Philippe Conrad, director de "La Nouvelle Revue d'Histoire", fala sobre D. Sebastião, a Batalha de Alcácer-Quibir, os falsos D. Sebastião, a crise sucessória, o sebastianismo e a Restauração da Independência, na mais recente emissão de "Passé Présent", o programa da TV Libertés dedicado à História.
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quarta-feira, 28 de junho de 2017
Philippe Conrad fala sobre D. Sebastião
Philippe Conrad, director de "La Nouvelle Revue d'Histoire", fala sobre D. Sebastião, a Batalha de Alcácer-Quibir, os falsos D. Sebastião, a crise sucessória, o sebastianismo e a Restauração da Independência, na mais recente emissão de "Passé Présent", o programa da TV Libertés dedicado à História.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
‘Memoriae imperii’
Para a Maria José, minha Mulher.
Partir à descoberta está na alma portuguesa, mas o melhor de uma viagem é o reencontro com a nossa Pátria. Vim pela primeira vez à África do Sul e atravessei de carro este extenso país, observando e registando os contrastes do mosaico das suas gentes e das suas paisagens. Uma experiência marcante que não é mero turismo, antes uma lição de vida.
Os meus guias foram o Manuel e o Nuno Ferreira, irmãos que me deram a honra de me acolher na sua família, que é agora a nossa. Estes portugueses de cepa, que cresceram, viveram e estão radicados neste país, são sentinelas de um Portugal maior, um Império que viram morrer, mas que está vivo no posto avançado dos seus corações.
Portugal sente-se nos portugueses e nas marcas da nossa História e há dias tive um desses momentos especiais que ficam gravados para sempre na nossa memória.
Ao ver ao longe as águas agitadas do Atlântico Sul, senti-me como os nossos navegadores de outrora quando avistavam terra. Foi uma descoberta no sentido inverso, um encontro com o passado. Chegara à Baía de Santa Helena, local onde a armada de Vasco da Gama aportou no dia 7 de Novembro de 1497, e este foi o meu desembarque na “espaçosa parte”, como lhe chamou Camões na epopeia “Os Lusíadas”, de uma “terra que outro povo não pisou”. De facto, foram os portugueses os primeiros europeus a aqui chegar, feito do qual devemos orgulhar-nos. Foi o sentimento com que descobri vários monumentos que registam a passagem lusitana nestas paragens, incluindo um pequeno e acolhedor museu dedicado a Vasco da Gama em Shelly’s Point.
Mas memórias não devem ser exercícios contemplativos, são faróis que nos previnem para os perigos do futuro. Depois da Baía de Santa Helena, um punhado de homens, nossos antepassados, conseguiu vencer o Adamastor e tornar as Tormentas. A Boa Esperança deu-lhes então a coragem para chegar ao seu destino e mostrar ao mundo que não há impossíveis quando há vontade pátria. Hoje, perante a tempestade que se avizinha, sejamos capazes de descobrir o nosso caminho – o do futuro de Portugal.
Partir à descoberta está na alma portuguesa, mas o melhor de uma viagem é o reencontro com a nossa Pátria. Vim pela primeira vez à África do Sul e atravessei de carro este extenso país, observando e registando os contrastes do mosaico das suas gentes e das suas paisagens. Uma experiência marcante que não é mero turismo, antes uma lição de vida.
Os meus guias foram o Manuel e o Nuno Ferreira, irmãos que me deram a honra de me acolher na sua família, que é agora a nossa. Estes portugueses de cepa, que cresceram, viveram e estão radicados neste país, são sentinelas de um Portugal maior, um Império que viram morrer, mas que está vivo no posto avançado dos seus corações.
Portugal sente-se nos portugueses e nas marcas da nossa História e há dias tive um desses momentos especiais que ficam gravados para sempre na nossa memória.
Ao ver ao longe as águas agitadas do Atlântico Sul, senti-me como os nossos navegadores de outrora quando avistavam terra. Foi uma descoberta no sentido inverso, um encontro com o passado. Chegara à Baía de Santa Helena, local onde a armada de Vasco da Gama aportou no dia 7 de Novembro de 1497, e este foi o meu desembarque na “espaçosa parte”, como lhe chamou Camões na epopeia “Os Lusíadas”, de uma “terra que outro povo não pisou”. De facto, foram os portugueses os primeiros europeus a aqui chegar, feito do qual devemos orgulhar-nos. Foi o sentimento com que descobri vários monumentos que registam a passagem lusitana nestas paragens, incluindo um pequeno e acolhedor museu dedicado a Vasco da Gama em Shelly’s Point.
Mas memórias não devem ser exercícios contemplativos, são faróis que nos previnem para os perigos do futuro. Depois da Baía de Santa Helena, um punhado de homens, nossos antepassados, conseguiu vencer o Adamastor e tornar as Tormentas. A Boa Esperança deu-lhes então a coragem para chegar ao seu destino e mostrar ao mundo que não há impossíveis quando há vontade pátria. Hoje, perante a tempestade que se avizinha, sejamos capazes de descobrir o nosso caminho – o do futuro de Portugal.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Ressurgimento de Restauração
Quando vi pela primeira vez o magistral “Non, ou a vã glória de mandar” estava ainda no liceu. Foi a minha estreia na obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, da qual os meus colegas troçavam sem ter visto. O aspecto bélico do filme atraiu-me, mas só depois de o ver me convenci de que é obrigatório para qualquer português.
Nesta viagem pela História de Portugal e pela vontade imperial da nossa Pátria, o Alferes Cabrita, um militar formado em História, que vai relatando aos seus camaradas de armas na Guerra do Ultramar vários episódios marcantes do nosso percurso enquanto nação, dá ênfase à Batalha de Alcácer Quibir. Para ele, foi um “mito que se tornou uma verdade. Verdade, algo de secreto e inexplicável. Em vez de ter sentido lógico, esta verdade inacessível possui um sentido último que tudo explica”.
De jovem me ficou uma ideia que guardo até hoje: será que o mito do sebastianismo não é uma derrota, antes a certeza da nossa vontade nacional? O nosso espírito trágico português?
Como o Império, o Alferes Cabrita morreu, depois de ferido em combate, no dia 25 de Abril de 1974. Mas Portugal não morreu nesse dia, nem a 4 de Agosto de 1578.
Como escreveu Goulart Nogueira, “um Portugal renunciando às linhas geratrizes que o criaram e lhe deram o modo de ser, um Portugal mudando de alma, de espírito, já não será Portugal. Todos os que subscrevem essa orientação diferente arrastam um suposto corpo da Pátria que de Portugal mantém, apenas, o nome. Mas, para além da demissão e da mascarada, existem os que permanecem fiéis ao mesmo sentido, ao mesmo desígnio, à mesma tessitura de sonho (o prodigioso e, no entanto, autêntico consórcio de saudosismo e sebastianismo que leva aos ressurgimentos de restaurações)”. O poeta não tinha dúvidas em afirmar que “o impossível dos incrédulos tornar-se-á realidade”.
Nesta viagem pela História de Portugal e pela vontade imperial da nossa Pátria, o Alferes Cabrita, um militar formado em História, que vai relatando aos seus camaradas de armas na Guerra do Ultramar vários episódios marcantes do nosso percurso enquanto nação, dá ênfase à Batalha de Alcácer Quibir. Para ele, foi um “mito que se tornou uma verdade. Verdade, algo de secreto e inexplicável. Em vez de ter sentido lógico, esta verdade inacessível possui um sentido último que tudo explica”.
De jovem me ficou uma ideia que guardo até hoje: será que o mito do sebastianismo não é uma derrota, antes a certeza da nossa vontade nacional? O nosso espírito trágico português?
Como o Império, o Alferes Cabrita morreu, depois de ferido em combate, no dia 25 de Abril de 1974. Mas Portugal não morreu nesse dia, nem a 4 de Agosto de 1578.
Como escreveu Goulart Nogueira, “um Portugal renunciando às linhas geratrizes que o criaram e lhe deram o modo de ser, um Portugal mudando de alma, de espírito, já não será Portugal. Todos os que subscrevem essa orientação diferente arrastam um suposto corpo da Pátria que de Portugal mantém, apenas, o nome. Mas, para além da demissão e da mascarada, existem os que permanecem fiéis ao mesmo sentido, ao mesmo desígnio, à mesma tessitura de sonho (o prodigioso e, no entanto, autêntico consórcio de saudosismo e sebastianismo que leva aos ressurgimentos de restaurações)”. O poeta não tinha dúvidas em afirmar que “o impossível dos incrédulos tornar-se-á realidade”.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Quando a Europa dominava o mundo
Como explica o director da revista no editorial, “a superioridade adquirida pelos europeus no que respeita a técnicas náuticas e de armamento, as novas possibilidades abertas pelo desenvolvimento industrial e a explosão demográfica que o velho continente conheceu no século XIX explicam naturalmente hegemonia que pode estabelecer na maior parte do mundo”. Defendido inicialmente pelos progressistas como “missão civilizadora”, o “colonialismo” passou a ser visto, após a Segunda Guerra Mundial, como um “crime” e uma “exploração de outros povos”. Em pleno século XXI, interessa relançar um debate informado sobre a presença europeia no mundo neste período, tal é o objectivo desta edição.
Como seria de esperar, a ênfase é dada à presença francesa, com artigos sobre a Argélia, Marrocos, ou a Indochina. Outros países europeus também merecem atenção, como a Inglaterra, a Alemanha, a Holanda e a Bélgica, a propósito do Congo de Leopoldo II.
E Portugal? A pergunta não faz apenas sentido por sermos portugueses, mas pelo papel de relevo que o nosso país teve neste processo. Não há um artigo específico sobre Portugal, o que é pena, mas as referências à presença lusa são muitas. Desde a nossa participação na Exposição Colonial Internacional de 1931, em Paris, à disputa com os ingleses em África, que entre nós ficou conhecida como a questão do “Mapa cor-de-rosa”, no artigo “As fronteiras africanas”, que é ilustrado com um relevo da captura de Gungunhana, em Moçambique. Já no artigo sobre as Índias holandesas, é dito que foram os portugueses, “grandes navegadores, os primeiros a abrir à Europa as portas da Ásia”, no século XVI, e é traçada a diferença entre a presença portuguesa e holandesa. O desenvolvimento do território que constitui a actual Indonésia obedeceu à lógica do capitalismo. Segundo escreve Philippe Raggi, “ao contrário dos portugueses, os holandeses nunca se interessaram pela cultura dos povos com os quais entraram em contacto”. Razões de sobra para Portugal não ter sido esquecido e merecer um artigo próprio.
domingo, 7 de setembro de 2014
“7 de Setembro de 1974: O último grito de portugalidade em Moçambique”
Há quarenta anos, no dia 7 de Setembro de 1974, um levantamento popular exigia que o povo moçambicano fosse ouvido em plebiscito, mas os golpistas de Abril desrespeitaram o previamente acordado e entregaram Moçambique à Frelimo. Clotilde Mesquitela (1924 – 2005) registou essa revolta no livro “7 de Setembro: Moçambique – memórias de uma revolução”, agora republicado pela Branco Editores e que foi lançado no passado dia 4 de Setembro, no Palácio da Independência, em Lisboa, apresentado por Adriano Moreira, Luís Fernandes, Eugénio Brandão e Óscar Soeiro. Aqui fica a entrevista a Pedro Mesquitela, filho da autora, que fiz para edição de «O Diabo» de 2 de Setembro de 2014.
Como devemos ver este livro?
Este livro deve ser visto como uma radiografia de um momento histórico, com evidentes componentes emocionais por parte da autora, mas sempre com uma visão de Portugalidade que é inegável, e, tanto quanto a memória lhe permitiu, um relato fiel do que realmente aconteceu em Moçambique entre 7 e 11 de Setembro de 1974.
O que levou ao levantamento popular de 7 de Setembro de 1974 em Moçambique?
Desde 1971 que se sabia que existia um movimento civil para dar uma autonomia progressiva às Províncias Ultramarinas Portuguesas, tanto na Metrópole (Ala Liberal, Sedes e parte da Igreja Católica) como nas províncias, através dos Democratas de Moçambique e de partidos locais como o FRICOMO. de Joana Simeão, e a Coremo, fundada por Uria Simango, que tinha sido Vice-Presidente da Frelimo na presidência de Eduardo Mondlane, e exilado depois do assassinato deste. Tanto a Coremo como a Fricomo defendiam eleições democráticas e multi-raciais, pelo que foram perseguidas e seus líderes mortos após o 7 de Setembro, ao serem entregues à Frelimo pelo governo da África do Sul.
Sabíamos também que existiam conversações via dirigentes de países vizinhos de Moçambique como o presidente Banda do Malawi e Kaunda da Zâmbia, envolvendo um enviado português (eng. Jorge Jardim), representantes do presidente da Tanzânia (Ex-Tanganica), Dr. Nyerere, e um assessor do Presidente Kaunda que fazia a ponte com a Frelimo (Mark Chosa).
Não vou aqui detalhar o esforço desenvolvido para se chegar a um acordo, chamado Programa de Lusaka mas vale a pena mencionar que as negociações eram do conhecimento das autoridades portuguesas, desde o tempo do Dr. Salazar, do Prof. Marcello Caetano e dos Ministros do Ultramar desde 1961 (Dr. Joaquim Silva Cunha e, depois, Baltazar Rebelo de Sousa). Sabíamos que mais cedo ou mais tarde a autonomia verdadeira e a independência chegariam. Só se devia decidir quando seria e negociar como seria o processo de passagem de bastão.
Em que consistia o Programa de Lusaka?
Este Programa de Lusaka, aceite pela Frelimo, era para ser desenvolvido em cinco anos, e, de acordo com o meu entendimento do que li em “Moçambique Terra Queimada”, de Jorge Jardim, tinha como pontos principais: Salientava as condições de harmonia racial e de justiça que proporcionariam à população de origem portuguesa ou a ela assimilável, melhoria de oportunidades para se integrar na nova nação; Reconhecia e louvava a política multirracial portuguesa; Encarava a formação de ampla “comunidade lusíada “ com a desejável participação do Brasil, na qual Portugal assumiria uma posição dominante; Conservava a língua portuguesa como “língua franca”; Assegurava a expansão da cultura portuguesa e a educação predominantemente de inspiração portuguesa; Preservava os interesses económicos e financeiros portugueses; As grandes potências não poderiam aproveitar-se do cessar da soberania portuguesa citando-se especificamente as potências comunistas; A Zâmbia, a Tanzânia e o Malawi afirmavam a sua orientação não comunista e asseguravam que nunca seriam “testas de ponte” para qualquer infiltração política do comunismo; A oportunidade para se concretizar a independência seria negociada logo que fossem acordadas as bases necessárias.
Este acordo nunca foi assinado oficialmente por Portugal, por razões que devem estar ligadas à personalidade e crenças profundas do Prof. Marcello Caetano, somadas a movimentos ligados ao grande capital português e elementos da chamada linha dura portuguesa, que se opunham à independência das Províncias Ultramarinas.
Em Novembro de 1973, após as eleições em Portugal, Baltazar Rebelo de Sousa, já Ministro do Ultramar, instruiu Jorge Jardim para “prosseguir uma política acelerada de autonomia , que aceitava , para desembocar na independência”.
Qual foi a posição de Marcello Caetano relativamente ao plano?
Nessa altura, o Prof. Marcello Caetano, não fez nenhum reparo ao plano. Menciono estes factos para explicar o clima que se vivia em Moçambique no final de 1973, pois a guerra tinha-se espalhado para o Sul do Sena, os ataques terroristas intensificam-se em Vila Pery e na Beira.
A população civil, vítima de um clima extremamente desfavorável em relação ao Ultramar que se vivia na Metrópole e da crescente campanha dos chamados Democratas de Moçambique, estava apreensiva e cada vez mais nervosa, pois sabia-se que estava em jogo o princípio da manutenção do Ultramar e se passaria para um regime de maior autonomia, que acabaria em independência. Mas acreditava-se que militarmente Moçambique não seria derrotado e que seria possível construir um futuro multi-racial em paz, com base em negociações sólidas que levassem em consideração os interesses de tantos que lá residiam e trabalhavam, alguns há mais de três gerações.
Mas aconteceu o 25 de Abril...
Sim. Inicialmente, o programa do MFA e o próprio General Spínola pareciam ter ideias parecidas àquelas do Programa de Lusaka, o que sossegou parte da população moçambicana.
Infelizmente, após a visita de Costa Gomes à Beira, em Maio de 1974, e, sobretudo, após a visita autorizada por Costa Gomes de uma delegação de “democratas” a Dar-es-Salam, em 23 de Junho, para se encontrarem com Samora Machel, ficou claro que os políticos chamados de esquerda portugueses de Moçambique presentes na reunião (José Craveirinha, Rui Nogar, Malangatana Valente, Matias M’Boa, Rogério Jauana e Jossefate Machel, irmão de Samora) não seguiriam os princípios acertados anteriormente.
Por essa altura deslocou-se a Lisboa uma delegação de políticos e representantes de partidos locais para conversar com Spínola e este sossegou-os quanto à garantia de defesa dos interesses e vidas dos moçambicanos.
Qual foi a acção da esquerda?
Em Junho acontece a primeira reunião em Lusaka com Samora Machel, onde acontece o famoso “abraço” de Mário Soares, e onde claramente Soares exclui a Coremo das negociações. Otelo Saraiva de Carvalho, que esteve presente, insta Mário Soares a ir mais além no contexto da reunião, informando que as “nossas tropas” já estão “confraternizando por toda a parte”.
Em Julho de 1974 é publicada a Lei n.º 7/74 , assinada por Melo Antunes, que contrariava frontalmente não só o Programa do MFA, que tinha força constitucional, mas sobretudo o Programa de Lusaka, que tinha como objectivo a independência a prazo e a defesa e integração num novo país dos portugueses que lá viviam.
Tudo isto era sabido e publicado nos jornais diários de Lourenço Marques e da Beira, com os jornais de Direita e de Esquerda publicando cada qual uma versão e incendiando a opinião pública.
E a assinatura do Acordo de Lusaka?
A esperança dos portugueses que viviam em Moçambique estava assim numa espécie de montanha russa, em que um dia lhes davam certezas e no outro as retiravam. Podemos imaginar o clima que se vivia em Moçambique no início de Setembro de 1974. Em 4 de Setembro, foram a Lusaka negociar com a Frelimo Melo Antunes, Mário Soares, Almeida Santos, Vítor Crespo, Antero Sobral, Nuno Lousada, Vasco Almeida e Costa, que obviamente não queriam nem respeitar o espírito do Programa de Lusaka nem o do Programa do MFA, mas sim e tão somente entregar a Província apenas à Frelimo para a completa, imediata e irrevogável independência, sem levar em conta as forças políticas locais nem os interesses ou vidas dos cidadãos portugueses.
O Acordo de Lusaka foi assinado formalmente entre o Governo português e a Frelimo em 7 de Setembro de 1974, ferindo tudo o que tinha sido dito anteriormente no Programa do MFA e pelos Generais Spínola e Costa Gomes.
O que se passou a seguir?
Após o 7 de Setembro, devo apenas mencionar que morreram nesses dias mais civis do que em todos os 10 anos de guerra anteriores. Criou-se um regime de terror, forças do nosso próprio exército (sobretudo oriundas da Metrópole) exaltaram os ânimos dos pretos contra os brancos “fascistas” e “colonialistas”. Houve uma debandada geral da população, e era a chamada lei 24/20: 24 horas para sair, carregando apenas 20 kg.
Os jornais da época estão cheios de fotografias e relatos do que foi a saída dos Portugueses. Mário Soares sugeriu até “atirar os brancos aos tubarões”!
Soldados negros de incorporação local, sobretudo das forças chamadas especiais são perseguidos e mortos tanto em Moçambique como em Angola e na Guiné. Portugal não soube proteger os Portugueses, abandonando-os à sua sorte.
Como é que o levantamento do 7 de Setembro foi visto?
Posso citar alguns exemplos do que se disse deste período, obviamente com visões diferentes.
No livro “O Fim do Império. Memória de um Soldado Português”, a propósito do 7 de Setembro e da população branca e negra que participou deste movimento, Ribeiro Cardoso usa adjectivos como, “nave de loucos”, “insanidade criminosa”, “gabarolas com microfones na mão”.
Já Henrique Terreiro Galha, em “Descolonização e independência em Moçambique”, dedica o seu livro “em Homenagem e à Memória dos homens e das mulheres e crianças que foram chacinados em Lourenço Marques em 9 e 10 de Setembro de 1974, dos milhares de vítimas torturadas e mortas nas prisões e nos ‘campos de reeducação’ de Moçambique após a assinatura do acordo de Lusaka , antes e depois da independência”.
Em entrevista à RTP, Melo Antunes, em Julho de 1999,pouco antes de morrer, afirmou: “Muitos responsáveis políticos portugueses têm dito que a descolonização foi a que era possível. Acho que não é assim. Considero que a descolonização foi uma tragédia. Foi uma tragédia a forma como a descolonização acabou por se realizar. Tal como a colonização o foi. Não assumo responsabilidade do que hoje lá se vive. Isso tem a ver com os movimentos e seus líderes. Assumo a responsabilidade das negociações para a descolonização não terem sido conduzidas de modo a evitar situações que acabaram por descambar naquilo que hoje existe nos ex-territórios portugueses africanos.”
Há também a declaração do major Manuel Monge, que foi peça importante em determinado momento no MFA: “De facto, a descolonização foi feita na defesa dos interesses políticos e estratégicos da União Soviética , de seus aliados e dos seus movimentos no terreno. Foi contra os interesses de Portugal, dos portugueses residentes nos territórios sob a nossa administração e contra os interesses das suas populações.”
O Coronel Pára-Quedista Sigfredo Costa Campos, comandante dos GEP de Moçambique, afirmou: “Prova-o a inequívoca intenção das forças internacionais no pseudo-revolucionário processo de Abril, desencadeado com o objectivo de nos impor o vergonhoso abandono dos territórios africanos, onde, além de termos causado o caos e a destruição, fomos co-responsáveis pela morte de milhares de pessoas. E ainda há quem despudoradamente afirme que a revolução de Abril foi uma revolução sem sangue.”
No discurso de posse do Governador Geral de Moçambique, em 11 de Junho de 1974, Henrique Soares de Melo afirmou: “O que hoje se entende por independência imediata seria a mais gigante negação dos ideais democráticos universalmente aceites e nos quais se inspirou o MFA.”
Por fim, no livro “País sem Rumo”, António de Spínola escreve: “A Frelimo estava consciente de que o seu poder residia essencialmente, não nas suas estruturas, mas na traição da esquerda militar portuguesa, disposta a impô-la ao povo moçambicano, proporcionando-lhe a organização político-militar que nunca conseguiria alcançar antes do 25 de Abril”.
O que foi para si o 7 de Setembro?
Como disse a minha mãe, foi o último grito de portugalidade em Moçambique.
Qual o propósito do livro?
Deixo a cada um tirar suas próprias conclusões, e espero que a leitura do livro “Moçambique 7 de Setembro” ajude, como documento biográfico, a possibilitar que um dia, com o distanciamento necessário que a História exige, se possa realmente escrever a verdade sobre o golpe do 25 de Abril e sobre a nossa descolonização.
Como devemos ver este livro?
Este livro deve ser visto como uma radiografia de um momento histórico, com evidentes componentes emocionais por parte da autora, mas sempre com uma visão de Portugalidade que é inegável, e, tanto quanto a memória lhe permitiu, um relato fiel do que realmente aconteceu em Moçambique entre 7 e 11 de Setembro de 1974.
O que levou ao levantamento popular de 7 de Setembro de 1974 em Moçambique?
Desde 1971 que se sabia que existia um movimento civil para dar uma autonomia progressiva às Províncias Ultramarinas Portuguesas, tanto na Metrópole (Ala Liberal, Sedes e parte da Igreja Católica) como nas províncias, através dos Democratas de Moçambique e de partidos locais como o FRICOMO. de Joana Simeão, e a Coremo, fundada por Uria Simango, que tinha sido Vice-Presidente da Frelimo na presidência de Eduardo Mondlane, e exilado depois do assassinato deste. Tanto a Coremo como a Fricomo defendiam eleições democráticas e multi-raciais, pelo que foram perseguidas e seus líderes mortos após o 7 de Setembro, ao serem entregues à Frelimo pelo governo da África do Sul.
Sabíamos também que existiam conversações via dirigentes de países vizinhos de Moçambique como o presidente Banda do Malawi e Kaunda da Zâmbia, envolvendo um enviado português (eng. Jorge Jardim), representantes do presidente da Tanzânia (Ex-Tanganica), Dr. Nyerere, e um assessor do Presidente Kaunda que fazia a ponte com a Frelimo (Mark Chosa).
Não vou aqui detalhar o esforço desenvolvido para se chegar a um acordo, chamado Programa de Lusaka mas vale a pena mencionar que as negociações eram do conhecimento das autoridades portuguesas, desde o tempo do Dr. Salazar, do Prof. Marcello Caetano e dos Ministros do Ultramar desde 1961 (Dr. Joaquim Silva Cunha e, depois, Baltazar Rebelo de Sousa). Sabíamos que mais cedo ou mais tarde a autonomia verdadeira e a independência chegariam. Só se devia decidir quando seria e negociar como seria o processo de passagem de bastão.
Em que consistia o Programa de Lusaka?
Este Programa de Lusaka, aceite pela Frelimo, era para ser desenvolvido em cinco anos, e, de acordo com o meu entendimento do que li em “Moçambique Terra Queimada”, de Jorge Jardim, tinha como pontos principais: Salientava as condições de harmonia racial e de justiça que proporcionariam à população de origem portuguesa ou a ela assimilável, melhoria de oportunidades para se integrar na nova nação; Reconhecia e louvava a política multirracial portuguesa; Encarava a formação de ampla “comunidade lusíada “ com a desejável participação do Brasil, na qual Portugal assumiria uma posição dominante; Conservava a língua portuguesa como “língua franca”; Assegurava a expansão da cultura portuguesa e a educação predominantemente de inspiração portuguesa; Preservava os interesses económicos e financeiros portugueses; As grandes potências não poderiam aproveitar-se do cessar da soberania portuguesa citando-se especificamente as potências comunistas; A Zâmbia, a Tanzânia e o Malawi afirmavam a sua orientação não comunista e asseguravam que nunca seriam “testas de ponte” para qualquer infiltração política do comunismo; A oportunidade para se concretizar a independência seria negociada logo que fossem acordadas as bases necessárias.
Este acordo nunca foi assinado oficialmente por Portugal, por razões que devem estar ligadas à personalidade e crenças profundas do Prof. Marcello Caetano, somadas a movimentos ligados ao grande capital português e elementos da chamada linha dura portuguesa, que se opunham à independência das Províncias Ultramarinas.
Em Novembro de 1973, após as eleições em Portugal, Baltazar Rebelo de Sousa, já Ministro do Ultramar, instruiu Jorge Jardim para “prosseguir uma política acelerada de autonomia , que aceitava , para desembocar na independência”.
Qual foi a posição de Marcello Caetano relativamente ao plano?
Nessa altura, o Prof. Marcello Caetano, não fez nenhum reparo ao plano. Menciono estes factos para explicar o clima que se vivia em Moçambique no final de 1973, pois a guerra tinha-se espalhado para o Sul do Sena, os ataques terroristas intensificam-se em Vila Pery e na Beira.
A população civil, vítima de um clima extremamente desfavorável em relação ao Ultramar que se vivia na Metrópole e da crescente campanha dos chamados Democratas de Moçambique, estava apreensiva e cada vez mais nervosa, pois sabia-se que estava em jogo o princípio da manutenção do Ultramar e se passaria para um regime de maior autonomia, que acabaria em independência. Mas acreditava-se que militarmente Moçambique não seria derrotado e que seria possível construir um futuro multi-racial em paz, com base em negociações sólidas que levassem em consideração os interesses de tantos que lá residiam e trabalhavam, alguns há mais de três gerações.
Mas aconteceu o 25 de Abril...
Sim. Inicialmente, o programa do MFA e o próprio General Spínola pareciam ter ideias parecidas àquelas do Programa de Lusaka, o que sossegou parte da população moçambicana.
Infelizmente, após a visita de Costa Gomes à Beira, em Maio de 1974, e, sobretudo, após a visita autorizada por Costa Gomes de uma delegação de “democratas” a Dar-es-Salam, em 23 de Junho, para se encontrarem com Samora Machel, ficou claro que os políticos chamados de esquerda portugueses de Moçambique presentes na reunião (José Craveirinha, Rui Nogar, Malangatana Valente, Matias M’Boa, Rogério Jauana e Jossefate Machel, irmão de Samora) não seguiriam os princípios acertados anteriormente.
Por essa altura deslocou-se a Lisboa uma delegação de políticos e representantes de partidos locais para conversar com Spínola e este sossegou-os quanto à garantia de defesa dos interesses e vidas dos moçambicanos.
Qual foi a acção da esquerda?
Em Junho acontece a primeira reunião em Lusaka com Samora Machel, onde acontece o famoso “abraço” de Mário Soares, e onde claramente Soares exclui a Coremo das negociações. Otelo Saraiva de Carvalho, que esteve presente, insta Mário Soares a ir mais além no contexto da reunião, informando que as “nossas tropas” já estão “confraternizando por toda a parte”.
Em Julho de 1974 é publicada a Lei n.º 7/74 , assinada por Melo Antunes, que contrariava frontalmente não só o Programa do MFA, que tinha força constitucional, mas sobretudo o Programa de Lusaka, que tinha como objectivo a independência a prazo e a defesa e integração num novo país dos portugueses que lá viviam.
Tudo isto era sabido e publicado nos jornais diários de Lourenço Marques e da Beira, com os jornais de Direita e de Esquerda publicando cada qual uma versão e incendiando a opinião pública.
E a assinatura do Acordo de Lusaka?
A esperança dos portugueses que viviam em Moçambique estava assim numa espécie de montanha russa, em que um dia lhes davam certezas e no outro as retiravam. Podemos imaginar o clima que se vivia em Moçambique no início de Setembro de 1974. Em 4 de Setembro, foram a Lusaka negociar com a Frelimo Melo Antunes, Mário Soares, Almeida Santos, Vítor Crespo, Antero Sobral, Nuno Lousada, Vasco Almeida e Costa, que obviamente não queriam nem respeitar o espírito do Programa de Lusaka nem o do Programa do MFA, mas sim e tão somente entregar a Província apenas à Frelimo para a completa, imediata e irrevogável independência, sem levar em conta as forças políticas locais nem os interesses ou vidas dos cidadãos portugueses.
O Acordo de Lusaka foi assinado formalmente entre o Governo português e a Frelimo em 7 de Setembro de 1974, ferindo tudo o que tinha sido dito anteriormente no Programa do MFA e pelos Generais Spínola e Costa Gomes.
O que se passou a seguir?
Após o 7 de Setembro, devo apenas mencionar que morreram nesses dias mais civis do que em todos os 10 anos de guerra anteriores. Criou-se um regime de terror, forças do nosso próprio exército (sobretudo oriundas da Metrópole) exaltaram os ânimos dos pretos contra os brancos “fascistas” e “colonialistas”. Houve uma debandada geral da população, e era a chamada lei 24/20: 24 horas para sair, carregando apenas 20 kg.
Os jornais da época estão cheios de fotografias e relatos do que foi a saída dos Portugueses. Mário Soares sugeriu até “atirar os brancos aos tubarões”!
Soldados negros de incorporação local, sobretudo das forças chamadas especiais são perseguidos e mortos tanto em Moçambique como em Angola e na Guiné. Portugal não soube proteger os Portugueses, abandonando-os à sua sorte.
Como é que o levantamento do 7 de Setembro foi visto?
Posso citar alguns exemplos do que se disse deste período, obviamente com visões diferentes.
No livro “O Fim do Império. Memória de um Soldado Português”, a propósito do 7 de Setembro e da população branca e negra que participou deste movimento, Ribeiro Cardoso usa adjectivos como, “nave de loucos”, “insanidade criminosa”, “gabarolas com microfones na mão”.
Já Henrique Terreiro Galha, em “Descolonização e independência em Moçambique”, dedica o seu livro “em Homenagem e à Memória dos homens e das mulheres e crianças que foram chacinados em Lourenço Marques em 9 e 10 de Setembro de 1974, dos milhares de vítimas torturadas e mortas nas prisões e nos ‘campos de reeducação’ de Moçambique após a assinatura do acordo de Lusaka , antes e depois da independência”.
Em entrevista à RTP, Melo Antunes, em Julho de 1999,pouco antes de morrer, afirmou: “Muitos responsáveis políticos portugueses têm dito que a descolonização foi a que era possível. Acho que não é assim. Considero que a descolonização foi uma tragédia. Foi uma tragédia a forma como a descolonização acabou por se realizar. Tal como a colonização o foi. Não assumo responsabilidade do que hoje lá se vive. Isso tem a ver com os movimentos e seus líderes. Assumo a responsabilidade das negociações para a descolonização não terem sido conduzidas de modo a evitar situações que acabaram por descambar naquilo que hoje existe nos ex-territórios portugueses africanos.”
Há também a declaração do major Manuel Monge, que foi peça importante em determinado momento no MFA: “De facto, a descolonização foi feita na defesa dos interesses políticos e estratégicos da União Soviética , de seus aliados e dos seus movimentos no terreno. Foi contra os interesses de Portugal, dos portugueses residentes nos territórios sob a nossa administração e contra os interesses das suas populações.”
O Coronel Pára-Quedista Sigfredo Costa Campos, comandante dos GEP de Moçambique, afirmou: “Prova-o a inequívoca intenção das forças internacionais no pseudo-revolucionário processo de Abril, desencadeado com o objectivo de nos impor o vergonhoso abandono dos territórios africanos, onde, além de termos causado o caos e a destruição, fomos co-responsáveis pela morte de milhares de pessoas. E ainda há quem despudoradamente afirme que a revolução de Abril foi uma revolução sem sangue.”
No discurso de posse do Governador Geral de Moçambique, em 11 de Junho de 1974, Henrique Soares de Melo afirmou: “O que hoje se entende por independência imediata seria a mais gigante negação dos ideais democráticos universalmente aceites e nos quais se inspirou o MFA.”
Por fim, no livro “País sem Rumo”, António de Spínola escreve: “A Frelimo estava consciente de que o seu poder residia essencialmente, não nas suas estruturas, mas na traição da esquerda militar portuguesa, disposta a impô-la ao povo moçambicano, proporcionando-lhe a organização político-militar que nunca conseguiria alcançar antes do 25 de Abril”.
O que foi para si o 7 de Setembro?
Como disse a minha mãe, foi o último grito de portugalidade em Moçambique.
Qual o propósito do livro?
Deixo a cada um tirar suas próprias conclusões, e espero que a leitura do livro “Moçambique 7 de Setembro” ajude, como documento biográfico, a possibilitar que um dia, com o distanciamento necessário que a História exige, se possa realmente escrever a verdade sobre o golpe do 25 de Abril e sobre a nossa descolonização.
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quinta-feira, 14 de agosto de 2014
“Só podemos saber para onde vamos se estivermos o mais informados possível sobre as nossas origens”
Pedro Massano é um autor de Banda Desenhada com uma extensa obra publicada que abrange vários temas. No campo da História destacam-se os dois primeiros tomos da trilogia “A Conquista de Lisboa” e, para a editora francesa Glénat e com argumento de Patrick Lizé, os dois primeiros tomos de uma trilogia inacabada, “Le Deuil Impossible”, que refere a vida de D. Sebastião. Recentemente publicou “A Batalha”, um álbum magnífico dedicado à Batalha de Aljubarrota. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo».
Como surgiu a ideia deste álbum?
Foi uma ideia da Fundação Batalha de Aljubarrota, que me abordou para o efeito.
Como foi a parceria com a Fundação Batalha de Aljubarrota?
Creio que foi exemplar. A Fundação percebeu que o que o álbum envolvia não era apenas ilustrar “a direito” as crónicas existentes. Num trabalho deste tipo, há sempre a necessidade – anterior aos primeiros esboços – de compreender, de forma crítica, tudo o que podemos encontrar sobre o assunto. Este é um primeiro aspecto. O outro é saber ler a iconografia das fontes coevas, quando existe, e adaptá-la ao que queremos contar. Um exemplo disto é, se considerarmos que o primeiro livro de armas digno desse nome é o do Infante D. Pedro – muito posterior aos factos relatados – a necessidade de percorrer o país, à procura de brasões gravados na pedra, anteriores ao sucedido. Outro, é a necessidade de saber pelo que optar de entre o material narrativo que existe, e filtrá-lo de acordo com o objectivo em vista. Por exemplo, em Fernão Lopes, há uma imensidade de “anedotas” que fazem todo o sentido na sua descrição. Se tivesse optado por incluí-las todas estaria, ainda, a desenhar. Ainda outro, porventura o mais importante. Numa história de que sabemos o fim e o princípio, como desenvolvê-la de modo a não maçar o leitor, respeitando escrupulosamente a cronologia?
Considera que há um interesse crescente na História de Portugal?
Gostaria de crer que sim. Acredito que só podemos saber para onde vamos se estivermos o mais informados possível sobre as nossas origens.
Esta é uma boa forma de fazê-la chegar aos mais jovens?
Confesso que nunca fiz, durante o meu percurso, uma grande distinção entre os mais e menos jovens. A minha principal preocupação quando inicio qualquer trabalho de Banda Desenhada, particularmente no que se refere a temas históricos, é perguntar a mim próprio “o que é que eu gostaria de saber sobre o assunto em questão”. É a partir daí que oriento toda a pesquisa e o desenvolvimento posterior. Só posso desejar que o leitor, mais ou menos jovem, não se sinta defraudado quando chegar à última página.
Mesmo assim, nota-se em “A Batalha” uma preocupação com as fontes e com as notas explicativas. Há nesta banda desenhada um preocupação com o rigor...
Isso tem a ver com o que deixei atrás. Quem, como eu, cresceu com o Estado Novo, levou com a respectiva ‘overdose’ de História de Portugal e da sua banalização. Do meu ponto de vista só há uma forma de combater isso: o rigor. E, num livro deste teor, feito para uma Fundação que tem como objectivo perpetuar uma das jornadas mais peculiares do nosso viver colectivo, a minha obrigação como autor é, dentro dos parâmetros do meu trabalho, fornecer toda a informação do modo mais correcto que me for possível. Por exemplo, ler as fontes castelhanas e o Froissart na língua e grafia originais.
Essa preocupação significa que há um público mais exigente?
Acredito que sim. Tenho tido a surpresa, ao longo da minha vida profissional, de ser abordado por pessoas com responsabilidades docentes e de investigação a nível histórico, e outros, que têm expressado a sua concordância e adesão ao meu trabalho. Só tenho, naturalmente, que lhes agradecer.
Foi autor dos desenhos de álbuns publicados no estrangeiro. Está pensada alguma tradução deste álbum?
Essa é uma pergunta que deverá dirigir à Fundação e ao Editor. É a eles que compete gerir o futuro do livro.
Tem algum projecto na área da História de Portugal em vista?
Espero ter agora oportunidade de acabar o terceiro tomo da “Conquista de Lisboa” de acordo com a crónica de Osberno e depois se verá.
Publicado na edição desta semana de «O Diabo».
sábado, 3 de maio de 2014
“Em cem anos a sociedade portuguesa mudou em quase tudo”
Ricardo Marques é jornalista e autor de vários livros, como “Moçambique: o Regresso dos Soldados”, “Assim Matam os Portugueses” e “Os Fantasmas do Rovuma”. Publicou recentemente “1914 – Portugal no ano da Grande Guerra”, um retrato abrangente da sociedade portuguesa de então, ilustrado com os factos, as curiosidades e s estatísticas da vida social, da ciência, das artes, da política, do desporto e até do crime. Aqui fica a entrevista que fiz para a edição de «O Diabo» do passado dia 15 de Abril.
Neste ano do centenário da Primeira Guerra Mundial tem-se notado um especial interesse à vida particular das pessoas e da forma como a guerra as afectou. É um lado que falta estudar para além do conflito militar?
É, acima de tudo, uma dimensão inesgotável. Quando falamos de algo tão impressionante como a Primeira Guerra Mundial, a todos os níveis, tendemos por vezes a esquecer as pequenas coisas. Claro que a história se faz e se alimenta do confronto, da visão dos vencedores e dos vencidos. É natural. Mas é preciso não esquecer que por cada batalha, por cada grande deslocação de tropas, há vidas que tentam prosseguir o melhor que podem e consegues. Há gente que acorda todos os dias de manhã para trabalhar, para estar com a família, com os amigos, para ler um livro ou outra coisa qualquer. E isso, normalmente, não cabe na lente com que olhamos os grandes acontecimentos. No entanto, com um pouco de esforço, podemos encontrar mundos fascinantes.
O que o levou a esta descoberta da sociedade portuguesa no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial?
Houve dois caminhos que, a dado momento, se cruzaram. Desde logo, o livro que tinha escrito sobre a Primeira Guerra Mundial em África. Há algo curioso na forma como começou a nossa guerra África em 1914. Assim que estalou o conflito na Europa, a primeira preocupação do Governo de Portugal, da República que tinha apenas quatro anos, foi enviar tropas para Angola e Moçambique de modo a salvaguardar a integridade das então colónias. Mais interessante é que antes de entrarmos efectivamente no conflito – a declaração de guerra da Alemanha a Portugal é de 1916 – já tínhamos enviado milhares de homens para África e já tínhamos entrado em combate. Esse foi um dos caminhos. O outro foi o fascínio que me ficou de tentar perceber o que ia na cabeça dos portugueses nos primeiros meses do ano, na véspera de um conflito tão brutal como a Primeira Guerra Mundial. É estranho olharmos para trás, conscientes de que algo vai acontecer, e conhecermos pessoas que não fazem a mais pequena ideia.
Em que se baseou para chegar ao dia-a-dia dos portugueses de então?
A melhor forma é ler os jornais. E havia muitos jornais. Tantos que, infelizmente, é impossível lê-los todos. Li todos os que consegui. Li livros editados nesse ano, livros sobre esse ano, voltei a olhar para o material que já tinha do livro anterior. De algum modo, durante quase um ano vivi em 1914. E optei, quando escrevi, em ficar lá. Ou seja, todo o livro está escrito como se o mundo tivesse acabado nesse ano. Vou dar-lhe um exemplo: a Federação Portuguesa de Futebol foi criada em 1914, embora com outro nome. Outro ainda: a maquete da estátua do Marquês de Pombal ganhou o concurso nesse ano, mas só foi construída algum tempo depois. Optei por não explorar o futuro que começava ali. Caso contrário, acho que ainda hoje estaria a escrever…
Quais foram as grandes diferenças que encontrou em relação aos nossos dias?
Quase tudo é diferente. Tão diferente que hoje damos por adquiridas algumas coisas com que na altura só se sonhava. Estamos a falar de um país que era quase analfabeto, em que a doença ceifava milhares de vidas todos os anos, em que a vida valia muito pouco. Em cem anos mudámos quase tudo.
Descobriu algo que não estava à espera, ou sobre o qual tinha uma ideia errada?
O mais surpreendente foi perceber que havia duelos, algo muito engraçado. Havia todo um ritual, que envolvia testemunhas e trocas de correspondências. Depois, escolhiam-se as armas, marcava-se uma hora e lá iam todos, quase sempre para a estrada da Ameixoeira. Os médicos interrompiam os combates sempre que alguém se aleijava e a coisa só parava quando o ofendido se sentia retratado. Era muito engraçado. E muitas vezes começava tudo com um artigo num jornal.
Também encontrou semelhanças com os dias de hoje. Como por exemplo?
Penso que, cem anos depois, há coisas em que somos praticamente iguais. O fascínio por tudo o que vem de fora, do estrangeiro, quase sempre em detrimento do que se faz e pensa por cá é algo que ainda hoje mantemos. Apesar de estarmos a assistir, curiosamente, a um interesse crescente e renovado pelo que é português. É um fenómeno interessante. Creio também que mudou muito pouco a forma como encaramos o Estado, essa entidade que tudo tem de resolver.
Há coisas que nem a guerra muda?
Essa é uma pergunta complicada. Se pensarmos bem, quando é que foi a última guerra que se travou em território português? Nos últimos cem anos, apesar de o mundo ter vivido duas guerras mundiais, e de termos combatido em África durante 13 anos, a verdade é que não se disparou um tiro em Portugal. Não significa que isso que tenhamos passado incólumes – milhares de famílias perderam pais, filhos, irmãos, maridos. Mas era sempre algo que acontecia longe, era sempre uma notícia que chegava. Para esses, como para os que voltaram e que vivem como se ainda estivessem por lá, a guerra mudou tudo. Somos o que sempre fomos, mas somos diferentes. Não sei se faz sentido…
Mesmo assim, concorda que a Primeira Guerra Mundial representou o fim de um mundo?
Sim, claro. Mas acho que mais do que o fim de um mundo, foi sobretudo o início de um outro, o início do mundo em que vivemos. Vinte anos houve nova guerra, uma ainda mais horrível, que mostrou ao mundo o lado mais negro da humanidade. O mundo dividiu-se a seguir, depois um dos lados desmoronou-se e hoje ainda não sabemos ao certo em que mundo estamos a viver. Se é que é possível falar de um mundo. Se calhar sempre houve vários mundos.
Entrevistou a bisneta do arquiduque Francisco Fernando, como foi essa experiência?
Muito interessante. É mais uma daquelas histórias que se perdem na grande história. E a dela começa com o assassinato dos bisavós em Sarajevo. Francisco Fernando e Sofia tinham três filhos à espera em casa, num castelo que está hoje na República Checa. Esse castelo, 100 anos depois, é um museu. A bisneta do arquiduque luta há vários anos para que o castelo seja devolvido à família. Ela tem um argumento interessante. Quando Francisco Fernando e Sofia se casaram – e como ela não tinha o estatuto necessário para se tornar uma Habsburgo – ambos assinaram uma declaração comprometendo-se a que ela e os filhos jamais seriam membros da família imperial. Ou seja, jamais seria Habsburgos. Ora, alega a bisneta, o castelo não era uma propriedade dos Habsburgo. Mas foi confiscado como se fosse. Ela sabe que é uma guerra perdida. Mas é a guerra dela.
Ela considerou que a sociedade de hoje é mais egoísta, concorda?
Não sei. Talvez tenhamos formas diferentes de sermos mais egoístas. Creio que é um mundo construído cada vez mais para o indivíduo e a consequência talvez seja termos menos uma sociedade, como ainda a concebemos, e mais uma “socioindividualidade”.
O que podemos aprender hoje com o estudo da catástrofe que a Primeira Guerra Mundial representou para a Europa?
Há duas lições importantes, creio. A primeira é que sobrevivemos. Não só à primeira, como à segunda e a tudo o que veio depois. Estamos cá, vivos para recordar e pensar sobre as coisas. Podemos olhar para trás e aprender. A segunda lição é que, apesar de tudo, isso pode não valer de nada. O futuro tende sempre a surpreender-nos. Que o digam as pessoas que foram ao teatro à noite na véspera de começar a guerra.
Neste ano do centenário da Primeira Guerra Mundial tem-se notado um especial interesse à vida particular das pessoas e da forma como a guerra as afectou. É um lado que falta estudar para além do conflito militar?
É, acima de tudo, uma dimensão inesgotável. Quando falamos de algo tão impressionante como a Primeira Guerra Mundial, a todos os níveis, tendemos por vezes a esquecer as pequenas coisas. Claro que a história se faz e se alimenta do confronto, da visão dos vencedores e dos vencidos. É natural. Mas é preciso não esquecer que por cada batalha, por cada grande deslocação de tropas, há vidas que tentam prosseguir o melhor que podem e consegues. Há gente que acorda todos os dias de manhã para trabalhar, para estar com a família, com os amigos, para ler um livro ou outra coisa qualquer. E isso, normalmente, não cabe na lente com que olhamos os grandes acontecimentos. No entanto, com um pouco de esforço, podemos encontrar mundos fascinantes.
O que o levou a esta descoberta da sociedade portuguesa no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial?
Houve dois caminhos que, a dado momento, se cruzaram. Desde logo, o livro que tinha escrito sobre a Primeira Guerra Mundial em África. Há algo curioso na forma como começou a nossa guerra África em 1914. Assim que estalou o conflito na Europa, a primeira preocupação do Governo de Portugal, da República que tinha apenas quatro anos, foi enviar tropas para Angola e Moçambique de modo a salvaguardar a integridade das então colónias. Mais interessante é que antes de entrarmos efectivamente no conflito – a declaração de guerra da Alemanha a Portugal é de 1916 – já tínhamos enviado milhares de homens para África e já tínhamos entrado em combate. Esse foi um dos caminhos. O outro foi o fascínio que me ficou de tentar perceber o que ia na cabeça dos portugueses nos primeiros meses do ano, na véspera de um conflito tão brutal como a Primeira Guerra Mundial. É estranho olharmos para trás, conscientes de que algo vai acontecer, e conhecermos pessoas que não fazem a mais pequena ideia.
Em que se baseou para chegar ao dia-a-dia dos portugueses de então?
A melhor forma é ler os jornais. E havia muitos jornais. Tantos que, infelizmente, é impossível lê-los todos. Li todos os que consegui. Li livros editados nesse ano, livros sobre esse ano, voltei a olhar para o material que já tinha do livro anterior. De algum modo, durante quase um ano vivi em 1914. E optei, quando escrevi, em ficar lá. Ou seja, todo o livro está escrito como se o mundo tivesse acabado nesse ano. Vou dar-lhe um exemplo: a Federação Portuguesa de Futebol foi criada em 1914, embora com outro nome. Outro ainda: a maquete da estátua do Marquês de Pombal ganhou o concurso nesse ano, mas só foi construída algum tempo depois. Optei por não explorar o futuro que começava ali. Caso contrário, acho que ainda hoje estaria a escrever…
Quais foram as grandes diferenças que encontrou em relação aos nossos dias?
Quase tudo é diferente. Tão diferente que hoje damos por adquiridas algumas coisas com que na altura só se sonhava. Estamos a falar de um país que era quase analfabeto, em que a doença ceifava milhares de vidas todos os anos, em que a vida valia muito pouco. Em cem anos mudámos quase tudo.
Descobriu algo que não estava à espera, ou sobre o qual tinha uma ideia errada?
O mais surpreendente foi perceber que havia duelos, algo muito engraçado. Havia todo um ritual, que envolvia testemunhas e trocas de correspondências. Depois, escolhiam-se as armas, marcava-se uma hora e lá iam todos, quase sempre para a estrada da Ameixoeira. Os médicos interrompiam os combates sempre que alguém se aleijava e a coisa só parava quando o ofendido se sentia retratado. Era muito engraçado. E muitas vezes começava tudo com um artigo num jornal.
Também encontrou semelhanças com os dias de hoje. Como por exemplo?
Penso que, cem anos depois, há coisas em que somos praticamente iguais. O fascínio por tudo o que vem de fora, do estrangeiro, quase sempre em detrimento do que se faz e pensa por cá é algo que ainda hoje mantemos. Apesar de estarmos a assistir, curiosamente, a um interesse crescente e renovado pelo que é português. É um fenómeno interessante. Creio também que mudou muito pouco a forma como encaramos o Estado, essa entidade que tudo tem de resolver.
Há coisas que nem a guerra muda?
Essa é uma pergunta complicada. Se pensarmos bem, quando é que foi a última guerra que se travou em território português? Nos últimos cem anos, apesar de o mundo ter vivido duas guerras mundiais, e de termos combatido em África durante 13 anos, a verdade é que não se disparou um tiro em Portugal. Não significa que isso que tenhamos passado incólumes – milhares de famílias perderam pais, filhos, irmãos, maridos. Mas era sempre algo que acontecia longe, era sempre uma notícia que chegava. Para esses, como para os que voltaram e que vivem como se ainda estivessem por lá, a guerra mudou tudo. Somos o que sempre fomos, mas somos diferentes. Não sei se faz sentido…
Mesmo assim, concorda que a Primeira Guerra Mundial representou o fim de um mundo?
Sim, claro. Mas acho que mais do que o fim de um mundo, foi sobretudo o início de um outro, o início do mundo em que vivemos. Vinte anos houve nova guerra, uma ainda mais horrível, que mostrou ao mundo o lado mais negro da humanidade. O mundo dividiu-se a seguir, depois um dos lados desmoronou-se e hoje ainda não sabemos ao certo em que mundo estamos a viver. Se é que é possível falar de um mundo. Se calhar sempre houve vários mundos.
Entrevistou a bisneta do arquiduque Francisco Fernando, como foi essa experiência?
Muito interessante. É mais uma daquelas histórias que se perdem na grande história. E a dela começa com o assassinato dos bisavós em Sarajevo. Francisco Fernando e Sofia tinham três filhos à espera em casa, num castelo que está hoje na República Checa. Esse castelo, 100 anos depois, é um museu. A bisneta do arquiduque luta há vários anos para que o castelo seja devolvido à família. Ela tem um argumento interessante. Quando Francisco Fernando e Sofia se casaram – e como ela não tinha o estatuto necessário para se tornar uma Habsburgo – ambos assinaram uma declaração comprometendo-se a que ela e os filhos jamais seriam membros da família imperial. Ou seja, jamais seria Habsburgos. Ora, alega a bisneta, o castelo não era uma propriedade dos Habsburgo. Mas foi confiscado como se fosse. Ela sabe que é uma guerra perdida. Mas é a guerra dela.
Ela considerou que a sociedade de hoje é mais egoísta, concorda?
Não sei. Talvez tenhamos formas diferentes de sermos mais egoístas. Creio que é um mundo construído cada vez mais para o indivíduo e a consequência talvez seja termos menos uma sociedade, como ainda a concebemos, e mais uma “socioindividualidade”.
O que podemos aprender hoje com o estudo da catástrofe que a Primeira Guerra Mundial representou para a Europa?
Há duas lições importantes, creio. A primeira é que sobrevivemos. Não só à primeira, como à segunda e a tudo o que veio depois. Estamos cá, vivos para recordar e pensar sobre as coisas. Podemos olhar para trás e aprender. A segunda lição é que, apesar de tudo, isso pode não valer de nada. O futuro tende sempre a surpreender-nos. Que o digam as pessoas que foram ao teatro à noite na véspera de começar a guerra.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
O império esquecido
A propósito dos 40 anos do 25 de Abril de 1974, uma das principais revistas de divulgação histórica em França fez uma viagem pela História de Portugal.
Depois de uma cronologia da nossa História e um mapa do Império português, podemos ler artigos sobre a Batalha de Ourique e o nascimento do reino, uma entrevista com Sanjay Subrahmanyam sobre os Descobrimentos, e também um sobre Pedro Álvares Cabral e a descoberta do Brasil, entre outros. No capítulo seguinte, destaque para os artigos sobre o triste destino de D. Sebastião, Lisboa, rainha do mar, o terramoto de 1755, a entrada de Junot em Lisboa, Rio de Janeiro, capital de Portugal, o ‘ultimatum’ e o fim do grande sonho africano, o Portugal eterno de Salazar e ainda um texto sobre Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Por fim, um artigo sobre o 25 de Abril e a democracia, o fim do Império e um sobre a descoberta da Europa, assinado por Ana Navarro Pedro, correspondente da revista “Visão” em Paris. De assinalar ainda um léxico de termos portugueses e três páginas de sugestões culturais.
Uma edição com uma inclinação ideológica para a esquerda que não traz muito de novo para os leitores portugueses, para além da satisfação de vermos a nossa importância histórica reconhecida no estrangeiro. Por outro lado, é aqui recordado um Império que, afinal, não está esquecido...
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Portugal no mundo
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
domingo, 10 de novembro de 2013
Quando a Europa descobriu o mundo
A grande gesta lusa dos Descobrimentos não seria possível sem o auxílio da técnica. Um dos instrumentos essenciais para navegar eram as chamadas “cartas-portulanos”, verdadeiros livros de instruções náuticas. Esteve patente na Biblioteca Nacional de França, em Paris, entre 23 de Outubro de 2012 e 27 de Janeiro de 2013, uma exposição intitulada “A Idade de Ouro das Cartas Marítimas”, onde o nosso país mereceu natural destaque pelo seu papel fundamental e precursor neste período histórico. Entre as peças fantásticas que vi havia várias cartas portuguesas, mas nenhuma delas pertence a um museu nacional. Uma viagem no tempo para recordar uma época de extrema importância na História de Portugal e da Europa, que nos faz reflectir sobre a nossa atitude perante o património. Aqui fica o que escrevi na altura para «O Diabo».
O nome da estação de metropolitano é Biblioteca François Miterrand, estamos na Linha 14, em pleno XV Arrondissement, na margem esquerda do Sena. É uma linha nova, de finais dos anos 90 do século passado, onde um português estranha automaticamente a protecção que existe no cais e que impede o acesso à linha. Quando chega um comboio abrem-se as portas das carruagens e as dessaa barreira. À saída descobre-se um bairro de arquitectura moderna e ruas em quadriculado.
Anunciada pelo então Presidente Miterrand em 1988, a quem deve o nome, o novo edifício da Biblioteca Nacional de França (BNF) só seria inaugurado em 1996, depois de alguns problemas na sua construção. É um conjunto impressionante que alberga mais de 30 milhões de peças, das quais 14 milhões são livros e publicações, de uma instituição que remonta a finais do século XVIII.
É uma manhã fria de céu cinzento, cujas nuvens ameaçam chuva. As pessoas movimentam-se apressadas pelas ruas e nas muitas que se dirigem para a BNF é possível distinguir várias nacionalidades. Há estudantes, investigadores ou meros curiosos que se acumulam à entrada para a revista de segurança obrigatória.
Na exposição
Passando a loja da BNF, a distância a percorrer é curta. É irresistível olhar para a esquerda envidraçada do corredor e observar as árvores frondosas que formam uma floresta em miniatura no espaço entre os edifícios altivos.
A entrada para a exposição é discreta. Passado o torniquete, pisamos Portugal. É a imagem de uma dessas cartas de outros tempos que está reproduzida num pequeno corredor de acesso, ocupando as paredes laterais e o chão. É quase infantil, mas nem por isso deixa de ser divertido “tocar” no estrangeiro a “ocidental praia lusitana”.
Há bastante público, mas é possível circular sem atropelos. Os visitantes são variados, da habitual turma escolar a um grupo de homens mais velhos que parecem oficiais de Marinha na reserva, passando por dois “jovens” vindos com certeza dos subúrbios.
Na primeira sala, ouve-se um verdadeiro entendido, seguramente um dos responsáveis pela exposição, que conta apaixonadamente o evoluir da cartografia marítima a um sujeito que vai demonstrando a sua ignorância através de perguntas tão disparatadas como o seu ar convencido. A explicação viria no fim da visita, quando o mesmo sujeito falava junto à carta de Mercator com um ar sapiente para uma câmara de televisão. Uma curiosidade que mostra bem a ilusão dos ‘media’.
Uma colecção impressionante
A própria BNF reconhece as cartas expostas fazem parte dos seus “tesouros”. São documentos científicos de excepção que nos transportam no tempo, para a era gloriosa dos corajosos navegadores que descobriram o mundo e o foram registando cartograficamente.
Estas cartas marítimas, chamadas “portulanos”, são iluminadas em pergaminho e de extraordinária beleza. Têm a sucessão dos portos ao longo da costa e no espaço marítimo estão assinaladas as linhas que correspondem às direcções da bússola. Um sistema gráfico que permitia aos marinheiros orientarem-se.
A BNF possui a maior colecção do mundo de “portulanos”, com cerca de cinco centenas destes objectos de inovação técnica que são hoje verdadeiras obras de arte, muitas delas de rara beleza, dimensões impressionantes e extraordinária policromia.
Idade de Ouro
O mais antigo “portulano” ocidental conhecido é a famosa “carta pisana”, do fim do século XIII. É uma das primeiras peças que podemos ver nesta exposição que junta uma selecção de cerca de duzentos objectos, entre cartas, globos, instrumentos astronómicos, obras de arte e de etnografia, desenhos, estampas, quadros e manuscritos. Muitas pertencem à colecção da BNF, mas muitas outras vêm de museus franceses, estrangeiros ou de colecções regionais.
A exposição aborda várias temáticas como as condições de navegação e a utilização das cartas, a descoberta da África, Ásia, Américas e do Pacífico e as rivalidades entre as potências marítimas e a criação e difusão de uma iconografia dos Novos Mundos.
Peças portuguesas
Nas várias peças portuguesas expostas o destaque vai naturalmente para as muitas cartas, de vários autores, como João Teixeira Albernaz, Gaspar Viegas, ou Domingos Teixeira. Para além destas, é possível ver o livro de Francisco Alvares sobre o Prestes João, de 1540, uma cruz de procissão etíope em latão, datada do século XV, a Crónica dos feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, de 1453, uma estatueta que representa um soldado português visto por um artista africanos, dos séculos XVI-XVII, uma réplica do Padrão de Santo Agostinho, cujo original está na Sociedade de Geografia de Lisboa. É também sempre bom ler que a caravela era “um barco para enfrentar o desconhecido”, acrescentando que esta invenção portuguesa “teve um papel capital na história das grandes descobertas”. Para lembrar a altura em que Portugal e Espanha dividiram o mundo, podemos ver um fac-símile da versão portuguesa do Tratado de Tordesilhas, de 1494. Por fim, o chamado Atlas Miller, devido ao nome do seu último proprietário antes de ter sido comprado pela BNF, um impressionante conjunto de cartas feitas pelos cartógrafos Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel, em 1519.
Outras peças
Há também peças impressionantes de outras origens, das quais se destacam o “Livro das Maravilhas”, de Marco Polo, de 1298, o Atlas catalão, de 1375, ou a Carta Salviati, de 1525. Muitas destas estão disponíveis para consulta na Gallica, a biblioteca de documentos digitalizados em linha da BNF.
Património
Ao mesmo tempo que gostamos de ver Portugal referido por feitos maiores em importantes exposições no estrangeiro, não deixa de nos entristecer que nos vários museus que colaboraram não há um único nacional.
Devemos questionar-nos por que peças de elevada importância para um período tão rico da nossa História não foram por nós compradas. É claro que depende da situação económica do País e da altura em que as cartas foram adquiridas. No entanto, sabemos bem como o património é por tantas vezes menosprezado pelos nossos governantes e por quem mais o devia preservar.
Um exemplo de apelo aos populares à participação na recuperação de património nacional em França lançada pela BNF foi a compra do “Livro de Horas de Joana de França”, de 1452, considerado como tesouro nacional pelo Ministério da Cultura francês no ano passado. Todos os que contribuem são considerados mecenas e beneficiam de deduções fiscais. Na altura, Bruno Racine, presidente da BNF, afirmou: “Numerosos serão os que, tenho a certeza, compreendem a necessidade de guardar em França este tesouro nacional e que nos ajudarão a adquiri-lo, quaisquer que sejam os seus meios.” Uma demonstração de orgulho nacional. Um exemplo para nos inspirar?
| Biblioteca Nacional de França |
O nome da estação de metropolitano é Biblioteca François Miterrand, estamos na Linha 14, em pleno XV Arrondissement, na margem esquerda do Sena. É uma linha nova, de finais dos anos 90 do século passado, onde um português estranha automaticamente a protecção que existe no cais e que impede o acesso à linha. Quando chega um comboio abrem-se as portas das carruagens e as dessaa barreira. À saída descobre-se um bairro de arquitectura moderna e ruas em quadriculado.
Anunciada pelo então Presidente Miterrand em 1988, a quem deve o nome, o novo edifício da Biblioteca Nacional de França (BNF) só seria inaugurado em 1996, depois de alguns problemas na sua construção. É um conjunto impressionante que alberga mais de 30 milhões de peças, das quais 14 milhões são livros e publicações, de uma instituição que remonta a finais do século XVIII.
É uma manhã fria de céu cinzento, cujas nuvens ameaçam chuva. As pessoas movimentam-se apressadas pelas ruas e nas muitas que se dirigem para a BNF é possível distinguir várias nacionalidades. Há estudantes, investigadores ou meros curiosos que se acumulam à entrada para a revista de segurança obrigatória.
Na exposição
Passando a loja da BNF, a distância a percorrer é curta. É irresistível olhar para a esquerda envidraçada do corredor e observar as árvores frondosas que formam uma floresta em miniatura no espaço entre os edifícios altivos.
A entrada para a exposição é discreta. Passado o torniquete, pisamos Portugal. É a imagem de uma dessas cartas de outros tempos que está reproduzida num pequeno corredor de acesso, ocupando as paredes laterais e o chão. É quase infantil, mas nem por isso deixa de ser divertido “tocar” no estrangeiro a “ocidental praia lusitana”.
Há bastante público, mas é possível circular sem atropelos. Os visitantes são variados, da habitual turma escolar a um grupo de homens mais velhos que parecem oficiais de Marinha na reserva, passando por dois “jovens” vindos com certeza dos subúrbios.
Na primeira sala, ouve-se um verdadeiro entendido, seguramente um dos responsáveis pela exposição, que conta apaixonadamente o evoluir da cartografia marítima a um sujeito que vai demonstrando a sua ignorância através de perguntas tão disparatadas como o seu ar convencido. A explicação viria no fim da visita, quando o mesmo sujeito falava junto à carta de Mercator com um ar sapiente para uma câmara de televisão. Uma curiosidade que mostra bem a ilusão dos ‘media’.
Uma colecção impressionante
A própria BNF reconhece as cartas expostas fazem parte dos seus “tesouros”. São documentos científicos de excepção que nos transportam no tempo, para a era gloriosa dos corajosos navegadores que descobriram o mundo e o foram registando cartograficamente.
Estas cartas marítimas, chamadas “portulanos”, são iluminadas em pergaminho e de extraordinária beleza. Têm a sucessão dos portos ao longo da costa e no espaço marítimo estão assinaladas as linhas que correspondem às direcções da bússola. Um sistema gráfico que permitia aos marinheiros orientarem-se.
A BNF possui a maior colecção do mundo de “portulanos”, com cerca de cinco centenas destes objectos de inovação técnica que são hoje verdadeiras obras de arte, muitas delas de rara beleza, dimensões impressionantes e extraordinária policromia.
Idade de Ouro
O mais antigo “portulano” ocidental conhecido é a famosa “carta pisana”, do fim do século XIII. É uma das primeiras peças que podemos ver nesta exposição que junta uma selecção de cerca de duzentos objectos, entre cartas, globos, instrumentos astronómicos, obras de arte e de etnografia, desenhos, estampas, quadros e manuscritos. Muitas pertencem à colecção da BNF, mas muitas outras vêm de museus franceses, estrangeiros ou de colecções regionais.
A exposição aborda várias temáticas como as condições de navegação e a utilização das cartas, a descoberta da África, Ásia, Américas e do Pacífico e as rivalidades entre as potências marítimas e a criação e difusão de uma iconografia dos Novos Mundos.
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| Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453) |
Peças portuguesas
Nas várias peças portuguesas expostas o destaque vai naturalmente para as muitas cartas, de vários autores, como João Teixeira Albernaz, Gaspar Viegas, ou Domingos Teixeira. Para além destas, é possível ver o livro de Francisco Alvares sobre o Prestes João, de 1540, uma cruz de procissão etíope em latão, datada do século XV, a Crónica dos feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, de 1453, uma estatueta que representa um soldado português visto por um artista africanos, dos séculos XVI-XVII, uma réplica do Padrão de Santo Agostinho, cujo original está na Sociedade de Geografia de Lisboa. É também sempre bom ler que a caravela era “um barco para enfrentar o desconhecido”, acrescentando que esta invenção portuguesa “teve um papel capital na história das grandes descobertas”. Para lembrar a altura em que Portugal e Espanha dividiram o mundo, podemos ver um fac-símile da versão portuguesa do Tratado de Tordesilhas, de 1494. Por fim, o chamado Atlas Miller, devido ao nome do seu último proprietário antes de ter sido comprado pela BNF, um impressionante conjunto de cartas feitas pelos cartógrafos Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel, em 1519.
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| Atlas Miller, de Lopo Homem e Pedro Reinel (c. 1519). |
Há também peças impressionantes de outras origens, das quais se destacam o “Livro das Maravilhas”, de Marco Polo, de 1298, o Atlas catalão, de 1375, ou a Carta Salviati, de 1525. Muitas destas estão disponíveis para consulta na Gallica, a biblioteca de documentos digitalizados em linha da BNF.
Património
Ao mesmo tempo que gostamos de ver Portugal referido por feitos maiores em importantes exposições no estrangeiro, não deixa de nos entristecer que nos vários museus que colaboraram não há um único nacional.
Devemos questionar-nos por que peças de elevada importância para um período tão rico da nossa História não foram por nós compradas. É claro que depende da situação económica do País e da altura em que as cartas foram adquiridas. No entanto, sabemos bem como o património é por tantas vezes menosprezado pelos nossos governantes e por quem mais o devia preservar.
Um exemplo de apelo aos populares à participação na recuperação de património nacional em França lançada pela BNF foi a compra do “Livro de Horas de Joana de França”, de 1452, considerado como tesouro nacional pelo Ministério da Cultura francês no ano passado. Todos os que contribuem são considerados mecenas e beneficiam de deduções fiscais. Na altura, Bruno Racine, presidente da BNF, afirmou: “Numerosos serão os que, tenho a certeza, compreendem a necessidade de guardar em França este tesouro nacional e que nos ajudarão a adquiri-lo, quaisquer que sejam os seus meios.” Uma demonstração de orgulho nacional. Um exemplo para nos inspirar?
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Os nossos guerreiros medievais
Miguel Gomes Martins, doutor em História da Idade Média pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é técnico superior do Gabinete de Estudos Olisiponenses, investigador, professor universitário e autor de várias obras dedicadas à História Militar Medieval. O seu mais recente livro é "Guerreiros Medievais Portugueses". Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo», publicada na edição de 24 de Setembro.
A guerra na Idade Média continua a encantar o público português?
Estou plenamente convencido que sim. O sucesso de séries televisivas, romances históricos ou mesmo jogos de computador, cujo pano de fundo é a Idade Média – mesmo que mitificada e envolvida num ambiente de fantasia – são uma prova dessa curiosidade e desse, como lhe chamou, encantamento. E se a tudo isso somarmos a circunstância de muitas dessas séries, romances e jogos terem a guerra como principal fio condutor, creio que poucas dúvidas restarão acerca do interesse pelos episódios militares desse período, mas também pela forma como se organizava e praticava a guerra.
Neste novo livro, como foi a escolha dos guerreiros tratados?
Tratou-se de uma escolha que partiu de uma primeira lista – mais meramente provisória – composta pelas figuras que, na minha perspectiva, melhor representavam, na cronologia em análise, o estereótipo do guerreiro medieval português. Importa, no entanto, sublinhar que a lista inicial foi sujeita a inúmeras alterações, ora em consequência das fontes disponíveis – que nem sempre permitiam uma abordagem minimamente desenvolvida e sólida –, ou da necessidade de se evitar a repetição de episódios, ora em resultado de uma ou de outra sugestão dos meus amigos e colegas medievalistas com quem troquei inúmeras ideias a respeito deste projecto.
Houve uma abordagem diferente nos mais conhecidos, como Nun'Álvares ou Geraldo Sem Pavor?
Creio que, mesmo quando se tratam de figuras relativamente conhecidas – como as que referiu –, só o facto de a minha observação se centrar no seu trajecto militar torna, por si só, esta análise inovadora. Claro que algumas das questões abordadas foram já objecto de análise noutros estudos, mas a forma como são aqui apresentadas e articuladas confere-lhes, penso eu, bastante originalidade.
Dos menos conhecidos, quais destacaria?
Perguntar-me isso, é quase o mesmo que perguntar a um pai, de qual dos seus filhos gosta mais. Mas vou tentar não fugir à questão dizendo-lhe que talvez tenha ficado surpreendido com a riqueza do percurso de Afonso Peres Farinha, um homem que inicia a sua carreira militar como um cavaleiro que pouco mais tem que as suas armas e cavalo, que ingressa na Ordem do Hospital onde atinge o topo da hierarquia em Portugal, que por três vezes viaja até ao Médio Oriente e que se converte num dos principais conselheiros de Afonso III. O mesmo se passou com a figura de Álvaro Vaz de Almada, um indivíduo que combate em Ceuta, que luta ao lado do infante D. Pedro nas fronteiras orientais do Império Romano-Germânico e nos palcos da Guerra dos Cem Anos, que está presente no cerco a Tânger, que desempenha um papel central na Guerra Civil da regência do infante D. Pedro e nos acontecimentos que desembocarão na Batalha de Alfarrobeira, onde virá a encontrar a morte.
Houve também a preocupação de não tratar apenas guerreiros vitoriosos...
Sim, essa foi, desde logo, uma das minhas preocupações, já que a Guerra faz-se de vitórias e de derrotas e só nesta dupla componente podemos entender todas as dimensões deste fenómeno. Foi justamente por isso que procurei também estudar alguns comandantes militares menos bem sucedidos como D. Fernando, senhor de Serpa ou do infante D. Afonso, senhor de Portalegre, que apesar dos revezes que marcaram os seus percursos, nem por isso deixam de ser grandes senhores da guerra e, como tal, merecedores da nossa atenção.
Há uma diferença entre os nossos guerreiros medievais e os de outros países europeus?
As diferenças podem ser mais visíveis ao nível da constituição dos exércitos, em particular da dimensão dos mesmos. Com efeito, um país pequeno, pouco povoado e, como tal, com uma base de recrutamento mais reduzida que, por exemplo, o nosso vizinho castelhano-leonês, tem naturalmente como resultado a mobilização de exércitos mais reduzidos. Também o facto de a Reconquista portuguesa ter terminado em 1249-1250, ou seja, mais de dois séculos antes da Castelhano-Leonesa, veio retirar aos combatentes e, consequentemente, aos exércitos portugueses boa parte das rotinas de combate que até então haviam sido adquiridas devido a um estado de guerra permanente com o Islão. Todavia, o facto de desde 1128 termos conseguido – tantas vezes pela força das armas – preservar a nossa independência, demonstra que todos esses problemas acabaram sempre por ser ultrapassados e solucionados, já que a Coroa, consciente dessa fragilização, procurou, por diversas vezes – e sempre com sucesso – obviar a essas dificuldades que, em última análise e caso se arrastassem, poderiam por em xeque a independência do reino. E recordo apenas as medidas levadas a cabo por D. Dinis, Afonso IV e D. Fernando, no sentido de conferir uma maior eficácia aos diversos corpos (contingentes nobres, milícias concelhias, guarda do rei e ordens militares) que compunham a hoste régia; ou ainda as alianças militares com outros reinos e que possibilitaram, por exemplo, a importante presença de combatentes ingleses em Aljubarrota.
Tínhamos comandantes de alto nível...
Tivemos, sem dúvida, comandantes extremamente competentes. O génio estratégico de Geraldo O Sem-Pavor; ou o brilhantismo táctico de Nuno Álvares Pereira são, provavelmente os exemplos mais expressivo da qualidade de alguns dos comandantes observados neste estudo. Mas eu creio que a competência destes homens não se revela apenas no planeamento e no comando das campanhas ou dos combates, mas também enquanto administradores e gestores. Recordemos apenas Gualdim Pais, enquanto mestre da Ordem do Templo em Portugal; ou Estêvão Vasques Filipe enquanto anadel-mor dos besteiros do conto do reino.
Também fala no treino e na formação dos comandantes militares, pode resumir em que consistia?
Trata-se de uma questão central na preparação dos combatentes – sobretudo dos nobres – em particular dos comandantes, ou daqueles que aspiravam vir a comandar tropas. Contudo, por não existirem exércitos permanente, era impossível desenvolver um programa de treino colectivo, pelo que a aprendizagem e o adestramento tinha, obrigatoriamente que se processar a título individual.
A preparação começava cedo, com os jovens a exercitar-se no manejo das armas e na equitação, combinando essas duas actividades, mais tarde, no jogo da quintana ou na prática da montaria, com o combatente a investir contra animais de médio e de grande porte (ursos, veados, javalis), de lança empunhada, como numa carga de cavalaria.
Claro que em algumas ocasiões era possível desenvolver um treino colectivo, nomeadamente nos torneios, desportos marciais que opunham duas equipas, ao contrário das justas, disputadas por apenas dois adversários. Tanto umas como outras, tiveram um grande sucesso na Europa Medieval, um fenómeno a que Portugal não foi excepção.
Mas não se pense que a formação dos combatentes se fazia apenas numa base prática. Com efeito, existia também uma importante componente teórica, em que obras como o “Epitoma Rei Militaris”, de Vegécio; ou as “Siete Partidas”, de Afonso X, entre muitas outras, desempenhavam um papel central na preparação dos combatentes. Complementavam-se com outros tipos de leituras, como as crónicas, a poesia épica ou os livros de linhagem que, para muitos – como o jovem Nuno Álvares Pereira – serviam como fonte de inspiração para os feitos que ambicionavam vir a alcançar, mas onde encontravam também os modelos cavaleirescos que procuravam imitar.
Acha que obras como as suas despertam no grande público a curiosidade numa Idade Média que não é a fantasia dos romances de cavalaria?
Assim o espero. Na realidade, este trabalho encontra-se dirigido não só aos Historiadores, investigadores, docentes e estudantes universitários, mas também a um público vasto e diversificado e que, de uma forma ou de outra, se interessa pela História do seu país durante a Idade Média. Foi com esse objectivo que procurei despojá-lo – sem no entanto perder nunca de vista o rigor e o carácter científico da análise – de algum peso excessivamente académico e de uma linguagem técnica demasiado complexa que, na minha perspectiva, têm sido dois dos principais motivos para o afastamento entre a História e o grande público.
Que reacções teve ao seu último livro, "De Ourique a Aljubarrota – A Guerra na Idade Média"?
As reacções, tenho que reconhecer, suplantaram as minhas expectativas iniciais. A forma como o livro foi acolhido, tanto pelos especialistas, quanto pelo grande público e o eco que teve nos meios de comunicação social foram, sem dúvida, sinais de que a missão a que me tinha proposto havia sido inteiramente cumprida. Estou também convicto que, comercialmente, se tratou de uma aposta ganha pela Esfera dos Livros, pois de outro modo não me teriam lançado o desafio para este “Guerreiros Medievais Portugueses”.
Acha que os nossos guerreiros medievais continuam a ser vistos como um exemplo nos nossos dias?
Uma das funções da História é a de nos ajudar a compreender o presente e a entender quais os caminhos do futuro e as opções que se nos colocam, como indivíduos, mas também como povo, pelo que tanto as derrotas quanto as vitórias destes homens – e não apenas as militares – devem ser lidas também como lições, como avisos e, em alguns casos, como exemplos a seguir, ou não.
A guerra na Idade Média continua a encantar o público português?
Estou plenamente convencido que sim. O sucesso de séries televisivas, romances históricos ou mesmo jogos de computador, cujo pano de fundo é a Idade Média – mesmo que mitificada e envolvida num ambiente de fantasia – são uma prova dessa curiosidade e desse, como lhe chamou, encantamento. E se a tudo isso somarmos a circunstância de muitas dessas séries, romances e jogos terem a guerra como principal fio condutor, creio que poucas dúvidas restarão acerca do interesse pelos episódios militares desse período, mas também pela forma como se organizava e praticava a guerra.
Neste novo livro, como foi a escolha dos guerreiros tratados?
Tratou-se de uma escolha que partiu de uma primeira lista – mais meramente provisória – composta pelas figuras que, na minha perspectiva, melhor representavam, na cronologia em análise, o estereótipo do guerreiro medieval português. Importa, no entanto, sublinhar que a lista inicial foi sujeita a inúmeras alterações, ora em consequência das fontes disponíveis – que nem sempre permitiam uma abordagem minimamente desenvolvida e sólida –, ou da necessidade de se evitar a repetição de episódios, ora em resultado de uma ou de outra sugestão dos meus amigos e colegas medievalistas com quem troquei inúmeras ideias a respeito deste projecto.
Houve uma abordagem diferente nos mais conhecidos, como Nun'Álvares ou Geraldo Sem Pavor?
Creio que, mesmo quando se tratam de figuras relativamente conhecidas – como as que referiu –, só o facto de a minha observação se centrar no seu trajecto militar torna, por si só, esta análise inovadora. Claro que algumas das questões abordadas foram já objecto de análise noutros estudos, mas a forma como são aqui apresentadas e articuladas confere-lhes, penso eu, bastante originalidade.
Dos menos conhecidos, quais destacaria?
Perguntar-me isso, é quase o mesmo que perguntar a um pai, de qual dos seus filhos gosta mais. Mas vou tentar não fugir à questão dizendo-lhe que talvez tenha ficado surpreendido com a riqueza do percurso de Afonso Peres Farinha, um homem que inicia a sua carreira militar como um cavaleiro que pouco mais tem que as suas armas e cavalo, que ingressa na Ordem do Hospital onde atinge o topo da hierarquia em Portugal, que por três vezes viaja até ao Médio Oriente e que se converte num dos principais conselheiros de Afonso III. O mesmo se passou com a figura de Álvaro Vaz de Almada, um indivíduo que combate em Ceuta, que luta ao lado do infante D. Pedro nas fronteiras orientais do Império Romano-Germânico e nos palcos da Guerra dos Cem Anos, que está presente no cerco a Tânger, que desempenha um papel central na Guerra Civil da regência do infante D. Pedro e nos acontecimentos que desembocarão na Batalha de Alfarrobeira, onde virá a encontrar a morte.
Houve também a preocupação de não tratar apenas guerreiros vitoriosos...
Sim, essa foi, desde logo, uma das minhas preocupações, já que a Guerra faz-se de vitórias e de derrotas e só nesta dupla componente podemos entender todas as dimensões deste fenómeno. Foi justamente por isso que procurei também estudar alguns comandantes militares menos bem sucedidos como D. Fernando, senhor de Serpa ou do infante D. Afonso, senhor de Portalegre, que apesar dos revezes que marcaram os seus percursos, nem por isso deixam de ser grandes senhores da guerra e, como tal, merecedores da nossa atenção.
Há uma diferença entre os nossos guerreiros medievais e os de outros países europeus?
As diferenças podem ser mais visíveis ao nível da constituição dos exércitos, em particular da dimensão dos mesmos. Com efeito, um país pequeno, pouco povoado e, como tal, com uma base de recrutamento mais reduzida que, por exemplo, o nosso vizinho castelhano-leonês, tem naturalmente como resultado a mobilização de exércitos mais reduzidos. Também o facto de a Reconquista portuguesa ter terminado em 1249-1250, ou seja, mais de dois séculos antes da Castelhano-Leonesa, veio retirar aos combatentes e, consequentemente, aos exércitos portugueses boa parte das rotinas de combate que até então haviam sido adquiridas devido a um estado de guerra permanente com o Islão. Todavia, o facto de desde 1128 termos conseguido – tantas vezes pela força das armas – preservar a nossa independência, demonstra que todos esses problemas acabaram sempre por ser ultrapassados e solucionados, já que a Coroa, consciente dessa fragilização, procurou, por diversas vezes – e sempre com sucesso – obviar a essas dificuldades que, em última análise e caso se arrastassem, poderiam por em xeque a independência do reino. E recordo apenas as medidas levadas a cabo por D. Dinis, Afonso IV e D. Fernando, no sentido de conferir uma maior eficácia aos diversos corpos (contingentes nobres, milícias concelhias, guarda do rei e ordens militares) que compunham a hoste régia; ou ainda as alianças militares com outros reinos e que possibilitaram, por exemplo, a importante presença de combatentes ingleses em Aljubarrota.
Tínhamos comandantes de alto nível...
Tivemos, sem dúvida, comandantes extremamente competentes. O génio estratégico de Geraldo O Sem-Pavor; ou o brilhantismo táctico de Nuno Álvares Pereira são, provavelmente os exemplos mais expressivo da qualidade de alguns dos comandantes observados neste estudo. Mas eu creio que a competência destes homens não se revela apenas no planeamento e no comando das campanhas ou dos combates, mas também enquanto administradores e gestores. Recordemos apenas Gualdim Pais, enquanto mestre da Ordem do Templo em Portugal; ou Estêvão Vasques Filipe enquanto anadel-mor dos besteiros do conto do reino.
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| Geraldo, O Sem-Pavor |
Trata-se de uma questão central na preparação dos combatentes – sobretudo dos nobres – em particular dos comandantes, ou daqueles que aspiravam vir a comandar tropas. Contudo, por não existirem exércitos permanente, era impossível desenvolver um programa de treino colectivo, pelo que a aprendizagem e o adestramento tinha, obrigatoriamente que se processar a título individual.
A preparação começava cedo, com os jovens a exercitar-se no manejo das armas e na equitação, combinando essas duas actividades, mais tarde, no jogo da quintana ou na prática da montaria, com o combatente a investir contra animais de médio e de grande porte (ursos, veados, javalis), de lança empunhada, como numa carga de cavalaria.
Claro que em algumas ocasiões era possível desenvolver um treino colectivo, nomeadamente nos torneios, desportos marciais que opunham duas equipas, ao contrário das justas, disputadas por apenas dois adversários. Tanto umas como outras, tiveram um grande sucesso na Europa Medieval, um fenómeno a que Portugal não foi excepção.
Mas não se pense que a formação dos combatentes se fazia apenas numa base prática. Com efeito, existia também uma importante componente teórica, em que obras como o “Epitoma Rei Militaris”, de Vegécio; ou as “Siete Partidas”, de Afonso X, entre muitas outras, desempenhavam um papel central na preparação dos combatentes. Complementavam-se com outros tipos de leituras, como as crónicas, a poesia épica ou os livros de linhagem que, para muitos – como o jovem Nuno Álvares Pereira – serviam como fonte de inspiração para os feitos que ambicionavam vir a alcançar, mas onde encontravam também os modelos cavaleirescos que procuravam imitar.
Acha que obras como as suas despertam no grande público a curiosidade numa Idade Média que não é a fantasia dos romances de cavalaria?
Assim o espero. Na realidade, este trabalho encontra-se dirigido não só aos Historiadores, investigadores, docentes e estudantes universitários, mas também a um público vasto e diversificado e que, de uma forma ou de outra, se interessa pela História do seu país durante a Idade Média. Foi com esse objectivo que procurei despojá-lo – sem no entanto perder nunca de vista o rigor e o carácter científico da análise – de algum peso excessivamente académico e de uma linguagem técnica demasiado complexa que, na minha perspectiva, têm sido dois dos principais motivos para o afastamento entre a História e o grande público.
Que reacções teve ao seu último livro, "De Ourique a Aljubarrota – A Guerra na Idade Média"?
As reacções, tenho que reconhecer, suplantaram as minhas expectativas iniciais. A forma como o livro foi acolhido, tanto pelos especialistas, quanto pelo grande público e o eco que teve nos meios de comunicação social foram, sem dúvida, sinais de que a missão a que me tinha proposto havia sido inteiramente cumprida. Estou também convicto que, comercialmente, se tratou de uma aposta ganha pela Esfera dos Livros, pois de outro modo não me teriam lançado o desafio para este “Guerreiros Medievais Portugueses”.
Acha que os nossos guerreiros medievais continuam a ser vistos como um exemplo nos nossos dias?
Uma das funções da História é a de nos ajudar a compreender o presente e a entender quais os caminhos do futuro e as opções que se nos colocam, como indivíduos, mas também como povo, pelo que tanto as derrotas quanto as vitórias destes homens – e não apenas as militares – devem ser lidas também como lições, como avisos e, em alguns casos, como exemplos a seguir, ou não.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
História de Portugal em cromos
A mostra é organizada por Leonardo De Sá, perito em banda desenhada e ilustração, e João Manuel Mimoso, coleccionador de cadernetas de cromos. Será acompanhada de um catálogo em formato e-book e inclui um encontro com o autor Carlos Alberto Santos e com os organizadores da mostra, no dia 18 de Outubro.
Mas, para os entusiastas dos cromos, há mais uma boa notícia. Os organizadores desta mostra estão a preparar uma exposição alargada sobre "O cromo em Portugal", para Novembro de 2014, igualmente na Biblioteca Nacional.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Face ao Mostrengo
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quere o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D'El-Rei D. João Segundo!»
Fernando Pessoa
in "Mensagem"
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Chefes de Portugal
“Grandes Chefes da História de Portugal”, publicado pela Texto Editores, é um trabalho de mérito que abre novos caminhos na investigação histórica no nosso país. Coordenado por Ernesto Castro Leal, professor e investigador de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e José Pedro Zúquete, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, traz-nos uma perspectiva nova, numa abordagem diferente, de importantes figuras da nossa História.
Até um apaixonado pela História – como eu, que a escolhi como área de formação – dificilmente consegue suportar os “complexos histórico-geográficos” e “socioeconómicos” da historiografia marxista. Esta predilecção pelo papel das “massas” como “motor da História” impregnou o ensino com as consequências que sabemos. Afastou o grande público desta matéria tão importante para nos conhecermos enquanto Povo e só recentemente começámos a livrar-nos desse modelo.
O regresso da História narrativa e biográfica voltou a despertar nos portugueses o interesse pelo seu passado comum e pelos homens que construíram. Prova disso é o aumento exponencial de títulos disponíveis e as suas vendas expressivas.
“Grandes Chefes da História de Portugal” tem um título chamativo para o público, que o entende à primeira sem necessidade de explicações, e incómodo para os quadrilheiros do politicamente correcto. Sempre ciosos do seu ‘index’ de palavras proibidas, estes últimos consideram “chefe” como algo ultrapassado, quando não perigoso. Mas, como é explicado na Introdução, “a interpretação que os organizadores deste volume dão à palavra ‘chefe’ é neutra. Embora a palavra tenha sido apropriada, quer pela direita (como factor positivo), quer pela esquerda (como denunciação e crítica), neste volume ela é vista essencialmente como um instrumento analítico para ajudar à compreensão de dinâmicas históricas em Portugal”. É, de facto, o que acontece. Não se espere aqui um álbum de cromos com os heróis da Pátria.
Este é um trabalho original, que junta diversos académicos, que se expressam num registo acessível, que abre novas portas à investigação. Em entrevista a O DIABO, Ernesto Castro Leal explicou o objectivo da obra: “Pretendeu-se que os diversos autores, a partir de um chefe (individual, colectivo ou imaginário) com qualidades paradigmáticas, abordassem os tempos históricos concatenados à acção dos chefes. Não há dúvida que, pela abordagem pioneira de alguns chefes ou pela reinterpretação de outros chefes, com base em novos modelos de análise, este livro é um ‘lugar funcional de memória’ historiográfica com muita novidade, algumas análises surpreendentes e caminhos abertos para continuar.”
A crítica fácil seria questionar a escolha deste ou de aquele “chefe”, apontando supostas “faltas”. É claro que há “faltas”, nomeadamente daqueles que gostaríamos de ver tratados. Mas essa é talvez uma das maiores virtudes deste trabalho, porque garante uma continuação.
Aqui podemos encontrar capítulos dedicados a “chefes” que esperávamos, como o de José Almeida sobre Viriato. No entanto, este está longe de ser uma entrada enciclopédica ou um exercício laudatório. Trata-se, pelo contrário, de um exemplo de “investigação de ponta”, como o considerou Ernesto de Castro Leal, na apresentação do livro em Lisboa. Também D. Nuno Álvares Pereira é apontado como o “Chefe Militar”, por João Gouveia Monteiro, e São Francisco Xavier como o “Chefe Jesuíta”, por António Júlio Trigueiros.
Da mesma forma, encontramos “chefes” que nunca nos ocorreriam, como é o caso da própria Constituição, considerada como “chefe” por Paulo Ferreira da Cunha. Outros casos que demonstram originalidade de escolha e novidade dos temas são Pêro da Covilhã, considerado o “Chefe Aventureiro”, por António dos Santos Ventura, ou os capítulos dedicados ao “Chefe Luso-brasileiro” ou à “Chefe Feminista”, por exemplo.
Outros casos que merecem destaque são os do “Chefe na Extrema-Direita”, onde Riccardo Marchi analisa uma área política que tanto necessita de um chefe, mas que nunca o encontrou verdadeiramente. Também o capítulo dedicado a João de Castro Osório, o “Chefe Fascista”, da autoria de Eduardo Cintra Torres, aborda uma figura ainda muito desconhecida entre nós. O capítulo sobre Franco Nogueira, naturalmente escolhido como “Chefe Diplomático” por Bruno Cardoso Reis, apresenta uma abordagem interessante sobre o papel do Embaixador.
O livro conclui com o excelente texto de José Pedro Zúquete, dedicado ao “Chefe Imaginário”, sobre o Sebastianismo em Portugal. Uma análise cuidada que termina com uma reflexão muito importante: “Reconhecer o contributo histórico do Sebastianismo não é cair no sentimentalismo fácil. Pelo contrário. É fazer o mais difícil. É pensar Portugal como um todo, em vez de o pensar de costas voltadas, seja para a razão, seja para o mito.”
Até um apaixonado pela História – como eu, que a escolhi como área de formação – dificilmente consegue suportar os “complexos histórico-geográficos” e “socioeconómicos” da historiografia marxista. Esta predilecção pelo papel das “massas” como “motor da História” impregnou o ensino com as consequências que sabemos. Afastou o grande público desta matéria tão importante para nos conhecermos enquanto Povo e só recentemente começámos a livrar-nos desse modelo.
O regresso da História narrativa e biográfica voltou a despertar nos portugueses o interesse pelo seu passado comum e pelos homens que construíram. Prova disso é o aumento exponencial de títulos disponíveis e as suas vendas expressivas.
“Grandes Chefes da História de Portugal” tem um título chamativo para o público, que o entende à primeira sem necessidade de explicações, e incómodo para os quadrilheiros do politicamente correcto. Sempre ciosos do seu ‘index’ de palavras proibidas, estes últimos consideram “chefe” como algo ultrapassado, quando não perigoso. Mas, como é explicado na Introdução, “a interpretação que os organizadores deste volume dão à palavra ‘chefe’ é neutra. Embora a palavra tenha sido apropriada, quer pela direita (como factor positivo), quer pela esquerda (como denunciação e crítica), neste volume ela é vista essencialmente como um instrumento analítico para ajudar à compreensão de dinâmicas históricas em Portugal”. É, de facto, o que acontece. Não se espere aqui um álbum de cromos com os heróis da Pátria.
Este é um trabalho original, que junta diversos académicos, que se expressam num registo acessível, que abre novas portas à investigação. Em entrevista a O DIABO, Ernesto Castro Leal explicou o objectivo da obra: “Pretendeu-se que os diversos autores, a partir de um chefe (individual, colectivo ou imaginário) com qualidades paradigmáticas, abordassem os tempos históricos concatenados à acção dos chefes. Não há dúvida que, pela abordagem pioneira de alguns chefes ou pela reinterpretação de outros chefes, com base em novos modelos de análise, este livro é um ‘lugar funcional de memória’ historiográfica com muita novidade, algumas análises surpreendentes e caminhos abertos para continuar.”
A crítica fácil seria questionar a escolha deste ou de aquele “chefe”, apontando supostas “faltas”. É claro que há “faltas”, nomeadamente daqueles que gostaríamos de ver tratados. Mas essa é talvez uma das maiores virtudes deste trabalho, porque garante uma continuação.
Aqui podemos encontrar capítulos dedicados a “chefes” que esperávamos, como o de José Almeida sobre Viriato. No entanto, este está longe de ser uma entrada enciclopédica ou um exercício laudatório. Trata-se, pelo contrário, de um exemplo de “investigação de ponta”, como o considerou Ernesto de Castro Leal, na apresentação do livro em Lisboa. Também D. Nuno Álvares Pereira é apontado como o “Chefe Militar”, por João Gouveia Monteiro, e São Francisco Xavier como o “Chefe Jesuíta”, por António Júlio Trigueiros.
Da mesma forma, encontramos “chefes” que nunca nos ocorreriam, como é o caso da própria Constituição, considerada como “chefe” por Paulo Ferreira da Cunha. Outros casos que demonstram originalidade de escolha e novidade dos temas são Pêro da Covilhã, considerado o “Chefe Aventureiro”, por António dos Santos Ventura, ou os capítulos dedicados ao “Chefe Luso-brasileiro” ou à “Chefe Feminista”, por exemplo.
Outros casos que merecem destaque são os do “Chefe na Extrema-Direita”, onde Riccardo Marchi analisa uma área política que tanto necessita de um chefe, mas que nunca o encontrou verdadeiramente. Também o capítulo dedicado a João de Castro Osório, o “Chefe Fascista”, da autoria de Eduardo Cintra Torres, aborda uma figura ainda muito desconhecida entre nós. O capítulo sobre Franco Nogueira, naturalmente escolhido como “Chefe Diplomático” por Bruno Cardoso Reis, apresenta uma abordagem interessante sobre o papel do Embaixador.
O livro conclui com o excelente texto de José Pedro Zúquete, dedicado ao “Chefe Imaginário”, sobre o Sebastianismo em Portugal. Uma análise cuidada que termina com uma reflexão muito importante: “Reconhecer o contributo histórico do Sebastianismo não é cair no sentimentalismo fácil. Pelo contrário. É fazer o mais difícil. É pensar Portugal como um todo, em vez de o pensar de costas voltadas, seja para a razão, seja para o mito.”
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
O dia do grande terramoto
"Lisboa antes e durante o terramoto de 1755"
Mateus Sautter (Escola Alemã, Séc. XVIII)
Museu da Cidade, Lisboa.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Reconquista de Lisboa
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
A grande História
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
“Fascistas”
A propósito da “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos, que foi um sucesso de vendas e depois distribuída em fascículos pelo “Expresso”, Manuel Loff fez uso do seu espaço de opinião no “Público” para atacar o co-autor responsável pelo período contemporâneo dizendo que este fazia uma defesa ou um branqueamento do Estado Novo.Não é difícil perceber qual o posicionamento ideológico de Loff quando dá a entender que alguém que considera incómodo é “fascista”. Acontece que a “História de Portugal” de Rui Ramos foi um êxito comercial apreciado pelo público em geral e este historiador não se submete à ortodoxia das esquerdas que tomaram a Universidade.
A seguir ao 25 de Abril, os guardiões ideológicos da “revolução” sabiam bem que era absolutamente necessário dominar o poder cultural. Na Academia, as áreas de Letras foram naturalmente as mais afectadas. No caso concreto da História era de extrema importância controlar a História Contemporânea, já que ter a chave deste passado imediato lhes conferia uma superioridade moral. Já dizia Orwell, no seu distópico “1984”: “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”.
Mais, a amplitude da estúpida e errada definição de “fascismo” utilizada tem um único propósito – permitir que seja aplicada quando e a quem se quiser. É o gasto argumento falacioso da ‘reductio ad Hitlerum’, segundo lhe chamou Leo Strauss. Como escreveu Pedro Lomba a respeito deste caso, no “Público”, o alvo era Rui Ramos, “mas qualquer outro, de ideias muito diferentes, podia estar no seu lugar”.
Não se pense que Loff é um caso isolado. Há muitos como ele que, ainda hoje, na sombra, se regozijam pelos ataques que desferiu. Ainda existem por aí muitos ditos historiadores que se orgulham de “fazer História para combater o fascismo”. É a perspectiva dos olham para o passado interpretando-o em função de quem consideram os “bons” e os “maus”.
Num debate sério não há lugar para os que se julgam donos da verdade.
Editorial da edição desta semana de «O Diabo».
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Portugal e o Estado
Diariamente ouvimos falar no Estado, provavelmente nunca nos questionando acerca da sua origem mais remota.”O Estado em Portugal (séculos XII-XVI)” (capa mole, 236 páginas, 16,96 euros) é uma óptima síntese, bem sustentada cientificamente, feita por uma académica, mas acessível ao público interessado. Judite Gonçalves de Freitas, Professora Catedrática da Universidade Fernando Pessoa, leva-nos às raízes medievais do chamado “Estado Moderno” para melhor percebemos como aqui chegámos.
Felizmente que há muito que se vem dissipando a ideia errónea de olhar para a Idade Média como sendo a “das trevas”, ao mesmo tempo que a própria divisão da História em períodos estanques deixa de ter sentido. Não só os tempos medievais foram de desenvolvimento, de descoberta e até do que podemos considerar uma “revolução científica”, como a História implica em si própria uma continuidade. Pese embora haja marcos incontornáveis e a separação por períodos facilite a análise é exactamente passando por cima destes que se é bem sucedido na procura das origens. A autora define muitíssimo bem esse exercício no subtítulo desta obra – “Modernidades Medievais”.
De facto, como afirma a autora, “a construção moderna do Estado implicou um conjunto de modificações lentas, edificadas dentro dos limites do domínio territorial da monarquia”. Para chegar a esta conclusão, Judite Gonçalves de Freitas traça a evolução das estruturas políticas e sociais desde o Portugal Medieval até ao início da Época Moderna. Esse trajecto está dividido em quatro grandes unidades temáticas, a saber: Realeza, Governo e Poder dinástico; Monarquia, Parlamento e Direito; Estado, Poder e Administração e, finalmente, Estruturas do poder político: a monarquia renovada.
Uma obra que não ignora os principais trabalhos produzidos sobre o tema e que assenta em fontes e bibliografia, cuidadamente discriminadas no final de cada capítulo. Inclui ainda dois mapas e três organogramas das instituições políticas, bem como uma útil cronologia dos principais acontecimentos políticos.
Um livro bem construído e clarificador. Uma reflexão necessária para compreendermos a formação do Estado no nosso país. Como escreveu no Prefácio Martim de Albuquerque, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, “este livro ostenta, de facto, uma discursividade atraente, inclusive sedutora. Claro, sistemático, lógico. São três adjectivos que ocorrem naturalmente e a propósito. Concitar tantos autores portugueses e estrangeiros, os respectivos contributos de forma coerente e em concatenação, sem os desvirtuar, antes em encaixe admirável uns nos outros e sem jamais perder de vista as fontes da época respectiva, constitui um desafio que a autora acatou e venceu, todavia, sem dificuldade aparente.”
Felizmente que há muito que se vem dissipando a ideia errónea de olhar para a Idade Média como sendo a “das trevas”, ao mesmo tempo que a própria divisão da História em períodos estanques deixa de ter sentido. Não só os tempos medievais foram de desenvolvimento, de descoberta e até do que podemos considerar uma “revolução científica”, como a História implica em si própria uma continuidade. Pese embora haja marcos incontornáveis e a separação por períodos facilite a análise é exactamente passando por cima destes que se é bem sucedido na procura das origens. A autora define muitíssimo bem esse exercício no subtítulo desta obra – “Modernidades Medievais”.
De facto, como afirma a autora, “a construção moderna do Estado implicou um conjunto de modificações lentas, edificadas dentro dos limites do domínio territorial da monarquia”. Para chegar a esta conclusão, Judite Gonçalves de Freitas traça a evolução das estruturas políticas e sociais desde o Portugal Medieval até ao início da Época Moderna. Esse trajecto está dividido em quatro grandes unidades temáticas, a saber: Realeza, Governo e Poder dinástico; Monarquia, Parlamento e Direito; Estado, Poder e Administração e, finalmente, Estruturas do poder político: a monarquia renovada.
Uma obra que não ignora os principais trabalhos produzidos sobre o tema e que assenta em fontes e bibliografia, cuidadamente discriminadas no final de cada capítulo. Inclui ainda dois mapas e três organogramas das instituições políticas, bem como uma útil cronologia dos principais acontecimentos políticos.
Um livro bem construído e clarificador. Uma reflexão necessária para compreendermos a formação do Estado no nosso país. Como escreveu no Prefácio Martim de Albuquerque, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, “este livro ostenta, de facto, uma discursividade atraente, inclusive sedutora. Claro, sistemático, lógico. São três adjectivos que ocorrem naturalmente e a propósito. Concitar tantos autores portugueses e estrangeiros, os respectivos contributos de forma coerente e em concatenação, sem os desvirtuar, antes em encaixe admirável uns nos outros e sem jamais perder de vista as fontes da época respectiva, constitui um desafio que a autora acatou e venceu, todavia, sem dificuldade aparente.”
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