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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Voz escrita


«Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstracto do céu azul sem sentido.»

in "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Livro para hoje


Com um sorriso que guardo para meu...


Tenho diante de mim as duas páginas grandes do livro pesado; ergo da sua inclinação na carteira velha, com os olhos cansados, uma alma mais cansada do que os olhos. Para além do nada que isto representa, o armazém, até à Rua dos Douradores, enfileira as prateleiras regulares, os empregados regulares, a ordem humana e o sossego do vulgar. Na vidraça há o ruído do diverso, e o ruído diverso é vulgar, como o sossego que está ao pé das prateleiras.

Baixo olhos novos sobre as duas páginas brancas, em que os meus números cuidadosos puseram resultados da sociedade. E, com um sorriso que guardo para meu, lembro que a vida, que tem estas páginas com nomes de fazendas e dinheiro, com os seus brancos, e os seus traços à régua e de letra, inclui também os grandes navegadores, os grandes santos, os poetas de todas as eras, todos eles sem escrita, a vasta prole expulsa dos que fazem a valia do mundo.

No próprio registo de um tecido que não sei o que seja se me abrem as portas do Indo e de Samarcanda, e a poesia da Pérsia, que não é de um lugar nem de outro, faz das suas quadras, desrimadas no terceiro verso, um apoio longínquo para o meu desassossego. Mas não me engano, escrevo, somo, e a escrita segue, feita normalmente por um empregado deste escritório.

in "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Desejado


Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!

Fernando Pessoa
in «Mensagem».

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Espectadores


De passagem por São Francisco, na Califórnia, não resisti a ir à City Lights Bookstore, na Columbus Avenue, uma paragem obrigatória para qualquer bibliófilo.

A livraria é famosa por ter publicado, em 1956, o livro “Howl and Other Poems”, de Allen Ginsberg, cujo principal poema foi acusado de obscenidade devido às referências sexuais, em especial homossexuais, explícitas. A polémica e o julgamento deram obviamente uma publicidade enorme ao poema, que se tornou uma das obras mais conhecidas da chamada ‘Beat Generation’.

Como seria de esperar, a City Lights é uma livraria “progressista”, para usar a designação norte-americana. Quando entrei, houve uma das máximas que estão escritas nas paredes que me chamou a atenção: “A democracia não é um desporto de espectadores”. Nem de propósito, a frase estava sobre o expositor de revistas, onde se podem encontrar publicações comunistas, anarquistas, feministas, entre outras, mas todas alinhadas à esquerda e à extrema-esquerda. De facto, a livraria não é uma mera espectadora no “desporto democrático” e rapidamente se percebe de que lado do campo está... Também devemos fazer uma visita a este local icónico sem sermos meros espectadores e questionar algumas certezas “progressistas”.

Fiquei satisfeito por encontrar à venda traduções do nosso Eça, mas gostei ainda mais de ver um livro que reúne alguns escritos de Fernando Pessoa publicado pela própria livraria. Chama-se “Always Astonished” e os editores provavelmente ficariam espantados com muitas das posições políticas de Pessoa.

Por fim, no piso superior, há uma secção de poesia onde o destaque vai naturalmente para a ‘Beat Generation’, nomeadamente para Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Também aqui encontrei um volume que reúne entrevistas do autor de “Pela Estrada Fora” e foi interessante recordar naquele local o Kerouac anti-comunista e desiludido com o que se tinha tornado a ‘Beat Generation’. De facto, não podemos ser apenas espectadores...

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ortographia


«A ortographia é um phenomeno da cultura e portanto um phenomeno espiritual. O Estado não tem direito a compellir-me, em materia extranha ao Estado, a escrever numa ortographia que repugno, como não tem direito a impôr-me uma religião que não acceito.»

Fernando Pessoa

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A arte casada com o pensamento

Fernando Pessoa

A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.

Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego".

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

De passagem por Madrid

Uns dias na capital espanhola, onde revi amigos e locais de que gosto bastante, levaram-me a uma comparação inevitável com a nossa realidade.

O mar de gente que inunda as ruas do centro de Madrid para o período das festas contrasta com a concentração nos centros comerciais a que assistimos em Portugal. Mas parece que por cá há vontade de mudar. Neste Natal fui a um mercado de rua numa avenida de Lisboa, que se realizou pela primeira vez e que foi um sucesso. Uma experiência que pode trazer de volta a vida às ruas portuguesas.

Paragem obrigatória para um bibliófilo são as livrarias e foi com muito agrado que notei que na maior parte delas o nosso Fernando Pessoa está em destaque, nomeadamente o seu “Livro do Desassossego”.

Desta vez consegui ir a duas livrarias que não conhecia, uma no centro e outra num bairro residencial, um pouco mais afastado. Ambas tinham em comum uma larga oferta internacional e o que foi para mim uma agradável surpresa. Nos livros estrangeiros vendidos, a maior secção era naturalmente para os anglo-saxónicos, seguiam-se os alemães, os franceses e os italianos, para encontrarmos uma parte dedicada aos livros em português. Interroguei-me se haveria mercado para obras escritas na Língua de Camões em terras de Espanha, mas a resposta estava naquelas prateleiras...

Tenho um amigo que diz que se pode avaliar o estado da cultura de um país pelas suas livrarias. É uma generalização, claro, mas não deixa de ser certeira. No entanto, a presença de Portugal em livrarias espanholas, ainda que especializadas, recorda-nos que não somos tão insignificantes para os nossos vizinhos como alguns querem fazer parecer e que a cultura representa uma frente muito importante na nossa afirmação no estrangeiro.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Beleza

Pormenor de "O Nascimento de Vénus" de Botticelli

"A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas."

Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego"

quinta-feira, 6 de março de 2014

Persistir no erro

A oposição ao famigerado Acordo Ortográfico tem sido transversal na sociedade portuguesa. Uma causa que mobiliza cidadãos das mais variadas sensibilidades políticas, que conseguiram levar o assunto à Assembleia da República na semana passada. Mais, conseguiram chegar a diversos deputados que também são contra este crime lesa-língua e que o procuraram denunciar nos seus grupos parlamentares.

No entanto, a barreira entre a vontade popular e aqueles que a devem representar existe. Há, de facto, um bloco central que segura um Estado estático.

Os partidos da coligação governamental podiam não só ter apoiado os seus deputados que tão bem alertaram para a situação de caos que o (des)Acordo tem criado, como conseguir um entendimento com outros deputados e outros grupos parlamentares, esquecendo diferenças de cor política pela preservação de um património que é de todos nós. Mas não, preferiram persistir no erro, ignorando todas as razões apresentadas e devidamente fundamentadas.

O que aconteceu demonstra bem que os “governantes” de hoje em dia pouco mais são que “funcionários de manutenção”. Mais preocupados com a gestão dos números de forma a agradar aos credores internacionais, são incapazes de marcar a diferença, deixando passar uma oportunidade de ouro para uma decisão de afirmação política em prol de Portugal.

Perder uma batalha não significa perder a guerra. A luta contra o Acordo Ortográfico continua e nunca podemos baixar os braços.

Por fim, aos ignorantes ou desonestos que usam Fernando Pessoa em defesa deste Acordo, recorde-se uma afirmação do nosso poeta sobre a reforma de 1911: “A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Chove


Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa
2/10/1933

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A cidade de Ulisses

O turismo na capital portuguesa aumentou exponencialmente, mas esta não é apenas mais uma paragem num qualquer roteiro. É notório que os estrangeiros que nos visitam descobrem algo inesperado, uma magia própria que cria uma atracção poderosa. Muitos apaixonam-se e prometem voltar.

Será esta vontade de regressar um pingo de Saudade emprestada? Escreveu António de Castro Caeiro que “Lisboa como Ítaca no Verão é ventosa. Cheia de espírito.” Mas não apenas no Estio, porque como ele tão bem disse, “há tantas Lisboas quantas as Estações do ano”. É essa corrente cíclica que traz os visitantes e os força a voltar? Que lhes provoca uma necessidade interior de eterno retorno?

Recentemente, tive oportunidade de confirmar esse sentimento no olhar de amigos espanhóis e italianos, que aqui se deslumbraram com uma cidade tão próxima, mas sobre a qual pouco sabiam ou conheciam. Isto porque ainda não a haviam sentido, em toda a sua força primordial.

Este é, afinal, um lugar que não lhes é distante fisicamente, mas do qual estão, estranhamente, tão longe.

Teria razão Fernando Pessoa, quando afirmava que “nada há de menos latino que um português”? Isto porque, para o nosso poeta, “somos muito mais helénicos — capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude”.

O encanto da cidade de Ulisses é imemorial e eterno. É um canto dos deuses, brutal e terno.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Face ao Mostrengo



«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quere o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D'El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa
in "Mensagem"


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O ouro é quem mais ordena

Já em 1927, no seu livro “Durante a Fogueira”, o mestre integralista António Sardinha escrevia: “Apregoa-se, vai em século e meio, a soberania do povo e só descobrimos, ocupando-lhe o lugar, o capitalismo mais desaforado e mais omnipotente. É o ouro quem manda desbragadamente. Manda a agiotagem, como nunca. Reina a bancocracia...” Palavras que reflectem o estado de coisas hoje em dia, que piorou substancialmente com a chamada globalização.

É pois curioso assistir à estéril discussão entre o posicionamento de esquerdas e direitas, conceitos que cada vez mais perdem o sentido. De um modo geral, a esquerda, não se hesita em atacar as “políticas de direita”, normalmente identificadas com o liberalismo económico, à direita insiste-se na inevitabilidade de uma submissão ao economicismo. Seja pela defesa do progresso ou do desenvolvimento, ambos os lados tornaram-se cada vez mais iguais, numa atitude passiva de aceitação.

Vemos hoje que os grandes interesses económicos, o que se convencionou chamar “o grande capital”, administram crises e controlam países na prossecução do seu objectivo de transformar o mundo num mercado globalizado e os homens em meros consumidores.

Dizia o banqueiro anarquista a Fernando Pessoa que “a tirania é das ficções sociais e não dos homens que as encarnam”. E exemplificou: “Destrua V. todos os capitalistas do mundo, mas sem destruir o capital... No dia seguinte o capital, já nas mãos de outros, continuará, por meio desses, a sua tirania. Destrua, não os capitalistas, mas o capital; quantos capitalistas ficam?...” O nosso poeta deu-lhe razão...

A resposta tem obrigatoriamente que passar por uma defesa de valores permanentes, pela afirmação da primazia do político – no sentido schimttiano do termo – e pelo reconhecimento da importância da Nação.

A actual crise económico-financeira pode conduzir – assim o esperamos – a um esgotamento do sistema. Aí haverá a oportunidade de sair de um modelo que tem conduzido à destruição das pátrias. Talvez então, para além de esquerdas e direitas, levantemos de novo o esplendor de Portugal.


Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 19 de agosto de 2012

Dorme

Para um Amigo, aqui fica uma passagem da "Elegia na Sombra", do nosso Fernando Pessoa:

Dorme, ao menos uma vez. O Desejado
Talvez não seja mais que um sonho louco
De quem, por muito ter, Pátria, amado,
Acha que todo o amor por ti é pouco.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crise da Democracia

Cumpre distinguir entre a vontade da maioria e a vontade nacional. A vontade da maioria é consciente; a vontade nacional é inconsciente. Em determinada altura, determinada nação segue certo rumo; não o sabem os políticos, em geral, nem o sabe o povo.
Fernando Pessoa

O que se considera uma democracia? Se for uma questão de designação, podemos até incluir a Coreia do Norte. Fora de ironias, cada vez menos pessoas se identificam com o actual sistema político – que normalmente desconhecem – e desconfiam dos políticos, como classe considerada “corrupta”. Para muitos vivemos uma “partidocracia”, onde as “quadrilhas políticas”, como lhes chamou António Marques Bessa, tomam de assalto o poder. Talvez por isso não seja de estranhar o resultado do estudo revelado na semana passada, onde apenas 56% dos portugueses consideram que “a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo”. Algo de que as elevadas percentagens de abstenção eleitoral já eram um sinal.

A actual concepção de democracia assenta na existência de eleições livres e de direitos civis e políticos. Mas será que esta vai perdurar quando terminar a era do conforto económico?
O historiador francês Dominique Venner, no seu livro “O Século de 1914 – Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX”, escreveu: “A democracia liberal, que apareceu nos Estados Unidos em fins do século XVIII, na esteira das tradições britânicas, estava associada a um desenvolvimento económico contínuo, do qual procedia. Ajustava-se a uma sociedade próspera, empreendedora, preocupada com a liberdade e a igualdade. Num contexto de crise social e política, como o da Europa em 1929, um tal sistema foi necessariamente substituído por um tipo de governo autoritário mais eficaz, que utilizava entre outros o instrumento, com provas dadas, de um partido único mais ou menos disfarçado.” Perante a actual crise, será que tomaremos um rumo semelhante?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Alma

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!
Fernando Pessoa
A Mensagem

As palavras intemporais do nosso Pessoa, publicadas no livro cujo título original era, recorde-se, “Portugal”, mantêm a uma impressionante actualidade. A indecisão, o alheamento, o materialismo, parecem reflectir um povo sem alma. Ou, pelo menos, um povo de alma vendida. Que se esqueceu de si próprio a troco de diversões e ilusões e, principalmente, da tentação do conforto da “gaiola dourada”. A era do todo-económico teve este efeito devastador. A crença na paz eterna e no progresso infindável fez esquecer o político, esse conceito teorizado pelo politólogo Carl Schmitt. Sem a noção do fenómeno político e da coisa pública, os governos passaram a ser obra de meros gestores, desprovidos que qualquer sentido de Estado e de Nação.

Terra
Nas celebrações do 10 de Junho, em Castelo Branco, Cavaco Silva deu especial relevo às “desigualdades territoriais do desenvolvimento, aos problemas da interioridade, ao envelhecimento e ao despovoamento de uma vasta parcela do nosso território”. Manifestações de um problema de fundo do nosso país, onde metade do território parece estar de costas voltadas para a outra metade.

Afirmando que as grandes cidades do litoral “cresceram de forma desmesurada e, mais ainda, desordenada”, reconheceu que devemos evitar “procurar replicar o litoral do país. Essa não é a opção correcta: o interior dispõe de uma identidade própria e é ela que lhe confere o seu carácter distintivo e original”. Para o Presidente da República, “importa, no entanto, não repetir erros cometidos noutras parcelas do País. O interior tem de ser um espaço em que a tradição, a Natureza e a presença humana convivam de forma harmoniosa e equilibrada”. Como se os erros tivessem sido apenas numa parte do País. A invocada “identidade própria”, no nosso caso, deve ser nacional. E há que afirmá-la. Esse, sim, é o caminho a seguir.

Outro ponto importante foi a referência à agricultura, actividade essencial para vitalidade da nossa nação, no seu imprescindível fortalecimento da ligação de um povo à sua terra. Mas poderá aquele que transformou Portugal no “bom aluno” da Europa, falar deste sector que foi vendido, tal como o das pescas, a troco de uma união económica europeia? Essa ilusão baseada nos fundos e no crédito, que nos fez crer que podíamos viver bem acima das nossas possibilidades, cuja pesada factura começamos agora a sentir.

Povo
No final do seu discurso na cerimónia do nosso dia nacional, o Presidente da República afirmou: “É Portugal inteiro que tem de se erguer nesta hora decisiva.” Uma expressão que não deixa de me recordar o título do ensaio pessimista do filósofo e historiador germânico Oswald Spengler. Acrescentou que este é “um tempo de sacrifícios, de grandes responsabilidades”. Sem dúvida, mas espera-se que seja para todos e por todos. Alertou ainda que “não podemos falhar”. Diria antes que não devemos, porque olhando para trás, para a nossa História, vemos que não seria a primeira oportunidade falhada. O nosso país parece ter, por vezes, essa infeliz característica. E concluiu: “É nestas alturas que se vê a alma de um povo”. Certo de que o nosso povo ainda tem alma – esteja ela vendida, esquecida ou simplesmente adormecida – mantenho a firme esperança que um dia renasça. Esse é o sentimento nacional que deve gerar uma vontade comum. Aí, afirmar-nos-emos como Nação secular que somos. Portugal somos nós. E nós temos que ser Portugal.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Nevoeiro


Ontem, a passar no meu bairro, gostei de sentir o nevoeiro. Não resisti a registá-lo fotograficamente e a lembrar-me do nosso poeta:

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

Fernando Pessoa
in "Mensagem" (1934).

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa
in "Mensagem" (1934).