"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."
Mostrar mensagens com a etiqueta França. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta França. Mostrar todas as mensagens
domingo, 7 de maio de 2017
Submissão
"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."
sexta-feira, 5 de maio de 2017
A Direita francesa, as eleições presidenciais e Marine Le Pen
Há dois anos entrevistei o Bruno Garschagen, professor de Teoria Política, autor e tradutor, a propósito do seu livro “Pare de acreditar no Governo. Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”. Apesar das nossas diferenças, mantivemos o contacto, a amizade e o salutar debate de ideias. Desta vez, a propósito das eleições presidenciais francesas, os papéis inverteram-se e fui eu o entrevistado. Aqui fica a ligação para a entrevista que dei ontem em directo, uma óptima experiência que, assim espero, seja útil à compreensão do que está em jogo no próximo dia 7 de Maio.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
A teoria que dá a vitória a Marine Le Pen
![]() |
| Marine Le Pen |
Ao contrário do que prevêem as sondagens, Marine pode vencer graças ao que Serge Galam chama a "abstenção diferenciada". Segundo o investigador, Le Pen não consegue passar a barreira dos 50%, mas pode beneficiar de uma fraca mobilização do eleitorado de Macron.
Traduzido em números, Galam parte de uma sondagem que dá 58% a Macron e 42% a Marine para considerar que, neste caso, se 90% dos eleitores de Marine votarem na segunda volta e apenas 65% dos eleitores que declararam o seu apoio a Macron o fizerem, Marine Le Pen seria eleita com 50,07% dos votos.
É uma hipótese remota, claro, mas temos visto vários casos em que o inesperado aconteceu...
domingo, 30 de abril de 2017
Macron, o candidato dos 'media'
![]() |
| Macron, o candidato dos media |
Ainda as sondagens não apontavam Emmanuel Macron como candidato capaz de chegar à segunda volta das eleições presidenciais em França, já a imprensa dita "de referência" fazia um verdadeiro exercício de propaganda a este ex-ministro de Hollande, que de repente se tornara uma "sensação", uma "novidade", uma coqueluche mediática.
Não será por isso de estranhar que os media não se inibiram de manifestar o seu apoio expresso a Macron, como se tornaram engrenagens essenciais na sua máquina propagandística.
A cobertura da noite eleitoral da primeira volta é um exemplo paradigmático e foi muitíssimo bem desmontada por Michel Geoffroy numa exaustiva análise, cuja leitura aconselho. O ensaísta francês, colaborador da Fondation Polémia, conclui que nessa noite os media instalaram Macron como o futuro Presidente da República francesa.
Em Portugal, como no resto do mundo ocidental, a postura foi fundamentalmente a mesma. No entanto, houve um exemplo raro e louvável que é se impõe referir. Felisbela Lopes, professora universitária que lecciona Comunicação Social da Universidade do Minho, escreveu um artigo no "Jornal de Notícias" cujo título diz tudo: "Os média escolhem Macron". Nesse texto, confessa a sua "repulsa a sofisticados processos de produção noticiosa que, sob o manto da imparcialidade e da precisão, procuram passar mensagens subliminares que orientem comportamentos. Por norma, os cidadãos percebem bem essa manipulação e tendem a reagir em sentido contrário daquele pretendido. Nestas eleições francesas, seria melhor noticiar com rigor o que os dois candidatos fazem e desconstruir exaustivamente as respetivas propostas, circunscrevendo a defesa de cada um aos espaços de opinião". É a defesa de um jornalismo ideal, dirão alguns, de uma objectividade impossível, dirão outros, mas não deixa de ser uma chamada de atenção muito importante, em especial neste tempo em que os media do sistema tanto se esforçam por recuperar uma credibilidade que dificilmente voltarão a ter.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Seguidismo
Foi preciso apenas uma geração para o francês se tornar um língua estranha em Portugal. Nem o facto de ser um parente neolatino próximo do português ajuda. Esta falha foi especialmente notória na semana passada, no turbilhão de notícias que chegavam de Paris e que era necessário tratar com urgência. Facilmente se percebia que muitas das novidades “em cima do acontecimento” eram versões “mastigadas” de órgãos de informação em língua inglesa. Já naqueles que optavam pelos ‘media’ franceses, era penoso vê-los tropeçar em traduções descuidadas, quando não disparatadas, e ouvir nomes, expressões e localidades em francês pronunciados das formas mais escabrosas.
Talvez por isso tenha escapado a muitos portugueses um pormenor no ‘slogan’ “Je suis Charlie”, que se generalizou após o atentado terrorista à Redacção do jornal satírico “Charlie Hebdo”. Ora, em francês, “je suis” significa não apenas “eu sou”, como também “eu sigo”.
Perante a rápida disseminação, em especial na Europa Ocidental, desta expressão que tem sido usada tanto por populares como por políticos e jornalistas, não é difícil ler, afinal, “Eu sigo Charlie”.
Para que não haja dúvidas, os cobardes ataques terroristas ocorridos em França, que provocaram várias vítimas mortais, merecem total reprovação. No entanto, tal não significa que nos devamos precipitar num seguidismo automático.
A natural condenação dos actos bárbaros cometidos, deve levar-nos a uma reflexão ponderada e informada sobre o terrorismo que agora ganha força na Europa, as suas causas e consequências, bem como sobre o que fazer em defesa da nossa civilização.
Por muito bem que soe nas redes sociais, agora não é o tempo de dar a outra face.
Talvez por isso tenha escapado a muitos portugueses um pormenor no ‘slogan’ “Je suis Charlie”, que se generalizou após o atentado terrorista à Redacção do jornal satírico “Charlie Hebdo”. Ora, em francês, “je suis” significa não apenas “eu sou”, como também “eu sigo”.
Perante a rápida disseminação, em especial na Europa Ocidental, desta expressão que tem sido usada tanto por populares como por políticos e jornalistas, não é difícil ler, afinal, “Eu sigo Charlie”.
Para que não haja dúvidas, os cobardes ataques terroristas ocorridos em França, que provocaram várias vítimas mortais, merecem total reprovação. No entanto, tal não significa que nos devamos precipitar num seguidismo automático.
A natural condenação dos actos bárbaros cometidos, deve levar-nos a uma reflexão ponderada e informada sobre o terrorismo que agora ganha força na Europa, as suas causas e consequências, bem como sobre o que fazer em defesa da nossa civilização.
Por muito bem que soe nas redes sociais, agora não é o tempo de dar a outra face.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
O livro que está a agitar a França
A mais recente obra do polemista Éric Zemmour é um fenómeno literário de vendas e está a agitar as águas da política francesa. À direita é vista como um alerta para o estado a que chegou o país. À esquerda é vista como um perigoso ensaio catastrofista que pode “alimentar a extrema-direita”. “O Suicídio Francês” promete não deixar ninguém indiferente.
Éric Zemmour é um nome que pode não dizer muito aos leitores portugueses, mas é uma figura de referência em França. Jornalista e escritor, de 56 anos, é principalmente um polemista. Define-se como um judeu de origem berbere e como fazendo parte da direita reaccionária. Não hesita a criticar o Maio de 68, a imigração, a islamização, entre outros temas incómodos, atitude que já lhe valeu vários processos judiciais. Os seus comentários políticos batem audiências, seja no seu programa matinal de rádio, seja nas emissões televisivas em que participa ou nas crónicas que escreve na Imprensa, nomeadamente no “Figaro Magazine”. Autor de vários livros, o seu último trabalho está a agitar a política francesa.
Sucesso de vendas
“Le Suicide français – les 40 années qui ont défait la France” (“O Suicídio Francês – os 40 anos que desfizeram a França”), publicado pela editora Albin Michel, do jornalista e polemista Éric Zemmour, foi lançado a 1 de Outubro e vende mais de cinco mil exemplares por dia. Um ensaio político que vende mais do que os livros do novo Nobel da Literatura, Patrick Modiano, e do que “Merci pour ce moment”, de Valérie Trierweiler, ex-companheira do Presidente Hollande. O livro de Zemmour tornou-se rapidamente um ‘best-seller’, um sucesso de vendas que demonstra a preocupação dos franceses com a situação política que o país enfrenta.
O declínio francês
Ao longo das mais de 500 páginas de “O Suicídio Francês”, Zemmour analisa por ano, a partir de 1970, os acontecimentos que levaram à perda de poder do Estado sobre o país, nomeadamente no que respeita ao controlo da imigração e da economia, o que levou a uma dissolução progressiva da França, que começou com os ideais do Maio de 68.
Afirma Zemmour que a partir dos anos 80 a contra-cultura dos anos 70 torna-se a “cultura oficial” e, com a chegada da esquerda ao poder, a “cultura de Estado”. Segundo ele, “a família e a prisão serão a partir daí vistas como objectos idênticos a detestar e a sua contestação tornar-se-á a verdade oficial. Toda a sociedade será duravelmente destabilizada. A delinquência sairá reforçada, desmultiplicada; e os defensores da ordem deslegitimados, fragilizados, desconsiderados”.
Mas, para Zemmour, a perda da soberania nacional deve-se principalmente ao Tratado de Maastricht e ao federalismo europeu. Para ele, a “Europa integrada tornou-se o laboratório de um governo mundial ainda no limbo”.
Sobre a selecção francesa de futebol, depois da vitória em 1998, afirma que “mudou as cores”, deixando os jogadores de representar os valores da França tradicional, quaisquer que fossem as suas origens, para cair na “obsessão racialista do anti-racismo dominante desde os anos 80”. Por fim, a crítica à progressiva islamização da França, incompatível com os valores republicanos.
São os pontos principais deste relato dos quarenta anos que, para Zemmour, “desfizeram a França”.
Éric Zemmour é um nome que pode não dizer muito aos leitores portugueses, mas é uma figura de referência em França. Jornalista e escritor, de 56 anos, é principalmente um polemista. Define-se como um judeu de origem berbere e como fazendo parte da direita reaccionária. Não hesita a criticar o Maio de 68, a imigração, a islamização, entre outros temas incómodos, atitude que já lhe valeu vários processos judiciais. Os seus comentários políticos batem audiências, seja no seu programa matinal de rádio, seja nas emissões televisivas em que participa ou nas crónicas que escreve na Imprensa, nomeadamente no “Figaro Magazine”. Autor de vários livros, o seu último trabalho está a agitar a política francesa.
Sucesso de vendas
“Le Suicide français – les 40 années qui ont défait la France” (“O Suicídio Francês – os 40 anos que desfizeram a França”), publicado pela editora Albin Michel, do jornalista e polemista Éric Zemmour, foi lançado a 1 de Outubro e vende mais de cinco mil exemplares por dia. Um ensaio político que vende mais do que os livros do novo Nobel da Literatura, Patrick Modiano, e do que “Merci pour ce moment”, de Valérie Trierweiler, ex-companheira do Presidente Hollande. O livro de Zemmour tornou-se rapidamente um ‘best-seller’, um sucesso de vendas que demonstra a preocupação dos franceses com a situação política que o país enfrenta.
O declínio francês
Ao longo das mais de 500 páginas de “O Suicídio Francês”, Zemmour analisa por ano, a partir de 1970, os acontecimentos que levaram à perda de poder do Estado sobre o país, nomeadamente no que respeita ao controlo da imigração e da economia, o que levou a uma dissolução progressiva da França, que começou com os ideais do Maio de 68.
Afirma Zemmour que a partir dos anos 80 a contra-cultura dos anos 70 torna-se a “cultura oficial” e, com a chegada da esquerda ao poder, a “cultura de Estado”. Segundo ele, “a família e a prisão serão a partir daí vistas como objectos idênticos a detestar e a sua contestação tornar-se-á a verdade oficial. Toda a sociedade será duravelmente destabilizada. A delinquência sairá reforçada, desmultiplicada; e os defensores da ordem deslegitimados, fragilizados, desconsiderados”.
Mas, para Zemmour, a perda da soberania nacional deve-se principalmente ao Tratado de Maastricht e ao federalismo europeu. Para ele, a “Europa integrada tornou-se o laboratório de um governo mundial ainda no limbo”.
Sobre a selecção francesa de futebol, depois da vitória em 1998, afirma que “mudou as cores”, deixando os jogadores de representar os valores da França tradicional, quaisquer que fossem as suas origens, para cair na “obsessão racialista do anti-racismo dominante desde os anos 80”. Por fim, a crítica à progressiva islamização da França, incompatível com os valores republicanos.
São os pontos principais deste relato dos quarenta anos que, para Zemmour, “desfizeram a França”.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Tempos...
terça-feira, 1 de abril de 2014
Jean-Claude Rolinat reeleito
segunda-feira, 24 de março de 2014
O mau jornalismo habitual (XI)
Entendamo-nos: os franceses que votam livremente no FN não são franceses? Votar livremente no FN é atentar contra a democracia?
O mais curioso é que são "jornalistas" destes que se arrogam como os grandes defensores da "objectividade"...
sábado, 1 de março de 2014
Local do MAS destruído
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
O gesto da discórdia
O ambiente político que se vive em França é de insatisfação geral com as medidas do socialista François Hollande. Nesta contestação, há um gesto que está a ser usado como símbolo de protesto, mas há quem assegure que se trata de uma forma de anti-semitismo. Na origem da polémica está o comediante Dieudonné, que enfrenta ameaças de novos processos judiciais e arrisca o encerramento do seu teatro. O humor tem limites?
Dieudonné M’bala M’bala, comediante de origem franco-camaronesa, notabilizou-se no início dos anos 90 do século passado ao fazer humor com os estereótipos raciais, em conjunto com o comediante judeu Élie Semoun. Também se envolveu na política, concorrendo em Dreux contra a Frente Nacional francesa, partido que à época considerava racista. Tornou-se gradualmente um artista conhecido, fazendo vários espectáculos, aparições televisivas e sendo actor em filmes, como em “Astérix e Obélix: Missão Cleópatra”, de 2002.
No entanto, considerando que a sátira não tem limites, fez uma paródia sobre um “colono israelita nazi”, no final de 2003. Foi o início do ostracismo. Vários críticos consideraram que ele tinha passado os limites, mas Dieudonné nunca se desculpou. Pelo contrário, afirmou que tal como ridicularizava o extremismo islâmico, podia fazer o mesmo com o sionismo e com o que lhe apetecesse. Mas a comparação de pouco lhe serviu e começaram os processos judiciais, o cancelamento de espectáculos e o afastamento dos principais meios de comunicação social.
A partir dessa altura, Dieudonné começa a aproximar-se de várias figuras da extrema-direita francesa, incluindo Jean-Marie Le Pen, então presidente da FN, historiadores revisionistas, defensores da causa palestinas, entre outros. Os seus críticos dizem que se tornou “obcecado com os judeus”, mas Dieudonné sempre afirmou que não é anti-semita, mas anti-sionista.
Aliás, foi sob essa premissa que se candidatou à presidência francesa em 2007 e, depois, com a “Lista Anti-Sionista”, ao Parlamento Europeu, em 2009, ficando muito longe de ser eleito.
Impossibilitado de actuar na maior parte das salas de espectáculos francesas, Dieudonné arrendou o Theâtre de la main d’or, em Paris, que está normalmente esgotado. Também a ‘internet’ é um meio onde este comediante se tornou bastante popular. Conseguindo quebrar a censura, ainda que banido dos ‘media’, Dieudonné transformou-se para muitos franceses um símbolo de resistência anti-sistema e de denúncia da actual classe política.
Meter uma ‘quenelle’
Uma ‘quenelle’ é um prato francês que tem uma forma que lembra um grande supositório. Por isso, existe a expressão “meter uma ‘quenelle’ em alguém”, normalmente acompanhada de um gesto, cujo mais semelhante em Portugal será o manguito. Aliás, o significado de protesto é o mesmo.
Dieudonné popularizou o gesto, fazendo-o com o braço esticado para baixo. Por isso, foi acusado de fazer uma “saudação nazi invertida”. Mas o comediante sempre recusou que o fosse. Pelo contrário, afirmou que se trata de um gesto anti-sistema e que a ‘quenelle’ tinha “ganho vida própria”.
De facto, o fenómeno tornou-se viral nas redes sociais. Começaram a multiplicar-se as fotografias de pessoas a fazerem o gesto nos mais variados sítios. O caso que suscitou mais polémica foi o dos estudantes que fizeram a ‘quenelle’ junto ao ministro do Interior, Manuel Valls. Mas houve outros casos badalados, como fotografias de militares, bombeiros, celebridades, ou o do Astérix e Obélix que o fizeram junto a uns visitantes do Parc Astérix. Recentemente, o jogador francês de futebol Nicolas Anelka fez a ‘quenelle’ durante um jogo para celebrar um golo.
A moda pegou e quanto mais as autoridades tentam reprimir, mais o gesto se torna comum. Como um desafio ao governo com o qual não estão de acordo. A reacção das autoridades tem sido a de perseguição, com a ameaça do ministro Manuel Valls de impedir, por todas as vias legais, os espectáculos ou demonstrações públicas de Dieudonné que considere “ofensivas para a memória das vítimas do Holocausto”.
Ainda que para alguns tenha uma carga anti-semita, a ‘quenelle’ ultrapassou esse significado tornando-se um gesto da discórdia em França e uma grande dor de cabeça para Hollande e o seu Executivo socialista. A polémica está para durar.
![]() |
| Dieudonné |
No entanto, considerando que a sátira não tem limites, fez uma paródia sobre um “colono israelita nazi”, no final de 2003. Foi o início do ostracismo. Vários críticos consideraram que ele tinha passado os limites, mas Dieudonné nunca se desculpou. Pelo contrário, afirmou que tal como ridicularizava o extremismo islâmico, podia fazer o mesmo com o sionismo e com o que lhe apetecesse. Mas a comparação de pouco lhe serviu e começaram os processos judiciais, o cancelamento de espectáculos e o afastamento dos principais meios de comunicação social.
A partir dessa altura, Dieudonné começa a aproximar-se de várias figuras da extrema-direita francesa, incluindo Jean-Marie Le Pen, então presidente da FN, historiadores revisionistas, defensores da causa palestinas, entre outros. Os seus críticos dizem que se tornou “obcecado com os judeus”, mas Dieudonné sempre afirmou que não é anti-semita, mas anti-sionista.Aliás, foi sob essa premissa que se candidatou à presidência francesa em 2007 e, depois, com a “Lista Anti-Sionista”, ao Parlamento Europeu, em 2009, ficando muito longe de ser eleito.
Impossibilitado de actuar na maior parte das salas de espectáculos francesas, Dieudonné arrendou o Theâtre de la main d’or, em Paris, que está normalmente esgotado. Também a ‘internet’ é um meio onde este comediante se tornou bastante popular. Conseguindo quebrar a censura, ainda que banido dos ‘media’, Dieudonné transformou-se para muitos franceses um símbolo de resistência anti-sistema e de denúncia da actual classe política.
Meter uma ‘quenelle’
Uma ‘quenelle’ é um prato francês que tem uma forma que lembra um grande supositório. Por isso, existe a expressão “meter uma ‘quenelle’ em alguém”, normalmente acompanhada de um gesto, cujo mais semelhante em Portugal será o manguito. Aliás, o significado de protesto é o mesmo.
Dieudonné popularizou o gesto, fazendo-o com o braço esticado para baixo. Por isso, foi acusado de fazer uma “saudação nazi invertida”. Mas o comediante sempre recusou que o fosse. Pelo contrário, afirmou que se trata de um gesto anti-sistema e que a ‘quenelle’ tinha “ganho vida própria”.
![]() |
| Estudantes fazem a 'quenelle' junto ao ministro do Interior, Manuel Valls |
A moda pegou e quanto mais as autoridades tentam reprimir, mais o gesto se torna comum. Como um desafio ao governo com o qual não estão de acordo. A reacção das autoridades tem sido a de perseguição, com a ameaça do ministro Manuel Valls de impedir, por todas as vias legais, os espectáculos ou demonstrações públicas de Dieudonné que considere “ofensivas para a memória das vítimas do Holocausto”.
Ainda que para alguns tenha uma carga anti-semita, a ‘quenelle’ ultrapassou esse significado tornando-se um gesto da discórdia em França e uma grande dor de cabeça para Hollande e o seu Executivo socialista. A polémica está para durar.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
"A civilização francesa está ameaçada pelo multiculturalismo"
Diz que "conviveu com a elites mundialistas, que parecem indiferentes ou inconscientes em relação ao declínio da Europa, porque vivem cada vez melhor com a mundialização", afirmando: "Reforcei a minha convicção de que, face à desindustrialização, à imigração descontrolada, à incapacidade de reformar, não há outra solução credível a não ser restaurar a soberania e mudar o projecto europeu". Por isso, junta-se ao Front National "porque é a última chance para a França salvaguardar a sua civilização". Uma civilização que, para Chauprade, está "ameaçada pelo multiculturalismo".
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Populares
Há gralhas divertidas. Ontem, no «Público», numa notícia dedicada à "ascensão da extrema-direita" francesa, o jornalista trocou "Frente Nacional" por "Frente Popular" duas vezes. Um regresso acidental à França do século passado e à coligação de esquerda que governou o país entre 1936 e 1939. Um 'front' ligeiramente diferente do de Marine Le Pen... Para além disso, escreveu que "Le Pen espera eleger para cargos municipais entre mil e 1500 populares". Talvez o erro tenha sido induzido pela grande popularidade que a Frente Nacional goza actualmente, para incómodo de muitos.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Venenos
A manchete da edição de hoje do jornal francês «Libération» é “O veneno FN”, para anunciar a nova estratégia autárquica do Front National, de implantação local, cujo primeiro caso prático serão as eleições municipais de 2014.
Ainda bem que em França não há a obrigação legal de dar igual destaque a todas as candidaturas. Caso contrário, teriam que falar dos outros “venenos” e em capa.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Genocídio vocabular
Como escreveu Bernard Lugan, o dia "16 de Maio ficará na História do pensamento francês como a de uma grande vitória do obscurantismo. De mão no ar, salivando aos estímulos do politicamente correcto à francesa, à semelhança dos cães de Pavlov, os deputados franceses, por proposta do Front de gauche (Frente de Esquerda), suprimiram a palavra 'raça' da legislação".
Este genocídio vocabular é simplesmente estúpido. Não é eliminando uma palavra que se acaba com o “racismo”. Quais serão as próximas palavras proibidas?
terça-feira, 28 de maio de 2013
A França resistente
No entanto, para entender este fenómeno, é necessário sair do reducionismo que o limita à contestação à lei do casamento homossexual. Aqui vemos uma França resistente àquela que quer destruir a nossa sociedade como a conhecemos e concebemos. Como escreveu Gabriele Adinolfi, "depois de décadas de ataques à língua, à cultura, à demografia, meia França insurgiu-se contra o casamento gay porque sente que está ameaçado o último quadrado da sociedade, a família". De seguida, responde a possíveis críticos: "Era melhor reagir antes? Era melhor reagir noutras questões? São perguntas retóricas. São os fortes impulsos psicológicos, súbitos e mobilizadores, que determinam com força irracional e profunda as mudanças históricas."
No último editorial de «La Nouvelle Revue d'Histoire», Dominique Venner explicou esta mobilização: "As pessoas que nos governam trataram novamente com desprezo esta indignação popular, que não haviam previsto e não podem compreender. Cometeram aqui um erro crasso. Quando tal indignação mobiliza tamanhas massas, de jovens mães e dos seus filhos, é o sinal de que foi transgredida para além suportável uma parte sagrada do que constitui uma nação. É perigoso provocar revolta das mães!"
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Daltonismo político
É verdade que o PSG tem uma claque associada à extrema-direita, os "Boulogne Boys", mas desta vez vemos como aqueles que se aproveitaram de um festejo desportivo público são a 'racaille' proveniente das 'banlieues'. "Jovens" marginais, na sua maioria descendentes de imigrantes africanos ou magrebinos. Um fenómeno incómodo para os integracionistas, que tantas vezes foi denunciado pelas direitas gaulesas, seja por Sarkozy ou por Le Pen.
Obviamente, é muito mais cómodo culpar a "extrema-direita", nem que seja com expressões convenientemente vagas, como "grupos com ligações" ou "próximos". Pior, o novo governo socialista recusa qualquer responsabilidade pela inacreditável ausência de segurança que se viveu no centro da capital francesa. A UMP pediu prontamente a demissão do ministro do Interior, Manuel Valls. Já Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional, atribuiu a violência ao "fracasso da política de imigração", afirmando que as imagens televisivas mostram que os agressores são "evidentemente de origem imigrante".
No que respeita aos "ultras" do PSG, convém recordar que, em 2006, na sequência de confrontos após um jogo, a polícia não hesitou em agir com exagero e matar Julien Quemener. Atitude que contrasta com a relativa passividade na intervenção a que se assistiu desta vez.
Pelos vistos, há dois pesos e duas medidas. Mais, mesmo perante imagens esclarecedoras, as esquerdas e certa imprensa continuam a sofrer de acentuado daltonismo político.
terça-feira, 14 de maio de 2013
A música durante a Ocupação
"A música durante a Ocupação" é o título de um ciclo que decorrerá na Cité de la Musique, em Paris. Um aspecto da vida cultural naquele período, em que a França se dividia em "Ocupada" e "de Vichy", que raramente é tratado. Entre os vários concertos, destacam-se: a reconstituição de um concerto de 24 de Março de 1942, do Quatuor Peter, no Instituto Alemão de Paris, organizado pelo Propagandastaffel, um concerto com hinos a Pétain, e também um onde se poderão ouvir canções de Céline.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
As artes sob a Ocupação
Subscrever:
Mensagens (Atom)









.jpg)








