Nem todas as opiniões sobre a guerra étnica que eclodiu em França e que mantém a chama foram de acordo com o discurso oficial desculpabilizante das eternas minorias (por quanto tempo?) supostamente oprimidas. Assim, como este post já vai com uns dias de atraso, reproduzo neste “lembrete para memória futura” algumas das posições lúcidas – em especial sobre as verdadeiras razões do conflito – que tive oportunidade de ler.
No «DN» do passado sábado, Carlos Vale Ferraz, apesar de me parecer inclinar-se para uma “solução” comunitarista, recusa as tão conhecidas como esbatidas razões de ordem social. Segundo ele, “o problema não é a falta, em França e em muitos dos mais ricos países europeus, de subsídios a empregos e a cursos de formação, não é a falta de habitações sociais, ginásios e centros culturais, não é a falta de polícias de proximidade e de animadores que procuram integrar jovens das segundas gerações de magrebinos, designados por beur, e africanos à deriva, nem se resolve, por isso, atirando-lhe dinheiro e bons conselhos. O problema é muito mais complexo e profundo que a conversão dos jovens delinquentes em respeitadores cidadãos e a sua resolução ultrapassa em muito o âmbito das operações de reposição da ordem, isto porque o problema é de identidade e de referências.” Sobre a tão apregoada integração, é categórico: “A crença de que é possível a integração, de que é possível a uma comunidade esquecer ou abdicar da sua identidade histórica, genética e cultural para assumir uma outra, surge assim como uma mentira permanente, uma grosseira hipocrisia exposta e sentida tanto pelos estrangeiros como pelos autóctones.” Pensando no futuro, conclui: “não é possível constituir novas realidades nacionais e europeias com aqueles que rejeitam as suas matrizes culturais, o seu ordenamento jurídico, os seus valores, a sua visão do mundo. Com aqueles que são estrangeiros ao processo histórico que fez da Europa aquilo que ela é. Com aqueles que procuram, mesmo inconscientemente, uma vingança histórica contra o que os europeus lhes fizeram nos últimos mil anos, das cruzadas à escravatura e ao colonialismo. Para que a convivência seja possível e pacífica devemos saber que para ter as portas abertas temos de manter levantadas as paredes que as sustentam.”
A reter, também, o artigo “A lição da França”, de José Manuel Barata-Feyo, na última edição da «Grande Reportagem», onde constata o “fracasso da integração social” e lembra o “choque dos belos princípios contra a dura realidade, nunca enunciada, das novas gerações de árabes e negros que só são franceses porque nasceram em França, mas cuja pátria (à falta de melhor escolaridade e de vontade de trabalhar) é a raça e a religião muçulmana...”, que considera “a raiz do problema”. Depois, faz a inevitável comparação com a imigração europeia para França, mas de uma forma séria, em contraste absoluto com os integracionsistas que insistem em não observar as diferenças óbvias entre estes dois fenómenos totalmente distintos. “Os factos são rebeldes. Milhões de italianos e polacos emigraram para França entre as duas guerras; milhões de espanhóis e portugueses fizeram outro tanto no pós-guerra. Os que quiseram integrar-se foram integrados. E mesmo os que optaram por regressar aos seus países de origem viveram diluídos no tecido social francês. Porque nem os franceses sentiam a necessidade de os excluir, nem eles sentiam a de se isolar. Os princípios e a teoria da integração funcionaram em relação a essas comunidades pela óbvia razão de que todas tinham um denominador comum, geográfico, histórico, religioso e cultural. Igual razão traça o destino diametralmente oposto das novas gerações de imigrantes oriundos de países árabes e da África Negra. Apesar de terem nascido em França, a verdade maior é que, à semelhança dos pais, já nasceram isolados: rejeitados pelos franceses que eles próprios rejeitam.” Concluindo, ciente da dimensão europeia do problema, não esquece o nosso país: “O exemplo dos subúrbios franceses acabará por se alastrar a todos os cantos da Europa onde jovens se sentem apátridas no seu próprio país. Como a França vai resolver o problema, creio que nem ela sabe. Mas acredito que chegou o tempo de Portugal retirar o indispensável ensinamento desta lição: onde se constituem comunidades apátridas, mesmo a pátria dos Direitos do Homem acaba por ter de mandar a tropa defender os valores da República. Nas suas próprias ruas.”
Termino com uma referência obrigatória ao já muito citado post “A espantosa complacência” de José Pacheco Pereira: “Basta haver um ar de revolta social contra o "sistema", um ar de "multiculturalismo" revolucionário dos "deserdados da terra" contra os ricos (os que têm carro, os pequenos lojistas, os stands de automóveis, os pequenos comércios), para a velha complacência face à violência vir ao de cima. Fossem neo-nazis os autores dos tumultos e a pátria e a civilização ficavam em perigo, mas como são jovens muçulmanos da banlieue, já podem partir tudo. Não são vândalos, são "jovens" reagindo à "violência policial", são "vítimas" do desemprego e do racismo dos franceses, justificados na sua "revolta", e têm que ser tratados com luvas verbais e delicadeza politicamente correcta. Os maus são as forças da ordem, os governantes, os polícias, os bombeiros e todos os que mostram uma curiosidade indevida pelos seus bairros de território libertado. No fundo, não é novidade nenhuma. Há muitos anos que é assim, que estas questões são tratadas com imensa vénia, não vão os "jovens" zangarem-se e vingarem-se. A culpa é nossa, não é?”