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terça-feira, 5 de outubro de 2010

A propósito de um centenário (IX)

"(...) Da fugaz I República ficaram pois, quase exclusivamente, as boas intenções. A intenção de educar o povo, de proteger o povo, de contar com o povo. Mas esse mesmo povo abandonou a República no primeiro momento, talvez pensando que de boas intenções está o Inferno cheio.
Isto também explica que a República tenha durado uns escassos 16 anos, enquanto o período seguinte (1926-74, dominado por Salazar entre 1928 e 1968) durou uns longos 48 anos, ou seja, três vezes mais.
Tudo somado, pode dizer-se que a I República não deixou saudades. E se hoje se comemora com tanto fervor é mais por razões ideológicas - e porque no poder está o partido que herdou a tradição republicana, o Partido Socialista - do que pelas virtudes que mostrou."

José António Saraiva
in "Sol".

A propósito de um centenário (VIII)

"Os tais pais da República, saídos das Lojas, eram tão mentirosos como os de hoje. Salienta Jorge de Abreu, em "O 5 de Outubro, A Revolução Portuguesa", que: "De todos os relatos que vieram à tona da imprensa portuguesa sobre episódios do movimento que implantou a República no nosso País, conclui-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram os pontos do governo revolucionário que se cumpriram à risca". Para lá de devorar imediatamente alguns dos seus autores, a República começou a endividar-se a ponto do termo "portugaliser" (portugalizar) se tornar comum a fim de designar uma situação extremamente deteriorada. A primeira ditadura militar de Sidónio Pais foi abafada pelo assassinato do mesmo (Sidónio Pais, Diplomata e Conspirador: 1912-17, Miguel Nunes Ramalho), erro em que nunca caiu Salazar. E a República engendrou os seus monstros, sendo ela mesmo um regime iníquo, construído na conspiração, no assassinato, no roubo violento, no terror imposto e voluntariamente posto em prática pelos seus dirigentes, cuja ética não chegaria ainda à do Cavaleiro Kadosh. Gentinha de carripana e armas na mão entrava nas casas e matava em nome da revolução. A tropa invadia os Conventos e confiscava-os para assentar quartéis. Mesmo para terem um Parlamento tiveram que roubar o Mosteiro de São Bento aos beneditinos. É justamente isto que querem comemorar, ao completarem-se 100 anos de vergonha, 300 de decadência e muitos de bancarrota reconhecida. É pena: o País fundado no sangue de gente que combateu nos quatro cantos do mundo não merecia uma tão horrível má sorte. Mas trovadores, bruxas e adivinhos, como cantava José Cid na sua célebre balada, já tinham previsto o desastre e diagnosticado, tal como o sapateiro de Trancoso, em trovas adulteradas, e o Padre António Vieira, em letras incendiárias, que a salvação havia de vir um dia, quando o País que somos batesse no fundo. E alguém havia de avistar o sonho feito realidade: ao lado do cavalo preto da fome, já cansado de cavalgar, ao lado do cavalo amarelo do segador do trigo das almas, o cavalo branco d'El-Rei Dom Sebastião a ultrapassar, por um fino fio indistinto, os seus directos rivais. Quem quer comemorar o perjúrio, a cultura de morte, o roubo, o quadrilhismo, o insondável desejo de assassinar um País nas aras de um templo obscuro – que devia ter uma a serpente Python no centro da cúpula de mármore róseo, como chegou a descrever Robert E. Howard (Conan, The Barbarian) – deveria ir viver para os Sete Infernos de Dante e chiar todos dias da sua porca vida."

António Marques Bessa
in "O Diabo", 5/10/2010.

A propósito de um centenário (VII)

"Não deixa (...) de ser estranha a forma como 100 anos depois, se está a comemorar a I República. Primeiro, porque isso está a ser feito de uma forma que reduz a realidade complexa de então a uma falsa dicotomia entre uma monarquia corrupta e uma república redentora. Depois porque, de forma chocantemente manipulatória, se pretende radicar tudo o que hoje associamos à democracia em que vivemos no espúrio regime de então. Só encontro uma explicação para isso, e não é entusiasmante: a existência de angustiantes paralelos entre o regime que saiu do 5 de Outubro e certas práticas políticas dos dias que correm."

José Manuel Fernandes
in "Público", 4/10/2010.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A propósito de um centenário (VI)


É de saudar a reedição do obrigatório "O Poder e o Povo", de Vasco Pulido Valente, pela Alêtheia, com novo prefácio do autor onde é referida a comemoração do centenário da República e onde formula questões bem incómodas para os respectivos celebrantes: «Como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista? (…) Como é possível pedir que uma cultura política assente nos “direitos do homem e do cidadão” preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos (e, às vezes, matava) uma extensa e indeterminada multidão de “suspeitos”? (…) E como é possível, no meio disto tudo, ignorar que a Monarquia, tão vilificada pelo PRP (…), tinha sido um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês que o 5 de Outubro trouxe a Portugal?»

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A propósito de um centenário (III)

"Festejar o centenário - ou qualquer número de anos - da implantação da República em Portugal tem actualmente tanta justificação como festejar a instauração do comunismo na Rússia e a formação da União Soviética."

Octávio dos Santos
in «Público», 27/9/10.

sábado, 25 de setembro de 2010

A propósito de um centenário (II)

"Os portugueses não tinham perdido com o advento de Salazar um regime aberto e plural como o que hoje temos, pois apenas tinham conhecido oligarquias dilaceradas por querelas internas."

José Manuel Fernandes
in «Público», 24/9/10.

A propósito de um centenário (I)

"O que estamos a comemorar é a visão da República que a oposição republicana e maçónica do Estado Novo tinha."

Pacheco Pereira
in «Sábado», 23/9/10.