljubarrota – A Guerra na Idade Média"?
As reacções, tenho que reconhecer, suplantaram as minhas expectativas iniciais. A forma como o livro foi acolhido, tanto pelos especialistas, quanto pelo grande público e o eco que teve nos meios de comunicação social foram, sem dúvida, sinais de que a missão a que me tinha proposto havia sido inteiramente cumprida. Estou também convicto que, comercialmente, se tratou de uma aposta ganha pela Esfera dos Livros, pois de outro modo não me teriam lançado o desafio para este “Guerreiros Medievais Portugueses”.
Acha que os nossos guerreiros medievais continuam a ser vistos como um exemplo nos nossos dias?
Uma das funções da História é a de nos ajudar a compreender o presente e a entender quais os caminhos do futuro e as opções que se nos colocam, como indivíduos, mas também como povo, pelo que tanto as derrotas quanto as vitórias destes homens – e não apenas as militares – devem ser lidas também como lições, como avisos e, em alguns casos, como exemplos a seguir, ou não.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 68
O mais recente número da excelente «La Nouvelle Revue d'Histoire», dirigida por Philippe Conrad, tem como tema central o Midi dos trovadores e dos cátaros e oferece um óptimo dossier onde podemos ler artigos sobre "O condado de Toulouse", de Sophie Cassar, sobre "A civilização do Midi languedociano no século XII" e "De Frédéric Mistral a Larzac", de Rémi Soulié, "A implantação da heresia no Languedoc" e "O cerco de Montségur", de Bernard Fontaine, "1213 : Muret, a batalha decisiva", de Martin Aurell "A Inquisição, mito e realidade", de Pierre de Meuse, "Simon de Montfort, de François Fresnay, e "A heresia cátara revisitada" e "O Midi languedociano, das origens ao século XX", de Philippe Conrad.
Para além do dossier, destaque para a entrevista com o general Maurice Faivre, "Das informações à História", e os artigos "O Csar Alexandre II ou a reforma impossível", de Emma Demeester, "A ressureição dos etruscos", de Michel Lentigny, e "Verdi e o Risorgimento", de Michel Ostenc, bem como as secções habituais.
Para além do dossier, destaque para a entrevista com o general Maurice Faivre, "Das informações à História", e os artigos "O Csar Alexandre II ou a reforma impossível", de Emma Demeester, "A ressureição dos etruscos", de Michel Lentigny, e "Verdi e o Risorgimento", de Michel Ostenc, bem como as secções habituais.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
A História continua
Depois do suicídio de Dominique Venner em frente ao altar da Catedral de Notre-Dame, em Paris, no passado dia 21 de Maio, os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, publicação de referência na divulgação histórica por ele fundada e dirigida, questionaram-se sobre a sua continuidade. Como se previa, o seu sucessor foi o historiador Philippe Conrad.
“La Nouvelle Revue d’Histoire” foi fundada em Julho de 2002 por Dominique Venner e um grupo de historiadores franceses com o objectivo de ir além das interpretações parciais da História, contrariando a tendência de analisar o nosso passado numa perspectiva maniqueísta de “bons” e maus”. Sucessora de “Enquête sur l'Histoire”, também dirigida por Venner e que foi publicada de 1991 a 1999, a revista cedo se tornou uma referência no seio das publicações periódicas sobre História em França, mas também no estrangeiro. Em Portugal é possível adquiri-la em vários locais pelo preço de 7,90 euros.
No último número dirigido por Dominique Venner, o 66, surgiu a resposta indirecta a uma questão que os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire” devem ter feito: a da continuação da revista. No ‘post scriptum’ do seu editorial do número anterior, Venner afirmou que para aquela edição e para as seguintes ia contar ainda mais com o apoio do seu amigo e um dos fundadores da revista, o reputado historiador Philippe Conrad. Era um anúncio de quem seria o novo director. Neste momento, estão disponíveis nas bancas portuguesas duas edições da revista: um número especial, ainda sob a direcção de Venner, e o n.º 67, dirigido por Conrad.
Napoleão. O fim do império
O sexto número especial de “La Nouvelle Revue d’Histoire” tem como tema “Napoleão. Leipzig 1813”, analisando o fim do seu império europeu. No editorial, Venner afirma que o ‘dossier’ desta edição é realizado sob a direcção de Philippe Conrad e analisa com precisão o que foram para Napoleão as causas e as consequências da derrota de Leipzig. Este número está dividido em duas partes, sendo a primeira “A potência em questão” e a segunda “Leipzig 1813, a batalha das nações”. Na primeira, dedicada às guerra antes de Leipzig, podemos ler os artigos “A Inglaterra contra a França”, de Nicolas Vimar, “Tudo começou em Espanha”, de Jean-Joel Brégeon, “As consequências do desastre russo”, de Clément Mesdon, “O jogo duplo de Metternich”, de Martin Benoist, a entrevista com P. Willy Brandt sobre a entrada em cena da Prússia, entre outros. A segunda parte abre com uma cronologia de 1813 feita por Philippe Conrad, que também assina o artigo sobre o reformador prussiano Clausewitz e inclui vários artigos sobre essa batalha decisiva, bem como um sobre o despertar do romantismo alemão, de Alain de Benoist, e outra sobre 1813 na memória alemã, de Thierry Buron.
Roma, cidade eterna
O n.º 67 de “La Nouvelle Revue d’Histoire” tem Roma como tema central, com um excelente ‘dossier’ que inclui artigos desde a fundação da cidade até ao tempo de Mussolini, onde se destacam os artigos Como o Império se tornou cristão”, de Dominique Venner, “O papado romano na Idade Média”, de Bernard Fontaine, “A Roma de Mussolini”, de Michel Ostenc, e “De Roma à Cinecitta”, de Philippe d’Hugues. Sendo o primeiro número publicado depois do suicídio do seu fundador, há quatro página com homenagens a Dominique Venner de várias figuras da cultura francesa e europeia. Destaque também para a entrevista com Anne Cheng sobre a “China de hoje e de ontem”, o texto “Da esquerda ao capitalismo absoluto”, de Dominique Venner, e o artigo sobre Henri Béraud, de Francis Bergeron. Conrad revela-se, como se esperava, um excelente sucessor de Venner na direcção da revista, que mantém toda a qualidade e interesse.
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| Dominique Venner |
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| Philippe Conrad |
Napoleão. O fim do império
O sexto número especial de “La Nouvelle Revue d’Histoire” tem como tema “Napoleão. Leipzig 1813”, analisando o fim do seu império europeu. No editorial, Venner afirma que o ‘dossier’ desta edição é realizado sob a direcção de Philippe Conrad e analisa com precisão o que foram para Napoleão as causas e as consequências da derrota de Leipzig. Este número está dividido em duas partes, sendo a primeira “A potência em questão” e a segunda “Leipzig 1813, a batalha das nações”. Na primeira, dedicada às guerra antes de Leipzig, podemos ler os artigos “A Inglaterra contra a França”, de Nicolas Vimar, “Tudo começou em Espanha”, de Jean-Joel Brégeon, “As consequências do desastre russo”, de Clément Mesdon, “O jogo duplo de Metternich”, de Martin Benoist, a entrevista com P. Willy Brandt sobre a entrada em cena da Prússia, entre outros. A segunda parte abre com uma cronologia de 1813 feita por Philippe Conrad, que também assina o artigo sobre o reformador prussiano Clausewitz e inclui vários artigos sobre essa batalha decisiva, bem como um sobre o despertar do romantismo alemão, de Alain de Benoist, e outra sobre 1813 na memória alemã, de Thierry Buron.
Roma, cidade eterna
O n.º 67 de “La Nouvelle Revue d’Histoire” tem Roma como tema central, com um excelente ‘dossier’ que inclui artigos desde a fundação da cidade até ao tempo de Mussolini, onde se destacam os artigos Como o Império se tornou cristão”, de Dominique Venner, “O papado romano na Idade Média”, de Bernard Fontaine, “A Roma de Mussolini”, de Michel Ostenc, e “De Roma à Cinecitta”, de Philippe d’Hugues. Sendo o primeiro número publicado depois do suicídio do seu fundador, há quatro página com homenagens a Dominique Venner de várias figuras da cultura francesa e europeia. Destaque também para a entrevista com Anne Cheng sobre a “China de hoje e de ontem”, o texto “Da esquerda ao capitalismo absoluto”, de Dominique Venner, e o artigo sobre Henri Béraud, de Francis Bergeron. Conrad revela-se, como se esperava, um excelente sucessor de Venner na direcção da revista, que mantém toda a qualidade e interesse.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Jacques Heers, um mestre da Idade Média
No início deste ano, partiu um dos mais brilhantes medievalistas franceses e europeus. Autor de uma quantidade de obras verdadeiramente impressionante, investigador incansável e historiador livre, Jacques Heers (6/7/1924 – 10/1/2013) foi professor em várias universidades e director de Estudos Medievais na Sorbonne. Os seus principais trabalhos abalaram ideias preconcebidas e revelaram uma realidade muito diferente da que ainda hoje é comummente aceite. Regresso a um mestre.
Foi ainda na adolescência, quando devorava aquelas colecções de livros encadernados do Círculo de Leitores que sintetizavam a História da Europa e do mundo, que tive o meu primeiro encontro com Jacques Heers. Ao ler o segundo volume da “História Universal”, dedicado ao Mundo Medieval, publicado em Portugal em 1977, descobri uma Idade Média bastante diferente da que era ensinada na escola e daquela com que me maravilhava nos romances de cavalaria. Foi a chegada a um novo mundo, que me faria desconfiar para sempre da conhecida classificação “Idade das Trevas” e aguçar a minha curiosidade por um período fascinante. Ao longo do meu curso de História e da posterior pós-graduação em Estudos Medievais recorri a Heers por várias vezes. Foi um historiador que muito me marcou, não apenas pelo período apaixonante que tratou, mas também pelo seu estilo independente e pelas suas conclusões de grande mérito para a investigação séria.
Uma carreira brilhante
Formado na Sorbonne, Jacques Heers torna-se professor e, em 1951, investigador do conceituado CNRS. Por indicação de Fernand Braudel, é enviado para Itália para desenvolver a sua tese de doutoramento sobre Génova no século XV, que defende na Sorbonne em 1958. Torna-se assistente de Georges Duby na Faculdade de Letras de Aix-en-Provence e depois é professor em várias universidades, como Argel, Caen, Roeun, Nanterre e na Sorbonne, onde é director de Estudos Medievais.
Foi bastante influenciado por Braudel que o “marcou, apesar de nem sempre subscrever os seus trabalhos”, Yves Renouard, grande especialista na História de Itália, e Duby, que considerou ter tido “um influência inegável” nos seus trabalhos e que sempre o tratou bem, apesar de ambos não partilharem as mesmas opções políticas.
Uma impostura
Publicado em Portugal em 1994, “A Idade Média, um Impostura” é um livro provocador que desfaz os principais mitos normalmente associados a este período histórico. Na Introdução, afirma: “Não raras vezes, as nossas sociedades intelectuais revelam-se abertamente racistas. Não no sentido em que o entendemos habitualmente, quer dizer, condenações ou desprezo pelas civilizações, religiões ou costumes diferentes dos nossos, mas por espantosa propensão para ajuizar mal o seu passado”. É esse mau juízo da Idade Média que Heers rebate nesta obra. Para ele, a Idade Média propriamente dita nunca existiu, já que a divisão do tempo histórico em diferentes períodos cronológicos não passa de uma convenção que não corresponde à realidade. Afirma Heers que “cada sociedade inventa os seus bodes expiatórios, reflexo para justificar fracassos ou desenganos, e sobretudo para alimentar animosidades” e considera que “Idade Média” e “Renascimento” são “palavras inventadas”.
Nesta obra, é também refutado o mito do “Renascimento”, nomeadamente do progresso em relação ao tempo anterior, que foi uma criação de publicistas ao serviço de um príncipe que convinha glorificar.
Mas a lenda da Idade Média como período obscuro, que transformou palavras como “medieval” ou “feudal” em verdadeiros insultos, resulta de uma orquestração levada a cabo pelos revolucionários de 1789 e pelas escolas da História ‘engagée’.
Neste livro, o autor faz “uma contestação da noção de Idade Média em si própria, do seu carácter ambíguo e impreciso, e dos abusos que, com demasiada naturalidade, dela se fazem; e isto, em particular, face a outra entidade abstracta, igualmente vaga e arbitrária: o Renascimento”. Também procede ao “exame do afinco posto na condenação dos ‘tempos feudais’, e dessa literatura, cujos efeitos continuamos a sofrer, que se emprenhou em apresentar o feudalismo a uma luz completamente falsa”. Por fim, faz “a análise de alguns aspectos de sociedade ou de civilização que essa lenda negra e os hábitos entretanto adquiridos ainda hoje apresentam sob uma aparência hedionda, mas a que muitos trabalhos recentes trazem interessantes e surpreendentes correcções”.
História e memória
Numa excelente entrevista concedida a “La Nouvelle Revue d’Histoire” em 2007, Jacques Heers explicou a oposição entre História e memória, a propósito do seu livro “L’Histoire assassinée”, afirmando que “a História e a memória não têm nada de comparável. São mesmo incompatíveis”. Para este historiador é uma questão que toca a situação actual, porque hoje se pensa que fazer memória é fazer História. Como ele explica, “a memória é a celebração ou a recordação do que se passou na vida de um indivíduo ou de uma comunidade. Mas, nesse exercício há apenas uma óptica onde não encontramos qualquer confrontação ou crítica. Ao passo que a História é uma reconstrução artificial e crítica que tem em conta diferentes ópticas”.
A importância das especiarias
Na sua investigação de doutoramento, Heers chegou à conclusão que o comercio de especiarias no Mediterrâneo nos séculos XIV e XV foi sobrevalorizado pelos historiadores. Na verdade, o trigo, o sal e outros produtos tinham muito mais importância que as especiarias, tanto em volume como valor nas trocas. Até Braudel, que sempre evocou a importância das especiarias nas trocas comerciais nesse período, reconheceu o valor científico das conclusões dos trabalhos de Heers.
Sobre a queda de Génova e de Veneza, Heers afirmou, na entrevista citada, que “teria sido provocada pelos portugueses quando estes descobriram a rota marítima das Índias pelo Cabo da Boa Esperança para trazer a melhor preço a pimenta e as especiarias. A pimenta e as especiarias estariam na origem da fortuna de Veneza e de Génova? Não. Génova deve a sua primeira riqueza à guerra e Veneza ao trigo e ao sal”.
O suposto contributo árabe
Outra das questões analisadas por Heers, que ainda hoje suscita polémica, é a da importância dos árabes na transmissão e na redescoberta do pensamento grego na Europa. Para ele, é algo que está sobrevalorizado, já que o ensino do pensamento grego no Ocidente “nunca cessou nas escolas catedrais e depois nas primeiras universidades. Servíamo-nos, então, de traduções latinas dos textos gregos originais que os clérigos e eruditos de Constantinopla haviam guardado e difundido em larga escala. As traduções do grego em língua árabe e do árabe para o latim apareceram relativamente tarde, quando o ensino já estava estabelecido no Ocidente, onde há mais de um século que a Lógica, directamente inspirada em Aristóteles, era reconhecida como uma das sete ‘artes liberais’ do curso universitário”.
Foi ainda na adolescência, quando devorava aquelas colecções de livros encadernados do Círculo de Leitores que sintetizavam a História da Europa e do mundo, que tive o meu primeiro encontro com Jacques Heers. Ao ler o segundo volume da “História Universal”, dedicado ao Mundo Medieval, publicado em Portugal em 1977, descobri uma Idade Média bastante diferente da que era ensinada na escola e daquela com que me maravilhava nos romances de cavalaria. Foi a chegada a um novo mundo, que me faria desconfiar para sempre da conhecida classificação “Idade das Trevas” e aguçar a minha curiosidade por um período fascinante. Ao longo do meu curso de História e da posterior pós-graduação em Estudos Medievais recorri a Heers por várias vezes. Foi um historiador que muito me marcou, não apenas pelo período apaixonante que tratou, mas também pelo seu estilo independente e pelas suas conclusões de grande mérito para a investigação séria.
Uma carreira brilhante
Formado na Sorbonne, Jacques Heers torna-se professor e, em 1951, investigador do conceituado CNRS. Por indicação de Fernand Braudel, é enviado para Itália para desenvolver a sua tese de doutoramento sobre Génova no século XV, que defende na Sorbonne em 1958. Torna-se assistente de Georges Duby na Faculdade de Letras de Aix-en-Provence e depois é professor em várias universidades, como Argel, Caen, Roeun, Nanterre e na Sorbonne, onde é director de Estudos Medievais.
Foi bastante influenciado por Braudel que o “marcou, apesar de nem sempre subscrever os seus trabalhos”, Yves Renouard, grande especialista na História de Itália, e Duby, que considerou ter tido “um influência inegável” nos seus trabalhos e que sempre o tratou bem, apesar de ambos não partilharem as mesmas opções políticas.
Uma impostura
Publicado em Portugal em 1994, “A Idade Média, um Impostura” é um livro provocador que desfaz os principais mitos normalmente associados a este período histórico. Na Introdução, afirma: “Não raras vezes, as nossas sociedades intelectuais revelam-se abertamente racistas. Não no sentido em que o entendemos habitualmente, quer dizer, condenações ou desprezo pelas civilizações, religiões ou costumes diferentes dos nossos, mas por espantosa propensão para ajuizar mal o seu passado”. É esse mau juízo da Idade Média que Heers rebate nesta obra. Para ele, a Idade Média propriamente dita nunca existiu, já que a divisão do tempo histórico em diferentes períodos cronológicos não passa de uma convenção que não corresponde à realidade. Afirma Heers que “cada sociedade inventa os seus bodes expiatórios, reflexo para justificar fracassos ou desenganos, e sobretudo para alimentar animosidades” e considera que “Idade Média” e “Renascimento” são “palavras inventadas”.
Nesta obra, é também refutado o mito do “Renascimento”, nomeadamente do progresso em relação ao tempo anterior, que foi uma criação de publicistas ao serviço de um príncipe que convinha glorificar.
Mas a lenda da Idade Média como período obscuro, que transformou palavras como “medieval” ou “feudal” em verdadeiros insultos, resulta de uma orquestração levada a cabo pelos revolucionários de 1789 e pelas escolas da História ‘engagée’.
Neste livro, o autor faz “uma contestação da noção de Idade Média em si própria, do seu carácter ambíguo e impreciso, e dos abusos que, com demasiada naturalidade, dela se fazem; e isto, em particular, face a outra entidade abstracta, igualmente vaga e arbitrária: o Renascimento”. Também procede ao “exame do afinco posto na condenação dos ‘tempos feudais’, e dessa literatura, cujos efeitos continuamos a sofrer, que se emprenhou em apresentar o feudalismo a uma luz completamente falsa”. Por fim, faz “a análise de alguns aspectos de sociedade ou de civilização que essa lenda negra e os hábitos entretanto adquiridos ainda hoje apresentam sob uma aparência hedionda, mas a que muitos trabalhos recentes trazem interessantes e surpreendentes correcções”.
História e memória
Numa excelente entrevista concedida a “La Nouvelle Revue d’Histoire” em 2007, Jacques Heers explicou a oposição entre História e memória, a propósito do seu livro “L’Histoire assassinée”, afirmando que “a História e a memória não têm nada de comparável. São mesmo incompatíveis”. Para este historiador é uma questão que toca a situação actual, porque hoje se pensa que fazer memória é fazer História. Como ele explica, “a memória é a celebração ou a recordação do que se passou na vida de um indivíduo ou de uma comunidade. Mas, nesse exercício há apenas uma óptica onde não encontramos qualquer confrontação ou crítica. Ao passo que a História é uma reconstrução artificial e crítica que tem em conta diferentes ópticas”.
A importância das especiarias
Na sua investigação de doutoramento, Heers chegou à conclusão que o comercio de especiarias no Mediterrâneo nos séculos XIV e XV foi sobrevalorizado pelos historiadores. Na verdade, o trigo, o sal e outros produtos tinham muito mais importância que as especiarias, tanto em volume como valor nas trocas. Até Braudel, que sempre evocou a importância das especiarias nas trocas comerciais nesse período, reconheceu o valor científico das conclusões dos trabalhos de Heers.
Sobre a queda de Génova e de Veneza, Heers afirmou, na entrevista citada, que “teria sido provocada pelos portugueses quando estes descobriram a rota marítima das Índias pelo Cabo da Boa Esperança para trazer a melhor preço a pimenta e as especiarias. A pimenta e as especiarias estariam na origem da fortuna de Veneza e de Génova? Não. Génova deve a sua primeira riqueza à guerra e Veneza ao trigo e ao sal”.
O suposto contributo árabe
Outra das questões analisadas por Heers, que ainda hoje suscita polémica, é a da importância dos árabes na transmissão e na redescoberta do pensamento grego na Europa. Para ele, é algo que está sobrevalorizado, já que o ensino do pensamento grego no Ocidente “nunca cessou nas escolas catedrais e depois nas primeiras universidades. Servíamo-nos, então, de traduções latinas dos textos gregos originais que os clérigos e eruditos de Constantinopla haviam guardado e difundido em larga escala. As traduções do grego em língua árabe e do árabe para o latim apareceram relativamente tarde, quando o ensino já estava estabelecido no Ocidente, onde há mais de um século que a Lógica, directamente inspirada em Aristóteles, era reconhecida como uma das sete ‘artes liberais’ do curso universitário”.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Uma edição marcante
Publicação de referência, “La Nouvelle Revue d’Histoire” pode estar em risco após o suicídio do seu director, Dominique Venner, na Catedral de Notre-Dame, em Paris, num acto simbólico para, segundo as últimas palavras do próprio, “despertar consciências adormecidas” perante a catástrofe que se abate sobre a Europa.
No editorial intitulado “A revolta das mães”, Dominique Venner reflecte sobre a aprovação do casamento homossexual em França e a sua contestação, afirmando que “o projecto do casamento ‘gay’ foi sentido como um atentado insuportável a um dos últimos fundamentos da nossa civilização”. Para ele, a indignação que se gerou é um sinal de que se transgrediu “uma parte sagrada do que constitui uma nação”, concluindo que “é perigoso provocar a revolta das mães!”
Em mais um excelente número, o tema central são as “Derrotas Gloriosas”, que vão do sacrifício dos espartanos a Dien Bien Phu, passando por Waterloo ou pelo Alamo. De referir as entrevistas “De Bonaparte a Napoleão” com Thierry Lentz, director da Fundação Napoleão, e com Aurnaud Leclercq, sobre a geopolítica da Rússia. Destaque ainda para os artigos “Arqueologia das crenças guerreiras”, de Bernard Fontaine, “O sueco Sven Hedin, um maldito no Tibete”, de Jean Mabire, e “Que língua para a Europa?”, de Javier Portella.
Por fim, uma questão que todos os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire” devem ter feito: será que a sua publicação vai continuar? Esperemos que sim. No ‘post scriptum’ do seu editorial do número anterior, Dominique Venner afirmou que para aquela edição e para as seguintes ia contar ainda mais com o apoio do seu amigo e um dos fundadores da revista, o reputado historiador Philippe Conrad. Será seguramente um óptimo sucessor na direcção. Aguardemos.
No editorial intitulado “A revolta das mães”, Dominique Venner reflecte sobre a aprovação do casamento homossexual em França e a sua contestação, afirmando que “o projecto do casamento ‘gay’ foi sentido como um atentado insuportável a um dos últimos fundamentos da nossa civilização”. Para ele, a indignação que se gerou é um sinal de que se transgrediu “uma parte sagrada do que constitui uma nação”, concluindo que “é perigoso provocar a revolta das mães!”
Em mais um excelente número, o tema central são as “Derrotas Gloriosas”, que vão do sacrifício dos espartanos a Dien Bien Phu, passando por Waterloo ou pelo Alamo. De referir as entrevistas “De Bonaparte a Napoleão” com Thierry Lentz, director da Fundação Napoleão, e com Aurnaud Leclercq, sobre a geopolítica da Rússia. Destaque ainda para os artigos “Arqueologia das crenças guerreiras”, de Bernard Fontaine, “O sueco Sven Hedin, um maldito no Tibete”, de Jean Mabire, e “Que língua para a Europa?”, de Javier Portella.
Por fim, uma questão que todos os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire” devem ter feito: será que a sua publicação vai continuar? Esperemos que sim. No ‘post scriptum’ do seu editorial do número anterior, Dominique Venner afirmou que para aquela edição e para as seguintes ia contar ainda mais com o apoio do seu amigo e um dos fundadores da revista, o reputado historiador Philippe Conrad. Será seguramente um óptimo sucessor na direcção. Aguardemos.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Ler Venner
Abaixo reproduzo o post escrevi há uns anos, intitulado "Que ler? Venner!":

O Miguel Vaz releu "O Século de 1914", uma obra imprescindível de Dominique Venner, publicada em Portugal no ano passado pela Civilização, com tradução de Miguel Freitas da Costa. Este é realmente um livro para ler e reler, e para depois a ele continuar a recorrer. Por isso o Miguel diz que se tornou "de cabeceira". Eu li-o pela primeira vez no original, em francês, e reli-o em português. É, de facto, um livro inspirador, que cito amiúde. Uma síntese formidável para melhor compreender o século XX e perceber a actual situação da Europa.

Da ampla bibliografia de Venner, há outro livro que, na minha opinião, é ainda mais importante: "Histoire et tradition des Européens. 30 000 ans d'identité". Esperemos que um dia seja também traduzida para a nossa língua. Este regresso às origens, às referências europeias maiores, é um apelo ao renascimento de uma identidade multimilenar.

Referência ainda para outro livro excelente, "Le Coeur Rebelle", onde Venner faz uma reflexão autobiográfica profunda, falando do activismo político, da guerra, da prisão e da forma como mudou ao longo da vida sem no entanto se arrepender do passado.

Por fim, não me canso de recomendar aqui a óptima e obrigatória "La Nouvelle Revue d'Histoire", dirigida por Dominique Venner, que se vende nas bancas portuguesas.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Tres de Mayo
![]() |
| El tres de mayo de 1808 en Madrid o Los fusilamientos en la montaña del Príncipe Pío o Los fusilamientos del 3 de mayo Francisco de Goya, 1813-1814 |
"El 2 de Mayo sólo fue un día terrible de cólera local. Una intifada de puñal, trabuco y macetazo; no un día de patria, nación y libertad. Todo eso vino después, a partir del 3 de Mayo y de la torpe y brutal represión francesa; cuando la nación entera se alzó en armas, en una guerra despiadada que cambió la historia de Europa. Algo que quienes lucharon y murieron el 2 de Mayo en las calles de Madrid no habían imaginado siquiera."
Aurturo Pérez-Reverte
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Dos de Mayo
![]() |
| El dos de mayo de 1808 La carga de los mamelucos Francisco de Goya, 1814 |
"El 2 de Mayo, un pueblo ingenuo e ignorante se batió en Madrid sin orden y solo, abandonado por su rey, por su Gobierno, por su Ejército y por las clases acomodadas, que se quedaron mirando desde los balcones, suspicaces, a aquella turba que trastornaba el orden público, y luego respiraron aliviados -lo cuentan testigos irreprochables como Alcalá Galiano- cuando la tranquilidad volvió a las calles."
Arturo Pérez-Reverte
História de uma civilização singular
A civilização europeia é hoje a referência no mundo, apesar de muitos a porem em causa. Os primeiros a duvidar da Europa são os próprios europeus, mas há muitos que pertencem a essa mesma civilização. É, por isso, sempre interessante ver como alguém que pertence ao legado que a Europa deixou noutras paragens – algumas bastante longínquas, como acontece neste caso – vê uma História comum a todos os que dela são herdeiros.
Este é um back to basics, não é um compêndio monumental com tudo o que aconteceu na Europa de forma pormenorizada. O autor afirma que o seu objectivo foi “identificar os elementos essenciais da civilização europeia e verificar como se foram reconfigurando ao longo dos tempos; mostrar como as coisas novas tomam forma a partir das antigas; como o antigo permanece e retorna”. Hirst diz que a única originalidade deste trabalho é o método e que aqui conta a “História da Europa seis vezes, de um ângulo diferente de cada vez”.
Os dois primeiros capítulos traçam uma brevíssima História da Europa clássica, medieval e moderna. Depois de um interlúdio sobre “o sentimento clássico”, avança para a “História mais longa”, onde aborda o tema do livro sobre diversas perspectivas. A primeira é a das “invasões e conquistas”, a seguir dedica dois capítulos às formas de governo, para depois nos falar sobre os imperadores e papas. As línguas e o povo comum são os temas dos dois últimos capítulos desta parte.
Por fim, na conclusão intitulada “O que é que a Europa tem?”. Talvez por ser australiano, Hirst não resiste a uma comparação da Europa com a civilização chinesa que considera ter sido “mais avançada durante um longo período”. No entanto, para ele, a vantagem da Europa veio do facto de o poder estar disperso, de a alta cultura ser compósita e não estar firmemente enraizada no poder secular e de um dinamismo económico não conformado ao poder dominante. É, como se vê e sem surpresa, uma perspectiva anglo-saxónica, na linha de Niall Ferguson, por exemplo. No entanto, Hirst não hesita em afirmar a singularidade europeia, concluindo: “Os historiadores económicos interrogam-se por que razão a Europa foi a primeira a industrializar-se, como se outras sociedades tivessem seguido o mesmo trajecto e fosse a Europa a atingir primeiro a meta. Patricia Crone, cujas ideias em grande medida informaram tanto este livro, deixa a pergunta: a Europa foi a primeira ou foi uma singularidade? E não tem dúvidas em responder que foi uma singularidade”.
Há uma nota de forma necessária. Infelizmente, como já acontece na maior parte das grandes editoras, este livro é publicado com a nova ortografia do famigerado (des)Acordo Ortográfico, o que só o empobrece.
Diz John Hirst que as prelecções que estão na base deste livro “foram oferecidas em primeiro lugar a estudantes australianos que tinham estudado demasiada História australiana e sabiam muito pouco da civilização a que pertenciam”. A publicação entre nós deste livro é pois importante, em especial num momento em que tantos europeus, como esses alunos australianos, sabem muito pouco da nossa civilização comum.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Joana d'Arc
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
As artes sob a Ocupação
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
A verdade sobre a História na escola
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Dossiers d'Archéologie n.º 353
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
La Aventura de la Historia
Na edição desta revista de divulgação histórica espanhola que está agora disponível nas bancas nacionais há a destacar a investigação que traz novos dados sobre o Massacre de Paracuellos, no artigo chamado “Moscovo puxou os cordéis”, que revela a intervenção da NKVD de Estaline como precursora da ordem dos fuzilamentos e os nomes dos verdadeiros responsáveis espanhóis, por este crime que vitimou mais de mil prisioneiros políticos na Guerra Civil de Espanha acusados de “direitistas”. Destaque também para o artigo sobre a nova biografia de Isabel de Portugal, a esposa do Imperador Carlos V.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 62
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Hobsbawm
A propósito da recente morte de Eric Hobsbawm, um amigo meu disse que este era “o historiador marxista que a Direita lia”. Sinceramente, perante a habitual onda de elogios quando morre alguém, normalmente um mero exercício de reprodução de loas sem qualquer análise séria, nem me apeteceu referir-me a este autor.
No entanto, Vasco Pulido Valente, no seu característico estilo implacável, conclui hoje a sua coluna no “Público” com uma frase que resume muito bem este caso: “A "respeitabilidade" de Hobsbawm é um mistério”.
E porquê? O historiador português diz que leu a obra de Hobsbawm toda e que agora releu “A Era dos Extremos” para se lembrar de quem era o seu autor. Recorda que era “membro do Partido Comunista Britânico, de que nunca saiu” e que “não protestou, nem se "desiludiu" perante os crimes (para não voltar aos fracassos) da URSS. Desde o princípio um militante fiel, onde estava, ficou”.
Afirma Pulido Valente que “não deixa de arrepiar que no "Age of Extremes" continue a tratar Lenine como um génio e um benemérito e a sustentar”, ou que Marx continue “a ser o único teórico apreciável e recomendável”. “Nem as vítimas de Estaline, objecto de um único parágrafo, em que se discute se excederam em pouco ou em muito os 10 milhões, o levam a uma condenação radical do regime.”
São alguns dos vários exemplos que menciona, dizendo que para Hobsbawm “as falsificações são um socorro permanente”. E dispara: “Como, sem elas, escrever um livro sobre o comunismo?”
No entanto, Vasco Pulido Valente, no seu característico estilo implacável, conclui hoje a sua coluna no “Público” com uma frase que resume muito bem este caso: “A "respeitabilidade" de Hobsbawm é um mistério”.
E porquê? O historiador português diz que leu a obra de Hobsbawm toda e que agora releu “A Era dos Extremos” para se lembrar de quem era o seu autor. Recorda que era “membro do Partido Comunista Britânico, de que nunca saiu” e que “não protestou, nem se "desiludiu" perante os crimes (para não voltar aos fracassos) da URSS. Desde o princípio um militante fiel, onde estava, ficou”.
Afirma Pulido Valente que “não deixa de arrepiar que no "Age of Extremes" continue a tratar Lenine como um génio e um benemérito e a sustentar”, ou que Marx continue “a ser o único teórico apreciável e recomendável”. “Nem as vítimas de Estaline, objecto de um único parágrafo, em que se discute se excederam em pouco ou em muito os 10 milhões, o levam a uma condenação radical do regime.”
São alguns dos vários exemplos que menciona, dizendo que para Hobsbawm “as falsificações são um socorro permanente”. E dispara: “Como, sem elas, escrever um livro sobre o comunismo?”
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
A grande História
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
“Fascistas”
A propósito da “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos, que foi um sucesso de vendas e depois distribuída em fascículos pelo “Expresso”, Manuel Loff fez uso do seu espaço de opinião no “Público” para atacar o co-autor responsável pelo período contemporâneo dizendo que este fazia uma defesa ou um branqueamento do Estado Novo.Não é difícil perceber qual o posicionamento ideológico de Loff quando dá a entender que alguém que considera incómodo é “fascista”. Acontece que a “História de Portugal” de Rui Ramos foi um êxito comercial apreciado pelo público em geral e este historiador não se submete à ortodoxia das esquerdas que tomaram a Universidade.
A seguir ao 25 de Abril, os guardiões ideológicos da “revolução” sabiam bem que era absolutamente necessário dominar o poder cultural. Na Academia, as áreas de Letras foram naturalmente as mais afectadas. No caso concreto da História era de extrema importância controlar a História Contemporânea, já que ter a chave deste passado imediato lhes conferia uma superioridade moral. Já dizia Orwell, no seu distópico “1984”: “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”.
Mais, a amplitude da estúpida e errada definição de “fascismo” utilizada tem um único propósito – permitir que seja aplicada quando e a quem se quiser. É o gasto argumento falacioso da ‘reductio ad Hitlerum’, segundo lhe chamou Leo Strauss. Como escreveu Pedro Lomba a respeito deste caso, no “Público”, o alvo era Rui Ramos, “mas qualquer outro, de ideias muito diferentes, podia estar no seu lugar”.
Não se pense que Loff é um caso isolado. Há muitos como ele que, ainda hoje, na sombra, se regozijam pelos ataques que desferiu. Ainda existem por aí muitos ditos historiadores que se orgulham de “fazer História para combater o fascismo”. É a perspectiva dos olham para o passado interpretando-o em função de quem consideram os “bons” e os “maus”.
Num debate sério não há lugar para os que se julgam donos da verdade.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
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