domingo, 12 de novembro de 2017

A sala de troféus de Abu Dhabi


Leio no “Público” que “o novo Louvre Abu Dhabi quer ser um museu da era global” e reconheço que o título quase dispensa a leitura da notícia. Mas, vamos a isto...

Ficamos a saber que “o novo museu dos Emiratos Árabes Unidos usa o nome, algumas obras e a experiência e competências técnicas do museu parisiense, mas não é uma sucursal do Louvre, é uma instituição dotada de plena autonomia, cujo percurso expositivo em boa medida rompe com as práticas dos grandes museus de arte ocidentais”. “Romper”? Não será um termo demasiado forte nesta era de entendimento global? Nem por isso, porque o que está em causa são as referências ocidentais. Senão, vejamos.

O museu usa “peças emprestadas não apenas por instituições francesas, mas também por vários museus do Médio Orientee este mix serve nem mais nem menos para proporuma história da arte global, que vai sistematicamente justapondo obras produzidas num mesmo período, mas em paragens geográficas e contextos culturais diferentes, mostrando aproximações e influências recíprocas raramente sublinhadas nas salas dos museus europeus”. Mais ainda, “o percurso expositivo organiza-se depois em doze capítulos ordenados cronologicamente. Mas uma cronologia que também não se revê necessariamente na periodologia ocidental”. Notem-se estas “inovações” (correcções?) em relação aos museus europeus. Está-se bem a ver o resultado, até porque a notícia conclui que “para os mais entusiastas, o Louvre Abu Dhabi poderá marcar o início de um novo conceito de museu, mais adequado à era global”.

E tudo isto tem, obviamente, o aval do presidente francês, Emmanuel Mácron, que, após uma visita, não poupou elogios a este “Louvre do deserto e da luz”, exemplo de como a beleza “pode combater os discursos do ódio”. A cassete (CD, mp3, ou lá o que seja agora) não mudou... A Europa vende-se como marca aos seus detractores pelos chantres da mundialização.

Mas, sob a capa de toda esta xenofilia, as verdadeiras razões para o Louvre se vender desta forma são as óbvias: o dinheiro. Ora vejamos as somas astronómicas, “o emirato pagará 525 milhões de dólares pelo direito a poder usar o nome do Louvre durante 30 anos e seis meses, desembolsando mais 747 milhões (num total de 1093 milhões de euros) pelo empréstimo, por dez anos, de 300 obras de arte de diversos museus franceses”. Ah, o deslumbre do capital global!...

Nem de propósito, à laia de (tragic) comic relief, em 2015, um relatório da Human Rights Watch denunciava que “muitos dos emigrantes que trabalhavam na obra eram sujeitos a condições próximas da escravatura, e arriscavam prisão sumária ou deportação se ousassem queixar-se”.

Ilusões à parte, como todos os museus, este continua a ser, no essencial, uma afirmação de poder: uma sala de troféus.

Sem comentários:

Enviar um comentário