Na altura em que se assinalam os 150 anos da morte de D. Pedro V, a Texto Editores decidiu publicar o clássico de Ruben Andresen Leitão sobre este monarca que teve um reinado curto mas marcante. Um excelente retrato do nosso Rei Esperançoso.
Ruben Andresen Leitão é mais conhecido como romancista e pelo pseudónimo literário Ruben A., mas este autor fascinante foi também dramaturgo e historiador. Entre 1947 e 1974 dedicou a D. Pedro V, que considerava “o primeiro homem moderno do nosso país”, dezasseis obras. “D. Pedro V – Um Homem e um Rei” (capa dura, 128 páginas, 15,90 euros), escrito em 1947, tem um duplo objectivo segundo o autor – “servir de introdução às Obras Completas de D. Pedro V” e “perpetuar a memória dos verdadeiros homens da Casa de Bragança”. A sua admiração por este Rei em nada prejudica a obra, apenas lhe faz justiça. Para Ruben Andresen Leitão, “a História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura concepção da actuação vivida”. No entanto, o escritor, em toda a sua qualidade, está aqui presente, oferecendo-nos uma belíssima prosa e uma leitura deliciosa, com um extraordinário poder de síntese.
O primeiro capítulo, intitulado acertada e singelamente “O Ambiente”, é uma reflexão sobre o conturbado período que antecedeu o reinado de D. Pedro V, fi lho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, com o qual pode fazer um impressionante paralelo com os dias de hoje. Inspiradoras e reveladoras da sua mente superior, bem como da sua profunda observação do País e do seu povo, são as citações do próprio Rei que encabeçam cada um dos capítulos. Como escreveu o jornalista e historiador Roberto de Moraes na revista “Futuro Presente”, aquando dos 150 anos da aclamação de D. Pedro V, este era “da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte” e “aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser”. Um Homem cuja morte precoce foi uma perda para Portugal, mais um daqueles azares históricos que parecem ser recorrentes na nossa História.
Até nas edições há curiosidades que saltam à vista dos mais atentos. Algo que Ruben Andresen Leitão considerava inacreditável era o facto de a data da morte de D. Pedro V estar incorrecta. Como ele escreve, “mataram o soberano em 1859, dois anos antes do seu desaparecimento!” Pois bem, na pequena nota biográfica do autor publicada, também este “morre” um ano antes... Apesar desta gralha, a editora está de parabéns. Tanto pelo sentido de ocasião, como pela edição cuidada, que felizmente não cedeu ao famigerado Acordo Ortográfico. E porque o livro enquanto objecto também é importante, há a destacar a bela e sóbria capa gravada que se esconde debaixo da esplêndida imagem impressa na sobrecapa.
Este é um livro pequeno em tamanho, mas grande em qualidade – tal como o reinado de D. Pedro V. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
domingo, 11 de dezembro de 2005
Honrosa excepção
Dizia eu aqui há dias, que os media haviam deixado passar em branco os 150 anos da aclamação de D. Pedro V, e ontem pude ler uma honrosa excepção no «Diário de Notícias». É claro que quem marcou a diferença foi o Eurico de Barros, ficando aqui a reprodução do seu “Grande Rei, reinado curto”.
«Entretidos com as angústias da crise, os estados de alma futebolísticos e o restolhar dos "famosos", os media não deram por uma das mais importantes efemérides deste ano, os 150 anos da morte de D. Pedro V, que se assinalam hoje.
O filho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, que subiu ao trono em 1855, aos 18 anos, após uma educação esmerada e um período de viagens de estudo ao estrangeiro, na companhia de seu irmão Luís, só reinou seis anos. O tifo levou-o a 11 de Novembro de 1861, dois anos depois da sua mulher, a Rainha D. Estefânia, ter sido vitimada pela difteria.
Nesse curto espaço de tempo, este jovem de uma precocidade rara, superiormente inteligente e culto, sequioso de saber, dotado em simultâneo das qualidades da acção e da reflexão, e empenhado em participar no bom governo do Reino e na sua modernização, apesar de rodeado por uma classe política medíocre e corrupta e de se confrontar com um país em aflição, deixou o seu nome ligado à construção de estradas, à expansão do caminho-de-ferro e das linhas telegráficas; ao desenvolvimento do comércio e da indústria; à fundação do Curso Superior de Letras; à criação da Direcção-Geral da Instrução no Ministério do Reino; à apresentação do projecto de Código Civil; à concessão de liberdade para todos os escravos que desembarcassem em território português, entre várias outras iniciativas e empreendimentos.
D. Pedro V conviveu com grandes nomes da cultura do seu tempo, como Herculano e Camilo, interessou-se pelos assuntos militares (raramente trajava à civil) e conquistou o seu povo logo no início do reinado, quando Lisboa foi assolada, por uma epidemia de cólera-morbo, seguida de uma de febre amarela, e o monarca recusou deixar a capital, quase deserta. Ficou, visitando os enfermos e supervisionando o combate às doenças. O mesmo povo, à sua morte, chorou-o do fundo do coração, e, como corressem rumores de que o Rei teria sido envenenado pelos políticos, houve sérios tumultos em Lisboa.
Honra seja feito à Texto, que acaba de reeditar 'D. Pedro V - Um Homem e um Rei', de Ruben Andersen Leitão. No resto, um país sem memória é um país sem futuro.»
«Entretidos com as angústias da crise, os estados de alma futebolísticos e o restolhar dos "famosos", os media não deram por uma das mais importantes efemérides deste ano, os 150 anos da morte de D. Pedro V, que se assinalam hoje. O filho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, que subiu ao trono em 1855, aos 18 anos, após uma educação esmerada e um período de viagens de estudo ao estrangeiro, na companhia de seu irmão Luís, só reinou seis anos. O tifo levou-o a 11 de Novembro de 1861, dois anos depois da sua mulher, a Rainha D. Estefânia, ter sido vitimada pela difteria.
Nesse curto espaço de tempo, este jovem de uma precocidade rara, superiormente inteligente e culto, sequioso de saber, dotado em simultâneo das qualidades da acção e da reflexão, e empenhado em participar no bom governo do Reino e na sua modernização, apesar de rodeado por uma classe política medíocre e corrupta e de se confrontar com um país em aflição, deixou o seu nome ligado à construção de estradas, à expansão do caminho-de-ferro e das linhas telegráficas; ao desenvolvimento do comércio e da indústria; à fundação do Curso Superior de Letras; à criação da Direcção-Geral da Instrução no Ministério do Reino; à apresentação do projecto de Código Civil; à concessão de liberdade para todos os escravos que desembarcassem em território português, entre várias outras iniciativas e empreendimentos.
D. Pedro V conviveu com grandes nomes da cultura do seu tempo, como Herculano e Camilo, interessou-se pelos assuntos militares (raramente trajava à civil) e conquistou o seu povo logo no início do reinado, quando Lisboa foi assolada, por uma epidemia de cólera-morbo, seguida de uma de febre amarela, e o monarca recusou deixar a capital, quase deserta. Ficou, visitando os enfermos e supervisionando o combate às doenças. O mesmo povo, à sua morte, chorou-o do fundo do coração, e, como corressem rumores de que o Rei teria sido envenenado pelos políticos, houve sérios tumultos em Lisboa.
Honra seja feito à Texto, que acaba de reeditar 'D. Pedro V - Um Homem e um Rei', de Ruben Andersen Leitão. No resto, um país sem memória é um país sem futuro.»
quarta-feira, 7 de dezembro de 2005
D. PEDRO V
"Estou plenamente convicta da imensa
superioridade de D. Pedro quando comparado
com qualquer outro jovem príncipe"
Rainha Vitória
HÁ 150 ANOS FOI A ACLAMAÇÃO DE D. PEDRO V Primeiro filho de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, um desses príncipes cultíssimos que a Alemanha então exportava para renovar a seiva de algumas casa reais bem necessitadas, D. Pedro nasceu em 1837.
Em Novembro de 1853 morria inesperadamente a Rainha, com apenas 34 anos de idade, das consequências do 11.º parto, abrindo assim um período de dois anos da regência de D. Fernando II, Rei Consorte desde o nascimento do filho, que se estenderia até este atingir a idade de 18 anos, prescrita na Lei, em 1855.
Inicia-se então um período de viagens de estudos em que visita, com seu irmão Luís (mais tarde Rei), vários países europeus.
Dos relatórios e cartas que então escreveu, encontra-se já bem patente, no âmbito de uma precocidade invulgar, a sua inteligência superior, seu espírito de rigor, sua incansável vontade de saber, de aprender, quer no domínio das ciências, quer no das letras, e também, embora em menor medida, no das artes. São já documentos de um espírito maduro e não de um rapaz no fim da adolescência.
Logo no início do seu reinado depara com a epidemia de cólera-morbo seguida, um ano depois, pela não menos mortífera febre-amarela. Ao invés de muitas famílias mais abastadas e de não poucos políticos, o Rei não abandona a capital desdobrando-se em cuidados aos doentes, que visitava com perigo da própria vida, assim como em inspecções à operacionalidade de medidas de luta que havia delineado. O povo nunca esqueceria esta sua faceta.
Da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte, D. Pedro aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser.
Idealista activo, aliás, que só se dava por satisfeito na realização - livre e dentro da Constituição, isto é, pelos seus Governos e com apoio nas Cortes - dos planos que pensava e inspirava, ou procurava inspirar, e na possível aplicação prática das ideias que servia.
Atormentavam-no as limitações, principalmente quando eram contrárias aos interesses da Pátria e filhas de movimentos e interesses escondidos, intencionalmente egoístas e destrutivos.
No que se chocava amiúde com a classe política, corrupta e incapaz, na sua grande maioria, pois não era Rei que se deixasse ficar, mas sim soberano com tendências intervencionistas, exercendo o Poder Moderador - aliás perfeitamente legal e consignado na Constituição -, que fazia com zelo, clareza de espirito, inteligência e conhecimento aprofundado das causas, o que embaraçava e irritava muitos dos seus ministros.
O seu reinado, embora muito curto (uns escassos seis anos) foi rico em empreendimentos a que esteve intimamente ligado e dos quais foi, muitas vezes, tanto o pensador como o impulsionador: inauguração e planos para a expansão rápida do caminho-de-ferro; o mesmo para o telegrafo eléctrico; concessão de liberdade a todos os escravos que desembarcassem no continente, ilhas adjacentes, Índia e Macau; início da publicação da "Portugaliae Monumenta Histórica"; exposição industrial do Porto, a primeira internacional realizada em Portugal; criação da Comissão Central de Estatística do Reino; lançamento das primeiras carreiras regulares, a vapor, da metrópole para Angola; apresentação do projecto de Código Civil; introdução do sistema métrico: criação da Direcção-Geral de Instrução no Ministério do Reino; fundação do Curso Superior de Letras (mais tarde Faculdade de Letras, projecto pessoal do Rei); melhoria do curriculum da Escola Politécnica; supressão dos morgados e capelas ainda existentes; fundação da Associação Industrial Portuguesa.
Os assuntos militares, incluindo os mais técnicos, também o interessavam profundamente, seguindo-os de muito perto. Da sua iconografia, são raros os documentos fotográficos que o representam vestido à civil, pois andava normalmente fardado, envergando o sóbrio pequeno uniforme, com seu dólman azul ferrete (escuro) sem cordões nem agulhetas e correspondente calça de mescla cinzento-azulada. Levantava-se invariavelmente às sete da manhã começando logo a trabalhar, e das três às cinco da tarde, sempre que possível, visitava, sem avisar, quartéis, hospitais, instituições públicas, incluindo assistência a aulas no Curso de Letras e na Politécnica, onde se sentava, como qualquer aluno retardatário ao fim da sala. "Isto mantém alerta os indolentes", tal como escreveu a seu tio e mentor, o Príncipe Alberto de Inglaterra, também ele um Saxe-Coburgo.
A morte inesperada em 1859, por difteria, da sua amada mulher, a Rainha D. Estefânia, alemã oriunda da casa de Hohenzollern-Sigmaringen, tornou-o ainda mais sombrio extinguindo-se ele próprio a 11 de Novembro de 1861, vitima de tifo, que também levou mais dois dos seus irmãos e incapacitou parcialmente um outro por toda a vida. Precedeu na morte, por escassas semanas seu tio Alberto, príncipe-consorte da rainha Vitória que nunca deixou de pensar que o desaparecimento do monarca português, que amava como um filho, havia precipitado também a morte do marido, escrevendo numa carta dirigida ao rei dos Belgas, seu tio Leopoldo I, também ele um Saxe-Coburgo: "A morte de Pedro é uma terrível calamidade para Portugal e uma verdadeira perda para a Europa". E sublinhou a palavra "verdadeira ".
O povo chorou-o como nunca tinha chorado um Bragança nem nunca mais choraria outro, pelo menos até hoje. Convencido de que "os políticos" tinham envenenado o Rei, às ordens de Loulé, desencadearam-se verdadeiros tumultos em Lisboa e várias casas foram saqueadas e queimadas.
Devo dizer que não se surpreendeu muito (até pelo que também aconteceu, em parte, em 2002, no primeiro centenário da morte de Mouzinho) o facto até hoje e que eu saiba, nenhum média incluindo a TV se tenha referido, ainda que fosse apenas como simples efeméride, à figura deste Rei excepcional no aniversário dos 150 anos da sua aclamação.
São os média deste país que temos, país de invejazinhas e ódios vesgos, memória curta, atolado em superficialidade, premiando a mediocridade e a falta de rigor, favorecendo a ganância pacóvia, a hipocrisia e a corrupção, boçal e incívico em extremo mas prenhe de licenciaturas ridículas e inúteis. Pequeno país virtual e em bico de pés metidos em sapatos mais ou menos engraxados, de solas furadas, escondendo peúgas por lavar há muitas décadas.
Talvez seja melhor o silêncio, sim. Não mereciam de facto, um Rei como foi D. Pedro V.
Roberto de Moraes

Esplêndida e pouco conhecida fotografia de D. Pedro V - actualmente conservada nas colecções do Palácio Nacional da Ajuda -, tirada ao tempo da sua aclamação, em 1855, por Wenceslau Cifka, um grande pioneiro da fotografia em Portugal e amigo pessoal de D. Fernando II. Foi, pelo próprio Cifka, primorosamente colorida como atesta, por exemplo, a precisa tonalidade da calça de mescla azul acinzentada -"cor de flor-de-alecrim", como ainda constava no regulamento de Dezembro de 1948 -, que foi estupidamente abolida, já bem nos nossos dias, nos anos setenta do século XX. O Rei enverga o pequeno uniforme de Marechal-General, como se vê pela bordadura da gola e dos canhões das mangas do dólman azul-ferrete, assim como pelas insígnias patentes sobre a dragona: ceptro cruzado com óculo e monograma real encimado pela coroa. Este posto, ao tempo já só apanágio exclusivo de Rei, era superior ao de Marechal do Exército e fora, no passado, atribuído também a raras personagens tais como o conde de Lippe, duque de Lafões, Wellington e, por último, em 1816, a Beresford, que já era marechal desde 1809. O posto deixou de existir em Outubro de 1910, com a queda da monarquia, pois a república não o considerou na reforma de 1911. Aqui, o soberano, de dezoito anos de idade, ainda não ostenta o bigode que mostram fotografias posteriores e leva um corte de cabelo bem similar ao de muitos jovens de hoje, incluindo os das Forças Armadas. O que talvez contribua para conferir a esta foto um estranho, insólito e quase mágico travo de intemporalidade que, não obstante a distância de 150 anos, dela se desprende, revelando bem a forte personalidade do retratado, sua clarividência penetrante e sombria, sublinhada já por um ricto de precoce amargura. R. de M.
superioridade de D. Pedro quando comparado
com qualquer outro jovem príncipe"
Rainha Vitória
HÁ 150 ANOS FOI A ACLAMAÇÃO DE D. PEDRO V Primeiro filho de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, um desses príncipes cultíssimos que a Alemanha então exportava para renovar a seiva de algumas casa reais bem necessitadas, D. Pedro nasceu em 1837.
Em Novembro de 1853 morria inesperadamente a Rainha, com apenas 34 anos de idade, das consequências do 11.º parto, abrindo assim um período de dois anos da regência de D. Fernando II, Rei Consorte desde o nascimento do filho, que se estenderia até este atingir a idade de 18 anos, prescrita na Lei, em 1855.
Inicia-se então um período de viagens de estudos em que visita, com seu irmão Luís (mais tarde Rei), vários países europeus.
Dos relatórios e cartas que então escreveu, encontra-se já bem patente, no âmbito de uma precocidade invulgar, a sua inteligência superior, seu espírito de rigor, sua incansável vontade de saber, de aprender, quer no domínio das ciências, quer no das letras, e também, embora em menor medida, no das artes. São já documentos de um espírito maduro e não de um rapaz no fim da adolescência.
Logo no início do seu reinado depara com a epidemia de cólera-morbo seguida, um ano depois, pela não menos mortífera febre-amarela. Ao invés de muitas famílias mais abastadas e de não poucos políticos, o Rei não abandona a capital desdobrando-se em cuidados aos doentes, que visitava com perigo da própria vida, assim como em inspecções à operacionalidade de medidas de luta que havia delineado. O povo nunca esqueceria esta sua faceta.
Da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte, D. Pedro aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser.
Idealista activo, aliás, que só se dava por satisfeito na realização - livre e dentro da Constituição, isto é, pelos seus Governos e com apoio nas Cortes - dos planos que pensava e inspirava, ou procurava inspirar, e na possível aplicação prática das ideias que servia.
Atormentavam-no as limitações, principalmente quando eram contrárias aos interesses da Pátria e filhas de movimentos e interesses escondidos, intencionalmente egoístas e destrutivos.
No que se chocava amiúde com a classe política, corrupta e incapaz, na sua grande maioria, pois não era Rei que se deixasse ficar, mas sim soberano com tendências intervencionistas, exercendo o Poder Moderador - aliás perfeitamente legal e consignado na Constituição -, que fazia com zelo, clareza de espirito, inteligência e conhecimento aprofundado das causas, o que embaraçava e irritava muitos dos seus ministros.
O seu reinado, embora muito curto (uns escassos seis anos) foi rico em empreendimentos a que esteve intimamente ligado e dos quais foi, muitas vezes, tanto o pensador como o impulsionador: inauguração e planos para a expansão rápida do caminho-de-ferro; o mesmo para o telegrafo eléctrico; concessão de liberdade a todos os escravos que desembarcassem no continente, ilhas adjacentes, Índia e Macau; início da publicação da "Portugaliae Monumenta Histórica"; exposição industrial do Porto, a primeira internacional realizada em Portugal; criação da Comissão Central de Estatística do Reino; lançamento das primeiras carreiras regulares, a vapor, da metrópole para Angola; apresentação do projecto de Código Civil; introdução do sistema métrico: criação da Direcção-Geral de Instrução no Ministério do Reino; fundação do Curso Superior de Letras (mais tarde Faculdade de Letras, projecto pessoal do Rei); melhoria do curriculum da Escola Politécnica; supressão dos morgados e capelas ainda existentes; fundação da Associação Industrial Portuguesa.
Os assuntos militares, incluindo os mais técnicos, também o interessavam profundamente, seguindo-os de muito perto. Da sua iconografia, são raros os documentos fotográficos que o representam vestido à civil, pois andava normalmente fardado, envergando o sóbrio pequeno uniforme, com seu dólman azul ferrete (escuro) sem cordões nem agulhetas e correspondente calça de mescla cinzento-azulada. Levantava-se invariavelmente às sete da manhã começando logo a trabalhar, e das três às cinco da tarde, sempre que possível, visitava, sem avisar, quartéis, hospitais, instituições públicas, incluindo assistência a aulas no Curso de Letras e na Politécnica, onde se sentava, como qualquer aluno retardatário ao fim da sala. "Isto mantém alerta os indolentes", tal como escreveu a seu tio e mentor, o Príncipe Alberto de Inglaterra, também ele um Saxe-Coburgo.
A morte inesperada em 1859, por difteria, da sua amada mulher, a Rainha D. Estefânia, alemã oriunda da casa de Hohenzollern-Sigmaringen, tornou-o ainda mais sombrio extinguindo-se ele próprio a 11 de Novembro de 1861, vitima de tifo, que também levou mais dois dos seus irmãos e incapacitou parcialmente um outro por toda a vida. Precedeu na morte, por escassas semanas seu tio Alberto, príncipe-consorte da rainha Vitória que nunca deixou de pensar que o desaparecimento do monarca português, que amava como um filho, havia precipitado também a morte do marido, escrevendo numa carta dirigida ao rei dos Belgas, seu tio Leopoldo I, também ele um Saxe-Coburgo: "A morte de Pedro é uma terrível calamidade para Portugal e uma verdadeira perda para a Europa". E sublinhou a palavra "verdadeira ".
O povo chorou-o como nunca tinha chorado um Bragança nem nunca mais choraria outro, pelo menos até hoje. Convencido de que "os políticos" tinham envenenado o Rei, às ordens de Loulé, desencadearam-se verdadeiros tumultos em Lisboa e várias casas foram saqueadas e queimadas.
Devo dizer que não se surpreendeu muito (até pelo que também aconteceu, em parte, em 2002, no primeiro centenário da morte de Mouzinho) o facto até hoje e que eu saiba, nenhum média incluindo a TV se tenha referido, ainda que fosse apenas como simples efeméride, à figura deste Rei excepcional no aniversário dos 150 anos da sua aclamação.
São os média deste país que temos, país de invejazinhas e ódios vesgos, memória curta, atolado em superficialidade, premiando a mediocridade e a falta de rigor, favorecendo a ganância pacóvia, a hipocrisia e a corrupção, boçal e incívico em extremo mas prenhe de licenciaturas ridículas e inúteis. Pequeno país virtual e em bico de pés metidos em sapatos mais ou menos engraxados, de solas furadas, escondendo peúgas por lavar há muitas décadas.
Talvez seja melhor o silêncio, sim. Não mereciam de facto, um Rei como foi D. Pedro V.
Roberto de Moraes

Esplêndida e pouco conhecida fotografia de D. Pedro V - actualmente conservada nas colecções do Palácio Nacional da Ajuda -, tirada ao tempo da sua aclamação, em 1855, por Wenceslau Cifka, um grande pioneiro da fotografia em Portugal e amigo pessoal de D. Fernando II. Foi, pelo próprio Cifka, primorosamente colorida como atesta, por exemplo, a precisa tonalidade da calça de mescla azul acinzentada -"cor de flor-de-alecrim", como ainda constava no regulamento de Dezembro de 1948 -, que foi estupidamente abolida, já bem nos nossos dias, nos anos setenta do século XX. O Rei enverga o pequeno uniforme de Marechal-General, como se vê pela bordadura da gola e dos canhões das mangas do dólman azul-ferrete, assim como pelas insígnias patentes sobre a dragona: ceptro cruzado com óculo e monograma real encimado pela coroa. Este posto, ao tempo já só apanágio exclusivo de Rei, era superior ao de Marechal do Exército e fora, no passado, atribuído também a raras personagens tais como o conde de Lippe, duque de Lafões, Wellington e, por último, em 1816, a Beresford, que já era marechal desde 1809. O posto deixou de existir em Outubro de 1910, com a queda da monarquia, pois a república não o considerou na reforma de 1911. Aqui, o soberano, de dezoito anos de idade, ainda não ostenta o bigode que mostram fotografias posteriores e leva um corte de cabelo bem similar ao de muitos jovens de hoje, incluindo os das Forças Armadas. O que talvez contribua para conferir a esta foto um estranho, insólito e quase mágico travo de intemporalidade que, não obstante a distância de 150 anos, dela se desprende, revelando bem a forte personalidade do retratado, sua clarividência penetrante e sombria, sublinhada já por um ricto de precoce amargura. R. de M.
O Esperançoso
150 anos passaram desde a aclamação de D. Pedro V. Os media, como é hábito, votaram-se ao silêncio, entretidos como sempre com as tricas políticas diárias. Na blogosfera houve excepções, como é o caso do BOS e do FGSantos, que eu tenha lido. Este monarca, com uma inteligência notável e uma cultura e saber vastíssimos, distinguiu-se dos demais. Profundo conhecedor dos dossiers e decidido a intervir na boa governação do Reino, como era seu dever, elevou-se em relação à classe política medíocre da altura, tornando-se odiado por esta e amado pelo povo. Para lembrar nesta casa “O Esperançoso”, publicarei a seguir um artigo do meu amigo Roberto de Moraes, retirado do último número do «Lanceiro», com a sua autorização. Aqui fica a minha singela homenagem àquele que foi, sem dúvida e apesar do seu curto reinado, um dos nossos mais brilhantes reis.
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