Mostrar mensagens com a etiqueta EUA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta EUA. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Obama, Trump e um país dividido


Sabemos que na Europa Ocidental Obama teve um estatuto de quase “santo”, mas aquele que se apresentou como o candidato “pós-racial” que traria a união dos norte-americanos foi de facto o que marcou uma profunda divisão no eleitorado norte-americano. No aspecto racial, recorde-se a interrogação da National Review, no ano passado: “Após oito anos do primeiro Presidente afro-americano, porque é que as relações raciais na América estão tão más?

A propósito da divisão eleitoral, veja-se o artigo “Obama e Trump, os divisores-em-chefe numa América sem rumo” publicado ontem no insuspeito «Público», jornal que nunca escondeu as suas simpatias por Obama: “Como a profunda divisão que existe hoje em dia entre republicanos e democratas é vista muitas vezes como um fenómeno criado pela vitória de Trump em Novembro do ano passado, talvez valha a pena recordar as percentagens de popularidade de Obama no dia em que o Presidente norte-americano mais querido na Europa saiu da Casa Branca – com 83% de "gostos" no lado do Partido Democrata e 13% de carinhas sorridentes no Partido Republicano, foi o Presidente que mais dividiu os eleitores norte-americanos desde que há registos, segundo os estudos da empresa Gallup.

Continuando a contrariar a ilusão que a Europa viveu em relação à popularidade de Obama, o artigo diz que “mesmo com todas as diferenças entre épocas, quem estuda as sondagens admite que se possa estar perante um "novo normal", como se lê no comentário da empresa Gallup. E, se esse "novo normal" veio mesmo para ficar, "os Presidentes vão ter muitas dificuldades para alcançarem valores positivos nas taxas de aprovação" – algo que aconteceu também com Barack Obama, apesar da ideia generalizada na Europa de que o antecessor de Trump foi mais popular do que era habitual. No final dos seus mandatos, Obama teve uma taxa de aprovação média de 47,9%, e só teve valores positivos em três fases: no início do primeiro mandato, na altura da reeleição e na fase final do segundo e último mandato”.

Comentando, de seguida, a impopularidade de Trump, afirma que “é nesta mistura de "novo normal" com uma plataforma política quase oposta à que serviu de guião a Barack Obama que Donald Trump tem navegado. O resultado está à vista: Trump tem mantido, e até reforçado, a tendência dos últimos anos para dividir ainda mais os eleitores americanos, e é ao mesmo tempo um dos presidentes menos populares de sempre”.

Apesar de tudo, há que dizer que toda esta impopularidade de Trump não vem de hoje e não o impediu de chegar a Presidente dos EUA. Trump foi, como muito bem analisou Carlos M. G. Martins, o homem que desafiou o statu quo.


Esse desafio começou dentro do próprio Partido Republicano, pelo qual Trump se candidatou. No livro “Trump - Desafiar o Staus Quo”, publicado pela Gladius Editions, Carlos M. G. Martins escreveu que “o distanciamento crescente entre a base e as elites não se limita à interligação entre o político e o económico. A própria dinâmica política e interpartidária tem provocado essa cisão. Durante vários meses, a cúpula do Partido Republicano tinha demonstrado dificuldade em aceitar os resultados obtidos nas urnas. À medida que se tornava mais evidente que Trump seria o escolhido pelos eleitores, essa frustração permitia identificar laivos de honestidade dentro do "sistema".” Carlos Martins cita depois uma entrevista do republicano Curly Haugland à CNBC, da qual retiro uma passagem esclarecedora: “Ao contrário da sabedoria popular, são os partidos quem decide quem são os candidatos, e não os eleitores”.

Regressando ao “país dividido”, percebe-se que não foi o fenómeno Trump que causou a fractura e que o agravamento dessa situação é inevitável. Uma coisa é certa, chame-se Obama ou Trump, o ressurgimento da Europa nunca virá do outro lado do Atlântico.

sábado, 12 de novembro de 2016

Trump: insurgência identitária?



Enquanto assistimos à busca de "explicações" para a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA pelos media e os analistas ditos "de referência", o artigo de Filipe Faria "Trump, o Futuro da América e a Política de Identidade" refere um ponto essencial que tem sido (propositadamente?) desprezado ou ignorado. Será a "insurgência Trumpeana" o protesto do grupo dos euro-americanos no conflito identitário que se vive nos EUA? Tudo indica que sim. Ora veja-se o seguinte excerto:

"Grande parte dos analistas tenta explicar esta “insurgência” Trumpeana como sendo um protesto dos euro-americanos contra a globalização económica devido à perda de empregos e de riqueza geral. No entanto, uma análise mais cuidada revela que os apoiantes de Trump estão muito longe de serem pobres. Os outros grupos (latinos e afro-americanos) que tendem a apoiar o partido democrata com a sua visão globalizante são bastante mais empobrecidos. Este historicismo materialista dos analistas não consegue explicar o fenómeno Trump em toda a sua dimensão.
Tal como vários estudos académicos revelam, o que está na origem desta insurgência é a ascensão da identidade europeia em solo americano. A evidência empírica dos psicólogos sociais Eric Knowles e Linda Tropp mostra que o contacto massivo com “o outro” no próprio país fez com que muitos euro-americanos se tenham consciencializado da sua identidade europeia. Por outras palavras, a abertura de fronteiras e as alterações radicais demográficas e culturais nos EUA provocaram uma ameaça existencial. Tal como aprendemos com a psicologia política evolutiva, é nestes momentos que os grupos tendem a escolher líderes fortes e combativos que defendam a sobrevivência do colectivo."

A este propósito, leia-se, também, a entrevista de Kathy Cramer, The Politics of Resentment (A Política do Ressentimento, não traduzido para português) ao "Público" sobre Donald Trump e sobre o futuro da política de identidade branca.


Nas inúmeras entrevistas que fez no Wisconsin rural, chegou à conclusão que nos "três elementos do ressentimento – não tenho poder, bens nem respeito – a raça e a economia interligam-se".

No entanto, sobre o "racismo" dos apoiastes de Trump, afirma: "O argumento de que o movimento de Donald Trump equivale a racismo não me parece ser verdade, e isto porque o racismo não põe comida na mesa. Não se pode ganhar a vida com o racismo. Não nego que os estudos mostrem que há muito ressentimento racial entre o eleitorado de Donald Trump mas muitas vezes o argumento termina aí. “Eles são racistas.” Parece-me ser uma forma muito redutora de olhar para a questão. É claramente racista pensar que os negros não trabalham tanto como os brancos. E então? Declaramos que uma grande parte da população é racista e, como tal, os seus problemas não são merecedores da nossa atenção?"

Dizendo que resiste muito à "caracterização dos apoiantes de Donald Trump como sendo ignorantes", Kathy Cramer afirma que "cada vez mais há provas de que a política para as pessoas não é – e eu sei que isto vai soar de forma horrível – sobre os factos e as políticas. É sobre identidades, sobre a formação de ideias, sobre o tipo de pessoas que nós somos e o tipo de pessoas que os outros são. Quem sou eu e quem está contra mim?"

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Just ride...


No monólogo final desta música, Lana Del Rey diz uma frase marcante - "I believe in the country America used to be." - que recorda o slogan de campanha de Trump: "Make America Great Again". Alguém quer juntar esta coincidência às "explicações" da vitória que deixou tanta gente de cabelos no ar?

Carlos Martins na SIC Notícias, a propósito do seu livro "Trump Desafiar o Status Quo"


O Carlos Martins foi entrevistado ontem no programa Edição da Noite, da SIC Notícias, sobre a eleição de Donald Trump e a propósito do livro "Trump, Desafiar o Status Quo", da sua autoria, onde analisa a campanha, as medidas, a oposição do establishment e a conquista do eleitorado por parte do novo presidente da Casa Branca. A ver.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Um título revelador


A "diretora" (escrito assim mesmo, sem o "c" de carácter) da «Visão», revoltada com a vitória de Donald Trump, reagiu desta forma, que indignou muito boa gente. Por mim, ao contrário das intenções da "angelical" jornaleira, considero que o título está correctíssimo. Ora vejamos: "Trump Presidente?" revela espanto perante a constatação de um facto inesperado; "Merda, merda, merda!" é a admissão do péssimo trabalho de cobertura, análise e prognóstico das eleições presidenciais nos EUA feito pela revista que dirige.

Explicadores


Os que falharam todas as sondagens e erraram todas previsões são os que agora nos "explicam" a vitória de Trump...

Esclarecedores


Felizmente, os "campeões da tolerância" deram lições de democracia (da verdadeira, claro) em várias cidades do EUA, apesar de a polícia ter tentado impedir estas sessões de esclarecimento público.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A vitória anunciada que não o foi...


Jornaleiros a soldo e comentaristas de serviço, analistas de dados viciados e opinantes de vistas curtas, para além dos habituais propagandistas do politicamente correcto, acreditaram na ilusão da sua certeza e anunciaram uma vitória segura da candidata dos obamitas. Era uma certeza "matemática", segundo um dos muitos disparates "científicos" que li, mas a história foi outra...

Como escrevi em tempos, em política não há vitórias anunciadas. Pelo contrário, é normalmente quem as anuncia – tão seguro de si próprio – que acaba em maus lençóis.

domingo, 18 de setembro de 2016

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 86


O mais recente número da revista de referência «La Nouvelle Revue d'Histoire» oferece um óptimo dossier que nos leva "às fontes da excepção americana", um tema bem actual porque nas vésperas das eleições presidenciais nos EUA. A esse propósito, Philippe Conrad diz-nos no editorial que uma eventual vitória de Donald Trump "constituirá sem qualquer dúvida uma ruptura maior um choque geopolítico de grande envergadura". Razões de sobra para melhor compreendermos a "génese de uma identidade particular".

Para além do dossier, destaque para a entrevista com o historiador das relações internacionais Georges-Henri Soutou e os artigos "A Batalha de Hastings", de Gérard Hocmard, e "Guilherme, o Conquistador, na memória anglo-normanda", de Franck Buleux, e o texto de Philippe d'Hugues sobre Pierre Boutang, bem como as secções habituais.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Espectadores


De passagem por São Francisco, na Califórnia, não resisti a ir à City Lights Bookstore, na Columbus Avenue, uma paragem obrigatória para qualquer bibliófilo.

A livraria é famosa por ter publicado, em 1956, o livro “Howl and Other Poems”, de Allen Ginsberg, cujo principal poema foi acusado de obscenidade devido às referências sexuais, em especial homossexuais, explícitas. A polémica e o julgamento deram obviamente uma publicidade enorme ao poema, que se tornou uma das obras mais conhecidas da chamada ‘Beat Generation’.

Como seria de esperar, a City Lights é uma livraria “progressista”, para usar a designação norte-americana. Quando entrei, houve uma das máximas que estão escritas nas paredes que me chamou a atenção: “A democracia não é um desporto de espectadores”. Nem de propósito, a frase estava sobre o expositor de revistas, onde se podem encontrar publicações comunistas, anarquistas, feministas, entre outras, mas todas alinhadas à esquerda e à extrema-esquerda. De facto, a livraria não é uma mera espectadora no “desporto democrático” e rapidamente se percebe de que lado do campo está... Também devemos fazer uma visita a este local icónico sem sermos meros espectadores e questionar algumas certezas “progressistas”.

Fiquei satisfeito por encontrar à venda traduções do nosso Eça, mas gostei ainda mais de ver um livro que reúne alguns escritos de Fernando Pessoa publicado pela própria livraria. Chama-se “Always Astonished” e os editores provavelmente ficariam espantados com muitas das posições políticas de Pessoa.

Por fim, no piso superior, há uma secção de poesia onde o destaque vai naturalmente para a ‘Beat Generation’, nomeadamente para Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Também aqui encontrei um volume que reúne entrevistas do autor de “Pela Estrada Fora” e foi interessante recordar naquele local o Kerouac anti-comunista e desiludido com o que se tinha tornado a ‘Beat Generation’. De facto, não podemos ser apenas espectadores...

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O ataque dos mortos-vivos


Há algum tempo que vejo notícias sobre a crescente preocupação, nomeadamente nos EUA (where else?), com um possível ataque de zombies. É claro que a temática dos mortos-vivos, ainda para mais para um apreciador do trabalho do realizador de cinema George A. Romero como eu, me captou a atenção e o assunto divertiu-me.

Mas atenção, o fenómeno ultrapassou os limites da mera brincadeira. Multiplicam-se as páginas na internet com as "melhores formas de se defender de um ataque de zombies", acesas discussões sobre o assunto, nas quais muitos crêem e garantem que que vai acontecer. Apesar de continuar a ser um divertimento para certas pessoas, no meio deste delírio há quem sustente a teoria, supostamente "séria e fundamentada", de que uma nova droga faz com que os seus consumidores fiquem com um aspecto e com comportamentos de um morto-vivo. Enfim, diz o povo que "há malucos para tudo"...

Acontece que há quem altere a sua casa, ou construa abrigos, como precaução em caso de este ataque se verificar e quem compre armas específicas para melhor se defender deste perigo imaginário. O cúmulo foi o lançamento de uma linha de munições chamada Zombie Max, por uma conhecida marca, para responder a esta procura crescente.

A verdade é que quem está tão preocupado com um ataque de zombies são aqueles cuja vida se resume a um total alheamento da realidade, dominado por videojogos, televisão, mundos virtuais e, especialmente, muita ignorância. Os verdadeiros mortos-vivos, portanto.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ameaças nucleares actuais

Longe vão os tempos da Guerra Fria e da corrida ao armamento nuclear. Depois da queda dos comunismos a Leste, o receio foi o do acesso dos terroristas a armas atómicas. Depois de aliviada essa tensão e de uma diminuição considerável do número de ogivas nucleares no mundo, o perigo não desapareceu. Vários países possuem arsenais nucleares com grande capacidade de destruição e há outros que procuram ter esse poder. A recente escalada de conflitos internacionais veio relembrar que a ameaça nuclear não é uma preocupação do passado. Regresso a um tema actual, mas aparentemente muito esquecido.


Depois da assinatura do Tratado de Não-Proliferação de armas nucleares (TNP), em 1967, ratificado por 189 países, tudo indicava que o mundo se iria tornar um lugar mais seguro, mas a ameaça não se desfez.
Hoje, para além das cinco potências nucleares históricas, que são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – a saber: EUA, Rússia, Reino Unido, França e China –, apenas mais quatro países possuem oficialmente, ou são suspeitos de possuir, armas atómicas – Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel. Países que continuar a recusar a assinatura do TNP.

Menos armas, mas melhores
Depois do fim da Guerra Fria, o número de armas nucleares no mundo baixou drasticamente. Segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI), existem cerca de 17 mil ogivas nucleares no mundo, das quais 90 por cento são norte-americanas ou russas, ou seja 75 por cento menos que há 30 anos.
No entanto, não nos devemos iludir por estes números aparentemente positivos. Hoje em dia, há que ter em conta a modernização dos arsenais nucleares, que implica armas com maior tempo de vida útil, mais poderosas e dotadas de uma maior mobilidade. A corrida nuclear não parou no tempo e os “cinco grandes” nunca deixaram de se actualizar.

Terrorismo
Em especial após os atentados do 11 de Setembro, o terrorismo nuclear começou a ser considerado como uma ameaça no Ocidente. Os EUA lideraram esta preocupação, aumentando o controlo e a vigilância relativamente ao tráfico de substâncias radioactivas. Em 2009, Barack Obama afirmou num discurso: “Devemos assegurar-nos que os terroristas nunca possam obter armas nucleares. Trata-se da ameaça mais extrema e a mais imediata à segurança mundial”. Um receio partilhado pelas mais altas instâncias internacionais, já que, em 2008, num discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, Mohamed El-Baradei, então director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), declarou: “A possibilidade de os terroristas obterem substâncias nucelares ou radioactivas torna-se uma ameaça grave”.
Ao mesmo tempo, a possibilidade de fabricar a chamada “bomba suja” preocupa também as grandes potências. Mas para tal é necessária a obtenção da matéria para fabricar a dita bomba. Ora, o tráfico ilícito de substâncias nucleares, que teve o seu pico em 2007 e 2008, baixou consideravelmente a partir de 2011, reduzindo assim o risco. Talvez por isso a maior parte dos Estados não considera o terrorismo nuclear e o tráfico de substâncias radioactivas como uma prioridade nas suas políticas de segurança e defesa. No entanto, vários analista garantem que a manutenção de um baixo risco depende do reforço da cooperação internacional.
Concluindo, o terrorismo nuclear não existe como fenómeno histórico, nem como ameaça, mas constitui um risco.

Coreia do Norte
O arsenal nuclear da Coreia do Norte é tão desconhecido como o próprio regime do país. A Coreia do Norte optou por uma estratégia de defesa agressiva e muitos analistas consideram que a utilização de armas atómicas não é descabida. Ainda assim, parece altamente improvável, apesar de demonstrações de força recentes. Estima-se que Pyongyang possa ter cerca de 30 a 50 kg de plutónio e até 250 kg de urânio altamente enriquecido, apesar de certos especialistas assegurarem que esses números são exagerados e que o ‘stock’ que o país possui é quase nulo. Seja como for, em Março deste ano, a agência noticiosa oficial da Coreia do Norte divulgou uma fotografia do presidente Kim Jong-un em reunião com oficiais militares de altas patentes, onde era visível um mapa intitulado “Plano de ataque das forças estratégicas sobre o continente americano”. Manobra de propaganda ou ameaça real?
Mas existe ainda outro risco sério. Em caso de fragmentação do regime norte-coreano, o perigo de uma proliferação nuclear aumenta. Neste aspecto, os analistas consideram que a solução do problema passa por uma maior cooperação em matéria de informações entre Pequim e Washington.

Israel e Irão
O arsenal nuclear de Israel é desconhecido. O Estado hebraico adoptou sempre uma postura de ambiguidade, nunca reconhecendo que tem armas atómicas nem nunca negando.
A questão de fundo que interessa a Israel é manter a superioridade face aos seus vizinhos que considera como ameaças. A política seguida tem sido a chamada “doutrina Begin” que deve o nome ao primeiro-ministro israelita Menahem Begin, que em 1977, declarou que Israel nunca permitiria que um país do Próximo Oriente possuísse capacidade de destruição nuclear. Esta doutrina justificou os raides aéreos contra instalações nucleares iraquianas e sírias.
Agora, perante a tensão criada pelo programa nuclear iraniano, há o risco de Israel bombardear alvos no Irão se considerar que este país está próximo de ter armas atómicas.
No entanto, o Irão sempre garantiu que o seu programa nuclear tem fins pacíficos e a eleição, este ano, de Hassan Rohani, considerado como moderado, aliviou a tensão. O novo presidente iraniano declarou numa entrevista à cadeia de televisão norte-americana NBC que “em circunstância alguma procuraria adquirir armas de destruição maciça, nomeadamente armas nucleares”. Mas Rohani também afirmou que “o programa nuclear é uma questão nacional” para o Irão, acrescentado que “o governo insiste nos direitos nucleares em conformidade com as regras internacionais”. “Não cederemos nos direitos da nossa nação, mas somos defensores do diálogo e do entendimento”, disse.
Já depois da eleição de Rohani, em Julho de 2013, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, afirmou numa entrevista que Israel poderia intervir militarmente contra o Irão antes dos EUA e qualificou o novo presidente iraniano como “um lobo disfarçado de cordeiro”. Apesar desta postura agressiva, a maior parte dos dirigentes israelitas considera que a solução passa pelo reforço das sanções económicas contra o Irão e não por um ataque.

Índia e Paquistão
Países rivais e em conflito permanente – recorde-se que a disputa de Cachemira provocou recentemente o conflito de Kargil, em 1999 –, Índia e Paquistão possuem ambos arsenais nucleares. Em primeiro lugar, para alguns analistas, o principal problema de ambos é a falta de equipamentos modernos e de experiência prática que causa o receio de uma escalada nuclear mais ou menos involuntária.
Paralelamente, o maior risco prende-se com a cadeia de comando que controla o armamento nuclear. No Paquistão, os militares têm uma autonomia de acção considerável e não prestam contas ao poder civil. Aqui, há outro factor a ter em conta, que é o das ligações perigosas de um sector dos militares paquistaneses a grupos terroristas islamitas. Já na Índia existe tradicionalmente um controlo estrito do poder civil sobre o militar.
Outro dado preocupante é a corrida ao armamento feita pelos dois países. O Paquistão passou de um arsenal de 90 a 110 ogivas nucleares em 2012, para entre 100 e 120 em 2013. Também na Índia se verificou um aumento, passando das 80 a 100 ogivas nucleares em 2012 para as 90 a 110 em 2013, segundo o relatório anual do Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI). A Índia lançou no ano passado o seu primeiro míssil balístico intercontinental, o Agni V, com um alcance de 5 mil quilómetros, e possui dois submarinos nucleares, um de fabrico russo e outro de fabrico indiano, com capacidade para transportar mísseis balísticos.

Proliferação e riscos
No novo cenário de um mundo multipolar, haverá a tendência para as potências emergentes garantirem a sua superioridade militar através da obtebção de armas nucleares. A tentativa de dissuasão por parte dos históricos nucleares, nomeadamente os EUA – único país que alguma vez usou armas atómicas – terá tendência a não funcionar. Os mesmo países que apelam ao desarmamento dos outros não abdicam do seu arsenal e continuam a desenvolvê-lo e aperfeiçoá-lo. Por exemplo, as potências regionais, ao verem a actual situação na Síria, podem considerar que a melhor forma de evitar uma intervenção militar externa é estarem dotadas de armas nucleares.
Ao mesmo tempo, várias forças políticas em potências nucleares europeias, como a França, têm feito pressão para a desnuclearização do país. No entanto, por muito nobres que sejam essas propostas, há o sério risco de termos novos países com capacidade nuclear, e de outros a manterem, enquanto a Europa enfraquece ainda mais a sua capacidade militar. Tal cenário pode acarretar sérios riscos para a segurança europeia e ocidental, cujas consequências podem ser trágicas.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Oeste nada de novo

Há 12 anos, estava eu na Florida, quando se decidiu, numa eleição controversa que implicou uma decisão judicial, a vitória de George W. Bush. Foi curioso observar a forma como as pessoas comuns vivem uma campanha nos EUA. Não querendo nem podendo ser exaustivo, refiro apenas um pormenor que na altura me chamou automaticamente a atenção: o facto de muitos estabelecimentos comerciais assumirem o seu candidato e afixarem a respectiva propaganda nas montras. As recordações dessa altura foram mantidas vivas pela observação de um continuado processo a que podemos chamar, numa generalização simplificadora, “americanização”. Tal ocorre tanto nos outros países ocidentais, como no resto do mundo. Muitas transformações sociais ocorridas reproduzem o modelo norte-americano, que continua a ser visto como “moderno” ou um “progresso”. No entanto, apesar disso, a realidade dos EUA continua a ser muito diferente de todo esse mundo que influencia, ainda que indirectamente. Quem olha de fora para a potência que saiu vencedora da Guerra Fria, cai normalmente em erros de análise crassos.

Veja-se como exemplo a eleição de Obama. As esquerdas europeias congratularam-se, numa histeria que mais fazia lembrar um artista musical. Escusado será dizer que entre o Partido Democrata norte-americano e as esquerdas europeias há uma distância quase tão grande como o Oceano que os separa. Por outro lado, a partir de Bush, em especial com os ‘neo-cons’, e depois com o Tea Party, o Partido Republicano é apresentado por cá como uma espécie de “perigosa extrema-direita”. Assim, para os bem-pensantes europeus, aqueles representam o protótipo do norte-americano ignorante. Se é verdade que “Dubya” (designação irónica dada a Bush Filho) era pródigo nesses tropeções, acontece que este é um fenómeno recorrente e explorado em ambos os lados. A última ‘gaffe’ desta campanha até foi protagonizada por um democrata, quando Joe Biden, referindo-se a Obama, afirmou num comício que “não houve um único dia em que se tivesse orgulhado de ser seu vice”.

Numa eleição em cuja campanha o assunto central foi a economia e em que pouco se debateu a política externa, a maioria dos comentadores prevê a reeleição de Obama, apesar de as sondagens colocarem Romney bastante perto. Mas será a diferença entre os dois – para nós, evidentemente – assim tão grande? A Oeste nada de novo.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 8 de janeiro de 2012

E agora?

As dúvidas são grandes e a expectativa maior. Os receios quanto ao que será o futuro de Portugal e da Europa aumentam. O tempo das “vacas gordas”, da vida confortável e do futuro garantido chegou ao fim. O mundo mudou e o nosso país também. 2011 foi um ano de viragem e, no novo ciclo que se avizinha, nada será como dantes.


O ano transacto foi um annus horribilis para todos os que nos asseguravam que tudo ia correr bem. Os políticos do costume, bem instalados, viram a sua careca descoberta. Afinal, todo este progresso e desenvolvimento era ilusório. Comprado a crédito e hipotecando gradualmente o País a interesses estrangeiros. Com um endividamento geral, dos interesses do Estado às famílias, não tardou a que os credores nos batessem à porta. As dúvidas sobre a perda da nossa soberania esbateram-se com o início oficial de um semi-protectorado ou de um co-governo, como queiramos chamar. Mas Portugal não foi um caso único. A Europa foi vítima de repetidos ataques e a ditadura dos mercados mostrou a sua força ao fazer cair governos e colocando em seu lugar homens da sua confiança.

Portugal
No nosso país, percebemos que nem o fim do socratismo, nem as “medidas de austeridade e contenção” alteraram a situação perante os sempre atentos e intervenientes “mercados”, como agora se diz. Simultaneamente a esta perda de confiança nas instituições políticas e o questionar da validade das eleições enquanto instrumento popular de alteração da situação, vieram a descredibilização total no sistema judiciário, onde apenas quem tem posses razoáveis parece escapar, e a desconfiança nas instituições financeiras, com as falências de bancos e as repetidas fraudes. Os despedimentos, abaixamento do poder de compra e a subida da criminalidade aumentaram o sentimento de insegurança. O receio de um regresso ao Escudo, com a respectiva quebra do valor da moeda, assusta cada vez mais gente. Na rua, o nosso pessimismo agravou-se.
Perante tal cenário, os portugueses iniciaram de novo um êxodo. A taxa de emigração subiu vertiginosamente. Mas hoje, para além de técnicos qualificados, grande parte dos que saem não pensa voltar ou ser português. Como filhos da globalização, viver em Braga, São Paulo ou Nova Iorque é a mesma coisa. Esta verdadeira fuga coincide com outras – a fuga de capitais e de investimentos.
Grande parte dos portugueses deixou de acreditar em Portugal.

Europa
Também no resto da Europa, depois de anos ricos, as dificuldades apertam. A actual construção europeia treme com a força dos “mercados” e com as divisões internas. Mesmo a moeda única não parece resistir. O nosso continente é hoje um grupo de países sobreendividados, que viram passiva e alegremente a sua força produtiva partir para outras paragens, onde cada um tenta tratar da sua sorte, sem uma necessária estratégia comum.
Neste estado frágil, nada pior do que a situação conturbada que se vive no Mediterrâneo e no Médio Oriente. As várias revoltas a que se chamou a “Primavera Árabe”, pelos que apenas viam “a vinda da liberdade e da democracia a povos oprimidos”, abriram a porta aos islamitas, a uma maior instabilidade na região e à incerteza quanto ao futuro.

Mundo
A alteração do equilíbrio de forças no mundo ficou marcada pela influência crescente das chamadas potências emergentes. Com a China à cabeça, comprando dívidas e empresas estrangeiras e exportando produtos e mão-de-obra, percebemos como os parceiros do grande jogo da política mundial mudaram.
Os Estados Unidos da América, apesar da dívida e da crise económico-financeira, continuam a ser uma potência militar impressionante e a influenciar directamente a política externa. Quem acreditou numa “mudança”, já viu que afinal nada mudou. Os norte-americanos não abdicam dos seus interesses.

O fim da ilusão
Vivemos em fartura e, agora que sabemos que adversidades espreitam, somos forçados a mudar. Há sempre quem nos garanta horizontes de melhoria, que tudo vai ser como dantes em breve. O discurso dos “especialistas” do costume, dos optimismos oportunistas, é sempre o mesmo.
Mas uma coisa é certa e percebida – a festa da felicidade perpétua vai terminar. O reino da abundância chegou ao fim. Esta desilusão – no sentido profundo do termo – é também uma oportunidade. Um tempo para mudar de atitude e não descurar o que é realmente importante. A altura ideal para reencontrarmos valores essenciais, que foram sendo esquecidos e perdidos.

O nosso futuro
A futurologia é a disciplina predilecta dos comentadores políticos. Acontece que, ultimamente, com tantos erros de previsão e cálculos económicos, caiu em descrédito.
Numa altura em que os desafios se agigantam e as dificuldades nos estrangulam, há que redescobrir a fibra dos portugueses que ao longo da nossa História não vacilaram perante as maiores adversidades. Que mantiveram acesa até hoje a chama pátria e nos legaram a responsabilidade de perpetuar esse fogo sagrado. Reza o nosso hino: Levantai hoje de novo…
O nosso futuro pertence-nos. O nosso pior inimigo é a passividade em relação à condução dos nossos destinos enquanto país, a apatia generalizada face ao porvir de uma Nação da qual somos parte integrante.
O nosso futuro pertence-nos. Alea jacta est!

[publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

No change

Já o afirmei aqui por várias vezes que, apesar da eleição de Obama, os EUA e o seu projecto de hegemonia mundial continuam iguais a si próprios. Vem isto a propósito da entrevista de Michael Hayden, director da CIA entre 2006 e 2009, deu ao «Expresso», intitulada "Obama actua como Bush". Diz ele: "(...) no que respeita à luta antiterrorista, há mais semelhanças que diferenças entre Obama e Bush, apesar das retóricas. Continuam as detenções por tempo indeterminado, não há habeas corpus para os detidos da Al-Qaeda em Baghram (Afeganistão), persiste o segredo de Estado, tal como os assassínios selectivos e os voos da CIA. Uma vez na Casa Branca, começam-se a ver as coisas doutra forma".

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Gettysburg


A entrega do passado sábado da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é sobre Gettysburg, uma batalha que alterou o rumo de um país que se tornaria o mais influente do mundo.

Sobre este tema há que recomendar o livro "Gettysburg" de Dominique Venner, e o n.º 17 de «La Nouvelle Revue d'Histoire», por ele dirigida, cujo tema é "A América dividida".