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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Sem rumo

Polícia sul-africana tenta controlar um motim nos arredores da Cidade do Cabo.

Escrevo estas linhas no Hemisfério Sul, de onde em breve partirei de regresso a Portugal. A longa viagem fará com que chegue após o acto eleitoral, mas a minha participação pouco importa. Aliás, o voto antecipado não é possível para quem se ausente do País em férias, ainda que um jornalista esteja sempre em trabalho...

Infelizmente, não depende do novo governo a mudança necessária para Portugal. Súbditos de interesses estrangeiros, continuaremos “em gestão”, como se fossemos uma pequena empresa da ‘holding’ dos eurocratas de Bruxelas, que nos subsidiam e por nós decidem. Por quanto tempo?

Observei a situação da África do Sul e chego à conclusão que este é outro país sem rumo. Para além de observar uma terra de contrastes, onde o principal é entre um mundo desenvolvido à imagem do Ocidente e a violência e pobreza a que nos habituámos num país africano, é curioso ver como há cada vez mais pessoas que duvidam da “radiante nação arco-íris”. Não é apenas entre os brancos, sejam bóeres ou outros, e os “mulatos do Cabo”, as duas comunidades preteridas pelos novos detentores do poder, mas também entre os negros que surgem vozes críticas do actual governo.

Duas décadas depois da era do Apartheid, muitos consideram que há o sério risco de a África do Sul, minada pela corrupção e pela tensão racial, se assemelhar em breve ao vizinho Zimbabwe. O assunto não é tabu, é curioso ver como nos expositores dos títulos mais vendidos nas livrarias se encontram livros sobre o tema. Dois exemplos. Em “What's Gone Wrong? South Africa on the Brink of Failed Statehood” (“O que correu mal? A África do Sul à beira da falência do Estado”), Alex Boraine, que foi defensor de Nelson Mandela e pertenceu à Comissão de Verdade e Reconciliação, aponta o dedo ao ANC, partido cuja prioridade considera ser todos os sectores da sociedade. Em “Zuma Exposed” (“Zuma revelado”), o jornalista Adriaan Basson analisa factualmente como a preocupação do actual Presidente sul-africano é servir e proteger os seus e não os milhões que o elegeram.

Um país sem rumo é um país sem futuro.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 7 de setembro de 2014

“7 de Setembro de 1974: O último grito de portugalidade em Moçambique”

Há quarenta anos, no dia 7 de Setembro de 1974, um levantamento popular exigia que o povo moçambicano fosse ouvido em plebiscito, mas os golpistas de Abril desrespeitaram o previamente acordado e entregaram Moçambique à Frelimo. Clotilde Mesquitela (1924 – 2005) registou essa revolta no livro “7 de Setembro: Moçambique – memórias de uma revolução”, agora republicado pela Branco Editores e que foi lançado no passado dia 4 de Setembro, no Palácio da Independência, em Lisboa, apresentado por Adriano Moreira, Luís Fernandes, Eugénio Brandão e Óscar Soeiro. Aqui fica a entrevista a Pedro Mesquitela, filho da autora, que fiz para edição de «O Diabo» de 2 de Setembro de 2014.

Como devemos ver este livro?
Este livro deve ser visto como uma radiografia de um momento histórico, com evidentes componentes emocionais por parte da autora, mas sempre com uma visão de Portugalidade que é inegável, e, tanto quanto a memória lhe permitiu, um relato fiel do que realmente aconteceu em Moçambique entre 7 e 11 de Setembro de 1974.


O que levou ao levantamento popular de 7 de Setembro de 1974 em Moçambique?
Desde 1971 que se sabia que existia um movimento civil para dar uma autonomia progressiva às Províncias Ultramarinas Portuguesas, tanto na Metrópole (Ala Liberal, Sedes e parte da Igreja Católica) como nas províncias, através dos Democratas de Moçambique e de partidos locais como o FRICOMO. de Joana Simeão, e a Coremo, fundada por Uria Simango, que tinha sido Vice-Presidente da Frelimo na presidência de Eduardo Mondlane, e exilado depois do assassinato deste. Tanto a Coremo como a Fricomo defendiam eleições democráticas e multi-raciais, pelo que foram perseguidas e seus líderes mortos após o 7 de Setembro, ao serem entregues à Frelimo pelo governo da África do Sul.
Sabíamos também que existiam conversações via dirigentes de países vizinhos de Moçambique como o presidente Banda do Malawi e Kaunda da Zâmbia, envolvendo um enviado português (eng. Jorge Jardim), representantes do presidente da Tanzânia (Ex-Tanganica), Dr. Nyerere, e um assessor do Presidente Kaunda que fazia a ponte com a Frelimo (Mark Chosa).
Não vou aqui detalhar o esforço desenvolvido para se chegar a um acordo, chamado Programa de Lusaka mas vale a pena mencionar que as negociações eram do conhecimento das autoridades portuguesas, desde o tempo do Dr. Salazar, do Prof. Marcello Caetano e dos Ministros do Ultramar desde 1961 (Dr. Joaquim Silva Cunha e, depois, Baltazar Rebelo de Sousa). Sabíamos que mais cedo ou mais tarde a autonomia verdadeira e a independência chegariam. Só se devia decidir quando seria e negociar como seria o processo de passagem de bastão.

Em que consistia o Programa de Lusaka?
Este Programa de Lusaka, aceite pela Frelimo, era para ser desenvolvido em cinco anos, e, de acordo com o meu entendimento do que li em “Moçambique Terra Queimada”, de Jorge Jardim, tinha como pontos principais: Salientava as condições de harmonia racial e de justiça que proporcionariam à população de origem portuguesa ou a ela assimilável, melhoria de oportunidades para se integrar na nova nação; Reconhecia e louvava a política multirracial portuguesa; Encarava a formação de ampla “comunidade lusíada “ com a desejável participação do Brasil, na qual Portugal assumiria uma posição dominante; Conservava a língua portuguesa como “língua franca”; Assegurava a expansão da cultura portuguesa e a educação predominantemente de inspiração portuguesa; Preservava os interesses económicos e financeiros portugueses; As grandes potências não poderiam aproveitar-se do cessar da soberania portuguesa citando-se especificamente as potências comunistas; A Zâmbia, a Tanzânia e o Malawi afirmavam a sua orientação não comunista e asseguravam que nunca seriam “testas de ponte” para qualquer infiltração política do comunismo; A oportunidade para se concretizar a independência seria negociada logo que fossem acordadas as bases necessárias.
Este acordo nunca foi assinado oficialmente por Portugal, por razões que devem estar ligadas à personalidade e crenças profundas do Prof. Marcello Caetano, somadas a movimentos ligados ao grande capital português e elementos da chamada linha dura portuguesa, que se opunham à independência das Províncias Ultramarinas.
Em Novembro de 1973, após as eleições em Portugal, Baltazar Rebelo de Sousa, já Ministro do Ultramar, instruiu Jorge Jardim para “prosseguir uma política acelerada de autonomia , que aceitava , para desembocar na independência”.

Qual foi a posição de Marcello Caetano relativamente ao plano?
Nessa altura, o Prof. Marcello Caetano, não fez nenhum reparo ao plano. Menciono estes factos para explicar o clima que se vivia em Moçambique no final de 1973, pois a guerra tinha-se espalhado para o Sul do Sena, os ataques terroristas intensificam-se em Vila Pery e na Beira.
A população civil, vítima de um clima extremamente desfavorável em relação ao Ultramar que se vivia na Metrópole e da crescente campanha dos chamados Democratas de Moçambique, estava apreensiva e cada vez mais nervosa, pois sabia-se que estava em jogo o princípio da manutenção do Ultramar e se passaria para um regime de maior autonomia, que acabaria em independência. Mas acreditava-se que militarmente Moçambique não seria derrotado e que seria possível construir um futuro multi-racial em paz, com base em negociações sólidas que levassem em consideração os interesses de tantos que lá residiam e trabalhavam, alguns há mais de três gerações.

Mas aconteceu o 25 de Abril...
Sim. Inicialmente, o programa do MFA e o próprio General Spínola pareciam ter ideias parecidas àquelas do Programa de Lusaka, o que sossegou parte da população moçambicana.
Infelizmente, após a visita de Costa Gomes à Beira, em Maio de 1974, e, sobretudo, após a visita autorizada por Costa Gomes de uma delegação de “democratas” a Dar-es-Salam, em 23 de Junho, para se encontrarem com Samora Machel, ficou claro que os políticos chamados de esquerda portugueses de Moçambique presentes na reunião (José Craveirinha, Rui Nogar, Malangatana Valente, Matias M’Boa, Rogério Jauana e Jossefate Machel, irmão de Samora) não seguiriam os princípios acertados anteriormente.
Por essa altura deslocou-se a Lisboa uma delegação de políticos e representantes de partidos locais para conversar com Spínola e este sossegou-os quanto à garantia de defesa dos interesses e vidas dos moçambicanos.

Qual foi a acção da esquerda?
Em Junho acontece a primeira reunião em Lusaka com Samora Machel, onde acontece o famoso “abraço” de Mário Soares, e onde claramente Soares exclui a Coremo das negociações. Otelo Saraiva de Carvalho, que esteve presente, insta Mário Soares a ir mais além no contexto da reunião, informando que as “nossas tropas” já estão “confraternizando por toda a parte”.
Em Julho de 1974 é publicada a Lei n.º 7/74 , assinada por Melo Antunes, que contrariava frontalmente não só o Programa do MFA, que tinha força constitucional, mas sobretudo o Programa de Lusaka, que tinha como objectivo a independência a prazo e a defesa e integração num novo país dos portugueses que lá viviam.
Tudo isto era sabido e publicado nos jornais diários de Lourenço Marques e da Beira, com os jornais de Direita e de Esquerda publicando cada qual uma versão e incendiando a opinião pública.

E a assinatura do Acordo de Lusaka?
A esperança dos portugueses que viviam em Moçambique estava assim numa espécie de montanha russa, em que um dia lhes davam certezas e no outro as retiravam. Podemos imaginar o clima que se vivia em Moçambique no início de Setembro de 1974. Em 4 de Setembro, foram a Lusaka negociar com a Frelimo Melo Antunes, Mário Soares, Almeida Santos, Vítor Crespo, Antero Sobral, Nuno Lousada, Vasco Almeida e Costa, que obviamente não queriam nem respeitar o espírito do Programa de Lusaka nem o do Programa do MFA, mas sim e tão somente entregar a Província apenas à Frelimo para a completa, imediata e irrevogável independência, sem levar em conta as forças políticas locais nem os interesses ou vidas dos cidadãos portugueses.
O Acordo de Lusaka foi assinado formalmente entre o Governo português e a Frelimo em 7 de Setembro de 1974, ferindo tudo o que tinha sido dito anteriormente no Programa do MFA e pelos Generais Spínola e Costa Gomes.

O que se passou a seguir?
Após o 7 de Setembro, devo apenas mencionar que morreram nesses dias mais civis do que em todos os 10 anos de guerra anteriores. Criou-se um regime de terror, forças do nosso próprio exército (sobretudo oriundas da Metrópole) exaltaram os ânimos dos pretos contra os brancos “fascistas” e “colonialistas”. Houve uma debandada geral da população, e era a chamada lei 24/20: 24 horas para sair, carregando apenas 20 kg.
Os jornais da época estão cheios de fotografias e relatos do que foi a saída dos Portugueses. Mário Soares sugeriu até “atirar os brancos aos tubarões”!
Soldados negros de incorporação local, sobretudo das forças chamadas especiais são perseguidos e mortos tanto em Moçambique como em Angola e na Guiné. Portugal não soube proteger os Portugueses, abandonando-os à sua sorte.

Como é que o levantamento do 7 de Setembro foi visto?
Posso citar alguns exemplos do que se disse deste período, obviamente com visões diferentes.
No livro “O Fim do Império. Memória de um Soldado Português”, a propósito do 7 de Setembro e da população branca e negra que participou deste movimento, Ribeiro Cardoso usa adjectivos como, “nave de loucos”, “insanidade criminosa”, “gabarolas com microfones na mão”.
Já Henrique Terreiro Galha, em “Descolonização e independência em Moçambique”, dedica o seu livro “em Homenagem e à Memória dos homens e das mulheres e crianças que foram chacinados em Lourenço Marques em 9 e 10 de Setembro de 1974, dos milhares de vítimas torturadas e mortas nas prisões e nos ‘campos de reeducação’ de Moçambique após a assinatura do acordo de Lusaka , antes e depois da independência”.
Em entrevista à RTP, Melo Antunes, em Julho de 1999,pouco antes de morrer, afirmou: “Muitos responsáveis políticos portugueses têm dito que a descolonização foi a que era possível. Acho que não é assim. Considero que a descolonização foi uma tragédia. Foi uma tragédia a forma como a descolonização acabou por se realizar. Tal como a colonização o foi. Não assumo responsabilidade do que hoje lá se vive. Isso tem a ver com os movimentos e seus líderes. Assumo a responsabilidade das negociações para a descolonização não terem sido conduzidas de modo a evitar situações que acabaram por descambar naquilo que hoje existe nos ex-territórios portugueses africanos.”
Há também a declaração do major Manuel Monge, que foi peça importante em determinado momento no MFA: “De facto, a descolonização foi feita na defesa dos interesses políticos e estratégicos da União Soviética , de seus aliados e dos seus movimentos no terreno. Foi contra os interesses de Portugal, dos portugueses residentes nos territórios sob a nossa administração e contra os interesses das suas populações.”
O Coronel Pára-Quedista Sigfredo Costa Campos, comandante dos GEP de Moçambique, afirmou: “Prova-o a inequívoca intenção das forças internacionais no pseudo-revolucionário processo de Abril, desencadeado com o objectivo de nos impor o vergonhoso abandono dos territórios africanos, onde, além de termos causado o caos e a destruição, fomos co-responsáveis pela morte de milhares de pessoas. E ainda há quem despudoradamente afirme que a revolução de Abril foi uma revolução sem sangue.”
No discurso de posse do Governador Geral de Moçambique, em 11 de Junho de 1974, Henrique Soares de Melo afirmou: “O que hoje se entende por independência imediata seria a mais gigante negação dos ideais democráticos universalmente aceites e nos quais se inspirou o MFA.”
Por fim, no livro “País sem Rumo”, António de Spínola escreve: “A Frelimo estava consciente de que o seu poder residia essencialmente, não nas suas estruturas, mas na traição da esquerda militar portuguesa, disposta a impô-la ao povo moçambicano, proporcionando-lhe a organização político-militar que nunca conseguiria alcançar antes do 25 de Abril”.

O que foi para si o 7 de Setembro?
Como disse a minha mãe, foi o último grito de portugalidade em Moçambique.

Qual o propósito do livro?
Deixo a cada um tirar suas próprias conclusões, e espero que a leitura do livro “Moçambique 7 de Setembro” ajude, como documento biográfico, a possibilitar que um dia, com o distanciamento necessário que a História exige, se possa realmente escrever a verdade sobre o golpe do 25 de Abril e sobre a nossa descolonização.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

África brevíssima


O continente africano teve uma grande importância na História da Europa, mas as transformações que sofreu ao longo dos séculos continuam a ser desconhecidas ou menosprezadas por muitos. Gordon Kerr propôs-se fazer “Uma Breve História de África”, ultra-sintética, que pode contribuir para despertar o interesse no Continente Negro.

Na capa deste livro podemos ler a seguinte descrição: “Uma História, acessível e agradável, dos povos, ideias, instituições e acontecimentos que deram forma a África, da origem da raça humana à Primavera Árabe”. Obviamente, tendo em conta estas balizas temporais, que só por si possibilitariam um trabalho de milhares de páginas, é claro que em menos de duzentas o que vamos encontrar é um resumo brevíssimo de um tema que tem tanto para explorar.

No entanto, numa altura em que grande parte das pessoas evita os grandes volumes e os estudos pormenorizados, porque se habituou a uma literatura ligeira, pode ser que esta obra seja um ponto de partida, um despertar da curiosidade, para a História africana.

Poderíamos facilmente apontar o que falta, mas é melhor reconhecer que aqui está o básico da História de África, como se de uma entrada alargada de enciclopédia se tratasse. Aliás, um tom enciclopédico é o que caracteriza este livro, bastante dividido em capítulos bem identificados, que permitem uma consulta rápida do período que se prefira. Há pouco lugar para a interpretação e talvez seja melhor, já que com esta dimensão tal seria antes um ensaio.

Para se ter uma ideia, o capítulo “A chegada dos europeus e o início do comércio de escravos” tem como primeiro subtítulo “Os portugueses e a Costa Ocidental Africana”, algo que ocupa apenas duas páginas. Claro está que o nosso país é referido mais vezes. Ainda assim, talvez pela perspectiva anglo-saxónica que caracteriza a obra, Portugal é visto, aquando da chamada “Corrida a África”, formalizada na Conferência de Berlim, como “um país pobre em termos europeus” e “relativamente insignificante”, que para se impor explorou “as antigas rivalidades dos africanos”. Já no que respeita às independências africanas, nas duas páginas dedicadas à África portuguesa, é de estranhar que a única referência ao 25 de Abril seja feita no final do texto e sem atribuir ao golpe a importância que teve no desfazer do Império.

Depois da independências, Kerr reconhece que, excepto quatro países, “um país que não tivesse governo militar provavelmente havia-se tornado um estado autocrático, unipartidário”.

Por fim, o autor afirma que hoje se vive uma “nova corrida por África”. Segundo ele, “sessenta anos após o início da independência dos estados africanos, o fenómeno da colonização parece destinado a regressar, embora de uma forma mais subtil”. Esta “nova corrida”, para Kerr, tem os mesmos objectivos da corrida do século XIX, “despojar o continente dos seus ricos minarais”. Só que agora, os responsáveis são aquilo que ele considera “muitas multinacionais de grandes dimensões”.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O “perigo” às portas

A capa da edição da primeira semana de Novembro da revista marroquina “MarocHebdo” seria impossível na Europa de hoje em dia, apesar de tratar um assunto de extrema importância. Com a manchete “Perigo negro”, revela que os milhares de clandestinos subsaarianos em Marrocos vivem da mendicidade, dedicam-se ao tráfico de droga e à prostituição. Alvo do racismo e da xenofobia, são um problema humanitário e de segurança para o país. Tudo às nossas portas.


A questão das vagas de imigrantes clandestinos vindos de África não é novidade para os europeus. Mesmo com crise económico-financeira, o Velho Continente continua a ser um destino apetecível para quem vem de situações de miséria e está disposto a esforços inacreditáveis para aqui chegar.

Se por cá o debate sobre as políticas de imigração está normalmente inquinado por complexos “politicamente correctos” de eterna culpabilização, outros países vivem agora realidades semelhantes e sentem idênticas necessidades. Talvez com estes exemplos se consiga chegar a uma solução viável para este problema de fundo.

Antes de atingir a Europa, estes imigrantes detêm-se na barreira natural do Norte de África. Com as crises na Líbia e na Tunísia, o seu impacto intensificou-se em Marrocos. Esta alteração e as suas consequências sociais começam a preocupar cada vez mais os marroquinos e a gerar novos fenómenos. [Para ler na íntegra na edição desta semana de "O Diabo"]

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O fardo do Homem branco

O título do poema de Rudyard Kipling transformou-se numa expressão que normalmente se associa ao dever que os povos de origem europeia tinham de desenvolver os outros povos, considerado como uma manifestação de um racismo eurocêntrico.

Hoje o “fardo” é outro. Incrivelmente, passados tantos anos, os europeus continuam a ser repetidamente culpabilizados pelo actual estado dos países que outrora dominaram.

No seu livro “Civilização”, o historiador Niall Ferguson fala do domínio do Ocidente sobre os outros e escreve: “Nenhum autor sério poderá afirmar que o reinado da civilização ocidental foi imaculado. Contudo, há quem afirme que não teve absolutamente nada de bom. Esta posição é absurda”.

Numa das suas últimas entrevistas, o historiador Vitorino Magalhães Godinho explicou que, por não existir “a ideia de nação” em África, os novos países construíram “um passado próprio”, passando “a dizer que tudo quanto os colonizadores tinham trazido era mau, que eram todos uns criminosos, que tinham que pedir desculpa. E os europeus desataram a pedir desculpa.” Recusando tais pedidos de desculpa, afirmou: “O que é condenável é esconder o que se passou. Mas eu não tenho nada que ver com o que fizeram os homens do século XV. A culpa não se transmite de pais para filhos, não é hereditária.”

Sobre o polémico tema da escravatura, disse que esta “existia entre os povos africanos, os portugueses utilizaram as redes de escravaturas existentes. Os régulos gostavam muito de vender os seus negros como escravos. E isso permanece”. Traçou ainda a continuidade dessa postura até aos “actuais chefes políticos dos estados africanos, a cujos bolsos vão ter os subsídios atribuídos aos seus países”.

É tempo de acabar de vez com o fardo da culpabilização unívoca.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Apartheid

Hendrik Verwoerd
Os recentes confrontos brutais ocorridos na mina de Marikana, a oeste de Pretória, que terminaram com dezenas de mortos e centenas de feridos e detidos, vêm recordar ao mundo que na África do Sul se continua a viver uma situação desastrosa. Afinal, assistimos a massacres perpetrados pela polícia depois do domínio branco...

Com o fim do ‘Apartheid’, muitos se convenceram que nasceria uma “nação arco-íris” que seria a concretização da utopia da diversidade. A realidade não podia ser mais distinta. Já aquando da realização de um campeonato do mundo de futebol naquele país se havia visto como se estava longe do paraíso. Violência e pobreza extremas e o aparecimento de uma nova segregação racial estão a pô-lo a par de outros países vizinhos terceiro-mundistas. Como tem vindo a afirmar, há anos, nas suas análises, o africanista Bernard Lugan: “o milagre sul-africano não passa de uma miragem porque o fracasso do ANC é total e em todos os domínios”.

A África do Sul é um mosaico de povos e essa composição leva-nos à origem do ‘Apartheid’. Aquele que é muitas vezes considerado como o pai desse sistema de desenvolvimento separado defendia algo bastante diferente do que acabou por se concretizar. Hendrik Verwoerd, o primeiro-ministro assassinado em 1966, era partidário de um etno-diferencialismo, segundo o qual o território sul-africano seria partilhado pelos brancos e os vários povos negros e que levaria à criação de estados etnicamente homogéneos. Esta ideia opunha-se ao ‘Baaskap’, o supremacismo segregacionista conservador, para o qual os afrikaners eram um povo eleito por Deus que devia, por direito divino, dirigir e explorar os negros.

Como afirmou Pierre-Olivier Sabalot, autor de uma biografia de Verwoerd: “o desenvolvimento separado é também a valorização das identidades dos nove povos negros da África do Sul, chamados a florescer, ao seu ritmo, nos seus próprios territórios de origem, numa lógica de co-desenvolvimento político, económico e cultural, cada um no seu lugar, em ruptura com o Estado-nação artificial sul-africano, que é uma criação colonial britânica”. Uma ideia a repensar?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

La Nouvelle Revue d'Histoire Hors-Série n.º 1


Dominique Venner não deixa de nos surpreender. Nas bancas está o primeiro número especial de "La Nouvelle Revue d'Histoire" dedicado a África.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Pierre-Olivier Sabalot em entrevista

Tendo por base em dois posts desta casa, publiquei na edição desta semana do semanário «O Diabo» um artigo sobre a situação explosiva na África do Sul intitulado “O lado negro do arco-íris”. Para aprofundar esta questão, fugindo aos lugares-comuns e aos iluminados do costume, aconselho a leitura de duas entrevistas com Pierre-Olivier Sabalot. Este professor francês, que leccionou na África do Sul, é o autor da excelente obra bibliográfica “Verwoerd. Le Prophète assassiné”, publicada pelas éditions du Camas, em 2009, sobre este tão incompreendido primeiro-ministro, habitualmente chamado “pai do Apartheid”, assassinado em pleno parlamento em 1966. A primeira tem por título “A morte da sentinela”, foi feita por Christian Bouchet e está traduzida em português no No-Media.info. A segunda, “A nova África do Sul ou o fracasso da sociedade multi-racial”, em francês, é mais longa e está disponível no Altermedia.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O lado negro do arco-íris

Como disse no post anterior, a situação actual da África do Sul é desastrosa. No entanto, é sempre melhor fundamentar da melhor maneira tais afirmações, para evitar os habituais mimos (diga-se que insultos como "racista" e "fascista" não passam normalmente de fugas a debates incómodos). Assim, recorri à publicação do vídeo de uma reportagem televisiva francesa que demonstra o afirmado.

Neste trabalho isento, é de salientar a situação de miséria em que se encontram muitos brancos sul-africanos na sequência da imposição pelo governo do ANC de quotas raciais que dão preferência a negros em muitos empregos. Mas essa situação de miséria atinge também vários negros. É esclarecedor ouvir duas mulheres negras afirmarem que o governo actual só se preocupa com os ricos e mesmo que a situação que se vive hoje é pior que nos tempos do Apartheid. Também a extrema violência diária é focada nesta reportagem. Uma elevadíssima taxa de homicídios (incluindo o de um padre branco que ajudava há anos a comunidade negra mais pobre), de agressões, de violações, entre outros crimes, aliada a uma das mais altas taxas de infectados com o vírus da SIDA, são a face desta tragédia.

Neste cenário tenebroso, a segurança só é possível em verdadeiras "gaiolas douradas", como nos é mostrado pela vida de uma francesa que vive num condomínio de luxo que parece uma verdadeira prisão de alta segurança, com muros altos com arame farpado, guardas armados, cursos especializados de reacção e escolas para os filhos com localização desconhecida para evitar raptos.

Um olhar esclarecedor sobre uma terra onde a violência, as tensões raciais, o crime, a situação económica e social, pioraram de uma forma incrível. Um olhar que mostra a hipocrisia de celebrações fictícias como a da realização de um campeonato do mundo de futebol, num país que nada tem a glorificar perante a crua e dura realidade da situação presente.


O 1148.º fazendeiro

Eugène Terre'Blanche (31/1/1941 – 3/4/ 2010), líder do AWB (Movimento de Resistência Afrikaner), foi o 1148.º fazendeiro a ser assassinado na África do Sul desde a subida ao poder do ANC, em 1994. É um dado importante para perceber a realidade sul-africana de hoje. Mais importante ainda se analisarmos a comparação com dados do passado que faz o africanista Bernard Lugan no seu comunicado, onde refere também o discurso de ódio anti-branco que chega até altos responsáveis do ANC. Mas, é claro que neste inferno que se tornou a África do Sul, não são só os brancos as vítimas. Os dados impressionam e falam por si – mais de cinquenta homicídios diários! Um número superior a vários teatros de guerra contemporâneos.

Não obstante, Terre'Blanche foi a vítima perfeita para os media ocidentais, politicamente correctos. A sua postura, o seu discurso e – melhor ainda – a sua imagem (uniformes e iconografia a fazer lembrar o III Reich) foram ideais para distrair as massas da real situação de um país desastroso. Nada como o fantasma do nazi-fascismo para assegurar a eficácia do ilusionismo mediático.

Apesar destas manobras, às quais podemos juntar a hipocrisia da realização de um campeonato do mundo de futebol para celebrar o sucesso da nação "arco-íris", é cada vez mais difícil escapar à realidade e negar o descalabro vísivel de um país vítima da utopia da diversidade.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A África por quem sabe


Bernard Lugan é um africanista francês que incomoda uma certa esquerda (que normalmente demonstra uma ignorância gritante sobre o assunto) e os politicamente correctos do costume, devido ao seu profundo conhecimento da realidade do continente negro e às suas posições livres. Doutorado em História, é professor na Universidade Lyon III, conferencista noutras universidades e leccionou durante onze anos na Universidade Nacional do Ruanda. Colabora em várias revistas, nomeadamente «La Nouvelle Revue d'Histoire» – que costumo referir aqui –, na Radio Courtoisie e é autor de vários livros sobre a História africana, o Ruanda, o Egipto, Marrocos, a colonização, a Guerra dos Boers, os franceses na construção da África do Sul, a Luisiana, entre outros. Das suas obras destacam-se "Pour en finir avec la colonisation", publicado em 2006, e a monumental "Histoire de l'Afrique, des origines à nos jours", publicada no ano passado. Foi também perito no Tribunal Penal Internacional para o Ruanda e dirigiu a revista "Afrique réelle", entre 1993 e 2005, e anunciou recentemente o lançamento de uma revista electrónica, inspirada nessa, intitulada "L'Afrique réelle. La lettre africaine de Bernard Lugan".
Por tudo isto, vale a pena visitar o blog oficial de Bernard Lugan. Para ler e ouvir quem sabe.