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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O mau jornalismo habitual (XII): a Alternative für Deutschland

Alice Weidel, a líder parlamentar da AfD que é assumidamente homossexual.

Sabemos que a classificação "extrema-direita" é naturalmente discutível e amiúde utilizada pejorativamente, normalmente como "alerta para o regresso do fascismo". Mas, sem grandes dificuldades, admitamos para esta exposição a Alternative für Deutschland (AfD) nessa categoria.

Ora, se a AfD é de extrema-direita, também o era o Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei (o partido usou as duas designações consoante os Länder), que existiu entre 1946 e 1950, elegendo cinco deputados ao Bundestag, nas primeiras eleições federais pós-Segunda Guerra Mundial, em 1949.

Vem isto a propósito da "notícia", apregoada por tantos media, de que a AfD seria a primeira força de extrema-direita a entrar no Bundestag. Tomemos um exemplo paradigmático. Mafalda Anjos, a "diretora" (assim mesmo, sem o "c" de carácter que a submissão ao Acordo Ortográfico impôs) da revista "Visão", ainda por cima "em Berlim", fazia a seguinte previsão: "Extrema-direita terá assento no Parlamento alemão pela primeira vez desde 1945".

No estilo habitual destes lamentos alarmistas, Mafalda Anjos recorda que a Alemanha é um "país onde a herança de um passado nazi ainda está bem presente", mas a classificação da AfD, ao longo do artigo parece ir esmorecendo... Da "extrema-direita" do título, passamos para "direita-radical" no segundo parágrafo e, já no final, para "partido conservador anti-imigração". Provavelmente são sinónimos, já que na ampla classificação de "extrema-direita" cabe muita coisa. Cabe até Alice Weidel, uma das líderes da AfD, de quem a "diretora" da "Visão" diz que é "uma lésbica orgulhosa, casada com uma mulher do Sri-Lanka, trabalhou na Goldman Sachs e vive na Suiça".

Vamos aos factos, que falharam neste artigo, muito provavelmente por ignorância histórica e cegueira ideológica. Alice Weidel é homossexual assumida e vive com Sarah Bossard, uma cidadã suíça de origem cingalesa, com quem adoptou dois rapazes. No entanto, Weidel está longe de ser a habitual defensora dos direitos homossexuais e da teoria de género. Quando a AfD lamentou a legalização do casamento entre homossexuais na Alemanha, dizendo "adeus à família alemã", Weidel afirmou que "ser a favor da família tradicional não significa rejeitar outros estilos de vida" e referiu a sua própria eleição para a liderança do partido como prova da tolerância da AfD. Sobre o tema do casamento entre homossexuais, considerou não ser uma prioridade no debate, afirmando: "debater o casamento para todos enquanto milhões de muçulmanos imigram ilegalmente para a Alemanha é uma anedota!" Por outro lado, Weidel disse ainda não querer para as suas crianças a "idiotice de género" ou a "sexualização das aulas".

Contraditório? Talvez. A verdade é que muitos dos partidos considerados de "extrema-direita" que têm tido sucessos eleitorais apresentam várias diferenças em relação aos seus congéneres do passado. Evolução natural ou fim de uma era? Será a AfD a "nova extrema-direita", pelo menos na opinião de Riccardo Marchi que insere o partido na família "dos partidos com agenda política eurocética, anti-imigração, anti-islâmica, mas cujas raízes não afundam nos autoritarismos do período entreguerras"? Mais ainda, como afirma este historiador italiano radicado em Portugal, será a AfD "o coveiro do neonazismo"? Recusando uma classificação binária, a análise não deixa de merecer uma atenta reflexão.

Voltando ao início deste texto, como sabemos, a AfD tornou-se o terceiro partido mais representado no Bundestag, mas não foi o primeiro partido de "extrema-direita" a ter assento no parlamento alemão. Esse lugar pertence ao Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei. Aliás, o percurso dos deputados desse partido eleitos em 1949 é curioso, já que dois deles se juntaram ao Sozialistische Reichspartei Deutschlands (SRP), um partido strasseriano que foi, em 1952, o primeiro partido a ser ilegalizado pelo Tribunal Federal Constitucional. Mas essa, é outra história...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Uma potência chamada Alemanha


A revista francesa de Geopolítica “Conflits”, dirigida por Pascal Gauchon, é uma publicação de referência para quem quer compreender melhor os desafios do nosso mundo. À venda em Portugal está a edição n.º 8, referente ao primeiro trimestre deste ano, e tem como tema central a potência alemã e a dúvida se esta está a viver a sua aurora o seu crepúsculo. Um número a não perder.

O excelente ‘dossier’, que abre com um artigo de Pascal Gauchon sobre o “Império do meio”, inclui vários textos a destacar, como “O fim do povo alemão?”, onde Julien Damon analisa o impacto da imigração na Alemanha, “A reunificação mudou a Alemanha?”, de Thierry Buron, que afirma que a Alemanha de Leste ainda existe, e ainda artigos sobre a relação da Alemanha com os Estados Unidos da América, com a Rússia, as forças armadas alemãs, o papel da Alemanha na Europa, entre outros.

Nos restantes artigos, refira-se o retrato de Bashar al-Assad, de Frédéric Pichon, a análise da situação na Birmânia, que Jack Thompson considera uma “mudança na continuidade”, e a entrevista com Georges-Henri Soutou, especialista nas relações franco-alemãs.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Lançamento de “Germania” e “Finis Mundi”

Amanhã, dia 23 de Dezembro, é a sessão de lançamento de duas obras a não perder, no Ibis Saldanha, em Lisboa, numa sessão aberta ao público, com entrada livre.


A primeira, “Germania – Geohistória da Europa Central”, da autoria de Nuno Morgado, será apresentada pelo Professor Doutor António Marques Bessa, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). A segunda marca o regresso da mais acutilante revista académica portuguesa, “Finis Mundi”, dirigida pelo Flávio Gonçalves, já no seu sétimo número e contando com a colaboração de dezenas de académicos e intelectuais nacionais e estrangeiros.


A sessão terá início “pontualmente” (aviso dos organizadores) às 18 horas e decorrerá até cerca das 21 horas numa sala do Hotel Ibis Saldanha, além das obras em lançamento estarão disponíveis para venda uma eclética selecção de discos e livros. A organização do evento está a cargo do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares (IAEGCA).

Sobre “Germania”, o autor, Nuno Morgado, afirmou que “ao ouvir falar em ‘Alemanha’, quantos não convocam imediatamente ao intelecto o Nazismo, Adolf Hitler, brutalidades e impressões afins? Um dos objectivos específicos deste livro é exactamente desvelar que existe um universo de cultura e de tradição cristã milenar no espaço da Europa Central. Assim, o livro não se debruça sobre a história da ‘nação alemã’, ou de qualquer outra nação em particular, mas depois de devidamente identificadas as raízes pagãs da Germânia, ocupa-se em analisar o percurso da Cristandade enquanto unidade política corporizada no Reich. Deste modo, aqui se apresenta um verdadeiro manual da História da Europa Central, escrito segundo o método do historiador e geopolitólogo Vicens Vives”.

Por sua vez o Professor Marques Bessa realça “que o autor fez um bom trabalho de fundo, indo às fontes e reunindo dados importantes para o conhecimento dos factos, deformados pelo repetir de mentiras históricas que acumularam poeira sobre uma autêntica saga notável que desabrocha, outra vez, nos nossos dias. O livro que agora têm na mão deve ajudar os que têm boa vontade a olhar para a árvore singular no meio da floresta nebulosa de mentiras”.

sábado, 1 de junho de 2013

Vale do Reno


Ternamente, como outrora, sinto o sopro das brisas da juventude;
As árvores abertas amigas que outrora me embalaram nos seus braços
Sossegam o coração desassossegado,
E o sagrado verde, sinal da ditosa, profunda
Vida do mundo, refresca, devolve-me a juventude.
Entretanto envelheci, o gélido pólo empalideceu-me,
E no fogo do Sul perdi os anéis do meu cabelo.
Mas ainda que chegado ao seu último dia de vida mortal,
Alguém vindo de longe e exausto até ao fundo da alma tornasse
A ver a terra, as cores voltar-lhe-iam à
Face e o seu olhar quase extinto voltaria a brilhar.
Ditoso vale do Reno! Não há colina sem vinhedos,
E muros e jardins coroam-se de parras,
E os barcos que navegam vão carregados da bebida sagrada,
Cidades e ilhas estão ébrias de vinhos e de frutas.
Mas sorridente e sério repousa em cima do velho Taunus,
Que, livre, inclina a sua fronte coroada de carvalhos.

Friedrich Hölderlin

domingo, 26 de setembro de 2010

Thilo Sarrazin e o "mas"...

Desta vez não foi um "nazi", ou um skinhead ou uma daquelas figuras cómodas - idiotas úteis - que os media utilizam recorrentemente para descredibilizar os sucessivos alertas para a catástrofe em que se tornou a imigração maciça para a Europa. Foi Thilo Sarrazin, economista, membro do do Partido Social-Democrata e do conselho de administração do Banco Central alemão, o responsável por declarações polémicas como "os imigrantes trouxeram mais prejuízos do que benefícios à Alemanha", ou "o quociente de inteligência do país diminuiu por causa destes imigrantes".

E a opinião popular? Para saber o que pensam os alemães, é de ler a interessante reportagem do "Público", publicada na passada sexta-feira, que refere que "segundo uma sondagem, um em cada cinco alemães concordam com as ideias de Sarrazin" e onde a maior parte deles afirma: "Não concordo com Sarrazin, mas..."

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 45

O número 45 de «La Nouvelle Revue d'Histoire» está já disponível nas bancas do nosso país. O tema central é “A Alemanha. Mil anos de História”, com um dossier onde podemos encontrar artigos de Éric Mousson-Lestang, Philippe Conrad, François-Georges Dreyfus, Philippe Masson, Thierry Buron e a entrevista com Stéphane Courtois. Destaque ainda para grande entrevista com o historiador Max Gallo, e os artigos “A Finlândia. História heróica de uma pequena nação”, de Éric Mousson-Lestang, “A Normandia, o preço do Dia D”, de Jean-Paul Török, entre outros, para além das entrevistas com Maurice Carrez sobre o Marechal Mannerheim, com Philippe d'Hugues sobre a sua agenda do cinema francês, e com Paul Yonnet sobre o eterno mistério de Céline. Como sempre, temos a crónica de Péroncel-Hugoz, desta vez sobre a Granada dos emires, e as secções habituais, com destaque para a dos livros publicados, na qual é de referir a crítica de Anne Bernet ao segundo volume da banda desenhada “Sept Cavaliers”, adaptação de um romance de Jean Raspail.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Na dúvida, é “nazi”...

Segundo noticia hoje o jornal «Público», Eva Herman, descrita como “uma das personalidades mais importantes da televisão alemã”, foi despedida a estação onde trabalhava por dizer que “valores como a família, a infância e a maternidade, que também foram promovidos durante o III Reich, foram destruídos pela geração de 1968”, durante a apresentação do seu último livro, cujo tema é exactamente “salvar a família”.

Com todas as falhas e faltas que possa ter esta notícia, é suficiente para chegarmos à conclusão que uma afirmação deste género, apesar de não ser necessariamente ideológica, choca na actual Alemanha dos tabus. Arrisco-me a sugerir que esta autora sabia bem o que se seguiria às suas palavras, que chegaram até Portugal, ou não fosse este um dos temas mais vendáveis hoje em dia. O seu objectivo era apenas publicidade e obteve-a.

Podemos especular sobre as posições polémicas de Eva Herman. Podemos até ironizar que o seu nome “Eva”, como a sua homónima de apelido Braun (ou Hitler, perdoem-me os preciosistas), “Herman”, como Herminius, esse verdadeiro “Viriato germânico”, é uma composição do mais nazi que há. Mas a verdade é que a dita senhora, para felicidade da politicamente correcta Alemanha, apoia iniciativas como a “Laut gegen Nazis”, para que não restem dúvidas.

Desta manobra publicitária há uma lição a reter: muito cuidado da próxima vez que louvarem, por exemplo, a Autobahn.

O lado negro da história é que se esquece rapidamente o gravíssimo problema da família e da natalidade na Europa, em favor do recorrente, mas bastante gasto, apedrejamento de fantasmas nazis.

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Der Untergang

Vi recentemente, num cinema apinhado, “A Queda – Hitler e o fim do III Reich”, realizado por Oliver Hirschbiegel e baseado nas memórias de Traudl Junge, secretária do Führer e num livro de Joachim Fest.

Apesar de não apresentar grande novidade o filme é uma grande produção, com excelentes cenários e guarda-roupa, bem realizado, seja nas difíceis cenas de combate urbano, seja na acção dentro do Bunker, na qual por vezes parecemos participar, e uma boa banda sonora. As explosões dos bombardeamentos em Berlim, por exemplo, estão muito bem filmadas e com óptimo som, tendo tal intensidade que dão uma sensação de realismo e proximidade fantástica.

Esta é uma tragédia onde está muito bem descrita a forma como se desagrega o III Reich e o choque entre as SS, a Wehrmacht, através dos seus Generais, e o Partido, personificado por Goebbels e as milícias do Volkssturm, perante o enfraquecimento e a morte do seu elemento aglutinador: Hitler.

A diferença fundamental neste filme é que alemães fazem de alemães, o que, só por si, torna as personagens mais verdadeiras, afastando-o das americanadas de Hollywood. Hitler é interpretado por Bruno Ganz, que compensa as diferenças fisionómicas com uma excelente representação e o diferente tom de voz com a imitação do sotaque com que o Führer falava em privado. Outra nota positiva para a actriz romena Alexandra Maria Lara, no papel de Traudl Junge. Não me vou prender aqui com algumas imprecisões históricas, destacando apenas o papel incompreensivelmente apagado de Martin Borman e a ausência de referências aos voluntários estrangeiros, que mencionarei mais à frente.

Humano, demasiado humano
Uma das críticas apontadas a “Der Untergang” era a de apresentar um Hitler “humano”. Parece-me que este foi apenas um ardil utilizado para publicitar um filme sobre uma figura histórica normalmente retratada como um “monstro”. A verdade é que, seja qual for a opinião que se tenha sobre Adolf Hitler, ninguém põe em causa que ele fosse humano e, assim, capaz não só de odiar como de amar. Ao entrar na sua esfera pessoal, este filme debruça-se sobre um lado muito desconhecido do Führer: não bebia, não fumava, era vegetariano e demonstrava grande afecto pelo seu Pastor Alemão e por muitas pessoas que dele eram próximas.
Apesar dos 60 anos que nos separam do fim da II Guerra Mundial, não é ainda possível analisar fria e objectivamente o III Reich e o impacto tremendo que este teve na História da Europa e do Mundo. Nunca a diabolização ou deificação de figuras dignificou a História. Outros acontecimentos ensinaram-nos que apenas a distância temporal atenuará a subjectividade.

Pormenor “esquecido”
Entre outros, há um pormenor, de maior importância, que parece ter sido deliberadamente “esquecido”. Refiro-me à presença de voluntários estrangeiros de várias nacionalidades que se encontravam em Berlim nos últimos dias da Guerra e que tiveram um papel activo na defesa da cidade. Sem entrar em grandes detalhes, lembro aqui o livro de Jean Mabire “Mourir à Berlin – Les Français, derniers défenseurs du Bunker d’Adolf Hitler” e um extracto do artigo de François Delatour “Le combat fou des SS Français”, (Historiama, Hors-série 40): «A 30 de Abril, Hitler suicida-se. No dia 1 de Maio, a poucas centenas de metros do Führerbunker, os condenados da França destroem o seu sexagésimo primeiro carro de combate soviético em seis dias e disparam os últimos cartuchos do III Reich.» Para além de franceses, lembro também os espanhóis e, em especial, Miguel Ezquerra Sanchez, que esteve no Bunker pouco tempo antes da morte de Hitler, tal como relata nas suas memórias, das quais publicarei um excerto no post seguinte.