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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O selo de Ernst Jünger


Há tantos anos que o meu saudoso Amigo Roberto de Moraes me falou no selo de Jünger, que tanto o irritou e sobre o qual escreveu na revista "Futuro Presente", em 1999. Agora, a minha mulher fez-me uma óptima surpresa e ofereceu-mo. Muito obrigado!

Aqui fica o texto para memória futura:

O selo de Jünger

A figura de Ernst Jünger é incontornável. Por várias vezes, só para falar no fim da longa vda do escritor, reuniu à sua volta o então Presidente francês, o socialista Mitterand, e o chanceler alemão ao tempo, o cristão-democrata Helmut Kohl, numa simbiose de significado histórico e cultural.
A consagração, no seu centenário, e, sobretudo, no seu funeral, congregou forças vivas que há muito não se viam à luz do dia, juntas. Foi uma grande figura, actor e testemunha, interventor e pensador, de um século de história, não só da Alemanha, como da Europa. A guerra o forjou. Nela se fez homem. Essa a matriz, essa a grande iniciação que lhe permitiu alcançar outras esferas da maneira como o fez. Está bem claro em "A Guerra como Experiência Interior" e, também, nas "Tempestades de Aço". Há que lê-lo. É pena que neste belo selo agora lançado na República Federal da Alemanha não se tenha atendido a esta marca. Assim, face a uma história de dominante militar, olhada como comprometedora e incómoda, preferiu-se prudentemente a imagem etérea do aluno de liceu de 1913, com o seu colarinho médio burguês, à sóbria gola cinzenta encimando a cruz "Pour le Mérite", do soldado e guerreiro de 1918.
Contrária ao cunho aristocrático da sua vida e da sua obra, traindo a matriz, a imagem de fundo torna-se anódina; pelo mesmo preço também podiam ter mostrado o bebé de cueiros de três meses, ou então o rapazinho de sete anos, de fato à maruja, como era costume no seu meio, naquela época. Apesar disto, fica-nos esta imagem indelével, em primeiro plano, granítica e esfíngica, sardónica e voluntariosa, a desafiar o tempo, a fitar o século XXI. E estou em crer que não são apenas os Titãs que ele está a ver.

Roberto de Moraes
in "Futuro Presente" n.º 49 (Primavera de 1999)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Estrangeiros na própria pátria

Diariamente dedico parte do meu tempo à leitura. Não àquela a que informação obriga, mas aos livros que abrem as portas à minha floresta interior – o lugar romântico a que recorro para me sentir livre, fortalecer a vontade de resistir à tirania do politicamente correcto e nadar até à superfície da maré niveladora da ignorância generalizada.

Identifico-me tantas vezes com as sábias e profundas palavras do mestre das letras alemãs Ernst Jünger: “Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao ‘homo faber’ e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência. Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: ‘Que diabo estou eu a fazer nesta galera?’ De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”

Tal desilusão pode levar ao desespero e ao abandono do que nos é mais querido, fechando-nos ao exterior agarrados ao passado, mais ou menos construído. Mas manter a tradição não é conservar as cinzas, é preservar o fogo.

A floresta é um espaço de reflexão que deve conduzir-nos à acção. Há que regressar à cidade – à ‘polis’ –, onde se decide o futuro da Pátria.

A defesa de Portugal, da nossa identidade e da sua continuidade é nosso dever enquanto portugueses. Por muito que tal pareça estranho no mundo desenraizado de hoje, ainda que nos sintamos estrangeiros numa massa que se uniformiza de dia para dia, o futuro pertence-nos – porque sabemos de onde vimos e, por isso, para onde vamos.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A actualidade de um centenário


A propósito do centenário da Primeira Guerra Mundial, Robert de Herte recorda, no editorial de mais uma excelente edição da revista francesa “Éléments”, que este conflito “não se pode compreender a não ser pelo olhar da evolução histórica do capitalismo que está sempre à procura de novos mercados”, acrescentando que “o capital se vira regularmente para a guerra quando não há outro meio de fazer progredir a sobre-acumulação que é a sua razão de ser”.

No ‘dossier’ desta edição está em questão se o futuro do Velho Continente deve ser a “Europa mercado ou Europa potência” e, na abertura, Felix Morès conclui que “o eixo horizontal da construção de um grande mercado opõe-se ao eixo vertical da construção de uma potência política. Convém, consequentemente, separar a Europa política da Europa económica”. Dos vários artigos há a destacar “A audácia de um Estado federal europeu”, de Gérard Dussouy, “União Europeia, a objecção democrática”, de Éric Maulin, “O império, uma ideia muito antiga e muito nova”, de Pierre le Vigan, “É preciso sair do Euro?”, de Éric Maulin”, e “A união transatlântica: a grande ameaça”, de Alain de Benoist.

Como se não bastasse a qualidade do ‘dossier’, esta edição presenteia-nos com um texto de Ernst Jünger, inédito em francês, intitulado “Inclino-me diante dos que tombaram”, uma alocução proferida em Junho de 1979, enquanto convidado de honra das festas comemorativas de Verdun. De seguida, Julien Hervier, amigo, tradutor e editor de Jünger, desvenda as vulnerabilidades deste “homem de mármore”, numa entrevista concedida a Alain de Benoist. Por fim, Laurent Schang recorda o dia 25 de Abril de 1915, a partir do livro de Bernard Marris “L’Homme dans la guerre”, quando Jünger e Maurice Genevoix, combatentes em lados diferentes da Batalha de Les Éparges, foram feridos.

A abrir a revista, há ainda uma entrevista com Robert Redeker, filósofo e investigador, a propósito da publicação do seu ensaio original “Le soldat impossible”, sobre o desaparecimento do soldado no imaginário europeu. Redeker afirma que “só a guerra pode ressuscitar a política”.

Por fim, é de referir o artigo de François Bousquet sobre o “novo capitalismos criminoso” e a habitual secção “Cartuchos” com criticas a livros, o “Diário de um cinéfilo”, de Ludovic Maubreuil, e a “Crónica de um fim de mundo sem importância”, de Xavier Eman.

Uma revista que, apesar da sua longevidade, nunca perdeu a actualidade e importância no combate pelas ideias, essencial para a civilização europeia.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Caídos pela Pátria

O Dia de Portugal é o dia da morte de Camões. O que se assinala – e bem – não é um desaparecimento, mas o génio que continuou. Assim, a homenagem aos combatentes que se realiza anualmente em Belém faz todo o sentido.

Ao recordarmos os que caíram pela Pátria – por todos nós – estamos a preservar um espírito nacional que não pode morrer. Uma chama de perpetuidade que deve ser alimentada pelas novas gerações.

No entanto, a era do conforto e da paz aparente em que vivemos não é propícia a tais valores. Para muitos, a Pátria é algo ultrapassado e a guerra vê-se na televisão. Há quem queira que assim seja, para que se destrua Portugal.

Nessa sanha, desvaloriza-se quem lutou devido às inovações tecnológicas militares que alteraram drasticamente os conflitos no século passado.

Opinião contrária tinha Ernst Jünger, escritor e combatente nas duas Guerras Mundiais, que nunca retirou da sua experiência a conclusão amarga da inutilidade do heroísmo pessoal na guerra moderna, escrevendo: “Temos batalhado na lama e no sangue, mas o nosso rosto sempre se voltou para as coisas de alta e suprema valia e nenhum dos que perdemos durante os combates caiu em vão.”

Por fim, há quem não se canse de utilizar o falso argumento da conotação ideológica. No caso português, tal é notório em relação aos que se bateram na Guerra do Ultramar.

Esquecem-se tais “críticos” que se Portugal existe enquanto nação secular o deve aos que lhe dedicaram o sacrifício máximo, dando a vida por algo maior.

A eles devemos estar agradecidos, combatentes de todas as eras, que caíram pela Pátria para que a nossa bandeira continuasse hasteada.

Em mais um 10 de Junho, passemos de novo o testemunho geracional e honremos os nossos heróis.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Recordar um Amigo. Até sempre!

«De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”
Ernst Jünger

Ernst Jünger e Roberto de Moraes

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Passageiros


«O indivíduo já não está na sociedade como uma árvore no bosque, assemelha-se, ao invés, ao passageiro numa embarcação, que se move rapidamente e que se pode chamar “Titanic” ou também Leviatã. Desde que faça bom tempo e a paisagem seja agradável, ele mal se aperceberá do decréscimo de liberdade em que caiu.»

Ernst Jünger
in “O Passo da Floresta”, Cotovia, 1995.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Lobos no rebanho

Recentemente, um inquérito Eurobarómetro revelou que os portugueses são dos cidadãos da União Europeia com menores taxas de participação em actividades culturais e que Portugal é o país onde há maior falta de interesse pela leitura.

Apesar de se verificar uma tendência que mostra que os europeus se interessam cada vez menos pela cultura, o nosso país está mais uma vez na cauda...

Os fundos estruturais comunitários permitiram a construção e renovação de muitas bibliotecas públicas, mas a maioria da população preferiu olhar para o lado, ou melhor, olhar para televisão. Os dados referem que apenas 15 por cento dos portugueses visitaram uma biblioteca pública no ano passado. Por outro lado, a televisão é o entretém preferido no nosso país. Apesar de tanta discussão sobre o “serviço público” prestado pela “caixa que mudou o mundo”, avaliando pelo nível a que baixaram os programas mais vistos, dificilmente poderemos considerar que ver televisão é uma actividade cultural.
Voltando à leitura, apenas 40 por cento dos portugueses leram um livro no ano passado e a principal justificação para não ler é a “falta de interesse”.

Ora, mesmo com as preocupações do aperto financeiro actual, a crise não é desculpa. Pelo contrário, é exactamente em alturas de indecisão que devemos estar bem informados, escapar à ofensiva mediática niveladora e fortalecer uma vontade de mudança.

A ignorância cria rebanhos dóceis, facilmente controlados pelos que diariamente delapidam a Pátria. Mas, como escreveu Ernst Jünger, “se as grandes massas fossem tão transparentes, tão bem articuladas nos seus átomos, como o declara a Propaganda, precisar-se-ia tanto de Polícia como um pastor de cães para conduzir o seu rebanho. Não é este o caso, porque há lobos, que se ocultam nos rebanhos cinzentos, quer dizer: naturezas que ainda sabem o que é a liberdade. E estes lobos não são apenas vigorosos em si mesmos, como também pode dar-se o perigo de as suas virtudes, numa bela manhã, se comunicarem às massas, transformando-se então o rebanho em matilha. Isto é o pesadelo dos detentores do poder”. Sejamos lobos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A crise dos homens bons


«A crise dos homens bons representa a seu asco à partidocracia dominante, a sua aversão à acção directa, mas sobretudo a compreensão, com Ernst Jünger (o notável autor de "Eumeswil"), que o tempo é de fazer um retiro da mediocridade e passar à floresta, ou, como o protagonista das "Falésias de Mármore", passar ao altiplano não contaminado. Isto significa deixar os homens à sorte que escolheram, embalados em cantigas de maldizer e uivos de lobos que disfarçaram o som em cantos de sereias. Para que são dentes tão pontiagudos e tão grandes? – perguntava a Capuchinho Vermelho. E olhos tão grandes? São para melhor te ver.»

António Marques Bessa
in «O Diabo», 29/10/2013.

domingo, 23 de junho de 2013

Estrangeiro na própria pátria


“Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – Quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao “homo faber” e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência. Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: “Que diabo estou eu a fazer nesta galera?” De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”

Ernst Jünger

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Raízes


As catástrofes provam até que ponto homens e povos estão ainda enraizados na suas origens. Se houver pelo menos um cordão de raízes que receba o seu alimento directamente da terra — disso dependem a saúde e as possibilidades de sobrevivência, por oposição à civilização e à segurança.

Ernst Jünger
in “O Passo da Floresta”, Cotovia, 1995.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Tempos felizes


«Todos conheceis a intratável  melancolia que se apodera de nós ao recordarmos tempos felizes. Estes, porém, pertencem irrevogavelmente ao passado, e deles nos separa a mais impiedosa das distâncias. Todavia, as imagens parecem refulgir ainda mais sedutoras no seu reflexo; pensamos nelas como quem recorda o corpo de uma mulher amada já falecida, que repousa nas profundezas da terra mas que, como uma miragem, com um esplendor mais alto e espiritual, nos assedia e faz estremecer. E nunca nos cansamos de percorrer com os dedos o que passou em sonhos sequiosos, em todos os seus pormenores e circunstâncias. Parece-nos então que não tomámos ainda a medida plena da vida e do amor, mas não há arrependimento que traga de volta a oportunidade perdida. Pudesse este sentimento servir-nos de lição, mesmo em cada instante de felicidade.»

Ernst Jünger
in "Sobre as Falésias de Mármore".

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Floresta


Na última edição do suplemento "Actual", Pedro Mexia – que felizmente escreve em português e não no "acordês" adoptado pelo "Expresso" – assina um excelente texto sobre um livro fundamental de um dos meus autores de referência. Trata-se de "O passo da Floresta", de Ernst Jünger, obra à qual regresso recorrentemente. Diz ele que "o caminho da floresta é uma acção livre e independente, em que o indivíduo abandona a submissão, a indiferença, a neutralidade, o abaixamento pessoal, e desaparece, decide-se pelo underground, vai pelo trilho da floresta, que é secreto e aventuroso". Leitura a não perder.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O português que entrevistou Jünger

Foi este o título da homenagem que o Eurico de Barros fez hoje no "Diário de Notícias" ao nosso amigo comum Roberto de Moraes e que reproduzo abaixo:

"Num país onde qualquer obscuro jogador de futebol que vai dar uns chutos para um clube romeno ou eslovaco, ou qualquer treinador manhoso que vai orientar a selecção do Turcomenistão ou do Suriname, é transformado em figura nacionalmente relevante e merecedora da mais enlevada atenção dos media, passam muitas vezes despercebidas as pessoas realmente excepcionais, que fizeram coisas únicas.

Uma delas foi Roberto de Moraes, jornalista, tradutor e especialista em história militar e da Europa, falecido em Lisboa, a 17 de Dezembro, aos 71 anos. Trabalhou em O Século, Vida Mundial e A Nação, bem como na RTP, tendo deixado colaboração espalhada por vários outros títulos nacionais e estrangeiros, e publicações militares.

Roberto de Moraes ficará para a história do jornalismo nacional, por ter sido o único português a ter entrevistado o escritor Ernst Jünger, por várias vezes, beneficiando da sua profunda ligação à cultura germânica e do seu conhecimento da literatura europeia,em especial a alemã, a francesa e a inglesa.
A primeira dessas longas entrevistas com o autor de Sobre as Falésias de Mármore e A Guerra como Experiência Interior, deu-se a 27 de Maio de 1973, na casa de Jünger em Wilflingen, na Suábia, e foi publicada, sob o título Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra, na Vida Mundial, em 1976, com destaque de capa.

É um documento único, que fez com que Roberto de Moraes seja o único português mencionado por aquele gigante das letras no seu diário. Na hora da sua morte, aqui fica a homenagem, a evocação e o orgulho de o ter conhecido e de lhe ter chamado amigo."

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Há sempre um livro...

Há um livro que me costuma acompanhar em alturas difíceis – "O Passo da Floresta". Tem andado comigo...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Venner na rádio

Descobri hoje com agrado que no passado dia 11 de Novembro, data em que curiosamente estive em Paris, Dominique Venner participou no programa "Le Grand Témoin", da Radio Notre-Dame, animado por Louis Daufresne, no qual falou de Ernst Jünger, do século de 1914, da amizade franco-alemã, da queda do muro de Berlim, entre outros. A ouvir, aqui.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Jünger no CCB

Impedido por partilhas familiares, coisa sempre demorada, não consegui ir ontem ao CCB para assistir a “O Caso Jünger”, integrado no ciclo “Nazismo e Cultura: Confrontações”. Dizem-me amigos que estiveram presentes que não perdi nada. Acredito que não tenha trazido nada de novo, mas perdi uma coisa rara: um evento em Portugal sobre Ernst Jünger. Para quando outro?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Desterrado

«Desterrado é aquele que possui uma relação originária com a liberdade, que se exterioriza, de um ponto de vista epocal, na resistência que opõe ao automatismo e de que não tenciona tirar a sua consequência ética, o fatalismo.»

Ernst Jünger
in “O Passo da Floresta”, Cotovia, 1995.

sábado, 18 de outubro de 2008

Jünger e Céline na Sorbonne

Em frente à Sorbonne há um quiosque onde é possível comprar números antigos do «Magazine Littéraire». E não é a molho, tipo “oportunidades”, é todo um escaparate com vários exemplares de cada número, organizados por data de publicação. Uma verdadeira tentação para “esvaziar a bolsa” e “encher a mala”. Mas, como nesta minha última ida a Paris a mala já estava cheia e a bolsa anda sempre pouco preenchida, tive que conter-me e elegi apenas duas revistas, relativas a dois autores de referência para mim — Ernst Jünger e Louis-Ferdinand Céline.



Trouxe, assim, o n.º 326, de 1994, estando o escritor alemão ainda vivo e à beira de completar o seu centésimo aniversário, que tem um excelente dossier com vários artigos, uma cronologia, uma bibliografia e o texto “Leipzig”, um excerto da primeira versão inédita de “O Coração Aventuroso”; e o hors-série n.º 4, de 2002, totalmente dedicado ao escritor francês, do qual destaco três textos inéditos e a entrevista com Lucette Destouches sobre como foi escrito “Rigodon”.

Mais auxiliares para, como propôs o meu caro amigo Miguel Vaz, depois de aceitar umas pistas de leitura que lhe dei, “analisar mais a fundo a relação entre Jünger e Céline. Dois escritores geniais, dois veteranos da Guerra, dois condecorados, dois críticos do III Reich e dois odiados pela Ordem que floresceu na Europa após a derrocada alemã. Dois percursos análogos mas inversos. De um lado a perspectiva ascética e aristrocrática de Jünger. Do outro o niilismo e a provocação de Céline.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A conversão de Jünger

Jünger-Haus, Wilflingen

Na entrevista publicada no último número de «La Nouvelle Revue d’Histoire», Julien Hervier esclarece as razões da conversão de Ernst Jünger ao catolicismo pouco antes de morrer: “Jünger sempre teve o desejo de viver de acordo com os ritos do seu país. Considerava, assim, necessário adoptar a religião da sua comunidade. Ora a Suábia onde ele vivia há muito tempo é católica. Para além de a legislação alemã obrigar à declaração da confissão segundo a qual se quer ser sepultado. Foi uma das motivações da sua conversão tardia, a fim de que o funeral fosse celebrado de acordo com o rito das gentes da sua terra.” Sinceramente, não consigo lembrar-me de um motivo mais pagão para uma conversão.