quinta-feira, 16 de novembro de 2017

João Miguel Tavares e os websummitas


Há cerca de um mês, cruzei-me com o João Miguel Tavares num dos meus alfarrabistas de eleição. Decidi apresentar-me e dar-lhe os parabéns por um texto corajoso, “Sócrates não merece cair sozinho”. Ele agradeceu e eu voltei à carga, dizendo que o leio regularmente e que, se por vezes concordo com o que escreve, outras discordo totalmente. Ele sorriu e disse-me: “Ainda bem, é sinal que não sou previsível.”

Vem isto a propósito de outros textos dele, sobre a Web Summit, um encontro que tanto alarde tem provocado, e sobre o qual João Miguel Tavares disse “o rei vai nu”. Como sabemos, os crentes, pior do que não quererem ver, sentem-se ofendidos.

Vamos às citações. Primeiro, Tavares denuncia aquilo a que chama “Web Summoparolice”, dizendo que “aquilo que a Web Summit vende, além de bilhetes milionários, são sonhos de sucesso que só existem num mundo de fantasia, tendo em conta que a taxa de mortalidade das startups varia entre os 90 e os 99,9% (os especialistas dividem-se). A Web Summit é a Igreja Universal do Reino da Tecnologia, e Cosgrave o seu pastor, podendo dar-se ao luxo de só revelar o programa um mês antes de abrir portas, quando boa parte dos bilhetes está vendida: "As pessoas já não vêm pelos oradores”, diz ele. “Vêm porque está toda a gente no mesmo sítio ao mesmo tempo." Certo. Chama-se a isso uma feira.” Conclusão: “O sucesso não se transmite por osmose e o país continua igualzinho.” Acrescenta ainda um dado bem curioso, “o número de startups criadas em Portugal em 2017, após o enorme sucesso da primeira Web Summit, diminuiu”...

Como seria de esperar, os websummitas (i.e. os devotos de S. Cosgrave e da Tecnologia Toda-Poderosa) deram início a um auto-de-fé (internético, entenda-se) sem tréguas, mas João Miguel Tavares respondeu aos “mirones do empreendedorismo”, num texto em que há a salientar uma passagem que resume muito bem a febre doentia deste evento: “O verdadeiro parolo da Web Summit não é o empreendedor que ali vai apresentar uma ideia, nem o miúdo que vai à procura de um sonho, nem o investidor que vai à procura de um negócio, mas sim a catrefada absurda de portugueses que confundem trabalho com networking, que acham que ter ideias originais é copiar as ideias dos outros, que não distinguem informação de conhecimento. Eu conheço demasiada gente que está sempre a par da última tecnologia e da última trend, que tem sempre o mais recente modelo de iPhone, que sabe tudo o que se passa na Google e no Facebook, mas que depois é absolutamente incapaz de ter uma única ideia original, de construir um produto de jeito, de fazer algo para o qual possamos olhar e dizer: "sim senhor, isto está realmente bem feito, parabéns."

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A revista "Antiquité" chega a Portugal


Há dois anos, quando saiu o primeiro número da “Antiquité”, a auto-denominada “revista da Antiguidade europeia”, escrevi aqui que esperava que, à semelhança do que acontece com tantas publicações francesas do mesmo género, esta viesse a ser vendida em quiosque no nosso país. É caso para dizer que o meu desejo se concretizou, em parte...

Felizmente, para os apaixonados pela História da Antiguidade, o primeiro número especial da “Antiquité”, dedicado ao hoplita, “o primeiro guerreiro da História”, e que trata do período arcaico, dos micénicos às Termópilas, ao qual se seguirá um segundo volume, pode ser comprado directamente no nosso país, poupando-nos os excessivos gastos em portes de correio.

Esta é a boa notícia, a má é que, ao avaliar pela capa do n.º 9 da série regular, que não inclui o preço de venda para o nosso país, esta não será ainda vendida em Portugal. Será a distribuição em Portugal do número especial um teste de mercado? Se sim, espera-se que seja bem sucedido. Já fiz a minha parte.

domingo, 12 de novembro de 2017

A sala de troféus de Abu Dhabi


Leio no “Público” que “o novo Louvre Abu Dhabi quer ser um museu da era global” e reconheço que o título quase dispensa a leitura da notícia. Mas, vamos a isto...

Ficamos a saber que “o novo museu dos Emiratos Árabes Unidos usa o nome, algumas obras e a experiência e competências técnicas do museu parisiense, mas não é uma sucursal do Louvre, é uma instituição dotada de plena autonomia, cujo percurso expositivo em boa medida rompe com as práticas dos grandes museus de arte ocidentais”. “Romper”? Não será um termo demasiado forte nesta era de entendimento global? Nem por isso, porque o que está em causa são as referências ocidentais. Senão, vejamos.

O museu usa “peças emprestadas não apenas por instituições francesas, mas também por vários museus do Médio Orientee este mix serve nem mais nem menos para proporuma história da arte global, que vai sistematicamente justapondo obras produzidas num mesmo período, mas em paragens geográficas e contextos culturais diferentes, mostrando aproximações e influências recíprocas raramente sublinhadas nas salas dos museus europeus”. Mais ainda, “o percurso expositivo organiza-se depois em doze capítulos ordenados cronologicamente. Mas uma cronologia que também não se revê necessariamente na periodologia ocidental”. Notem-se estas “inovações” (correcções?) em relação aos museus europeus. Está-se bem a ver o resultado, até porque a notícia conclui que “para os mais entusiastas, o Louvre Abu Dhabi poderá marcar o início de um novo conceito de museu, mais adequado à era global”.

E tudo isto tem, obviamente, o aval do presidente francês, Emmanuel Mácron, que, após uma visita, não poupou elogios a este “Louvre do deserto e da luz”, exemplo de como a beleza “pode combater os discursos do ódio”. A cassete (CD, mp3, ou lá o que seja agora) não mudou... A Europa vende-se como marca aos seus detractores pelos chantres da mundialização.

Mas, sob a capa de toda esta xenofilia, as verdadeiras razões para o Louvre se vender desta forma são as óbvias: o dinheiro. Ora vejamos as somas astronómicas, “o emirato pagará 525 milhões de dólares pelo direito a poder usar o nome do Louvre durante 30 anos e seis meses, desembolsando mais 747 milhões (num total de 1093 milhões de euros) pelo empréstimo, por dez anos, de 300 obras de arte de diversos museus franceses”. Ah, o deslumbre do capital global!...

Nem de propósito, à laia de (tragic) comic relief, em 2015, um relatório da Human Rights Watch denunciava que “muitos dos emigrantes que trabalhavam na obra eram sujeitos a condições próximas da escravatura, e arriscavam prisão sumária ou deportação se ousassem queixar-se”.

Ilusões à parte, como todos os museus, este continua a ser, no essencial, uma afirmação de poder: uma sala de troféus.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O cão de Deus


Chegou finalmente "Le Chien de Dieu", um álbum de banda desenhada com argumento de Jean Dufaux e arte de Jacques Terpant, autor que muito aprecio e ao qual dediquei um texto sobre a sua trilogia dos "Sete Cavaleiros", baseada no romance homónimo do grande escritor francês Jean Raspail.

Desta vez, Terpant desenha magistralmente o génio das letras francesas, tornado escritor "maldito", Louis-Ferdinand Céline, a quem Drieu La Rochelle chamou "cão de Deus". O argumento, uma ficção dos últimos dias da vida do escritor que se apoia na obra de Céline para revisitar os momentos marcantes do passado, é fluído e bem construído.

Fiz a pré-encomenda mal foi possível e li-o atenta e sofregamente, para o fotografar acompanhado dos livros do retratado.

Uma excelente obra, cuja leitura é obrigatória!