Mostrar mensagens com a etiqueta António Marques Bessa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Marques Bessa. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A vulgarização da sociedade

“As Cinquenta Sombras de Grey” é a história em tom ligeiro de uma relação sadomasoquista entre um milionário e uma universitária que se tornou um ‘best-seller’ mundial. A passagem do livro ao cinema impulsionou mais ainda um fenómeno que interessa analisar.

Para o crítico de cinema Eurico de Barros, os autores “conseguiram a proeza de fazer um filme tão erótico como o presidente Robert Mugabe a tomar duche, tão excitante como ver uma parede pintada de fresco a secar, tão ‘perigoso’ como um chihuahua recém-nascido e tão ‘transgressor’ como uma velhota a atravessar uma rua um centímetro ao lado da passadeira de peões”. Razões de sobra para o evitar, mas nem a má qualidade do filme parece impedir que seja um êxito semelhante aos livros.

Paralelamente ao sucesso de bilheteira, o filme motivou uma corrida às ‘sex shops’, onde cada vez mais pessoas procuram adereços sexuais “atrevidos”.

Podemos ironizar, mas o que está em causa é mais preocupante. É uma das consequências da vulgarização da sociedade, que implica uma involução.

Como escreveu António Marques Bessa, o perigo da homogeneidade “implica uma perda nas capacidades de resposta da espécie humana no seu conjunto, apresenta também fenómenos secundários de domesticação corporal, como o aumento de gordura, diminuição de combatividade, obsessões sexuais, diminuição da selectividade sexual e outros elementos negativos para a conservação da nossa espécie. A uniformização e a vulgarização são também aspectos de uma regressão civilizacional, já que o caminho ascendente se caracteriza por uma crescente diferenciação e um maior grau de organização”.

Para além de um problema civilizacional, há uma questão íntima. As relações humanas não se resumem ao aspecto físico, muito menos a práticas ditadas por uma moda. Recordo-me do que escreveu o argentino Adolfo Bioy Casares: “a intimidade não consiste unicamente em despirmo-nos e abraçarmo-nos, como pessoas ingénuas o imaginam, mas em comentar o mundo”.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O fim da nossa Idade


O "Ensaio sobre o fim da nossa Idade", publicado em 1978, foi o primeiro livro do meu caro Amigo António Marques Bessa que li, ainda na adolescência, e que muito me marcou. É por isso que me congratulo com a nova edição actualizada, agora publicada pela Causa das Regras. Um excelente livro que a todos aconselho.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O poder das elites ideológicas


«Que podem fazer então as elites ideológicas? Influenciar os modos de pensamento, como entendeu Antonio Gramsci, e preparar o caminho de uma nova ideologia ou de uma nova fórmula política triunfante, mobilizadora, capaz de derrubar a fórmula da elite dirigente. Neste sentido, funcionariam em aliança com a contra-elite. Gramsci chamou a estes intelectuais afectos ao novo príncipe (novo poder) os intelectuais orgânicos, destinados a destruir as bases e fundamentos ideológicos de elites enraizadas, como seja a religiosa, a militar e a política. A sua função crítica é deletéria e é preciso que o seja nesta conjuntura. As sociedades burguesas encontram-se defendidas no plano intelectual por diversos mecanismos de justificação e o que é preciso e urgente é desmontá-los. Entre eles está o Direito, a Religião, o conceito de Família, de Escola, o Serviço Militar e assim por diante, como nos haveria de especificar o francês Althusser. O melhor será a infiltração e o uso dos meios de comunicação de massa para alterar a cultura. Se há uma teoria de mudança social e política muito coerente vinda dos marxistas reflexivos é sem dúvida esta: as trincheiras intelectuais das sociedades capitalistas têm de ser derrubadas pelos intelectuais orgânicos situados nos mais diversos meios de influência, nomeadamente os meios de comunicação de massa, os quartéis, as universidades, as igrejas.»

António Marques Bessa
in "Elites e Movimentos Sociais"

domingo, 22 de dezembro de 2013

Lançamento de “Germania” e “Finis Mundi”

Amanhã, dia 23 de Dezembro, é a sessão de lançamento de duas obras a não perder, no Ibis Saldanha, em Lisboa, numa sessão aberta ao público, com entrada livre.


A primeira, “Germania – Geohistória da Europa Central”, da autoria de Nuno Morgado, será apresentada pelo Professor Doutor António Marques Bessa, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). A segunda marca o regresso da mais acutilante revista académica portuguesa, “Finis Mundi”, dirigida pelo Flávio Gonçalves, já no seu sétimo número e contando com a colaboração de dezenas de académicos e intelectuais nacionais e estrangeiros.


A sessão terá início “pontualmente” (aviso dos organizadores) às 18 horas e decorrerá até cerca das 21 horas numa sala do Hotel Ibis Saldanha, além das obras em lançamento estarão disponíveis para venda uma eclética selecção de discos e livros. A organização do evento está a cargo do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares (IAEGCA).

Sobre “Germania”, o autor, Nuno Morgado, afirmou que “ao ouvir falar em ‘Alemanha’, quantos não convocam imediatamente ao intelecto o Nazismo, Adolf Hitler, brutalidades e impressões afins? Um dos objectivos específicos deste livro é exactamente desvelar que existe um universo de cultura e de tradição cristã milenar no espaço da Europa Central. Assim, o livro não se debruça sobre a história da ‘nação alemã’, ou de qualquer outra nação em particular, mas depois de devidamente identificadas as raízes pagãs da Germânia, ocupa-se em analisar o percurso da Cristandade enquanto unidade política corporizada no Reich. Deste modo, aqui se apresenta um verdadeiro manual da História da Europa Central, escrito segundo o método do historiador e geopolitólogo Vicens Vives”.

Por sua vez o Professor Marques Bessa realça “que o autor fez um bom trabalho de fundo, indo às fontes e reunindo dados importantes para o conhecimento dos factos, deformados pelo repetir de mentiras históricas que acumularam poeira sobre uma autêntica saga notável que desabrocha, outra vez, nos nossos dias. O livro que agora têm na mão deve ajudar os que têm boa vontade a olhar para a árvore singular no meio da floresta nebulosa de mentiras”.

sábado, 23 de novembro de 2013

O fermento das minorias

«A desigualdade individual origina no plano social uma divisão entre fortes e fracos, já constatada por Duguit. Os fortes capturam os poderes sociais (político, ideológico, económico) e governam a maioria da população. É o fenómeno das elites dirigentes e dominantes, da hierarquia, que tão bem evidencia a análise da sociedade animal. A reflexão mais desapaixonada sobre esta matéria foi efectuada pela escola sociológica italiana, com Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e Roberto Michels. Estes autores provaram a perenidade da minoria, a minoria poderosa, que impõe a sua vontade sobre a maioria dando-lhe a impressão de ser ela a decidir e a governar.

Analisando a sociedade e o homem tal como eles são, estes autores anteciparam-se de quase meio século às realidades científicas do nosso tempo. Identificaram correctamente os detentores do poder real e formularam as leis segundo as quais decorre a disputa da força. Identificaram igualmente as justificações mais ou menos elaboradas que a minoria criou para o seu poderio e chamaram-lhe fórmula política. Dizer que o poder lhe vem de Deus, ou do Povo, ou que é do autocrata a título de conquista, são tudo razões óptimas desde que operem e cumpram a sua função justificativa. Acontece que hoje as fórmulas políticas são as ideologias e nelas não há, como se viu, o menor grão de credibilidade. Está por nascer a fórmula política do nosso tempo, que reduza democracia e socialismo, social-democracia e marxismo, a meros trastes velhos da história da pulhice do homo sapiens.

Os autores que situam correctamente estes problemas numa análise neomaquiavelista são poucos. Todos ainda preferem as visões românticas e penetradas pela ideologia, justificativas em última análise do poder da minoria actuante ou da minoria que aspira ao poder. Contudo, com o desaparecimento desses grandes vultos do pensamento político, não é menos certo que ficaram certos autores que importa conhecer e que reflectem, na Teoria Política, a revolução intelectual a que se assiste noutros campos do saber. Carl Schmitt, o velho professor alemão, James Burnham, Wright Mills e Julien Freund, chegam para assegurar um exercício impecável em matéria de realismo político e transparência de concepção.

As minorias, portanto, longe de se confundirem com a multidão, são pela sua organização e coerência o único fermento social de mudança e poder. Só caem para ceder o lugar a outras, de modo que a História não passa de um velho e enorme cemitério de oligarquias. A lei de ferro da oligarquia, formulada por Michels, apenas se faz eco desta constatação empírica, tão desagradável aos doentes do igualitarismo acéfalo, fervorosos crentes no álibi da tábua rasa.»

António Marques Bessa
in "Ensaio sobre o Fim da Nossa Idade", Edições do Templo (1978).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A crise dos homens bons


«A crise dos homens bons representa a seu asco à partidocracia dominante, a sua aversão à acção directa, mas sobretudo a compreensão, com Ernst Jünger (o notável autor de "Eumeswil"), que o tempo é de fazer um retiro da mediocridade e passar à floresta, ou, como o protagonista das "Falésias de Mármore", passar ao altiplano não contaminado. Isto significa deixar os homens à sorte que escolheram, embalados em cantigas de maldizer e uivos de lobos que disfarçaram o som em cantos de sereias. Para que são dentes tão pontiagudos e tão grandes? – perguntava a Capuchinho Vermelho. E olhos tão grandes? São para melhor te ver.»

António Marques Bessa
in «O Diabo», 29/10/2013.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Frases do dia


«Querem fazer-nos uma lavagem ao cérebro. A mim não.»

António Marques Bessa
in «O Diabo»


«Aconselho vivamente os oficiais e sargentos do quadro permanente a tornarem-se historiadores. Só aí terão futuro. Pois, a continuar a actual senda, da instituição militar portuguesa irá restar apenas uma (vaga) lembrança.»

Brandão Ferreira
in «Público»


«Quando, ao fim de anos de pesadelo, o PS ainda se mostra incapaz de chegar a uma maioria absoluta e o PCP e o Bloco não descolam dos seus nichos eleitorais, eu diria que se calhar era altura de a oposição se questionar sobre o que raio tem andado a fazer.»

João Miguel Tavares
in «Público»


«Grande parte das alienações que se vulgarizam tocam nas raízes das comunidades e, portanto, na sua identidade. Nas crises brutais por que Portugal passou nestes já longos séculos, foi a segurança da identidade da sociedade civil que permitiu reconstruir um novo futuro. Não é possível consentir que se afectem as raízes para obedecer ao credo do mercado.»

Adriano Moreira
in «Diário de Notícias»

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crise da Democracia

Cumpre distinguir entre a vontade da maioria e a vontade nacional. A vontade da maioria é consciente; a vontade nacional é inconsciente. Em determinada altura, determinada nação segue certo rumo; não o sabem os políticos, em geral, nem o sabe o povo.
Fernando Pessoa

O que se considera uma democracia? Se for uma questão de designação, podemos até incluir a Coreia do Norte. Fora de ironias, cada vez menos pessoas se identificam com o actual sistema político – que normalmente desconhecem – e desconfiam dos políticos, como classe considerada “corrupta”. Para muitos vivemos uma “partidocracia”, onde as “quadrilhas políticas”, como lhes chamou António Marques Bessa, tomam de assalto o poder. Talvez por isso não seja de estranhar o resultado do estudo revelado na semana passada, onde apenas 56% dos portugueses consideram que “a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo”. Algo de que as elevadas percentagens de abstenção eleitoral já eram um sinal.

A actual concepção de democracia assenta na existência de eleições livres e de direitos civis e políticos. Mas será que esta vai perdurar quando terminar a era do conforto económico?
O historiador francês Dominique Venner, no seu livro “O Século de 1914 – Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX”, escreveu: “A democracia liberal, que apareceu nos Estados Unidos em fins do século XVIII, na esteira das tradições britânicas, estava associada a um desenvolvimento económico contínuo, do qual procedia. Ajustava-se a uma sociedade próspera, empreendedora, preocupada com a liberdade e a igualdade. Num contexto de crise social e política, como o da Europa em 1929, um tal sistema foi necessariamente substituído por um tipo de governo autoritário mais eficaz, que utilizava entre outros o instrumento, com provas dadas, de um partido único mais ou menos disfarçado.” Perante a actual crise, será que tomaremos um rumo semelhante?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Entrevista com António Marques Bessa

A propósito da reportagem que fiz para «O Diabo» sobre o lançamento da revista «Finis Mundi», entrevistei os dois apresentadores. Aqui fica a que fiz com António Marques Bessa.


António Marques Bessa


Com a sociedade a alhear-se e a consumir, cada vez mais, informação e conteúdos imediatos, faz sentido uma revista como a “Finis Mundi”?
Hoje existe um espaço cultural para o pensamento alternativo, por oposição à globalização. Os enraizados têm o direito a pensar.

Não há o risco de ser algo demasiado intelectual, uma vez que são artigos de pensamento?
Não deve cair no intelectualismo ou academismo. Deve ser aberta, de forma a ser entendida por um número maior de leitores.

Mas nem por isso é para o povo?
O povo está estupidificado. Não se pode contar com ele. Só pode atingir intelectuais. Continuam válidos os ensinamentos de Gramsci e o que se chamou o “gramscianismo de Direita”, levado a cabo por Benoist e a Nova Direita.

Então, o movimento parte de cima?
De cima para baixo. Das elites. É sempre assim, porque o povo é bovino.
[publicado na última edição de «O Diabo»]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Livros para hoje

 

Da extensa obra dos dois oradores que estarão hoje presentes no lançamento da Finis Mundi, escolhi dois livros a (re)ler: "Nova Direita, Nova Cultura: Antologia Crítica das Ideias Contemporâneas", de Alain de Benoist, e "Ensaio sobre o fim da nossa Idade", de António Marques Bessa.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Finis Mundi: A Última Cultura


Realiza-se na próxima quinta-feira, dia 9 de Dezembro, pelas 21 horas, no Palácio da Independência em Lisboa, o lançamento de uma grande novidade editorial. Trata-se do primeiro número da revista de cultura e pensamento Finis Mundi, dirigida pelo Flávio Gonçalves e editada pela Antagonista, esta revista trimestral reúne uma série de artigos e ensaios subordinados a diversas áreas do conhecimento, nos quais se encontra um da minha autoria, procurando suscitar a atenção do leitor para a necessidade de repensar o estado da cultura portuguesa segundo uma perspectiva ou paradigma ocidental.

A sessão de apresentação contará com as comunicações de António Marques Bessa e Alain de Benoist. A entrada é livre. A não perder!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Finalmente a Plutocracia

Esta é a conclusão do excelente artigo de António Marques Bessa publicado na edição do semanário «O Diabo» de ontem. Para reflectir.

«A fórmula mais degradante da Oligarquia é a Plutocracia: o poder dos ricos. Disse Platão que depois da Democracia acontece a Plutocracia, como um flagelo para lembrar ao povo que o dinheiro tem os seus privilégios. Se todos os ricos se entenderem, terão aos seus pés os pobres patetas que pensam que mandam. Quem os subsidia? Quem lhe paga as contas? Quem lhes dá dinheiro para as eleições fatídicas? Justamente aqueles que, depois, vão exigir pagamento do dinheiro aplicado. A Plutocracia em Portugal sempre andou muito disfarçada. Lembra-se ainda a frase do sr. Boulhosa: “Em Portugal, para ser rico, o melhor é fingir de morto”. O dinheiro tem certamente que se ir buscar a quem o tem para as grandes causas, a manutenção dos Partidos. Mas os Partidos têm de compreender que ninguém dá nada a ninguém. Tudo é uma troca de favores e os políticos são reféns do dinheiro, de Mamón. Cristo tinha dito: “Ninguém pode servir a dois senhores: a Deus e ao dinheiro”. Esqueceram-se ou deitaram para trás das costas esse pequeno “diktat” do judeu acidental que se proclamou Filho de Deus. Declararam entre si que o dinheiro é que interessa e lhes interessa particularmente, sacrificando no altar verde de Mámon as suas almas conspurcadas. Que seja assim. Já que o querem. E seria muito bom perceber o que fazem os banqueiros. Creio que, neste momento, o Coelho já percebeu que manda pouco e que a Plutocracia manda muito mais. E os coelhos não são predadores dos tigres. Mas a Plutocracia, quando é que não mandou quase tudo aqui e em muitos outros sítios? Quanto mais pequeno é o sítio, mais vulnerável é.»

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A propósito de um centenário (VIII)

"Os tais pais da República, saídos das Lojas, eram tão mentirosos como os de hoje. Salienta Jorge de Abreu, em "O 5 de Outubro, A Revolução Portuguesa", que: "De todos os relatos que vieram à tona da imprensa portuguesa sobre episódios do movimento que implantou a República no nosso País, conclui-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram os pontos do governo revolucionário que se cumpriram à risca". Para lá de devorar imediatamente alguns dos seus autores, a República começou a endividar-se a ponto do termo "portugaliser" (portugalizar) se tornar comum a fim de designar uma situação extremamente deteriorada. A primeira ditadura militar de Sidónio Pais foi abafada pelo assassinato do mesmo (Sidónio Pais, Diplomata e Conspirador: 1912-17, Miguel Nunes Ramalho), erro em que nunca caiu Salazar. E a República engendrou os seus monstros, sendo ela mesmo um regime iníquo, construído na conspiração, no assassinato, no roubo violento, no terror imposto e voluntariamente posto em prática pelos seus dirigentes, cuja ética não chegaria ainda à do Cavaleiro Kadosh. Gentinha de carripana e armas na mão entrava nas casas e matava em nome da revolução. A tropa invadia os Conventos e confiscava-os para assentar quartéis. Mesmo para terem um Parlamento tiveram que roubar o Mosteiro de São Bento aos beneditinos. É justamente isto que querem comemorar, ao completarem-se 100 anos de vergonha, 300 de decadência e muitos de bancarrota reconhecida. É pena: o País fundado no sangue de gente que combateu nos quatro cantos do mundo não merecia uma tão horrível má sorte. Mas trovadores, bruxas e adivinhos, como cantava José Cid na sua célebre balada, já tinham previsto o desastre e diagnosticado, tal como o sapateiro de Trancoso, em trovas adulteradas, e o Padre António Vieira, em letras incendiárias, que a salvação havia de vir um dia, quando o País que somos batesse no fundo. E alguém havia de avistar o sonho feito realidade: ao lado do cavalo preto da fome, já cansado de cavalgar, ao lado do cavalo amarelo do segador do trigo das almas, o cavalo branco d'El-Rei Dom Sebastião a ultrapassar, por um fino fio indistinto, os seus directos rivais. Quem quer comemorar o perjúrio, a cultura de morte, o roubo, o quadrilhismo, o insondável desejo de assassinar um País nas aras de um templo obscuro – que devia ter uma a serpente Python no centro da cúpula de mármore róseo, como chegou a descrever Robert E. Howard (Conan, The Barbarian) – deveria ir viver para os Sete Infernos de Dante e chiar todos dias da sua porca vida."

António Marques Bessa
in "O Diabo", 5/10/2010.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O controlo


Continuando o raciocínio da semana passada, António Marques Bessa escreveu na edição de ontem d'«O Diabo»:

"A democracia vigiada também é o controlo do cidadão pela máquina. Logo que a classe política profissional se viu entrincheirada no poder, com a economia na mão, raciocinou bem: só nos falta controlar as massas. E as massas são as pessoas consideradas uma a uma. Tornou-se fácil, com o Estado despesista e sem limites de orçamento, começar a pentear o tecido social para encontrar inimigos e quem interessa para pagar as suas contas. Então, em vez do odioso militar e o cárcere no quartel, o cidadão passou a ter direito a uma observação constante do Ministério das Finanças, que paulatinamente constrói ficheiros e acena com anos de cadeia como se fosse um cacho de bananas. Diversos órgãos de espionagem da república como o conhecido SIS, como o conhecido SIR, como os serviços de informação especiais de cada Ministério, bem com as redes pessoais de cada "homem grande", estendem-se sobre os portugueses para apurar o que andam a fazer, especialmente os mais activos. O acesso a contas confidenciais de simples cidadão, que a eles diz respeito como rotina, é mais um aspecto da vigilância que não será para desprezar, porque a independência económica assegura a independência política. As redes asseguram outros a ficarem impunes: fazem-nos desaparecer e a massa esquece o nome e o que ele fez.
As redes internacionais de informação e controlo ajudam a que este sistema ainda funcione melhor: trocam dados, aconselham técnicas de vigilância, de gravação, mesmo os computadores pessoais podem ser penetrados e toda a informação tida por bem guardada pode ser espionada e vasculhada por um especialista contratado por uma destas redes.
"

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Do conceito de Nação

Na edição desta semana d'«O Diabo», António Marques Bessa assina um artigo muito interessante intitulado "Na verdade, o que é a Nação?", onde nos diz que "tal facto histórico-social só conheceu tardiamente a sua incorporação no mito do sistema. Compreenda-se que os Reis dispensavam as nações ou as nações estavam ao seu serviço. O problema que vai ser colocado, muito mais tarde, é numa questão atípica na história da Europa, dominada por Impérios que governavam vários povos, fazendo com que a sua convergência se acentuasse para o centro".

Concretamente sobre o conceito de nação, o catedrático do ISCSP escreve que: "Esse conceito obscuro de que Nação só depois foi teorizado pelo padre Syaes, mas principalmente por Renan, que encontrou em Malraux um homem que lhe deu um dimensão maior, é claro que sem esquecer os franceses que pensaram o problema como Maurice Barrès, o romancista do sangue e dos mortos, Maurice Bardèche, o homem que fez o processo de Nuremberga, Robert Brasillach, o grande poeta que foi fuzilado participando de certo modo no destino de Ezra Pound, o grande poeta estado-unidense, que eles mesmo encerraram numa gaiola como insano. Pound viu longe demais e escreveu poemas contra a usura. A concepção de Nação, que já tinha sido estratificada como numa comunidade de mortos, vivos e por nascer, todos ligados por um elo, à maneira da marca céltica, deveria vir a ser assumida por Salazar, como documenta o autor francês da sua biografia, Ploncard d’Assac. Todavia André Malraux, autor de La Tentation de L’Occident, ministro de De Gaulle, escreveu também a este respeito que a sua interpretação da Nação era a “comunidade de sonhos”, aquilo que se estava a fazer empenhadamente e o que se queria fazer no futuro. Apontava aqui para os vivos com herança, mas para o futuro nos sonhos sonhados por todos."

Fala depois da nossa Nação, dos que a ergueram e dos que a traíram, para concluir: "É altura de devolver a elite a umas boas aulas de poder dos grandes poderes para perceberem onde estão: na posição de criados. Dispensáveis." Para ler e reflectir.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Feira do livro

Ontem fui pela primeira vez este ano à Feira do Livro de Lisboa. Fui em família, continuando o hábito que os meus pais tão bem me transmitiram. Fui ao fim do dia e por isso não fiquei muito tempo. Notei a pouca afluência, que não sei se será devida à hora avançada ou se mantém ao longo do dia. Seja como for, ainda comprei algumas pechinchas e tive a felicidade de encontrar no stand da Prefácio o recém-editado "Geopolítica: Teorização Clássica e Ensinamentos", de Carlos Manuel Mendes Dias, por quase metade do preço de venda ao público, para além de "O Salto do Tigre. Geopolítica Aplicada", que o mesmo escreveu em co-autoria com António Marques Bessa.

Nesta curta passagem, o que mais gostei de ver foi uma das velhas Citroën das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, totalmente recuperada. Normalmente, quem mais se lembra delas são os que viviam fora dos centros urbanos, mas eu recordo-me perfeitamente de ver uma em plena Av. da Igreja, em frente à pastelaria Nova Lisboa, quando era miúdo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

“bum!”

A coluna “Fogo Amigo” que António Marques Bessa assina semanalmente n'«O Diabo» é realmente um estrondo. Para quem ainda não acompanha, há uma passagem do seu texto de hoje, sobre “Lei e Justiça”, que não resisto a partilhar: “Há uma coisa que eu gostaria de legalizar: armas para todos, mesmo as de calibre de guerra. Por que é isso que aí vem. E eu não quero morrer como um rato velho, numa viela, abatido por um sujeitinho armado, que é um rato muito novo, que só quer a minha carteira. Mas, efectivamente, ele deve perceber que pode ter uma surpresa. E isso é que é bom. Qualquer ministro, nestes casos, pode vir a ter uma surpresa. E isso também é melhor que andar com um colar ao pescoço a provar a sua popularidade e isso fazer bum! quando a popularidade medida estiver em baixo”.