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sábado, 19 de agosto de 2017

Três perguntas a Dominique Venner sobre “Le Cœur rebelle”

Dominique Venner (16 de Abril de 1934 - 21 de Maio de 2013) 

Dominique Venner é uma das minhas referências maiores e foi por isso que não hesitei quando o meu amigo Christopher Gérard me desafiou a traduzir o seu regresso a “Le Cœur rebelle”, aquando da reedição, em 2014, de uma das obras fundamentais deste historiador meditativo”, como Venner se auto-descrevia, forjado pela tempestade. Foi um ensaio autobiográfico que muito me marcou e este oportuno regresso apenas me confirmou que este é um dos livros de Dominique Venner que urge traduzir e publicar em Portugal.


Com Dominique Venner

Numa das suas missivas, redigidas numa escrita angulosa, Dominique Venner escrevia-me que “a memória das origens é o alimento da alma”. Tão bela quanto justa – é um todo –, a fórmula ilustra o talento do seu autor, um atirador que nunca falhava o seu alvo. A bem-vinda reedição de “Le Cœur rebelle” [“O Coração Rebelde”, inédito em português], na minha opinião o seu mais belo livro a par do “Dictionnaire amoureux de la chasse”, permite-nos compreender: pegando no meu exemplar de 1994, lido com entusiasmo e júbilo, recaio sobre as minhas múltiplas anotações a lápis. Vinte anos depois da sua primeira leitura, cada frase sublinhada ainda fulmina. Que belo hino à determinação viril, que vigorosa carga contra a decadência e a resignação! O antigo cadete da Escola de Guerra de Rouffach, uma espécie de mosteiro guerreiro fundado por De Lattre, o antigo comando da fronteira tunisina, o antigo militante radical que planeará assassinar De Gaulle no Eliseu, o futuro historiador “meditativo”, Venner o espartano deixa-nos aqui o fundo do seu pensamento e, como o precisa num posfácio inédito datado de 2008, exorciza o seu passado. O cúmulo para um homem tão púdico, que detestava as histórias de antigos combatentes e a quem, paradoxo para um historiador, o seu próprio passado deixava indiferente. Nascido de uma dor e de um esforço sobre si próprio, “Le Cœur rebelle” é de alguma forma um misto do “Jeune Européen” de Drieu e de “La Guerre notre mère” de Jünger – o manual do insurgente moderno.
Sem ser ingénuo, Venner congratulava-se de ter podido conhecer “o casal divino, a coragem e o medo” outrora cantados por Drieu após a carga de Charleroi, como uma guerra quase feudal, a última (?) que deixava ainda a iniciativa ao indivíduo e não à máquina. Se não escondia a face atroz da sua guerra da Argélia, onde descobriu a crueldade pura (“uma criança triturada como uma lebre”), Venner descrevia bem a traição da retaguarda, o masoquismo odioso dos progressistas, a sua cobardia com pretensões humanitárias. Para Venner, esta guerra que nunca ousou verdadeiramente dizer o seu nome constitui uma experiência fundadora. Estou aliás convencido de que o seu suicídio foi a sua última consequência: o homem de espada, que durante tantos anos havia reprimido as suas pulsões nascidas do estrondo das armas, quis voltar a juntar-se aos seus camaradas do “djebel”, de pé, com os olhos abertos e pelo sangue derramado. Como ele escreve em “Le Cœur rebelle”, onde o tema do suicídio – o de Montherland e o do seu amigo Grossouvre, que se matou no seu gabinete no Eliseu – conclui o ensaio de maneira profética: “alcançar a sua morte é um dos actos mais importantes da vida”.
Das muitas páginas que poderiam ser citadas, escolho a última, que é de um escritor de raça e que não pode deixar de virar do avesso todas as almas de qualidade, de onde quer que elas venham: “Sou do país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de Inverno e das festas de São João no Verão, das crianças loiras e dos olhares claros, da acção obstinada e dos sonhos loucos, das conquistas e da sabedoria. Sou do país onde fazemos o que devemos porque o devemos em primeiro lugar a nós próprios.”
Leiamos este livro, ofereçamo-lo às jovens almas ardentes. E saudemos Pierre-Guillaume de Roux, o editor, e Bruno de Cessole, o prefaciador, pela sua fidelidade a um amigo desaparecido.
Testemunho sobre uma juventude de tempestade, tratado estóico de saber-viver, reflexão sobre a acção, meditação sobre o trágico, “Le Cœur rebelle” ficará e encontrará novos leitores, porque este livro extraordinário ilustra o primado do estilo sobre as ideias, do instinto vital sobre as abstracções. “Le Cœur rebelle”, ou o suor e o sangue transmutados em espírito.

Christopher Gérard

Dominique Venner, Le Cœur rebelle, édition augmentée et préfacée par Bruno de Cessole, Pierre-Guillaume de Roux, 22€.



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Três perguntas a Dominique Venner
sobre “Le Cœur rebelle”

Christopher Gérard – Em “Le Cœur rebelle” evoca com simpatia “um jovem intolerante que levava em si mesmo como um odor de tempestade”: você mesmo no tempo dos combates militares na Argélia e, depois, políticos em França. Quem era então este jovem Kshatriya, donde vinha, quem eram os seus mestres, os seus autores predilectos?

Dominique Venner – É aqui que encontramos uma alusão ao “gerfaut” da sua primeira pergunta, recordação de uma época estimulante e perigosa onde o jovem que eu era acreditava poder inverter um destino contrário através de uma violência assumida. Isto pode parecer extremamente presunçoso, mas, à época, eu não reconhecia qualquer mestre. É claro, eu ia procurar estímulos e receitas no “Que fazer?”, de Lenine, ou em “Os Reprovados”, de Ernst von Salomon. Acrescento que as leituras infantis contribuíram para forjar em mim uma certa visão do mundo que no final foi muito pouco desmentida. Em conjunto, citarei “Éducation et discipline militaire chez les Anciens” [“Educação e Disciplina Militar nos Antigos”, de Marcel Poullin (1883)], pequeno livro sobre Esparta que vinha do meu avô materno, um antigo oficial, “A Lenda da Águia” de Georges d’Esparbès, “O Bando dos Ayacks” de Jean-Louis Foncine, “O Apelo da Floresta” de Jack London, enquanto não lia mais tarde o admirável “Martin Eden”. Tratavam-se de livros formadores dos meus dez ou doze anos. Mais tarde, por volta dos vinte ou vinte e cinco anos, tinha passado naturalmente a outras leituras, mas as livrarias eram então mal fornecidas. Era uma época de penúria intelectual da qual não temos ideia hoje. A biblioteca de um jovem activista, mesmo de um devorador de livros, era magra. Na minha, por entre obras históricas, figuravam “Reflexões sobre a Violência” de Georges Sorel, “Os Conquistadores” de Malraux, “Genealogia da Moral” de Nietzsche, “Serviço Inútil” de Montherland, ou ainda “O Romantismo Fascista” de Paul Sérant, revelação dos anos 60. Vemos que não ia muito longe. Mas se as minhas ideias eram curtas, os meus instintos eram profundos. Muito cedo, enquanto ainda era soldado, senti que a guerra da Argélia era uma coisa diferente do que se dizia ou do que pensavam os ingénuos defensores da “Argélia francesa”. Percebi que se tratava de um combate identitário para os europeus porque na Argélia estavam ameaçados na sua própria existência por um adversário étnico. Senti igualmente que lá defendíamos – muito mal – as fronteiras meridionais da Europa. Contra as invasões, as fronteiras defendem-se sempre para além dos mares ou dos rios.


Neste livro, que é um pouco a sua autobiografia, escreve: “Sou do país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de Inverno e das festas de São João no Verão.” Que estranho paroquiano é você, afinal?

Para dizer as coisas de maneira breve, sou demasiado conscientemente europeu para em nada me sentir filho de Abraão ou de Moisés, ao mesmo tempo que me sinto plenamente o de Homero, de Epicteto ou da Távola Redonda. Isto significa que procuro as minhas referências em mim, o mais próximo das minhas origens e não num lugar longínquo que me é perfeitamente estranho. O santuário onde me vou recolher não é o deserto, mas a floresta profunda e misteriosa das minhas origens. O meu livro sagrado não é a “Bíblia”, mas a “Ilíada”, poema fundador da psique ocidental, que atravessou miraculosa e vitoriosamente os tempos. Um poema que vai às mesmas fontes que as lendas célticas e germânicas de que manifesta a espiritualidade, se nos dermos ao trabalho de o decifrar. No entanto, não esqueço os séculos cristãos. A catedral de Chartres faz parte do meu universo da mesma forma que Stonehenge ou o Partenon. Esta é a herança que é necessário assumir. A História dos europeus não é simples. Depois de milénios de religião indígena, o cristianismo foi-nos imposto por uma série de acidentes históricos. Mas foi ele próprio em parte transformado, “barbarizado” pelos nossos antepassados, os bárbaros, os francos e outros. Foi amiúde vivido como uma transposição dos cultos antigos. Atrás dos santos, continuou-se a celebrar os deuses familiares sem se fazer grandes perguntas. E nos mosteiros recopiavam-se os textos antigos sem necessariamente os censurar. Esta permanência é ainda verdadeira hoje em dia, mas sob outras formas, apesar dos esforços da predicação bíblica. Parece-me necessário ter em conta a evolução dos tradicionalistas que constituem tantas vezes ilhas salutares, opondo ao caos ambiente as suas famílias robustas, as suas crianças numerosas e o seu agrupamento de jovens em boa forma. A perenidade da família e da pátria que eles reclamam, a disciplina na educação, a firmeza nas provas não tem evidentemente nada de especificamente cristão. São réstias da herança romana e estóica que a Igreja mais ou menos assumiu até ao início do século XX. Inversamente, o individualismo, o cosmopolitismo actual, o culpabilismo são heranças laicizadas do cristianismo, como o antropocentrismo extremo e a dessacralização da Natureza nos quais eu vejo a fonte de uma modernidade faustiana enlouquecida de cujos efeitos pagaremos um elevado preço.

Em “Le Cœur rebelle” diz também: “Os dragões são vulneráveis e mortais. Os heróis e os deuses podem sempre regressar. Não há fatalidade a não ser no espírito dos homens.” Pensamos em Jünger, que conheceu, que via em acção Titãs e Deuses…

Matar em si próprio as tentações fatalistas é um exercício que não tolera descanso. Quanto ao resto, deixemos às imagens o seu mistério e as suas múltiplas radiações, sem as apagar com uma interpretação racional. O dragão pertence desde a eternidade ao imaginário ocidental. Ele simboliza umas vezes as forças telúricas, outras as forças malignas. Foi pela luta vitoriosa contra um monstro que Hércules, Siegfried ou Teseu acederam ao estatuto de herói. À falta de heróis, não é difícil reconhecer na nossa época a presença de diversos monstros, que eu não creio que sejam invencíveis mesmo que o pareçam.

Entrevista feita por Christopher Gérard para a revista “Antaios”, em 2001.

domingo, 13 de novembro de 2016

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 87


O último número de «La Nouvelle Revue d'Histoire», revista de referência que habitualmente recomendo e se vende nos quiosques portugueses, tem como tema central a "indomável Hungria" e num óptimo dossier podemos ler artigos sobre a História húngara, das origens aos nossos dias, passando pela revolução de 1848 e a revolta de 1956 contra o comunismo, bem como as entrevistas com o historiador Geza Palffy, sobre a Santa Coroa da Hungria, ou com o historiador Pal Fodor, sobre a Hungria face aos turcos. Nota especial para o artigo de Jean-François Gautier, "A música é a alma de um povo" e um destaque natural para a entrevista sobre o Outubro de 1956 com o anterior director da revista, Dominique Venner, publicada originalmente em 2010 na revista húngara "Magyar Jelen", e a entrevista com o actual primeiro-ministro, Viktor Orbán. No editorial sobre o espírito de resistência e resiliência húngaro, Philippe Conrad conclui que "o segredo desta resistência reside talvez simplesmente no facto de os húngaros serem os herdeiros de uma longa e rica História da qual conservaram a memória, fonte indispensável para a manutenção da sua identidade, a melhor das defesas contra o niveamente mortífero engendrado pelo mundanismo liberal".

Para além do dossier, destaque para a entrevista com Jean-François Gautier, que faz o "diagnóstico para uma Europa em crise", o artigo sobre a depuração na Haute-Vienne no Verão de 1944, de Xavier Laroudie, e o retrato de Sulla feito por Emma Demester, ao qual se segue um questionário para testarmos os nossos conhecimentos, bem como as secções habituais.

domingo, 2 de outubro de 2016

O optimismo de Dominique Venner


“O meu ‘optimismo’ não é beato. Não pertenço a uma paróquia onde se acredita que tudo acaba por se arranjar. Vejo perfeitamente tudo o que é negro na nossa época. Pressinto, no entanto, que os poderes que pesam negativamente sobre a sorte dos europeus serão minados pelos choques da História que hão-de vir. Para chegar a um autêntico despertar é ainda necessário que os europeus possam reconquistar a sua consciência indígena e a longa memória das quais foram desapossados. As adversidades que aí vêm ajudar-nos-ão libertando-nos do que nos tem poluído em profundidade. Foi a tarefa temerária a que me dediquei. Tem poucos precedentes e em nada é política. Para além da minha pessoa mortal, tenho a certeza que os archotes acesos não se apagarão. É o que me transmitem os nossos poemas fundadores. Eles são o depósito de todos os nossos valores. Mas constituem um pensamento em parte perdido. Temos assim que reinventá-lo e projectá-lo no futuro como um mito criador.”

Dominique Venner

in La Nouvelle Revue d’Histoire n.° 58 (Jan.-Fev. 2012).

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Identidade e democracia na Suíça


O mais recente número de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, revista francesa de referência na divulgação histórica que se vende no nosso país, tem como tema central a Suíça e apresenta uma reformulação gráfica.


“Identidade e democracia” é o título do excelente ‘dossier’ que, em ano de várias comemorações para os helvéticos, traça a História da Suíça de Guilherme Tell a Oskar Freysinger, um dos responsáveis da UDC (União Democrática do Centro), um dos principais partidos suíços, que pretende preservar a identidade e soberania do país, através da expressão da vontade popular em referendo, nomeadamente contra os minaretes nas mesquitas e, mais recentemente, contra a imigração maciça.

Também há a destacar neste número a entrevista com o jornalista Éric Zemmour, que recentemente gerou um intenso debate em França, depois de o seu livro “O suicídio francês – os 40 anos que desfizeram a França” ter sido um sucesso de vendas.

De referir, ainda, os artigos sobre a Guerra das Rosas na Inglaterra da Idade Média, sobre a Batalha de Waterloo e a importância das tropas alemãs, sobre o genocídio arménio e a Alemanha, e a interessante “descoberta” de quando a República francesa tinha um discurso que hoje seria considerado racista.
Para além de outros artigos, podemos ainda encontrar a crónica de Péroncel-Hugoz e as habituais secções de actualidade e crítica a livros.

Fundada há 13 anos por Dominique Venner e hoje dirigida por Philippe Conrad, esta é uma revista que continua a ser obrigatória.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A afirmação pela beleza


Nestes tempos conturbados, assistimos à destruição de importantes obras de arte pelos fundamentalistas islâmicos, por um lado, e à imposição de uma dita “arte contemporânea”, subvencionada, que se pretende única, com os seus padrões incompreensíveis. É o ataque do vazio e do feio.

Ora, como escreveu o filósofo britânico Roger Scruton, “a beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair, inspirar ou arrepiar. Pode afectar-nos de inúmeras maneira. Todavia, nunca a olhamos com indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos directamente, qual voz de um amigo íntimo. Se há pessoas indiferentes à beleza é porque são, certamente, incapazes de percebê-la”.

Tive a honra de representar o nosso país no passado dia 25 de Abril, no colóquio consagrado ao “Universo Estético dos Europeus”, organizado pelo Institut Iliade, que juntou mais de 800 pessoas em Paris e contou com a presença de oradores de vários países europeus. Reflecti sobre o simbolismo da Torre de Belém e de como este navio de pedra ancorado no Extremo-Ocidente da Europa representa, entre outros, a afirmação do poder pela beleza e um instrumento de mobilização colectiva.

Um exemplo de que não é só pela política ou pela ideologia que afirmamos o que é mais importante defender – a nossa identidade.

A beleza é assim um horizonte que deve guiar-nos na nossa afirmação perante os que querem destruir uma cultura, uma civilização e, consequentemente, um povo.

Tenhamos, hoje mais do que nunca, presentes as máximas de Dominique Venner: “a Natureza como base, a excelência como fim, a beleza como horizonte”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O universo estético dos europeus


Como recorda o islamólogo René Marchand, “as grandes civilizações não são regiões num planeta, mas planetas diferentes”. Porque, para Dominique Venner, “são feitas de valores espirituais que estruturam os comportamentos e alimentam as representações” (entrevista com Laure d’Estrée, 01/09/2011).

Ao consagrar o seu segundo colóquio (e o primeiro com este nome) ao “universo estético dos europeus”, o Institut Iliade pretende afirmar a singularidade e a riqueza do nosso património comum. Para aí desenhar a fonte e os recursos de uma afirmação serena, mas determinada, da nossa identidade europeia, hoje ameaçada por outras civilizações.

Com as intervenções de Alain de Benoist (“A arte europeia, uma arte da representação”), Slobodan Despot (“A arte europeia e o sentimento da Natureza”), Christopher M. Gérard ( “A beleza e o sagrado”), Jean-François Gautier (“A polifonia do mundo”), Javier Ruiz Portella (“A dissidência pela beleza”) e as apresentações de altos lugares europeus (Duarte Branquinho, Adriano Scianca, Philip Stein, Marie Monvoisin).

Sábado, 25 de Abril, a partir das 14 horas, na Maison de la Chimie (28 Rue Saint Dominique, 75007 Paris).

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A nossa casa

Um português que veja uma casa projectada por Raul Lino reconhece-a automaticamente como uma casa portuguesa. É a constatação de que o arquitecto encontrou a essência de um povo na forma do seu lar.

Mais do que a Casa Portuguesa, que teorizou e concretizou, devemos falar de casas portuguesas, que respeitavam cada região captando as suas especificidades.

A atenção ao pormenor, aliás, é uma das características de Raul Lino, um artista total, capaz de projectar uma casa desde a sua implantação harmoniosa no espaço até ao desenho de um puxador de portas, ou das loiças a utilizar pela família que ali vivesse.

Harmonia é a melhor palavra para definir a sua obra. A música feita pedra, para acolher os homens. O encontro perfeito entre o Homem e a Natureza, que tanto respeitava. Mas mais: entre um Povo e a sua Terra, numa ligação imemorial, que se sobrepõe à velocidade e à insensibilidade dos tempos modernos.

Há quem lhe chame conservador, mas Raul Lino é mais um conservador revolucionário, no seu reencontro com a Tradição. Não é um “passadista”, porque como tão bem definiu Dominique Venner, “a Tradição não é o passado, é o que não passa”. O génio de Raul Lino conseguiu atingir essa elevação na simplicidade e, por isso, também ele não passou.

Sabendo a importância do respeito pelo indivíduo na comunidade, algo muito diferente das tentações massificadoras, respeitava a casa como local sagrado de cada um. O homem que foi livre, mas enraizado, como um cipreste escreveu a esse propósito que a morada própria é “o reduto da nossa intimidade, último refúgio do indivíduo contra a investida de todas as aberrações do colectivismo”.

Houve também quem o quisesse catalogar politicamente na categoria dos “incómodos”, mas o seu talento ultrapassou tais reducionismos de ocasião e Portugal volta a descobri-lo.

É por isso de louvar o Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, organizado por Rodrigo Sobral Cunha, que começa no próximo dia 3 de Abril, no Palácio de Seteais, no ano em que se assinalam os 40 anos do falecimento do arquitecto e os 100 anos da inauguração da sua Casa do Cipreste.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Metafísica da memória

"Memória" é uma palavra que sofreu usos excessivos. Mas, sob o pretexto de que a palavra "amor" é usada gratuitamente, deveríamos não mais a utilizar no seu sentido pleno? O mesmo vale para a "memória". É pelo vigor da sua memória, transmitida no seio das famílias, que uma comunidade pode atravessar os tempos, apesar das ameaças que tendem a dissolvê-la. É à sua muito longa memória que os chineses, os japoneses, os judeus e tantos outros povos devem o facto de terem superado perigos e perseguições sem jamais terem desaparecido. Para sua infelicidade, por causa de uma história rompida, os europeus estão dela privados.

Pensava nesta carência da memória europeia quando alguns estudantes me convidaram para falar do futuro da Europa e do "Século de 1914". A partir do momento em que a palavra Europa é pronunciada surgem os equívocos. Alguns pensam na União Europeia para a aprovar ou criticar, lamentando, por exemplo, que ela não seja uma "potência". Para dissipar toda a confusão, gosto de precisar sempre que deixo de lado a parte política. Reportando-me ao princípio de Epicteto, "o que depende de nós e o que não depende", sei que depende de mim fundar a minha vida sobre os valores originais dos Europeus, enquanto mudar a política não depende de mim. Também sei que, sem uma ideia que a anime não há acção coerente.

Essa ideia enraíza-se na consciência de Europa-civilização que anula a oposição entre região, nação, Europa. Podemos ser ao mesmo tempo Bretão ou Provençal, Francês e Europeu, filho de uma mesma civilização que atravessou os tempos depois da primeira cristalização perfeita que foram os poemas homéricos. "Uma civilização – dizia excelentemente Fernand Braudel – é uma continuidade que, quando muda, mesmo se tão profundamente que possa implicar uma nova religião, incorpora valores ancestrais que sobrevivem através dela e permanecem a sua substância". Nesta continuidade, devemos de ser o que somos.

Na sua diversidade, os homens não existem senão pelo que os distingue: clãs, povos, nações, culturas, civilizações, e não pela sua animalidade, que é universal. A sexualidade é comum a toda a humanidade, tanto quanto a necessidade de comer. Em contrapartida, o amor, como a gastronomia, são próprios de uma civilização, isto é, de um esforço consciente sobre o longo prazo. E o amor como o concebem os europeus está já presente nos poemas homéricos pelas personagens contrastantes de Helena, Nausícaa, Heitor, Andrómaca, Ulisses ou Penélope. O que se revela através das personagens é totalmente diferente do que mostram as grandes civilizações da Ásia, cujo refinamento e beleza não estão em causa.

A ideia que fazemos do amor não é menos importante do que o sentimento trágico da história e do destino que caracteriza o espírito europeu. Define uma civilização, a sua espiritualidade imanente e o sentido da vida de cada um, como a ideia que fazemos do trabalho. Este tem por único fim "fazer dinheiro", como se pensa do outro lado do Atlântico, ou tem por fim, ainda que assegurando uma justa retribuição, a realização pessoal visando a excelência, mesmo em tarefas na aparência tão triviais como os cuidados da casa? Esta percepção conduziu os nossos antepassados a criar sempre mais beleza nas tarefas mais humildes como nas mais altas. Ter consciência disso significa dar um sentido metafísico à "memória".

Cultivar a nossa "memória", transmiti-la viva aos nossos filhos, meditar também sobre as provas que a história nos impôs, esse é o prelúdio de todo o renascimento. Face aos desafios inéditos que nos foram impostos pelas catástrofes do "século de 1914" e a sua mortal desmoralização, encontraremos na reconquista da nossa "memória" étnica respostas que eram desconhecidas daqueles que viveram num mundo estável, forte e protegido.

Dominique Venner
in «La Nouvelle Revue d’Histoire» n.° 40, Janeiro-Fevereiro 2009.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Habitar um mundo e enraizar-se nele


Cabendo aos homens dar um sentido àquilo que não o teria sem eles, estes não são, do mesmo modo, dotados do poder de se eximir da sua existência específica. A utopia do “sujeito” pela razão, da emancipação dos laços e das normas, produziu os resultados brilhantes que sabemos. O individualismo moderno pretendia fazer do homem um ser autónomo, auto-suficiente, livre de qualquer vínculo cósmico, étnico, e mesmo sexual, um igual entre iguais. Vimos bem! Tendo perdido a protecção asseguradora das antigas comunidades e das antigas crenças, o indivíduo rei é mais cedo ou mais tarde tomado pelo pavor do vazio e da angústia. Refugia-se então nos estupefacientes do consumismo e na hipertrofia de um “eu” escravo dos seus desejos.

A experiência conclusiva do niilismo ensina a contrario que ser homem é ser de algum lado, pertencer a uma linhagem, a uma tradição, falar e pensar numa língua anterior a toda a memória, que recebemos sem o saber e que forma a percepção de modo definitivo. Ser homem é habitar um mundo e enraizar-se nele. As nossas raízes, os nossos laços ancestrais, os da cultura e dos valores, fazem-nos homens e mulheres reais, ligados à natureza, herdeiros sem mérito, dotados de uma identidade, mesmo quando a recusamos.

Para qualquer homem não desnaturado, o centro do mundo é o seu país, ou seja um território, um povo, uma história, uma cultura e a representações incomparáveis ou irreduzíveis a quaisquer outros. Este país é o efeito de uma escolha para aquele que está dividido entre várias origens. Maurice Barrès, chantre do enraizamento, era de uma família de Auvergne, mas quis-se loreno. As migrações da nossa época multiplicaram as “mestiçagens” de maior envergadura, o que não se passou sem dramas nem desgostos. Num dos seus livros, Jean Raspail evoca assim uma ilha das Antilhas onde foram eliminados os índios caribenhos, vítimas dos micróbios europeus e das mestiçagens com os antigos escravos negros. Todavia, certos mestiços em cujas veias ainda corriam algumas gotas de sangue caribenho, reclamam-se desta herança e, pateticamente, mantêm-na no coração. Podemos objectar que não basta querer-se caribenho para sê-lo. Pelo menos é-se qualquer coisa. E mesmo quando o suporte é imaginário, ajuda a viver.
Ajuda também a responder à questão fundamental entre todas: quem somos nós? A esta questão eterna, os homens e os povos respondem com aquilo que para eles mais conta. “Eles definem-se em termos de linhagem, de religião, de língua, de história, de valores.” [1]

Não é necessário opor-se aos outros para ser consciente de si próprio, se bem que nunca nos afirmamos tanto como quando nos opomos. Sentimos igualmente melhor o calor do clã se estivermos sob a ameaça de um inimigo. Supomos que este é tão necessário ao bem-estar moral como o amigo e não apenas para favorecer a manifestação de uma identidade. Podemos confiar na fortuna para prodigar tais benefícios. Os povos raramente vivem no isolamento, verdadeira condição da paz. Desde que se ladeiam os territórios étnicos, económicos ou espirituais, o conflito surge. E aí os homens raramente são mestres. É por isso que Homero imputava aos deuses a causa da guerra.

Dominique Venner
in "Histoire et Tradition des Européens – 30 000 ans d’identité"

[1] Samuel Huntington, O Choque das Civilizações. Este ensaio chama a atenção para o novo fenómeno dos conflitos de civilizações que o passado já conheceu em contextos diferentes, helenismo contra asiatismo, Cristandade medieval contra o islão, etc. No entanto, não seguimos Huntington na sua intenção de englobar os Estados Unidos da América e a Europa no seio da mesma civilização “ocidental”, que definiria uma mesma ideia do direito, o que ainda falta demonstrar. Historicamente, os Estados Unidos constituíram-se contra a Europa e os seus valores. Representam uma utopia do desenraizamento oposta ao enraizamento e ao espírito trágico da Europa. Para além de que durante as duas grandes guerras do século XX, a participação dos Estados Unidos foi ditada pela sua necessidade de impedir a constituição de uma potência continental capaz de escapar a sua hegemonia comercial e marítima.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Grande Amigo

A distopia “1984”, publicada em 1949, onde George Orwell previa um mundo em guerra perpétua, controlado pela vigilância omnipresente de um sistema político que perseguia o pensamento independente e individual como criminoso, tornou-se uma referência durante a Guerra Fria, na qual se fizeram naturais paralelos com a realidade da União Soviética.

No entanto, a visão de Orwell apontava para mais longe. Apesar de o fim da Segunda Guerra Mundial ter trazido a esperança na paz, não assistimos ao “fim da História” e a realidade actual, sob a aparência de “mundo livre”, tem semelhanças assustadoras com a sua obra genial e premonitória.

A recente revelação de que os EUA vigiam os países “amigos e aliados” demonstrou que a nossa liberdade não corresponde à apregoada. Ao mesmo tempo, a ditadura do politicamente correcto persegue ferozmente qualquer um que se oponha à nova ordem estabelecida num mundo que – garantem-nos – está unificado pela globalização, para além de manter um verdadeiro ‘index’ de palavras e posturas proibidas.

É este o “Grande Amigo”, à semelhança do “Grande Irmão” orwelliano, que sob uma capa de protector nos oprime? Mais do que um país ou uma potência, o domínio é hoje exercício por um sistema internacional que se quer perpetuar.

Que fazer, então, perante o monstro? Dominique Venner questionava: como não ser rebelde hoje em dia? Existir, afirmava, é combater aquilo que nos nega.

Mas tais palavras, apesar de inspiradoras, podem parecer demasiado românticas. Numa época de conforto, hedonismo e resultados imediatos, qualquer corrida de longo curso – em especial uma em que o testemunho passa de geração em geração – é tida como inútil.

Pelo contrário. Como em “1984”, os membros da Fraternidade que se opunha ao regime sabiam que era improvável virem a ocorrer mudanças perceptíveis durante a sua vida. Por isso, eram os “mortos”, porque a sua única vida autêntica estava no futuro.

A mudança começa em nós e projecta-se nos nossos descendentes.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A História continua

Depois do suicídio de Dominique Venner em frente ao altar da Catedral de Notre-Dame, em Paris, no passado dia 21 de Maio, os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, publicação de referência na divulgação histórica por ele fundada e dirigida, questionaram-se sobre a sua continuidade. Como se previa, o seu sucessor foi o historiador Philippe Conrad.


Dominique Venner
“La Nouvelle Revue d’Histoire” foi fundada em Julho de 2002 por Dominique Venner e um grupo de historiadores franceses com o objectivo de ir além das interpretações parciais da História, contrariando a tendência de analisar o nosso passado numa perspectiva maniqueísta de “bons” e maus”. Sucessora de “Enquête sur l'Histoire”, também dirigida por Venner e que foi publicada de 1991 a 1999, a revista cedo se tornou uma referência no seio das publicações periódicas sobre História em França, mas também no estrangeiro. Em Portugal é possível adquiri-la em vários locais pelo preço de 7,90 euros.
Philippe Conrad
No último número dirigido por Dominique Venner, o 66, surgiu a resposta indirecta a uma questão que os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire” devem ter feito: a da continuação da revista. No ‘post scriptum’ do seu editorial do número anterior, Venner afirmou que para aquela edição e para as seguintes ia contar ainda mais com o apoio do seu amigo e um dos fundadores da revista, o reputado historiador Philippe Conrad. Era um anúncio de quem seria o novo director. Neste momento, estão disponíveis nas bancas portuguesas duas edições da revista: um número especial, ainda sob a direcção de Venner, e o n.º 67, dirigido por Conrad.

Napoleão. O fim do império
O sexto número especial de “La Nouvelle Revue d’Histoire” tem como tema “Napoleão. Leipzig 1813”, analisando o fim do seu império europeu. No editorial, Venner afirma que o ‘dossier’ desta edição é realizado sob a direcção de Philippe Conrad e analisa com precisão o que foram para Napoleão as causas e as consequências da derrota de Leipzig. Este número está dividido em duas partes, sendo a primeira “A potência em questão” e a segunda “Leipzig 1813, a batalha das nações”. Na primeira, dedicada às guerra antes de Leipzig, podemos ler os artigos “A Inglaterra contra a França”, de Nicolas Vimar, “Tudo começou em Espanha”, de Jean-Joel Brégeon, “As consequências do desastre russo”, de Clément Mesdon, “O jogo duplo de Metternich”, de Martin Benoist, a entrevista com P. Willy Brandt sobre a entrada em cena da Prússia, entre outros. A segunda parte abre com uma cronologia de 1813 feita por Philippe Conrad, que também assina o artigo sobre o reformador prussiano Clausewitz e inclui vários artigos sobre essa batalha decisiva, bem como um sobre o despertar do romantismo alemão, de Alain de Benoist, e outra sobre 1813 na memória alemã, de Thierry Buron.

Roma, cidade eterna
O n.º 67 de “La Nouvelle Revue d’Histoire” tem Roma como tema central, com um excelente ‘dossier’ que inclui artigos desde a fundação da cidade até ao tempo de Mussolini, onde se destacam os artigos Como o Império se tornou cristão”, de Dominique Venner, “O papado romano na Idade Média”, de Bernard Fontaine, “A Roma de Mussolini”, de Michel Ostenc, e “De Roma à Cinecitta”, de Philippe d’Hugues. Sendo o primeiro número publicado depois do suicídio do seu fundador, há quatro página com homenagens a Dominique Venner de várias figuras da cultura francesa e europeia. Destaque também para a entrevista com Anne Cheng sobre a “China de hoje e de ontem”, o texto “Da esquerda ao capitalismo absoluto”, de Dominique Venner, e o artigo sobre Henri Béraud, de Francis Bergeron. Conrad revela-se, como se esperava, um excelente sucessor de Venner na direcção da revista, que mantém toda a qualidade e interesse.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

“Jurámos que nunca nos tornaríamos conformistas”


Jean Mabire não fabricou um sistema, fez viver um sonho. Abriu uma via e deixou um modelo: o de um homem que viveu sempre de acordo com as suas ideias. Os seus talentos ter-lhe-iam permitido uma grande carreira na imprensa e na edição do seu tempo desde que se negasse. Tal era para ele impensável e impraticável. Escolheu continuar fiel aos reprovados entre os quais se sentia bem. Em “Drieu parmi nous” (1963), escreveu: “Jurámos que nunca nos tornaríamos conformistas”. É o que assegurará a sua perenidade.

Dominique Venner

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Insubmisso radical

Céline (27/5/1894 - 1/7/1961)

«Considerado como o maior escritor francês do século XX, renovador da língua e do estilo, habitado por uma espécie de delírio profético, Louis-Ferdinand Destouches, Céline na literatura, constitui outro exemplo de insubmissão radical.»

Dominique Venner
in "Un samouraï d’Occident. Le Bréviaire des insoumis".

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Breviário dos insubmissos


«Temos o conforto, o saber, a opulência. Mas as nossas cidades não são mais cidades e as nossas antigas pátrias já não são o que eram. A excitação dos caprichos mais loucos fazem implodir a nossa civilidade. O dinheiro tornou-se o padrão exclusivo de todos os valores. Sob as aparências da democracia, não somos livres.As causas remontam há muito. Mas a História nunca é imóvel. Chegou o momento para os franceses e os europeus despertarem e libertarem-se. Como? Com certeza não é refazendo o que nos conduziu até onde nos encontramos. Não tendo uma religião à qual nos amarrar, temos desde Homero uma rica memória oculta, depósito de todos os valores sobre os quais refundar o nosso futuro renascimento. Diante do vazio sob os nossos pés, a voracidade demente do sistema financeiro, as ameaças de um conflito de civilização no nosso solo, este 'Breviário' propõe despertar a nossa memória e dar pistas novas para pensar, viver e agir de forma diferente, permitir a cada um reconstruir-se na fidelidade a modelos superiores.»

Dominique Venner
in "Un samouraï d’Occident. Le Bréviaire des insoumis".

quinta-feira, 13 de junho de 2013

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Uma edição marcante

Publicação de referência, “La Nouvelle Revue d’Histoire” pode estar em risco após o suicídio do seu director, Dominique Venner, na Catedral de Notre-Dame, em Paris, num acto simbólico para, segundo as últimas palavras do próprio, “despertar consciências adormecidas” perante a catástrofe que se abate sobre a Europa.


No editorial intitulado “A revolta das mães”, Dominique Venner reflecte sobre a aprovação do casamento homossexual em França e a sua contestação, afirmando que “o projecto do casamento ‘gay’ foi sentido como um atentado insuportável a um dos últimos fundamentos da nossa civilização”. Para ele, a indignação que se gerou é um sinal de que se transgrediu “uma parte sagrada do que constitui uma nação”, concluindo que “é perigoso provocar a revolta das mães!”

Em mais um excelente número, o tema central são as “Derrotas Gloriosas”, que vão do sacrifício dos espartanos a Dien Bien Phu, passando por Waterloo ou pelo Alamo. De referir as entrevistas “De Bonaparte a Napoleão” com Thierry Lentz, director da Fundação Napoleão, e com Aurnaud Leclercq, sobre a geopolítica da Rússia. Destaque ainda para os artigos “Arqueologia das crenças guerreiras”, de Bernard Fontaine, “O sueco Sven Hedin, um maldito no Tibete”, de Jean Mabire, e “Que língua para a Europa?”, de Javier Portella.

Por fim, uma questão que todos os leitores de “La Nouvelle Revue d’Histoire” devem ter feito: será que a sua publicação vai continuar? Esperemos que sim. No ‘post scriptum’ do seu editorial do número anterior, Dominique Venner afirmou que para aquela edição e para as seguintes ia contar ainda mais com o apoio do seu amigo e um dos fundadores da revista, o reputado historiador Philippe Conrad. Será seguramente um óptimo sucessor na direcção. Aguardemos.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um samurai do Ocidente


Este foi o título que Dominique Venner deu ao seu editorial do primeiro número deste ano de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, revista que fundou e dirigiu. Agora, depois do seu suicídio em frente ao altar da Catedral de Notre-Dame, em Paris, encontramos nessas linhas uma reflexão que nos leva a compreender e respeitar o seu acto trágico de sacrifício. Aí expressou um paradoxo premonitório: “Morrer é por vezes uma outra maneira de existir. Existir face ao destino”.

Desde que descobri a sua obra que este historiador e pensador me marcou e influenciou profundamente. A sua partida abalou-me, mas compreendi que não foi uma desistência. Foi o culminar de um percurso completo, de uma vida plena dedicada ao que acreditava e sentia  a de um combatente que lutou até ao fim e morreu de pé. Lembrei-me automaticamente de Yukio Mishima e de Drieu La Rochelle, entre outros.
Recordou nesse texto que “a morte tanto pode constituir o mais forte dos protestos contra uma indignidade como uma provocação à esperança”. Que melhor motivo para a sua última decisão?

“Rebelde por fidelidade”, como se definiu no autobiográfico “Le Coeur Rebelle”, esteve sempre ligado ao seu povo e às suas raízes ancestrais, considerando que “as formas antigas não voltarão, mas o que é de sempre ressurgirá” e acrescentando: “A tradição é uma escolha, um murmúrio dos tempos antigos e do futuro. Ela diz-me quem eu sou.”

A sua morte não foi apenas mais uma onda no oceano. Foi antes um farol que nos avisa da perigosa proximidade da catástrofe. Um alerta para uma civilização multimilenar ameaçada que partilha as mesmas origens, os mesmos valores e o mesmo espírito. Dominique Venner morreu como viveu  como um homem livre.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 28 de maio de 2013

A França resistente


A França está dividida devido à aprovação do casamento homossexual. No passado domingo, Paris foi inundada por um mar de gente em mais uma impressionante manifestação, que mobilizou um milhão de pessoas. A manchete do jornal «Le Parisien», que a considerou um sucesso, era exactamente "A França cortada em dois".

No entanto, para entender este fenómeno, é necessário sair do reducionismo que o limita à contestação à lei do casamento homossexual. Aqui vemos uma França resistente àquela que quer destruir a nossa sociedade como a conhecemos e concebemos. Como escreveu Gabriele Adinolfi, "depois de décadas de ataques à língua, à cultura, à demografia, meia França insurgiu-se contra o casamento gay porque sente que está ameaçado o último quadrado da sociedade, a família". De seguida, responde a possíveis críticos: "Era melhor reagir antes? Era melhor reagir noutras questões? São perguntas retóricas. São os fortes impulsos psicológicos, súbitos e mobilizadores, que determinam com força irracional e profunda as mudanças históricas."

No último editorial de «La Nouvelle Revue d'Histoire», Dominique Venner explicou esta mobilização: "As pessoas que nos governam trataram novamente com desprezo esta indignação popular, que não haviam previsto e não podem compreender. Cometeram aqui um erro crasso. Quando tal indignação mobiliza tamanhas massas, de jovens mães e dos seus filhos, é o sinal de que foi transgredida para além suportável uma parte sagrada do que constitui uma nação. É perigoso provocar revolta das mães!"

Para saudar Dominique Venner

Dominique Venner (1935 - 2013)

A grandeza tem um nome. Chama-se Dominique Venner.

Pela sua vida e pela sua morte, este homem excepcional deixa-nos uma mensagem que soa nas nossas almas como uma sirene. Chama-nos a permanecermos de pé, aconteça o que acontecer. A olhar o destino de frente, como os heróis homéricos que eram para ele uma fonte de inspiração permanente.

Homem de grande pudor, como o são as almas fortes, estava imbuído de um ideal potente que era preciso decifrar nos seus textos inspirados, as suas palavras eram sempre medidas com precisão, tal como os seus silêncios. Mas o fino sorriso que por vezes iluminava a sua expressão era, para os iniciados, o sinal de um júbilo intenso.

O caminho sem ele, pode parecer bem baço porque ele era portador de uma chama que irradiava. Mas a melhor maneira de lhe ser fiel é continuar o caminho que ele, incansavelmente, traçou, ele que fez da sua fidelidade a regra da sua vida. Tentemos ser dignos dele.

Pierre Vial
Presidente da Terre et Peuple